A consciência disforme

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A sociedade perdeu a consciência do pecado,
porque perdeu a noção da verdadeira felicidade e liberdade,
o anseio de realização mais profunda.

 

Toda espécie humana reconhece que é mal praticar o adultério, a prostituição, o homicídio, o roubo ou coisa semelhante. Há implantado no coração humano um preceito natural de bem viver, para praticar o que nos realiza e constrói e evitar aquilo que nos escraviza e prejudica. A pessoa de boa vontade sabe escolher no interior de sua consciência o que edifica, rejeitando o que lhe desumaniza.

[quote_box_left]Viver sem pensar na morte leva a vida a um caos, um abismo sem volta, um mar de atitudes desconexas. Minha consciência que decide tudo. O pecado é invenção e privação de minha liberdade pessoal. Tudo posso. Tudo será questão de gosto, de sensação momentânea, epidérmica, deixando “a vida me levar; vida leva eu. [/quote_box_left]

O pecado destrói a natureza toda e atinge simultaneamente o ser humano nas profundezas de seu ser. Atinge também as ligações que unem aos outros, bem como ao conjunto da criação. Não é apenas um descumprimento de uma regra, uma norma, uma lei, um pequeno desvio e descompasso de uma rota ou conduta. O pecado não é simplesmente uma ofensa ao Criador, uma agressão ao seu amor, mas uma destruição de quem o pratica, a perda do ideal humano colocado no íntimo do seu ser.

A sociedade perdeu a consciência do pecado, porque perdeu a noção da verdadeira felicidade e liberdade, o anseio de realização mais profunda. Perdemos genuinamente, em nossos dias, os critérios filosóficos e teologais do bem, do bom, do belo e do verdadeiro. Por não ouvir nosso interior, distanciamo-nos de tudo o que é “verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável, honroso, tudo o que é virtude e digno de louvor” (Fl 4, 8-9). Não escutamos a voz de nossa natureza mais íntima. A campainha interior não toca mais.

[quote_box_left]O pecador é um suicida, se auto destrói, se despersonaliza, ficando disforme e diminuído.[/quote_box_left]

Criados para a esperança, caminhamos para a morte ôntica, onde o mal é camuflado de bem, o imoral de perfeitamente natural, o impróprio de totalmente admissível. O único que pode saciar a sede mais profunda do ser humano é o próprio Deus. Deus não está morto, mesmo que o queiramos matar de novo. Só nele encontraremos alguma esperança para reconstruir o ser humano desfacelado, desalmado. Só Ele para devolver ao homem sua essência mais genuína.