sandro aliprandini 3No mês do estudante, nossa quarta entrevista da série “Profissões Educadoras”, traz o perfil de um jovem universitário e a contribuição da sétima arte na discussão de temas relevantes como relacionamento familiar e bullying nas escolas.

Um menino que gostava de circo e era fascinado pelo palhaço, encantamento que o levou à ingressar no curso de teatro da escola. A intenção era tão infantil quanto o gosto pelo palhaço: ele só queria fazer as pessoas rirem.  Mas quem sorriu astuciosa para ele foi a vida, e, do teatro amador para o cinema, foi o tempo de um telefonema. A história é do jovem ator Sandro Aliprandini, 17 anos, passo-fundense e protagonista do filme Ponto Zero, que estreiou em maio nos cinemas.

Aliprandini destaca que o palco faz parte de sua vida desde os sete anos de idade e que cursar Teatro na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, é a realização de um sonho que acalenta desde criança. O jovem estudante afirma que pretende seguir a carreira de ator “quero estudar para fortalecer a minha carreira e continuar fazendo cinema e teatro”, enfatiza.

Para quem ainda não assistiu Ponto Zero, o filme conta a história de Ênio (Sandro Aliprandini), um adolescente de 14 anos sufocado pelos desafios do amadurecimento, tanto em casa quanto na escola, onde não é exatamente um dos garotos mais populares. O pai, um radialista (Eucir de Souza), é rude e ausente. A mãe (Patricia Selonk) sofre com a frieza do marido. Neste contexto, o adolescente se vê diante da realidade da vida adulta chegando. O filme é ambientado em Porto Alegre e tem a direção de José Pedro Goulart.

Ponto Zero deve ser o primeiro de muitos trabalhos de Aliprandini, pois mesmo mantendo certo suspense, afirma que em breve poderá retornar à telona: “estou fazendo novos testes e pode ser que em breve tenhamos novidades no cinema” declara.

Márcia Machado: Como surgiu o teatro na tua vida?

Aliprandini: Desde pequeno eu sempre ia com meu pai ao circo, eu tinha muito gosto por palhaço, me fascinava muito e, por causa disso, procurei o Curso de Teatro na escola para fazer comédia, fazer as pessoas rirem. Comecei e não parei mais. Iniciei o teatro no Colégio Menino Jesus/ Notre Dame em Passo Fundo.

Márcia Machado: Como uma peça escolar te oportunizou à ingressar no cinema?

Aliprandini: No Notre Dame (colégio) a gente montou uma peça de teatro e levamos para o Festival Intercolegial de Teatro Notre Dame que aconteceu no Rio de Janeiro e eu recebi o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante. A notícia saiu em jornais de Porto Alegre, o diretor (do Filme Ponto Zero) viu e achou que eu tinha o perfil do ator que ele estava procurando para o filme e me ligou convidando para fazer o teste. Fiz três testes eliminatórios e fui chamado para protagonizar o filme.

Márcia Machado: Como foi a experiência de sair do teatro amador e estrear como ator principal na telona?

Aliprandini: Nunca passou pela minha cabeça começar logo no cinema, com a responsabilidade de ser o protagonista. Mas toda a equipe compreendeu muito que eu estava no inicio da carreira, que eu não conhecia como funcionava o cinema. Foram muito atenciosos, me explicaram como ocorria todo o processo de filmagem e tudo deu certo.

Márcia Machado: Como foi filmar Ponto Zero?

Aliprandini: O Ponto Zero é um filme diferente porque nenhum dos atores teve acesso ao roteiro para começar. O diretor não nos deixava ler o roteiro, ele só nos informava um pouco antes de cada cena o que ocorreria. A ideia era que o ator fosse descobrindo junto com o personagem o que iria acontecer, então ele queria uma forma de atuação bem natural. O Ponto Zero fala de libertação, da transição entre a infância e a adolescência, fase em que você não é mais criança, mas também não é homem e tem que lidar com essa transição. No caso do Enio (personagem de Sandro), ele fazia o papel do pai em casa porque o pai dele saia de casa e voltava só de manhã, traía a mãe dele.  A mãe do Enio via nele uma forma de proteção, ele (o personagem) acaba agindo como se tivesse mais idade, tendo que proteger a própria mãe, consolar. E tem a fase do filme que seria o Ponto Zero que ele (Enio) sai de casa e decide se libertar dessa vida, mostrar que ele pode ser independente, então, sai à noite e passa a viver sozinho. O pai (de Enio) é muito ausente em casa e ele nunca fala com o pai, tem um momento no filme em que eles trocam um olhar, mas nenhuma palavra, eles são bem distantes.

sandro aliprandini 1Márcia Machado: O autor do filme aborda essa questão do relacionamento familiar e também a questão do bullying?

Aliprandini: O Enio sofria bullying na escola e uma das primeiras cenas do filme é, justamente, ele apanhando de um colega sem motivo nenhum, ele não tem amigos no colégio, tem cena que estão todos os colegas jogando futebol e Enio está sentado sozinho porque ele não se encaixava em nenhum grupo, nem na família, nem no colégio, então, ele fica alheio a todos estes grupos.

Márcia Machado: O filme vem sendo usado pelas escolas para abordar a questão do relacionamento familiar, mas principalmente, o tema bullying com os alunos. Como você percebe a influência do filme nessas discussões?

Aliprandini: Gosto muito quando o Ponto Zero é assistido por esse público. Há uma necessidade das escolas perceberem o jovem da maneira como o filme o retrata. Têm muitos alunos que vão se identificar, não só por sofrer bullying na escola, mas por não se encaixar mesmo no mundo. Nós adolescentes temos essa sensação de que nada é pra nós, sensação de não pertencimento. O filme é uma forma de conforto. Até a questão da relação conturbada com os pais, a partir do filme verão que é uma fase normal de adolescente.

“Nós adolescentes temos essa sensação de que nada é pra nós, a sensação de não pertencimento.”

Márcia Machado: Você já passou por uma situação de bullying na escola ou presenciou entre colegas?

Não. Eu nunca vivi, nem presenciei, tanto bullying como a questão de relacionamento familiar.  O personagem traz uma imagem bem diferente de mim.  Para fazer o Enio eu procurei interpretar o personagem com a sensação de não pertencimento mesmo, isso eu tive e tenho muito ainda, a sensação de não pertencer a nenhum grupo e a sensação de estar um pouco sozinho. Eu busquei isso em mim para emprestar para o Enio. Eu não tive problemas de bullying na escola, mas quem teve acredito que é possível superar isso.

“Eu não tive problemas de bullying na escola, mas quem teve acredito que é possível superar isso.”

Márcia Machado: Enquanto estudante como você vê o posicionamento da escola, professores, direção e alunos em relação ao bullying?

Aliprandini: Acho importante o professor estar atento para momentos em que ocorram questões relacionadas ao bullying e que ele busque confortar o aluno que passa por isso, mas sem expôr na frente dos colegas. O professor é a figura mais importante no momento em que o aluno está em sala de aula, é referência, então, se o professor, o diretor vem tratar do assunto com o aluno, este se sente mais acolhido pela escola e sabe que terá o apoio necessário para continuar frequentando as aulas, sem medo. Se o professor conversa com o aluno ele se sente confortável, seguro.

“O professor é a figura mais importante no momento em que o aluno está em sala de aula, é referência, então, se o professor, o diretor vem tratar do assunto com o aluno, este se sente mais acolhido pela escola e sabe que terá o apoio necessário para continuar frequentando as aulas, sem medo”.

Márcia Machado: Você já visitou escolas e teve contato com os alunos que assistiram o filme?

Aliprandini: Sim, conversei como os alunos. É tão bom ver eles falando comigo sobre a identificação com o personagem e isso é gratificante para mim. Eu espero que  a minha profissão de ator gere  identificação nas pessoas e que de certa forma contribua para mudar o pensamento delas. Ao assistir o filme que o expectador consiga se sentir mais confortado, mais seguro. E em outros trabalhos também, que eu não viva nenhum personagem alheio ao mundo. Eu quero fazer personagens que as pessoas consigam se identificar e acreditar na história dele, saber que podem ser reais.

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“Eu espero que  a minha profissão de ator gere  identificação nas pessoas e que de certa forma contribua para mudar o pensamento delas.”

Márcia Machado: O teu personagem teve uma grande empatia do público?

Aliprandini: Sim, os jovens vêm emocionados, chorando falar comigo. Alguns afirmam que passam pela situação do personagem e, a partir do filme, vão tentar conversar com os pais para buscar melhorar o relacionamento. Os pais também me procuram e acho positivo que vejam o filme porque há cenas do casal ( pais de Enio) brigando e é interessante que esse público que tem filhos adolescentes vejam como os filhos se sentem durante as brigas de casal e como isso afeta os filhos e passem a refletir sobre isso.

“Os jovens vêm emocionados, chorando, falar comigo. Alguns afirmam que passam pela situação do personagem e, a partir do filme, vão tentar conversar com os pais para buscar melhorar o relacionamento.”

Márcia Machado: Como você analisa o contexto do filme em relação a educação dos jovens? Em que a narrativa contribui?

Aliprandini: É muito bom que a escola abra as portas para o filme e utilize outros meios de linguagem em sala de aula. É muito bom que os alunos vejam que a escola não é separada do mundo, a escola é o mundo e os alunos precisam desenvolver o pensamento crítico na escola. É gratificante a gente poder mostrar o filme para os estudantes, os professores e diretores, eles têm gostado muito. Então que cresça ainda mais esse tipo de ação nas escolas.

“É muito bom que a escola abra as portas para o filme e utilize outros meios de linguagem em sala de aula. É muito bom que os alunos vejam que a escola não é separada do mundo, a escola é o mundo e os alunos precisam desenvolver o pensamento crítico na escola.”

Márcia Machado: Em uma frase como você definiria a missão da tua profissão.

Aliprandini: Gerar identificação com o público e fazer as pessoas refletir sobre o assunto.

 

Fotos: Divulgação/Arquivo Pessoal Aliprandini