A vida Ed Mort

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Esse humor gráfico e escrito era o mesmo Veríssimo que eu via no bar: discreto, mas implacável. Quem não prestasse atenção perdia a piada, mas quem prestava sabia que ali estava uma filosofia inteira disfarçada de trocadilho.

Conheci o Veríssimo numa entrevista. Eu, nervoso, ele, calmo. Eu com perguntas afiadas, ele com respostas mansas — e sempre com aquele jeito de quem parecia estar imaginando outra coisa, mas estava, na verdade, pensando em tudo. Perguntei sobre Gula: o clube dos anjos, aquela confraria de amigos que se reúne para comer até a morte, literalmente. Ele respondeu com a filosofia mais simples e imbatível que já ouvi:

— O pior de ficar velho é não poder comer o que se gosta.

Ou seja, a morte não é tão grave quanto uma dieta.

Depois disso, vi o Veríssimo algumas vezes. Na Casa de Cultura Mario Quintana, nas reuniões da Grafar, e em outras ocasiões mais insalubres do que literárias, como no Tuti Giorni, na escadaria da Borges de Medeiros. Sempre em turma, sempre com a esposa junto. O ritual era parecido: cumprimentava todo mundo, trocava duas palavras, ficava quieto o resto da noite. Mas quieto daquele jeito que prestava atenção em tudo. Quem falava esquecia que ele estava ouvindo. Só que ele ouvia. E, pior, lembrava.

Uma vez, assisti a uma palestra dele sobre humor. Lembro bem de quando defendeu a ideia de abandonar aquelas piadas antigas, as que sempre tinham como alvo alguma minoria. “Não porque perderam a graça”, explicou, “mas porque nunca tiveram.” Propôs um humor novo, cheio de trocadilhos e desvios inteligentes. Era como se dissesse: se dá pra rir sem machucar, por que escolher o contrário?

Noutro dia, liguei para a esposa dele para pedir opinião sobre um conto. Ela me disse que o Veríssimo não podia atender, estava trancado escrevendo oito crônicas de uma vez. Oito. Porque iam passar a semana em Paris. Eu perguntei se ele não pensava em se aposentar. Ela riu e respondeu:

— Temos um filho que não sai de casa. O Veríssimo nunca vai se aposentar.

E nunca se aposentou mesmo: escreveu até o último gole de café.

A família Veríssimo sempre teve uma relação curiosa com casas. O seu pai Érico comprou uma no bairro Petrópolis, em Porto Alegre, nos anos 40. Não era mansão de escritor consagrado, era casa de Cohab — só que, naquela época, as casas populares eram tão bonitas que davam inveja nas casas “oficiais”.

A vizinhança incluía Dionélio Machado, comunista aguerrido que pagou caro por sua coragem: cadeia, tortura, esquecimento. Enquanto Érico era discreto, Dionélio enfrentava tudo de peito aberto. As famílias, apesar das diferenças de destino, compartilhavam pequenos rituais de vizinhança.

Dizem que os Machado gostavam de tocar clarinete e modas de viola na frente da casa, como se a calçada fosse palco. E havia ainda a caixa d’água da praça da esquina, que se transformava em balneário improvisado no verão: abriam as torneiras para todo mundo se refrescar. É possível que naquele banho coletivo tenha nascido mais literatura do que em muitas bibliotecas.

E, no meio disso tudo, o menino Luis cresceu lendo, ouvindo, olhando. Até que um dia, além das crônicas, começou a desenhar. Vieram As Cobras, filosofando de modo rastejante; e veio também o Ed Mort, um detetive particular que vivia mais de dívidas do que de casos, uma versão porto-alegrense de Humphrey Bogart em filme sem glamour. E, claro, o Analista de Bagé, que conseguiu transformar o divã em cadeira de barbeiro e a psicanálise em conversa de vizinho, com direito a chimarrão e um “mas bah, tchê” no lugar da interpretação freudiana.

Esse humor gráfico e escrito era o mesmo Veríssimo que eu via no bar: discreto, mas implacável. Quem não prestasse atenção perdia a piada, mas quem prestava sabia que ali estava uma filosofia inteira disfarçada de trocadilho.

Autor: Por Leandro Dóro. Também escreveu e publicou no site “Amazônia tupã”: www.neipies.com/amazonia-tupa/

Edição: A. R.

1 COMENTÁRIO

  1. Muito bom esta tua terceira crônica no site, Leandro Dóro. Continuaremos publicando novas publicações de tua autoria.

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