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Tapera: espaço das lembranças vividas

Não há ser humano órfão de lugar, mesmo que leve uma vida itinerante, isto é, sem lugar fixo. Todos nós sentimos saudade de algum lugar por onde passamos ou moramos.

“Tapera” é a denominação que damos a uma casa que foi habitada por pessoas em um tempo passado. A tapera, a “casa velha”, não é uma casa abandonada e esquecida apenas pelo fato de ninguém mais morar nela. A tapera, ou casarão, como a chamamos, é onde moram as lembranças de tempos próximos ou longínquos. A tapera, habitação em ruínas, é o lugar da nostalgia das vivências marcantes. Mesmo o estradeiro ou o nômade guardam na mente e no coração as paisagens por onde passaram.

Não há ser humano órfão de lugar, mesmo que leve uma vida itinerante, isto é, sem lugar fixo. Todos nós sentimos saudade de algum lugar por onde passamos ou moramos.

A tapera normalmente nos leva a um tempo de convivência familiar, com as memórias da infância e até mesmo da fase adulta. A tapera evoca os sentimentos das partidas e das mudanças. É difícil avistar uma tapera e ficar neutro diante dela, porque não é apenas um amontoado de telhados, janelas e portas caídas, corroídas pelos cupins. Ali permanecem os vestígios das pegadas humanas. Tornou-se um espaço sagrado, como uma liturgia a evocar infinitas lembranças.

A saudade não é um não-lugar. A lembrança é um sentimento afetivo, positivo ou negativo. Por isso, a nostalgia não é uma quimera fantasmagórica ou um “soluço psíquico”. A lembrança é a base antropológica das vivências existenciais, que constitui a espiritualidade do mundo vivido em sua fantasia e realidade. A fantasia e a realidade sempre nos trazem de volta para o chão da vida. Quanto mais estamos na fantasia, mais dentro da realidade estaremos, e só suportamos o peso da realidade por causa do alívio da fantasia. Sem fantasia, a vida se transforma em um peso insuportável.

A tapera, a “casa abandonada”, é a evocação do tempo conjugado no espaço.

A tapera é a estruturação de sentido, porque é sempre o espaço que indica as experiências vividas no tempo. A tapera é uma interpelação das memórias que ali estão presentes. As músicas, poesias e crônicas inspiradas em taperas são o recado do tempo que grita nelas para se evitar a amnésia do humano ausente. É neste sentido que a poesia não é outra coisa senão a rouquidão do tempo. A destruição de uma tapera, “da casa velha”, é a eliminação dos vestígios das pessoas ou grupos que por ali passaram.

Cada parede, telhado e esteio encontrados ao relento do tempo são sinais de que alguém morou naquele lugar, por isso são depositários de memórias. Nossa mente é povoada desses lugares onde vivemos parte de nossa vida. Quem não se lembra da primeira casa, do quintal, do terreiro e até mesmo do campinho das muitas brincadeiras? Os trilhos que davam acesso às casas da vizinhança para os encontros das prosas nos repetidos serões. Ao enxergar uma tapera à beira das estradas, logo nos vem à mente que ali habitaram pessoas que construíram suas subjetividades em muitas vivências tertúlicas.

Quem não fica emocionado quando vê uma fotografia da casa dos bisavós? A imagem expressa naquela foto revela muitas lembranças adormecidas.

Na verdade, a tapera, a “casa velha”, é o lugar onde habita a saudade. Em mim, há muitas moradias que trago “fixadas” na memória e que, geograficamente, não é mais possível encontrar, porque a fúria do progresso na sua fase de modernização destruiu todas essas moradias.

Como é bom sentir saudade da primeira casa onde a mãe nos assistiu e comemorou a vitória de nossos primeiros passinhos. Trago, bem fresquinho, guardado na mente, a minha primeira casa, construída de pau a pique, sem quintal e sem portão. No lugar dessa primeira casa foi construída outra de alvenaria, mas que, na atualidade, é uma tapera repleta de memórias de uma época que se foi.

Autor: José André da Costa , msf. Também escreveu e publicou no site “Do Cansaço”: www.neipies.com/do-cansaco/

Edição: A. R.

Respeito à pessoa idosa precisa ser aprendido nas escolas também

Há, no Brasil, leis que combatem a discriminação contra a pessoa idosa. Para serem efetivas, é preciso amplo processo educacional (por Bahij Amin Aur, do Instituto Bonina)

Há, no Brasil, leis que combatem a discriminação contra a pessoa idosa. Para serem efetivas, é preciso amplo processo educacional por Bahij Amin Aur, do Instituto Bonina Sempre que nos detemos na questão dos direitos das pessoas idosas, temos, subjacente, o princípio da não discriminação.

Sempre que nos detemos na questão dos direitos das pessoas idosas, temos, subjacente, o princípio da não discriminação. A rigor, os direitos consagrados em nossa legislação têm implícito esse princípio, do qual pode-se dizer que decorrem os demais.

O princípio fundamental da não discriminação faz parte do Direito Internacional geral, aplicável a todos os países, e integra a Legislação brasileira de defesa e proteção da pessoa idosa, assim como da Convenção Interamericana sobre a Proteção dos Direitos Humanos dos Idosos, de 2015.

Em nosso país, a Política Nacional do Idoso (PNI), expressa na Lei nº 8.842/1994, tem por objetivo assegurar seus direitos, criando condições para promover sua autonomia, integração e participação efetiva na sociedade, sendo que estabelece no seu Art. 3º, entre seus princípios, que a pessoa idosa não deve sofrer discriminação de qualquer natureza.

Por sua vez, o Estatuto da Pessoa Idosa (Lei nº 10.741/2003), em seu Art. 4º, reafirma que nenhuma pessoa idosa deve ser objeto de qualquer tipo de discriminação, assim como de qualquer tipo de negligência, violência, crueldade ou opressão, acrescentando que todo atentado aos seus direitos, por ação ou omissão, será punido na forma da lei.

Quais são os direitos da pessoa idosa?

O próprio Estatuto, do Art. 8 º ao 42, os enumera e trata de cada um, chamando-os de “Direitos Fundamentais”.

São eles, os direitos a:

Vida /liberdade, ao respeito e à dignidade/ alimentos/ saúde/ educação/ cultura/ esporte e lazer/profissionalização e ao trabalho/ previdência social/ assistência social/ habitação/transporte.

A estes se agregam disposições referentes ao direito de Acesso à Justiça (do Art. 69 ao 92).

Acrescenta-se, a esta legislação nacional, a relevante norma internacional, já mencionada, que é a Convenção Interamericana sobre a Proteção dos Direitos Humanos dos Idosos, da qual o Brasil, no âmbito da Organização os Estados Americanos (OEA), não só foi um dos países signatários, como teve papel de ativo protagonista em sua elaboração e processo de discussão e aprovação.

Lamentavelmente, porém, ainda não a ratificou, apesar de o Poder Executivo, para esse fim, a ter encaminhado ao Congresso Nacional, sendo que, na Câmara os Deputados, recebeu parecer favorável de todas as Comissões pertinentes, estando, portanto, pronta para ser votada, com status constitucional, o que ainda não ocorreu.

Esta Convenção trata explicitamente da questão da discriminação, como pedra angular de seus demais preceitos. Ela afirma que “discriminação” é qualquer distinção, exclusão ou restrição baseada na idade que tenha como objetivo ou efeito anular ou restringir o reconhecimento, gozo ou exercício em igualdade de condições dos direitos humanos e liberdades fundamentais na esfera política, econômica, social e cultural ou em qualquer outra esfera da vida pública e privada.

Mais, ainda, põe em relevo a ocorrência da discriminação múltipla, que vem a ser qualquer distinção, exclusão ou restrição do idoso fundamentada em dois ou mais fatores de discriminação, tais como: sexo, diferentes identidades de gênero e orientações sexuais, deficiência, migração, pobreza, marginalização social, condição de sem teto e de sem-terra, privação de liberdade, origem étnica (afrodescendentes, povos indígenas e outros), pertencimento a povos tradicionais e a grupos nacionais, linguísticos, religiosos e rurais, entre outros.

E acrescenta que os países partes da Convenção desenvolverão enfoques específicos em suas políticas, planos e legislações sobre envelhecimento e velhice, com relação aos idosos em condição de vulnerabilidade e os que são vítimas de discriminação múltipla.

Em resumo, estabelece que os países devem reconhecer, prevenir e proteger as pessoas idosas da discriminação, inclusive da discriminação múltipla.

A não discriminação, portanto, não só é explícita, como permeia todos os direitos a serem protegidos, os quais são indicados, do seu Art. 5 º ao 27.

São eles, os direitos a: igualdade e não discriminação por razões de idade/ vida e dignidade na velhice/ independência e autonomia/ participação e integração comunitária/ segurança e a uma vida sem nenhum tipo de violência/ não ser submetido à tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes/ manifestar consentimento livre e informado no âmbito da saúde, do idoso que recebe serviços de cuidado de longo prazo/ liberdade pessoal/ liberdade de expressão e opinião e acesso à informação/ nacionalidade e liberdade de circulação/ privacidade e intimidade/ seguridade social/ trabalho/ saúde/ educação/ cultura/ recreação, lazer e esporte/ propriedade/ moradia/ meio ambiente saudável/ acessibilidade e mobilidade pessoal/ direitos políticos/ reunião e associação/ situações de risco e emergências humanitárias/ igual reconhecimento como pessoa perante a lei/ acesso à Justiça.

Se analisarmos esta enumeração de direitos, vemos que reforçam e não contrariam a legislação vigente no país, seja a constante da PNI, seja a do Estatuto do Idoso, que é mais sintética.

Ela também não contraria a Constituição Federal, que consagra a construção uma sociedade livre, justa e solidária como um dos objetivos fundamentais da República, bem como, embora com diversa redação, enumera, para todos os cidadãos, os direitos e garantias fundamentais, que incluem os direitos e deveres individuais e coletivos, os direitos sociais, os de nacionalidade, e os políticos (do Art. 5º ao Art. 16).

Apesar de, além da Constituição Federal, haver legislação nacional especifica (PNI e Estatuto da Pessoa Idosa), e de haver a possibilidade de a ela ser incorporada a Convenção Interamericana sobre a Proteção dos Direitos Humanos dos Idosos no nosso sistema jurídico garantidor, ainda persistem discriminações contra a pessoa idosa.  Como tornar eficaz sua aplicação?

Como combater a discriminação contra a pessoa idosa?

É, sem dúvida, de natureza cultural a persistência do idadismo [1], que é o preconceito baseado na idade, o qual ocasiona diferentes formas de discriminação.

Esse preconceito, que pode ser inconsciente ou deliberado, provoca comportamentos que vão desde insinuações jocosas, até ações violentas contra a própria vida de pessoas com mais idade.

Se, de acordo com o Art. 3º do Estatuto da Pessoa Idosa, é obrigação da família e do Poder Público, também é obrigação da comunidade e da sociedade assegurar às pessoas idosas, com absoluta prioridade, a efetivação dos seus direitos fundamentais, sem discriminação de qualquer espécie.

Nesse sentido, para que a sociedade realize as desejáveis mudanças culturais e comportamentais, promovendo valores, atitudes e emoções favoráveis ao respeito e à dignidade das pessoas idosas, há necessidade de amplo processo educacional junto aos indivíduos, famílias, comunidade e sociedade.

Tais mudanças são difíceis e lentas, mas necessárias, associadas à execução de políticas setoriais e locais que garantam concretamente envelhecimento ativo, com proteção, cuidados e oportunidades para a preservação de sua saúde física e mental, bem como seu aperfeiçoamento intelectual e social em condições de autonomia e dignidade.

E, para isso, a escola tem papel primordial, pois expressiva maioria das crianças, adolescentes e jovens do país frequenta escolas de Educação Básica, além dos jovens e adultos que frequentam instituições de Ensino Superior. E a tripla finalidade de toda a Educação Nacional é o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.

Tomando-se que o preparo para a cidadania integra essa finalidade, lembra-se que o Estatuto da Pessoa Idosa determina que:

Nos currículos mínimos dos diversos níveis de ensino formal serão inseridos conteúdos voltados ao processo de envelhecimento, ao respeito e à valorização do idoso, de forma a eliminar o preconceito e a produzir conhecimentos sobre a matéria. (Art. 22 da Lei nº 10.741/2003)

Esta determinação já vinha da lei da Política Nacional do Idoso:

(…) inserir nos currículos mínimos, nos diversos níveis do ensino formal, conteúdos voltados para o processo de envelhecimento, de forma a eliminar preconceitos e a produzir conhecimentos sobre o assunto. (Art. 10, inciso III, alínea “b” da Lei nº 8.842/1994)

São, portanto, duas leis federais repetindo o mesmo mandamento e, nem por isso, sua real aplicação se efetiva nas unidades educacionais dos diferentes Sistemas de Ensino, aos quais cabe fazer com que elas, sejam públicas ou privadas, incluam essa temática em seus currículos, pois cabe a cada uma a formulação de seu Projeto Pedagógico.[2]

No final de 2017, o Conselho Nacional de Educação aprovou a Base Nacional Curricular (BNCC), como referência para os currículos escolares da Educação Básica, pela Resolução CNE/CP nº 02/2017, fundamentada pelo Parecer CNE/CP nº 15/2017, dispondo no §1º do seu Art. 8º que:

Os currículos devem incluir a abordagem, de forma transversal e integradora, de temas exigidos por legislação e normas específicas, e temas contemporâneos relevantes para o desenvolvimento da cidadania, que afetam a vida humana em escala local, regional e global, observando-se a obrigatoriedade de temas tais como o processo de envelhecimento e o respeito e valorização do idoso; (….) g.n.

Deste modo, vemos que as normas educacionais retomaram o mandamento legal do Art. 22 do Estatuto do Idoso, que reafirmou a alínea “b”, do inciso III do Art. 10 da Lei nº 8.842/1994, da Política Nacional do Idoso.

Concluindo:

–  Se a Constituição Federal e as leis específicas afirmam e reafirmam o princípio da não discriminação da pessoa idosa;

–   Se ainda persistem diferentes discriminações, com consequente violação de direitos;

–    Se o problema advém de traços culturais negativos da sociedade que levam a discriminações;

–   Se mudanças culturais resultam de alteração de atitudes, atos, comportamentos e, mesmo, de emoções,

O caminho estratégico e privilegiado é o de um processo que promova uma ampla educação solidária, constituidora da cidadania.

E esse caminho é a geral e irrestrita implementação, nas instituições educacionais de todos as etapas e níveis, sejam da Educação Básica, sejam da Educação Superior, de currículos que tratem do processo de envelhecimento, do respeito e da valorização da pessoa idosa, para eliminar o preconceito.

Educação social solidária é o caminho!

REFERÊNCIAS:

[1] Também chamado de ageismo e de etarismo.

[2] AUR, B. A. O processo de envelhecimento e o respeito à pessoa idosa nos currículos escolares. In Márcia Lígia (org.). Academia Paulista de Educação: 50 Anos, São Paulo: Miró Editorial, 2020.

FONTE: www.brasildedireitos.org.br/atualidades/respeito-a-pessoa-idosa-precisa-ser-aprendido-nas-escolas-tambem/

Autor: Bahij Amin Aur, Instituto Bonina

Edição: A. R.

Bem-vindo, Rashid!

Assim foi que mais de uma centena de autores entraram no barco desta coletânea solidária. Vieram de muitos céus, com o peito ofuscado de sol. Sintonizados num cordão de apoio, porque a alma sabe e vibra na mesma frequência (Nurimar Bianchi, in Sol das águas de maio).

Retomo a ideia de que a aprendizagem não tem limites. Não importa a idade, o lugar e o contexto em que se vive. Ágrafos, agricultores, moradores de rua e pescadores que, por mais humildes que sejam, sempre têm muito a ensinar, pois eles têm o senso pragmático das coisas e da vida.  

Até pouco tempo, o nome Rashid era visível somente nos contos árabes. Tratavam sobre o poderoso Sheik Rashid, o fundador de Dubai.  Hoje em dia, o termo Rashid foi sublimado para a ideia de solidariedade, compartilhamento, coletividade e por aí vai. Dessa forma, tornou-se comum um grupo de amigos invocarem-no, em caso de rateio de gastos de uma viagem, festa e até de um jogo de loteria.  É Rashid pra cá; Rashid pra lá.

– De boa, entra nessa, cara!

Assim, para a viagem se tornar mais econômica e mais interativa, um grupo de cinco acadêmicos que ia ao lançamento do livro Sol das Águas de Maio, em Soledade, decidiu ir com um só carro e cinco pessoas, mais o Rashid.  Recolhidas as 5 pessoas, Galheta questionou:

– Motora, falta o Rashid!  No carro cabem 5 pessoas. Ele irá conosco?!

– Claro que irá, responderam os quatro ocupantes, mas com sorrisos levemente ironizados.

– Mas 6 adultos neste carro!?

Ao que o Delegado respondeu:

– A gente dá um jeito!  

Enquanto o silêncio calava o grupo, a chuva barulhenta descia com tudo.  

Wherther Brado, o motorista, ria para dentro de si, segurando a pegadinha do Rashid.  No entanto, a novel poetiza do grupo, não se conteve e disse:

– Rashid não é uma pessoa. É apenas a ideia de solidariedade, colega!

Aplausos!

E a viagem seguiu tranquila até a cidade de Soledade, onde a escritora Nurimar Bianchi  e a equipe organizadora do livro Sol das Águas de Maio organizou o lançamento da obra.  O propósito foi organizar uma antologia que revertesse a favor dos que foram atingidos pelo dilúvio das águas de maio no RS, especialmente as escolas dos alunos que tiveram suas bibliotecas escolares e pessoais levadas pelas forças impiedosas dos rios da terra. Fenômeno nunca visto pelas gerações mais recentes.

O interessante foi a forma como a antologia de poemas e contos foi pensada. Estipulou-se que os participantes contribuiriam com R$ 100,00 por página escrita. No entanto, os exemplares do livro não poderiam ser vendidos, mas sim distribuídos gratuitamente. Como houve mais de cem autores e autoras interessados, bem como empresas patrocinadoras, o valor arrecadado foi usado para pagar as despesas da Gráfica Lupagraf e da Editora Alternativa, restando uma boa grana a ser doada a entidades beneficentes.  

Nesse tempo de aquecimento global, inúmeros desastres naturais pegam sem aviso prévio os ribeirinhos dos rios, riachos, lagoas e até as populações das grandes metrópoles, não importando a categoria econômica e social.  A fúria da natureza vem na forma de enchentes, secas, tornados e furacões. Desse modo, além do exercício constante de prevenção, há de se organizarem mutirões de solidariedade às pessoas e animais atingidos pelos desastres de tamanha grandeza.

Como se vê, a figura do Rashid, com seu espírito de solidariedade e divisão do ônus e do bônus, constitui um maravilhoso exercício de compartilhar o pouco que se tem com os que, ocasionalmente, tudo perderam, menos a dignidade. Nesse sentido, mais de uma centena de contistas e poetas independentes, invocaram o espírito de Rashid, como escreveu o Professor Mauro Gaglietti, quando se referiu ao poder da literatura e à força da palavra:

A literatura tem o poder de tocar a alma, de restaurar esperanças e de reavivar a força interior. É na criação literária que encontramos refúgio e, ao mesmo tempo, um campo fértil para a reflexão e o crescimento. Em cada conto, em cada poema presente há um pedaço da nossa identidade, uma parte da nossa história, que nos convida a mergulhar nas profundezas do ser e a emergir renovados. (Sol das águas de maio, 2024, p.11).  

Quer queira, quer não, Rashid entrou com tudo para representar o espírito de solidariedade em relação ao sofrimento dos atingidos pelas enchentes de maio de 2024 no RS, tanto no que se refere ao ato de ajudar essas pessoas desamparadas, quanto na significação ficcional da palavra.

– Longa vida ao espírito de Rashid!   

Autor: Eládio Vilmar Weschenfelder. Também escreveu e publicou no site “Sol Vermelho”: www.neipies.com/sol-vermelho 

Edição: A. R.

Consciência negra, consciência cidadã

A promoção da consciência negra implica em construir esta consciência cidadã que as vezes fica amortecida. A celebração do mês e do dia da consciência negra tem este acento bonito da celebração. Tem também o compromisso do despertar as consciências amortecidas ou envergonhadas quanto à pertença.

O mês de novembro é conhecido como o mês da consciência negra e neste ano, por decisão do Congresso Nacional, o dia 20 de novembro foi declarado feriado nacional em alusão à memória de Zumbi dos Palmares. Este reconhecimento do Estado é um marco significativo na luta contra o racismo e na construção de uma sociedade justa e de igualdade de direitos para todos.

A referência à data de 20 de novembro se dá pelo fato de trazer presente a memória de Zumbi dos Palmares e a necessidade de continuar pautando as demandas da comunidade negra ainda não resolvidas pela sociedade brasileira que por três séculos usufruiu da mão de obra escrava.

As atividades alusivas ao mês da consciência negra devem considerar os momentos celebrativos e também buscar outras iniciativas que visam reforçar o protagonismo dos negros e negras na sociedade, especialmente o acesso aos seus direitos. Acerca disso, não é despercebido o fato de que existem negros e negras com dificuldades em assumirem a sua identidade e consequentemente a sua trajetória histórica, pessoal e familiar enquanto negros. É um processo lento e em alguns casos muito dolorido. Cabe a provocação para o despertar dessa consciência adormecida, a consciência da negritude.

Neste último dia 03 de novembro realizou-se a prova do Exame Nacional do Ensino Médio – ENEM, voltada aos estudantes concluintes do Ensino Médio e aspirantes a uma vaga no Ensino Público Superior. Consideramos alvissareira a decisão dos organizadores da prova colocarem como tema da redação “desafios para a valorização da herança africana no Brasil”.

Leia também texto de estudante sobre o tema: www.neipies.com/desafios-para-a-valorizacao-da-heranca-africana-no-brasil/

Para a população afro-brasileira é uma boa notícia o fato da tematização da proposta. Ela demanda dois caminhos de reflexão. O primeiro diz respeito à consciência de que a herança africana no Brasil ainda não é suficientemente considerada, reconhecida e valorizada e os motivos se enraízam no racismo estrutural. A sociedade estruturalmente racista não vê os valores culturais africanos como um bem nacional a ser cultivado.

O segundo caminho de reflexão é propositivo, como o próprio tema da redação sugere. São desafios, e como tais devem ser enfrentados. Os jovens foram convidados, através da redação, a discorrem a sua percepção dos desafios hodiernos que diz respeito a valorização da herança africana no Brasil. Esta herança existiu, é visível, todavia não é suficientemente valorizada. Em muitas situações é discriminada ou tratada como algo inferior.

A iniciativa provocará reflexões no meio estudantil, por ocasião da redação, e na sociedade, pelas repercussões e, certamente, a busca de um maior conhecimento da história dos negros e negras que secularmente habitam este solo. A reflexão e o escrito sobre o tema deixarão algumas bonitas indicações nos estudantes no sentido de tomarem conhecimento de uma herança que por muito tempo foi velada por diferentes motivos ou interpretada de uma forma equivocada.

O que foi motivação redacional para o grupo estudantil faz-se também motivação constante para os negros negras brasileiros no sentido de despertaram para a consciência da sua negritude de uma forma propositiva superando qualquer tentação de negação, timidez ou envergonhamento por sua pertença étnico racial.

Compreende-se que consciência da negritude é processo em construção permanente. Então, é uma atitude política e cidadã. É atitude política pela sua implicância na vida das pessoas, dos seus grupos mais próximos e da própria sociedade.

Nos séculos passados a decisão de fazer da escravidão um meio de sustentação econômica do Brasil Colônia e Império e manter por quase três séculos foi uma decisão de fundo econômico, mas de grande sustentação política. Só perdeu força social quando perdeu força política. Quer-se afirmar a importância política dos negros assumirem a sua pertença e fazerem dela um compromisso social. A repercussão extrapola a esfera social pelas consequências que pode gerar. É uma atitude política de grande envergadura.

É também uma atitude cidadã. A referência ao termo cidadania extrapola o direito à cidade. Refere-se aos direitos da pessoa enquanto membro de um país o que compreende também seus deveres.  Por muito tempo os negros e negras não tiveram direito à cidadania e ainda hoje parcela da sociedade alimenta este preconceito que se expressa de diferentes formas. Cabe afirmar que os negros e negras são cidadãos de direitos e estes são garantidos constitucionalmente.

A promoção da consciência negra implica em construir também esta consciência cidadã que as vezes fica amortecida. A celebração do mês e do dia da consciência negra tem este acento bonito da celebração. Tem também o compromisso do despertar as consciências amortecidas ou envergonhadas quanto à pertença. É fundamental acolher a negritude como um dom e um dom que nos faz políticos e cidadãos.

Autores: Pe. Ari Antonio dos Reis e Acadêmico Vinicius Dias dos Santos Brito. Ari Antonio dos Reis também escreveu e publicou no site “A cultura do encontro”: https://www.neipies.com/a-cultura-do-encontro/

Edição: A. R.

 

Projeto: A Inclusão na Escola: Andando de Mãos Dadas

O projeto foi elaborado para ser aplicado em todas as turmas da EMEF Zeferino Demétrio Costi, em Passo Fundo, RS pela professora Márcia Cristina Leida dos Santos. Nas turmas dos anos finais foi executado pelo professor Nei Alberto Pies a partir da interpretação de breve texto, seguido de um trabalho em grupos onde estudantes escolheram uma frase e produziram uma ilustração.

A inclusão na escola é fundamental para garantir que todos os alunos, independentemente de suas características individuais, possam ter acesso à educação de qualidade e se desenvolver plenamente.

Quando falamos de inclusão, estamos tratando da aceitação, do respeito e da adaptação do ambiente escolar para que ele atenda às necessidades de todos os estudantes, incluindo aqueles com deficiências, dificuldades de aprendizagem, ou qualquer outra condição que possa exigir um olhar mais atento.]

A inclusão não deve se limitar apenas à adaptação física do espaço ou à contratação de profissionais especializados. Ela envolve uma mudança cultural e estrutural, onde todos os membros da comunidade escolar:  alunos, professores, funcionários, e familiares trabalham juntos para criar um ambiente acolhedor, respeitoso e colaborativo. Esse trabalho conjunto favorece o desenvolvimento de habilidades sociais, emocionais e cognitivos dos estudantes, além de promover valores essenciais como solidariedade, empatia e respeito a diversidade.

Quando todos os membros da comunidade escolar estão envolvidos no processo de inclusão, é possível criar um ambiente de aprendizado mais justo, onde as diferenças são reconhecidas e valorizadas. Isso contribui para a formação de cidadãos mais conscientes, preparados para viver em uma sociedade plural e diversa, além de reduzir o preconceito e a discriminação.

É de fundamental importância a criação de redes de apoio, com o objetivo de incentivar a participação de todos dentro da organização, onde os indivíduos possam se conectar, compartilhar experiências e se apoiar mutuamente. Sabemos que criar um ambiente inclusivo não é um processo rápido ou fácil, mas é fundamental para garantir que todos possam atingir seu pleno potencial e contribuir pra uma sociedade mais justa e igualitária, que reconhece e respeita as diferenças de todos os seus membros.

O que motivou realizar o projeto de Inclusão na escola: Andando de mãos dadas?

A participação de todos os estudantes nas diversas tarefas, atividades, trabalhos em grupo, gincana, entre outros, se faz necessária e é de direito de todos. Portanto, é de fundamental importância que a comunidade escolar crie um ambiente propício para que realmente esta participação aconteça, onde cada indivíduo seja respeitado dentro de suas possibilidades, criando um ambiente mais justo e de valorização.

Buscar maneiras diferentes de desenvolver as atividades é primordial, onde todos possam ter a oportunidade de se conhecer melhor, realizar a troca  de conhecimento e a ajuda mútua para que os objetivos sejam alcançados verdadeiramente não dando oportunidade aos rótulos que muitas vezes causam sofrimentos a estudantes pela falta de oportunidade de participar de uma tarefa.  Ou, infelizmente, muitas vezes os próprios estudantes já se excluem por pensarem não ter capacidade de realizar as tarefas. Que sejamos mais justos uns com os outros e de mãos dadas aprendamos a ser mais solidários.

Márcia Cristina Leida dos Santos/Sala de Recursos Multifuncionais/ EMEF Zeferino Demétrio Costi)

Atividade realizada

Como uma estratégia de sensibilização dos estudantes para o tema da inclusão escolar, a EMEF Zeferino Demétrio Costi organizou, em aulas de Ensino Religioso e Filosofia, um trabalho de confecção de pequenos cartazes, com frases retiradas de um texto-base sobre a importância da inclusão no ambiente escolar. Estes materiais foram expostos em painel específico que abordará o tema.

Seguem registros de estudantes construindo as atividades

Seguem registros de alguns trabalhos produzidos pelos estudantes

Edição: A. R.

Economia de acumulação, excesso antropocêntrico e mundo insustentável

“A economia é como um organismo faminto em fase de crescimento. Ela consome recursos naturais como árvores, peixes e carvão. Deles, produz energia e bens úteis e cospe resíduos como dióxido de carbono, lixo e água suja. A maioria dos economistas se preocupa com o sistema circulatório do organismo e em como a energia e os recursos podem ser eficientemente alocados. E tende a ignorar seu sistema digestivo: os recursos que o organismo consome e o lixo que produz. Os economistas pressupõem que ambos sejam infinitos.”

(Revista Época, abril de 2009)

Olhar atento aos desdobramentos da epígrafe aqui mencionada, não resta dúvida de que, pelo paradigma civilizacional, “o modo de funcionamento da humanidade”, como sustenta com elevada razão Aílton Krenak, “entrou em crise”.

Assim sendo, pela força dos acontecimentos, agora vivemos tempos [anormais] de crise ecológica, crise socioambiental, crise de civilização propriamente dita, enfim, uma gravíssima crise gestada sobretudo pelo modo de produzir da modernidade. E isso, é claro, deixa a Natureza devastada, os Ambientes fragmentados, o Planeta adoecido.

Vale dizer, sem cerimônias, que, em toda a nossa história de vida, jamais havíamos interferido radicalmente na saúde planetária, no corpo dos ecossistemas.

A esta altura, insistindo com a crítica, pelo processo produtivo de subtrair recursos naturais (decerto, ignorando os limites do planeta), tanto mais profunda a transformação da dinâmica ecológica. Para piorar, tudo se complica ainda mais por um motivo simples de entender: “nosso tempo”, como identifica a filósofa espanhola Marina Garcés, “já não é o da pós-modernidade, mas o da insustentabilidade”.1

Insustentabilidade, cabe rápido comentário, é a condição de tudo aquilo que não se pode sustentar (manter). E é esse, reiteradamente, o caso da insustentabilidade ambiental de agora, agravada, como se sabe, pela impossibilidade de comportar economias modernas cada vez mais viciadas em crescimento ininterrupto – paradigma da racionalidade econômica, tecnocientífica, influente e dominante. O edifício estrutural da civilização contemporânea, digamos assim, levantado pelas elites de poder, tão interessadas em manter o status quo.

Em nosso sentir, dentro dessa concepção, quando o crescimento das modernas economias globais vem com mais força, vem junto a degradação ecológica, multiplicando adversidades ambientais (erosão ecológica, com efeito, talvez seja o termo mais apropriado).

Seja como for, diante de nós, nesse vasto mundo de abundâncias que a cultura ocidental aprendeu a admirar, o veneno daí extraído atende pelo nome de emergência planetária. Exatamente aquilo que os negacionistas (ferrenhos adversários da ciência) insistem em negar.

Contudo, para o caso de reforçar assertivas, imaginamos assim que isso tudo tem a ver com o tipo de desenvolvimento que a tribo humana resolveu adotar e que, cada vez mais fácil de notar, está nos levando ao desastre. Logo, bastante significativo, a questão principal, a nosso ver, está na mesa: diante da pegada mortal do carbono nos tornamos um perigo para nós mesmos.

Ademais, notar-se-á que, à luz do antropocentrismo moderno, já se diz abertamente que nos especializamos em afrontar a biosfera (o conjunto de todos os ecossistemas da Terra). Portanto, na mesma extensão, é lícito concluir que com nosso estilo (consumista) de vida, com nosso jeito de viver e conviver em sociedade, não cessamos de produzir perturbações nos processos da natureza. Afetamos a biodiversidade e, que fique muito claro, com a economia moderna que nos guia e que determina os destinos mundanos, ajudamos a promover devastação ambiental. Aliás, já colocamos em situação de risco de extinção mais de 1 milhão de espécies vegetais e animais.

Continuamos a mudar o curso de rios e a transformar florestas inteiras em cinzas. Pelos declarados interesses por trás da pata do boi e da soja, derrubamos a vegetação natural. Contaminamos o solo que nos dá o alimento, destruímos as colheitas, devastamos biomas inteiros. Agora mesmo, nada menos que 47% das bacias hidrográficas do mundo apresentam sinais de esgotamento.

O que isso mais quer dizer? Ora, nesses tempos de temperaturas “extremamente” perigosas, não cessamos de dar provas de que fomos, em grau maior ou grau menor, doutrinados a enxergar a Natureza – eixo de tudo, matriz da vida – como um imenso e inesgotável baú, por isso, sequer hesitamos em consumir em excesso os recursos naturais, sem preocupação alguma com a eficiência de nossas economias, sem que se respeite o tempo de regeneração do mundo natural.

Moral da história: na complexidade das sociedades modernas, seduzidos pela ideia de que o crescimento econômico – sempre o crescimento, o fazer mais para o must have, isto é, “você tem que ter” – nos dará mais prosperidade, mais sucesso e mais conquistas sociais, tendemos a valorizar a quantidade (essência própria do crescimento) do que a qualidade. Nessa direção, pode parecer estranho, mas a massa construída (estradas, prédios, máquinas, instalações etc) pela inteligência humana já supera o peso de todos os seres vivos do planeta.

De todo modo, queremos enfatizar: na história do mundo moderno, é a primeira vez que atingimos tal estágio.

Desnecessário dizer que daí emergem consequências. Assim sendo, pelo avanço desse capitalismo ocidental e masculino, os eventos climáticos extremos continuam nos mostrando até onde a crise climática chegou e até onde o aquecimento (anormal) da atmosfera se torna catastrófico. De igual maneira, pelo conhecimento científico, somos devidamente informados que as ondas de calor extremas podem dobrar até 2050 e que cada uma das últimas quatro décadas, quando analisados documentos oficiais do IPCC, Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, foi sucessivamente mais quente do que qualquer outra década que a precedeu desde 1850.

De resto, pelos fatos, é dado saber outros que tais: i) a temperatura da superfície da Terra foi 1,09 graus mais alta entre 2011-2020 do que entre 1850-1900; ii) as concentrações atmosféricas de CO2 foram maiores, nesse período, do que em qualquer momento em pelo menos dois milhões de anos e, iii) as concentrações de metano e óxido nitroso foram as maiores dos últimos 800 mil anos.2

Particularizando a questão, a ciência alerta que: i) setenta e sete por cento da terra e 87% do oceano foram alterados pelo antropocentrismo arrogante e alheio à causa ecológica e; ii) setenta por cento dos sinais vitais da Terra estão em estado crítico.

Logo, não desviando o olhar dessas gritantes anomalias, é tempo de admitir que o estado ambiental do mundo já atingiu um grau jamais alcançado. Simplesmente, depois de dez mil anos de estabilidade do clima, conseguimos – juntamente com nossa economia linear, vale repetir – reverter a causa básica do clima.

Tal e qual, entre a desordem e o caos da realidade biodiversa desse momento, pesa constatar que comprometemos o destino ecológico de todos.

Assim, fato consumado, não há como esconder. Desde que “a economia se tornou uma religião”, repetindo o usual comentário de Jean-Claude Guillebaud, ensaísta francês, tanto o equilíbrio ecológico do planeta quanto às condições ecológicas conhecidas, seguem radicalmente abaladas.

E nesse caso, vamos ainda lembrar: vinte por centro da biodiversidade original já foi perdida; 30% dos ecossistemas naturais de água doce desapareceram desde 1970; 60% dos principais serviços ecossistêmicos e processos biológicos de nosso planeta vivo estão seriamente deteriorados.

Em outras palavras: pelo capitalismo consumista de natureza, o nível de superexploração de capital natural, como se supõe, saiu de controle.

Fechando o raciocínio, em tempos atuais de excessos antropocêntricos e de economia destrutiva, pensada tão somente para o curto prazo e para o lucro imediato, convém voltar à narrativa, forte, como de costume, de Aílton Krenak, nosso Imortal: “(…) entramos, na verdade, em um período distópico em que as florestas, os rios, os oceanos, tudo o que é manancial de vida, está sendo disputado como se estivéssemos, de verdade, num fim de mundo”.

Posto isso, nesse hipotético “fim de mundo”, para tocar de vez o dedo na ferida, coube ao naturalista francês Theodore Monod (1902-2000) registar, em seu tempo, que, sim, “somos capazes de comportamentos insensatos e dementes; a partir de agora, se pode temer tudo, inclusive a aniquilação da espécie humana; esse seria o preço justo por nossas loucuras e crueldades”.

Da mesma forma, e com o mesmo viés, o poeta Paul Valéry (1871-1945) assim escreveu em 1932: “jamais a humanidade reuniu tanto poder a tanta desordem, a tantas preocupações e a tantas manipulações, a tantos conhecimentos e a tantas incertezas. A inquietude e a futilidade se justapõem em nossos dias.

Convenhamos: é difícil discordar de cada um deles.

Autores:

(*) Paulo Betti é ator, autor e diretor. Já atuou em mais de 40 peças de teatro, doze das quais sob sua direção. Interpretou vários personagens marcantes no cinema e na TV, com destaque especial para “Lamarca” e o “Visconde de Mauá”. Escreveu a peça “Autobiografia Autorizada”, entre outros.

(**) Marcus Eduardo de Oliveira é economista e ativista ambiental. Mestre em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo – USP (2005). Autor de Civilização em desajuste com os limites planetários (CRV, 2018) e A Civilização em risco (Jaguatirica, 2024), entre outros.

Notas:

1 GARCÉS, Marina. Novo Esclarecimento Radical. Âyné, Rio de Janeiro:2020.

2 Consultar IPCC, Mudança do Clima 2021, A Base Científica. Disponível em: < https://www.gov.br/mcti/pt-br/acompanhe-o-mcti/sirene/publicacoes/relatorios-do-ipcc/arquivos/pdf/IPCC_mudanca2.pdf>

Edição: A. R.

Desafios para a valorização da herança africana no Brasil

Infere-se que a valorização da herança africana no Brasil é essencial para a constituição cultural do país, mas é impedida pelo medo do desconhecido.

Ocupamos esta coluna para compartilhar, refletir e contribuir com o debate que foi tema de Redação do Enem 2024 “Desafios para valorização da herança africana no Brasil”.  Convidamos leitores e leitoras para apreciar o texto da estudante Pâmela da Silva Silva, do Colégio Tiradentes da Brigada Militar de Passo Fundo, no qual ela comenta facetas demandadas por repertórios e argumentos que demonstram o quão é rica e diversificada a herança africana, porém desconhecida e desvalorizada. A escolha de seus repertórios para defender sua tese demonstra exemplos práticos e históricos usando a própria literatura como principal referência.

Boa leitura!

Segue o texto.

“Machado de Assis, renomado autor brasileiro, sempre foi negro, porém, só passou a ser reconhecido como afrodescendente após pesquisas acadêmicas comprovarem que ele teve sua ascendência africana ocultada devido à cultura eurocêntrica do século XIX. Esse fato representa um grande avanço no reconhecimento do legado cultural africano na composição da identidade brasileira, dado que esse grupo é responsável por boa parte da multiplicidade cultural que compõe o Brasil. Contudo, a valorização dessa herança ainda é impedida pela mentalidade social que teme o diferente, sendo fundamental combater esse quadro.

Em primeiro plano, é imperativo compreender que os costumes africanos são parte integrante e indissociável da cultura brasileira atual, sendo impossível negar a sua importância. Nesse contexto, nota-se que, desde a introdução dos primeiros escravizados africanos no território que hoje é o Brasil, em meados do século XVI, os hábitos culturais desse povo trazido se fundiram com os costumes dos que aqui já habitavam, dando origem a manifestações que permanecem na sociedade brasileira até hoje, como a capoeira, as religiões de matriz africana (por exemplo, a Umbanda e o Candomblé), o Samba (reconhecido como o ritmo identitário brasileiro, cuja percussão é de origem africana), entre outras milhares de influências da África no Brasil. Desse modo, é inadmissível a desvalorização da herança africana, visto que ela compõe o que é “ser brasileiro”, sendo necessário reconhecê-la e valorizá-la.

Entretanto, ainda há uma parcela da população que não valoriza a cultura africana, pois diverge do referencial eurocêntrico (baseado na Europa) de normalidade, temendo o que lhes é desconhecido. Sob essa ótica, a autora iraniana Tahereh Mafi, em sua obra “Liberta-me”, escreve que as pessoas, muitas vezes, preferem o temor do que lhes é familiar a enfrentar algo que elas não conhecem.

De modo análogo, percebe-se que as pessoas que não respeitam as culturas africanas possuem o comportamento descrito por Tahereh: se afastam, menosprezam, ridicularizam, desprezam – seja por palavras, por ações ou por postagens – aquilo que lhes é “estranho” e “anormal”, só por terem medo do que não conhecem, fazendo-se pertinente mitigar esse cenário.

Diante do exposto, infere-se que a valorização da herança africana no Brasil é essencial para a constituição cultural do país, mas é impedida pelo medo do desconhecido. Portanto, cabe ao Estado, por meio do Ministério da Cultura, promover exposições, palestras, saraus, workshops e outras atividades culturais que visem ampliar o conhecimento da população sobre a cultura africana e seus legados no Brasil, para que, ao conhecerem essas manifestações, não as temam mais. Dessa forma, o Brasil não terá mais heranças desvalorizadas nem ascendências apagadas, fazendo com que casos como o de Machado de Assis não ocorram novamente”.

Foto estudante Pâmela da Silva Silva

Leia também reflexão de estudante Caroline Gobet Barbosa www.neipies.com/querida-alma/

Convidada: Deise Bressan, Graduada em Letras e suas Respectivas Literaturas pela UNIVALI – Itajaí  SC. Pós graduada em Teoria da Literatura e Produções Textuais pela Faculdade FOCUS – Paraná. Professora de Língua Portuguesa e Redação Ensino Médio.

Edição: A. R.

Comenda Porto do Sol: uma homenagem à Gladis Pedersen de Oliveira

A Câmara Municipal de Porto Alegre entregou a Comenda Porto do Sol à educadora Gladis Pedersen de Oliveira em Sessão Solene realizada na noite desta sexta-feira (8 de novembro). A homenagem foi proposta pela vereadora Atena Roveda (PSOL). A Comenda é uma honraria concedida pela Câmara a pessoas ou instituições que se destacam por seu trabalho em prol da sociedade porto-alegrense.

Atena disse ter sido impactada pela ação educativa de Gladis, em uma palestra que assistiu aos 15 anos de idade. “O que vocês, jovens, farão com aquilo que os seus pais fizeram de vocês?”, era o questionamento enunciado por ela, relembrou Atena, afirmando que Gladis é uma “bússola” para os jovens. “Faltam homenagens para educadoras neste País”, ressaltou a vereadora, que defendeu ainda que “a educação é o único caminho para a libertação da opressão”.

“É com muita emoção que a gente chega neste momento”, destacou Gladis. “Esta homenagem é para todos os professores, não só para a minha pessoa”, ressaltou, afirmando dividir a Comenda com aqueles “que lutam bravamente pela educação, para que a criança e o jovem tenham a oportunidade de desabrochar”. Ela ressaltou a marca da educação na infância: “Nós não esquecemos nunca da nossa alfabetizadora”.

A educadora relembrou histórias de sua trajetória escolar, tanto enquanto estudante quanto como docente. Destacou ter sido aluna de Paulo Freire e afirmou que ele “baseou a nossa caminhada e a nossa trajetória no magistério”. Defendeu que cada aluno tem um potencial que precisa ser estimulado e disse que “o professor aprende com o aluno, ele vai se autoconhecendo na medida em que exerce o seu magistério”. Gladis afirmou que há uma pluralidade de inteligências que não se restringe à intelectual, o que pesquisas científicas em diferentes áreas têm demonstrado, destacou. “A criança e o jovem precisam ter sentido de vida”, enfatizou.

Histórico

Gladis Pedersen de Oliveira é graduada em Pedagogia e pós-graduada em Ciências da Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Possui, ainda, curso de extensão universitária em Logoterapia no Instituto de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Foi diretora e supervisora pedagógica e exerceu magistério nas disciplinas de Sociologia, Didática e História em diversas escolas públicas e particulares. É escritora e também organizou o projeto Coleção Conte Mais, que engloba histórias de educação moral para crianças e jovens. Foi presidente da Federação Espírita do Rio Grande do Sul (FERGS).

FONTE: https://www.camarapoa.rs.gov.br/noticias/gladis-pedersen-recebe-comenda-porto-do-sol

DISCURSO DE AGRADECIMENTO COMENDA PORTO DO SOL

Com a permissão da homenageada, reproduzimos discurso escrito por Gladis Pedersen de Oliveira por ocasião da homenagem recebida na Câmara de Vereadores de Porto Alegre, RS.

Exmo. Sr. Presidente da Sessão de outorga da Comanda Porto do Sol;

Exmos. Srs. Vereadores desta Casa;

Exma. Sra. Vereadora Atena Roveda;

Exmas. Autoridades presentes;

Distinto Público,

Minhas respeitosas saudações.

Ao receber esta deferência da Câmara de Vereadores de Porto Alegre recordamos, com carinho e gratidão, de todos os professores que tivemos em nosso caminho de formação para o magistério e de como eles nos deixaram marcas importantes, e algumas cicatrizes.

No transcorrer de nossa caminhada como educadora, fomos percebendo e nos atendo nas características individuais de cada aluno.

 Cada um é um ser único, excepcional, com um potencial divino a ser estimulado, com múltiplas capacidades latentes que, quando bem trabalhadas, nos surpreendem.

Ao ensinar, fomos aprendendo com os alunos, quem somos realmente. Com este desafio, fomos acompanhando todos os avanços do conhecimento científico em relação ao ser humano, na área biológica, psicológica, emocional e espiritual.

A inteligência – essa capacidade inerente ao indivíduo – que lhe permite o ajustamento a situações novas de vida, de adaptação ao meio, de aprender e resolver problemas, foi sendo estudada com afinco.

De uma concepção unicista da inteligência, até meados do século passado, ela passou a ser compreendida de forma pluralista pois em 1985, o psicólogo norte-americano Howard Gardner, após exaustivos estudos, relacionou nove dimensões da inteligência do ser humano, onde as habilidades de relacionamento social e emocional são fundamentais e não apenas resultantes da racionalidade, do intelecto.

Em 1995, Daniel Goleman, nos Estados Unidos, apresentou sua tese sobre o Quociente emocional da inteligência.

A educação emocional deve ser compreendida pelo lado subjetivo e propõe as habilidades de resolver situações que fazem parte do relacionamento social. 

Robert Coles, psicólogo, em 1997, apresenta a dimensão moral na criança e propõe a didática do exemplo, explorando o resultado da observação da criança a partir das atitudes dos pais e educadores.

No ano 2000, Danah Zohar, também psicóloga e filósofa americana, juntamente com Ian Marshal, apresenta o Quociente Espiritual da inteligência, baseado em estudos da neurociência que localizaram no cérebro humano o DNA DIVINO, o ponto de Deus no Homem. A pesquisa concluiu que o desenvolvimento e a educação das dimensões racionais, emocionais e as capacidades múltiplas podem trazer crescimento e sucesso profissional, financeiro, social, mas não necessariamente, paz interior e alegria.

Nas crises existenciais normais, que o ser humano passa, se não tiver a dimensão espiritual educada, ele perde o sentido da vida.

O desenvolvimento da dimensão espiritual da inteligência proporciona ao aluno encontrar sentido mais amplo e profundo para a vida e desperta a habilidade de lidar adequadamente com problemas existenciais e de criar situações novas que ajudam a superar as crises, dando sentimento de plenitude perante a vida: é a fé.

A linguagem simbólica da arte toca a alma do aluno: a literatura, a música o desenho, a pintura, o teatro, a dança, AJUDAM a desenvolver todas as dimensões da inteligência humana de forma integral e harmônica.

Nos especializamos na utilização da literatura infanto-juvenil como recurso importante para educar a criança e o jovem.

Acompanhamos, em 2006, a proposta da UNESCO sobre os quatro pilares da educação: Aprender a aprender – Aprender a fazer – Aprender a conviver – Aprender a ser

Hoje se discute a necessidade de um quinto pilar: Aprender a crer: desenvolver a religiosidade básica que é inerente ao ser humano.

De 2010 a 2019 participamos do Conselho de Ensino Religioso do Estado do Rio Grande do Sul, representando o Espiritismo, e onde exercemos a presidência por duas gestões, utilizando os conhecimentos científicos e pedagógicos baseados nos educadores citados.

Na Federação Espírita do Rio Grande do Sul, onde também exercemos a presidência da entidade por duas gestões, os mesmos conhecimentos científicos, aliados à filosofia espírita, orientaram todo um trabalho educacional que resultou na criação de um projeto de luz, Projeto Conte Mais, onde a contação de histórias educativas, através da linguagem simbólica da Literatura, visa a formação moral e espiritual de crianças, jovens e adultos.

Essa preocupação sempre foi o móvel de nossa existência como educadora: formar moralmente a criança e o jovem para que possam construir uma vida que valha a pena ser vivida e que lhes proporcione a felicidade. Ter um sentido de vida: esse o grande objetivo.

Jesus, o grande educador, tem sido sempre o nosso modelo. Era exímio contador de histórias, através de parábolas, que motivam o ser humano refletir sobre si mesmo e viver uma vida de forma equilibrada e plena de esperança em um mundo melhor.

Assista também ao evento completo neste link do yotube: https://youtu.be/zX7i5VFqO8k?t=1420

Fotos: Divulgação/arquivo pessoal

(Gladis de Oliveira, 08/11/2024)

Nossa amiga, companheira de construção de conhecimentos, pedagoga e escritora Gládis Pedersen de Oliveira recebeu Comenda Porto do Sol na Câmara de Vereadores de Porto Alegre neste último dia 08/11/2024. Gládis também é convidada deste site e publica reflexões em coluna: www.neipies.com/author/glpedersen/ Esta homenagem é extensiva a todos os professores e professoras do RS e do Brasil.

Sobre furacões

Viver a experiência de furacões como força da natureza, como episódio violento na vida psíquica ou como resultado de decisões prepotentes de lideranças públicas irresponsáveis traz consequências maiores, menores ou irreparáveis. Não ficamos imunes ao surgimento de furacões em nossas vidas.

Há furacões físicos, nas previsões metereológicas, que assolam cidades e países, deixando atrás de si sinais de mortes. Há, também, outros tipos de furacões emocionais, que produzem desastres violentos, na vida psíquica das pessoas, tornando-as quase incapazes de cuidar de si.

E há uma terceira ordem de furacões assoladores na vida política das sociedades, povos e nações, cujas consequências podem ser imprevisíveis e desoladoras. Viveu-se essa experiência, desde as origens da vida civil organizada, passando por todos os descalabros de poder e de extermínio escravista, até o tempo das guerras modernas, culminando com a explosão da bomba atômica.

Na atualidade, quando imaginávamos que pudéssemos ter atingido um patamar superior, pelas conquistas dos avanços republicanos e democráticos, aliados às conquistas científicas e tecnológicas, presenciamos o espetáculo trágico de atitudes e ações discriminatórias e preconceituosas de diversos tipos raciais, religiosos, econômicos e políticos, de parte de governos, líderes partidários e supremacistas que desejam impor sua vontade por se sentirem privilegiados pela riqueza e a cor da pele que possuem. Esse cenário vulcânico é atroz!  E não tem Inteligência Artificial que resolva, uma vez que a inteligência natural é a responsável por guerras e genocídios, numa expressão refinada da maldade humana.

Como avaliar, qual desses tipos é o mais aniquilador, uma vez que todos resultam de ações e descuidos da humanidade, que destrói o planeta em que vive e mata com soberania os que julga inimigos e seres inferiores?!

Em suas diferentes escalas cíclicas, os furacões são temidos, por suas características e pela própria fragilidade do ser humano, que se depara com seus limites.

Tanto os furacões físicos, quanto os emocionais e os que atingem o ordenamento político são vertiginosos, enfurecidos, rompem obstáculos, produzem inundações, destruindo resistências e barreiras físicas, emocionais e morais.

Quais experiências e consequências podem produzir a passagem de um furacão por nossas vidas? Sabemos ou saberemos, verdadeiramente, quais serão nossas reações?

Ainda que possamos nos prevenir contra os furacões físicos, porque anunciados, tomando diversas medidas de proteção e cuidado, há pessoas e famílias que nem sempre conseguem chegar aos melhores locais, por absoluta falta de condições materiais. 

Em relação ao furacão emocional, que pode surgir de forma intempestiva, inusitada, imprevisível, ocasiona perplexidade nas pessoas atingidas, cuja perplexidade é robusta, diante do inesperado.

No que se refere aos furacões na vida civil, na ordem política, o mais grave é que se trata de escolhas e decisões dos mais fortes em riquezas e poder e que melhor sabem manipular o imaginário popular com mentiras e ameaças de toda ordem.

Viver a experiência de furacões como força da natureza, como episódio violento na vida psíquica ou como resultado de decisões prepotentes de lideranças públicas irresponsáveis traz consequências maiores, menores ou irreparáveis. Não ficamos imunes ao surgimento de furacões em nossas vidas.

Autora: Cecilia Pires. Este artigo foi escrito, quando estive fora do Brasil, em Miami, na Flórida, nos meses de setembro e outubro e resultaram essas reflexões. Também escreveu e publicou no site “A fala das águas”: www.neipies.com/a-fala-das-aguas/

Edição: A. R.

Querida Alma

Sento-me para escrever-te e, ao mesmo tempo, para descrever a inquietude que agita meu ser após o encontro com o semblante perdido de um animal. Nunca imaginei que um olhar pudesse carregar o peso de tanto sofrimento, que uma simples troca de olhares pudesse ser o espelho de uma humanidade ausente.

O animal, em sua forma que desmentia a crueldade, era um ser de uma pureza dilacerada, marcada pelo descaso e pela dor. É como se cada fibra de seu corpo sussurrasse o eco de uma dor inaudita, uma dor que não se encontra nos livros nem se expressa nas palavras, mas que pulsa em uma forma de  expressão crua e inarticulada.

A tragédia não está apenas no sofrimento visível, mas no que ele revela sobre nossa própria natureza. O que somos senão a sombra de nossa própria indiferença? Há algo de irremediavelmente sombrio no fato de que seres sencientes possam ser reduzidos a objetos de nosso descaso. É uma cegueira que não permite ver que, ao maltratar um animal, mutilamos a nós mesmos, como se a essência de nossa humanidade se perdesse na violência de nosso  comportamento.

Observando o animal, não pude evitar a sensação de que sua dor era um espelho de nossa própria fragilidade. Nós, seres humanos, que acreditamos ser senhores do mundo, estamos na verdade indefinidos diante do espelho da nossa própria criação. Ao olhar para o animal, vi a face do que não queremos ver: a nossa própria vulnerabilidade e o nosso medo.

E ao fazer esta reflexão, percebo que o verdadeiro questionamento não está na capacidade de sentir, mas na disposição de reconhecer e amar o outro em sua totalidade, em sua essência mais pura. A relação que temos com os animais é um reflexo brutal de nossa relação conosco mesmos e com o mundo. É uma conexão profunda e essencial, que, se ignorada, nos arrasta para um abismo de insensibilidade.

Que possamos encontrar uma forma de remediar essa tristeza e trazer de volta a luz para os olhos que foram ofuscados pelo sofrimento. Que o nosso olhar para os animais seja um reflexo de nossa compaixão e um lembrete de que, ao cuidar deles, cuidamos de nossa própria humanidade.

Com consideração e esperança, da sua querida amiga.

Caroline Gobet Barbosa, 3ª série – CTPasso Fundo

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