É importante sabermos ouvir as falas do nosso corpo, que embalam as nossas vidas. Na batalha da sobrevivência, precisamos amenizar a carência dos corpos que sofrem pela fome, pelo frio, pela ausência de afeto, pelas podas que a vida faz.
O corpo tem falas com várias tonalidades, que expressam uma infinidade de significados. Alguns, nós conseguimos entender. Outros, temos maior dificuldade na compreensão. São sinais indecifráveis. O corpo tem vozes de promessas, sons de alegria, melodias de acalanto, ecos de dores, alertas diversos, expressando uma variedade de emoções e sentimentos, traduzidos na expressão de um corpo sadio ou de um corpo adoecido.
O filósofo Merleau-Ponty disse que o nosso corpo fala. O ritmo dessas falas, os matizes dessas linguagens são reveladores das nossas vivências, das nossas histórias, dos nossos trabalhos, das nossas diversões, das nossas conquistas, das nossas carências, dos nossos ganhos e das nossas perdas. Essa é a linguagem do nosso corpo que fala de forma alegre ou triste.
Sabemos ouvir a voz do nosso corpo? Sabemos que somos um corpo? Temos consciência que somos sujeitos corporais, cuja expressão da fala é eloquente? Queremos estar harmonizados com a linguagem do nosso corpo? Ou, pensamos, como os platônicos, que o corpo é um fardo que carregamos?
Estas questões não fazem parte de um discurso vago e diletante. Elas explicitam a preocupação da subjetividade resgatada na vida cotidiana. Uma vida expressa e realizada na corporeidade histórica, social e econômica no dia-a-dia de cada um.
Herbert de Souza, o Betinho, uma liderança atuante, no cenário político brasileiro, manifestava-se a respeito da dignidade da vida e nos fazia pensar que um corpo que carrega uma doença não é necessariamente um corpo doente. De tal modo, que apesar da sua hemofilia, ele se colocava como um sujeito preocupado com a fome no Brasil, nos anos 90.
Criou a “Ação da Cidadania”, tendo por lema Quem tem fome tem pressa. Era uma ação urgente diante da realidade de corpos famintos, combater a miséria e a fome. Seu corpo se colocou a serviço de outros corpos em situação de falência alimentar.

A sua consciência corporal, a sua verdade, a sua sabedoria permitiram-lhe ouvir as falas dos corpos famintos e respeitá-las, agindo política e socialmente. Não se refugiou na própria doença para se ausentar. Ao contrário, nos limites do que seu corpo permitiu, teve uma atitude de solidariedade com o corpo do outro.
É importante sabermos ouvir as falas do nosso corpo, que embalam as nossas vidas. Na batalha da sobrevivência, precisamos amenizar a carência dos corpos que sofrem pela fome, pelo frio, pela ausência de afeto, pelas podas que a vida faz.
O corpo fala e quer ser ouvido. É imprescindível dedicarmos tempo para ouvir essa fala, antes que seja tarde. A escolha pela vida nos faz atentos à linguagem do corpo. Esta é uma opção corajosa.
Autora: Cecilia Pires. Também escreveu e publicou no site “Sobre a fome: direitos sequestrados”: www.neipies.com/sobre-a-fome-direitos-sequestrados/
Edição: A. R.












O corpo fala e quer ser ouvido. É imprescindível dedicarmos tempo para ouvir essa fala, antes que seja tarde. A escolha pela vida nos faz atentos à linguagem do corpo. Esta é uma opção corajosa.
Autora: Cecilia Pires