Tempos líquidos na infância

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O mundo líquido sucumbiu às crianças.
Não criemos crianças consumidoras, criemos crianças fazedoras de coisas.
Na escola ou em casa quase não se ensina mais a fazer nada:
tudo já vem pronto, com manual de instruções.

 

Na minha infância guardava-se um brinquedo até a vida adulta. Este já não é o mesmo costume do meu sobrinho de dez anos de idade. Com uma facilidade enorme ele consegue trocar de brinquedo sem nenhum apego.

Quando vai ao shopping center logo se apaixona por um jogo ou tablet descartando o que tem em casa. Isto não acontece somente com o meu sobrinho, mas com a maioria das crianças nos dias atuais. Deixa-se a boneca querida de lado por uma nova.

Na noite do último Natal presenciei um fato incrível aos meus olhos: a menina ganhou uma boneca à meia-noite e tão logo por ela se apaixonou, mas às duas da manhã chegaram com outra boneca e ela esqueceu a antiga no canto e foi brincar com a nova. As crianças, assim como os adultos, estão sendo tomadas pelo consumo desenfreado. A tecnologia que esse consumo apresenta à criança seduz e se guarda na fantasia como algo melhor.

Vejo crianças pequeninas fazendo uso de um aparelho celular com a maior facilidade do mundo, coisa que me espanta. Outro dia, na festa de aniversário de uma menininha pude ver uma criança brincando no celular da sua mãe quando ao seu redor tinha dezenas de brinquedos e outras crianças prontas para brincarem. A cada dia exemplos me chegam aos montes.

As crianças nunca foram de guardar saudades por muito tempo, e, atualmente, elas sequer se afeiçoam facilmente porque não têm mais tempo para isso. O meu outro sobrinho de oito anos anda de carro e nunca soube o que é andar de transporte coletivo, não conhece crianças pobres e nem brinquedos feitos de madeira.

 

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Clóvis de Barros Filho, Livre-Docente pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Professor de Ética na Escola de Comunicações e Artes da USP, de Filosofia Corporativa da HSM Educação. Pesquisador e Consultor em Ética da UNESCO, Pesquisador e Conferencista pelo Espaço Ética, Colunista de Ética da Revista Filosofia Ciência & Vida faz uma interessante crítica sobre a relação da publicidade no consumismo infantil e na sociedade.

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Vivemos tempos líquidos na infância. Estamos sobrecarregados de instantes na infância que passam quase despercebidos pela criança. Fazer anos é saber que na festa de aniversário vai ganhar muitos presentes, um mais bonito do que o outro. Descartará o mais simples pelo mais sofisticado, o amiguinho que não entende de tecnologia ficará de fora das brincadeiras solitárias.

Sim, as crianças já não brincam mais umas com as outras. Não se precisam mais. Entretêm-se sozinhas nas suas moradas cheias de muros e grades. Os pais vivem tempos líquidos e já não param para contar histórias. Os avós moram distantes e não têm tempo para brincadeiras.

O mundo líquido sucumbiu às crianças. Vivemos tempos em que a liquidez na infância se constituiu como uma revolução avassaladora aonde crianças não conseguem sequer lembrar a tarefa que foi ensinada em sala de aula no dia anterior. Como fica a fantasia da criança nos tempos líquidos? Ainda há espaços para ouvir contos de fadas, mas que não sejam longos e que sejam contados adiantando-se o final feliz.

Vivemos uma época em que pais e filhos já não sentam à mesa no café da manhã e nem no jantar. Filhos têm diversas obrigações durante o dia. Crianças conversam pelas redes sociais com outras crianças deixando de lado o amiguinho da escola ou do parque.

Os desenhos animados da televisão são trocados pelos vídeos do youtube. Os passeios ao parque nos domingos à tarde foram esquecidos e hoje o sofá da sala se tornou o grande parque infantil. A criança está cada vez mais cabisbaixa. Não conta mais estrelas. Não brinca mais de empinar papagaio e nem de casinha. A liquidez dos tempos exige que não seja uma criança paciente, mas sempre alerta a novos lançamentos de jogos e filmes.

Estar num lugar sem wi fi torna-se desagradável. Os brinquedos ao simples defeito são jogados no lixo. O urso gigante perdeu espaço no quarto para a televisão de cinquenta e uma polegadas. O velho tênis já não serve mais para ir à escola, porque o amiguinho tem um novo. No momento em que escrevo este ensaio recebo a notícia de que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman que me inspirou a escrever este meu pensamento acabou de morrer. Bom, volto a escrever. Morre o tempo de ser criança nos tempos líquidos.

Zygmunt Bauman

Admirei-me outro dia com uma criança que ajudava a mãe a fazer a faxina do seu quarto. Foram para o lixo brinquedos seminovos e roupas quase nunca usadas.

As crianças são levadas pelo adulto a se desapegarem das coisas com a maior rapidez possível. Não se tem mais amor pelo bichinho de pelúcia, pois em seu lugar está o tablet que a um clique da mão consegue satisfazer as necessidades da criança.

Brincar de descartar ganhou espaço. Os vínculos de amizade estão carecendo de fortalezas, é cada vez mais fácil brincar de “tou de mal” simplesmente deletando o amigo da lista de amigos virtuais. As crianças driblam a censura do facebook e criam datas de nascimento falsas para se fazerem presentes naquela rede. O smartphone com seus diversos aplicativos desenvolvidos para a infância ganha cada vez mais adeptos.

Infelizmente nossas crianças estão vivendo tempos líquidos. E os tempos líquidos da infância podem trazer grandes sequelas mais tarde. É preciso uma vigília ao descartar amigos e coisas.

Faz-se necessário ensinar as crianças a amarem o que têm. E mais ainda, levantarem a cabeça para enxergar o céu azul com sol ou lua. Não criemos crianças consumidoras, criemos crianças fazedoras de coisas. Na escola ou em casa quase não se ensina mais a fazer nada tudo já vem pronto, há verdadeiros kits de montagem. É só ler o manual de instruções e em segundos o brinquedo está montado. As crianças já não se interessam mais pelos heróis das histórias, elas querem saber qual é o mais inteligente, o mais arguto, o mais audaz.