“Ainda é cedo amor, mal começaste a conhecer a vida…” (¹)
Quem tem coragem para falar aos adolescentes que ouçam o seu coração, que estejam prontos para amar assim que um olhar bater em seus olhos, assim que aquele frio tomar seu estômago… E que amem sem parar, sempre que uma chama arder em seus pés, sem queimar…
Eu não tenho!
Sempre aconselhei minhas filhas para estudar primeiro.
_ Vocês têm uma vida inteira pra namorar, dançar e namorar intensamente, viajar e namorar, mais ainda… Casar. Agora, aproveitem e estudem!
Foi o que eu falei.
E foi um exemplo que não dei. Segui meu colega Joaquim. Vamos lá:
_Era apenas uma tarde de abril, anunciando um frio que se avizinhava, em nuvens apressadas que corriam sem rumo sobre o céu, como vitrais quebrados enlouquecidos – foi o que ele me falou.
Sentindo que o relato era de um coração aquecido, perguntei qual fagulha tinha queimado seus pés? Conversa de um colega sóbrio é que não era. Então, foi me contando… Isso porque para se entorpecer de amor não se consideram os anos.
_ Sabe, não há motivos em nosso mundo dos 16 para virmos à escola, enfrentarmos tanto tédio, senão por esperar vê-la subir as escadas…
Eu a via caminhando, falava ele, e ela não andava; seus pés eram de uma leveza que não vemos aqui. Parecia flutuar na calçada, com passos alternados de uma mulher feita, em passos de menina e anjo. Seu andar perfeito para um mundo desajeitado.
Seus pés pareciam ser feitos de neblina, tão leves e rápidos que mal poderia acompanhá-los. Muitas vezes a segui, para sentir sua respiração e ouvir suas batidas; para saber se o seu coração era mesmo humano.

Quando a Val caminhava em minha direção, meu mundo era destruído em segundos e o meu bocado de ar para respirar me era proibido. Ofegante e sem rumo, perdia as contas de matemática, ao saber que seu andar imaculado era tão desconcertante. Meu mundo era um moinho e o seu cabelo obedecia somente aos ventos.
Terminada a aula, falou o meu amigo, novamente meu desespero em tê-la ao meu lado, em minha última chance do dia. Um ritual de espera em cinco horas, para poder andarmos juntos, dividir um pedaço de calçada e uns poucos passos. As pedras nos veriam novamente, todas elas, acostumadas que estavam a nos ver tão próximos…Tão distantes, igualmente.
Mesmo que o meu amor tivesse asas, não conseguia acompanhá-la.
Em alguns metros estávamos nos despedindo. Ela feliz, sem saber de todo amor que a acompanhava. Depois dos nossos tchaus dos 16 anos, mergulhava em um dia frio e cinzento pelas tardes de abril, inúteis, esperando a próxima manhã e então voltarmos juntos à escola; ela para aprender história e química, eu, para aprender a olhar em seu rosto e escolher a mais linda palavra que poderia lançar.
Enfim, mais uma vez, mais um dia, deixava a minha amada e desconhecida Val em sua casa, voltava às pedras da mesma calçada e falava a elas: _amanhã, novamente, veremos um ao outro.
Dia após dia, em tardes que se atropelavam pela pressa das manhãs, em noites de tantas esperas, voltávamos no dia seguinte à escola, onde ela aprendia, com esmero, fórmulas incríveis de química, mas onde nunca me ensinou a dissolver uma fórmula de paixão qualquer, que fumegava sem fim em minha alma. Ela aprendia, entre tantas lições, a construção de uma vida de saber, enquanto eu sempre alimentava um tempo de sabor e entre tantas disciplinas decoradas, em meio a provas, notas e reprovações, na mesma escola e em suas escadas, eu só aprendi amar.
_ Meu colega e amigo Joaquim! Que lindo! Parei tudo pra ouvir.
Bem, é isso! Saudades do Joaquim! Saudades de todas as escolas onde passei, aprendi, amei…
Ao final de todas as contas, de uma existência, provavelmente, é nesta explosão inesperada de sentimentos, sem hora marcada, sem controle, sem idade ou futuro, que boa parte dos jovens deste mundo construiu sua vida.
A partir da escola, mesmo. Nossa amada escola!!!
Independentemente…Se viver o amor sobre os bancos escolares não preserva o coração para além das provas, sempre se aprende poesia, entre o calor de uma paixão escaldante imatura e um intervalo vazio entre as aulas. Mas uma paixão adolescente pode dar sentido a todas as matérias e todas as suas manhãs.
_ Embora, meu colega Joaquim, o mundo seja um moinho…
1 O mundo é um moinho. Cartola
Autor: Nelceu A. Zanatta. Também escreveu e publicou no site “Você quer que eu empilhe troféus? Já pensou em conquistá-los comigo”? www.neipies.com/voce-quer-que-eu-empilhe-trofeus-ja-pensou-em-conquista-los-comigo/
Edição: A. R.











