No mês do professor, a entrevista da série “Profissões Educadoras” faz uma homenagem aos Mestres, apresentando o perfil da professora Marta Borba. Sua história com o magistério iniciou há 30 anos, é formada em Letras com  especialização em Língua Portuguesa, atualmente, leciona na Escola Municipal de Ensino Fundamental Wolmar Salton, de Passo Fundo, RS.

marta-borba-3Mesmo após três décadas, ainda, é possível perceber que o tempo não tiro o encantamento do olhar de quem continua apaixonada pela profissão. “Tive um encantamento pela leitura e foi ela que me conduziu ao curso de Letras”,  lembra emocionada a professora.

A sua abnegação pelas causas do magistério e sua paixão pelo fazer pedagógico refletem-se  em cada palavra dita com amorosidade, no sorriso largo e no  brilho dos olhos.

Marta se define como uma militante na educação, “nesses 30 anos de atividades em diferentes escolas, com diferentes gestores, só tive satisfação ao longo da minha caminhada profissional e sigo nela porque acredito nessa militância do professor que aprende todo dia”, destaca.

Durante a entrevista percebi Marta, não só como a professora que ensina, mas como uma educadora que aprende. E vou além!  Compreendi em poucos minutos de conversa que para essa professora, sua profissão tem outros significados: encantamento, militância e paixão.

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Entrevista

Márcia Machado: Como a senhora analisa  seus 30 anos de profissão ?

Profª Marta: A academia te oferece a  fundamentação teórica e práxis se vai adquirindo com o passar do tempo.  Eu tenho 30 anos do que chamo “militância na educação”, sou uma apaixonada pelo fazer pedagógico, pelas causas da educação, nesses 30 anos de atividades em diferentes escolas com diferentes gestores da área, só tive satisfação ao longo da minha caminhada profissional e sigo nela porque acredito nessa militância. Militância do professor que aprende todo dia, principalmente, nos cenários atuais nos quais estamos inseridos.  Essa postura de que não somos mais os detentores do saber, nos leva a interação  do aluno  com professor  e assim  vamos colocando em prática o que a teoria nos diz.

Militância do professor que aprende todo dia, principalmente, nos cenários atuais nos quais estamos inseridos.

Márcia Machado: Poderia traçar  um paralelo entre a educação há 30 anos e a educação na atualidade?

Profª Marta: A gente tem ouvido de alguns palestrantes, nos momentos de formação, a seguinte reflexão:  se um profissional  do século passado voltar, por exemplo um cirurgião,  vai se espantar pela evolução que ocorreu nas salas cirúrgicas, já um professor  se retornar do passado,  vai  encontrar a mesma sala de aula.  O que será diferente  é a clientela que irá encontrar lá dentro. O caminho para humanizar é o mesmo caminho, entretanto,  as ferramentas são outras, o sujeito é outro.  No cenário atual temos um conhecimento muito efêmero, muito rápido,  e o professor tem que estar atento  a isso, para  que este sujeito que está com você seja criança, adolescente ou adulto, seja percebido em sua individualidade.  Lembrando que a questões humanísticas passam sempre pelo sujeito e as  ações e ferramentas tecnológicas, devem contribuir para que o aluno se torne um cidadão de direitos e de deveres, uma  pessoas humana de fato. Essa é a dificuldade nos dias atuais diante de cenários tão adversos.

Márcia Machado: A senhora fala da humanização do sujeito, como o professor colabora nessa formação?

Profª Marta: Eu utilizo a literatura como ferramenta. Na literatura  no “O Livro dos Abraços”, de  Eduardo Galeano (escritor uruguaio), no conto  do menino que não conhecia o mar  e  que pediu para que o pai o levasse para vê-lo, e quando chegaram diante aquela plenitude toda, o menino agarra-se na mão do pai e diz a seguinte frase: Pai me ajuda a olhar! Então a minha profissão, através da literatura tem o objetivo de que o sujeito que passa pela minha sala de aula desenvolva sua capacidade, sua habilidade de olhar o mundo, de olhar os seres que o compõe.

Márcia Machado: Como percebes  a  contribuição da sua profissão na sociedade?

Profª Marta:  Como muito importante. Do ponto de vista de que nós professores sabemos muito bem o quão é importante a nossa ação, nossa militância diante de uma sociedade tão díspare, tão diferente, e a cada ano tantos desafios surgem na área da educação. Nós estamos sempre com uma corda no pescoço, em termos de investimentos na aŕea da educação e isso para o professor é mais um desafio.  Além da função que temos, do compromisso que temos, nós sabemos  que os nossos gestores, ao longo das décadas não  vêm fazendo a sua parte e isso dificulta prá nós.

Márcia Machado: Quais os desafios de ser professora na atualidade?

Profª Marta: Os desafios de sala de aula são o encantamento.  Nós temos hoje uma geração que ao mesmo tempo que ela tem acesso à informação, temos notado que existe uma memória muito curta e isso tem nos desafiado. O que tem me encantado, principalmente nesses últimos anos, em especial neste ano trabalhando com crianças de 10 a 12 anos em sala de aula, os sextos anos, eu percebo de que quando faço um paralelo de memória longa trazendo fatos eles se sentem mais atraídos pela disciplina. Essa semana um menino me disse  “não sei o que o meu filho vai dizer no futuro, mas quando vocês me falam que estudaram com disquete, com video cassete eu fico pensando que os meus filhos vão dizer: poxa isso era de passar o dedo? Pois eu penso que no futuro seremos teleguiados”. Quando a gente traça esses paralelos conseguimos dialogar com as memórias, traz um encantamento para a gente. As crianças são muito questionadoras, um exemplo, os pronomes de tratamento, quando citei Vossa Senhoria, Vossa Excelência e  Digníssimo, um aluno interpelou-me, “mas professora onde que se usa isso, com quem se usa?” Informei-lhe com autoridades e sem terminar minha frase ele questionou, “mas os deputados quando usam o Vossa Excelência é um tratamento muito irônico”. E essa análise veio de uma criança de 10 anos. É esse ser crítico que está aí e  que anima a gente a continuar, mesmo diante a todos os desafios da educação. O futuro tem que ser construído hoje.

Os desafios de sala de aula são o encantamento.

Márcia Machado: A sua profissão por si só é educadora. E o que mais?

Profª Marta: Percebo que o professor hoje, está desafiado para além da sala de aula, eles precisam estar sim envolvidos nas questões que dizem respeito a sua profissão, porque a importância dela vai além da escola.  Então a militância no seu sindicato, a militância junto dos seus pares me parece que poderá fortalecer sim a classe para buscar esse respeito na sociedade que não o temos.

A militância no seu sindicato, a militância junto dos seus pares poderá fortalecer sim a classe para buscar esse respeito na sociedade que não o temos.

Márcia Machado: Como analisa o  atual momento pelo qual a educação passa  no nosso país?

Profª Marta: No meu ponto de vista, em relação aos gestores, com esse corte de investimentos em nível de país, com a aprovação da PEC (Proposta de Emenda à Constituição 241/16 – PEC 241) que congela todos os investimentos na área por 20 anos, as dificuldades nossas serão enormes provavelmente não haverá investimentos em infraestrutura, em ampliação reformas, por exemplo, teremos mais dificuldade que já vínhamos tendo e imagina com esses cortes anunciados, vejo com temeridade essa situação.

Márcia Machado: Já que citou a PEC 241, qual a sua opinião sobre  a Medida Provisória de Reestruturação do Ensino Médio (MP 746)?

Profª Marta: Como defensora da escola pública eu vejo que ela é quem sai perdendo porque o filho do trabalhador tem os mesmos direitos do filho do patrão e se lhe é negado ter acesso aos bens culturais ao longo da história construídos, é novamente uma discriminação muito grande porque não ter acesso à  música, à  arte, sendo que é fundamental para as  outras áreas esse desenvolvimento das crianças. Claro que a reforma está voltada para os alunos do Ensino Médio, e isso tem trazido a reflexão que essa reestruturação vai dobrar a responsabilidade do Ensino Fundamental e já são tantos os desafios para oferecer essa primeira alfabetização da criança. Vamos ter que rever também os nossos currículos de atividades, para que estendam o quanto mais puderem  no atendimento da arte, da educação física, por exemplo. Questiono muito a forma pela qual o governo optou por fazer a reforma sem consulta as bases.

Márcia Machado: Para onde se encaminha a educação?

Profª Marta: Se depender dos professores com certeza nós não vamos deixar que nosso país tenha uma baixa qualidade, ainda não é mais baixa porque eu acredito na valoração do que o professor faz diante de tantas dificuldades, principalmente salarial. Nós temos uma carga horária excessiva e precisamos nos desdobrar para conseguir sobreviver.

Acredito muito no potencial do professor, não sei te precisar assim se vai conseguir ter avanços, mas de coração dizer que a utopia que está no coração dos professores é o que nos move.

Márcia Machado: Defina numa frase sua missão enquanto professora na sociedade.

Profª Marta: Posso citar Mario Quintana “o jardim não morre por falta de cuidado, ele morre pela indiferença de quem passa por ele e não lhe vê “