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O que fazer com a indisciplina?

 

Focar nas regras de convivência com a
participação dos alunos e criar um mapa de indisciplina
junto com outros colegas e gestores pode ajudar a prevenir
e eliminar as causas da indisciplina ativa.

 

Indisciplina, multiculturalidade e inclusão são temas que preocupam educadores no mundo todo.

No mês de julho deste ano, tive o prazer de dialogar com professores municipais na sede do CMP sobre esses temas e fiquei muito feliz ao saber que estratégias pedagógicas efetivas vem sendo adotadas também em Passo Fundo, RS. Menciono esse aspecto porque fui professora da referida rede até 2007, quando tive a oportunidade de vir trabalhar nos EUA, também como professora.

 

O CMP Sindicato (Sindicato dos Professores Municipais de Passo Fundo) desenvolve, pelo terceiro ano consecutivo, o projeto Saberes em Ciranda. Esta atividade formativa, voltada aos professores municipais, desenvolve uma metodologia onde o Cirandeiro (pessoa convidada para apresentar uma reflexão inicial) e os Cirandeiros (participantes que se inscrevem voluntariamente) fazem trocas de aprendizagens, dialogam de forma direta entre si e compartilham, ainda, de comida, alguma bebida (suco, chá ou refrigerante) e música ou poesia. Esta ideia nasceu porque os professores desejam participar de dinâmicas formativas onde sejam mais protagonistas do que meros ouvintes. Saberes em Ciranda envolve um grupo de 35 professores e professoras, tem duração de duas horas, realiza-se mensalmente e é um sucesso principalmente porque envolve a ideia da proximidade e aprendizagem professor para professor. O projeto é coordenado pelo professor Nei Alberto Pies, desde o início de sua implantação.

Durante os últimos dez anos, tenho conduzido reflexões comparativas sobre educação entre as Américas e esses temas tão importantes tanto no Brasil como nos EUA. Nesse artigo vou abordar a indisciplina. A definição de indisciplina pode ser teoricamente complexa ou reduzida “a ausência de disciplina”, sendo assim, pode ser simplificada a “desobediência ao conjunto de regrasde conduta impostas aos membros de uma coletividade”.

 

A indisciplina pode ser passiva ou ativa

Na manifestação passiva, os estudantes podem se recusar a participar de projetos, esperar o adulto que fiscaliza as regras estar ausente para ventilar suas idéias, cochichar, não copiar a matéria, entre outras formas menores.

 

O papel do professor mediador para enfrentar a indisciplina, as agressões físicas e conflitos nas escolas. Uma experiência na cidade de Baurú, SP.

Já, na manifestação ativa da indisciplina, existe confronto entre pessoas, questionamento das regras e desentendimento com o adulto responsável pelas mesmas, os exemplos mais comuns são discussões com colegas e professores, agressividade verbal e física, chegando ao ponto de interromper a aula.

 

Diferenças da educação brasileira e da educação norte-americana

No meu tempo de educadora brasileira há mais de dez anos atrás, relembro episódios frequentes de indisciplina ativa na minha sala e na sala de meus colegas, vamos dizer, a bagunça, as brigas, os bate-bocas.

No meu trabalho com estudantes nos EUA, não encontrei indisciplina ativa, mas sim passiva. As regras e o sistema norte-americano são tão firmes que os estudantes não expressam sua indisciplina. Sendo assim, também não expressam sua afetividade. Jamais presenciei uma bagunça, um bate-boca ou uma briga em sala de aula.

Isso não quer dizer que indisciplina ativa não exista aqui, mas ela é mais rara porque existem consequências pesadas e imediatas aos que quebram as regras, como expulsão, reprovação e até mesmo constrangimento público. Uma sala de aula em que não há reclamações, uma maravilha, certo?

Na verdade, essa supressão dos sentimentos, falta de afetividade e expressividade gera outros problemas. A preocupação aqui é com atiradores em massa. Estudantes que, ano após ano, reprimiram seus sentimentos, seguiram as regras e de repente explodem e perdem conexão com a realidade, pegam uma arma, matam seus colegas e professores e se matam. Esses episódios são tão frequentes nos EUA que preparação para enfrentar atiradores em massa, faz parte da formação de professores.

Reportagem da TV Band, do Brasil, sobre mudanças recentes na educação dos EUA, realizada em 2015.

Qual a alternativa para a indisciplina então? Nas minhas palestras agrupo os modelos educativos nas seguintes categorias: afetiva e criativa – Brasil, competitiva e eficiente – EUA e educação integral – Europa.

Tanto o modelo brasileiro como o americano apresentam seus prós e contras. Uma educação baseada na afetividade estimula a criatividade e a segurança dos estudantes, mas talvez crie dificuldades para controlar o andamento de certas atividades. Aqui meus colegas freireanos e montessorianos vão se apoiar na idéia que o controle não é necessário, que se deve ter autoridade sem ser autoritário, etc. Essa discussão vou deixar para um outro momento.

Uma educação regrada e competitiva, como nos EUA, contribui para o desenvolvimento do futuro profissional e da sociedade como um todo, mas ignora o desenvolvimento pessoal.

Assim sendo, gera depressão, mata a criatividade e é capaz de gerar traumas profundos. Já, a educação integral seria o modelo que creio ser mais adequado para o sucesso escolar. Na educação integral faz-se o mapa da indisciplina, incluindo diagnóstico, causas e estratégias, bem como trabalhando a disciplina (e não a indisciplina) em si mesma.

Envolver os estudantes na construção, implementação e avaliação das regras de convivência torna-se um dos métodos mais efetivos para reduzir as manifestações de indisciplina.

Alguns professores da rede municipal de Passo Fundo sabiamente já colocam essa idéia em prática desde o primeiro dia de aula. Quando surge algum problema com quebras de regras, uma estratégia seria formar um comitê para decidir ou julgar o caso, esse comitê inclui a participação dos próprios estudantes para decidir o que fazer com o estudante que quebrou a regra.

Quero apresentar algumas estratégias práticas que já utilizei para contornar ou amenizar problemas com disciplina. Tais sugestões seriam evitar as seguintes condutas enquanto educador: parar o grupo sempre que não obtêm êxito; usar termos negativos para respostas ou longas explanações; pensar que o problema é pessoal e os educandos estão contra você; presumir que existe somente um caminho para se chegar ao resultado final e; subestimar a capacidade dos alunos.

 

Como proceder na indisciplina ativa?

Inicialmente avalie a situação mentalmente, depois revise valores e o impacto no grande grupo, mas acima de tudo é importante que essa situação não seja ignorada, ampliada ou que sirva de influência para os demais alunos; escute e perceba as limitações ou potencialidades, seja empático, flexível e converse individualmente com cada integrante do grupo, cuidando para que não se sintam humilhados ou excluídos; organize trabalhos em grupos colocando estudantes com diferentes habilidades para compartilhar as tarefas.

Essas sugestões não eliminarão futuros problemas com indisciplina, portanto focar nas regras de convivência com a participação dos alunos e criar um mapa de indisciplina junto com outros colegas e gestores pode ajudar a prevenir e eliminar as causas da indisciplina ativa.

Acima de tudo, a afetividade da educação brasileira deve ser mantida e fortalecida, sempre que possível, pois educar exige coragem e amor.

Parabéns colegas educadores da rede municipal de Passo Fundo-RS.

Quando bom humor é sinônimo de amor

 

A escola é uma família gigante.
Quanto mais pessoas mal humoradas tiverem
nessa “família” maior será a probabilidade de termos
um ambiente tenso e pouco propício para a aprendizagem.

 

Vivemos em uma sociedade em constante transformação, tanto no mundo do trabalho como nas relações interpessoais, ou seja, nas relações familiares, escolares, de trabalho ou de comunidade.

Neste mundo “moderno” e conturbado além de ser competente profissionalmente, desempenhando com eficiência suas atribuições, também se faz necessário ser competente nas relações com seus pares, mantendo uma postura que seja benéfica para o grupo, para a coletividade. É aí que entra o Bom Humor.

Pesquisas recentes apontam que o senso de humor é importante para a ascensão profissional e que um bom estado de ânimo é sinônimo de inteligência emocional e competência.

 

 É importante ressaltar uma coisa, gente: bom humor não é sinônimo de piada ou uma qualidade de pessoas engraçadas. Às vezes, esse comportamento, o de ser engraçado, pode ser carregado de sarcasmo, ironia e até intenções maldosas. (Programa Bom Humor, Atitude Jovem SO1E15).

 

O bom humor no ambiente de trabalho deixa o clima mais leve, harmonioso e evita doenças causadas pelo estresse.

Como já dito no parágrafo inicial, o bom humor também é determinante no convívio com familiares. Eu diria em especial no convívio com o cônjuge e com os filhos.

Xico Xavier psicografou:

“A sua irritação não solucionará problema algum…

As suas contrariedades não alteram a natureza das coisas…

Os seus desapontamentos não fazem o trabalho que só o tempo conseguirá realizar.

O seu mau humor não modificará a vida…

A sua dor não impedirá que o sol brilhe amanhã sobre bons e maus…

A sua tristeza não iluminará caminhos…

O seu desânimo não edificará a ninguém…

As suas lágrimas não substituem o suor que você deve verter em benefício da sua própria felicidade…

As suas reclamações, ainda mesmo afetivas, jamais acrescentarão nos outros um só grama de simpatia por você…

Não estrague seu dia.

Aprenda, com Sabedoria Divina, a desculpar infinitamente, construindo e reconstruindo sempre para o Infinito Bem!

 

Assim como esta mensagem, muitas outras nos alertam para a necessidade de desenvolver e manter o bom humor. É evidente que só podemos externalizar o que temos e cultivamos dentro de nós, portanto, se a alegria de viver não é nata de cada indivíduo, faz-se necessário desenvolvê-la para o nosso próprio bem e pelo bem do outro.

Se pararmos para pensar nos relatos feitos por pessoas do nosso círculo de amizades ou vínculos de família, identificamos facilmente que muitas brigas de casais, por exemplo, iniciam pela falta de humor, pela intolerância e por se levar muito ao pé da letra tudo o que é dito pelo companheiro.

O que agrava ainda mais a situação é o fato de que essa rusga afeta também o humor dos filhos que também entram nesse círculo e acabam levando isso para a sua rotina. Quero, com isso, dizer que temos responsabilidade pelo tipo de humor que cultivamos.

No ambiente escolar, o mesmo se repete. Costumo dizer que a escola é uma família gigante. Quanto mais pessoas mal humoradas tiverem nessa “família” maior será a probabilidade de termos um ambiente tenso e pouco propício para a aprendizagem.

Tanto na sala de professores como nas salas de aula, é impressionante como uma pessoa negativa consegue contaminar quem está a sua volta. Para a pessoa que sofre com essa falta de “alegria de viver”, os dias são intermináveis e o trabalho ao invés de ser um momento de construção, de produtividade e realização pessoal, se torna um castigo.

Alfred Montapert, autor de várias obras, entre elas “ A Suprema Filosofia do Homem” dá a sua contribuição sobre o assunto dizendo:

“O bom Humor espalha mais felicidade que todas as riquezas do mundo. Vem do hábito de olhar para as coisas com a esperança e de esperar o melhor e não o pior”.

Esse pensamento reflete bem a diferença entre o ser bem humorado e o mal humorado. Um consegue sempre tirar proveito de toda e qualquer situação por mais difícil que ela seja enquanto o outro sempre consegue colocar defeito até naquilo que, para a maioria, beira à perfeição.

Embora eu não seja nenhuma especialista no assunto do humor, me permito fazer essas considerações baseadas em vivências, em especial, no contexto escolar. É incrível como a forma de se chegar à sala de aula, como fazemos a primeira abordagem ao aluno e até a forma como os cumprimentamos é capaz de definir dinâmica e o clima da aula toda.

A crítica à pessoa mal humorada, seja colega, professor, “educador”, da merenda ou da limpeza não é incomum. Isso nos sugere pensar que toda pessoa espera do outro, independente da sua função, um olhar e uma atitude agradável.

Me atrevo dizer que bom humor é sinônimo de amor. A pessoa que desenvolve a prática do bom humor consegue olhar quem está a sua volta com paciência e generosidade tendo condições de transformar um momento qualquer em um momento feliz. Isso para mim é amor!

Conheci pessoas que trabalham na área da saúde e que relatam como experiências lúdicas desenvolvidas por pessoas com senso de humor conseguem melhorar a condição de pacientes e até reduzir o tempo de tratamento de muitos.

Em alguns hospitais já existe a prática das “invasões de alegria, onde atores amadores e voluntários vestidos de palhaços-médicos fazem intervenções que ajudam na aceleração da recuperação e também motivam os familiares. E isso não é amor?

Acho importante retomar que se o bom humor não é característica nata de todo ser humano, é possível sim desenvolver essa prática, para tanto é necessário o esforço diário de se autoanalisar, de refletir sobre nossas atitudes e, sobretudo, compreender que o mau humor, a tristeza e a desesperança pode se tornar uma alavanca para problemas físicos e emocionais interferindo em todos os aspectos da nossa vida.

“Ele, o Bom Humor, também desperta o nosso sentido de sobrevivência e preserva a nossa saúde mental” (Charles Chaplin)

Rir é bom, é saudável e contagioso e é uma das manifestações do bom humor.

Quem sabe nos falte achar aquele tempinho para encontrar com amigos, com as pessoas que amamos e rir juntos. O riso compartilhado torna as pessoas cúmplices e mais positivas em relação a si próprias, aos outros e ao mundo!

O bom humor não é solução para todos os problemas que assombram a humanidade, mas pelo menos se sabe que ele é capaz de minimizar os conflitos e tornar ambientes e situações mais leves.

Então, vamos lá…
Praticar o bom humor!
Por você…
Por mim…
Por nós!

De mala leve, a sua viagem será muito mais alegre e feliz porque a felicidade não é uma coisa grande e pesada. A felicidade é um monte de coisinhas que nos tornam mais próximos uns dos outros, mais companheiros, satisfeitos com aquilo que temos e, sobretudo, com aquilo que somos! (Rosane Rupolo Mendes)

 

 

Somos se temos palco, em busca de reconhecimento

 

 “O mundo inteiro é um palco,
e todos os homens e mulheres
são apenas atores”
William Shakespeare, 1564-1616

 

A vida em sociedade é o nosso grande palco. Neste palco, somos permanentemente observados por aquilo que somos, aquilo que fazemos e aquilo que representamos diante dos demais.

O conjunto destas observações nos é apresentado cotidianamente pelos outros e, assim, vamos internalizando, assimilando e construindo o nosso modo de ser, pensar e agir. Há que se observar, de nossa parte, que devemos guardar certo grau de coerência para que possamos inspirar confiança e constância nas relações que estabelecemos com os demais.

Nem sempre sabemos precisar o quanto o olhar e a observação dos outros pesa sobre a vida da gente. É fato, no entanto, que maior parte de nossas condutas e reações regem-se a partir destes, em nome do reconhecimento social.

Nesta palestra, o psicoterapeuta Rogério Thaddeu questiona se precisamos postar tudo nas redes sociais e o quanto precisamos do olhar, do reconhecimento do outro para validar nossa autoestima, cada vez mais fragilizada em nossa sociedade de aparência.

Por que precisamos do reconhecimento constante do outro?

 

A qualidade de nossa vida social está intrinsecamente ligada com a nossa capacidade de conviver, de associar-se, de mover-se, de construir acordos e projetos coletivos, de agregar.

A nossa construção de seres sociais é feita a partir de nossas experiências individuais e coletivas. Os aprendizados são sempre pessoais, mas a tendência é a sociedade padronizar nossos modos de ser, de pensar e de agir.

Marta Medeiros, em uma das suas muitas crônicas publicadas, traz presente a preocupação de como resolver o conjunto de dualidades que reside em cada um de nós, uma vez que a sociedade tende a nos “encaixotar” e “selar uma etiqueta” para nos definir.

Conheça um pouco mais desta grande escritora Martha Medeiros. Programa Roda Viva, TV Cultura.

 

Assim escreve: “É obrigatório confirmar o que o seu rótulo induz a pensarem sobre você”. Como podemos observar, nem sempre temos as melhores oportunidades para nos alçarmos à condição de sujeitos: livres, autônomos, autênticos.

Outro fator determinante da qualidade de nossa vida social é procurar sempre agir sob “justa medida”. A “justa medida” estabelece-se a partir dos nossos méritos e métodos.

Nem sempre basta ter bons méritos para agir, se não tivermos um método adequado para nos fazer compreender. Da mesma forma, pouco vale um método se não temos boas razões para nos comunicar/expressar. Sempre há que se equacionar os métodos com os nossos méritos (e vice-versa).

Somos permanentemente tentados a enquadrar e rotular as ações e posturas dos outros sem antes pensarmos na complexidade da vida humana, seja a nossa e seja a vida dos outros.

A experiência de vida pessoal de cada um, embora fundante, é insuficiente para explicar o conjunto de ações, reações e comportamento dos outros.

A vida de cada ser humana carrega nuances próprias, únicas e insubstituíveis. Daí reside nossa dificuldade de educar os outros, de opinar sobre suas atitudes, de construir consciência, de dar conselhos.

O fato de sermos únicos e genuínos é maravilhoso, mas também assustador. Por isso, nada melhor do que investir nas inúmeras oportunidades para conhecer os outros, relacionando-se com eles.

O nosso palco é o mesmo, mas jamais serão iguais as nossas buscas para nos fazermos gente. Todos, felizmente, temos o desafio de nos tornarmos seres sociais, mas não podemos abdicar de nossas peculiaridades e experiências únicas, interiores e pessoais.

Às vezes temos a impressão que transmitimos para as pessoas exatamente o que estamos sentindo, mas isso nem sempre é verdade. A comunicação é muito mais precária do que imaginamos. As pessoas não nos veem como a gente se vê – Flávio Gikovate

 

Por uma cidade educadora e inteligente

 

Na Cidade Educadora e Inteligente,
a escola é parte essencial do processo educativo e
assume o território como campo de pesquisa, currículo e lugar de estudo.
Aberta à comunidade, ela envolve locais e se reconhece no território,
atuando em prol de suas transformações.

 

Interessados em constituir outras plataformas municipalistas, em co-construir a cidade que queremos e podemos, em inventar outras práticas urbanas, em viver uma cidadania de alta intensidade, em re-existir com alegria e criatividade, tenham a liberdade de se auto-convocar para participar do I Encontro sobre Cidades Educadoras e Inteligentes: desafios dos municípios do século XXI, em Passo Fundo, 13 e 14 de setembro de 2017.

O Encontro visa promover, qualificar e difundir a concepção de cidade educadora como uma estratégia de desenvolvimento urbano e social nas cidades do norte do Rio Grande do Sul. Para tanto, remete ao entendimento da cidade como território educativo, produtivo e gerador de inovação.

Nele, seus diferentes espaços, tempos e atores são compreendidos como agentes pedagógicos, que podem, ao assumirem uma intencionalidade educativa, garantir a perenidade do processo de formação dos indivíduos para além da escola e com ela, em diálogo com as diversas oportunidades de ensinar e aprender que a comunidade oferece, aumentando o potencial produtivo do território e ampliando sua capacidade de mobilização democrática e empreendedora.

Iniciado no começo dos anos 1990, na cidade de Barcelona/ESP, a experiência das cidades educadoras se consolida como uma rede mundial emergente de reconfiguração das cidades no contexto contemporâneo.

Com mais de 470 cidades oficialmente vinculadas, a Associação Internacional das Cidades Educadoras – AICE (17 só no Brasil) está baseada em uma carta de princípios (carta das cidades educadoras ou carta de Barcelona) que orienta os rumos pactuados em cada cidade, respeitando suas identidades singulares e suas características históricas e culturais.

A carta prevê dentre outros aspectos, a revitalização dos espaços públicos, a dimensão pedagógica das políticas públicas, o foco na formação das crianças e dos jovens, um plano municipal amplo de educação e a democratização dos bens culturais. O Movimento Brasileiro das Cidades Educadoras, nos dias 01 a 04 de junho de 2016, em encontro realizado na cidade de Rosário/Argentina, reforçou o compromisso com esses princípios.

O Fórum de Mobilidade e Educação e o Programa UniverCidade Educadora UPF são signatários desse processo e visam incluir cada vez mais o município de Passo Fundo/RS e região no circuito dessas boas práticas de desenvolvimento social e urbano. Para tanto, definiram cinco premissas em diálogo com a realidade local para serem debatidas transversalmente no Encontro:

  1. Ampliação da participação e do controle social: É imprescindível que as políticas em diálogo com Cidades Educadoras e inteligentes tenham como princípio o avanço da democracia e o aprofundamento das formas de participação social. Dos fóruns locais, passando pelos conselhos, comissões, audiências e consultas, a Cidade Educadora deve cultivar políticas públicas que ensejam um profundo compromisso com a transparência e contemplam, em todas as suas etapas – elaboração, implementação e avaliação – o engajamento da sociedade civil.
  2. Dimensão intersetorial e pedagógica das políticas públicas: Na Cidade Educadora e inteligente, o arranjo das políticas deve transcender a lógica setorializada da gestão pública, assumindo a intersetorialidade como premissa norteadora das ações e instrumento estratégico de articulação entre instituições, pessoas e saberes. Fundamentada pela descentralização, a intersetorialidade emerge como oportunidade para que, nos territórios, a gestão de políticas e serviços esteja mais próxima daqueles a quem se destinam, bem como de seus mecanismos de controle social e de formação cidadã.
  3. Cidades Educadoras e Inteligentes no marco da educação integral: Na Cidade Educadora e Inteligente, a escola é parte essencial do processo educativo e assume o território como campo de pesquisa, currículo e lugar de estudo. Aberta à comunidade, ela envolve locais e se reconhece no território, atuando em prol de suas transformações. Assumindo-se como centro de liderança local, a escola busca outras instituições para que, juntas, possam avançar na garantia do desenvolvimento integral de crianças e jovens. Essa configuração permite que a escola amplie tempos, espaços, recursos e agentes, conferindo sentido ao aprendizado e estabelecendo um diálogo permanentemente com o contexto de vida daqueles que devem ser o centro de todas as suas ações: os estudantes. Embora a escola seja estratégica para que uma Cidade Educadora se consolide como tal, é preciso ressaltar que, nessa concepção, a educação é vista como um processo permanente, que se dá ao longo da vida. Para além da etapa escolar, é possível aprender na cidade (cidade como espaço onde a aprendizagem ocorre), aprender com a cidade (cidade lida como texto, como emissora constante de aprendizados) e aprender a cidade (cidade como intervenção, passível de transformação, de ação política).
  4. A valorização dos espaços públicos na perspectiva da sustentabilidade ambiental: A concepção de Cidade Educadora e inteligente remete ao entendimento da cidade como território educativo. Nele, seus diferentes espaços, tempos e atores são compreendidos como agentes pedagógicos, que podem, ao assumirem uma intencionalidade educativa, garantir a perenidade do processo de formação dos indivíduos para além da escola, em diálogo com as diversas oportunidades de ensinar e aprender que a comunidade oferece. A Cidade Educadora compromete-se a valorizar os espaços públicos, abrindo caminho para as diferentes identidades, expressões e saberes comunitários. A partir de políticas públicas e ações que estimulam o vínculo e o reconhecimento da população com o território, uma cidade que educa deve assegurar acesso a todos e fomentar a sua valorização na perspectiva da sustentabilidade ambiental.
  5. Inovação e empreendedorismo no território: Cidades Educadoras e Inteligentes exigem a criação de mecanismos e estratégias capazes de contemplar as diferentes vozes que compõem o território, aproximando processos de inovação tecnológicos com as grandes questões sociais materializadas na cidade. Parte do pressuposto que para gerar uma ambiência de inovação e criatividade aplicada ao espaço urbano, deve garantir o exercício de uma cidadania de alta intensidade, apostando em dispositivos capazes de mobilizar o território de forma produtiva e democrática ao mesmo tempo.

 

Marcio Tascheto, professor da Universidade de Passo Fundo e Coordenador do Programa UniverCidade Educadora fala da concepção, dos desafios e da importância de construirmos uma cidade educadora.

 

Sintam-se convidados!
Prof. Dr. Marcio Tascheto da Silva
Faculdade de Educação – FAED
Coordenador da Divisão de Extensão – UPF
Mais informações: http://www.upf.br/univercidadeeducadora/
Telefone: 054 3316 8396

 

O ideal platônico de Educação

 

Em síntese, Platão foi pioneiro ao atribuir
um sentido profundo para a educação:
descobrir e desenvolver as capacidades humanas individuais,
preparando-as de modo que possam se colocar em
contato com as atividades dos demais.

 

Platão, filósofo grego da antiguidade, é conhecido na história da filosofia como o primeiro e grande idealista. Idealismo é a doutrina de pensamento baseada na crença de que as ideias movem o mundo.

Quanto melhor for pensada a ideia, mais possibilidades se têm de realizá-la. Mas Platão teria sido ainda mais enfático ao dizer que a realidade é mera cópia das ideias perfeitas que existem no mundo inteligível. Sendo assim, tudo o que vemos, ouvimos, tocamos, sentimos e degustamos, é formulado por ideias que residem no intelecto cuja sede repousa no mundo inteligível.

O idealismo platônico é justificado por uma refinada teoria metafísica, a qual condensa problemas filosóficos profundos, insolúveis até os dias de hoje. Nos diálogos de juventude ele trata do problema das virtudes humanas, como coragem, justiça, temperança e sabedoria.

O problema aí é o de saber como o ser humano se tornar virtuoso e se as virtudes podem ser ensinadas. Nos diálogos intermediários, o conhecimento humano é um dos problemas centrais.

Como o ser humano conhece? Qual é o papel das ideias? As percepções possuem alguma finalidade epistemológica? Menão, República e Teeteto são diálogos importantes para pensar o problema do conhecimento humano.

Educação para Platão.

De todos os diálogos platônicos, Fedão está entre aqueles que mais me agrada. Ele trata do papel da filosofia e do problema da imortalidade da alma. O diálogo relata os instantes finais da morte de Sócrates.

Ao ser condenado pelo tribunal grego, ele já havia tomado cicuta, o veneno mortal destinado aqueles julgados de morte. O fim de Sócrates era questão de horas. O nervosismo e impaciência tomavam conta de seus discípulos, embora Sócrates mostrava-se calmo e resignado.

Como pode alguém manter-se sereno diante da morte que se aproxima? Sócrates, na resposta que oferece aos seus discípulos, diz que não havia motivo para preocupação, uma vez que dedicou sua vida toda à filosofia.

Ora, como a filosofia nada mais é do que o ensinamento sobre a morte, então não havia motivo para agitar-se diante dela. Também, outro argumento adicional, que tornou-se decisivo à teologia cristã, a vida não se esgota com a morte do corpo. Ela segue no Jardim de Hades, em nova forma, longe das prisões do próprio corpo.

Esta resposta, oferecida por ele aos seus discípulos impacientes, cravou fundo na tradição filosófica posterior, tendo consequências pedagógicas importantes. A morte é uma longa preparação que começa com uma vida bem sucedida, cuidada ao longo do percurso: saber se alimentar bem, não cometer exageros, cuidar do espírito e dar-se bem com os outros, valorizando os detalhes que a natureza e o mundo oferecem.

Nas apreciações que a filosofia popular faz de Platão normalmente está ausente este pensamento filosófico profundo, que ainda nos ensina sobre o sentido da vida e seus dilemas. Ocorre, no mais das vezes, uma vulgarização de seu pensamento.

Fala-se, com frequência, por exemplo, do amor platônico, querendo dizer com isso que se almeja algo que não pode ser alcançado na prática. Deste modo, platônico passou a ser compreendido, pejorativamente, como sinônimo de tudo o que é irrealizável, pondo, portanto, a pessoa fora do mundo e da realidade.

Mas, um juízo parcial e muito equivocado sobre o pensamento de Platão não é obra só daqueles que não possuem formação filosófica. Deve-se, também, a filósofos muito esclarecidos, que desempenharam papel importante na história do pensamento ocidental. Tal é o caso de Karl Popper, importante teórico das ciências, que escreveu aLógica da Pesquisa Científica, livro que modificou positivamente o debate acerca dos métodos e teorias da ciência contemporânea. No entanto, para o Popper da Sociedade Aberta e seus inimigos, Platão foi o teórico do Estado absoluto e o primeiro grande inimigo do pensamento liberal.

Qual é, neste contexto, o juízo de Dewey sobre Platão? O Platão que aparece no capítulo VII de Democracia e Educação está muito longe de ser vulgarizado, embora Dewey não o tome na seriedade merecida.

Em todo caso, ele reconhece em Platão aquilo que é nuclear à teoria da educação: a estabilização da sociedade exige que os seres humanos façam uso adequado de suas capacidades (disposições) de tal modo que possam coloca-las a serviço dos demais. Ou seja, há uma pressuposição ética de fundo que se refere à exigência de se colocar o desenvolvimento das disposições humanas a serviço da comunidade.

É papel da educação descobrir tais disposições e forma-las progressivamente para o uso social. Com isso já se vê em Platão um nexo estreito entre educação e sociedade, sendo que a finalidade da educação não pode ser definida sem levar em consideração as demandas sociais. Este é um grande legado que a teoria educacional platônicas traz para a posteridade.

Neste sentido, Platão já oferece, mesmo que de maneira ainda incipiente, recursos conceituais para se pensar a educação como um fenômeno eminentemente social, que ocorre no convívio social entre os seres humanos no interior de seus grupos sociais e institucionais.

Contudo, o limite de Platão foi, segundo Dewey, de não ter conseguido delimitar, com mais precisão, a pluralidade indefinida as capacidades e atividades que caracterizam o ser humano ou o grupo social. Ele focou em certas disposições e secundarizou outras, dando mais atenção, por exemplo, aos aspectos cognitivos e menos aos aspectos afetivos e emocionais. Este limite restringiu sua própria visão a um número pequeno de classes de disposições (capacidades) e de organizações sociais.

Platão coloca a ideia do bem como fim último da educação, por meio da qual deve-se determinar quais são as capacidades humanas e as organizações sociais mais importantes para atingir tal finalidade. Com isso está dizendo, simultaneamente, que não há educação com qualidade sem que haja um fim para o qual ela se direciona.

Como a educação entrelaça-se com os modelos provenientes das instituições, costumes e leis, quanto mais justos forem tais modelos, melhor será a própria finalidade da educação.

Dewey visualiza o aspecto circular na teoria platônica da educação: a boa educação depende de instituições, leis e costumes justos, na mesma medida em que tais instituições são resultado de uma boa educação.

O bom entorno social forma bons espíritos na mesma proporção em que espíritos bem cultivados estão na base de instituições com boas leis e bons costumes. Contudo, está boa circularidade dependia da atmosfera democrática inexistente na época de Platão.

Em síntese, Platão foi pioneiro ao atribuir um sentido profundo para a educação: descobrir e desenvolver as capacidades humanas individuais, preparando-as de modo que possam se colocar em contato com as atividades dos demais.

Seu grande limite foi o de não ter percebido a fundo a singularidade do indivíduo. Enfatizou excessivamente o social em detrimento da individualidade do ser humano. Focou demasiadamente no papel do Estado e empalideceu o papel do indivíduo singular.

O filósofo Grego Platão, foi discípulo de Sócrates e professor de Aristóteles. Escreveu sobre uma grande variedade de assuntos, tais como Política, Estética, Cosmologia e Epistemologia. Até hoje fazemos referência ao “Amor Platônico” e aos “Ideais Platônicos”. A busca de Platão pela verdade e pelo conhecimento formou a base de grande parte da Filosofia Ocidental.

 

O que esta crítica nos ensina em termos de educação? Mesmo que a interpretação de Dewey não esteja de todo correta em relação a Platão, nos ensina que a teoria educacional precisa pensar de modo adequado a relação entre indivíduo e sociedade, considerando que a formação de um depende do outro.

Constituído por múltiplas capacidades, o indivíduo é capaz de uma infinidade de combinações que enriquece sempre mais a sociedade, da mesma forma que o cultivo individual de suas disposições espirituais depende de instituições, leis e costumes que valorizem seus talentos e coíbam seus caprichos.

 

O século da psicologia

Os profissionais da psicologia devem cuidar
das relações entre técnicas, máquinas e humanos.
Para ampliar impacto social, a psicologia deve
definir com mais clareza o seu problema, bem como
propor intervenções adequadas para o tratamento do mesmo.

 

A Psicologia como área do conhecimento e como ciência aplicada pode se adaptar e provocar mudanças significativas na sociedade do século XXI. O avanço desta área deve trazer contribuições para situações conflituosas das dimensões subjetivas e sociais, que se apresentam como problemas para a humanidade.

As forças produtoras de mudanças psicológicas e sociais estão sendo compostas por pessoas com maior desenvolvimento cognitivo, que devem desenvolver e cuidar da dimensão mental, afetiva e humana. Esta inteligência advém do conhecimento produzido, especialmente no século XX, pelo modelo apoiado na matéria, com descobertas da constituição e funcionamento da energia.

Paralelamente, a psicologia apesentou descrições revolucionárias das relações entre pensamento, mente cérebro e corpo. As relações e a sintonia mais adequada entre estas dimensões é um ponto de partida importante e está no horizonte da psicologia.

Em uma sociedade ideal (utópica) para o século XXI, as pessoas são educadas pelo reforço do que é positivo. Para isto, se faz necessário aperfeiçoar a democracia, nos sistemas de gestão de escolas e empresas, sejam públicas ou privadas. Para ser bem sucedida a democracia depende da capacidade das pessoas tomarem decisões corretas.

Um dos temas a ser valorizado na capacitação dos profissionais da psicologia deve cuidar das relações entre técnicas, máquinas e humanos.

Para ampliar seu impacto social, a psicologia deve definir com mais clareza o seu problema, bem como propor intervenções adequadas para o tratamento do mesmo.

Neste foco deve estar incluída a responsabilidade dos profissionais responder as demandas sociais crescentes, nos cuidados com as pessoas. Nestes cuidados se incluem soluções que passam pelo convencimento, possibilitando opções por caminhos pacíficos e sustentáveis.

A psicologia tem potencial para ser uma das principais ciências, na escolha individual das pessoas, no método adequado para o aperfeiçoamento da democracia e nos cuidados afetivos.

Por mais mecanizados que humanos se tornem, por mais humanizadas que sejam as máquinas, não há perspectivas de que estas consigam satisfazer necessidades humanas. Dificilmente as máquinas saciarão, por exemplo, a necessidade de afeto, de amor e de sexo, dentre outras.

O ser humano do futuro, provavelmente, será alguém com mais inteligência e com menos contato com outros seres humanos. Esta restrição aos espaços de convivência humana apresenta, entre as consequências, um espaço privilegiado para a psicologia, incluindo a necessidade de aperfeiçoar a sintonia entre o desenvolvimento cognitivo e emocional.

 

Conheça mais sobre a psicologia de crítica social.

 

A África como ela é

Victória Holzbach, jovem jornalista gaúcha, fala, em vídeo enviado diretamente de Moçambique, de sua experiência como missionária em solo africano.

A convivência com o povo moçambicano, durante quase um ano, faz a jornalista reconhecer seu crescimento como pessoa e como cidadã do mundo. Victória destaca que o trabalho cotidiano de cada moçambicano é regado pelo sonho e pela crença de um país melhor. A esperança é o grande ânimo deste povo, num contexto de mudanças rápidas, cheio de inovações e estranhezas de uma África cheia de novidades e diferenças.

Destaca, também, que seu desafio como jovem e jornalista é comunicar uma cultura diferente da sua, a partir da empatia e do conhecimento, que se dão através da convivência e do reconhecimento das diferenças.

Em outra publicação no site, Victória afirma: “Em Moçambique, uma pequena porção da Terra-Mãe, convivemos com um povo que não cansa de trabalhar e lutar por uma vida melhor, seja nos grandes centros ou nos distritos do interior, nas pequenas propriedades rurais familiares ou nas grandes empresas (estrangeiras). Por aqui, em muitos lugares já chegou a energia, o computador, a internet e até o Facebook. Em outros, é claro, a televisão ainda é novidade e carro é coisa para criança curiosa correr atrás.

No local onde vivo, norte de Moçambique, os recursos são realmente poucos. Mas isso não acontece porque é um lugar esquecido ou castigado por Deus.

Precisamos desmistificar a África

Escolas do crime e alternativas de ressocialização de presos no Brasil

O complexo prisional brasileiro precisa urgentemente de reforma,
a começar pelo Congresso Nacional, que também
se tornou um “covil de ladrões”. Todos precisam de conversão.
Não somos mais santos do que qualquer criminoso.

 

Os massacres recentes, ocorridos no início de 2017, revelam e reforçam a tese de que nossas prisões se tornaram “escolas do crime”. (Relembre reportagem do G1 sobre o tema).

Os massacres não foram acidentes, mas realidade do inferno e caos prisional. O porte interno de armas, de drogas e de celulares demonstra que o sistema está corrompido.

É a ponta de um iceberg. Assim está nosso Brasil. A maioria das prisões se tornou universidades do crime, onde se diploma para roubar e matar ainda mais. É lá dentro que se reúnem os bandidos de todas as espécies, podendo arquitetar o mal em conjunto.

Como o provérbio popular diz, a ocasião faz o ladrão. Alerta o salmo primeiro: “Bem-aventurado o homem que não se assenta na roda dos escarnecedores” (Sl 1,1).

O complexo prisional precisa urgentemente de reforma, a começar pelo Congresso Nacional, que também se tornou um “covil de ladrões” (Mc 11,17), ousando repetir as palavras de Jesus no Templo de Jerusalém.

O modelo prisional de Associação de Proteção e Apoio aos Condenados (Apac), como o de Barracão (PR), procura uma alternativa na recuperação do encarcerado. Os próprios presos, chamados de recuperandos, mantém todo o processo de limpeza, cuidados, alimentação, estudo, num modelo que não utiliza policiais, armas ou qualquer tipo de violência. Os apenados recebem ajuda de voluntários em atendimentos psicológicos, religiosos, esportivos e sociais, reduzindo pela metade o custo de um preso, comparado ao sistema tradicional.

 

Saídas e alternativas para degradante situação dos presídios no Brasil

 

Espalhadas por cidades brasileiras, em 40 anos, as Apacs recuperaram 90% dos condenados. Dos 70% de reincidência dos presos do sistema carcerário comum, nelas esse número cai para 10%.

Conheça um pouco da história das Apacs no Brasil através deste audiovisual.

 

É preciso acreditar na conversão do pior bandido e do mais miserável pecador, que será sempre um prisioneiro de seu pecado e de sua própria vontade irracional.

Todos precisam de conversão. Não somos mais santos do que qualquer criminoso.

Conheça o trabalho e as ideias do Juiz de Direito da Vara da Infância e Juventude, Dalmir Franklin de Oliveira Júnior. “Existem autores, entre eles  Alvino Augusto de Sá,  psicólogo que trabalhou no sistema prisional em São Paulo, que diz  “ a possibilidade  de ressocialização passa por uma reaproximação do cárcere com a sociedade”, e  você deixar o sujeito fechado e, após largar na sociedade sem que ele tenha  oportunidades, não vai ter muita função,  não vai ter uma consequência positiva, então, a privação da liberdade tem que permitir essa reaproximação do cárcere com a sociedade, através de projetos com possibilidades e competências que possam ser explorados, distintos dos quais o levaram ao crime”.

Dedilhando sonhos: servindo o bem público e ajudando pessoas

 

São João afirma que quem odeia o seu irmão é um homicida (cf. 1Jo 3,15). Os detentos na prisão são também filhos de Deus, filhos de nosso tempo e nossa sociedade. No Juízo Final, que Deus não nos reprove com essa frase sentencial: “Estive nu e não me vestistes, doente e preso e não me visitastes”(Mt 25,43).

Em outro artigo publicado no site, o professor Nei Alberto Pies alerta para o fato de que as casas prisionais deste país são um verdadeiro depósito de seres humanos e a sociedade brasileira parece não se importar com esta situação desumana. Esperar o que então?

Gente foge e faz rebelião por quê? Responsabilidade de quem?

 

De uma presença ausente: meu pai

 

Um dos grandes ensinamentos de meu querido e saudoso pai
foi ter-me ensinado que, para sobreviver, precisamos de muitas poucas coisas,
mas que precisamos nos apegar ao que é fundamental: a família e a comunidade.

 

Perdi meu pai fazem sete anos. A lacuna da morte de alguém muito próximo da gente, como nosso pai, nossa mãe, nosso irmão ou irmã, amigo ou amiga, avô ou avó, nos remete a um dos mais difíceis aprendizados da vida humana: conviver com a presença/ausência. O desafio que se coloca a todos é reconhecer sentido para a nossa existência, pois a morte de alguém nos remeter para a pergunta sobre o tipo de vida e de relações que construímos de forma individual e coletiva.

Cada um de nós carrega de sentido a sua existência através das relações interpessoais pelas quais nos “fazemos gente”. Por mais que tentemos, ninguém consegue sobreviver e, quiçá, ser feliz sozinho.

Esta característica da interdependência é também, de certeza, um dos maiores desafios de nossa própria humanização, pois conceber-se integrado e conectado com os outros, exige que saibamos lidar com a superação dos próprios egoísmos.

Família e comunidade são essenciais para a realização humana.

 

A vida comunitária, herança de nossas primeiras e mais primitivas comunidades, ressignifica o sentido da morte de uma pessoa. As comunidades religiosas são, sobretudo, o lugar onde fazemos a memória de nossos mortos, buscando apreender seus ensinamentos, exemplos e virtudes.

Na comunidade somos reconhecidos por nossos feitos e desfeitos. São muito mais felizes aqueles que podem desfrutar durante sua vida e no momento de sua morte, dos valores comunitários. Quem tem uma comunidade e leva uma vida comunitária, vive mais feliz e poderá morrer mais feliz ainda.

A comunidade é também o lugar onde damos vazão aos nossos medos, fantasmas e incompreensões, refazendo-nos permanentemente. Por isso mesmo, cada um deve ser reconhecido e tratado com dignidade, pois é a referência de si mesmo – alteridade. A comunidade, por sua vez, é o espaço em que lapidamos o nosso ser pessoal e social, onde ousamos viver a nossa subjetividade, buscando o reconhecimento.

Um dos grandes ensinamentos de meu querido e saudoso pai foi ter-me ensinado que, para sobreviver, precisamos de muitas poucas coisas, mas que precisamos nos apegar ao que é fundamental: a família e a comunidade.

 

Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma… Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa… por isso sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas; pode ser a última vez que as vejamos. Depois de algum tempo. (Autor desconhecido)

 

Ensinou-me ainda, que é preciso amar as crianças e os mais velhos, porque estes são os sujeitos da comunidade que mais precisam de nossa ajuda e proteção.

Meu pai também comprovou, a si mesmo e aos outros, que sempre é bom e necessário reconciliar-se com os outros, para reconciliar-se consigo mesmo. Ensinou-me tantas coisas, demonstrando especial atenção aos valores do trabalho, do amor e a da fé.

Como a maior parte dos pais, soube valorizar as conquistas de seus filhos, como se fossem também as suas. Soube apontar, na medida do seu universo, os caminhos que seus filhos poderiam trilhar. Soube constituir-se sujeito a partir da comunidade. Conviver com a presença/ausência é deparar-se com os interstícios entre as palavras, as ações, os gestos e os exemplos de nossos entes queridos. As lembranças se encarregam de lembrar, permanentemente, que cada pessoa tem algo a nos ensinar, posto ser única, sagrada e genuína.

A presença/ausência é, também, prova de que a vida se faz na experiência compartilhada, nas memórias e nas histórias de todos os que, na comunidade, se fazem protagonistas.

Obrigado pelos grandes ensinamentos, meu pai. Que eu consiga seguir seu exemplo e que esta crônica também sirva de reflexão a todos que já são ou um dia viverão a paternidade, pois esta só tem sentido se for de vida compartilhada.

Comunidade e pertencimento (reflexão em vídeo TV Brasil)

 

 

O que se pode esperar de uma criança da vila?

 

Mantenham essa criança viva e alimentada dentro de vocês,
pois, essa criança aceita desafios, não tem julgamentos prévios ou preconceitos e,
acima de tudo, possui a humildade e a alegria que devemos
celebrar cotidianamente para a harmonia planetária.

 

Inicio esse texto com a seguinte pergunta: “o que se pode esperar de uma criança da vila?” Essa pergunta se faz necessária porque nessa oportunidade íntima de me apresentar com maiores detalhes aos meus queridos leitores e colegas, aproveito para direcionar meu relato também à todas as crianças da vila, pessoas comuns e de origem humilde.

Atualmente sou professora com Ph.D. em universidades dos EUA (Universidade de Washington e Onondaga Community College) e palestrante de diversos cursos nos EUA, Canadá, México, Europa e Brasil. Na minha área profissional sou conhecida como Dr. Bodah, possuo mais de dez livros no Brasil (que podem ser acessados aqui) e quatro entre EUA e Europa.

Sou presidente do Thaines and Bodah Center for Education and development que possibilita intercâmbio entre estudantes, bem como oriento centenas de pesquisas na área da educação, ciências biológicas, ecologia, agricultura, genética e psicologia.

Contudo, tive origens humildes, nasci e me criei no interior do estado do Rio Grande do Sul, Brasil. Minha mãe foi professora (cujos pais agricultores nunca tiveram a chance de frequentar a escola) e meu pai, pedreiro.

Fui uma criança da vila, estudei a maior parte da minha vida em escolas públicas e, com muito esforço, tornei-me professora da rede municipal de Passo Fundo -RS. Uma vida muito corrida, lecionando em várias escolas. Em 2004, consegui uma bolsa para fazer Mestrado em Educação na UPF  sob orientação do Pe. Eli Benincá.

Em uma de nossas conversas, eu estava muito empolgada contando ao Pe. Eli sobre o que eu tinha feito com os estudantes num projeto de educação ambiental, que eles adoraram e as famílias estavam envolvidas e etc.

O Pe. Eli, com toda a sua serenidade, me disse que tudo era muito interessante, mas também me disse que se eu não registrasse essa experiência através da memória escrita, isso se perderia… Então, ele me desafiou a escrever meu primeiro livro: “Educação ambiental para as crianças e seus mestres”.

 

Pe. Elli foi ordenado sacerdote em 03 de julho de 1965 e atuou como coordenador de pastoral e formador dos seminaristas. Na área da educação, o professor e sacerdote assumiu em 1970 a direção do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas e, de 1974 a 1985, dirigiu a Faculdade de Educação da UPF. Mestre em Ciências da Religião e Doutor em Educação, Pe. Elli colaborou na elaboração dos estatutos da atual Itepa Faculdades, trabalhando também como seu primeiro diretor. Elli Benincá foi e é uma grande referênca para educadores da rede municipal e estadual da região norte do RS e que o conheceram, sobretudo, nas suas atividades docentes na UPF (Universidade de Passo Fundo, RS).

 

Na época, esse desafio parecia fora das minhas aptidões, mas aceitei pois, afinal, ele era meu orientador de mestrado… ninguém quer contrariar muito o seu orientador. O livro editado pela Berthier foi lançado na UPF e eu o carregava na bolsa. Minha vida continuou a mesma até uma noite de verão, entre escolas, em uma parada de ônibus. O ônibus estava atrasado, como de práxe durante o horário de pico. Não havia uma grande fila, apenas o usual. Crianças brincando na rua ainda, alguns casais de namorados e frequentadores assíduos de um bar perto da parada com suas vozes altas e embriagadas.

A maior parte de minha vida, até então foi na mesma cidade e isso me causava uma mistura de inquietude e ansiedade.

Olhei para o céu estrelado naquela noite clara e disse: “ai meu Deus… como eu gostaria de conhecer o mundo, se for pra ser…” Entrei no ônibus, que em seguida ficou novamente preso no congestionamente e por acaso uma placa anunciando cursos de idiomas me chamou a atenção. Resolvi descer do ônibus e ver como faria e quanto custaria para cursar inglês.

Ao chegar naquela escola, a secretária me explicou que não havia aulas naquela noite, mas por um acaso, uma professora chamada Daniela Mendonça acabara de chegar dos EUA, estava ali para buscar um material e talvez ela pudesse conversar comigo.

 

Como surgiu a oportunidade de conhecer o mundo, a partir dos EUA?

Quando a professora me recebeu, expliquei que eu queria aprender uma nova língua, cultura e talvez viajar. A professora me perguntou o que eu fazia, eu expliquei que dava aula de ciências para crianças de uma escola pública, que gostava de trabalhar com educação ambiental e mostrei o livro que Pe. Eli havia me desafiado a escrever.

A professora achou muito interessante, me comunicou que não haviam aulas no momento para o que eu queria, mas que poderia conversar novamente comigo sobre eu ir aos EUA para mostrar meu trabalho e dar aulas no Audubon Center of the North Woods para crianças americanas. Outro desafio que para muitos parecia irreal… Os detalhes, inquietudes e frustrações dessa minha jornada do Brasil aos EUA podem ser encontrados na minha última obra: “Ciência, Deus e Sucesso”.

Durante minhas palestras, várias pessoas incrédulas com as conquistas atuais como de ser professora com Ph.D. naturalizada nos EUA há mais de dez anos, olham para minha trajetória inicial, seja de ter sido uma criança da vila que estudou em escola pública, que não tinha fluência em inglês, que não era superdotada, enfim uma pessoa comum que se tornou professora da rede pública de uma escola brasileira. Muitas dessas pessoas pedem orientação de como conseguir o mesmo.

A resposta para esses pedidos sempre foi de que devemos estar atentos para oportunidades e focar no “estudo, persistência, resiliência, dedicação e paixão”. Contudo, ao longos dos últimos dez anos, quando a minha vida realmente deu uma guinada, eu consegui fazer uma análise de como eu atingi o sucesso atual. Alguns de meus colegas podem tentar entender isso como determinação, empreendedorismo, poder espiritual, sorte…

Na verdade, a mensagem que eu gostaria de deixar nesse momento aos meus leitores é apenas a mesma que recebi do Pe. Eli muitos anos atrás: registrem a sua prática… o registro escrito a faz imortal e destrói fronteiras. Claro que além disso, peço que não desistam de seus sonhos, tenham fé e, acima de tudo, não deixem de lado aquela criança que existe dentro de cada um de nós… Para concluir, reporto-me a minha pergunta inicial: “o que se pode esperar de uma criança da vila?”

 

Com o intuito de não perder contato com seus egressos e de mantê-los integrados ao cotidiano da Universidade de Passo Fundo (UPF) foi criada a Associação de Ex-alunos Sempre UPF. Assista aos depoimentos de pessoas que fazem parte dessa história: Elli Benincá.

 

Uma das possíveis respostas para essa pergunta é: “pode-se esperar o que essa criança quiser – o céu é o limite”.  Apenas, mantenham essa criança viva e alimentada dentro de vocês pois essa criança aceita desafios, não tem julgamentos prévios ou preconceitos e, acima de tudo, ela possui a humildade e a alegria que devemos celebrar cotidianamente para a harmonia planetária.

 

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