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Bença, Chica!

“Desde o tempo em que nasci/ Logo aprendi a lição/ Cuidar do outro é cuidar de mim/ Cuidar de mim é cuidar do outro”, diz a cantiga entoada por uma das facilitadoras, como se fosse o mergulho em outra dimensão.

O braço de Dona Chica é como colo de vó. Quem chega vai se deixando ficar, no embalo da sua reza, pode até cochilar. Há quem chore de emoção, outros observam, contemplativos. Dona Chica, miudinha, orienta os presentes a formarem um corredor, em que todo mundo cuida de todo mundo. No final do túnel humano, lá está ela, calma, com um sorriso leve, feito uma ancestral encarnada.

Assim funciona o Corredor de Saúde, método que Dona Chica utiliza em hospitais e unidades de saúde de Sergipe e outros estados. “O Corredor de Saúde é para cuidar do cuidador. Se o médico cuida de você, alguém tem que cuidar dele”, conta. Apoiada por algumas facilitadoras, Dona Chica organiza o Corredor numa tarde abafada de julho, 17ª Conferência Nacional de Saúde, em Brasília, na Tenda Simone Leite e Wanderley Gomes: a melodia suave da canção e o convite ao abraço são uma pausa em meio ao burburinho de vozes de um encontro como esse.

“Desde o tempo em que nasci/ Logo aprendi a lição/ Cuidar do outro é cuidar de mim/ Cuidar de mim é cuidar do outro”, diz a cantiga entoada por uma das facilitadoras, como se fosse o mergulho em outra dimensão. Uma senhora desmaia, de emoção ou calor: Dona Chica, tranquila, aproxima-se dela e aplica o que seria um passe. Pelo estalar de dedos e balbuciar dos lábios, logo se percebem as influências africanas e indígenas. Estamos diante de uma legítima benzedeira.

Depois de quase uma hora de atividade (em que o tempo parece passar de outra maneira), peço para conversar com Dona Chica. Ela aceita, de pronto. A primeira pergunta só podia ser sobre sua origem. “Meu filho, eu sou de um monte de lugar”, começa a responder, para em seguida fazer uma pausa brusca: “Já está gravando? Ave Maria!” 

Dali em diante, conhecemos a história da maranhense de 81 anos que reside em Cristinápolis, cidade de Sergipe próxima à divisa com a Bahia. “Eu nasci no Maranhão. Sou uma Ka’apor. Com a ditadura, eu me espalhei, fugida, corrida. Andei aqui na Bahia. Ajudei muita gente”, narra. Ela define parte de sua vida como uma tempestade — até que, levada pelos ventos, foi parar em Sergipe. Hoje é assentada da reforma agrária e atua no Movimento Popular de Saúde (MOPS) do estado de Sergipe.

“Sou rezadeira. Meu nome hoje é Chica. Chica parteira, Chica benzedeira, Chica curandeira. Chica Pereira das Neves Silva”. São muitas definições, nenhuma delas capaz de descrever em palavras a nobreza dos gestos, a firmeza da fala, a clareza de pensamento e a generosidade no olhar daquela que conta ter trazido ao mundo mais de 780 bebês. “Tive 23 filhos em Sergipe. São meus aqui da barriga. E sou mãe ‘adotada’ de 22”, completa.

“Sou rezadeira. Meu nome hoje é Chica. Chica parteira, Chica benzedeira, Chica curandeira. Chica Pereira das Neves Silva”

O dom da raiz

Dona Chica alia saberes tradicionais com as práticas em educação popular no SUS.
— Foto: Eduardo de Oliveira.

“De onde vem a sua sabedoria?”, pergunto. Dona Chica faz uma pausa para refletir. “Todos têm um dom. Independente de onde vem a raiz dele, que vai diferenciar um do outro”, responde, enquanto o vento parece balançar os brincos de penas amarelas. Ela mais uma vez reforça sua raiz indígena. “Eu sou uma Ka’apor. Eu vim com o meu dom: o dom da raiz”.

O registro de nascimento data dos anos 1960, mas Dona Chica conta que nasceu em 1942. Expulsa de sua região por conflitos territoriais, durante a ditadura civil-militar, ela percorreu o mundo. “Por causa da ditadura, eu vivi na rua. Vim morando, passei por muitos estados”, recorda. “Hoje eu falo porque não tenho mais medo, já estou velha. A ditadura não foi brincadeira. Existiam os coronéis que tomavam as nossas terras, a gente teve que sair da nossa casa”.

Se uma parte dos seus saberes vieram dos povos originários, como o conhecimento sobre as ervas, outra parcela é herança de África. “Minha mãe conheceu um africano que deu amparo a ela, não casaram, mas tiveram cinco filhos. Meu nome é Angorê Caxumucá”, cita a forma como é conhecida dentro das tradições Congo-Angola.

Por onde passa, Dona Chica leva seus galhinhos de ervas, suas folhas e sementes. “Lá na minha cidade, sou coordenadora das PICs [Práticas Integrativas e Complementares]. Sou educadora da saúde popular”, enumera mais uma de suas atribuições. Ela atua no SUS com conhecimentos tradicionais. “Trabalho com ervas medicinais. Todas as ervas são curadoras”, ressalta.

Mãos de parteira

Dona Chica não somente viu o SUS nascer, como pode ser considerada uma de suas parteiras. Ela integra o MOPS de Sergipe desde o tempo em que saúde ainda não era definida como direito de todos e dever do Estado, na Constituição Federal de 1988. “Desde 1978, a gente já estava brigando. Foi muito difícil. Primeiro, a gente começou com reuniões como essa aqui. Depois das reuniões, vieram os seminários. Hoje nós estamos na Conferência”, relembra.

Em Sergipe, ela testemunhou o embrião das lutas pelo direito à saúde, organizadas por camponeses e trabalhadores urbanos. “Aquele povo que vinha dos interiores para fazer a fila, receber remédio, passava mais de 24 horas esperando. Eu pedia água e comida para alimentar o povo”, narra. “Lá, a gente se uniu, eu era da rua e a juventude apoiava a gente”.

Dona Chica relembra o papel que teve Simone Leite, enfermeira formada pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), que ajudou a organizar os movimentos populares de saúde em Aracaju e no interior do estado. Falecida em 2021, aos 64 anos, Simone deu nome à tenda erguida durante a Conferência Nacional de Saúde para abrigar experiências de arte e educação popular em saúde — local onde Dona Chica organizou seu Corredor de Cuidado. 

Nada é por acaso. A benzedeira e a enfermeira eram companheiras de luta. “Ela era uma estudante muito inteligente. Tinha sonhos de mudanças na saúde. Ela juntou alguns amigos e eu juntei alguns da rua e começamos a trabalhar”, relembra.

Há décadas, Dona Chica exerce o ofício de parteira. “Fazia parto na rua, nas roças, nos interiores. O povo mandava me chamar, eu ia”, descreve. Também trabalha com fitoterapia e desenvolve estratégias de cuidado para profissionais de saúde. “Uma enfermeira cuida de uma ferida, dá banho, mas ela precisa também ser cuidada”.

Depois de cruzar o mundo, Dona Chica fincou raiz em Cristinápolis, que ela conta já ter se chamado “Chapada dos Índios”. Ali, ergueu o mastro com a bandeira branca da nação Angola e tornou-se guardiã de conhecimentos ancestrais. “Hoje eu tenho a minha casa, tenho os meus filhos, o meu terreiro, o meu mastro. Não pude ter na minha aldeia, mas hoje tenho na minha casa”.

Sobre um passado de perseguições ainda presente na memória, ela conta que já foi proibida de exercer o seu principal ofício, que era levar bênçãos às pessoas. “Antigamente, a gente não podia nem vestir uma saia comprida, porque eles rasgavam. Chamavam a gente de macumbeiro, feiticeiro, mandingueiro”. Agora, todo esse conhecimento está presente nas práticas que ela emprega na saúde. 

“Hoje aceitaram”, resume, antes de completar: “Você está vendo esse menino?”, aponta para um rapaz indígena. “Esse menino é indígena, ele tem a fé dele. A crença nos astros”. Sorri. “A fé é para todos. O astro é único. Deus é único”. Em seus olhos calmos, parece morar alguma coisa infinita que poderíamos chamar de paz.

Conheça também: Matéria publicada no site sobre a ponte entre os terreiros de matriz africana e o SUS (Sistema Único de Saúde):  https://www.neipies.com/a-ponte-entre-os-terreiros-de-matriz-africana-e-o-sistema-unico-de-saude-sus/

Proposta de atividade em salas de aula do Componente Curricular Ensino Religioso:

Sugerimos que, após leitura deste texto, os estudantes podem fazer pesquisas sobre como outras tradições religiosas desenvolvem práticas de espiritualidade em situações como vida, gratidão, alegria, tristeza, acidentes, doenças, fenômenos da natureza, de forma individual ou coletiva. Os estudantes podem ser divididos em grupos, conforme relação de religiões ou tradições a serem pesquisadas. 

Esta atividade contempla as habilidades (EF07ER02RS-01) Identificar práticas de espiritualidade vivenciadas em situações, tais como: vida, gratidão, alegria, tristeza, acidentes, doenças, fenômenos da natureza de individual ou coletivas e EF07ER02: Identificar práticas de espiritualidade utilizadas pelas pessoas em determinadas situações (acidentes, doenças, fenômenos climáticos).

FONTE: https://radis.ensp.fiocruz.br/reportagem/saberes-populares/benca-chica/

FOTOS: Eduardo de Oliveira.

Autor: Luiz Felipe Stevanim é Editor e Repórter da Revista Radis. Mestrado e Doutorado em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e graduação em Comunicação Social (Jornalismo) pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). É Tecnologista em Saúde Pública (Especialidade: Comunicação) na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), onde exerce a função de jornalista e editor no Programa Radis – Comunicação e Saúde, vinculado à Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp/Fiocruz).

Edição: A. R.

Quais respostas a sociedade pode esperar da educação pública?

“Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda.” (Paulo Freire)

Os novos gestores municipais, que serão eleitos em outubro, herdarão grandes desafios para seus mandatos, especialmente para a educação básica, num momento histórico no qual enfrentamos uma pandemia e, mais recentemente, no RS, uma tragédia humana e ambiental a partir de enchentes. Na condição de professor de uma rede municipal de ensino, ousamos “palpitar” sobre aspectos que consideramos fundamentais para alavancar uma educação de qualidade.

Os desafios para uma boa gestão em educação pública precisam dar conta de aspectos estruturais, funcionais e pedagógicos.

Muito se fala e se discute a respeito do papel da educação no desenvolvimento cultural e econômico de uma nação. Se é verdade que a “educação precisa dar respostas”, tão verdadeiro é que as mudanças que esperamos a partir da educação não se farão sozinhas. Mudanças de postura, comportamento, inovação e criatividade virão se forem acompanhadas de outras políticas públicas capazes de elevar a condição social de nossa gente e das condições objetivas para fazermos uma educação de qualidade. Neste sentido, não podemos afirmar que “tudo passa pela educação”, embora, sem ela, nenhuma grande mudança terá condições de acontecer e/ou prosperar.

A criatividade, a inovação e a ousadia sempre foram bases para os grandes avanços da humanidade. Mas, antes, os gestores precisam conhecer e reconhecer a realidade de sua rede municipal de ensino, as expectativas da comunidade e os “pensamentos” que movem os seus professores e suas professoras. Após este reconhecimento, devem traçar metas e “marcas” que estejam alicerçadas nos potenciais e nas fragilidades da rede de ensino.  Estas, por sua vez, devem constituir o rumo do trabalho político e pedagógico de cada escola e da rede de ensino, como um todo, sempre preservando as peculiaridades e singularidades das realidades nas quais se inserem as comunidades escolares.

Os aspectos estruturais envolvem o cuidado, a preservação e o “embelezamento físico” dos prédios e salas de aula. Os ambientes escolares precisam uma boa pintura, uma boa organização e distribuição de espaços, um ambiente agradável e aconchegante, um mobiliário bom e adequado. Nossos estudantes merecem e precisam sentir-se bem, e bem acomodados, para o pleno envolvimento com as aprendizagens.

Os aspectos funcionais referem-se ao bom e respeitoso tratamento que será dispensado aos funcionários e professores das escolas. O trabalho árduo e cotidiano dos professores precisa ser reconhecido em sua dignidade humana e profissional.

Os aspectos pedagógicos, tão importantes quanto os demais, devem levar em conta a gestão democrática e a experiência acumulada de cada educandário e de cada professor e professora, apresentando aos mesmos/as novos desafios para dinamizar as metodologias e aprendizagens, em cada momento histórico. Deve incorporar novas tecnologias, como um meio e não como um fim em si mesmas. A formação continuada dos professores precisa ser combinada e dialogada com o corpo docente, antes de ser executada, para que ocorra verdadeiro envolvimento. Deve-se, ainda, propiciar a sistematização e discussão das práticas pedagógicas. Estas, sim, poderão fomentar novas posturas e compreensões para intervenções nas salas de aula.

As respostas que dependem da educação nunca estarão plenamente definidas. O que sabemos é que uma educação que leva em conta os desejos da comunidade, dos professores e dos estudantes colabora, substancialmente, no desenvolvimento de habilidades, atitudes, conceitos e conhecimentos que farão diferença para o futuro do Brasil e de cada cidade.

Ademais, nossa educação precisa colaborar para o exercício e a prática da cidadania, esta sim, capaz de operar as grandes mudanças de que o nosso país precisa. Nossas escolas devem ser “o primeiro e maior lugar de vivência de direitos”. Os gestores municipais que entenderem isto farão uma grande diferença na educação brasileira.

Leia também: é possível trabalhar cultura de direitos humanos na escola formal? https://www.neipies.com/cultura-de-direitos-humanos-na-escola-formal/

Autor: Nei Alberto Pies, professor, escritor e editor do site. Também escreveu e publicou “O que aprender e ensinar nas escolas a partir de tragédias ambientais como a do RS?”:  https://www.neipies.com/o-que-aprender-e-ensinar-nas-escolas-a-partir-de-tragedias-ambientais-como-a-do-rs/

Edição: A. R.

“Morrer faz parte do jogo”

Enquanto o jogo prossegue aqui, surge uma série de interrogações. Se ele terminasse nesse campo de terra, seria vã nossa fé? De que adiantaria nossa esperança, nossa caridade e nossa luta por um mundo melhor? Mas, e quem não tem fé, não alimenta a esperança e não pratica a solidariedade, poderá participar desse jogo alhures, na hipótese de ele ter seguimento?

A afirmação acima foi feita por um amigo que diz não acreditar em Deus. Chamou a atenção, pois não é usual ouvir esse jogo de palavras relacionadas à morte. Tantas coisas fazem parte do jogo da vida, mas logo a morte fazer parte do jogo! Fiquei intrigado. Pensei: a morte pode fazer parte do fim do jogo, porém não do jogo em si. Se fosse para fazer parte do jogo, seria coerente pensar que tal jogo deveria ter continuidade. Mas, não, segundo meu amigo, a morte seria o fim da partida e a partida para o fim.

Acreditar em Deus é um direito de cada pessoa. E o jeito de relacionar-se com a divindade o é igualmente, embora as instituições religiosas busquem sempre organizar maneiras coletivas de estabelecer tais relacionamentos. Do mesmo modo é direito não acreditar, uma vez que a fé é uma adesão livre.

Ninguém pode ser obrigado a ter fé, embora ela possa ou até deva ser estimulada e fortalecida. Também, é direito crer que a vida não é um jogo que termina com a partida, no caso, com a partida desta vida. Equivale dizer, um jogo que tem sequência no campo eterno, não obstante, totalmente desconhecido. Apenas esperado e pretendido por todos quantos tem fé na imortalidade da vida.

Enquanto o jogo prossegue aqui, surge uma série de interrogações. Se ele terminasse nesse campo de terra, seria vã nossa fé? De que adiantaria nossa esperança, nossa caridade e nossa luta por um mundo melhor? Mas, e quem não tem fé, não alimenta a esperança e não pratica a solidariedade, poderá participar desse jogo alhures, na hipótese de ele ter seguimento? E ainda, confirmada essa hipótese, será gratuita a entrada ou reentrada em tal jogo? E o que dizer daqueles que são retirados ou se retiram do jogo prematuramente? As indagações se vão em várias direções.

Se um ateu é solidário, luta pela justiça social, defende a vida em todas as suas expressões, é humanista, não estará ele também com a partida ganha? Disse São Tiago (2, 17) que a fé sem as obras está completamente morta, mas podem ser bem vivas e vivificantes as obras de quem as pratica mesmo sem crer.

Os declaradamente ateus ou supostamente pecadores poderão preceder a outros jogadores no Reino definitivo. É de Jesus esta afirmação, feita diante dos chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo: “…os cobradores de impostos e as prostitutas vão entrar antes de vocês no Reino do Céu” (Mt 21, 31).  A matemática do jogo da vida nem sempre é uma equação cartesiana.  

Praticar o mal em nome da fé é a pior jogada. E não é raro observar esse tipo de comportamento. Infelizmente também segue comum a intolerância religiosa, racial e por outras motivações. Práticas que tornam a vida tensa e insuportável em todos os campos. Por outro lado, vale reafirmar sem parecer piegas, que as melhores jogadas são aquelas feitas com solidariedade, justiça e cuidado. E que o melhor e o essencial de qualquer religião é o amor.

As possibilidades sobre o jogo da vida são diversas. Muitas faltas, derrotas, vitórias e empates podem ocorrer enquanto essa partida acontece. O importante, antes da partida (derradeira ou passageira), é procurar cometer menos faltas possível e almejar vencer o campeonato. Essa vitória, com certeza, não será possível obtê-la de forma individual. Por certo, também não se poderá comprar a premiação. Ou ela será gratuita ou não será de fato e pra valer. Mas, quem acredita, se esforça e agradece por merecer. Quem não sabe a hora, não espera acontecer!

Para maiores aprofundamentos sobre o tema, sugerimos vídeo que segue: https://youtu.be/f3_8x1-I-oM?t=1092

Autor: Dirceu Benincá. Professor Universitário na área de Ciências Humanas (FURG). Também escreveu e publicou no site “O bem-viver depende do bem pensar”: https://www.neipies.com/o-bem-viver-depende-do-bem-pensar/

Edição: A. R.

Os relacionamentos na modernidade líquida

Os recursos tecnológicos têm sido um dos grandes fomentadores dessas mudanças comportamentais, não deixando assim o amor imune a eles (recursos tecnológicos). Nesta sociedade, os vínculos ocorrem por uma espécie de conexão, que assim como as ligações moleculares de uma substância em estado líquido, são mais fáceis de serem desfeitas, quando comparadas aos átomos de um elemento sólido.

O tempo presente vem sendo considerado como o tempo das incertezas e mudanças, tempo de contradições e paradoxos, tempos de abundância e penúria. Os opostos continuam sendo demarcados com forte intensidade. Essas mudanças e incertezas vêm produzindo um processo de mutação na educação, gerando novas crises para a educação escolar, colocando em cheque o modelo, os conteúdos, as metodologias e o próprio sentido da educação vigente inaugurada nos primórdios da modernidade sólida.

Em análise sobre a educação, seus fins e a atuação do educador nesse panorama atual, Bauman (2002, p. 58) ressalta que em nenhum outro momento decisivo da história, os educadores foram confrontados com um desafio realmente comparável ao que o divisor de águas contemporâneo apresenta. Simplesmente, jamais estivemos nesta situação antes. A arte de viver (Bauman, 2009) em um mundo supersaturado de informação ainda está por ser aprendida. Da mesma forma que a arte de viver, ainda mais difícil, de preparar a humanidade para a vida dos relacionamentos humanos num mundo líquido.

A sociedade tem experimentado mudanças drásticas nos relacionamentos. Os recursos tecnológicos têm sido um dos grandes fomentadores dessas mudanças comportamentais, não deixando assim o amor imune a eles (recursos tecnológicos).

Nesta sociedade, os vínculos ocorrem por uma espécie de conexão, que assim como as ligações moleculares de uma substância em estado líquido, são mais fáceis de serem desfeitas, quando comparadas aos átomos de um elemento sólido. Nessas relações, segundo Bauman (2004, p.132) há “uma incerteza em relação ao futuro, fragilidade da posição social e insegurança existencial”.

Esta incerteza se aplica aos mais diversos âmbitos como o político, o econômico e o amoroso. É este último que Bauman trata com maior ênfase na obra Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos (2004).

O autor desencadeia uma série de conceitos, entre eles, a “cultura do passageiro”, que tem influenciado os relacionamentos, principalmente, os namoros, de modo que os valores consumistas são observados nestes relacionamentos. A partir disso, relacionar-se de modo fixo significa fechar-se para outras possibilidades, assim como num relacionamento comercial. A diferença é que no mercado há consultorias e pesquisas que tem por objetivo a execução financeira mais rentável; já nas relações amorosas, o objetivo é a conexão em que a empatia pelo parceiro torna-se fragilizada.

Nesta possibilidade, para desvincular-se afetivamente basta desconectar-se já que o “silêncio equivale a exclusão” (BAUMAN, 2004). O prejuízo emocional do término de uma relação é minimizado com uma simples eliminação de contato, possibilitando, pelo caráter flexível das relações, a entrega emocional a outro laço amoroso. Assim, o ato de conectar e desconectar é o agente mantenedor dos relacionamentos na modernidade líquida.

Para Bauman (2004, p. 22) numa cultura consumista como a nossa, que favorece o produto pronto para uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea, resultados que não exijam esforços prolongados, receitas testadas, garantias de seguro total e devolução do dinheiro. “A promessa de aprender a arte de amar é a oferta (falsa, enganosa, mas que se deseja ardentemente que seja verdadeira) de construir a “experiência amorosa” à semelhança de outras mercadorias”, que fascinam e seduzem exibindo todas essas características e prometem desejo sem ansiedade, esforço sem suor e resultados sem esforço.

Na sociedade líquida, tememos o amor “desenvolvemos o crônico medo de sermos deixados para trás, de sermos excluídos” (BAUMAN, 2008, p. 29). Por isso, preferimos diluir as relações para consumi-las. Os relacionamentos tornaram-se comercializáveis como qualquer outra mercadoria. As redes sociais tornam-se utensílios quantitativos para maior obtenção de amigos, likes e relacionamentos que se dissolvem pelos dedos. Nossas relações são cada vez mais “flexíveis”, gerando níveis de insegurança sempre maiores.

“Fabricamos a pressa, a velocidade das coisas, do tempo, perdendo-nos no espaço onde habitamos. Não nos permitimos mais perder tempo para celebrar o amor verdadeiro, para parar no tempo. Não queremos mais perder tempo nas pequenas coisas mais simples e cotidianas. Temos grandes negócios a resolver, a decidir, e precisamos correr atrás de uma máquina. Somos robôs de uma engrenagem que nós mesmos criamos. (Pe. Gerson Schmidt) Leia mais: https://www.neipies.com/o-amor-no-tempo-eterno-agora/

As relações amorosas passam a ser vivenciadas de uma maneira mais insegura, com dúvidas acrescidas à já irresistível e temerária atração de se unir ao outro. Nunca houve tanta liberdade na escolha de parceiros, nem tanta variedade de modelos de relacionamentos, no entanto, em nenhum outro tempo os casais se sentiram tão ansiosos e prontos para rever, ou reverter, o rumo da relação como agora.

Neste sentido, as relações liquefeitas se desfazem ao término do interesse que as mantinha. Vínculos e compromissos são considerados grilhões que impedem diferentes consumos e o estabelecimento de novas relações pautadas em interesses concretos. No entanto, a solidariedade, fundamental para o bem-estar da comunidade, ainda não é consumível, pois é decorrente de laços mais estreitos que envolvem obrigações e responsabilidades em relação ao outro.

Sob esta ótica, amor e felicidade estão cada vez mais relacionados ao objeto de consumo, sendo descartável ou não, não importa, o que “permanece” são apenas os desejos próprios de uma sociedade cada vez mais egoísta e egocêntrica, em que, os laços humanos são desfeitos com a mesma rapidez que uma “descurtida” em alguma página do facebook que não favorece mais.

Esta sociedade de consumidores instigados, forçados e induzidos pelo mercado do consumo, de relações líquidas e “bom enquanto dure”, as chances de libertação dos ditames do mercado são mínimas, o que ocorre também na perspectiva da educação voltada para o mercado.

Para pensar em outras possibilidades, é necessária a revolução cultural que questione esse sistema dominado pela ‘ética’ da privação, do individualismo alienado, da ganância e do lucro. Em uma sociedade dividida como a nossa entre os “poucos que têm muito” e os “muitos que tem pouco”, a cultura é o terreno onde se dá a luta pela manutenção ou superação das divisões sociais. “Nada menos que uma “revolução cultural” pode funcionar” (BAUMAN, 2013, p. 31).

Para Bauman (2013), embora os poderes do atual sistema educacional pareçam limitados, e ele próprio seja cada vez mais submetido ao jogo consumista, esse sistema ainda tem poderes de transformação suficientes para ser considerado um dos fatores promissores para essa revolução. Há um menosprezo desalentador com que se trata a escola, principalmente por aqueles que querem transformá-la numa empresa, numa engrenagem de formatar mentes e corpos para o mercado consumista e de servidão voluntária.

Entretanto, é pela escola que deveríamos recomeçar. Não uma escola empresarial que emita o mercado e transforma as experiências formativas em mercadorias instrumentais que podem ser trocadas por dinheiro, mas uma escola do conhecimento, das vivências solidárias, do espirito cooperativo, das experiências formativas éticas.

Uma escola que cultive a virtude, o amor, a coragem, a justiçam a prudência, a liberdade, o bem viver. Uma escola que seja promotora de humanidade e não de robôs. Uma escola aberta a diversidade, ao pensamento crítico e criativo e onde se torna possível a boa convivência. Uma escola que seja o centro da vida pulsante de uma comunidade que prima pela vida cidadã. Utopia? Algo impossível de acontecer? Talvez não se tivermos a coragem de dar a educação a centralidade que ela merece no hierarquia de nossas prioridades.

Referências:

BAUMAN, Zygmunt. Desafios educacionais da Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Revista TB, 2002.

BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.

BAUMAN, Zygmunt. Tempos Líquidos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.

BAUMAN, Zygmunt. Vida para o consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

BAUMAN, Zygmunt. A arte da vida. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.

BAUMAN, Zygmunt. Sobre educação e juventude: conversas com Ricardo Mazzeo. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero Email: altairfavero@gmail.com Professor do Mestrado e Doutorado em Educação da UPF. Também escreveu e publicou “A promessa da felicidade na modernidade líquida”: https://www.neipies.com/a-promessa-de-felicidade-na-modernidade-liquida/

Edição: A. R.

Retomar a educação ambiental e climática e tentar superar o capitalismo

Essas catástrofes ambientais e socioambientais têm muitas causas. O modo pelo qual os humanos produzem e consomem, o sistema de produção capitalista essencialmente depredador, as formas de organização social e os fins éticos das sociedades e dos indivíduos estão na raiz dessas causas.

Estamos vivenciando a maior catástrofe ambiental da história do Rio Grande do Sul e iniciando mais uma Semana do Meio Ambiente que se repete a cada ano, pautando temas importantes, mas não mudamos nosso modo de pensar e de viver. A Lei Federal nº 9.795/1999 que instituiu a Política Nacional de Educação Ambiental (Pnea) completou 25 anos de vigência na véspera das enchentes e está relegada pelas reformas educacionais recentes, pelos gestores públicos e pelas instituições ensino.

Até recentemente, a maioria de nós permaneceu alheia aos alertas que a comunidade científica vem, há muitas décadas, emitindo sobre as mudanças climáticas, o declínio da biodiversidade, a intoxicação dos organismos pela poluição químico-industrial, aquecimento global, as ilhas de calor e possibilidade de eventos climáticos extremos e intensos.

Em 2013 foi elaborado um documento denominado “Consenso científico sobre a manutenção dos Sistemas de Suporte da Vida da humanidade no século XXI”, assinado por mais de 1,3 mil cientistas, pesquisadores, ONGs, estudantes e demais cidadãos, que alertava:

A terra está rapidamente se aproximando de um ponto crítico (tipping point). Os impactos humanos estão causando danos alarmantes ao nosso planeta. Como cientistas que estudamos a interação dos homens com o resto da biosfera, valendo-nos de um amplo espectro de abordagens, concordamos que é imensa a evidência de que os humanos estão deteriorando os ecossistemas que suportam a vida. Predizemos também, com base na melhor informação científica disponível, que, mantida a via atual, a qualidade de vida humana sofrerá substancial degradação por volta de 2050.

Cooperar ou perecer

Na abertura da 27ª Conferência das partes (COP 27), em Shamrm el-Sheikh no Egito, em 2022, António Guterres, Secretário-Geral das Nações Unidas sentenciou: “A humanidade tem uma escolha: cooperar ou perecer. Ou fechamos um pacto de solidariedade climática ou um pacto de suicídio coletivo”.

O cenário catastrófico produzido pelas enchentes no Rio Grande do Sul (RS) não é uma exceção, ao contrário, é uma reprodução, em larga escala, das tragédias em anos recentes no litoral paulista, na Baixada Fluminense, no sul da Bahia, em Recife e, há poucas décadas, em Santa Catarina.

Em todas as situações, há centenas de mortes, milhares de pessoas desabrigadas e desalojadas, casas destruídas, empresas danificadas, cidades inteiras debaixo d’água e traumas de várias ordens.

O mais angustiante é que os estados, cidades e gestões não estão preparadas para lidar com os efeitos das mudanças climáticas, o que agrava os riscos e os impactos.

Essas catástrofes ambientais e socioambientais têm muitas causas. A maioria deriva das ações humanas no planeta e sobre a natureza. O modo pelo qual os humanos produzem e consomem, o sistema de produção capitalista essencialmente depredador, as formas de organização social e os fins éticos das sociedades e dos indivíduos estão na raiz dessas causas. E, ainda, a crise ambiental é concebida, também, como uma crise civilizacional.

Em 2020, na revista científica Nature, foi publicado um estudo que demonstrava que o total dos objetos construídos pela humanidade acabava de superar, pela primeira vez, a massa somada das formas de vida na Terra.

A transformação de matérias-primas naturais em artefatos humanos cresceu de forma tão vertiginosa que, a cada semana, os novos objetos feitos pela nossa espécie superam o peso corporal de cada pessoa viva hoje, afirmava o estudo.

A chamada massa antropogênica, como decidiram designá-la, ultrapassou a marca de 1,1 teratonelada (ou 1,1 trilhão de toneladas) em 2020 e tem dobrado de tamanho a cada 20 anos ao longo do último século, segundo os autores do estudo.

Esta catástrofe de maio no estado do RS é um evento climático potencialmente destrutivo demais para ser considerado como uma mera intercorrência climática, evento natural ou evento apocalíptico segundo a narrativa dos negacionistas.

Eventos climáticos extremos têm sido reportados com maior frequência em diversos locais no mundo, especialmente na presente década. Enchentes devastadoras ocorrem após períodos de estiagem, revelando uma crise de gestão hídrica a ser enfrentada pelo estado.

São 447 municípios atingidos, e no início de junho, o total de vítima fatais já ultrapassava 170, além de centenas de feridos, dezenas de pessoas desaparecidas e mais de 600 mil pessoas desalojadas. São ao menos 532 escolas danificadas, com centenas de milhares estudantes matriculados prejudicados.

Além das perdas ainda não contabilizadas de animais de criação, a perda parcial ou total de lavouras, comprometimento da indústria, a destruição de pontes, rodovias e a estrutura de cidades inteiras, levando o estado a decretar estado de calamidade pública.

O professor pesquisador Roberto Rafael Dias da Silva (Unisinos), lembra que ao estudarmos as implicações do Antropoceno, certamente conhecíamos que as ações humanas têm produzido efeitos globais.

O planeta sente um conjunto de transformações – pelo clima, pelas águas, pela paisagem – e, talvez em nosso estado estejamos descobrindo da forma mais dura: nós, humanos, estamos sentindo em nossos corpos a nova condição.

Nova agenda socioambiental

“Precisamos, agora, retomar a educação ambiental formal e não formal, integral, crítica, comprometida com a justiça climática, com a ética socioambiental e proteção de todos os seres vivos da natureza”

As políticas educacionais precisam trazer para o seu interior um novo direcionamento para tratar questões ligadas à justiça climática. Não um projeto, não um tema transversal, não uma cartilha para ser aplicada nas escolas: mas uma nova agenda na perspectiva socioambiental.

A maioria dos brasileiros e gaúchos se mostraram solidários para com o sofrimento alheio, porém, a maioria não se dispõe a questionar e lutar por mudanças que reduzam o aquecimento global, a crise ambiental, a promoção do consumo consciente, da justiça ambiental e o cuidado da natureza.

Entre tantas urgências e novas agendas que se apresentam no contexto atual é fundamental retomarmos a Educação Ambiental e Climática com a seriedade em todas as instituições de ensino, públicas e privada, da educação infantil a pós-graduação.

A Educação Ambiental foi praticamente extinta pelas recentes reformas educacionais nos currículos escolares. No seu espaço está sendo priorizada a educação financeira, empreendedora e inovadora, na perspectiva do sucesso profissional individual e do capital financeiro.

Precisamos, agora, retomar a educação ambiental formal e não formal, integral, crítica, comprometida com a justiça climática, com a ética socioambiental e proteção de todos os seres vivos da natureza.

Já há gestores educacionais propondo, mais uma vez, “rever os currículos”, repensar a “formação de professores para o mundo incerto e imprevisível” e intensificar a formação socioemocional dos estudantes reconstruir as mesmas escolas nos mesmos territórios.

É mais relevante e urgente retomarmos as políticas, os programas e os projetos de educação ambiental em todos as escolas e em todos os cursos nas universidades públicas, comunitárias e privadas, bem como nas empresas, ONGs, GTGs, meios de comunicação, centros comunitários e espaços comuns coletivos.

O Brasil tem uma política e um marco legal de educação ambiental bem desenhado e avançado. No papel. Não implementado. Agora, é necessário cessar de negligenciar e assumir a implementação disseminada da Educação Ambiental, desenvolvendo uma compreensão integrada do meio ambiente e suas múltiplas e complexas relações, envolvendo aspectos ecológicos, psicológicos, legais, políticos, sociais, econômicos, científicos, culturais e éticos.

É imperativo, também, que todas as instituições educativas assumam e incorporem a agenda das mudanças climáticas nos currículos de todos os níveis de ensino; que formem professores de todas as áreas do conhecimento para abordar o tema; que empoderem as juventudes para participarem das decisões da agenda climática e, integrem estratégias educacionais às políticas públicas sociais e ambientais.

A Política Nacional de Educação Ambiental (Lei nº 9.795/1999) e a Política Estadual de Educação Ambiental (Lei nº 11.730/2002), atualizada pela lei nº 13.597/2010), já estabelecem que todos estudantes e cidadãos têm direito à educação ambiental, incumbindo:

– o poder público a definir e implementar políticas pública de EA;– às instituições educativas, promover a educação ambiental;– aos meios de comunicação de massa, colaborar de maneira ativa e permanente na disseminação de informações;– às empresas, entidades de classe, instituições públicas e privadas, promover programas destinados à capacitação dos trabalhadores e,– à sociedade como um todo, manter atenção permanente à formação de valores e atitudes voltadas para a prevenção.

As políticas e programas de Educação Ambiental, também, já estabelecem como objetivos primordiais: desenvolver uma compreensão integrada do meio ambiente e suas múltiplas e complexas relações, envolvendo aspectos ecológicos, psicológicos, legais, políticos, sociais, econômicos, científicos, culturais e éticos; estimular o fortalecimento de uma consciência crítica sobre a questão ambiental e social; incentivar a participação comunitária, ativa, permanente e responsável na proteção, preservação e conservação do equilíbrio do meio ambiente; construção de uma sociedade ambientalmente equilibrada, fundada nos princípios da liberdade, igualdade, empatia, solidariedade, democracia, justiça social, responsabilidade e sustentabilidade; fortalecer os princípios de cidadania, solidariedade e autodeterminação dos povos tradicionais e comunidades locais, entre outros.

Educação ambiental

O Conselho de Educação do Rio Grande do Sul (CEEd/RS) elaborou e instituiu em 2021 as Diretrizes Curriculares Estaduais para a Educação Ambiental no Sistema Estadual de Ensino, por meio da Resolução 363/2021, após escuta ativa à sociedade, as redes de ensino e especialistas.

Essas diretrizes estaduais reafirmam e ampliam a concepção de que a “Educação Ambiental envolve o entendimento de uma educação cidadã, responsável, crítica, participativa, em que cada sujeito aprende com conhecimentos científicos e com o reconhecimento dos saberes tradicionais, possibilitando a tomada de decisões transformadoras, a partir do meio ambiente natural ou construído, no qual as pessoas e demais seres se integram”.

As diretrizes estaduais de Educação Ambiental estabelecem que as escolas públicas e privadas devem prever, em suas atividades pedagógicas prático-teóricas, a adoção do meio ambiente local, incorporando a participação da comunidade na identificação dos problemas e de suas causas.

Também preconiza a realização de ações de acompanhamento e de participação em campanhas de proteção ao meio ambiente; a incorporação do conhecimento e o acompanhamento de programas e projetos em curso, no âmbito de regiões, bacias e microbacias hidrográficas.

A orientação é também para que as escolas próximas a mananciais hídricos, como arroios, rios, áreas úmidas, lagoas, lagos e lagunas, bem como de áreas de recarga de aquíferos, deverão contemplar em seus trabalhos pedagógicos a proteção, a defesa e a recuperação destes corpos hídricos, em parceria com municípios, comitês de bacia, organizações não governamentais e outros.

As enchentes surpreenderam muitas comunidades exatamente por não conhecerem essas realidades e possibilidades.

O marco legal gaúcho determina que as escolas de educação básica e instituições de ensino superior, pertencentes ao sistema estadual de ensino, devem incorporar e abordar um conjunto de temas transversais, em seus currículos, tais como: desertificação e erosão; uso de agrotóxicos; queimadas e incêndios; resíduos sólidos; saneamento; conhecimento sobre o desenvolvimento de programas de microbacias; segurança alimentar, alimentação saudável, orgânica, vegetariana e natural; mudanças climáticas; direitos ambientais, direitos dos animais e direitos humanos; ecologia e gênero; agroecologia e racismo ambiental.

Temos consciência que a educação ambiental e climática não resolverá essas causas estruturais de natureza econômica, social, política e ambiental. Porém, ensina a pensar, refletir e desenvolver uma consciência crítica capaz de transformar os seres humanos que poderão repensar nossa forma de viver neste planeta terra que não somos donos e dependemos dele para existir.

Acúmulo e colapso ambiental

Nesta perspectiva, Luiz marques, pesquisador da Unicamp, autor de Capitalismo e colapso ambiental (Ed. Unicamp, 2016) e coautor de O decênio decisivo: propostas para uma política de sobrevivência (Ed. Elefante, 2023) reafirma a importância de todas essas estratégias, porém, adverte que sistema econômico capitalista é o maior responsável pela crise climática mundial e a ameaça real de vida humana no planeta terra.

“O sistema econômico capitalista triunfou porque se mostrou, de todos, o mais capaz de acumular riqueza, de criar excedente, e de se expandir. Mas, justamente porque prima por essas qualidades, justamente porque essas qualidades o definem, esse sistema econômico é prisioneiro delas. Ele não tem a liberdade de se autolimitar. Dito de outra maneira, ele é incapaz de não destruir, em sua engrenagem acumulativa, a riqueza biológica de nosso planeta e os equilíbrios do sistema Terra que o permitiam ao longo do Holoceno toda civilização. Hoje, a escolha é desmontar peça a peça essa engrenagem ou nos condenarmos a sofrer suas consequências, vale dizer, no melhor dos casos, nos condenarmos a condições de vida muito mais adversas que as que essa civilização da acumulação nos proporcionou”, afirma o autor à página 655 deste último livro.

Para Marques, o fato simples, incontornável e insofismável que constitui nossa agenda é que ao homem contemporâneo não resta outra alternativa senão tentar o que parece hoje, e talvez mais do que nunca, inverossímil, tentar superar o capitalismo, “se por isso se entende superar, ao mesmo tempo, a engrenagem insana da acumulação e a miséria filosófica do antropocentrismo”.

Educação ambiental e climática já para conscientizar e esperançar, ou seja, mudar!

FONTE: https://www.extraclasse.org.br/opiniao/2024/06/retomar-a-educacao-ambiental-e-climatica-e-tentar-superar-o-capitalismo/

Autor: Gabriel Grabowski, professor e pesquisador. Também escreveu e publicou no site “Crises climáticas e educação ambiental”: https://www.neipies.com/crises-climaticas-e-educacao-ambiental/

Edição: A. R.

Carta aos professores flagelados pela enchente no RS: maio de 2024

Queridos colegas educadores: muita paz!

Quem vos dirige a palavra é uma colega, atualmente aposentada do magistério estadual, mas que já completou bodas de ouro dando aulas.

Vocês não estão sozinhos ou solitários neste embate desafiante de verem suas coisas, tão importantes, serem levadas pela correnteza das águas, inclusive, para alguns também, terem entes queridos tragados pela voragem impetuosa dos rios. Há uma rede de vibrações positivas, de nossos pensamentos, carregadas de amor, carinho, levadas pelas correntes do éter que procura chegar em seus corações com mensagens inarticuladas de coragem, ânimo, fé e esperança.

Vocês fazem parte do grupo que exerce a profissão mais nobre da sociedade: os que preparam as gerações novas para enfrentarem a vida. Levantem a cabeça, olhem para o céu, vislumbrem o futuro que em breve será repleto de alegria.

Jesus também foi professor, o Mestre por excelência, e Ele nos diz: “Pedi e obtereis, buscai e achareis”.  É preciso neste momento saber entregar a Ele a nossa prece. Integrar-se na oração é uma atitude que demonstra maturidade psíquica e saúde mental, apesar do sofrimento atroz que envolve vossas almas.

Em outra publicação no site, escrevemos queJesus explorava a imaginação de seus ouvintes pois, cada um, com a plasticidade de seu pensamento, criava mentalmente a cena dos episódios narrados na história, que sempre envolvia situações cotidianas, comuns à compreensão de todos.

Leia mais: https:// https://www.neipies.com/a-linguagem-simbolica-das-parabolas-de-jesus/

 Naturalmente, sabemos que vai ser preciso muito trabalho, ação, atividade, organização, elegendo prioridades para recomeçar. Buscar seus direitos de receber ajuda federal, estadual e municipal registrando-se legalmente para acessar estas fontes de recursos, sem intermediários. Os sindicatos a que cada um está vinculado estão acolhendo seus filiados, cadastrando-os, registrando suas necessidades pessoais, e, dentro do possível, encaminhando ajuda. 

Queridos colegas, não se deixem envolver pela excessiva tristeza, apatia, depressão. Evitem ficarem centrados em torno do problema. Movimentar-se e compreender que é necessária uma cota de sacrifício para conseguir a superação gradativa da tragédia individual e coletiva.

As famílias de muitos alunos também perderam tudo.  Não há mais a casa, móveis, roupas, material escolar, lembranças. Muitas escolas também foram arrasadas, ruas, bairros inteiros, municípios. Agora é olhar para a frente, para o futuro.  Tudo passa na vida…

É aconselhável, segundo a Psicologia, que é a ciência da alma, que a pessoa que passa por um trauma desta magnitude, com muitas perdas, aprenda a parar algumas vezes ao dia e olhar para dentro de si mesma, conectar-se com as dimensões superiores da vida, respirar fundo, inspirar, expirar, em silêncio, e reencontrar seu equilíbrio emocional e espiritual.  Chorar em silêncio, de vez em quando, lava a alma. Buscar a Deus, nosso Pai, entregar-se nas mãos Dele.

Tenham em mente que tudo que foi destruído pelas águas vai renascer, se regenerar, se renovar, para melhor. A História da humanidade registra que grandes avanços, em todas as áreas da vida, ocorrem depois de cataclismos destruidores. As agressões climáticas que se vive hoje estão modificando e recuperando a paisagem natural que o homem agrediu.

Na verdade, não existe estabilidade permanente na vida, tudo está em gradativa mudança. Estamos, sempre, sujeitos à alteração e à transformação repentina em nossas vidas pessoais. Para tal, é preciso flexibilidade para a mudança, desapego, sair do foco daquilo em que nos apegamos. É a lei divina da destruição, que faz parte da vida e que promove crescimento. É saudável nos renovarmos, nos desapegarmos das coisas materiais. Evitar ficar apegado ao passado.

Claro, queridos amigos, que existe um tempo de dor, de sofrimento, luto pelas perdas materiais e, ou afetivas; é normal. Não crescemos efetivamente se não tivermos perdas, elas são experiências necessárias para nosso desenvolvimento emocional e espiritual.

Nosso Mestre e irmão maior, Jesus, o nosso amigo certo das horas incertas, nos consola: “Bem-aventurados os aflitos porque serão consolados” (Mateus, V, vv 5) Por isso, não desanimar, lembrar que a prece, na crise atual, é apoio para nossa alma atormentada.

Vamos refletir:  quais serão as consequências destes desafios que nos tiram do prumo?  É questão de tempo e de muito trabalho produtivo. Temos a certeza de que todos sairemos melhores e mais felizes desta situação.

Não fiquem calados: gritem, chorem, peçam ajuda dos colegas que, como eu, não foram atingidos pelas águas; que mesmo aposentados, continuamos vibramos por nossa gloriosa profissão. Contem conosco. Vamos nos unir em pensamento, pelas redes sociais, para que possamos trocar experiências e práticas docentes que dão certo. Não desistam de lutar, lecionar.  Vamos transformar nossas escolas em espaços lindos de acolhimento, ensino, aprendizagem, de muita arte e harmonia, onde todos se sintam felizes.

Fraterno abraço a todos.

Autora: Gladis  Pedersen  –  Pedagoga /gladispedersen@gmail.com. Também escreveu e publicou no site “A terra: nossa mãe comum”: https://www.neipies.com/a-terra-nossa-mae-comum/

Edição: A. R.

A fala das águas

A beleza da natureza se entrega para o abraço da inteligência. Esta é a nossa permanência humana no planeta, que as falas das águas gritavam nesse caudal de outono.

Maio iniciou com chuvas, tempestades, alagamentos, inundações, desaparecimentos e mortes. Águas que inundam, invadem, afogam, matam as pessoas, os animais, as plantas de modo avassalador, como se a natureza enfurecida reagisse a tanto descaso e gritasse com todas as suas forças, para se fazer ouvir, mostrando a todos que chegou no seu limite.

Não são águas que lavam feridas, não são águas que cantam de alegria, são águas revoltas que anunciam um ponto final para a dor e o desprezo dos humanos com o planeta em que habitam. Não são violentas, foram violentadas pela ganância, pelo produtivismo, pela ausência de cuidado, por serem usadas de forma afrontosa, desrespeitadas em suas fronteiras naturais.

Lembramos aqui a famosa frase de Bertold Brecht:

“Todo mundo chama de violento a um rio turbulento,

 mas ninguém se lembra de chamar de violentas as margens que o aprisionam”.

Essa violência, que aprisiona, traduziu-se na civilização de várias formas, por diferentes procedimentos, nas diversidades inventivas, pelas quais os humanos decidiram moldar a natureza em suas manifestações. Esqueceram-se que sua soberania sobre o planeta era nenhuma. De modo irresponsável, com atitudes destruidoras, produziram esse cenário de horror.

Ao olharmos as cenas das pessoas sendo socorridas, surgidas dos telhados das casas, do meio dos rios, debaixo das pontes, junto às estradas, nas encostas dos morros, percebemos os limites da aventura humana, cuja temeridade produziu dores, perdas e lutos. Se tivesse sido utilizada a ousadia da inteligência teríamos alegrias, festas e celebração da vida.

Esse presente absoluto da tragédia, exterminador da história e da memória das pessoas, transformou a vida numa cena líquida, levada pelas águas, cujas falas anunciam um futuro mergulhado no absurdo do presente. Importante lembrarmos dos estudos de Zygmunt Bauman, e sua crítica acerca da Modernidade Líquida, em que tudo escorre como a água entre os dedos das mãos. As pessoas contemplavam desoladas as fotografias, os brinquedos, seus pertences como algo que escorria entre seus dedos, levados pela água.

Construímos esse tempo de modo imperativo como se fôssemos donos do Planeta que habitamos. Mais uma vez ocorreu o que Bauman prenunciou, o tempo também se tornou líquido.

Tempus fugit, diz o provérbio latino. O tempo foge. Não dominamos seu curso, nem sabemos o que virá. Sabemos que devemos cuidar da vida, com o zelo necessário para que vivamos nossos possíveis com relativa segurança, sem a corrida maluca para dominar tudo, o que resulta em ficar sem nada.

A paz do mundo que criamos na civilização, não pode ser a paz da ausência, do silêncio indiferente, do domínio perverso da natureza. Antes, deve ser a paz do afeto, da presença, do cuidado, da acolhida.

A beleza da natureza se entrega para o abraço da inteligência. Esta é a nossa permanência humana no planeta, que as falas das águas gritavam nesse caudal de outono.

Autora: Cecilia Pires, Maio/2024. Também escreveu e publicou no site “Direitos humanos: porque são imprescindíveis”: https://www.neipies.com/direitos-humanos-porque-sao-imprescindiveis/

Edição: A. R.

Esse texto é para você que fala mal do Bolsa Família

As pessoas opinam sobre assuntos que não conhecem com profundidade, julgam sem empatia, não conseguem se colocar no lugar do outro.

Quem és tu que queres julgar, / com vista que só alcança um palmo, / coisas que estão a mil milhas? A frase de Dante Alighieri em ‘A Divina Comédia’ é um chute na boca do estômago de muita gente, principalmente quem julga de forma crítica (nada construtiva) programas de governo como o Bolsa Família.

Não foi uma nem duas vezes que ouvi por corredores, em grupos fechados da elite passo-fundense ou em encontros das abastadas famílias coronelistas locais e, o pior, de quem nem é tão abastado assim, críticas contundentes ao Programa Federal Bolsa Família. Para quem não sabe, o Bolsa Família é a unificação do Bolsa Escola, criado em abril de 2001, do Bolsa Alimentação, criado em setembro de 2001 e do Auxílio Gás, criado em janeiro de 2002 pelo governo FHC.

Naqueles anos, o governo sofria com alta inflação, que se refletia com muita pobreza e desemprego. Para buscar uma solução, FHC pediu financiamento internacional para o FMI – Fundo Monetário Internacional. Para liberar os recursos, a condição foi que o governo criasse programas sociais onde os recursos fossem diretamente às famílias.

A gente sabe que só assim para o dinheiro chegar no bolso de quem realmente precisa.

E sabe quem são as pessoas mais beneficiadas com isso? As mães. Sim! Quem segura as pontas, quem leva no médico, quem vai no mercado na grande maioria das vezes são as mulheres, mães solo ou não. Para conseguir o benefício, elas tem de comprovar a vacinação em dia dos pequenos, além da frequência escolar, o que traz por si só uma justificativa importante. Milhares de crianças não estariam na escola não fossem os programas sociais. Então eles são ruins?

Claro que muitos dos que estão lendo esse texto já pensaram: mas tem que ter um programa social e recursos para garantir que os pais levem os filhos na escola ou que os vacinem? Sim! Nossa realidade é de um país com graves problemas educacionais/culturais.

Para você que estudou e teve amparo psciológico e estrutura de família parece ser lógico, mas para quem nasceu em lares destruturados, passando fome, conhecendo a dura realidade da vida desde cedo, com muito muito sofrimento – falta de saneamento, moradia precária, sem acesso à saúde – isso não é comum e eles precisam ser estimulados por programas sociais a dar uma contra partida para receber recursos.

Essa é a vida como ela é.

Ah, mais pobre nem tem que ter filho. Quem é você, quem somos nós pra julgar? Será que temos esse direito?

Autora: Rosângela Borges é jornalista, feminista e ativista pelos direitos humanos. Também é Convidada, colaboradora do site.

Edição: A. R.

Te vejo!

Perdendo a capacidade de “ouvir” e “ver”, passamos a atuar, por mais elevadas que sejam as titulações acadêmicas, como imbecis funcionais que acreditam ser possível encontrar a solução dos problemas usando o mesmo paradigma que criou os problemas.

Quem sabe, antes de nos embrenharmos na defesa da necessidade de construção uma nova ética para lidarmos melhor com as grandes questões que afligem a humanidade, o que precisaríamos, de fato, não seriam uma nova ótica e uma nova óptica? É isso mesmo: uma nova ótica e uma nova óptica. Afinal, essas são as ciências que, na física, estudam o som e a luz e têm as suas contrapartes em biologia, que tratam da audição e da visão.

Pois, foi com o enfoque de, antes de qualquer coisa, “ouvir” e “ver”, que Roberto Crema (psicólogo e antropólogo da Unipaz/Universidade Internacional da Paz) elaborou a linha mestra da conferência magna que proferiu no VIII Workshop de Editoração Científica promovido pela ABEC-Associação Brasileira de Editores Científicos, em Campos do Jordão, SP, de 10 a 13 de novembro de 2014, sob o título “Liderança na área da autoria científica”.

“Ouvir” e “ver”, antes de qualquer coisa, são peças fundamentais por serem a base da hermenêutica (a ciência da interpretação) ou, para quem preferir, por estarem essas palavras expressas no primeiro mandamento das Leis de Deus e na tradição xamanística dos zulus na África do Sul.

 “Ouve/Escuta Israel!” (Deuteronômio 6:4-9) ou o “Shema Israel!” (da Torá), que formam a base do monoteísmo judaico-cristão. É pela relevância não só de ver, mas de sentir a presença nas relações interpessoais que os zulus, em vez dos nossos protocolares cumprimentos – “bom dia/boa tarde/boa noite”, “como vai?”, “Oi, tudo bem?, “Olá, eu vou bem, obrigado/obrigada!”, etc. – , optam  pela peculiar saudação “sawubona”, que significa “TE VEJO!”, e pela inusitada resposta  “sikhona”, que literalmente traduz-se por “ESTOU AQUI!”. É isso. Simples assim: TE VEJO… ESTOU AQUI! E se foi o Senhor Deus que ordenou e se os Xamãs assim o querem, quem somos nós para questionar?

Roberto Crema tratou do exercício da liderança alheia aos cargos ou posições ocupados na hierarquia das corporações, que se dá, acima de tudo, pela escuta, pelo olhar e pelo sentir a presença do outro. Algo aparentemente simples, mas de difícil concretização prática no mundo das organizações, que, não raro, são territórios em que reinam absolutos chefetes de plantão, cujo respeito que recebem dos pares não transcende os contornos dos cargos que ocupam.  

Entenda-se que escutar não é meramente ouvir. Audição é função biológica, mas a nossa referência é INTERPRETAR, que exige a pluralidade dos sentidos, num mundo em que, metaforicamente, vivemos a crise da surdez, decretando-se a falência da hermenêutica.

Precisamos, especialmente no universo científico, transgredir a NORMOSE, expressão forjada por Jean Yves Leloup, na França, e por Roberto Crema, no Brasil, que significa a patologia da normalidade ou a doença da estagnação evolutiva, da qual muitos de nós, mesmo imperceptivelmente, sofrem, quando nos deixamos dominar pelas coisas pequenas, pela mediocridade e pelo egocentrismo exacerbado, perdendo a capacidade de “ouvir” e “ver”, passando a atuar, por mais elevadas que sejam as titulações acadêmicas, como imbecis funcionais que acreditam ser possível encontrar a solução dos problemas usando o mesmo paradigma que criou os problemas.

Roberto Crema tem uma fala suave e uma aura espiritualizada, estilo guru “Nova Era” que, mesmo abusando de frases de efeito, cuja autoria original, para ouvidos atentos, pode ser facilmente identificada, se não nos convence, pelo menos nos deixa mais reflexivos.

Assista vídeo: https://youtu.be/g-i0kz4asak?t=460

São referências coisas como: “O maior perigo da humanidade é um cientista alienado” (Robert Oppenheimer); “O pior naufrágio é não partir” (Amyr Klink); “Vida é o que acontece enquanto estamos ocupados fazendo outros planos” (John Lenon); e “É preciso parar o mundo para conseguir ver” (Carlos Castañeda. A erva do Diabo, 1968). E as que eu não consegui identificar as fontes: “Nenhum vento é favorável pra aquele que não sabe aonde quer chegar”; “Todo mundo quer renascer, mas ninguém quer morrer”; “Nós não nascemos humanos, nós nos tornamos humanos”; “Este não é um mundo de perfeição, mas de aperfeiçoamento”; “Acenda uma vela em vez de apenas reclamar da escuridão”; “Não haverá outra Arca de Noé”, “Utopia é o que não tem espaço ainda para acontecer”; e, a minha preferida, “Ressentimento é um veneno que a gente bebe e fica esperando que o outro morra”.

Se você leu até aqui, então você está aqui… Te vejo!

(Do livro A ciência como ela é…, 2011.)

Autor: Gilberto Cunha. Também escreveu e publicou no site “Depois daquele olhar”: https://www.neipies.com/depois-daquele-olhar/

Edição: A. R.

Por que boas práticas educativas não são reconhecidas como elementos potentes para melhoria da educação básica?

Entendemos que, nas diferentes redes de ensino, em especial, nas escolas públicas, deveriam ser implementadas iniciativas de socialização, discussão, sistematização e divulgação de boas práticas de aprendizagem, feitas de professores para professores, realizadas por grupos afins ou por áreas de conhecimento.

Definitivamente, escrever sobre educação ainda não é tarefa reconhecida, nem atribuição dos professores e professoras do Brasil. Mas, deveria ser, pois possibilitaria à estes/estas maior apropriação do seu trabalho pedagógico, passando da condição de tarefeiros e aplicadores de atividades a sujeitos que induzem e promovem aprendizagem de maneira coerente, reflexiva, consistente e programada.

No Brasil, nas últimas décadas, a mídia tradicional procura valorizar e mostrar experiências educativas que levam em conta um certo heroísmo, destemor, ousadia e intuição de professores, professoras e instituições. Não se valoriza, nem se incentiva, nas diferentes redes de ensino, a prática sistemática de reflexão e escrita dos professores sobre as suas práticas. Ao contrário, buscam-se receituários prontos, propostas de atividades já projetadas ou elaboradas por “iluminados” que fazem parte de editoras ou, mais recentemente, de fundações ou institutos educacionais privados. Estes receituários não exigem muita reflexão ou planejamento, mas almejam o cumprimento de metas e objetivos alcançados, para preenchimento de formulários ou planilhas, estatísticas e números.

Nesta perspectiva, professores e professoras podem ser comparados a números e/ou máquinas que precisam comprovar suposta eficácia educacional: contam suas horas/aula, o número de estudantes por sala de aula, suas horas atividades, as burocracias e registros estéreis de planejamento, planilhas com anotações sobre aprendizagem/habilidades/competências advindos da BNCC. Neste contexto, qual é o tempo destes professores e professoras estudarem na escola? Qual é o tempo para refletirem sobre alguma de suas atividades que geraram significativas aprendizagens ou apresentaram os maiores desafios de seu trabalho junto aos estudantes?

A prioridade do trabalho dos professores e professoras deve ser o pedagógico, deve ser a relação com os estudantes, deve ser a exploração dos seus potenciais criativos, o uso de novas tecnologias e ferramentas educacionais e a mediação da construção dos conhecimentos. As quinquilharias da excessiva burocracia na educação só enchem tabelas de relatórios e os olhos dos burocratas que pouco entendem de educação. (Leia mais: https://www.neipies.com/estao-matando-a-essencia-da-educacao/ )

Os poucos professores que se preocupam com a qualidade da educação, a partir de seu protagonismo e de suas atitudes reflexivas, quando levantam perguntas sobre possibilidades e tempo para reflexão e sistematização de práticas educativas, tem seus pleitos tratados como “caso particular”, ou como atividade não condizente com o fazer docente. Definitivamente, são incompreendidos nas suas proposições, pois remam contra a maré dos tecnocratas que reservam ao professor uma única função: dar aulas.

As reflexões e ponderações, neste ensaio, surgem de leituras, observações e vivências onde o planejar, o executar e o avaliar (a partir da sistematização de práticas pedagógicas) são uma prática recorrente. Nestes processos, há ainda a socialização das aprendizagens e das escritas, como forma de trocas e enriquecimento mútuo dos envolvidos. No mesmo sentido, fazemos do site www.neipies.com um laboratório de aprendizagens onde mesclamos artigos, crônicas, textos com sugestões de atividades, como formas de enriquecer e fortalecer o trabalho docente.

Confira a experiência de uma Seção específica no site para proposição e sistematização de práticas educativas: https://www.neipies.com/reflexoes-e-atividades/

Entendemos que, nas diferentes redes de ensino, em especial, nas escolas públicas, deveriam ser implementadas iniciativas de socialização, discussão, sistematização e divulgação e boas práticas de aprendizagem, feitas de professores para professores, realizadas por grupos afins ou por áreas de conhecimento. Estas iniciativas, por fim, deveriam estar disponíveis, publicadas em sites ou meios específicos, para o conjunto de professores e professoras daquela rede. Para além de valorizar as experiências individuais (de professores) ou coletivas (de escolas), a própria rede de ensino poderia ver nestas atividades uma espécie de retrato do trabalho docente, atestando-lhe qualidade e reconhecimento. Poderia, também, sugerir a multiplicação destas experiências em outras salas de aula, em outros lugares ou contextos escolares.

Esse trabalho pautado na reflexão sobre a prática docente é o melhor, se não o único meio de fazer a formação continuada coerente com as necessidades de cada contexto. Em “comunidade de investigação”, como fora bem fundamentado por pensadores como Elli Benincá, cuja concepção de formação fundamenta-se numa antropologia que considera o ser humano aberto a aprendizagem, ou no dizer de Paulo Freire “inacabado, inconcluso, vocacionado a ser mais”.  Esse fazer, longe de se tornar efetivo nas redes de ensino, requer espaço – tempo para encontro com os pares, registro das práticas, estudo das mesma e re-encaminhamento para a ação. Essa proposta não é bem acolhida por portadores de uma concepção tradicional de ensino, a qual centra-se na figura da autoridade. Em oposição a essa postura, aprendemos com Benincá que:

 … os professores que possuem uma visão dialética do mundo percebem que o saber é um processo permanente de construção. Nessa mesma perspectiva, o ser humano, por sua ação, torna-se transformador, não só dos contextos sociais como também da natureza. Como a transformação pode produzir algo de original e inédito, sua compreensão precisa de aprendizagem. Havendo transformação, supõe –se a existência de conflitos. Tal processo requer sempre nova aprendizagem. Em decorrência, pode-se dizer que as transformações na natureza e na sociedade, embora não sejam produzidas especificamente, pela escola, penetram no seu interior, construindo um espaço privilegiado de aprendizagem. (BENINCÁ, 2010).    

“As publicações de Elli Benincá (1936-2020) eram uma forma de contribuição para que outras pessoas exercessem a tarefa pedagógica e teológico-pastoral na perspectiva que sempre sonhara: formação profunda e autonomia em ser e agir. A leitura dos textos leva a pessoa a interagir com o seu contexto de vida e trabalho em uma perspectiva crítica e aberta às transformações necessárias”. (Ari Antônio dos Reis)

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Sistematização de práticas docentes e formação de professores

Sistematizar as práticas educativas, pensar sobre as intervenções cotidianas de uma sala de aula à luz das teorias e dos pensadores é parte de um desafio mais ousado de formação de professores e professoras.

Embora já sejam bastante estudadas, a sistematização e a escrita das práticas pedagógicas ainda não foram internalizadas entre os professores e professoras e nem entre os gestores educacionais como estratégia de mudança e ressignificação do “fazer docente”. Parece estar ainda restrita ao fazer pedagógico que embasa as experiências educativas sociais e populares. Ou a estudos do “pessoal da pedagogia”.

Em matéria da Revista Nova Escola, podemos reconhecer a importância de observar, registrar e refletir as práticas docentes e a parceria entre gestores escolares e professores. “Quando há parceria com colegas e gestores, o processo formativo se amplia, mas Tamara crê que o ato de escrever já contribui para seu aperfeiçoamento. “O registro faz com que o momento não fique para trás e o aprendizado se consolide.” A escuta sensível e o olhar para o que as crianças dizem e pensam têm sido o caminho para melhorar sua prática e se fortalecer como professora”. Leia mais aqui:  https://novaescola.org.br/conteudo/1882/registros-que-fazem-o-professor-refletir-sobre-a-pratica

Afirmamos, por fim, a importância da formação na vida pessoal e profissional dos docentes. Cremos, sobretudo, que são necessárias mudanças de posturas e de práticas, para melhorarmos a qualidade de nossa intervenção pedagógica, conectada com o mundo e com as necessidades dos estudantes.

Não acreditamos que projetos, metodologias ou propostas pedagógicas unilaterais que são oferecidos como receitas de melhoria da qualidade da educação por universidades, institutos ou fundações promovam as mudanças didáticas e pedagógicas que precisamos implantar em nossas escolas. Todas as iniciativas devem estar acompanhadas do protagonismo, reflexão e sistematização das práticas dos professores envolvidos.

Os professores são protagonistas da educação, mas, na medida em que estes não tem tempo para escrever, discutir e promover suas práticas educativas, dão margem para outros profissionais que, fora da educação ou das salas de aulas, dizem o que precisamos fazer na escola.  Podemos, e devemos, ousar mais!

Leia também: O professor Altair Fávero defende que “o professor se torna melhor quando consegue pensar sobre sua própria condição profissional.Nesse sentido, concordo com António Nóvoa quando diz que “a formação não se constrói por acumulação (de cursos, de conhecimentos ou de técnicas), mas sim através de um trabalho de reflexividade crítica sobre as práticas e de (re)construção permanente de uma identidade pessoal” (1995, p. 25). https://www.neipies.com/escola-boa-e-a-escola-onde-professores-estudam/

Iniciativas de sistematização de práticas pedagógicas

Já existem iniciativas, em âmbito estadual, do RS, que buscam valorizar as iniciativas dos professores e professoras, bem como de escolas da rede estadual. Conheça 2 experiências que procuram oportunizar a socialização de projetos e de iniciativas educativas de professores da rede estadual do RS.

2ª Mostra das Boas Práticas Pedagógicas – Assembleia Legislativa do RS

Nesta edição 2024, a Mostra abrangerá a temática “A Escola Pública e o seu compromisso com o conhecimento e a cidadania e tem como objetivos conhecer, registrar, incentivar, valorizar e compartilhar o protagonismo e a autoria de professores, estudantes e comunidade escolar, ao dar visibilidade às boas práticas pedagógicas em sala de aula. Desta vez, a mostra pretende envolver a Assembleia Legislativa com as comunidades escolares do RS.

A edição de 2024 será composta por relatos de experiências das escolas; ciclo de debates da Educação com relatos e exposição e a publicação de um livro com os relatos selecionados. A seleção dos trabalhos ficará a cargo de integrantes da Comissão de Educação da Assembleia Legislativa, representantes de universidades, entidades educacionais e representativas de professores e alunos. Os relatos de experiência contemplam todos os níveis e modalidades de ensino.

A Comissão desenvolveu quatro linhas temáticas pedagógicas para esta edição: leitura e escrita como estratégia de desenvolvimento cultural e social, tanto de estudantes como de professores, servidores e a comunidade escolar; a valorização das meninas e mulheres e a prevenção da violência; o meio ambiente no contexto de preservação e garantia de desenvolvimento sustentável do planeta e a pesquisa e a tecnologia como instrumentos de construção do conhecimento, desenvolvimento e cidadania.

Para participar da Mostra é necessário ser escola pública do RS e apresentar um relato da experiência em forma de texto, observadas as temáticas pedagógicas do edital. O relato inscrito deverá apresentar práticas ou ações concluídas ou em andamento.

As inscrições para a Mostra vão até o dia 31 de maio. O período de avaliação dos trabalhos inscritos se estende entre junho e julho. A exposição e apresentação dos trabalhos acontecerá no dia 18 de outubro, nas dependências da Assembleia Legislativa, durante todo o dia.

Conforme a deputada Sofia Cavedon, é preciso valorizar o que existe de trabalho bem feito, dedicado e inovador das escolas estaduais.

Após a fala da deputada, foram relatados dois projetos de boas práticas pedagógicas. Um, da Escola Estadual de Ensino Médio Patrulhense, de Santo Antônio da Patrulha, denominado projeto Momento Literário, que, em março, destacou o Dia Internacional da Mulher. Conforme a diretora da Escola, Bianca Salazar dos Santos, os assuntos abordados nas rodas de conversas foram escolhidos a partir das leituras relacionadas ao tema abordado.

Outro, da escola André Leão Puente, de Canoas, relata a criação, em 2019, de um Podcast com o finalidade de trazer para a comunidade escolar assuntos de interesse geral, relacionados com cultura, educação, leitura, literatura, cinema e conteúdos abordados em sala de aula. “A nossa intenção é ampliar e transformar os canais digitais e redes sociais da escola em meios agregadores, fomentando alunos e ex-alunos a produzirem conteúdo”, relatou à Comissão o diretor da Escola, idealizador do projeto e âncora de vários episódios, Felipi Fraga.

Presenças
Participaram da reunião as deputadas Eliana Bayer (Republicanos) e Sofia Cavedon (PT), presidente, e os deputados Carlos Búrigo (MDB), Elizandro Sabino (PDR), Kaká D Ávila (PSDB) e Leonel Radde (PT).

FONTE: https://ww4.al.rs.gov.br/noticia/335886

Edição Estadual da 4ª Mostra Pedagógica do CPERS (2023)

A Mostra Pedagógica do CPERS é uma oportunidade para compartilhar iniciativas e experiências bem-sucedidas de todo o estado e é também uma chance de fortalecer ainda mais a nossa comunidade escolar e promover o intercâmbio de ideias e conhecimentos.

Ao inscrever seu projeto, você estará contribuindo para a construção de um ambiente de aprendizagem cada vez mais inclusivo, dinâmico e enriquecedor. Sua participação é fundamental para inspirar outros educadores(as) a inovarem suas práticas e alcançarem melhores resultados.

Rosane Zan, da Comissão de Educação do CPERS, destaca que todas as iniciativas são bem-vindas. “Acreditamos que todas as escolas têm experiências valiosas para compartilhar, independentemente do tamanho ou localização. Não importa se você atua no interior do estado ou na capital, em uma escola pequena ou em uma grande instituição. Cada projeto inscrito terá a oportunidade de ser reconhecido e valorizado”.

Os 42 núcleos do CPERS realizarão mostras regionais de agosto a novembro, e educadores(as) devem se inscrever com até cinco dias de antecedência ao evento na sua região. Os projetos e trabalhos mais significativos terão lugar na etapa estadual da Mostra, que ocorrerá em Porto Alegre em data a ser definida. As experiências selecionadas também serão compiladas em uma publicação especial.

Participe e não perca a chance de mostrar ao nosso estado a excelência da educação que construímos juntos, apesar da desvalorização e descaso do governo Eduardo Leite (PSDB) com a educação e os educadores(as). 

Inscreva seu projeto e faça parte dessa grande celebração do conhecimento e da dedicação dos profissionais da educação. Juntos(as), podemos construir uma escola pública cada vez mais inclusiva, transformadora e presente na vida de nossos estudantes.

FONTE: https://cpers.com.br/inscricoes-abertas-participe-da-5a-mostra-pedagogica-do-cpers/

REFERÊNCIAS:

1. https://vivescer.org.br/dicas-sistematizacao-praticas-pedagogicas/

2.https://profuturo.education/pt-br/observatorio/solucoes-inovadoras/boas-praticas-educacionais-o-que-sao-e-como-conta-las/

3. https://novaescola.org.br/conteudo/1882/registros-que-fazem-o-professor-refletir-sobre-a-pratica

4.https://www.enfoc.org.br/system/arquivos/documentos/90/f1289sistematizacaouminstrumentopedagogiconospdsjoaofrancisco.pdf

* Esta publicação teve participação do professor Marciano Pereira, um dos convidados do site que produz sistematicamente reflexões sobre educação e religiosidade.

Autor: Nei Alberto Pies, professor, escritor e editor do site. Também escreveu e publicou no site a matéria “O que aprender e o que ensinar nas escolas a partir de tragédias ambientais como a do RS”:  https://www.neipies.com/o-que-aprender-e-ensinar-nas-escolas-a-partir-de-tragedias-ambientais-como-a-do-rs/

Edição: A. R.

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