O sofrimento profissional vivenciado pelos docentes decorre, em grande medida, de um contexto histórico de desvalorização e de hostilidade dirigida à profissão.
Este meu texto resulta de reflexões obtidas a partir dos palestrantes do X Congresso dos Professores Municipais, promovido pelo CMP sindicato: “Precarização da Profissão Docente: e agora?”
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A educação é frequentemente apresentada como elemento central nas campanhas políticas de candidatos aos poderes Legislativo e Executivo, independentemente de filiação partidária. No entanto, uma vez conquistado o poder, esse mesmo setor passa a ser alvo de discursos depreciativos e políticas de desvalorização, revelando uma contradição entre a retórica eleitoral e a prática governamental. Assim, a educação, exaltada como símbolo de progresso durante a propaganda política, transforma-se em vilã quando submetida à lógica de restrição orçamentária e à negligência das prioridades públicas.
A partir do exposto, ser professor em tempos de ódio generalizado significa enfrentar um processo de desvalorização simbólica e material, no qual a categoria é frequentemente difamada como responsável por supostos desequilíbrios orçamentários e acusada de manter privilégios.
Nesse contexto, a docência é reduzida a uma condição de vulnerabilidade extrema, como se os profissionais fossem meramente peças descartáveis em uma engrenagem social excludente. Tal estigmatização projeta sobre o corpo docente uma espécie de inquisição contemporânea, marcada pelo julgamento coletivo e pela responsabilização indevida dos professores pelos problemas estruturais da sociedade. Em suma, somos carne humana próximos a uma máquina de moer carne.
Ser professor em tempos de ódio é resistir a esta linha de fogo a que estamos expostos, pois a todo momento somos jogados na fogueira da inquisição por uma política de precarização humana. Não obstante, somos inquiridos por pais e alunos todo o dia. Sendo que o professor enfrentando toda a banalização da educação resiste, enfrentando a falácia da doutrinação, da negação à ciência. Ser professor é trabalhar com o campo técnico, ético e científico.
Diante desse cenário de intensificação de conflitos, observa-se o desgaste crescente dos profissionais da educação, que, ano após ano, enfrentam situações de desrespeito e agressões, configurando uma espécie de “inquisição profissional”. Importa ressaltar que tais ataques não ocorrem de forma aleatória.
Quando gestores públicos atribuem a responsabilidade pelo desequilíbrio orçamentário aos professores, acabam por transferir à sociedade a percepção negativa sobre os servidores públicos, em especial sobre o magistério. Essa retórica contribui para a amplificação da pressão psicológica que recai sobre os docentes, a qual se intensifica a cada prática pedagógica, justificando, em parte, as recorrentes notícias de episódios em que professores atingem o limite de sua resistência emocional.
O sofrimento profissional vivenciado pelos docentes decorre, em grande medida, de um contexto histórico de desvalorização e de hostilidade dirigida à profissão.
Atualmente, observa-se um cenário de desamparo no qual muitos responsáveis deixam de assumir seu papel educativo, ao mesmo tempo em que resistem à imposição de limites por parte da escola. Essa postura favorece a formação de crianças que, muitas vezes, chegam ao ambiente escolar com expectativas de centralidade e permissividade, em desacordo com as regras de convivência coletiva.
No espaço escolar, entretanto, o professor enfrenta múltiplas exigências, como o cumprimento de índices de desempenho, a promoção da aprendizagem e a produção de registros administrativos, tarefas que demandam organização rigorosa do tempo e do trabalho. A educação, por sua natureza, requer disciplina e corresponsabilidade; contudo, tal pressuposto entra em conflito com práticas familiares que, em determinados casos, reforçam comportamentos de excesso de liberdade e ausência de limites, criando verdadeiros “reizinhos mandões”.
No Brasil, a violência escolar mais do que triplicou nos últimos dez anos, fenômeno que pode ser associado, em parte, ao crescimento do discurso de ódio direcionado aos professores. Esse processo é perceptível em diferentes espaços públicos, como nas sessões da Câmara de Vereadores de Passo Fundo, onde frequentemente se observam manifestações de desrespeito e ofensas aos educadores, retratados como responsáveis pelos desequilíbrios nas contas públicas. Em determinado episódio, por exemplo, o próprio chefe do Executivo municipal afirmou ser inviável valorizar os profissionais da educação, argumentando que o déficit orçamentário estaria relacionado à ampliação dos direitos conquistados no plano de carreira do magistério.
Educar é um ato de coragem, é resistir ao ódio, é continuar lutando. Pois sabemos que seremos, nas próximas campanhas eleitorais, heróis e vilões logo em seguida.



Registros do X Congresso dos Professores Municipais de Passo Fundo.
Fotos: Andressa Wentz
Autor: Laércio Fernandes dos Santos. Também escreveu e publicou no site “Servidor público não pode ser um paradoxo”: www.neipies.com/servidor-publico-nao-pode-ser-um-paradoxo/
Edição: A. R.












Excelente a reflexão! Tema pertinente, atual e urgente. A Profissão que forma todas as outras é a que necessitaria maior valorização (cultural e financeira). Tive o prazer de comparecer a esse importante evento. Parabéns também ao professor Nei pelo site.
Bela reflexão do professor. É a nossa realidade. Realidade está que poucos sabem.
Aprecio a leitura crítica de um bom e reflexivo texto como este. Traz elementos do cotidiano da profissionalidade docente, como decisão política e valorização do magistério. Permite refletir sobre o contexto histórico da educação e lança interrogações sobre os futuros possíveis para educadores, sociedade e estudantes! Sigamos a luta será permanente!
Agradecemos suas sábias colocações, professora Adria. Sua experiência como gestora, professora e profissional da educação credencia teu valoroso comentário. Obrigado pela parceria em prol da educação pública de qualidade.
De fato, ser professor no atual contexto é um grande desafio. Mais do que resistir, é preciso re-existir coletivamente na tarefa imprescindível de formentar uma educação humanizadora. Parabéns pela reflexão.
Obrigado por seu importante comentário e pela coerência referida ao tema abordado pelo autor. Sigamos juntos pela valorização da profissão docente!
Um excelente texto. Parabéns ao autor por contemplar com tamanha propriedade as angústias da categoria.
Obrigado por seu importante comentário e pela coerência referida ao tema abordado pelo autor.
Parabéns
Colega
O texto traz toda a nossa realidade com ótimas reflexões,as quais deveríamos debater em outras ocasiões
Somos feitos de resistência e de lutas por valorização. Obrigado por seu importante comentário e pela coerência referida ao tema abordado pelo autor.
O autor Laercio Fernandes dos Santos foi muito feliz na abordagem. Obrigado por seu importante comentário e pela coerência referida ao tema abordado pelo autor.
Excelente reflexão sobre a importância da educação e o papel dos docentes em um período crucial na sociedade, a propagação do ódio aos professores. Uma sociedade em que não valoriza os educadores está fadada à barbárie intelectual.
Obrigado, Saulo. Obrigado por seu importante comentário e pela coerência referida ao tema abordado pelo autor.
Muito pertinente as reflexões!
Obrigado, Guilherme, por se somar às lutas do magistério!
“O sofrimento profissional vivenciado pelos docentes decorre, em grande medida, de um contexto histórico de desvalorização e de hostilidade dirigida à profissão”. (Do autor Laercio Fernandes Dos Santos)
Parabéns pelo belo texto, que mostra fielmente nossa realidade. Realidade esta, vista por poucos…
Parabéns professor Dr. Laercio pelas suas sábias palavras, é muito importante ter alguém que tenha coragem e sabedoria para transmitir o que a grande maioria dos professores estão sentindo.
Nosso Colega e doutor Laercio Fernandes dos Santos foi muito feliz na argumentação e na organização da tese defendida no texto. Obrigado pela reverência!
O professor Laercio consegue transmitir em palavras toda a angústia de uma classe. É muito importante que textos como esse sejam amplamente divulgados e estudados. Obrigado por ser o porta voz de um pauta tão importante!
Obrigado por seu importante comentário e pela coerência referida ao tema abordado pelo autor. Precisamos de mais vozes em defesa da dignidade docente!
Parabéns colega/amigo.
Texto maravilhoso que retrata nossa realidade.
O título por si só já é uma reflexão e pauta para horas de discussão.
Obrigado pelo comentário, crítica e divulgação deste texto. Nós sabemos do compromisso do colega Laercio Fernandes Dos Santos pela valorização profissional e pela dignidade da docência.
O professor Laercio Fernandes dos Santos sempre nos surpreende com suas ricas reflexões. Mais uma publicação que merece ser lida, compreendida e compartilhada.