Bem, sabemos o quanto é difícil perder o que gostamos. Imaginemos como ficamos perturbados quando perdemos os nossos aparelhos celulares? Assim também ficam as crianças, e mais difícil é para elas, porque estão aprendendo a lidar com as perdas.
Muitas vezes achamos exagerado quando a criança fica tristonha por ter perdido um brinquedo. Não nos damos conta de que para ela a perda está começando a ser compreendida no seu pequeno mundo. Não saber lidar com a perda de um brinquedo pode ser difícil e preocupante porque há muitos motivos para a criança se entristecer com isso.
Toda criança tem um brinquedo preferido. Pode ser um ursinho velho, uma boneca, um carrinho ou até mesmo um pedaço de pano que vira personagem na hora da brincadeira e se torna o melhor amigo imaginário, a avó imaginária ou o companheiro peixinho de plástico que guarda segredos e está sempre silencioso sem julgar a criança.
Quando a criança perde o seu brinquedo preferido, ela sai à procura dele pela casa toda, busca nos locais em que menos imaginamos, olha embaixo da cama, dentro do armário, na despensa e em outros lugares onde acredita ter o esquecido e vendo que o tempo passa sem achá-lo fica angustiada e sofre. Sofre porque o seu companheiro de rotina, de dias difíceis, seu amigo maravilhoso desapareceu de uma hora para outra.
Por isso, eu sempre recomendo que não tiremos da criança um brinquedo ao qual ela é tão apegada mesmo que esteja velhinho ou quebrado. Antes precisamos combinar com a criança o motivo por que aquele brinquedo deve ser descartado e pedir a sua permissão.
O brinquedo pode não representar quase nada para nós adultos, mas para a criança faz parte do seu mundo real e imaginário, é um pedaço de si. Ele participa da infância como se tivesse vida própria sempre ali perto da criança nas horas de lazer, de dormir ou de se alimentar. Ele é seu companheiro fiel que merece cuidados do seu jeitinho frágil e inocente de cuidar mesmo quando é ela que precisa de cuidados. E assim brinquedo e criança passam a cuidar um do outro compartilhando amor e cumplicidade.
A criança mantém com o brinquedo uma relação bonita de afeto conversando com ele, cuidando dele, abraçando, beijando, o escondendo para que ninguém o veja e saiba onde ele está senão ela. Não é simplesmente um objeto ou coisa qualquer. É mais que possamos imaginar.
É o ursinho que escuta todos os segredos e medos da criança quando está para dormir, é a boneca que ocupa o lugar da mãe quando não está em casa e cuida da criança, é o carrinho que leva a criança para passear em outros lugares imaginários onde ela gostaria de estar em vários momentos difíceis da sua vida.
Para nós adultos é fácil dizer para a criança não chorar, não ficar triste e nem reclamar. Exigimos muitas vezes que elas até esqueçam e parem de falar do brinquedo perdido ou vão ficar de castigo. Não conseguimos compreender que essa situação é o começo para a criança aprender a lidar com a ausência de algo ou alguém que ama. Neste momento, devemos oferecer cuidados especiais, tais como: compreensão, afeto, cumplicidade, amizade, abraço e colo. Ajudarmos a criança a buscar o seu brinquedo, fazermos perguntas sobre o brinquedo, ficarmos do lado da criança até a dor da ausência passar ou aliviar um pouco.
Bem, sabemos o quanto é difícil perder o que gostamos. Imaginemos como ficamos perturbados quando perdemos os nossos aparelhos celulares? Assim também ficam as crianças, e mais difícil é para elas, porque estão aprendendo a lidar com as perdas.
Não é necessário sentar a criança ao nosso lado e falar para ela que existem perdas maiores no mundo. Falar da morte ou coisa parecida. É o momento de sentar-se com a criança e conversar com ela buscando compreender seus sentimentos e acalentando-a com palavras de conforto e cuidados.
O brinquedo preferido fazia parte da rotina afetiva da criança. Ia com ela para todos os compartimentos da casa, estava com ela em todas as situações e momentos da sua vida, ia até mesmo para a escola ou shopping.

É quando a criança começa a compreender que nem tudo que a gente ama permanece para sempre. Talvez doloroso sentimento, mas que precisa ser discutido com cuidado e responsabilidade pelos pais e responsáveis com a criança. O brinquedo pode ter desaparecido, mas permanecem as lembranças dele, a memória de quando ele estava ali presente na sua vidinha. É disso que devemos falar com a criança para que ela vá aprendendo a lidar aos poucos com a perda do seu brinquedo preferido.
Depois, quando a dor diminuir, a criança talvez adote outro brinquedo como preferido. Faça de uma caixa de papelão a sua cabaninha, faça amizade com um novo ursinho de pelúcia que se tornará seu novo confidente e poderá até passar a ser o irmão daquele perdido. É como a gente que, muitas vezes, precisamos preencher vazios com outras coisas para não ficarmos a vida inteira sofrendo a ausência daquilo que tanto amávamos. O acolhimento e conforto dos pais e responsáveis ajuda a criança a atravessar suas perdas com mais segurança.
Sempre devemos demonstrar à criança que sabemos da importância daquele brinquedo perdido. Ela vai passar a confiar cada vez mais na gente. O ursinho que era o melhor amigo e o paninho que era o lugar onde a criança se escondia dos seus medos ficará nas lembranças para sempre e mais tarde poderá ser reconhecido através das fotografias e lembranças da infância.
E como no poema de Mário Quintana “Brinquedos de Criança” em seus versos que nos dizem:
“Eu quero os meus brinquedos novamente / Sou um pobre menino… Acreditai… / Que envelheceu, um dia, de repente!…” possamos guardar algum brinquedo da infância para abraçarmos na vida adulta quando a saudade doer tanto que cheguemos a chorar quando perdíamos o ursinho amigo ou o carrinho que nos levava a passear além do arco-íris.
Obrigada, leitor querido, por ter chegado até aqui! Sei que você também teve um brinquedo preferido na sua infância!
Autora: Rosângela Trajano. Também escreveu e publicou no site “Quando alguém que a criança ama fica longe”: www.neipies.com/quando-alguem-que-a-crianca-ama-fica-longe/
Edição: A. R.











