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Os intocáveis do mundo intelectual: quem os protege?

Boa parte do público dos intocáveis do mundo intelectual diz que a “a mídia manipula”, e é este mesmo público que usa do critério da mídia para achar quer os intocáveis são mesmo bons intelectuais. Sacaram?

 

“Os intocáveis” foi uma série de TV sobre o gangsterismo americano durante a Lei Seca, baseada em livro de 1947. A série foi exibida na TV americana entre o final dos anos de 1950 e o início dos anos 60. Vi na TV brasileira, não muito depois. Incrível aquilo. Por mais que o agente Eliot Ness cercasse os bandidos, eles sempre escapavam. Tinham protetores em baixos e altos escalões.

Eram de uma violência inaudita no trabalho de arrebanhar adeptos. Fora isso, corrompiam até o mais tenaz policial ou a mais pudica dona de casa. Em determinados momentos, o telespectador realmente ficava angustiado, pois a forma de serem ajudados chegava a dar a impressão de que nos Estados Unidos houve uma época em que os policiais haviam se tornado algozes de boa gente.

“Os intocáveis” marcou minha infância. Quando vejo coisas como “foro privilegiado” ou “palestrantes acima do bem e do mal”, quando vejo idolatrias, sinto calafrios. É como se Eliot Ness, o policial incorruptível, estivesse patinando novamente.

No mundo intelectual, ou quase isso, a intocabilidade não é só um mal moral, mas um erro fundamental do intelecto contra ele mesmo.

Toda blindagem intelectual contra alguém que fala, principalmente se feita pela claque de alguém, leva ao gangsterismo.

Não tínhamos tanto isso nos oitenta. Havia um certo gosto pela crítica e pela resposta. Nos anos noventa, isso da blindagem começou a aparecer. Agora, virou prática no Brasil.

Há palestrantes, piadistas, falando coisa conceitualmente errada, mas ninguém pode criticá-los. Eles são “os queridinhos da mídia”. A claque que os segue se agarra a eles para poder se ver como culta, já que estudar, esse pessoal não vai mesmo.

São os típicos filisteus da cultura, apontados por Hannah Arendt. Protegem seus palestrantes para se protegerem, para terem conforto diante do espelho. E isso leva à propagação e perpetuação do erro.

As pérolas dos novos intocáveis começa a se solidificar. Exemplo? Um deles inventou de cocoricar a tese dogmática, aparentemente democrática, de que não se deve criticar a democracia de modo radical, não se pode sair dela, é necessário sempre aperfeiçoá-la.

Os intocáveis não gostam de se confrontar com as teorias filosóficas

Nessa hora, não é possível levantar o dedo e pedir a palavra para dizer algo simples: quer dizer, professor intocável, que eu devo ler Platão para, logo em seguida, ficar contra ele? Ou nem devo ler Platão? Afinal, democrata ele não era. Aliás, sua cidade ideal, justa, era exatamente a cidade contrária àquela democracia que matou Sócrates. Ou seja, se eu puder pensar Platão a sério, estarei então defendendo um estado autoritário?

Desse modo, não posso estudar filosofia, não é? Pois tenho de ler posicionado, dogmaticamente a favor da democracia! No limite, esse tipo de professor, fica mesmo irritado quando outros, tão dogmáticos que ele, colocam no seu focinho a tese da “escola sem partido”.

O problema não é só os das questões do exemplo acima, o problema é que no Brasil de hoje querer criticar esses intocáveis é atrair para si, como Eliot Ness atraía, o ódio da claque dos G&S (Gângsters e Simpatizantes).

Não se pode falar deles, não se pode dizer que estão errados. Eles mesmos se calam, fingem não escutar. Sorrateiramente, inflam a claque contra os que criticam.

Os da claque gritam, batem pé, atacam de modo que não exista reação, por exemplo, dizendo que toda crítica ao intocável da vez é inveja. Assim fazem a blindagem. A regra deles é a seguinte: se qualquer expert em um assunto criticar o palestrante de sucesso na mídia, voltamos nossas baterias de canhões para a falta de sucesso na mídia do crítico.

Novo anti-intelectualismo

Assim, surge o velho anti-intelectualismo, que fez escola nos anos da Ditadura Militar: os professores pesquisadores, os professores de sala de aula, os professores que falam coisas complexas para um público específico, não são nada, são gente “sem sucesso”.

O sucesso não é obter mais o resultado da pesquisa, mas é o de não obter resultado nenhum e ficar conhecido. O filósofo Peter Sloterdijk tem falado sobre esse fenômeno de nossos tempos, no terceiro volume da Trilogia das Esferas, o Schäume (Espumas), que é da emergência do autor sem obra. Claro que há também o autor com meia obra. Ou o autor com obra fingida, aquele livro que é simplesmente a auto-ajuda produzida nas palestras – sendo que a tese inicial, acadêmica, ficou no passado, e talvez nem seja grande coisa.
Isso tudo tem um reflexo claro e ruim na juventude. O aluno que invade uma escola apoiado pelo palestrante dele, ou o aluno que vai lá bloquear a invasão, também apoiado pelo palestrante dele, são os considerados estudantes. Os alunos que ganharam as olimpíadas (inclusive internacionais) de matemática ou física, ou os alunos regulares que estão produzindo textos interessantes e não faltam em aula, não são nada.

O modelo de intelectual não é o daquele que estuda e, no silêncio dos laboratórios ou no silêncio dos grupos de pesquisa, resolve problemas ou equaciona novos problemas, mas é o do que não lê nada e fala muito. A mídia acaba dizendo o que é um professor, um intelectual. A boneca de Stand Up!

O outro, o professor mesmo, ganha pouco, rala o dia todo, cumpre seu horário (o palestrante nunca está na universidade, quando é professor, claro!), corrige provas, vira um chato por corrigir o aluno. Ora, isso não pode. Aluno é facilmente seduzido pelo palestrante da mídia, que ensina errado, ensina o fácil, e pede em troca a condição de intocável. E a obtém. Há nisso um tipo de pacto de mediocridade, entre seguidor e seguido.

Conheça mais ideias de Paulo Ghiraldelli (Programa do Jô)

Auto-ajuda e discursos de religiosos

Qual a diferença desse palestrante de auto-ajuda e o Padre Fábio ou o Padre Marcelo ou o Bispo Macedo? Um discurso racional? Errado. Há pouca diferença. Um discurso vazio, de senso comum, perto de um discurso aparentemente racional, não gera nenhuma diferença quando os dois são dogmáticos. Discurso dogmático é errado sempre, o que ele cria é sempre o não-pensante, o voluntário da gang de proteção dos intocáveis.

Os palestrantes tocam o pau: um que virou até ministro da Educação chegou a dizer que Lolita é um livro sobre estupro! Ora, falou de um livro famoso sem ter lido. Um outro, com freudiano cachimbo na boca, disse que Sócrates era “politicamente incorreto”, talvez nunca tenha visto o discurso do ateniense, no Críton, falando em favor das leis da cidade, mesmo após sua condenação.

Sem contar aquele com cara da hiena Hardy (de Lyppi & Hardy), que fala do eterno retorno de Nietzsche como se fosse a ideia de que a história é cíclica, um erro quase infantil. É o império do “falo qualquer coisa”.

Acha que estou errado nisso que escrevi? Calma! Espere! Antes de responder, comece a prestar a atenção então nos intocáveis. Comece a perceber como que na cozinha da casa deles, eles preparam seus blindadores.

Repare como que certa mídia, bem específica, os utiliza. Veja como eles transitam com facilidade onde forças bem conhecidas e organizadas estão em vigência.

Reparem que uma boa parte do público dos intocáveis diz que a “a mídia manipula”, e é este mesmo público que usa do critério da mídia para achar quer os intocáveis são mesmo bons intelectuais. Sacaram?
Algumas reações a este texto apenas o confirmarão. Querem ver?

A ditadura da fala não pode “desgraçar ninguém”: a gagueira é um problema social!

Conviver com a gagueira fez-me ser quem sou. Descobri que falar é uma forma de libertação dos sofrimentos da gente e que gagueira é um problema social!

Vivemos a ditadura da fala. Quem não fala bem, compromete suas possibilidades de inserção social e seu desenvolvimento humano. A sociedade brasileira ainda não assiste de forma correta e suficiente todas as pessoas que tem dificuldades de comunicação através da fala.

Toda discriminação, além de ser um problema pessoal para quem a sofre, é também um problema social. A gagueira, como outros tantos limites humanos, deixa marcas e imprime jeitos de resistir, para sobreviver socialmente. Os gagos ainda sofrem muito por falta de apoio e compreensão.

Gagueira é um problema social

Como eu, pelo menos 2 milhões de pessoas em todo o nosso país gaguejam de forma crônica (há anos ou décadas), conforme dados do Instituto Brasileiro de Fluência. Este dado corresponde a 1% da população, que, além de apresentar alguma forma de gagueira, sofre com o preconceito e desvantagens econômicas e sociais.

A gagueira, por ser um problema social importante, ganhou também um dia internacional: dia 22 de outubro.

Veja vídeo “Gagueira não tem graça, tem tratamento”.

Acesse também: http://www.abragagueira.org.br/

A fala é o meio mais eficaz e mais utilizado para a nossa comunicação e interação social, porém não a única. Esta é a descoberta para alcançarmos reconhecimento social, através da comunicação.

Os gagos do Brasil precisam de apoio especializado e reconhecimento social

Se não falamos fluentemente ou temos algum grau de timidez para nos expressar, arranjamos jeitos de ser reconhecidos e valorizados socialmente por alguma outra habilidade ou virtude humana. O reconhecimento social é uma das maiores necessidades humanas.

Especialistas em compensar

Se não somos “experts” na fala, podemos ser bons na escrita, no canto, na música, na representação, no estudo, na convivência ou nas relações. A qualidade da nossa comunicação depende da interação de todos, inclusive do apoio e compreensão que temos de dar àqueles que sofrem para se comunicar.

Os problemas de comunicação, em especial dos que sofrem com gagueira, constituem-se um problema social, uma vez que interessa a todos.

O ser humano é especialista em compensar. Sem compensar não sobreviveria, porque se não é possível ser bom em tudo, é necessário ser bom e útil em alguma coisa. Por isso a gente se faz gente “agarrando-se” ao que tem de bom, em coisas que tem facilidade e que nos rendam reconhecimento dos outros.

Todos precisam ser queridos, amados e promovidos através dos outros. O reconhecimento social é uma das maiores necessidades humanas, pois ninguém sobrevive se não comprovar para si mesmo o quanto é útil, importante, querido e estimado pelos outros.

Veja vídeo de pessoas famosas e líderes gagos que demonstraram sua superação:

A autoestima e autoaceitação são preponderantes para a cura ou convivência com a gagueira. A gagueira é influenciada por fatores neurobiológicos ou emocionais. Conhecer-se, estudar o seu problema, procurar auxílio e terapias, aumenta as possibilidades de conviver socialmente, sem maiores traumas.

É fundamental, ainda, assumir publicamente os limites da fala e da comunicação sempre que se puder. Assumir os limites da fala propicia discernimento e tranquilidade interior para lidar com os desafios de se comunicar melhor. Quem fala se liberta.

Dilma, Brizola e Getúlio: perseguidos políticos na história brasileira – Moisés Mendes

Perseguidos políticos são tentadores. O que penso mesmo não é nem no que um perseguido tem a dizer sobre o que determinou sua queda e sobre o que pode provocar sua redenção.

Brizola e eu entramos no quarto e logo percebemos que não havia cadeiras ou poltronas. Ele resolveu na hora:

– Vamos nos sentar na cama.

E nos sentamos. Liguei o gravador e Brizola começou a falar sobre a campanha da Legalidade. Eu era correspondente da Caldas júnior em Ijuí e recebera uma missão: deveria ouvir o ex-governador para um programa da Rádio Guaíba sobre o movimento por ele liderado contra a tentativa de golpe de 1961.

Sim, eu entrevistei Brizola na cama do quarto do casal Vanderley e Ivone Burmann, em Ijuí, em uma noite da primavera de 1979.

Burmann, líder trabalhista e ex-prefeito, enchera a casa de gente para um jantar com Brizola, que retornara ao país com a anistia, 15 anos depois do golpe. Era uma alegre barulheira pela volta da maior figura das esquerdas.

Tentamos conversar na sala, depois na cozinha. Não era possível caminhar pela casa. Muito menos no pátio. Dona Ivone nos socorreu:

– O quarto, o quarto.

Entramos e fechamos a porta. Mas, volta e meia, abriam e espiavam para saber se ele não queria que me mandassem embora. Brizola fazia um sinal de que estava tudo bem. Abriram e fecharam a porta umas 10 vezes.

Todos queriam vê-lo na mesa, e o grande líder trabalhista continuava sentado na cama. Em algum momento, cheguei a pensar em pedir: levem o Brizola de volta, porque o homem vai começar um novo levante no quarto, e eu vim apenas entrevistá-lo.

Me recordo desse encontro de meia hora com Brizola e penso como seria hoje uma outra entrevista. Uma conversa com Dilma Rousseff. Histórias, personagens e circunstâncias são distintas. Brizola estava encerrando um exílio. Dilma está começando o seu, mesmo que fique aqui.

Perseguidos políticos são tentadores. O que penso mesmo não é nem no que um perseguido tem a dizer sobre o que determinou sua queda e sobre o que pode provocar sua redenção.

Nem penso numa conversa intimista com Dilma, porque não estou habilitado para tanto e porque falas com o coração, logo depois de um episódio traumático, estão condenadas a serem revisadas alguns dias depois.

>>Leia também: Impeachment: coisa de homens

Também não teria a pretensão de querer obter de Dilma um balanço racional de seus últimos atos, dos erros e de coisas das quais se arrepende.

Nem perguntaria sobre as apostas furadas no próprio Temer, no Padilha, no Joaquim Levy, nas alianças, no PMDB que a traiu. Não falaria nada da sua relação tumultuada com o PT, das coisas não ditas a Lula. Nem tocaria no pato da Fiesp e nas pedaladas.

Estou destreinado como repórter. Evitaria a armadilha das perguntas erradas, da pressa que come pausas e silêncios, da tentativa de ser mais esperto do que o entrevistado. Nem levaria uma pauta de assuntos.

Eu não levaria nem mesmo gravador, como levei para o quarto com Brizola. Não faria indagações ditas objetivas. Levaria apenas um mate e uma rapadura.

Poderíamos sentar no chão, em pedras ou em cadeiras de praia, na enseada do Veludo, em Belém Novo, na beira do Guaíba.

Mas eu gostaria de conversar com Dilma logo depois do golpe. Alguns analistas já anunciaram sua morte política. É apenas uma torcida, porque não se abrevia a vida de um político ou de um centroavante muito antes do tempo.

Dilma tem Getúlio Vargas como referência. Getúlio caiu em 1945 aos 63 anos. Foi eleito senador logo depois, passou a fazer articulações e voltou como presidente em janeiro de 1951. Tinha 69 anos.

60 anos sem Getúlio

Dilma foi derrubada aos 68 anos. Se a política fizesse os movimentos que costuma fazer, e Dilma inventasse de disputar e vencer a eleição de 2018, voltaria ao poder com apenas dois anos acima da idade de Getúlio em 1951. Em 1951, um homem de 69 anos era considerado velho. Hoje, não.

A direita dirá que Dilma talvez esteja hoje além da idade para aspirar alguma coisa, mesmo no curto prazo. Um certo jornalismo diz a mesma coisa. Ela terá 71 anos em janeiro de 2019.

Alguns coronéis que derrubaram Dilma, dentro e fora do Congresso, estão perto dos cem anos. Mas 71 anos talvez seja, dizem os detratores, demais para Dilma. Até porque irão encontrar outros defeitos.

Penso na sua vitalidade e imagino a conversa com Dilma à beira do Guaíba, mesmo sabendo que tal encontro é improvável. Porque todos querem, claro, conversar com Dilma.

Eu não perguntaria nada. Para puxar conversa, apenas começaria contando que já entrei nas águas do Guaíba ali na volta do Veludo. Ela, se quisesse, poderia me dizer o que fazia em Brasília nas horas de folga. Eu levaria o mate e a rapadura.

Artigo originalmente publicado em 2 de setembro de 2016 no Jornal Extra-classe.

Contos de Eduardo Albuquerque: a literatura conta parte da história da educação, a partir do cotidiano da escola

Professor Eduardo Albuquerque, com sutileza, ironia e sarcasmo que caracteriza a literatura, aborda temas do cotidiano da escola, nem sempre abordados ou refletidos nos ambientes escolares, em seus 24 contos.

Com alegria, quero apresentar a obra É para copiar? do professor Eduardo Albuquerque, pela Editora Saluz, selo da Editora do IFIBE, lançada na 30ª Feira do Livro de Passo Fundo, no mês de novembro de 2016.

Eduardo Albuquerque, como todo autor iniciante (que torna públicas suas construções literárias), fez consultas a um pequeno grupo de pessoas antes de sua decisão de publicar um livro. Felizmente, fui das poucas pessoas consultadas por Eduardo antes da publicação e sempre tratei de estimulá-lo e encorajá-lo, pois vi em seus textos um grande potencial literário e uma corajosa vontade de contar, literariamente, um pouco de suas experiências na profissão docente e no cotidiano da escola.

Fico feliz quando vejo que a literatura conta parte da história da educação, a partir de professores que se desafiam a escrever crônicas, contos, histórias e fábulas, romances.

>>Acesse também: A função da literatura e as crianças

Professor Eduardo Albuquerque tem um texto narrativo leve e bem estruturado na forma de conto. Eduardo consegue distanciar-se dos contextos vividos e presenciados no cotidiano das escolas, para dar aos acontecimentos novos significados e contornos envolvendo sua criatividade e imaginação.

Os textos narrativos (contos, crônicas, romances, parábolas, lendas) têm duas finalidades: contar um fato e tornar este fato informação, aprendizado ou entretenimento.

Os textos narrativos que mais se aproximam, e se confundem, são os contos e as crônicas. Neste específico, “a diferença básica entre os dois é que a crônica narra fatos do dia a dia, relata o cotidiano das pessoas, situações que presenciamos e já até prevemos o desenrolar dos fatos. A crônica também se utiliza da ironia e às vezes até do sarcasmo. Não necessariamente precisa se passar em um intervalo de tempo, quando o tempo é utilizado, é um tempo curto, de minutos ou horas normalmente”. (Confira mais informações em InfoEscola)

Professor Eduardo, com sutileza, ironia e sarcasmo que caracteriza a literatura, aborda temas do cotidiano da escola, nem sempre abordados ou refletidos nos ambientes escolares, em seus 24 contos.

Muitas vezes, no cotidiano da escola, prefere-se o esquecimento e o silêncio diante das situações colocadas, ao invés do enfrentamento sério, responsável e coerente diante dos desafios contemporâneos da educação.

Citamos algumas temáticas como: a ausência de sensibilidade política e pedagógica de muitos gestores (em “A nova Coordenadora” e “O retiro espiritual” e “Assédio”), as engenhosas eleições para diretores de escolas (em “A eleição para diretor), as tensas e controversas reuniões com os pais (em “Reunião de Pais”), as dificuldades da matemática (em “Sistema de recompensa”), o potencial dos deficientes (em Senta Levanta), os difíceis conselhos de classe (em “O Conselho de Classe” e “A terceira lei de Newton), a perversidade da prática do bullying (em “A turma do Fernandinho”),as dificuldades de uma greve de professores (em “A greve”), os descontextualizados exames para avaliação da aprendizagem dos alunos (em “A avaliação nacional), as mudanças recentes do mundo, dos alunos, dos professores e do conhecimento (em “Gort”), dentre outros temas.

Em sua obra, É para copiar?, lê-se na contracapa breve análise da obra feita por Marta Borba, professora da rede municipal de Passo Fundo. Leia mais sobre Marta Borba.

A educação como possibilidade de humanização

Finalmente, tenho a dizer que a educação pública, de qualidade social, será mais valorizada quando professores e professoras ousarem contar, a partir da literatura ou da reflexão, os desafios que a ela se apresentam nos dias atuais.

Enquanto a educação continuar sendo avaliada e conduzida por quem não é protagonista dela, rumará por caminhos tortuosos e incertos. Enquanto o cotidiano da escola não for a base e a referência para as discussões sobre educação, não teremos avanços significativos na educação.

Nós, professores e professoras que fazemos educação, sabemos muito sobre como valorizar e promover uma educação que valorize e promova a humanidade que existe em cada um de nós e que pulsa por mais dignidade.

Nosso maior desafio é a humanização (possibilidade de nos tornarmos seres humanos melhores).

Para conhecer mais obras publicadas pela Editora acesse o site da Editora do IFIBE.

Jornalismo e democracia: tempos difíceis

Primeiramente, apesar do sobrenome e da longínqua herança genética do ditador, não tenho idade para ter presenciado a ditadura militar. Muito menos, como jornalista. Faço esse adendo (minhas amigas dizem que esse é meu vício de linguagem, maldito!) porque quando digo tempos difíceis, falo isso usando como referência a minha pouca vivência de um quarto de século de vida, sendo menos de uma década de vivências jornalísticas.

Retomando o assunto, deixo de lado as referências históricas, sem medir quem sofreu mais ou menos e dizer que as coisas não andam fáceis para os colegas com quem divido a profissão. Desde o ano passado os grandes veículos anunciavam o aumento do número de desempregados no país. Mas não noticiaram, obviamente, que foram eles próprios que deram início a esse processo.

Jornalistas demitidos, perseguidos e sofrendo violência no trabalho

Segundo o portal Comunique-se no ano passado mais de 1400 jornalistas foram pra rua. Isso sem contar os que têm a carteira assinada com outras profissões nada a ver com a desempenhada nas redações.

A jornalista que foi assediada pelo cantor Biel durante uma entrevista e não se calou, foi demitida dias depois de fazer BO contra o cantor. Ela fez o que muitas de nós, jornalistas mulheres, já quisemos fazer: escrachar homem que acha que mulher é objeto.

Quando o colega de profissão homem faz entrevistas, porque o entrevistado não diz que só dá tal informação numa exclusiva? Porque com jornalistas homens não tem piadinha dizendo que ele está onde está porque é “jovem e bonito”? Porque o entrevistado se acha no direito de fazer comentários constrangedores sobre a vida pessoal de quem está somente desenvolvendo seu trabalho? Sem contar os colegas de trabalho, mas nem vamos falar disso que esse não é o assunto da vez.

Assista vídeo sobre perseguição à jornalistas no Brasil:

Em seguida, com o processo de impeachment da presidenta Dilma sabemos que o nosso trabalho só aumentou. Independente das ideologias políticas, para nós jornalistas, protesto significa trabalho. E muito trabalho.

Como se não bastasse as horas a mais, o texto que tem que ser entregue na pressa, ainda temos que contar com a truculência da polícia que não sabe tratar nem de manifestante e nem de trabalhador.

Mais de dez colegas de profissão escreveram relatos sobre a violência que sofreram enquanto realizavam a cobertura dos atos, ou seja, trabalhavam. Apanharam, tiveram seus equipamentos destruídos e foram humilhados pura e simplesmente por estarem realizando seu trabalho. “Sai lixo!”, é o que o cara tem que ouvir enquanto apanha, depois de trabalhar durante horas.

Pesquise o piso salarial do jornalista que, diga-se de passagem, quase ninguém ganha (tendo que trabalhar mais horas do que diz a lei e receber muito menos) e pense que baita prejuízo é ele perder sua câmera, por exemplo.

Leia tambémO jornalismo e seus interesses – Nei Alberto Pies

Jornalistas agredidos e sem liberdade de expressão

Como se não fosse suficiente, há pouco fico sabendo que dois jornalistas foram agredidos por manifestantes contrários ao governo Michel Temer, ao entrevistarem um grupo que defendia uma intervenção militar no Brasil. Quem bateu ou não gostava deles ou da linha editorial que representavam. Ou ainda, em tempos de coxinhas e petralhas, quem sabe pensaram que eles eram do lado oposto e mereciam a agressão, como se agressões fossem justificáveis.

A perseguição a um jornalista é um ataque à liberdade de expressão, que é fundamental na construção de uma democracia

Confira vídeo sobre Mídia e liberdade de expressão:

Nesses tempos malucos ainda presenciamos colegas que, assim como eu, são formadores de opinião e que não agridem diretamente, mas emitem comentários que resultam em atos violentos contra profissionais de imprensa (seja dos grandes veículos ou independentes). Estamos muito distantes de uma realidade de plena democracia no jornalismo.

É tanta porrada, de tanto lado, que cada vez mais colegas estão largando a profissão para (aqui cabe bem a piadinha de humanas) vender a sua arte na praia. E sem profissionais qualificados para informar, meus amigos, o que lhes resta é a verdade que venderem para você.

Boas compras.

Palavras adultas, crianças imaginárias e mundo real

Carta à menina do vestido vermelho

Querida menininha,

Como tem passado? Sinto-me melhor nestes últimos dias. Há um mês você veio me ver, mas parece que faz anos, pois hoje a saudade sua me bateu fortemente.

Gosto de conversar com você e do seu olhar de borboleta quando me observa atentamente a falar as minhas palavras de velha que já não tem mais paciência para as pessoas sem corações desse mundo cruel.

Menininha, ontem queimei a minha mãe com água fervente. Aprontava-me para fazer uma xícara de café quando tomei um susto ao ver, ao longe, um pássaro azul cantar no meu jardim florido. O pássaro fez-me lembrar do azul dos seus olhos, desse olhar assustado que só você tem, desse olhar que carrega o mar dentro de si sem ondas bravas. Os meus dias têm sido tranquilos, sem novidades.

A mesma solidão de sempre, a ausência de um não-sei-o-quê dentro de mim, a dúvida em relação à existência de pessoas de bom coração e aquela vontade de retomar a costura da colcha de retalhos largada no fundo do baú há mais de dez anos. Parece até que estou perdida dentro da minha morada, não falo da minha casa de tijolos, mas da minha morada-ser, existência fugaz em mim, que me toma de arrebatamentos e me enche o peito de angústias a pensar nas criaturas que viraram pedras e esqueceram a bondade, a caridade, o amor. Quero salvar o pássaro azul que brinca em meu jardim do medo de ser esquecido em lugares que habitam a existência.

O bolo de chocolate que me trouxe na sua última visita estava gostoso e comi quase todo quando você partiu.

Gosto de bolos com café. O café me faz parecer mais gente fora de mim, pois tenho sentido a presença de monstros ao meu redor.

Monstros da ignorância e da insensatez humana que descobriram a estrada da minha morada. Menininha, a casa está cheia de poeira e há num porta-retratos a nossa foto juntas. Estou abraçada a ele neste momento. Tenho o seu sorriso nos meus braços. Você que gosta de sorrir e dá bom dia à vida.

Você que não se assusta com os monstros das madrugadas, porque no seu quarto de dormir vivem anjos que a protegem. Como eu queria ter um anjo protetor! Sabe, menininha, chega uma hora na vida que é melhor pintar telas com os dedos e rabiscar a areia com pincéis de madeira. Faz dias que tenho procurado, em vão, pintar o seu sorriso. Você que é doce igual ao mel.

Preciso parar de escrever. A noite vem caindo e tenho que tirar a roupa do varal. Lavei roupa hoje cedo. As roupas gostam de sabão que cicatrizam a sujeira de dizer-se não à solidão de serem largadas ao léu, quando já não servem mais para vestirem o corpo, pois têm o cheiro de cansaço. Ninguém quer cansar-se. Todos querem fôlego para descobrirem novas ruas dentro e fora de si. Vou indo, menininha. Fique com Deus. Venha me visitar sempre que puder.

Um abraço,

Rosângela Trajano.

Observação: Gosto de escrever cartas para pessoas imaginárias. Criei esse personagem e tenho escrito cartas filosóficas para ela. “Menina do vestido vermelho” representa todas as crianças deste querido Brasil.

Crise da ética e ausência de justiça: reflexões de 20 anos

Antonio Mesquita Galvão sempre foi um autor referência em moral e ética na perspectiva que aprendi na minha formação crítica-humanística: não haverá paz sem que haja justiça.

Em 1997, escreve livro com o título “A crise da ética: o neoliberalismo como causa da exclusão social”. Tenho este livro e reli o mesmo para escrever esta reflexão.

antonio-mesquita-galvaoEm seus 90 livros escritos, Antônio Mesquita Galvão revela-se profundo conhecedor dos temas que relacionam ética, moral e cristianismo.

Assim se revela: “enganem-se ao me imaginar cristão de sacristia: sou atuante, trabalho em comunidades (…), ministro da esperança, dou aulas em casas de formação, assessoro workshops de teologia, coordeno círculos bíblicos e animo retiro de padres, religiosos e leigos. Inscrevam-se! Se querem currículo, deixei de dizer “Mestre em escatologia”. Desculpem por eu ter estudado. Ok?”

Em 97 escreveu: “A falta de ética pode ser encontrada no fim de muitos raciocínios indagadores a respeito da desordem social que há em nosso país”. Naquele contexto, o Brasil sofria as consequências nefastas das ideias neoliberais que eram aqui implantadas.

Crise da ética e ausência de justiça hoje

Vinte anos depois, o Brasil descobre-se corrupto. A corrupção, embora reconhecida problema grave, está longe de ser um problema suficientemente sério para ser levada a sério por todos os brasileiros.

>> Veja mais sobre em: Combate à corrupção

Prossegue Galvão: “A ética, como ethos (bom comportamento moral vivido à luz do direito natural), não é vivida nem buscada, e, por configurar-se uma situação de injustiça, não há paz.

“A justiça produzirá a paz!” (Is 32,17), ensinou o profeta.

“a falta de paz numa sociedade é indicador da ausência de justiça. E, nesse particular, ética e moral funcionam como colunas de justiça”.

Redescubro Galvão agora em setembro de 2016, afirmando seu histórico de estudos e reflexões na área: (eu lecionei Ética na universidade e escrevi dois livros sobre o tema, Crise da ética e Ética cristã e compromisso político) publicando um artigo no Zero Hora.

Neste artigo, o autor afirma que no Brasil acontecem coisas curiosas se não fossem trágicas e imorais, que vistas com olhos da ética formal chegam a revoltar e nos levar a duvidar da instauração de um Estado decente.

Questiona o uso indiscriminado e abusivo do Instituto da Lei Penal, a delação premiada: “Não é porque o bandido “entrega” o resto da quadrilha que ele mereça credibilidade para tomar parte ativa no processo, ou se torna menos bandido”.

Escreve também: “nos subterrâneos da ética constata-se a prática pragmática dos fins que justificam os meios. O cara é criminoso, corrupto ou calaveira, mas para ajudar a justiça ele recebe o placet, como se testemunha honesta fosse”.

Incentiva-se os jovens às atitudes morais, mas ensinamos a delação premiada, que é uma ruptura ética”.

No final do livro, em 1997, Antônio Mesquita Galvão apresenta a reforma da consciência política como solução para o resgate da justiça, da equidade e da vida abundante para o povo, o que parece ser uma exigência contemporânea.

Assim escreveu: “a sociedade cristã tem na conscientização e responsabilidade política quem sabe o único caminho para estabelecer a maior revolução de todos os tempos: transformar a sociedade pelo amor, pela reconciliação e pelo entendimento”.

Concordo e retomo as sugestões de Galvão. Perspectivas de ação cidadã e da ética e da moral, com novos desdobramentos para as novas gerações. Enquanto não praticarmos a justiça, não haverá possibilidades de paz!

Obras de Antônio Mesquita Galvão na Estante Virtual.

Crises

A crise assola o país
como a crase aflige a escrita.
O kraquen não está nos mares,
mas o craque está em campo,
o crack está na rua!
Por trás das cortinas do teatro abandonado
mofa um espetáculo que nunca foi censurado.
A vida só ganha um pouco de graça
quando de graça é a cachaça.
Os dias estão cada vez mais longos
e o dinheiro diário já não quita as 24 horas.
A vida passa feito um curta-metragem
girando eternamente no rolo da rotina…
A TV não te vê, mas te hipnotiza!
É o espelho da beleza
que não reflete o que agoniza.
O céu escuro não leva chuva para o sertão.
E o ser, tão frágil, acha que fumaça é nuvem.
Nu vem o saldo,
nu vem o prato…
Talvez uma prece
ou o apreço de um deputado.
Talvez um desvio
ou um dinheirinho roubado…
A fé,
a febre do ouro.
O suor frio que escorre no couro
e desejo de ter
que supera o de ser
Lutamos com espadas cegas,
sem fio.
Como esses olhos que já não enxergam,
mas que tapam os buracos
de um crânio
vazio…

 

 

A simplicidade é a melhor anfitriã em terra desconhecida

mocambique-1O melhor lugar do mundo é onde somos capazes de ser amantes e amados. Há um mês vivo a experiência de descobrir e amar um novo mundo. A África, ainda que desconfiada pelas tantas estranhezas que carrego, me mostrou que a melhor acolhida acontece na simplicidade e na ternura.

Dia 13 de setembro fui recebida com cantos, batuques e sorrisos na comunidade missionária da Igreja do Rio Grande do Sul em Moma, distrito da Província de Nampula, norte de Moçambique. Aqui, atendemos duas paróquias e cerca de 150 comunidades.

A chegada e a recepção calorosa do povo africano

Assim que cheguei ganhei de presente da outra missionária de nossa equipe uma capulana. O pano, sempre colorido, retrata cheio de poesia a vida e a cultura deste povo. Utilizada para vestir, a capulana acolhe também o alimento sobre a mesa e a criança nas costas de sua mamá. Com o presente, lembrei-me de Jesus ao lavar os pés de seus amigos. “Ele se levantou da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura”.

Assista vídeo da chegada (minha e de Dom Jaime Kohl)

Para mim, foi assim que Jesus ensinou que precisamos sair do nosso egoísmo, do nosso casulo, para ir ao encontro dos outros. Quando nos desfazemos do nosso manto, nos despojamos dos fechamentos, preconceitos, medos e inseguranças que nos limitam ou bloqueiam no serviço ao irmão. A capulana foi para mim a porta deste mundo cheio de novidades.

Certamente um mês é pouco para qualquer impressão, mas uma coisa é certa: cada mão estendida nos lugares que chego me ajuda a compreender que caminho nos trilhos da felicidade. Especialmente nestas horas sinto que minha vida é útil e ganha sentido no olhar ainda curioso daqueles que me acolhem.

Se tem uma coisa que já aprendi é que aqueles que pouco ou nada têm a perder são ótimos anfitriões.

Seus sonhos e suas esperanças – os maiores bens que têm – não podem ser roubados pelos que chegam.

Aos poucos Moçambique se revela na história e na vida do seu povo. Quando comemos com eles, sentamos a sombra de cajueiros e mangueiras, caminhamos em suas trilhas e partilhamos seus alimentos, é que podemos perceber seu dom de transformar a angústia em esperança.

Seguimos juntos, em ação missionária pela vida e pelo novo mundo que acreditamos.

Trinta anos de encantamento, militância e paixão: professora Marta Borba

No mês do professor, a entrevista da série “Profissões Educadoras” faz uma homenagem aos Mestres, apresentando o perfil da professora Marta Borba. Sua história com o magistério iniciou há 30 anos, é formada em Letras com  especialização em Língua Portuguesa, atualmente, leciona na Escola Municipal de Ensino Fundamental Wolmar Salton, de Passo Fundo, RS.

marta-borba-3Mesmo após três décadas, ainda, é possível perceber que o tempo não tiro o encantamento do olhar de quem continua apaixonada pela profissão. “Tive um encantamento pela leitura e foi ela que me conduziu ao curso de Letras”,  lembra emocionada a professora.

A sua abnegação pelas causas do magistério e sua paixão pelo fazer pedagógico refletem-se  em cada palavra dita com amorosidade, no sorriso largo e no  brilho dos olhos.

Marta se define como uma militante na educação, “nesses 30 anos de atividades em diferentes escolas, com diferentes gestores, só tive satisfação ao longo da minha caminhada profissional e sigo nela porque acredito nessa militância do professor que aprende todo dia”, destaca.

Durante a entrevista percebi Marta, não só como a professora que ensina, mas como uma educadora que aprende. E vou além!  Compreendi em poucos minutos de conversa que para essa professora, sua profissão tem outros significados: encantamento, militância e paixão.

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Entrevista

Márcia Machado: Como a senhora analisa  seus 30 anos de profissão ?

Profª Marta: A academia te oferece a  fundamentação teórica e práxis se vai adquirindo com o passar do tempo.  Eu tenho 30 anos do que chamo “militância na educação”, sou uma apaixonada pelo fazer pedagógico, pelas causas da educação, nesses 30 anos de atividades em diferentes escolas com diferentes gestores da área, só tive satisfação ao longo da minha caminhada profissional e sigo nela porque acredito nessa militância. Militância do professor que aprende todo dia, principalmente, nos cenários atuais nos quais estamos inseridos.  Essa postura de que não somos mais os detentores do saber, nos leva a interação  do aluno  com professor  e assim  vamos colocando em prática o que a teoria nos diz.

Militância do professor que aprende todo dia, principalmente, nos cenários atuais nos quais estamos inseridos.

Márcia Machado: Poderia traçar  um paralelo entre a educação há 30 anos e a educação na atualidade?

Profª Marta: A gente tem ouvido de alguns palestrantes, nos momentos de formação, a seguinte reflexão:  se um profissional  do século passado voltar, por exemplo um cirurgião,  vai se espantar pela evolução que ocorreu nas salas cirúrgicas, já um professor  se retornar do passado,  vai  encontrar a mesma sala de aula.  O que será diferente  é a clientela que irá encontrar lá dentro. O caminho para humanizar é o mesmo caminho, entretanto,  as ferramentas são outras, o sujeito é outro.  No cenário atual temos um conhecimento muito efêmero, muito rápido,  e o professor tem que estar atento  a isso, para  que este sujeito que está com você seja criança, adolescente ou adulto, seja percebido em sua individualidade.  Lembrando que a questões humanísticas passam sempre pelo sujeito e as  ações e ferramentas tecnológicas, devem contribuir para que o aluno se torne um cidadão de direitos e de deveres, uma  pessoas humana de fato. Essa é a dificuldade nos dias atuais diante de cenários tão adversos.

Márcia Machado: A senhora fala da humanização do sujeito, como o professor colabora nessa formação?

Profª Marta: Eu utilizo a literatura como ferramenta. Na literatura  no “O Livro dos Abraços”, de  Eduardo Galeano (escritor uruguaio), no conto  do menino que não conhecia o mar  e  que pediu para que o pai o levasse para vê-lo, e quando chegaram diante aquela plenitude toda, o menino agarra-se na mão do pai e diz a seguinte frase: Pai me ajuda a olhar! Então a minha profissão, através da literatura tem o objetivo de que o sujeito que passa pela minha sala de aula desenvolva sua capacidade, sua habilidade de olhar o mundo, de olhar os seres que o compõe.

Márcia Machado: Como percebes  a  contribuição da sua profissão na sociedade?

Profª Marta:  Como muito importante. Do ponto de vista de que nós professores sabemos muito bem o quão é importante a nossa ação, nossa militância diante de uma sociedade tão díspare, tão diferente, e a cada ano tantos desafios surgem na área da educação. Nós estamos sempre com uma corda no pescoço, em termos de investimentos na aŕea da educação e isso para o professor é mais um desafio.  Além da função que temos, do compromisso que temos, nós sabemos  que os nossos gestores, ao longo das décadas não  vêm fazendo a sua parte e isso dificulta prá nós.

Márcia Machado: Quais os desafios de ser professora na atualidade?

Profª Marta: Os desafios de sala de aula são o encantamento.  Nós temos hoje uma geração que ao mesmo tempo que ela tem acesso à informação, temos notado que existe uma memória muito curta e isso tem nos desafiado. O que tem me encantado, principalmente nesses últimos anos, em especial neste ano trabalhando com crianças de 10 a 12 anos em sala de aula, os sextos anos, eu percebo de que quando faço um paralelo de memória longa trazendo fatos eles se sentem mais atraídos pela disciplina. Essa semana um menino me disse  “não sei o que o meu filho vai dizer no futuro, mas quando vocês me falam que estudaram com disquete, com video cassete eu fico pensando que os meus filhos vão dizer: poxa isso era de passar o dedo? Pois eu penso que no futuro seremos teleguiados”. Quando a gente traça esses paralelos conseguimos dialogar com as memórias, traz um encantamento para a gente. As crianças são muito questionadoras, um exemplo, os pronomes de tratamento, quando citei Vossa Senhoria, Vossa Excelência e  Digníssimo, um aluno interpelou-me, “mas professora onde que se usa isso, com quem se usa?” Informei-lhe com autoridades e sem terminar minha frase ele questionou, “mas os deputados quando usam o Vossa Excelência é um tratamento muito irônico”. E essa análise veio de uma criança de 10 anos. É esse ser crítico que está aí e  que anima a gente a continuar, mesmo diante a todos os desafios da educação. O futuro tem que ser construído hoje.

Os desafios de sala de aula são o encantamento.

Márcia Machado: A sua profissão por si só é educadora. E o que mais?

Profª Marta: Percebo que o professor hoje, está desafiado para além da sala de aula, eles precisam estar sim envolvidos nas questões que dizem respeito a sua profissão, porque a importância dela vai além da escola.  Então a militância no seu sindicato, a militância junto dos seus pares me parece que poderá fortalecer sim a classe para buscar esse respeito na sociedade que não o temos.

A militância no seu sindicato, a militância junto dos seus pares poderá fortalecer sim a classe para buscar esse respeito na sociedade que não o temos.

Márcia Machado: Como analisa o  atual momento pelo qual a educação passa  no nosso país?

Profª Marta: No meu ponto de vista, em relação aos gestores, com esse corte de investimentos em nível de país, com a aprovação da PEC (Proposta de Emenda à Constituição 241/16 – PEC 241) que congela todos os investimentos na área por 20 anos, as dificuldades nossas serão enormes provavelmente não haverá investimentos em infraestrutura, em ampliação reformas, por exemplo, teremos mais dificuldade que já vínhamos tendo e imagina com esses cortes anunciados, vejo com temeridade essa situação.

Márcia Machado: Já que citou a PEC 241, qual a sua opinião sobre  a Medida Provisória de Reestruturação do Ensino Médio (MP 746)?

Profª Marta: Como defensora da escola pública eu vejo que ela é quem sai perdendo porque o filho do trabalhador tem os mesmos direitos do filho do patrão e se lhe é negado ter acesso aos bens culturais ao longo da história construídos, é novamente uma discriminação muito grande porque não ter acesso à  música, à  arte, sendo que é fundamental para as  outras áreas esse desenvolvimento das crianças. Claro que a reforma está voltada para os alunos do Ensino Médio, e isso tem trazido a reflexão que essa reestruturação vai dobrar a responsabilidade do Ensino Fundamental e já são tantos os desafios para oferecer essa primeira alfabetização da criança. Vamos ter que rever também os nossos currículos de atividades, para que estendam o quanto mais puderem  no atendimento da arte, da educação física, por exemplo. Questiono muito a forma pela qual o governo optou por fazer a reforma sem consulta as bases.

Márcia Machado: Para onde se encaminha a educação?

Profª Marta: Se depender dos professores com certeza nós não vamos deixar que nosso país tenha uma baixa qualidade, ainda não é mais baixa porque eu acredito na valoração do que o professor faz diante de tantas dificuldades, principalmente salarial. Nós temos uma carga horária excessiva e precisamos nos desdobrar para conseguir sobreviver.

Acredito muito no potencial do professor, não sei te precisar assim se vai conseguir ter avanços, mas de coração dizer que a utopia que está no coração dos professores é o que nos move.

Márcia Machado: Defina numa frase sua missão enquanto professora na sociedade.

Profª Marta: Posso citar Mario Quintana “o jardim não morre por falta de cuidado, ele morre pela indiferença de quem passa por ele e não lhe vê “

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