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Prêmio Nobel da Paz (1991 x 2025) – o fosso!

Agora, o prêmio só fortalece as posições belicistas dos Estados Unidos e a extrema direita no Continente. Paz? Que paz?

“The Lady” (Além da Liberdade: Um filme sobre a Birmânia) nos dá o caminho para poder mostrar o fosse entre a conquista do Prêmio Nobel da Paz em 1991 por Aung San Suu Kyl e o de 2025, por Maria Corina Machado.

Até os dias atuais, Aug San Suu Kyl luta na Birmânia (Mianmar) contra os militares assassinos que comandam o país desde o assassinato de seu pai. Ela passou 20 anos em prisão domiciliar, lutando por seus meios. Neste interim, morreu seu marido na Inglaterra, proibido de entrar no país para se juntar à sua esposa.

Já em 2025, o Nobel foi para a ativista da extrema direita, Maria Corina Machado, que não quer “libertar” o seu país, a Venezuela, do governo de Maduro, mas entregar o país e sua riqueza para os Estados Unidos, que com sua premiação já bombardeou embarcações daquele país, ameaçando agora invadir não só a Venezuela, mas a Colômbia também.

Em 1991, a premiação a Aug San Suu Kyl foi recebida pelo marido e os dois filhos, pois, se saísse do país, não conseguiria voltar. Ela voltara a sua terra natal para acompanhar a morte da mãe, tida como símbolo em lembrança ao pai assassinado pelos militares que estão no poder, permanece no país, liderando a oposição.

Agora, o prêmio só fortalece as posições belicistas dos Estados Unidos e a extrema direita no Continente. Paz? Que paz?

A primeira, vivia à luz no meio das lutas pela democracia.  Presa, continuou lutando de forma pacífica para evitar mortes e reiteradas ações genocidas; a outra, escondida em algum lugar do país, como leio na mídia, abre caminhos aos ianques.

De fato, os tempos são outros. Tempos sombrios até no Prêmio Nobel.

Autor: Adeli Sell, professor, escritor e bacharel em Direito. Também escreveu e publicou no site “60 anos de golpe e eles não mudam”: www.neipies.com/60-anos-do-golpe-e-eles-nao-mudam/

Crédito foto capa: Wikimedia Commons

Edição: A. R.

Do Cristo Genérico e do Cristo Autêntico

Certifique-se de que esteja seguindo o Autêntico.

O Cristo Genérico vocifera contra os pecadores e impõe uma pauta moralista, sem misericórdia.

O Jesus Autêntico denuncia a hipocrisia dos “santos” e acolhe os que foram rejeitados.

Cristo Genérico: combate a violência com mais violência.

Jesus Autêntico: responde com Amor acima de tudo.

Cristo Genérico: em nome de um nacionalismo cego, distribui armas.

Jesus Autêntico: em nome da vida, reparte o pão.

Cristo Genérico: busca seus próprios interesses.

Jesus Autêntico: prioriza o Reino e a Sua justiça.

Cristo Genérico: defende a justiça retributiva.

Jesus Autêntico: pratica a justiça distributiva.

Cristo Genérico: multiplica para concentrar.

Jesus Autêntico: compartilha para espalhar.

O Cristo Genérico está nas prateleiras dos mercados da fé.

O Jesus Autêntico se revela no rosto do semelhante, especialmente no marginalizado e no faminto.

O Cristo Genérico é aliado dos poderosos.

O Jesus Autêntico se solidariza com os oprimidos.

O Cristo Genérico habita as catedrais.

O Jesus Autêntico caminha sob marquises, nos becos e favelas.

O Cristo Genérico quer ser bajulado.

O Jesus Autêntico é honrado quando vivemos o que Ele ensinou.

O Cristo Genérico se contenta com mãos erguidas ao céu.

O Jesus Autêntico procura mãos estendidas ao próximo.

Um é movido pelo marketing e pela imagem.

O Outro se importa apenas com o que é certo.

Um ama os holofotes.

O Outro prefere os bastidores.

Um aponta o dedo.

O Outro estende o braço.

Um quer ser defendido.

O Outro defende os oprimidos.

Um é exaltado pelos que querem ser cabeça.

O Outro é amado pelos que preferem servir.

Um defende a tortura e ameaça com o inferno.

O Outro luta pela vida e pela dignidade humana.

Um promete voltar como leão vingador.

O Outro é o mesmo ontem, hoje e sempre: cordeiro diante dos ataques a si mesmo, leão quando defende os injustiçados.

Um condena LGBTs.

O Outro os acolhe e os faz família unida pelo amor, pela compaixão e pelo perdão.

Um exige quem o defenda.

O Outro escolheu ser amado no próximo.

Certifique-se de que esteja seguindo o Autêntico.

Autor: Hermes C. Fernandes. Também escreveu e publicou no site “Jesus não combina com preconceito”: www.neipies.com/esus-jesus-nao-combina-com-preconceito/

Edição: A. R.

Sentir e pensar no agir educativo

Acreditar na democracia é reconhecer o valor da contradição, da divergência e das diferenças. É admitir o potencial educativo e transformador dos conflitos, o valor do dissenso e da mobilização social. É reacender a dimensão político-pedagógica da cidadania e o compromisso com a justiça social.

Sentir e pensar o processo educativo é como contemplar o mistério da semente. A semente nunca viu a flor, e a flor nunca viu a semente — assim como o fruto não conheceu nem a flor nem a semente. No entanto, todas essas fases se pertencem. A verdade da semente é a árvore: se a semente não se torna árvore, não cumpre sua vocação. E a missão da árvore é produzir frutos, condição para novas sementes, para futuras florestas.

Trazendo essa metáfora à realidade humana, é preciso compreender que o ser humano só cresce por meio de um esvaziamento plenificador. A semente que não morre não germina; não floresce nem se realiza como árvore.

É necessário aceitar a beleza da serenidade nos ciclos de nascer, amadurecer e morrer. O presente precisa tornar-se o articulador entre o passado que repara e o futuro que anima. Aqui o tema é subjetividade e memória. Como gestar um processo pedagógico que, inspirado na metáfora da semente, valorize a originalidade na produção literária e a autoria no ato de educar? Como educar sem sufocar a singularidade de quem aprende, e sem mecanizar a ação de quem ensina?

Os algoritmos, por sua vez, não correm o risco de serem apenas a morte da semente? O fim da escuta, o engessamento da criação, o emperramento do processo pedagógico?

A espiritualidade e a naturalidade não são dimensões opostas: ambas pertencem ao processo de formação humana.

A rigidez das verdades universais perdeu terreno. Vivemos o tempo das mentiras plurais, da pós-verdade — onde a mentira se afirma com autoridade e se veste de opinião.

Mente-se todos os dias. Mentir virou uma façanha da razão ardilosa. O imperativo categórico está em desuso. Vivemos o fingimento cotidiano, o simulacro como norma.

Mas ainda faz sentido falar em educação? Como afirmar a verdade quando a mentira impera, inclusive no plano epistêmico-pedagógico? Optar por uma sociedade democrática é crer que o poder deve emergir do povo, e que as decisões políticas devem atender ao bem comum. É garantir o direito de todos à moradia, à saúde, ao trabalho, à educação, ao lazer, ao transporte — enfim, à dignidade.

Acreditar na democracia é reconhecer o valor da contradição, da divergência e das diferenças. É admitir o potencial educativo e transformador dos conflitos, o valor do dissenso e da mobilização social. É reacender a dimensão político-pedagógica da cidadania e o compromisso com a justiça social.

A educação, nesse contexto, não é neutra. Educar é um ato de resistência. Em tempos de “pós-tudo”, educar para a verdade é semear em solo árido — mas ainda é plantar. E quem planta, ainda crê na possibilidade da colheita.

Semear é preciso!

Autor: José André da Costa. MSF. Prof. das Faculdades INTEGRA. Também escreveu e publicou no site “A dimensão política da educação”: www.neipies.com/a-dimensao-politica-da-educacao/

Edição: A. R

Fim do vale-livro para os estudantes?

Nos últimos dois anos, testemunhei o brilho nos olhos dos alunos ao comprarem seus livros, tanto na Feira do Livro quanto nas visitas de livreiros à escola. Mais do que isso: ajudei a organizar, com dedicação e fé no projeto, a aquisição de boas obras pelos estudantes.

Dia 15 de outubro foi o Dia do Professor, mas não encontrei motivos para comemorar. Fui surpreendido ontem por uma notícia de arrepiar os cabelos — se eu não fosse careca. Piadas à parte, a verdade é que aproximadamente 5 mil alunos dos Anos Finais (6° ao 9° ano) do Ensino Fundamental não terão direito ao vale-livro este ano.

Quem acompanha meu trabalho, seja na internet ou nos espaços culturais da cidade, conhece meu engajamento com a escrita e a leitura. Como professor, escritor, membro da Sociedade dos Poetas Vivos (SPV) e da Academia Passo-Fundense de Letras – APLetras, é impossível não me sentir atingido.

Contudo, é como educador que a questão mais me dói.

Nos últimos dois anos, testemunhei o brilho nos olhos dos alunos ao comprarem seus livros, tanto na Feira do Livro quanto nas visitas de livreiros à escola. Mais do que isso: ajudei a organizar, com dedicação e fé no projeto, a aquisição de boas obras pelos estudantes.

Defendi o projeto Bora Lê inúmeras vezes, rebati críticas e salientei sua importância como política pública de fomento à leitura. E agora, isso…

Quando os alunos do 1º ao 5º ano receberem seus vales e estiverem escolhendo suas leituras, como direi aos outros, do 6º ao 9º ano:

— Vocês, não. Vocês, talvez, ano que vem…

A justificativa, segundo boatos, é reservar o vale-livro dos Anos Finais para a Jornada Nacional de Literatura. Isso faz algum sentido para você? Para mim, nenhum.

Autor: Aleixo da Rosa.Autor do texto “O curioso caso dos alunos que preferiram livros”: www.neipies.com/o-curioso-caso-dos-alunos-que-preferiram-os-livros/

Edição: A. R.

Razões e desafios para não desistir da docência

Convido a todos e todas os(as) leitores(as) deste prestigiado site do amigo Nei Alberto Pies para que conheçam e leiam a obra para entender as razões e os desafios PARA NÃO DESISTIR DA DOCÊNCIA.

Para não desistir da Docência é o título de uma linda coletânea, lançada no último da 15 de outubro, dia do professor, por iniciativa de meu grande amigo Celso Vasconcellos. É a terceira coletânea da UniProsa, “a Universidade que versa e prosa. A prosa que humaniza e dá sentido ao viver, numa sociedade complexa e contraditória. Uma entidade educacional Comunitária e Informal. Integrada por muitos educadores que amam o que fazem: Educar. E se educam com o que amam: a Educação Humanizadora e Emancipatória. São educadores de diferentes gerações diferentes culturas, diferentes saberes e diferentes experiência e vivências nos Territórios Educacionais” (http://uniprosa.com.br/pagina-exemplo/).

Fui convidado pelo amigo Celso Vasconcellos para fazer parte da UniProsa, no ano passado (2024) e me sinto muito honrado e feliz de fazer parte deste maravilhoso coletivo que me encanta e entusiasma todos os dias.

Fazem parte deste maravilhoso grupo, professores e pesquisadores que admiro de longa data. Não vou poder colocar aqui a lista completa, mas apenas para citar alguns começando por Vasconcellos, Terezinha Rios, Jaqueline Moll, José Carlos Libâneo, José Pacheco, Bernad Charlot, Pedro Demo, Maria de Lourdes Rangel Tura, Valdo Cavallet, Susan Cavallet, Maria Amália Santoro Franco, Leonardo Palhares dentre muitos outros.

Desde o momento que passei a fazer parte da UniProsa passei a trocar mensagens com frequência com Vasconcellos e em novembro tive a oportunidade de assistir presencialmente uma conferência no Evento do Endipe em João Pessoa/PB. No dia 2 de julho deste ano recebi a seguinte mensagem:

Estou escrevendo um texto (“Para Não Desistir da Docência”), dirigido diretamente aos professores, neste momento tão delicado.

Pensei que poderia se tornar uma obra coletiva, com textos e cartas pedagógicas, e ser nosso 3o livro da UniProsa.

Que sentipensa?

Toparia participar?

Abraços, na luta!

(Celso Vasconcellos)

Aceitei imediatamente e convidei Junior Bufon Centenaro, meu ex-orientando de mestrado e doutorado e hoje integrante da equipe de coordenação do Gepes, para escrevermos juntos o texto Quando o estudo dialógico da pesquisa fortalece a docência: da curiosidade ingênua à curiosidade epistemológica publicado na coletânea entre as páginas 65-74 (Fávero e Centenaro, 2025). Algumas semanas depois veio o convite ainda mais especial: a honra de organizar junto com Vasconcellos e Eliane Pinheiro Fernandes a terceira coletânea.

A grandeza e generosidade de Celso Vasconcellos dispensa apresentações. Conheço e admiro os escritos deste meu grande amigo desde os anos 1990 quando me tornei professor. Para quem não conhece, Celso Vasconcellos é Doutor em Educação pela USP, Mestre em História e Filosofia da Educação pela PUC/SP, Pedagogo, Filósofo, pesquisador, escritor, conferencista, professor convidado de cursos de graduação e pós-graduação. Foi Professor (Educação Fundamental, Ensino Médio, Ensino Superior, Pós-Graduação), Orientador Educacional, Coordenador Pedagógico e Diretor de Escola. É consultor de secretarias de educação, responsável pelo Libertad – Centro de Pesquisa, Formação e Assessoria Pedagógica.

Me lembro que em 1994, li seus primeiros livros, gentilmente emprestados por Elena Bini, na época diretora da Escola Notre Dame Menino Jesus, onde trabalhei como professor de filosofia e história, coordenei a Pastoral da Escola e o projeto Filosofia com Crianças e também fiz parte da equipe de direção. As leituras dos livros de Vasconcellos foram fundamentais para entender os desafios e os cenários do contextos escolar: A construção do conhecimento em sala de Aula, Disciplina: construção da disciplina consciente e interativa em sala de aula, Avaliação, Planejamento, Indisciplina e disciplina escolar, Coordenação do trabalho pedagógico dentre outros, se tornaram referências para nossos estudos.

Me recordo que o primeiro artigo que publiquei em 1996 na Revista Philos, intitulado “O problema da (in)disciplina na prática pedagógica em sala de aula: a comunidade de investigação como tentativa de superação” (Fávero, 1996), teve a obra de Vasconcellos (1994) como referência e inspiração.

A generosidade de Vasconcellos é tão grande que no último dia 8 de outubro, realizou a conferência de abertura intitulada Amor Crítico na Educação Escolar e suas repercussões para a Docência, no V Curso de Extensão Gepes/PPGEdu. Não poderia ser uma fala mais apropriada expressar a intencionalidade deste curso do qual participam mestrandos, doutorandos, gestores, professores da educação básica e da educação superior, dentre outros. São quase 100 participantes de diversas partes do Brasil, residentes em mais de 50 municípios e 14 estados da Federação. Para os que quiserem assistir a conferência na íntegra de Celso Vasconcellos, segue o link de acesso:

Durante a organização da coletânea também tive a alegria de trabalhar com Eliane Pinheiro Fernandes. Para quem não conhece, Eliane faz questão de dizer em seu currículo que foi Aluna da escola pública desde a educação infantil. É Professora de ensino fundamental por 21 anos na SME-SP e atualmente Coordenadora Pedagógica. Mestre em Educação: Psicologia da Educação (PUC-SP); doutora em Educação: Psicologia da Educação (PUC-SP); pesquisa Violência na escola e desenvolvimento da moralidade na perspectiva da Psicologia Sócio- histórica. Membro do grupo de pesquisa CNPq Atividade Docente e Subjetividade (GADS, PUC-SP). Posso dizer que nestes dois meses de muito trabalho me diverti e aprendi muito com Celso e Eliane. Estimo que em breve teremos outros projetos para continuar esta afetuosa e produtiva parceria.

A coletânea Para não desistir da Docência, além de ser composta de textos maravilhosos, nos ganha nas primeiras páginas com uma profunda e simbólica epígrafe do saudoso Danilo Gandin (homenageado em um dos capítulos da coletânea): “Não somos pescadores domingueiros, esperando o peixe. Somos agricultores, esperando a colheita, porque a queremos muito, porque conhecemos as sementes, a terra, os ventos e a chuva, porque avaliamos as circunstâncias e porque trabalhamos seriamente (p.6). E logo na sequência “Uma homenagem por Escrito à Todas as Professoras e à Todos os Professores que Não Desistem da Docência”.

No final da apresentação, Fávero, Vasconcellos e Fernandes (2025, p.9-10) assim se expressam:

É preciso dizer que não há perspectiva de futuro sem educação. Não fazemos coro às perspectivas ingênuas que veem na educação a tábua de salvação para os problemas sociais, políticos e econômicos geradores da pobreza e das desigualdades sociais, de classe, raça e gênero. Tais problemas estruturais e constituídos de determinações múltiplas, não podem ser superados pela escola isoladamente. Porém, como bem afirmou Paulo Freire (2000), sem a educação a sociedade também não muda. Se há desistência da docência, toda a sociedade e sua humanização, podem estar à mercê da barbárie.

É com esse espírito que convidamos você à leitura de Para Não Desistir da Docência. A partir de visões diversas, expressas por textos de diferentes gêneros (carta, poema, artigo, ensaio, relato de prática, ilustração, conto, fotografia), por autoras e autores de diferentes regiões do país (e até de Portugal e França), com diferentes formações (Pedagogia, Psicologia, Psicopedagogia, Psicanálise, Sociologia, Geografia, História, Filosofia, Engenharia, Arquitetura, Biologia, Letras, Artes Plásticas, Educação Física, Música, Matemática etc.), que atuam como Professores, Tutores, Orientadores Educacionais, Coordenadores Pedagógicos, Diretores, Consultores, Conferencistas, em Educação Formal e Não-Formal, da Educação Infantil à Pós-Graduação, Educação de Jovens e Adultos, Educação Tecnológica, Educação Indígena, Educação Integral, em instituições municipais, estaduais, federais ou privadas, Movimentos Sociais, Organizações da Sociedade Civil etc. (ver Apresentação dos Autores, no final do livro), nosso desejo é que essa leitura te inspire, provoque, e nos aproxime na luta por Uma Outra Educação e Um Outro Mundo possíveis!

Convido a todos e todas os(as) leitores(as) deste prestigiado site do amigo Nei Alberto Pies para que conheçam e leiam a obra para entender as razões e os desafios PARA NÃO DESISTIR DA DOCÊNCIA. Gentilmente, a UniProsa nos deu de presente esta preciosa obra que pode ser acessada diretamente no site: http://uniprosa.com.br/ebooks/

Ou no seguinte link:

https://www.researchgate.net/publication/396508955_PARA_NAO_DESISTIR_DA_DOCENCIA

Referências:

FÁVERO, Altair Alberto; VASCONCELLOS, Celso; FERNANDES, Eliane Pinheiro (orgs.). Para não desistir da Docência. São Paulo: Ed. dos Autores, 2025

FÁVERO, Altair Alberto. O problema da (in)disciplina na prática pedagógica em sala de aula: a comunidade de investigação como tentativa de superação. Revista Philos, Florianópolis, ano 2, n.5, p.32-35, 1996.

FÁVERO, Altair Alberto; CENTENARO, Junior Bufon. Quando o estudo dialógico da pesquisa fortalece a docência: da curiosidade ingênua à curiosidade epistemológica. In: FÁVERO, Altair Alberto; VASCONCELLOS, Celso; FERNANDES, Eliane Pinheiro (orgs.). Para não desistir da Docência. São Paulo: Ed. dos Autores, 2025, p. 65-74.

VASCONCELLOS, Celso. Disciplina: construção da disciplina consciente e interativa em sala de aula. São Paulo: Libertad, 1994.

Autor: Altair Alberto Fávero – altairfavero@gmail.com Pesquisador e Professor do Gepes/PPGedu/UPF. Também escreveu e publicou no site “A trajetória dos 15 anos do GEPES- UPF”: www.neipies.com/a-trajetoria-de-15-anos-do-gepes/

Fotos: Arquivo pessoal/divulgação

Edição: A. R

Gostaria de dizer algo a um professor ou professora? Ele ou ela gostariam de lhe ouvir!

São muito importantes, para professores e professoras, declarações ou mensagens que enalteçam a sua função educadora. Os professoras e professores vivem um momento de pouca valorização na sociedade, o que também lhes causa desânimo, adoecimento e sofrimento. Que tal escrever algo importante para um professor ou professora que marcaram sua vida?

Todos nós carregamos memórias afetivas ou aprendizagens significativas por conta de um professor ou de uma professora que cruzaram a vida da gente.

Os professores e professoras, por sua vez, nem sempre tem a noção de que suas atitudes, ensinamentos, posturas ou mesmo olhares significam ou significaram para as crianças, adolescentes ou jovens em formação, durante o período de vida escolar.

Tanto os professores, quanto os estudantes, precisam de reconhecimento de seu papel no processo de ensino-aprendizagem, pois ambos são sujeitos aprendentes. Ao realizarem trocas de conhecimentos ou sabedoria, estão desempenhando um importante papel na formação humana e integral.

São muito importantes, para professores e professoras, declarações ou mensagens que enalteçam a sua função educadora. Os professoras e professores vivem um momento de pouca valorização na sociedade, o que também lhes causa desânimo, adoecimento e sofrimento.

Caro leitor ou leitora!

Gostaríamos de propor que escreva um pequeno texto a um professor ou professora que já marcou positivamente a sua vida estudantil. Pode ser breve, mas que fale de coração, em forma de agradecimento ou reconhecimento a alguma atitude, ensinamento ou olhar que seu professor ou professora tiveram na sua vida pessoal e estudantil.

Escreva este texto e publique no final desta publicação, na Seção DEIXE UMA RESPOSTA. Depois, compartilhe este texto com seu professor ou professora; marque ele ou ela em sua rede social para que acesse ao seu comentário ou mensagem.

Agradecido,

Nei Alberto Pies, professor, escritor e editor do site.

Escolas são espaços para a gente ser feliz!

“À medida que formos mais livres, que abrangermos em nosso coração e em nossa inteligência mais coisas, que ganharmos critérios mais finos de compreensão, nessa medida nos sentiremos maiores e mais felizes”. (Anísio Teixeira, 1934)

Sempre é urgente e necessário perguntar o que é uma boa escola, uma escola com qualidade social. Responder o que é uma boa escola nos desafia a pensar as escolas que fazemos, cotidianamente, para torná-las cada dia melhores. Da mesma forma, precisamos responder o que é uma vida boa. Vida e escola se entrecruzam, cumprindo finalidades distintas e complementares na vida das pessoas.

Escola sempre é passagem, certo tempo onde nela convivemos, brincamos, aprendemos e nos desafiamos à construção do nosso próprio conhecimento.Vida e conhecimento são desafios permanentes; nunca prontos, para a maioria.

Vida, por sua vez, é permanência, é tempo de aprendizagem e acúmulo de experiências e de conhecimento. Na vida também se faz escola que denominamos “escola da vida”.

Paulo Freire concebeu escola como “lugar onde se faz amigos, onde não se trata só de prédios, salas, quartos, programas, horários, conceitos”. Para ele, escola é gente que estuda, que trabalha, que se alegra, que se conhece e que se estima, onde todos são gente. No seu ideal de escola, “nada de ser como um tijolo que forma a parede indiferente, frio, só”. Nela há espaços para criar laços de amizade e ambiente de camaradagem. Conclui dizendo que nesta escola, vai ser fácil se amarrar, estudar, crescer, fazer amigos, educar-se, ser feliz.

Freire priorizou a relação entre os sujeitos o aspecto mais relevante para os processos de ensino-aprendizagem, concluindo que “ninguém educa ninguém. Ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”.

Rubem Alves, escritor das metáforas, distingue escolas que são gaiolas e escolas que são asas. Insiste na ideia de que não deveríamos nos preocupar em formatar ninguém na escola, mas oportunizar a cada criança, adolescente, jovem ou adulto as suas possibilidades de ser melhor, a partir do conhecimento de si mesmo, dos outros, da natureza e do mundo. “Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do voo. Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o voo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O voo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado”.

Acredito e luto para que nossas escolas sejam espaços de humanização. Humanizar-se é tornar-se melhor ser humano, a partir do conhecimento.

As escolas deveriam cuidar, substancialmente, de duas dimensões inerentes ao ser humano e à própria escola: a integração e socialização das pessoas e a construção de conhecimentos. Se estas dimensões não estiverem bem organizadas nas escolas, elas esvaziam seu sentido e diminuem sua importância.

A escola nunca deveria se distanciar da vida concreta das pessoas, pois esta deve e pode ser aperfeiçoada através do conhecimento. Acredito que as finalidades da escola deveriam sempre convergir.

Assista também: https://youtu.be/Il_XyDpcsgY?t=29

Anísio Teixeira, no ano de 1934, ao discutir as finalidades da vida e da educação inicia dizendo que “a única finalidade da vida é mais vida. Se me perguntarem o que é essa vida, eu lhes direi que é mais liberdade e mais felicidade. São vagos os termos, mas, nem por isso eles deixam de ter sentido para cada um de nós”. Conclui dizendo: “a finalidade da educação se confunde com a finalidade da vida”.

Autor: Nei Alberto Pies. Também escreveu e publicou no site “Nunca somos, sempre estamos sendo professores e professoras”: www.neipies.com/nunca-somos-sempre-estamos-sendo-professores-e-professoras/

Entre o Caos e a Calma: Monja Coen inspira público em palestra sobre equilíbrio emocional

Reflexão e conexão, mais do que uma palestra, o encontro foi uma oportunidade de conexão profunda sobre presença e equilíbrio. Ao final, muitos participantes relataram sentimentos de paz e inspiração para aplicar os ensinamentos em suas rotinas.

(Por Maria Eugênia Bortolon / Comunicação e Marketing Unimed)

No último dia 7 de outubro, o auditório da Universidade de Passo Fundo (UPF) foi palco de uma noite memorável de reflexão e espiritualidade. Com o tema “Entre o Caos e a Calma: Como Cultivar o Equilíbrio”, a renomada Monja Coen reuniu cerca de 390 pessoas em uma palestra que tocou profundamente os corações e mentes dos presentes.

Sabedoria em tempos turbulentos, durante sua fala, Monja Coen abordou os desafios contemporâneos que afetam o bem-estar emocional e espiritual das pessoas. Com sua habitual clareza e compaixão, ela compartilhou ensinamentos do Zen Budismo, destacando práticas simples e eficazes para cultivar o equilíbrio em meio às turbulências da vida cotidiana. “O caos é parte da existência, mas a calma é uma escolha que podemos aprender a fazer”, afirmou.

Apoio à transformação, o evento contou com o apoio de instituições comprometidas com a saúde e o desenvolvimento humano: Unimed Planalto Médio, Academia Passo-Fundense de Medicina e Sescoop. A parceria dessas entidades reforçou a importância de iniciativas que promovem o bem-estar integral da comunidade.

Reflexão e conexão, mais do que uma palestra, o encontro foi uma oportunidade de conexão profunda sobre presença e equilíbrio. Ao final, muitos participantes relataram sentimentos de paz e inspiração para aplicar os ensinamentos em suas rotinas.

A noite com Monja Coen foi um lembrete poderoso de que, mesmo em meio ao caos, é possível encontrar a calma — e que o equilíbrio começa dentro de cada um de nós.

Por Maria Eugênia Bortolon / Comunicação e Marketing Unimed

Breve depoimento sobre a palestra

Participei da palestra por motivações pessoais e por convite à Academia Passo-Fundense de Letras, na qual participo como membro efetivo desde o ano de 2023.

Acompanho as atividades e falas de Monja Coen pelas redes sociais, mas ouví-la pessoalmente foi muito importante e muito significativo para mim. Sua fala, direcionada aos médicos e médicas, aqueles que cuidam da vida, também serviram muito a mim que trabalho as dimensões espirituais e religiosas nas aulas de Ensino Religioso de escolas da rede municipal de Passo Fundo.

Monja Coen ofereceu aos participantes sabedoria e conhecimentos práticos e vivenciados a partir de sua espiritualidade zen-budista. Invocou a necessidade de um atendimento humanizado e focado nos pacientes e nas relações pessoais/profissionais que se estabelecem em consultórios médicos.

Apresentou o antídoto do equilíbrio como elemento de realização pessoal e profissional de cada um de nós. Esbanjou filosofia, reflexão e valores éticos como referências para uma vida boa, uma vida de felicidade.

Soube, como poucos, falar com profissionais da saúde na perspectiva da humanização e das relações sociais baseadas no equilíbrio e nas habilidades socioemocionais tão necessárias neste momento histórico em que vivemos.

Obrigado pela oportunidade!

Nei Alberto Pies, editor do site.

Edição: A. R.

Capitu e Diadorim: duas mulheres andando pelas veredas

Revela-se oportuna a volta da Secretaria da Mulher no Estado do Rio Grande do Sul. Afinal, por meio de uma estrutura própria, a articulação e o fortalecimento de ações voltadas à proteção, à promoção e à autonomia das mulheres poderão tornar-se mais efetivas. Salve Diadorim, Capitu, Macabea, Ana Terra! Salve todas as circulantes das veredas perigosas de nossa sociedade! Que vossa luta não seja vã!

Esta publicação é escrita a duas mãos, pelos Convidados Eládio Vilmar Weschenfelder e Roseméri Lorenz.

(Por Eládio Vilmar Weschenfelder)

“Quando mergulhei pela primeira vez no romance Grande Sertão: Veredas, (1946), de João Guimarães Rosa, talvez pela imaturidade, pela extensão, ou pela forma de sua narração, prometi me banhar outras vezes nas mesmas águas literárias.  Resultado: a compreensão de seus múltiplos sentidos, magicamente, ampliou-se para maior e melhor, pois procurei andar por novas veredas, seguindo o rio em suas variadas faces.

Senti-me estimulado a reler e treler o referido romance rosiano em tempos diferenciados, em exatos intervalos de dez anos. Nesse hiato, um estudioso machadiano confessou, em sala de aula, que, no Brasil, há três grandes escritores, os quais deveriam ter recebido o Prêmio Nobel de Literatura: Machado de Assis, João Guimarães Rosa e Rubem Braga.  Passado um mês, retificou o parecer, revelando que dois deveriam ser os grandes ícones literários: Machado de Assis e João Guimarães Rosa.

Em Machado, textos como Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas e contos como O Alienista, Pai Contra Mãe, O Espelho, Na Arca, O Sermão do Diabo, dentre outros tantos, impressionam pelo mais alto grau parodístico com outros clássicos da literatura ocidental. Por sua vez, as leituras das obras de Rosa, como Sagarana, Corpo de Baile, Primeiras Estórias, Manuelzão e Miguelim e, em especial, Grande Sertão: Veredas, fascinam pelos neologismos, pela construção dos personagens e pela forma inusitada das narrativas.

No entanto, para a surpresa da turma, ao término da disciplina, tal estudioso concluiu que, no Brasil, dentre tantos poetas, contistas, cronistas e romancistas há, na verdade, apenas um grande escritor canônico: João Guimarães Rosa. A afirmação tornava-se ainda mais espantosa, considerando que a referida disciplina intitulava-se “A Ficção de Machado de Assis”.

Ainda espantado e balançando entre a qualidade das obras machadianas e roseanas, mergulhei de vez no Grande Sertão: Veredas, percorrendo o espaço interiorano de Minas Gerais, Goiás e o Sul da Bahia, tendo como grande guia o Rio São Francisco. Fui descobrindo que a obra é um dilúvio de antíteses e metáforas, que explora o antagonismo entre o bem e o mal, o Deus e o Demônio, a violência belicosa, fruto das intrigas de interesse político e econômico, onde a justiça era feita com as próprias mãos. Vida para uns, morte para outros.   

Havendo poucos interlocutores, o recurso predominante utilizado por Rosa é o monólogo. Uma espécie de “diálogo reflexivo”, onde os neologismos são significativos nessa luta com as palavras. Poliglota e estudioso dos regionalismos, Rosa lutou com as palavras, mesmo sabendo que, no sertão, o instrumento de luta eram as balas voadoras, cuspidas a partir das carabinas explosivas. Não foi uma luta vã, pois as palavras renovadas ainda estão vivas e contundentes. 

A grande questão da obra situa-se entre os jagunços Riobaldo e Diadorim. Ele decisivamente um homem; Diadorim, em meio à guerra, finge ser um guerreiro, mas é Maria Diadorina. Entretanto, isso não fica evidenciado, pois ela se disfarça de homem para lutar, lado a lado, como homem e contra os homens. Uma figura complexa que dissimula a identidade, uma mistura de gêneros, em um universo muito dúbio do ponto de vista da sexualidade, do bem e do mal.

Foi aí que, visitado pela “Eureca”, me dei conta de que toda essa dualidade de Diadorim também já fora manifesta, em Maria Capitolina, a enigmática Capitu, da obra Dom Casmurro, de Machado de Assis. Capitu, uma mulher à frente de seu tempo, empoderada e dominadora dos homens; e Diadorim, a dama andrógina, a quem Riobaldo idolatra (capaz de persuadi-lo, até mesmo, a pactuar com o diabo), mas que por ela foi preterido em prol da ocultação de sua identidade feminina. Lado a lado, aí estão duas mulheres, cada uma no seu devido tempo e espaço, unindo e separando dois mundos: o mundo afetivo e o mundo do sertão. Mas ambas andando pelas veredas.

O próprio Guimarães Rosa[1], em relação à etimologia do termo veredas, numa carta ao tradutor alemão Curt Meyer-Classon, afirmou:

Mas, por entre as chapadas, separando-as (ou, às vezes, mesmo, no alto, em depressões no meio das chapadas), há as veredas. São vales de chão argiloso ou turfo-argiloso, onde aflora a água absorvida. Nas veredas, há sempre o buriti. De longe, a gente avista os buritis, e já sabe: lá se encontra água.  A vereda é um oásis. Em relação às chapadas, elas são, as veredas, de belo verde-claro, aprazível, macio. O capim é verdinho-claro, bom.  As veredas são férteis. Cheias de animais, de pássaros.  As encostas que descem das chapadas para as veredas, são em geral muito úmidas, pedregosas (de pedrinhas pequenas no molhado chão claro), porejando aguinhas: chamam-se resfriados. O resfriado tem só uma grama rasteira, é nítida a mudança de aspecto da chapada para o resfriado e do resfriado para a vereda. Em geral, as estradas, na região, preferem ou precisam ir, por motivos óbvios, contornando as chapadas, pelos resfriados, de vereda a vereda. 

Assim são as veredas: belas, mas também perigosas.  De fato, como bem o disse Riobaldo: “Viver é muito perigoso…” Especialmente para as mulheres, por séculos, obrigadas a andar pelas margens da sociedade, relegadas, invisibilizadas. De um lado, Maria Capitulina, infiel ou não?! De outro, Maria Diadorina, homem ou mulher?! Capitu, julgada adúltera, sem provas concretas, a partir do mero depoimento do marido (ao qual, grande parte dos leitores dá crédito). Diadorim, não obstante os preconceitos machistas daquela época, fez de sua aparência andrógina um meio de viabilizar sua luta.

Na véspera dos 70 anos da publicação do Grande Sertão: Veredas (1956), as histórias de Diadorim e de Capitu podem constituir um bom pretexto à reflexão sobre a situação das mulheres na atual conjuntura, situação esta também marcada pela dualidade entre avanços significativos, como o aumento da participação feminina no mercado de trabalho, o acesso à educação, a participação política e uma maior liberdade, e desafios persistentes, como a desigualdade salarial, a dificuldade de ascensão a cargos de liderança, a sub-representação política, as diversas pressões sociais (como a multifuncionalidade e o padrão estético), e, principalmente, a violência de gênero. No que se refere a esta, aliás, cabe ressaltar o aumento dos bárbaros crimes contra as mulheres, posto que os feminicídios, no Brasil, são de quatro por dia, chamando a atenção o fato de que grande parte delas é atacada no rosto, exatamente a face, que revela sua identidade, reverberando seriamente sobre sua autoestima e suas relações sociais.

Tal situação só evidencia que a busca pela equidade de gênero deve ser uma luta de todos. Se queremos um país verdadeiramente justo, seguro e democrático, é indispensável garantir o fim da discriminação e do preconceito às mulheres em todas as esferas da sociedade.

Nesse sentido, revela-se oportuna a volta da Secretaria da Mulher no Estado do Rio Grande do Sul. Afinal, por meio de uma estrutura própria, a articulação e o fortalecimento de ações voltadas à proteção, à promoção e à autonomia das mulheres poderão tornar-se mais efetivas. Salve Diadorim, Capitu, Macabea, Ana Terra! Salve todas as circulantes das veredas perigosas de nossa sociedade! Que vossa luta não seja vã!


[1] ROSA, João Guimarães apud RÓNAI, Paulo. Seleta de Guimarães Rosa. São Paulo: José Olympio, 1973.

Um Ser tão Veredas

(Por Roseméri Lorenz)

Você

Despertou meu ser,

Sertão a florescer

Depois que a chuva vem.

Tem histórias pra contar,

Veredas a explorar…

Sem faca ou carabina,

Me ensina a lutar: Palavras inventar,

Enredo a se formar

E transformar o mundo ao redor.

Drummond já dizia:

“Lutar com palavras

É a luta mais vã.

Entanto,

Lutamos mal rompe a manhã”.

Amanhã,

Será, de novo,

Um novo dia,

De medo e valentia…

Ousa! Cria!

Me faz companhia

Na arte da grafia,

Sangria desatada

Que nada entretém,

Detém…

Refém

De algo que domina,

Envolve feito sina

E alucina

Sem querer.

– Venha nadar neste rio, Riobaldo!

Resistir já não dá mais,

Tudo embalde.

Não precisa ser assim,

Dia a dia,

Diadorim!

Assim como escrever,

O amor faz só faz doer

Se não pode ser.

Autora da coluna: Rosemeri Lorenz. Também escreveu e publicou no site “Ainda estão aqui”: www.neipies.com/ainda-estao-aqui/

Edição: A. R.

Sobre a angústia e a renúncia: relato de uma professora

Entenda o que fez uma professora renunciar a um concurso público na rede pública de educação. Ela pergunta: que sociedade é essa que presta homenagens aos professores no dia 15 de outubro, exaltando a profissão que forma todas as outras, mas esquece deles no restante do ano? Pior que isso, não só esquece, mas despreza e não reconhece seu valor.

É um privilégio poder escolher sua profissão; no meu caso, acho que ela me escolheu. Comecei a atuar em sala de aula muito cedo, bem antes de ter qualquer pretensão sobre o que faria profissionalmente. Comecei por acaso e, aos poucos, me apaixonei pelo magistério. Lecionei a disciplina de Língua Inglesa em escolas e cursos de idiomas, trabalhando com crianças, adolescentes e adultos. Da experiência com as crianças veio o desejo de cursar Pedagogia, muitos anos depois ingressei na educação infantil da rede municipal de ensino.

Apesar dos inúmeros desafios que enfrentamos diariamente ao trabalhar com seres humanos em constante formação, nunca tive dúvidas sobre minha escolha.

Aprendi muito na educação infantil, período em que pude me dedicar a esse público ímpar que são as crianças em idade pré-escolar. Trabalhei com os mais distintos grupos de estudantes, passei por mudanças de governo e nova gestão, tanto na escola em que atuava quanto na Secretaria Municipal de Educação.

Mais de uma década após ingressar na rede, estive frente a um novo desafio: assumir uma segunda matrícula, desta vez nos anos finais do ensino fundamental. Apesar de ter sido chamada para assumir a disciplina de Língua Inglesa, para a qual prestei o segundo concurso, precisei trabalhar com projetos nos anos iniciais por seis meses. Como entrei na metade do ano e as escolas já estavam organizadas, tive de encarar os projetos que não tinham relação com a minha formação, mas era o que tínhamos no momento. Foi um aprendizado, mas foi muito desgastante, planejamentos de disciplinas diferentes, muitas turmas do primeiro ao quinto ano do ensino fundamental.

Após esse turbilhão de acontecimentos, consegui conciliar minha carga horária de Língua Inglesa em uma única escola, com turmas do sexto ao nono ano. Imaginei que a fase mais difícil havia passado, pois a partir desse momento estaria trabalhando na minha área de formação, com uma disciplina para a qual tinha formação. Enorme engano o meu, foi aí que tudo piorou.

Antes de prosseguir, apenas um adendo: tenho 30 horas na educação infantil, já a nova matrícula tinha carga horária de 20 horas. Esse novo cargo deveria dizer respeito a vinte horas semanais da minha vida, que inclui várias instâncias além do trabalho. No entanto, o que aconteceu foi muito diferente disso.

Voltando à história, assumi apenas a disciplina de Língua Inglesa, mas continuei com várias turmas e inúmeros planejamentos. Além de salas lotadas, tinha uma média de dois alunos com laudo em cada uma delas. As exigências de planejamento específico para cada estudante com deficiência – que somavam-se aos planos mensais, trimestrais e anuais de cada turma – levaram a uma demanda excessiva de materiais a serem organizados e postados. Isso sem falar no preenchimento do sistema com presenças, conteúdos e avaliações, que também precisavam ser diferenciadas para cada aluno incluído.

A sobrecarga de trabalho era imensa e a sensação que eu tinha era que tornava-se mais pesada a cada mês que passava. Sempre tinha um novo projeto, mais uma avaliação, outras atividades a serem postadas na plataforma de ensino em dia de reunião pedagógica, mais uma criança com laudo chegando na turma, mais burocracia e prazos, mais e mais trabalho, exigências e cobranças.

Como não poderia deixar de ser, em meio a esse cenário veio o adoecimento, a fadiga, a ansiedade, o desânimo.

O trabalho deveria ser apenas uma parte da nossa vida, sem tomar o tempo que precisamos dedicar à família, aos cuidados pessoais, ao lazer, ao bem estar em geral. O que os professores vivem hoje vai de encontro a isso, pois o que vimos é o trabalho “roubando” parte da vida pessoal, levando-nos a adoecer e ter uma qualidade de vida ruim. Nesse período, lutei com os diversos sinais que meu corpo dava que não estava bem, com a baixa imunidade e o alto nível de estresse.

Eu conhecia esses sintomas, pois converso diariamente com colegas professores que me procuram no sindicato para relatar suas angústias. Também vi colegas na escola em que trabalhava passando por situação semelhante, eu não estava sozinha nessa batalha. Em seguida, iniciei um processo de crise de ansiedade, momento em que percebi que tinha ultrapassado meus limites e precisava repensar minhas escolhas. Vivi exatamente o que ouvia nos relatos dos docentes que atendia, senti na pele as dificuldades que sofriam. Pensei em desistir!

Desde o momento em que tive esse pensamento pela primeira vez e o dia em que realmente me exonerei da rede municipal passaram-se alguns meses. Não queria acreditar que estava cogitando a exoneração, não queria admitir que não suportava mais. O magistério foi a profissão que escolhi e nunca tive dúvidas sobre essa opção. Sabemos que é um ofício desafiador, mas através do qual sempre me senti realizada. Apesar das dificuldades normais da profissão, nunca passou pela minha cabeça fazer algo diferente. Sou professora por escolha, estudei muito a vida toda para exercer o magistério da melhor forma possível, dedicando-me aos alunos e fazendo a diferença na sua formação.

Quando decidi fazer concurso público, estudei, me preparei, sonhei com o ingresso na rede municipal. Ninguém ingressa num cargo dessa forma pensando em ficar por algum tempo e, caso não der certo, desistir.

A carga emocional dessa decisão foi muito pesada, parecia não ser certo, parecia que algo estava fora do lugar. Como eu poderia desistir depois de tudo? Foi para isso que tanto estudei e me qualifiquei? O que deu errado no meio do caminho? Eram muitas perguntas e incógnitas, angústias e aflições.

Em meio a esse turbilhão de pensamentos e emoções, fui vivendo semana após semana, esperando que uma resposta mágica aparecesse, o que não aconteceu. Minha saúde se deteriorava a cada dia, não tinha tempo para acompanhar minha filha pequena, não tinha tempo para quase nada além do trabalho, o que acabou tornando a profissão que tanto amava um fardo muito pesado para carregar. Foi quando percebi que não poderia continuar, por mais medos e dúvidas que tivesse. Tomei a decisão de pedir minha exoneração e abrir mão do lugar pelo qual batalhei, e que entendia ser meu por direito.

Quando consegui avisar a todos que não retornaria à sala de aula após o recesso escolar, parece que já me sentia aliviada, finalmente teria alguma qualidade de vida. O simples fato de tomar essa decisão e comunicá-la aos colegas tirou um peso de minhas costas. O último mês de aulas teve muito trabalho, pois queria deixar tudo organizado para quem iria me substituir, mas mesmo assim foi mais leve.

Sentia-me responsável por todos os alunos que estavam em minhas turmas, já os conhecia, queria continuar contribuindo com o seu desenvolvimento, o que causou um vazio por abandonar o barco no meio do caminho. Mas era a única coisa que poderia fazer, pois caso persistisse, minha saúde estaria em jogo. Foi difícil, porém necessário.

No dia em que registrei oficialmente meu pedido de exoneração me senti estranhamente feliz. Não fazia sentido me sentir feliz por deixar de ser professora, mas esse era o sentimento: alívio.

Essa experiência me fez refletir sobre o que está acontecendo com a profissão docente. Como pode uma professora ficar feliz por sair da sala de aula? Como pode desenvolver ansiedade ao pensar em entrar em seu ambiente de trabalho? Como pode gostar de sua função pedagógica, mas adoecer com todas as demandas que os gestores lhe atribuem diariamente?

Que sociedade é essa que presta homenagens aos professores no dia 15 de outubro, exaltando a profissão que forma todas as outras, mas esquece deles no restante do ano? Pior que isso, não só esquece, mas despreza e não reconhece seu valor. A partir de que ponto nossa profissão passou a ser tão desvalorizada? Que sociedade estamos formando quando colocamos docentes esgotados para dar aula em turmas lotadas, com inúmeras demandas, mas sem o suporte necessário? Até quando teremos professores?

São muitas perguntas e poucas respostas, no entanto, o que vale é a reflexão. Não podemos naturalizar essa situação, precisamos instigar nossos colegas a pensar em como chegamos a esse ponto, pois só assim poderemos vislumbrar formas de mudança. A resignação e a estagnação não podem jamais ser nossa opção, pois, como dizia Paulo Freire, “Enquanto eu luto, sou movido pela esperança; e se eu lutar com esperança, posso esperar”.

LEIA TAMBÉM: www.neipies.com/ser-professor-sempre-foi-um-ato-de-resistencia/

FONTE: https://issuu.com/cmpsindicato/docs/cartilha_um_grito_pela_educa_o_

Autora: Débora de Araújo Soares, professora da rede municipal de Passo Fundo, RS.

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