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Versos e avessos das telefonistas da TELERN

 

O livro de Rosangela Trajano contém 30 poesias
para crianças dedicadas a cada telefonista da Telern.
Cada poesia tem uma ilustração para colorir.

 

Trinta “meninas”, dimensionadas liricamente a partir de aspectos simultaneamente corriqueiros (porque cotidianos), singelos e delicados, são, neste livro, motivo. Motivo para quê? Para a composição de retratos-flagrantes que iluminam personagens quase sempre escondidas por trás de seus gestos de zelo e dedicação.

Do bolo com gosto de flor (“A menina do bolo”) ao curativo feito de carinho (”A menina do curativo”), o livro constrói, poema e poema, um universo de gestos que transborda o que, no exercício de cada profissão e na vivência de atividades ora comuns ora personalíssimas, é inscrição no melhor do humano.

“A menina que ama Jesus” reparte o pão assim como “A menina que dança” reparte sua alma dançarina com a vida. Os “cajus amarelos” da “menina cozinheira” têm a mesma alegria das mesas decoradas pela “menina que decorava mesas”. “A menina que amava ser avó” é fã de seus netos como “A menina fanática” o é em relação a seu cantor predileto. “A menina fotógrafa” é capaz de captar a dor, enquanto “A menina da cozinha italiana” faz da cozinha um prazer à moda de massas. Cada qual com seus atributos e suas ações integra um caleidoscópio de gestos diversos, mas irmanados pela doçura do ponto de vista que os apreende.

Se “A menina assistente social” se assume como porta-voz de valores humanos, “A menina professora” vive o magistério com magia. Se “A menina vovozinha” ama com sabor de tapioca e bolo de chocolate, “A menina do vôlei” joga simbolicamente com mãos de torcedora. Todas, desde “A menina bióloga” à “menina do desenho”, sabem que reside na vivência plena do dia-a-dia a colheita farta de uma vida bem vivida. Por isso, “A menina do trem” estuda e planta, “A menina da motocicleta” crê nos próprios sonhos e “A menina dos cosméticos” colore e perfuma a própria imagem.

Se “A menina das crianças especiais” mergulha nos novos mundos inventados por suas crianças, “A menina das cartinhas” vive a alegria de mediar os encontros que só as palavras podem proporcionar. Se “A menina feliz” é pragmática nos gestos do amor, “A menina filósofa” pensamenteia os sentidos do mundo, e “A menina manicure” encarna a psicóloga que entende de histórias de mãos.

Nessa família de telefonistas, “A menina e seu filhinho”, “A menina que gosta de viajar”, “A menina dona de casa” e “A menina policial”, tal como as demais, ilustram flagrantes de mulheres cuja inserção na vida não pode passar despercebida aos olhos atentos da “menina poeta”, que há anos se dedica ao trabalho com a palavra e ao desejo de despertar, nos pequenos meninos e nas pequenas meninas, o gosto pela leitura e pela escrita.

Todas têm nome. Todas são individualizadas na palavra lírica de Rosângela Trajano, que, se tal como “A telefonista da alegria”, não sabe fingir quando está zangada, entende bem, por outro lado, do significado do “fingimento poético”. Por isso, ela “finge” serem apenas 30 poemas para telefonistas o que são, na verdade, reflexos de uma vida dedicada a fazer o bem, tanto por parte das homenageadas quanto por parte da que as homenageia. Bem sem ponteiros, bem como a “Zero hora”, quando ouvidos e sensibilidades delicadas revelam que há, sim, quem atenda às chamadas de quem não pode dormir.

Que Rosângela Trajano continue vivendo a “zero hora” de cada dia, sempre plena, múltipla e cheia de energia para cantar/contar, por meio de linguagem transparente e melódica, o mundo que nos cerca. Este mundo, habitado por incontáveis personagens dedicadas à arte de SER, que ela, Rosângela, consegue VER.

(Apresentação do livro feita por Christina Ramalho)

 

 

Conheça duas poesias que compõem este precioso livro.

A menina do bolo

Para Márcia, a verdadeira menina do bolo.

 

A menina do bolo
Misturava o açúcar
Na farinha de trigo
Cinco xícaras adoçar.

A menina do bolo
Os ovos quebrava
Misturava na vasilha
Fôrmas que dava.

A menina do bolo
Fazia com amor
Seus lindos bolos
Tinham gosto de flor.

 

A menina do curativo

Para Cris, a minha enfermeira.

 

A menina do curativo
Tinha muita paciência
Amava a enfermagem
Com a sua sapiência.

A menina do curativo
Aplicava a injeção
Com o maior carinho
E gigante coração.

A menina do curativo
Do soro cuidava
Com a criança sorria
Da pediatria gostava.

 

Detalhes da Obra: O livro contém 30 poesias para crianças dedicadas a cada telefonista da Telern. Cada poesia tem uma ilustração para colorir.

Vendas: http://rosangelatrajano.com.br/site/

Carta à menininha do porquinho

Fiquei pensando no seu porquinho e
como ele deve ser um bom ouvinte.
Porquinhos são silenciosos e gostam de ouvir o outro.

 

Querida menininha,

Como vai você? Como vai o seu porquinho? Fiquei muito feliz em saber que você está criando um porquinho. Eles são animais dóceis e nos dão muito carinho. Você diz na sua cartinha que ele passou a ser o seu melhor amigo, fiquei muito feliz com essa notícia!

Logo eu que não tenho amigos de verdade, os meus amigos são todos imaginários. Fiquei pensando no seu porquinho e como ele deve ser um bom ouvinte. Porquinhos são silenciosos e gostam de ouvir o outro.

Menininha, cuide bem do seu porquinho sempre. Somos responsáveis pelos animais que criamos, é a mesma coisa de quando fazemos amizade com os adultos tornamo-nos responsáveis por eles. Apesar dos adultos serem meio incompreensíveis, às vezes. Eu, particularmente, nunca compreendi um adulto.

A minha vida sempre foi voltada para os meus amigos imaginários e o melhor deles é uma galinha a quem dei o nome de Dalva. A minha galinha Dalva vive cacarejando. Penso eu que ela reclama da minha morada ser do lado do sol, não sei. Eu e Dalva gostamos um do outro e isso é o mais importante, apesar dos seus cacarejos quando o sol brilha alto ao meio-dia.

Uma coisa me deixou triste na sua cartinha. Você conta que na fazenda dos seus pais eles abatem os porquinhos para comerem assados e você chora quando isso acontece. Não quero que chore.

Não tente compreender as pessoas grandes, elas têm cajus nas cabeças. Ninguém vai matar o seu porquinho, porque ele é somente seu. Muitas coisas na vida não podem ser somente nossas, mas o seu porquinho pode. Basta você cuidar dele com carinho e se tornará dona do seu coração.

Sabe, menininha, eu ando meio tristonha com os seres humanos. Tanta violência no mundo, tantas crianças passando fome, tantos adultos julgados inocentemente… eu não queria ser um juiz, penso que não saberia julgar ninguém.

Nunca julgue o seu porquinho se acaso ele cometer algum erro, é muito difícil ser julgado. Você agora vai passar as suas tardes de inverno com companhia e isso é maravilhoso. Eu continuo sozinha na minha casinha ouvindo o barulho da chuva no telhado quando ela vem nas tardes de verão.

O seu porquinho gosta da chuva? Conte-me mais sobre ele. Você me disse que ele gosta de comer cocadas! Achei estranho, porém ele é um porquinho que gosta das doçuras da vida.

Tenho que terminar a minha cartinha, menininha. A chaleira grita no fogão e eu preciso tomar o meu chá da tarde. Estou faminta. Escreva para mim assim que puder e me mande um desenho do seu porquinho, daqueles desenhos que só você sabe fazer.

 

Um abraço,
A sua poeta.
Natal-RN, 26 de julho de 2017.

 

 

O Preço da Sabedoria

 

Conta a história de uma máquina poderosa, mas que um dia paralisou.
Para consertá-la foram contratados três profissionais.
Somente um deles, com sábios atributos,
no tempo de um segundo, a pôs a funcionar.
A sabedoria tem seu preço.

 

Em uma grande fábrica havia uma máquina-mãe, que comandava todas as outras. Caso ela falhasse, falhariam, tipo dominó, as outras, paralisando a indústria. Mas tanto foi, até que, um dia, ela falhou. Então tudo ficou paralisado.

Preocupado, o dono da fábrica foi ao Conselho Consultivo para relatar o ocorrido e solicitar ajuda, pois os prejuízos diários seriam enormes.

Um conselheiro lhe sugeriu:

– Conheço um tal de “Faz-tudo”. Tenho certeza de que ele conseguirá retificar a máquina. E tem mais um detalhe importante: ele cobra barato!

– Mandem chamá-lo, ordenou o empresário.

Chegado o “Faz-tudo”, observou atentamente a máquina e disse:

– Preciso de um dia para consertá-la.

O homem trabalhou dia todo procurando descobrir o defeito. Nada conseguindo, procurou o chefe e disse:

– A máquina é muito sofisticada! Levantei várias hipóteses, mas, infelizmente, não consegui localizar o problema.

Preocupadíssimo com o dia sem produção, o empresário consultou um amigo, o qual foi taxativo:

– Indicarei um técnico especializado. Porém, vou te avisando que ele cobra muito bem pelo serviço!

– Não importa. Agora a prioridade é fazer a máquina-mãe funcionar. Estamos com a produção zerada. A gente negocia o preço do conserto. Chamam o tal técnico imediatamente! E assim foi feito.

Quando ele chegou, olhou, analisou a máquina e disse:

– Precisarei de dois dias para fazê-la funcionar.

O sujeito trabalhou exaustivamente durante os dois dias. Ao final, comunicou o dono e disse:

– Sinto muito! Estou triste por não conseguir fazer a máquina-mãe funcionar! Depois retirou-se calado.

Indignado, o empresário falou:

– Há três dias que estamos totalmente paralisados. Assim vamos falir! Pelo amor de Deus, temos que encontrar alguém competente, que dê vida à máquina-mãe!

No fundo da fala, um humilde funcionário sugeriu:

– Conheço um engenheiro mecânico. Ele, com certeza, dará vida à máquina-mãe. Porém, já vou adiantando que ele cobra caro!

– Mandem buscá-lo agora! O que interessa é que ele seja sábio. O preço, a essa hora, parece ser secundário, pois a fábrica não pode ficar inativa. Todos dependemos dela.

Quando o engenheiro mecânico chegou, foi direto àquela poderosa máquina. Nada falou. Apenas girou uma peça. Pronto! Em um segundo a bendita máquina-mãe voltou a funcionar.

Em seguida, o engenheiro foi conduzido ao gabinete do empresário.

– Parabéns pelo trabalho e pela rapidez no conserto da máquina-mãe! Quanto te devemos?

Ele foi taxativo:

– Dez mil e um reais!

– Estás ficando louco! Dez mil e um reais por um segundo de trabalho? É extorsão!

O engenheiro mecânico nada disse. Apenas bebeu uma xícara de café. O industrial, aos poucos, foi se conformando, a ponto de lhe solicitar uma nota fiscal com os valores discriminados.

O engenheiro, calmamente, preencheu a nota:

– R$ 1,0 pela mão-de-obra; R$ 10.000,00 pela sabedoria em localizar, em um segundo, o defeito da máquina-mãe.

E ensinou:

– Teu barato te custou muito caro, pois contratando pessoas incompetentes, perdeste três dias de produção. Da minha parte, levei anos para cursar uma boa faculdade. Ralei noites a fio, preparando-me para as provas, exames e estágios. E mais, continuo a viajar em busca dos saberes globalizados. Tudo tem seu preço, Senhor!

E retirou-se consciente e tranquilo da missão cumprida. Até que, noutro dia, novamente o engenheiro foi chamado para…

Mas esta já é outra história.

 

 

A educação como uma borboleta: o néctar dos deuses

 

A educação ambiental vem a ser a crisálida,
a capa de proteção que possibilita a reflexão do ser humano
para reconduzir suas ações e interações com o meio
e com os outros seres humanos.

 

Quando penso em educação, especialmente educação socioambiental sempre vem a tona a estória a seguir relatada por um colega ambientalista e adaptada de minha dissertação de mestrado em 2006, quando ainda morava no Brasil… temos muito que aprender com a natureza.

“Certa vez, um ambientalista estava desenvolvendo um trabalho de campo e observou uma linda borboleta. Achou-a tão exótica que a seguiu até seu pouso numa árvore. Parou muito próximo da espécie lepidóptera e falou: _ Ó borboleta, o que fazes aí?

Obviamente, que a borboleta não o respondeu e ainda sentiu-se intimidada. Levantou vôo, mas no local de seu pouso ficaram alguns pontinhos coloridos – os ovos. O ambientalista sentou na frente dos ovos e por ali ficou. Caiu a noite, amanheceu, veio a chuva e ali estava o ambientalista, observando… até que de repente, os ovos eclodiram e surgiram no lugar muitas lagartas. As lagartas evoraram o que existia em seu meio, corroeram as folhas e o tronco com voracidade. E o ambientalista permanecia observando.

Num outro momento as lagartas empuparam, esconderam-se dentro das crisálidas, fechadas em si mesmas. Não destruíam, não se agitavam, o silêncio era espantoso. Após alguns dias, romperam-se as crisálidas e delas saíram lindas borboletas, lagartas irreconhecíveis por suas asas e cores, mas iguaizinhas a primeira borboleta seguida pelo ambientalista. O observador, feliz porque poderia ter novamente uma chance de conversar com a linda lepidóptera. Correu para junto de uma e disse: _ Agora você não escapa. Dize-me: ó borboleta o que fazes aí?

A borboleta resolveu aquietar o coração daquele que dedicou muito tempo a lhe observar e respondeu: _ Durante grande parte de minha vida (lagarta) passei degradando o meio no qual vivi. De repente caí em mim e mergulhei em profunda reflexão (pupa). Agora que criei asas (adulta), só quero sugar o néctar dos deuses e plantar a vida”.

 

Após ouvir a sábia borboleta, o ambientalista, voltou a si próprio e passou a ressignificar sua prática.” Pode-se estender essa reflexão à trajetória da humanidade no planeta Terra. Durante algum tempo, guiados pelo “desenvolvimento a qualquer custo”, principalmente na “modernidade”, muitos seres humanos revelaram seu estágio larvário – viveram como lagartas, degradando e destruindo seu meio com voracidade. Porém, acredita-se que isso foi uma etapa da evolução da espécie.

A educação ambiental vem a ser a crisálida, a capa de proteção que possibilita a reflexão do ser humano para reconduzir suas ações e interações com o meio e com os outros seres humanos.

Depois de longas discussões sobre a educação ambiental, é possível que a crisálida seja rompida. Que os seres humanos criem asas, e que essas os conduzam para um novo momento, um momento de liberdade, de uma nova ação.

Para finalizar pode-se pensar que essa nova ação livre seja de apenas querer sugar o néctar dos deuses e plantar a vida, como fez a sábia lepidóptera. A práxis gerada nesse processo conduz o olhar para dentro de si, para o outro e para o meio, redirecionando o processo pedagógico, social e ambiental, contribuindo para a tão sonhada sustentabilidade planetária.

 

Eliane Thaines Bodah, em sua passagem por Passo Fundo, participou de Ciranda dos Saberes do CMP Sindicato. Na oportunidade, pode falar aos colegas daqui das suas experiências do lado de lá: dos EUA. “Eliane Thaines Bodah que dividiu com os professores da rede municipal os detalhes de como os EUA vem lidando com esses problemas de maneira comparativa, propiciando experiências e possíveis técnicas que podem ser adaptadas ou ressignificadas para a realidade brasileira, bem como os aspectos positivos da educação nos dois países”.

 

A nova tríade da Jornada: Alice Ruiz, Augusto Massi e Felipe Pena

 

Novos coordenadores do palco de debates da Jornada
têm visão ampla da literatura, são críticos da literatura
e bem articulados no meio literário.

 

O Palco de Debates da 16ª Jornada Nacional de Literatura ressurge, nesta edição, dentro da grande lona, agora denominada Espaço Suassuna. Para comandar os palcos de debates, foram convidados os escritores Augusto Massi, Felipe Pena e Alice Ruiz. As mesas abordarão as seguintes temáticas “Por elas: a arte canta a igualdade”, “Centauro, pedra, rosa e estrela: Scliar, Suassuna, Drummond, Clarice”, “Monstros e outros medos colecionáveis” e “Literatura e imagem: além dos limites do real”. A Jornada acontece de 2 a 6 de outubro de 2017, em Passo Fundo.

Autores com visão ampla da literatura, críticos da literatura e articulados no meio literário. Esses foram alguns dos fatores que definiram os novos coordenadores dos debates da Jornada. Um deles é a poeta Alice Ruiz, autora de mais de 20 livros, entre poesia, traduções e uma história infantil. Compositora de letras musicais, já ganhou vários prêmios, incluindo o Jabuti de Poesia, de 1989, pelo livro “Vice Versos” e o Jabuti de Poesia, de 2009, pelo livro “Dois em Um”. “Alice é uma poeta consagrada e que tem uma produção bastante vinculada a movimentos de vanguarda e aos estudos dos haikais. Será uma grande honra para a Jornada tê-la conosco”, salienta uma das coordenadoras da Jornada, Fabiane Verardi Burlamaque.

Para Alice, que já participou da Jornada em 1991, dessa vez é como estar do outro lado do balcão, desempenhando um papel completamente diferente. “E eu achei maravilhoso isso porque desafia, e tudo que nos desafia é bem-vindo. Eu estava pensando bastante em como conduzir esses debates e quero conhecer bem os autores que eu vou mediar. Acho que tudo que eu já admirei em mediações das quais eu era a mediada e tudo que eu achei que não se deve fazer eu vou levar em conta para desempenhar essa função”, comenta Alice.

O outro coordenador de debates, Augusto Massi, é mestre em Literatura Espanhola e Hispano-America (1992), doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (2004), além de ser jornalista, professor, poeta, editor e crítico em publicações relacionadas à poesia modernista, crônica e memorialismo, prosa e poesia contemporâneas. “Augusto Massi é professor, pesquisador da teoria literária, trabalhou como editor e crítico literário. Estamos muito contentes em receber essa grande referência da literatura”, enfatiza Fabiane.

Massi nunca participou diretamente das Jornadas, mas acompanhou de perto e tem a maior admiração por essa movimentação literária. “Embora nunca tenha participado, sempre soube da importância das Jornadas, porque acompanho esse movimento de perto, como editor e também escritor. As Jornadas têm essa característica de ser uma festa com a participação de escritores nacionais e internacionais. Fiquei muito honrado com o convite para essa nova experiência como coordenador de debates”, destaca o escritor.

Para completar a tríade de debatedores, está o jornalista Felipe Pena, escritor, psicólogo, professor, doutor em Literatura pela PUC-Rio, com pós-doutorado pela Paris/Sorbonne. O envolvimento do escritor com a literatura começou muito cedo. “Quando eu tinha quatro anos de idade, meu avô espanhol ficava lendo contos galegos e russos, poemas de Rosalía de Castro, contos de Tolstói. Dá pra imaginar? Esse foi meu primeiro contato com poemas e contos altamente complexos. Pela minha própria formação, tudo na minha vida tem a ver com a escrita. Eu vivo de escrever. A escrita é meu pão, como professor, como roteirista, como psicanalista, como romancista, tudo que me sustenta vem da escrita”, declara Pena.

Para o também coordenador da Jornada Nacional de Literatura, Miguel Rettenmaier, Felipe Pena é um pesquisador que se interessa pela literatura além dos limites do cânone, ou seja, fora de um padrão estético consagrado. Rettenmaier cita, por exemplo, a obra Geração Subzero, organizada pelo escritor, que reúne uma coletânea de contos de vinte autores que, frequentemente, não são levados a sério pelo restrito mundo dos críticos literários. “É o criador da expressão ‘Geração Subzero’, relativa a escritores que são adorados pelo público, mas esquecidos, ‘congelados’ pela academia e pela crítica. Queríamos alguém com uma visão ampla da estética literária, pluralizada em várias tendências”, pontua Rettenmaier.

 

Inscrições para a Jornada encerram no dia 21 de agosto

A 16ª Jornada Nacional de Literatura e a 8ª Jornadinha Nacional de Literatura são realizadas pela Universidade de Passo Fundo (UPF) e pela Prefeitura de Passo Fundo. Os eventos contam com os patrocínios do Banrisul, da Corsan, do Sesi, da BSBIOS e da Companhia Zaffari & Bourbon e com o apoio do Ministério da Cultura, além da parceria cultural do Sesc, dentre outras empresas e órgãos. As inscrições para a Jornada e para a Jornadinha estão abertas e são limitadas. Os interessados devem se inscrever no portal www.upf.br/16jornada. A programação completa também está disponível no site da Jornada. Informações podem ser obtidas pelo e-mail jornada@upf.br ou pelo telefone (54) 3316-8368.

 

Sobre os autores

Alice Ruiz

Alice Ruiz é poeta e compositora. Ministra palestras e oficinas de haikai no Brasil, desde 1990. Tem mais de 20 livros publicados de poesia, traduções e livros para crianças. Dois prêmios Jabuti de poesia e cinco livros incluídos no PNBE. Participação em antologias no Brasil, México, Argentina, Espanha, Irlanda, Bélgica e USA.

Como compositora, tem parcerias com Arnaldo Antunes, Chico César, Itamar Assumpção, José Miguel Wisnik, Luiz Tatit, Ná Ozzetti, Waltel Branco, Zeca Baleiro e Zélia Duncan, entre outros.

Foi gravada também por Cássia Eller, Adriana Calcanhoto e Gal Costa. Lançou, pela Duncan Discos, com Alzira Espíndola, o CD de música e poesia “Paralelas”. Em 2007, Rogéria Holtz lançou o CD “No País de Alice”, só com letras de Alice Ruiz.

 

 

 

Augusto Massi

Graduado em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1983), mestre em Literatura Espanhola e Hispano-America (1992) e doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (2004). Desde 1990, trabalha como professor de Literatura Brasileira na Universidade São Paulo.

Tem atuado como poeta, crítico e editor, com ênfase em publicações relacionadas à poesia modernista (Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Murilo Mendes, Raul Bopp e João Cabral de Melo Neto), à crônica e ao memorialismo (Machado de Assis, Lima Barreto, Rubem Braga, Iberê Camargo e Cícero Dias) e a prosa e poesia contemporâneas (Dyonélio Machado, Otto Lara Resende, Dalton Trevisan, Raduan Nassar, Chico Buarque de Holanda, Francisco Alvim, Cacaso, Adélia Prado, Orides Fontela).

 

 

Felipe Pena

Felipe Pena é jornalista, escritor e psicanalista, com doutorado em Letras pela PUC-Rio e pós-doutorado em Semiologia da Imagem pela Universidade de Paris, a Sorbonne 3. Foi visiting scholar da New York University e professor visitante da Universidade de Salamanca. Professor associado da Universidade Federal Fluminense, é autor de 15 livros, entre romances, biografias, crônicas e ensaios sobre comunicação e cultura.

Foi duas vezes finalista do prêmio Jabuti, uma delas com o livro “No jornalismo não há fibrose” e outra com a biografia “Seu Adolpho”. É colunista do jornal Extra, no Rio de Janeiro, diretor da Sociedade Brasileira de Estudos da Comunicação e roteirista de TV. Foi comentarista do programa Estúdio I da GloboNews, diretor de análise de conteúdo da Rede Globo e sub-reitor da Universidade Estácio de Sá.

Eles testam a anestesia geral

 

A direita está certa de que
não acontecerá nada de mais grave.
Que o Brasil continuará inerte, amorfo, anestesiado.
E, continuando assim, que se prepare então o novo golpe.
O Brasil amorfo talvez não tenha eleição para presidente em 2018.

 

A direita que controla o Brasil, em todas as áreas e instâncias, calibra suas ações pensando nas reações ao que faz. Sérgio Moro avisou que chegou a pensar em mandar prender Lula, mas depois decidiu ser prudente. Poderia haver um trauma político. Foi o que disse na sentença de condenação.

Moro aplicou a dose mais ‘branda’ do veneno que tem à mão, fez o previsível e condenou Lula. Até poderia prender, mas a condenação já seria suficiente para o primeiro teste. Condenou e não percebeu reação fora das redes sociais e de algumas ‘análises técnicas’. Quase ninguém foi às ruas.

E se tivesse mandado prender, o que aconteceria? Moro não quis pagar pra ver, até porque poderia perder o apoio dos ‘liberais’ do meio jurídico, todos tão quietinhos (com as exceções de sempre).

O que importa é que Sérgio Moro, o jaburu, os tucanos, o Ministério Público, todos estão calibrando o que fazem pensando sempre na possibilidade de contestação popular. E não há contestação nenhuma, por enquanto. Há as reações das controvérsias variadas e só.

O jaburu vai manobrando como quer e rearticulando forças táticas, para sobreviver à semana seguinte, porque sabe que não há reação além da virtual.

Ninguém reage a mais nada desde o golpe de agosto. Daqui a pouco, teremos mais um teste, com a revalidação ou não da condenação de Lula pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região em Porto Alegre. Se a condenação for reafirmada e Lula se tornar inelegível (podendo até ser preso), o que acontecerá? É o que a direita se pergunta.

E a direita está certa de que não acontecerá nada de mais grave. Que o Brasil continuará inerte, amorfo, anestesiado. E, continuando assim, que se prepare então o novo golpe. O Brasil amorfo talvez não tenha eleição para presidente em 2018.

Se a economia reagir, se a Globo conseguir restabelecer seus pactos com quem estiver no poder, se as perspectivas forem de retomada da ‘normalidade’, a direita se dedicará ao grande projeto sonhado desde agosto.

O Brasil não terá Lula, não terá eleições e não saberá mais com o que poderá contar, depois de perder leis trabalhistas, previdência e, quem sabe, até o SUS como existe hoje.

Quem duvidar, quem acha que nada disso seja possível estará apenas repetindo a postura dos que duvidavam do golpe e duvidavam até que o jaburu chegaria ao poder e que o povo continuaria calado.

A direita empresarial e política e a direita do Ministério Público e do Judiciário acham que o povo não é de nada. E o povo não reage e não diz nada que possa fazê-los pensar o contrário. Seremos governados pelo pato amarelo.

Aonde a mala leva?

 

A mala, que a princípio teria apenas utilidade, passa a necessitar de estética.
Por estética, transformamos casas em lares, camas em aconchego,
mesas em ceia, roupas em moda, cidades em centros urbanos.
Pela estética o útil serve-nos do belo e a existência pinta-se de vida.

 

O que seria uma boa mala? Resposta masculina: uma boa mala deve ser grande, forte, capaz de guardar e proteger muitas roupas. Deve ter uma alça fácil de pegar, reforços. Para terminar, uma boa mala deve ser barata. Nenhum homem gostaria de gastar muito numa mala. Para carregar as roupas, serve qualquer sacola de supermercado.

As mulheres têm o dom de transformar coisas úteis e simples, em belas e complexas.

A mala, que a princípio teria apenas utilidade, passa a necessitar de estética.

Minha mulher me ensina que uma mala precisa de beleza e costuras bem-acabadas. Forro, várias entradas para a separação das roupas segundo fios e texturas, por cores e turnos de uso. Um espaço para meias, cuecas e calcinhas, perfumes…

Uma mulher revela pequenas importâncias. Cor e forma, rodinhas de silicone, costuras bem-acabadas e zíperes com dupla abertura. Detalhes fundamentais das malas boas.

De mala leve, sua viagem será muito mais alegre e feliz porque a felicidade não é uma coisa grande e pesada. A felicidade é um monte de coisinhas que nos tornam mais próximos uns dos outros, mais companheiros, satisfeitos com aquilo que temos e, sobretudo, com aquilo que somos”. (Rosane Rupolo Mendes, 09/02/2017)

 

Duas semanas pesquisando os preços, analisando cores e tamanhos, tecidos, costuras, bolsos e alças. Por fim, a compra que eu pensara finda em cinco minutos, apesar de toda a pesquisa, gastou-me cinco horas de uma tarde. Além do tempo, a mala consumiu dinheiro equivalente ao pacote da viagem.

O sentido estético não é apenas feminino, é inerente ao ser humano como os detalhes das malas, embora nas mulheres, por motivos óbvios, adquiriu ênfase próprio. Até minha mãe, simples cabocla e camponesa, almejava a beleza em seus feitos.

Intuitivamente criava formas geométricas com o milho, a beterraba, o tomate, a couve e a cenoura. Sobre as gastas tábuas de grápia da mesa, dispunha as comidas e cores, os pratos e a toalha, em paisagem única.

O que era apenas para encher a barriga, ultrapassava a função e utilidade. Entre o chiqueiro e a estrebaria, a beleza também desfilava na roça. Embora analfabeta, além da cultura do milho e das favas, ensinava-nos outra.

Por estética, transformamos as casas em lares, as camas em aconchego, as mesas em ceia, as roupas em moda, as cidades em centros urbanos.

Pela estética o útil serve-nos do belo e a existência pinta-se de vida.

Pelo gosto estético nos apaixonamos pela fada e não pela bruxa, damos corte e não tosa ao cabelo, as aberturas passam a ser janelas, os bancos viram poltronas. Por estética o agarramento torna-se abraço e a mordida beijo.

A estética transmuta o animal humano em pessoa, o pedreiro em arquiteto, a costureira em estilista, o anunciante em publicitário, a lei em Direito, a religião em espiritualidade, o narrador em escritor, o professor em mestre, o asceta em santo, o barulho em música, a pedra em mármore, a estrada em caminho, o sexo em amor, um lingote de ferro acorda numa manhã feito escultura.

 

Em outro artigo, o autor fala também da importância da arte: “Falta sensibilidade nas escolas porque falta arte. E quando a arte está presente, é mais como conteúdo, não como fruição. Com pouca arte, há pouco humanismo nas escolas, há pouco afeto, há pouca ternura”.

Escolas desencantadas

 

A estética invadiu a disposição das frutas no supermercado, as impressoras e os computadores, as fábricas e os tambos.

Pela estética sumiu a palidez dos cadáveres, os cemitérios tornam-se jardins de paz.

Graças à estética, descobri, ao lavar as mãos para digitar esta crônica no notebook, (recomendação do manual) que o sabonete aqui do hotel, em tons de azul, combina com as toalhas e os azulejos, com o tapete e as cortinas e, pasmem, com os tons da polêmica mala, motivo de discórdia da viagem.

 

Mulher não é isca!

A diferença de preço no ingresso das festas é reflexo de uma sociedade que
fomenta a cultura machista, reforçando papeis de gênero e a relação de poder.
O homem é o provedor e por ter independência financeira, deve pagar mais.

 

Oferecer preços mais baixos e até gratuidade para as mulheres nas baladas é prática comum em todo o território brasileiro e virou pauta de discussão nas últimas semanas, quando a juíza do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, Caroline Santos Lima, declarou não haver dúvida de que “a diferenciação de preço com base exclusivamente no gênero do consumidor não encontra respaldo no ordenamento jurídico”.

A magistrada afirmou ser inadmissível que os empresários usem a mulher como espécie de “insumo” para a atividade econômica, “servindo como ‘isca’ para atrair clientes do sexo masculino para seu estabelecimento”.

Como há muito tempo as feministas já alertavam, essa prática é ofensiva à dignidade das mulheres.

Em outro artigo publicado no site, a autora descreve situações rotineiras onde a mulher ainda é vista como objeto sexual dos homens, sendo constrangida e desvalorizada na sociedade pelo simples fato de ser mulher.

Todo mundo quer ser mulher?

 

Essa diferença de preço no ingresso das festas é reflexo de uma sociedade que fomenta a cultura machista, reforçando papeis de gênero e a relação de poder. O homem é o provedor e por ter independência financeira, deve pagar mais. Ele ainda é estimulado a conquistar várias mulheres, “pois esse é seu instinto natural”.

A mulher seria o produto pelo qual o homem está pagando e do qual pode usufruir durante a festa. Vale lembrar que é esperado que a mesma aceite os carinhos/bebidas/contatos oferecidos pelo homem, que pagou a mais para estar naquele lugar e inclusive permite que ela esteja ali.

As desculpas são várias. Elas bebem menos. Elas gastam mais para se arrumar. Elas precisam ser valorizadas…, mas a verdade é que as mulheres servem sim como isca para encher o estabelecimento de homens, já que se parte do pressuposto que quanto maior o “leque” de mulheres disponíveis nas festas, melhor para atrair muitos homens que querem tentar levar alguma para casa.

De fato, boa parte das mulheres não se importa com a diferenciação de preços e muitas defendem o valor diferenciado. Todavia isso só acontece por não terem a consciência de que essa é uma forma de perpetuar a desigualdade e a objetificação da mulher.

Essa diferenciação de preço é um efeito de algo muito maior e só faz sentido porque existe a naturalização do sexismo dentro da sociedade.

 

Em artigo publicado no site, professor Nei Alberto Pies afirma: “Sou solidário das lutas feministas. Além de solidariedade, quero dividir convicção de que o conhecimento, a valorização e a participação ativa na vida da sociedade são as mais importantes ferramentas para enfrentar a discriminação e a violência a que são injustamente submetidas mulheres do Brasil e do mundo.

Em homenagem às mulheres, assumamos: somos machistas!

 

O Ministério Público do Distrito Federal abriu inquérito civil público para apurar a prática e poderá promover uma ação coletiva.

Ao instaurar a investigação, o promotor de Justiça Paulo Roberto Binicheski se pronunciou referenciando de um debate semelhante que ocorreu no estado norte-americano de Nova Jersey, nos anos 1990, e que o caso foi pacificado com a criação de uma lei para proibir os preços diferenciados com base no gênero.

Ao mesmo tempo já tramita no Congresso Nacional um projeto de lei apresentado pelo deputado Marcelo Squassoni (PRB-SP) que prevê a punição para empresas que tiverem variação do preço de entrada e de consumação em boates e eventos com base em sexo, gênero ou identidade. O projeto está em fase inicial de tramitação e, se aprovado, ainda precisa passar pelo Senado.

A criação de uma jurisprudência sobre o caso se mostrou a forma mais eficaz de combater as práticas abusivas há tanto tempo apontadas pelas feministas.

Um grande passo.
Sigamos.

 

A luta, o raciocínio e o sentimento

 

Apresento-me através destes dois textos crítico-poéticos.
A escrita, para mim, resulta sempre da necessidade
de comunicar o que vivo e o que sinto,
em cada contexto e momento histórico.

 

A luta, o raciocínio e o sentimento

Quero ser aquele que pensa, mas que também sente.
Aquele que vive da fusão do coração e da mente.
Para lutar, o raciocínio, que me faz olhar pra frente.
Para lutar, o motivo, que me faz perceber essa gente.

Essa gente é o coletivo, que num abraço me faz vivo.
O coletivo me faz forte, e à luta me confere suporte.
Mas raciocinar não é o bastante.
Para uma luta ser interessante, é necessário o “sentir” constante.

O próprio ato de sentir e raciocinar parecem contradição.
Mas quando a razão se divorcia do coração.
Somos apenas cabeças que rolam pelo chão.
Ou sentimentais irremediáveis vivendo na ilusão.

E quando o caminhar é acompanhado, sentido e pensado.
As marcas que deixamos são por mil multiplicadas.
Então todo o esforço de pensar e sentir que foi rebuscado.
Revelará os contornos do triunfo por luta forjado.

 

A consciência de um homem

De que vale a (cons)ciência de um homem?
Se a tirania como essência lhe consome.
No ato do respeito o homem se liberta.
E a resposta à estupidez, com ternura, desconcerta.

O homem colérico tem como carma o delírio.
E como impulso raivoso crava na alma o estírio.
Ao mito de Narciso, não se permite igualitário.
Agradeço à Natureza ter me feito revolucionário.

Para ser um socialista não existe melhor idade.
A intimidade nesse caso é com a tal Capacidade.
Ao olhar meu semelhante me desnudo da vaidade.
Refuto minha imagem como modelo ou santidade.
Reconheço os humanos como palco da diversidade.

Não que ser socialista, seja mais, ou seja, menos.
O ato de rotular é que nos torna pequenos.
O sufixo “ista”, diz a regra, indica ideia radical.
E só quem te defende, tem nas veias sangue sindical!!

A poesia é necessária à rotina das pessoas. Costuma-se dizer que a arte revela a realidade. Na verdade, ela inventa. A arte existe porque a vida não basta. O homem está sempre querendo que a vida seja mais bela do que ela é.” (Poeta Ferreira Gullar)

 

Sem brilho nos olhares das nossas crianças!

 

“Se não vejo na criança uma criança,
é porque alguém a violentou antes
e o que vejo é o que sobrou de
tudo o que lhe foi tirado.”
Betinho

 

As inserções que vemos na TV como as do Médicos sem Fronteiras por ajuda, deixam-nos devastados de dor, por vermos campos de refugiados e cenas de guerra onde crianças morrem ou apenas sobrevivem por causa da fome, das doenças, das epidemias e da violência. São retratos da brutalidade com que os pequenos são tratados em nome da conquista por território, pelo fanatismo predador e pelas decisões de adultos indiferentes ao sofrimento de milhões de criaturas que arrastam sua desgraça pelo mundo.

Ninguém é igual a ninguém! (versão Crianças)

 

Herbert José de Souza (Betinho) morreu antes de ver que os nossos pequenos compatriotas estão, em grande medida, perdendo o brilho no olhar por causa do medo. Nosso país onde a vastidão territorial nos oferece tudo é um campo de guerra de uma crueldade camuflada. Vivemos uma matança pior do que em guerra declarada, o que disfarça nossa condição de um país pacífico. A infância brasileira está sendo vampirizada pelo crime organizado, em todas as suas dimensões.

Herbert José de Sousa (Betinho)

Ninguém ignora os crimes do tráfico de drogas alimentados pela teimosia fundamentalista em não aceitar formas inteligentes de combate, preferindo encarcerar homens e mulheres pobres, enquanto jatinhos e helicópteros singram os ares pátrios transportando produtos cujos donos são também os donos do país, na medida em que ocupam cargos capazes de decidir sobre os nossos destinos.

Também não ignoramos a rapinagem vergonhosa e institucionalizada, que deixa as escolas em estado de penúria, os hospitais sem condições de atendimento digno, os professores em estado de permanente luta pela sobrevivência e, cansados, doentes, sem condições de oferecerem o que têm de melhor, que é o exercício da profissão em sua plenitude. Sabemos da incapacidade que as instituições de saúde e de educação têm de cuidar da nossa infância como merece. Hospitais e escolas funcionam em permanente precariedade.

Sabe-se agora dos conluios entre empresas de transporte público e o poder. Enquanto o povo é transportado em carroças, pagando valores irreais, deputados são pagos pelos donos das sucatas para aprovar mais aumentos, à revelia dos direitos do povo de ir e vir. Segundo empresários do setor, estão sendo achacados pelos poderes legislativos pelo país afora.

As balas perdidas que matam crianças dentro de casa e nas escolas partem da guerra entre bandidos e polícia, deixando em seu rastro famílias destroçadas, que choram a perda de seus filhos e outras devastadas pelo medo.

“A alma da fome é política.” Esta frase é do sociólogo Herbert José de Souza, mais conhecido como Betinho, homenageado desta semana no De Lá Pra Cá.

 

Os direitos das crianças, incensadas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, são usurpados de norte a sul, por canalhas incensados pelas urnas, ou alçados ao poder por práticas no mínimo questionáveis.

Vivemos tempos de guerra, cujo campo não respeita as ruas que rugem por justiça social, onde as balas de borracha zunem, o spray de pimenta machuca e os cassetetes desrespeitam professores, funcionários com salários atrasados, enquanto a roubalheira corre solta.

Urge que cuidemos da infância, para que não tenhamos só o que sobrou dela, mas que ela seja preservada. Nossa luta pelos nossos filhos destoa da atitude presidencial em sua viagem a Hamburgo para uma participação relampado no G20, que, por não querer parar nas Ilhas Canárias para reabastecer o avião, resolveu voar em um avião maior, infinitamente mais caro, o que é um deboche a um país em crise. Isto é uma demonstração simbólica do que o Estado faz pelo país.

Queremos sorrisos, tranquilidade, comida boa, lazer, escolas bonitas e seguras, professores e professoras cuidados e bem pagos, condições dignas de transporte público, pais confiantes e crianças cujo brilho não tenha sido roubado. É pedir muito?

É difícil concluir que tudo isso é possível, desde que o fruto do nosso trabalho não seja roubado sistematicamente. Nós merecemos! Nossos filhos merecem! E as ruas exigem cada vez com mais veemência!

Para falar sobre felicidade, convidamos quem é pós-graduado no assunto.
As grandes transformações acontecem quando olhamos o mundo pelos olhos das crianças.

 

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