Paixões

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A nossa paixão pelo Brasil pode ser calorosa. Podemos discutir ideias com liberdade, sem que precisemos nos servir de uma frase que conheci esta semana: “Nunca discuta com uma pessoa grosseira. Ela vai levar vantagem por ter experiência em ser estúpida”.

As paixões que permeiam as nossas relações são reflexo do aviltamento do que queremos como sociedade. Não há meias verdades, não há vontade de ouvir, não há vontade de analisar com serenidade o momento em que vivemos.

Mesmo sabendo que ninguém está acima da lei, também sabemos que heróis tem vida curta. Personificar um poder é aviltar esse poder. Endeusar nomes de pessoas como únicos representantes de uma instituição é enfraquecê-la. Os heróis escorregam quando extrapolam seu papel, por ignorarem que são parte e não fim. Os indivíduos, cujos direitos são invioláveis, podem e devem defender as instituições do seu país. Manifestar-se livremente é prerrogativa constitucional.

As paixões movem quem agride o outro por causa das suas ideias. Pessoas com notoriedade estão proibidas de frequentar lugares públicos, por causa das paixões. Usar vermelho dá lugar a agressões verbais e físicas achincalhando quem deve ser respeitado como ser humano “nu”. Não estamos abstraindo os vínculos que cada um tem com etnias, língua, nação, religião, cultura, para carregar tudo em duas valas comuns: os que pensam como eu e os que pensam diferente.

Voltar aos “velhos e bons tempos” é o que comanda grande parte das manifestações. Somos uma sociedade nova, onde as mulheres, de forma inédita, são protagonistas, assim como os negros que, diferente de tempos idos, são livres e exercem sua cidadania. Somos um povo plural, que está negando-se a viver os novos ares que invadem a sociedade atual. Achincalhar pessoas por causa dos seus posicionamentos é um retrocesso que não vinga, por  vivermos um processo inexorável e civilizatório.

Os poderes constituídos precisam ser defendidos pelos indivíduos, que devem exigir o expurgo das excrescências notoriamente danosas. Não se pode admitir que o Poder Legislativo seja presidido por alguém indiciado por crimes comprovados. Deve-se desconfiar de um Executivo, cujo vice presidente orquestra a saída do seu partido da base governista, mas continua com seu cargo preservado, movendo-se nas sobras para desestabilizar um mandato legitimado nas urnas.

A sensação de que só temos um poder que funciona é fruto de uma propaganda perniciosa, que permite a um juiz fazer jogo político, servindo a dois senhores. Um juiz deve servir ao Direito e não à política. E elevar um juiz a paladino da justiça e dar-lhe permissão para arbitrariedades é ignorar tantos outros, que, mesmo em tempos tão difíceis, elevam sua voz em favor da Justiça para todos.

Somos todos movidos por desejos e paixões, porém há momentos em que a serenidade e o respeito devem falar mais alto. Os convites para participarmos de manifestações são assustadoras. Estamos rotulando a cidadania. Coxinhas e petralhas digladiam-se quando cada um que sai às ruas deveria ter um nome cidadão. Simplificar e degradar quem quer participar do processo democrático é descer à vala comum dos que não pensam e mostram sua incapacidade de respeitar o outro, que é um vizinho, um amigo, um colega, o pai e a mãe do coleguinha do nosso filho.

As cenas violentas protagonizadas no Congresso Nacional de empurrões, gritos, xingamentos e completa intolerância não devem servir de exemplo para nosso comportamento. Queremos poder vestir as cores do arco-íris, queremos portar bandeiras multicores, queremos enrolar bandeiras em nosso corpo sem temer que a intolerância nos agrida.

A nossa paixão pelo Brasil pode ser calorosa. Podemos discutir ideias com liberdade, sem que precisemos nos servir de uma frase que conheci esta semana: “Nunca discuta com uma pessoa grosseira. Ela vai levar vantagem por ter experiência em ser estúpida.” A frase é atribuída a Mark Twain e reflete o medo que sinto de uma pessoa que eleva a voz em meio a muitas outras, com o intuito de intimidar quem pensa diferente. Só posso interpretar a atitude do gritalhão como covardia e insensibilidade.

  • Martha Dias

    Parabéns pelo texto!!! Muito verdadeira, atualíssima e útil essa frase atribuída a Mark Twain “Nunca discuta com uma pessoa grosseira. Ela vai levar vantagem por ter experiência em ser estúpida”… onde não há respeito, é impossível haver debate… temos que preservar nossas energias para atividades mais úteis ao diálogo em prol da manutenção da Democracia.