Há aprendizagens que ultrapassam os livros, ganham forma nas imagens e nos mostram o quanto nossos estudantes têm a dizer.
Como professora, uma das coisas que mais me encanta é acompanhar o momento em que os alunos deixam de apenas estudar uma obra e começam a construir algo próprio a partir dela. É quando a leitura desperta novas ideias, a criatividade encontra espaço e o conhecimento ganha outras formas de expressão. Foi pensando nisso que quis compartilhar com os leitores da minha coluna o curta-metragem Prometeu Acorrentado, produzido pelos estudantes do Colégio Tiradentes da Brigada Militar de Passo Fundo.
Inspirados na tragédia de Ésquilo, os alunos aceitaram o desafio de trazer um clássico da literatura para a linguagem cinematográfica. E fizeram isso por meio de um roteiro autoral, de escolhas artísticas e de uma reflexão que ultrapassa o tempo em que a história foi escrita.
O roteiro, assinado por Estevão Stenert Schmidt e Ingrid Isabelle Pegoraro Conte, revisita o mito de Prometeu, o titã que desafiou Zeus ao entregar o fogo aos seres humanos. Mas o fogo, nessa produção, não representa apenas aquilo que permitiu à humanidade transformar suas condições de existência. Ele também se torna símbolo do conhecimento, da ciência e da tecnologia — e das contradições que acompanham o progresso.
A pergunta que emerge da narrativa é inquietante: se Prometeu pudesse contemplar o mundo de hoje, entregaria novamente o fogo à humanidade?

Banner Prometeu Acorrentado
Afinal, conquistamos conhecimentos extraordinários, desenvolvemos tecnologias e ampliamos nossas possibilidades, mas continuamos convivendo com guerras, exploração e destruição.
O progresso, por si só, não garante responsabilidade, assim como o conhecimento não assegura, automaticamente, sabedoria. É essa reflexão que torna a proposta dos estudantes especialmente interessante. Eles recorrem a uma história milenar para nos convidar a pensar sobre o mundo contemporâneo. E há algo muito significativo nisso: perceber que a literatura continua viva quando novas gerações se apropriam dela, questionam, reinterpretam e encontram suas próprias maneiras de dizer.
Também quero destacar o olhar de Pietra Nery da Costa, responsável pela direção do curta. A maneira como conduziu a produção e o cuidado com a escolha dos locais de gravação merecem reconhecimento.

Diretora do Curta-metragem Aluna Nery
A cachoeira, as belas paisagens naturais e o arco-íris ao fundo de uma das cenas mostram como os espaços podem contribuir para a experiência visual de um filme. São escolhas que revelam atenção aos detalhes e sensibilidade para transformar lugares em parte da narrativa.
E como não celebrar Ingrid Isabelle Pegoraro Conte, que, além de coautora do roteiro, interpreta a Mulher da Caverna e recebeu o reconhecimento de Atriz Revelação no Festival de Curtas do Colégio Tiradentes? É uma alegria ver uma estudante participar da criação de uma história e também dar vida a uma personagem diante das câmeras. Seu reconhecimento merece ser celebrado, assim como o trabalho de todos os colegas que contribuíram para a realização do curta.

Roteirista do curta e atriz revelação Ingrid
Por trás de uma produção como essa, há muito mais do que aquilo que aparece na tela. Há escrita, interpretação, direção, edição, fotografia, figurino, organização, decisões e trabalho em equipe.
Há estudantes experimentando possibilidades, assumindo responsabilidades e descobrindo que também podem ocupar o lugar de quem cria e compartilha conhecimento. É justamente aí que vejo uma das grandes riquezas de experiências como essa. Quando a escola abre espaço para a linguagem cinematográfica, os alunos têm a oportunidade de desenvolver a criatividade, exercitar a comunicação, colaborar uns com os outros e expressar suas ideias de diferentes maneiras.

Schmidtt, roteirista
Aprender também é experimentar, construir, rever escolhas e encontrar uma voz própria. E é por isso que quero convidar você, leitor, a conhecer essa produção. Não assista apenas para acompanhar uma adaptação de Ésquilo. Observe o roteiro, as paisagens, as escolhas visuais, as interpretações e, principalmente, a crítica que os estudantes construíram. Permita-se descobrir como uma história da Antiguidade pode continuar provocando perguntas tão atuais.
Acesse: https://www.youtube.com/watch?v=JYXJ9MJ53Io
PERSONAGENS
Prometeu (Gean Luca Pizzinatto Milani)
O coro das ninfas (Nicóli Bedendo; Ana Clara Orsolin Comin e
Bianca Verdi Guerra)
Hermes (Lucas Pasinato Pilatti)
Io (Antônia Dariva Pissolatto)
O oceano (Estevão Stenert Schmidt)
Hefesto (Davy Bentz Muniz)
Crato (Murilo Fernandes)
Zeus (Vitor da Silva Pires)
Hera (Pietra Néry da Costa)
Mulher da caverna (Ingrid Isabelle Pegoraro Conte)
Mulher ancestral (Isadora de Paula Vargas)
Narrador (Vitor da Silva Pires)

Depois de assistir, fica uma pergunta para levar conosco: o conhecimento nos deu tantas possibilidades, mas será que aprendemos a usá-lo com a responsabilidade que ele exige?
Como professora, é gratificante ver os alunos atravessarem as páginas dos livros e encontrarem outras formas de expressar o que pensam. Ver suas ideias ganharem imagens, suas escolhas se transformarem em criação e seu trabalho chegar a outras pessoas é também perceber a aprendizagem em movimento. Porque, quando os estudantes passam para o outro lado da câmera, não deixam de aprender. Ao contrário: descobrem novas maneiras de ler, interpretar e questionar o mundo.
E isso, para mim, já é motivo para celebrar.
Autora: Deise Bressan. Também escreveu e publicou no site “Uma festa rosa”: www.neipies.com/uma-festa-rosa/
Edição: A. R.












O roteiro, assinado por Estevão Stenert Schmidt e Ingrid Isabelle Pegoraro Conte, revisita o mito de Prometeu, o titã que desafiou Zeus ao entregar o fogo aos seres humanos. Mas o fogo, nessa produção, não representa apenas aquilo que permitiu à humanidade transformar suas condições de existência. Ele também se torna símbolo do conhecimento, da ciência e da tecnologia — e das contradições que acompanham o progresso.
A pergunta que emerge da narrativa é inquietante: se Prometeu pudesse contemplar o mundo de hoje, entregaria novamente o fogo à humanidade?
(Autora: Deise Bressan)