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A consciência disforme

A sociedade perdeu a consciência do pecado,
porque perdeu a noção da verdadeira felicidade e liberdade,
o anseio de realização mais profunda.

 

Toda espécie humana reconhece que é mal praticar o adultério, a prostituição, o homicídio, o roubo ou coisa semelhante. Há implantado no coração humano um preceito natural de bem viver, para praticar o que nos realiza e constrói e evitar aquilo que nos escraviza e prejudica. A pessoa de boa vontade sabe escolher no interior de sua consciência o que edifica, rejeitando o que lhe desumaniza.

[quote_box_left]Viver sem pensar na morte leva a vida a um caos, um abismo sem volta, um mar de atitudes desconexas. Minha consciência que decide tudo. O pecado é invenção e privação de minha liberdade pessoal. Tudo posso. Tudo será questão de gosto, de sensação momentânea, epidérmica, deixando “a vida me levar; vida leva eu. [/quote_box_left]

O pecado destrói a natureza toda e atinge simultaneamente o ser humano nas profundezas de seu ser. Atinge também as ligações que unem aos outros, bem como ao conjunto da criação. Não é apenas um descumprimento de uma regra, uma norma, uma lei, um pequeno desvio e descompasso de uma rota ou conduta. O pecado não é simplesmente uma ofensa ao Criador, uma agressão ao seu amor, mas uma destruição de quem o pratica, a perda do ideal humano colocado no íntimo do seu ser.

A sociedade perdeu a consciência do pecado, porque perdeu a noção da verdadeira felicidade e liberdade, o anseio de realização mais profunda. Perdemos genuinamente, em nossos dias, os critérios filosóficos e teologais do bem, do bom, do belo e do verdadeiro. Por não ouvir nosso interior, distanciamo-nos de tudo o que é “verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável, honroso, tudo o que é virtude e digno de louvor” (Fl 4, 8-9). Não escutamos a voz de nossa natureza mais íntima. A campainha interior não toca mais.

[quote_box_left]O pecador é um suicida, se auto destrói, se despersonaliza, ficando disforme e diminuído.[/quote_box_left]

Criados para a esperança, caminhamos para a morte ôntica, onde o mal é camuflado de bem, o imoral de perfeitamente natural, o impróprio de totalmente admissível. O único que pode saciar a sede mais profunda do ser humano é o próprio Deus. Deus não está morto, mesmo que o queiramos matar de novo. Só nele encontraremos alguma esperança para reconstruir o ser humano desfacelado, desalmado. Só Ele para devolver ao homem sua essência mais genuína.

No aniversário do AI-5 o presente é a PEC 55

Os grandes articuladores dessa retirada de direitos
através da PEC 55 são suspeitos, réus ou condenados
dos maiores esquemas de corrupção do país.

 

Sabe, um dos meus últimos planos em 2016 era escrever sobre gratidão. Comentar o quanto esquecemos de agradecer pelas coisas boas que a vida nos dá. E 2016, apesar de ser um ano pesado, teve sim muitas coisas boas. Porém, quando sentei em frente ao computador para começar a escrever, meu aviso de notícias mostrou que a PEC 55 foi aprovada. Era o dia que, há 48 anos, meu tio-avô me fazia passar uma das maiores vergonhas que poderia: implementou o AI-5.

Para quem não sabe, o AI-5 foi um Ato Institucional que vigorou até dezembro de 1978 e produziu um elenco de ações arbitrárias e efeitos que perduram até hoje, além de definir o momento mais duro do regime militar.

[quote_box_left]Para maiores informações, assista reportagem especial do Jornal da Cultura, da TV Cultura.[/quote_box_left]

O AI5 deu poder de exceção aos governantes para que punissem arbitrariamente aqueles que fossem inimigos do regime ou como tal considerados. Não bastasse, o AI-5 permitiu que o habeas corpus perdesse a sua aplicação legal. Autoridades militares podiam prender e coagir os cidadãos. Logo após a publicação do documento, vários jornalistas e políticos foram lançados na cadeia.

O presidente Costa e Silva se dirigiu à nação declarando que tal ato fora necessário para que a corrupção e a subversão fossem combatidas, e a democracia resguardada. Parece até o discurso feito para defender a PEC 55 (antiga 241) que teve até o nome modificado para “amenizar” o resultado.

O Senado aprovou no início de dezembro, por 53 votos a 16, a PEC 55, proposta de emenda constitucional que congela por até 20 anos os gastos públicos, que só serão reajustados pela inflação do ano anterior. Na comparação do que o dinheiro é capaz de comprar em determinado momento, ou seja, na prática, fica praticamente congelado. Essa é a maior mudança em matéria fiscal desde a Constituição de 88.

Conforme os críticos desse projeto uma das principais falhas é que essa PEC seguraria um pouco mais de 50% do orçamento. O restante ficaria fora dos limites impostos. Afirmam ainda que, quando posto em prática, o texto determina redução de investimento em áreas como saúde, assistência social e educação, para as quais existem regras constitucionais. Além disso, especialistas explicam que se a economia crescer e o teto seguir corrigido apenas de acordo com a inflação, o investido nestas áreas vai ser menor em termos de porcentagem do PIB (toda a riqueza produzida pelo país).

[quote_box_left]A educação é a primeira a sofrer cortes, pois pessoas educadas e pensantes incomodam governos que governam somente para os figurões.[/quote_box_left]

Vale lembrar que a classe trabalhadora já sofre com uma rede de saúde precária e com uma educação que se tem muitos pontos a melhorar. Os grandes articuladores dessa retirada de direitos são suspeitos, réus ou condenados dos maiores esquemas de corrupção do país. São pessoas que tem como única preocupação a criação e promoção de melhores leis para empreiteiras, bancos e outros monopólios, além de leis que beneficiem a si próprios, de maneira que possam enriquecer às custas do sofrimento dos trabalhadores.

“Titio” agia assim em 1968 e o Temer está fazendo assim. Sejamos pensantes e lutemos por um 2017 diferente, pois o ano que vem vai ser duro. Mas ok, a gente aguenta.

Até porque, meus amigos, nada deve parecer impossível de mudar, assim já anunciava o poeta e dramaturgo alemão Bertold Brecht:

Gente foge e faz rebelião por quê? Responsabilidade de quem?

penitenciaria fuga rebeliao

As casas prisionais deste país são um verdadeiro
depósito de seres humanos e a sociedade brasileira
parece não se importar com esta situação desumana.
Esperar o que então?

 

Até pouco tempo atrás, alarmantes e preconceituosas reportagens eram dirigidas contra os apenados que tentavam fugir das penitenciárias gaúchas e brasileiras. Com o advento das rebeliões nas penitenciárias, aumentaram as discussões distorcidas sobre as motivações daqueles que resolvem fugir ou se rebelar.

Um entendimento mais amplo da situação prisional brasileira implica reconhecer que o Estado se ausentou de sua função de “guardião da dignidade humana”. As casas prisionais são descuidadas, abarrotadas de gente, sem condições de oferecer trabalho (mesmo para apenados que desejariam fazê-lo voluntariamente), a segurança e as regras de convivência estão nas mãos dos próprios presos, não há mais possibilidade de controlar as drogas e a venda das mesmas nos presídios.

Vejam: estamos falando de uma situação extremamente delicada e complexa, conhecida e debatida por todos nós. O preconceito e discriminação para com os presos que fogem ou se rebelam são impressionantes e descabidos! A fuga e rebelião, neste contexto, é o que poderíamos esperar quando tratamos de seres humanos, pessoas maltratadas e mal acomodadas, sem culpa por isso.

[quote_box_left]Fugir é destino e meta comum de seres humanos quando as condições de vida e dignidade atentam contra a própria existência. Aliás, o que mais temos é gente que foge da violência, da opressão, do descaso, do abandono, do desamor.[/quote_box_left]

Fico imaginando se a fuga não é condição substantiva para preservarmos nossa condição de humanidade. As diferentes prisões brasileiras não fazem bem a ninguém, pois não foram concebidas para a ressocialização e humanização. As casas prisionais deste país são um verdadeiro depósito de humanos e a sociedade brasileira parece não se importar com esta situação desumana.

 

Segurança Pública e presidiária: responsabilidade do Estado

Os presos têm responsabilidade por seus crimes, mas não são responsáveis pelos crimes que o Estado e a sociedade cometem contra eles. A maioria de nós, no entanto, tende a buscar respostas na simplificação.  A maioria prefere não abordar as raízes dos problemas.

Socióloga e especialista avalia a complexidade da realidade carcerária no Brasil envolvendo temas como demora nas decisões do judiciário, muitos presos provisórios, legislação, dentre outros. Avalia, sobretudo, que o sistema penitenciário brasileiro funciona como um funil: muitos presos entram e poucos presos saem. Veja mais aqui.

É sempre mais fácil “culpar as vítimas” ao invés de perguntar as razões pelo sofrimento e desespero pelos quais estas agem. Ao invés de cobrarmos que o Estado, o guardião dos presos, dê condições de vida, proteção e ressocialização dos presos, preferimos condenar aqueles que, através da fuga e rebelião, exercem seus direitos sobreviventes. Ao invés de cobrar medidas que dificultem as fugas e mantenham maior vigilância sobre as ações dos presos, preferimos elegê-los como nossos mais nobres algozes.

[quote_box_left]A simplificação dos pensamentos faz com que esqueçamos que eles (os presos) fazem parte de uma sociedade violenta, autoritária, injusta, corrupta e perversa.[/quote_box_left]

Preferimos nos apartar, como “pessoas de bem”, imaginando que maldade é exclusividade deles, os presos e “marginais”, como os chamamos. Esta ingênua ignorância nos leva, sem querer, à mesma condição de vítimas: vítimas de nossos próprios pensamentos e incompreensões. Vítimas dos próprios presos que condenamos, infinitamente. Vítimas do mundo e submundo do roubo, da ganância, do poder e do medo que permitimos reinem em todas as nossas prisões. Vítimas dos presos que condenamos, infinitamente.

 

Reações do governo federal aos massacres nas prisões brasileiras

É tradição no Brasil reagir nas questões carcerárias apenas quando se instala uma grave crise. Organizações Internacionais de direitos humanos já vem apontando há bom tempo o descaso do Estado Brasileiro nos presídios brasileiros, a permissividade e a violação dos direitos contra os presos, bem como a vulnerabilidade dos agentes e das polícias. Como de praxe, o governo federal lançou mais um Plano Nacional de Segurança Pública depois dos massacres amplamente divulgados pela mídia nacional.

Em reportagem Especial “As mazelas do sistema penitenciário brasileiro”, Revista Veja edição 2512, 11 de janeiro de 2017, páginas 62 e 63, em texto assinado por Daniel Pereira e Thiago Bronzatto, revela que:

[quote_box_center]“o governo federal sabia, com precisão, do risco de a guerra entre facções estourar dentro dos presídios. A área de inteligência do governo mapeou o problema no ano passado e alertou para o risco de a violência explodir.” [/quote_box_center]

Na opinião da pesquisadora Maria Laura Canineu, diretora do escritório brasileiro da Humans Right Watch,

[quote_box_center]“o grande furo do Plano Nacional de Segurança Pública é a falta de comprometimento em relação à ressocialização. Dados do Ministério da Justiça de 2014 já mostravam que somente 10% dos presos tinham acesso a alguma atividade educacional e apenas 16% a alguma atividade laboral”.  [/quote_box_center]

A pesquisadora, em entrevista ao Zero Hora aborda, com muita consistência e propriedade, a situação dos direitos humanos no Brasil. Certamente, alguém perguntará sobre a influência dos grupos criminosos que dizem estar no embate mais recente dentro dos presídios, recrutando uns e aniquilando com os outros. Sobre este tema, não tenho nem autoridade e nem estudos para emitir opinião. Por isso mesmo, deixo este capítulo para os especialistas e para as autoridades da segurança pública deste país.

[quote_box_left]Conheça gráficos produzidos pelo G1 que apontam os desafios do sistema penitenciário brasileiro: número de vagas, superlotação, presos provisórios e números por cada estado brasileiro. [/quote_box_left]

Marcos Rolin, especialista em segurança pública e estudioso dos direitos humanos afirma que “os presídios viraram empresas que agenciam os interesses das facções”. Diz ainda que “não é verdade que os presos fazem o que querem nas prisões, mas é, cada vez mais verdade, que a maioria dos presos não tem escolha a não ser fazer o que as facções querem que ele faça”. A entrevista completa você pode conferir aqui.

 

Em que mundo e ser humano acreditamos?

O maior trabalho que podemos empenhar pelo mundo é pela humanização de todos. Faz parte lutar por condições que não exijam, de ninguém, a fuga e a rebeldia para não sucumbir à própria humanidade.

[quote_box_left]Todos precisam de oportunidades para se humanizar, porque o castigo injusto e sem sentido só alimenta a revolta e a própria desumanização.[/quote_box_left]

Antes que acusem que defendo apenados ou presos na condição de anjos, digo-lhes: são gente igual a gente, que perdeu o maior bem da humanidade: a liberdade. Se já perderam a liberdade (esperamos que todos por razões justas), façamos de tudo para que não percam também a sua humanidade. Esta tarefa é de toda a sociedade, mas quem deve executá-la é o Estado.

A liberdade deve ser o nosso maior horizonte! Pensar a liberdade é um trabalho corajoso, necessário e permanente. Fora da liberdade, o mundo e a humanidade serão a própria barbárie. Não nos faltam referências para a defesa da liberdade como condição indispensável para a realização humana: Sócrates, Jesus Cristo, Mahatma Gandhi, Martin Luther King e Nelson Mandela.

Um ato subversivo

Nos despedimos de 2016 com a última entrevista da Série “Profissões Educadoras” falando sobre direitos, quebra de paradigmas, lutas, conquistas e garantias. Nossa entrevistada, que no nome traz flor, na vida se destaca pela luta em defesa dos direitos sociais: a advogada Maria Sirlei Flor Vieira, pós-graduada em Direito do Trabalho e em Processo do Trabalho. Ela advoga e labuta com movimentos sociais há mais de 30 anos. Maria Sirlei lutou pelo direito das pessoas, numa época em que defender direitos era considerado um ato subversivo, quebrando paradigmas, fundou a Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo (CDHPF). Acompanhe a entrevista e até 2017!

Márcia Machado: O que lhe levou a trabalhar com movimentos sociais?

maria-sirlei-2Maria Sirlei: Durante a faculdade eu participava de movimentos de juventude como Pastoral da Juventude e de Emaús (Movimento de Comunidades Missionárias para jovens da Igreja Católica).  Ajudei a criar a Pastoral da Juventude, justamente numa época de transição política, onde estava terminando a ditadura militar.  Durante este período, os movimentos sociais eram proibidos, eles só ocorriam escondidos, na clandestinidade.

Os movimentos de jovens ligados à Igreja Católica eram muito fortes.  No fim da ditadura, início da abertura política, foi que começamos a criar os movimentos sociais e foi criada a Pastoral da Juventude, havia a pastoral dos jovens trabalhadores rurais e outra dos jovens trabalhadores urbanos, foi quando nós iniciamos a criação do movimento estudantil, através de uma pastoral nesse meio.

Com a minha formatura em Direito, passamos a buscar a criação da Comissão de Direitos Humanos. Criamos a Comissão em Passo Fundo, em 1985, com movimento das “Diretas Já”, e outros movimentos de denúncia e irregularidades, tudo era feito na clandestinidade, não havia Internet, na época era tudo camuflado. A CDHPF em Passo Fundo e no Brasil, tinha a função de denunciar as disparidades e os abusos de poder, abuso contra as pessoas. Foi então, que a gente começou um trabalho de divulgação dos direitos humanos.

Márcia Machado: Em Passo Fundo a senhora foi a primeira presidente da CDHPF?

Maria Sirlei: Sim, apesar de termos passado em torno de dois anos atuando sem estar legalizados, entramos em uma rede que havia em todo o Brasil, e começamos a participar de encontros estaduais e nacionais, e, então, criamos legalmente a Comissão. No início começamos junto à Igreja Católica, depois foi desmembrada e passou a ser autônoma como é até hoje.

Márcia Machado: Como foi essa experiência, saindo de uma ditadura, se envolver com um movimento de luta social?

Maria Sirlei: Pelo medo da ditadura a gente não tinha muito noção do que eram esses direitos, foi com a abertura política, através dos movimentos ligados à igreja que a gente começou a descobrir que existia uma ditadura e que existiam direitos. Foi então que começamos a divulgar esses direitos, através dos movimentos.

“Desde essa época, vem um preconceito contra a CDHPF, porque ela surgiu na clandestinidade, durante a ditadura, para proteger os presos políticos, então ficou caracterizada como defensora de bandidos, o que era divulgado pela ditadura para descaracterizar o movimento”.

O que não é verdade.  Os presos políticos não são bandidos, mas sim, pessoas que defendiam ideias. No transcorrer dos anos, nós conseguimos manter a CDHPF em Passo Fundo. Com a democracia ela perdeu essa característica de defesa de presos políticos, para tratar dos direitos universais das pessoas. Começamos divulgar os direitos das pessoas nas escolas e sofremos muitos processos, tivemos casos de professoras que foram processadas por distribuir informativos sobre o tema, a argumentação é tinham tendência ao comunismo e não poderiam estar divulgando o material. A Comissão intervinha fazendo a defesa desses casos.

Qualquer pessoa que escrevesse sobre direitos das pessoas era considerada subversivo, e nessa época já havia abertura política.  Isso só mudou a partir da nova Constituição em 1988 com a garantia de direitos. Hoje, a Comissão é mais educativa e menos de luta.

“Qualquer pessoa que escrevesse sobre direitos das pessoas era considerada subversivo, e nessa época já havia abertura política”.

Márcia Machado: Quais as conquistas da CDHPF?

Maria Sirlei: Na época, a CDHPF tinha uma atitude mais combativa, necessária naquele momento, hoje, ela está mais silenciosa, com uma participação mais educativa. Foi através de todos os movimentos de direitos humanos que veio à tona todas as barbáries da ditadura. Se não fossem os movimentos, talvez nós nem tivéssemos a democracia que temos hoje. Mas eu acho que agora começa um novo trabalho da CDH para combater essa “corrente”, não sei de que ordem ela é, mas que busca uma volta da ditadura militar e isso é muito perigoso.

“Eu acho que agora a atuação da Comissão é conscientizar as pessoas que não se pode ser radical a ponto de se terminar com uma democracia, trazendo de novo uma ditadura”.

Hoje não cabem mais ditadores, pois levaria a uma guerra civil. Cabe a CDHPF e, acho que será uma luta dela, esclarecer à população sobre essa diferença entre democracia e ditadura. Se a democracia não está sendo boa para as pessoas, a ditadura é pior, porque na ditadura ninguém tem direitos garantidos. É preciso que as pessoas façam valer os direitos conquistados pela Constituição de 1988, luta dos movimentos sociais que ficaram na clandestinidade por mais de 20 anos.

Márcia Machado: Na atual conjuntura política e econômica do país, me parece que os movimentos sociais que outrora tomaram as ruas, hoje estão retraídos. Como a senhora analisa esse momento?

Maria Sirlei: Compartilho da mesma ideia, parece que eles sumiram.  Onde estão os movimentos sociais? Eu acho que agora é a hora de revivê-los novamente, de nova organização, pois estão começando a mexer nos nossos direitos e no momento em que mexem nos direitos dos trabalhadores é momento de reorganizar sindicatos e associações e retomar a luta, do contrário, corremos o risco de estarmos vivendo um retrocesso de direitos, e, provavelmente entraremos numa ditadura moderna, ou, outra forma de ditadura, talvez mais cruel.

“ […] estão começando a mexer nos nossos direitos e no momento em que mexem nos direitos dos trabalhadores é  momento de reorganizar sindicatos e associações e retomar a luta…”

Márcia Machado: Como a tua profissão pode ser educadora?

Maria Sirlei: Estamos vivendo uma revolução no Direito e se não modernizarmos a nossa profissão e não levarmos informação as pessoas, corremos o risco de sermos afastados da sociedade.

Márcia Machado: As pessoas estão muito individualistas hoje, mas pela sua fala, o que se percebe é que deve haver um movimento contrário na busca de direitos em grupo?

Maria Sirlei: Com a democracia as pessoas tiveram uma falsa ilusão de que os direitos estavam garantidos e aí as pessoas se individualizaram, cada um buscando o seu direito. Hoje, o sentimento que se tem é que precisamos voltar a nos unir, através das nossas redes sociais mesmo, organizando grupos por afinidades para discutir a garantia de direitos.

Márcia Machado: A grande discussão hoje é a efetivação de direitos e a humanização do sujeito. Como avalia essa questão?

Maria Sirlei: O grande desafio hoje é as pessoas voltarem a lutar por categorias ou associações porque é nesse sentido que estão perdendo seus direitos. Elas (as pessoas) só vão perceber que precisam das outras pessoas, quando se sentirem sozinhas e começarem a perder seus direitos. Nós advogados, se não nos acordarmos e lutarmos pelos direitos dos advogados como trabalhadores da justiça,  corremos riscos de sermos excluídos da sociedade, porque de repente a sociedade pode entender que não precisa de trabalhos jurídicos, porém, a justiça só existe se tiver um advogado para fazer a defesa das pessoas ou dos grupos.

“Elas (as pessoas) só vão perceber que precisam das outras pessoas, quando se sentirem sozinhas e começarem a perder seus direitos”.

Márcia Machado: Quais os desafios da sua profissão?

Maria Sirlei: A nossa profissão de advogado é muito individualista, o maior problema é a individualização. Eu me preocupo com o meu problema e não com o do meu colega, nós não lutamos por direitos iguais dentro da nossa profissão. Existem grupos de advogados ligados a movimentos sociais, mas não grupos que defendam os trabalhadores da justiça, que defendam melhores condições de trabalho. Existe uma Ordem de Advogados (OAB), mas não uma associação de advogados.

Márcia Machado: Na atual conjuntura política como a senhora avalia essa crise envolvendo os poderes?

Maria Sirlei: È um grande problema que nós temos no país, aliado a falta de ética, não só dos políticos, mas do povo brasileiro.

“As pessoas criticam os políticos, o legislativo, o executivo, o judiciário, mas a própria sociedade tem como cultura a corrupção. Ainda se valoriza muito o corrupto e a ética é uma exceção”.

Temos que mudar isso, é uma questão de educação, se nós não educarmos nossos filhos, nosso alunos, as crianças e adolescentes para a  honestidade como algo normal e natural,  nós não vamos mudar o país. Na situação que está muda de “A” para “B” e a corrupção vai continuar porque o sistema está corrompido. Nesses 30 anos de democracia deveríamos ter investido mais em educação para fazer mudança na cultura, na mentalidade e na vida  das pessoas, o que não aconteceu. Esta crise é justamente para pensarmos para onde vai o país, para onde vai a sociedade.

“Se nós não educarmos nossos filhos, nossos alunos, as crianças e adolescentes para a  honestidade como algo normal e natural,  nós não vamos mudar o país”

Márcia Machado: A senhora acredita que essa mudança ética, a qual se refere, passa pela educação?

Maria Sirlei: Com certeza, porque não tem outro jeito, se nós não mudarmos nossa mentalidade, e voltarmos para uma nova ética, estaremos correndo o risco de mantermos esta sociedade como ela está. É preciso que as pessoas mudem e queiram tal mudança em todas as esferas. E isso passa pela educação.

Márcia Machado: Uma frase para definir a missão de sua profissão na sociedade.

Maria Sirlei: Nós somos os buscadores da justiça, os buscadores do direito.  Sem advogados, não existe justiça!

Educação em Direitos Humanos: aprendendo juntos a construir processos

capa_educacao_ifibe_capa1“Educação em Direitos Humanos: aprendendo juntos a construir processos” é uma obra coletiva que apresenta posicionamentos e subsídios para refletir e debater sobre educação em direitos humanos.

É fruto da construção coletiva e da elaboração individual. Uma e outra se expressam em textos autorais escritos individualmente por cada integrante do Grupo de Estudo e Pesquisa sobre Educação em Direitos Humanos (GEPEDH) e também por um texto escrito pelos integrantes do Grupo que registra uma leitura da trajetória realizada nos dez anos de atuação.

Entrevista com integrantes do GEPEDH em programa do CMP Sindicato de Passo Fundo, RS

A principal pretensão da obra é colaborar com a construção de práticas de educação em direitos humanos nos vários ambientes educacionais.

A conjuntura geral e de direitos humanos é de retrocesso, põe-se numa posição que afirma a importância e a necessidade de seguirmos acreditando em novas possibilidades que somente se tornarão realidade se houver o engajamento organizado para sua efetivação.

Por isso, se soma às vozes que seguem acreditando que a educação em direitos humanos faz sentido como insumo à luta pelo respeito à dignidade e pela efetivação dos direitos humanos para TODOS e TODAS.

Vídeo que aborda Educação e Direitos Humanos

O Grupo de Estudo e Pesquisa sobre Educação em Direitos Humanos (GEPEDH), de quem o livro é o registro celebrativo de dez anos, é uma iniciativa interinstitucional da Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo (CDHPF), do Instituto Superior de Filosofia Berthier (IFIBE) e da Faculdade de Educação da Universidade de Passo Fundo (FAED/UPF).

Participam pesquisadores/as e educadores/as com atuação em diversos ambientes educacionais nos quais desenvolvem práticas de estudo e pesquisa sobre educação em direitos humanos. Foi criado em 2006 e atua ininterruptamente neste tema com atividades locais, estaduais e nacionais. Conheça as produções do Grupo, especialmente o livro Textos referenciais para a educação em direitos humanos.
Segundo Solon Eduardo Annes Viola, professor da Unisinos e grande incentivador do GEPEDH, que é o autor do Prefácio do Livro, diz que, “Educação em Direitos Humanos. Aprendendo juntos a construir processos disponibiliza mais uma contribuição relevante, tanto na descrição dos fazeres do Grupo de Estudo e Pesquisa sobre Educação em Direitos Humanos, como no pensar a prática educativa e a inserção social dos direitos humanos.

Vídeo que aborda Direitos Humanos nas escolas brasileiras

Sua importância se torna ainda mais significativa nos tempos em que vivemos. Tempos que exigem de educadores e militantes dedicados um compromisso intenso com a defesa da democracia como um processo permanente. Compromisso que se transforma em ação socialmente realizada em relação rigorosa e respeitosa com os outros na busca de que todos se transformarem em sujeitos de si e da sociedade na qual vivem. Por estas razões este livro é significativa contribuição ao tema dos direitos humanos e da educação em direitos humanos e, por certo, irá colaborar na abertura de novos campos do conhecimento, trará novas questões e contribuirá decisivamente para aperfeiçoar nossa democracia, tão frágil e necessitada de cuidados que só a sociedade em movimento poderá prestar”.

Interessados/as podem adquiri-lo em www.ifibe.edu.br/editora

Um grande discurso, numa grande formatura de adolescentes, numa escola de ensino fundamental

Formaturas de adolescentes do ensino fundamental são oportunidades para revelar saberes que humanizam a vida de estudantes e professores e anunciar o protagonismo que poderá mudar a vida dos mesmos.

Prezada diretora. Prezados docentes, discentes, familiares, amigos, e meus amados e inesquecíveis afilhados.

Há coisas na vida que não se repetem. São sempre como se fora a primeira vez. Ser paraninfo de uma turma como a de vocês é uma delas. A alegria profunda que senti quando fui convidado é um momento único. Gostaria de dizer a vocês nesta hora algumas coisas que talvez possam ajudá-los a viver uma vida boa, uma vida de sonhos, uma vida feliz.

Uma das grandes, senão a maior característica da juventude, é a curiosidade intelectual que impulsiona vocês a descobrirem-se a si mesmos e ao mundo à sua volta.

Nesta etapa da vida estudantil, devem-se observar as profissões mais promissoras, mas, para que sua escolha seja definitiva, a orientação de todos nós, os chatos… pais, mestres e direção é preponderante, embora todos devamos ter a compreensão necessária e a paciência madura de também ouvi-los em seus anseios e sonhos…

Se há uma coisa legal da idade de vocês é o sonhar.

Se há uma coisa que gosto em mim é sempre me perguntar “o que vou ser quando crescer?” Nunca deixem de fazer isso, de pensar no futuro, de sonhar.

Eu e meus colegas aqui presentes, passamos com vocês bom período de trabalho e de vida. Foram anos seguidos, ou seja, quase um terço da vida de vocês, bastante tempo.

Quero aproveitar e dizer, então, que assim como o marceneiro pisa em cima de serragens e o vidraceiro trabalha com pedaços de vidro, o educador mexe com as almas. É assim que eu e todos os outros professores desta escola sempre enxergamos vocês. Nunca como um número ou como um dado estatístico, mas sim como uma alma a quem se deve tratar com respeito, mostrando um caminho para que vocês possam fazer as escolhas certas, pois viver corretamente implica em ter atitudes consequentes no que se refere ao individual, ao familiar, ao comunitário e ao universo.

Quatro anos juntos me permitem dizer hoje que conheço um pouco de cada um de vocês; alguns com mais propriedade.

Há entre vocês alguns menos curiosos pelo conhecimento. Outros, muito curiosos por novos e constantes desafios diante dos quais nos esforçamos sempre para colocá-los em todas as áreas do conhecimento.

Levo comigo muitas lembranças de trabalho, de contos, de piadas, de alguns momentos alegres e algumas broncas, pero no muchas. Tenho certeza que todos deixam no Ensino Fundamental uma marca.

Algumas, verdadeiras pegadas, porém, todos uma grande lembrança. Acima de tudo, tenho a certeza que a chama do amor e amizade tocou cada alma aqui presente. Alguns de vocês ainda não perceberam isso ao certo, mas sei que um dia perceberão que ela arde dentro de seus corações.

Queridos afilhados, vocês acabaram uma importante etapa da vida escolar e novos caminhos virão pela frente. Mas lembrem-se do seguinte: vocês deverão zelar pelo bom nome de cada um de vocês e ter a coragem de assumir novos desafios.

Trilhem por seus próprios caminhos, almejem o topo e arrisquem, acreditem e invistam nos seus sonhos e nunca deixem de ser felizes.

“Sonhos não foram feitos apenas para serem sonhados, mas para serem vividos e também realizados.”
(Marcella Nicolini Furtado)

“Se lutarmos todos os dias para realizar nossos sonhos, não sobrará tempo para pensar em derrota.”
(Paola Rhoden)

A história do fazendeiro, do capataz e do cavalo machucado

Conta-se que um fazendeiro, que lutava com muita dificuldade, possuía alguns cavalos em sua fazenda.

Um dia, o capataz lhe trouxe a notícia de que um de seus cavalos havia caído em um poço muito fundo e seria difícil tirar o animal de lá. Avaliando a situação o fazendeiro chamou o capataz e ordenou que sacrificasse o animal soterrando-o ali mesmo. O capataz e seus auxiliares começaram a jogar terra, no entanto, a medida que a terra caía sobre seu dorso, o cavalo se sacudia e a derrubava no chão e pisava sobre ela.

Logo, os  homens perceberam que o animal não se deixava soterrar, mas, ao contrário, estava subindo à medida que a terra caía, até que, finalmente conseguiu sair. Está terra pode ser uma crítica para você, não despreze, então quanto mais terra jogarem em você lembre-se que estão fazendo você subir.

Olhem para seu futuro

Sonho e desejo a cada um de vocês o maior sucesso no Ensino Médio mas, em especial, na vida. Que sejam mulheres e homens valorosos e bondosos para que seus pais, de sangue e de afeto aqui presentes, e todos a sua volta, possam ficar sempre orgulhosos pela contribuição que cada um de vocês fará, com certeza, no lugar onde se encontrar. Uma carreira de sucesso é feita de sucessivos recomeços. Vocês não estão terminando, vocês vão recomeçar.

Meus queridos afilhados: não se esqueçam de serem felizes. Lembrem-se que a felicidade tem mais a ver com atitudes do que com circunstâncias. Voem alto, mergulhem fundo, encontrem o próprio caminho.

Não tenham medo de tentar, de recomeçar, de insistir. O maior naufrágio é não partir.

Um grande navegador disse: eu me despeço de vocês. Vão em paz. Sejam bons, justos, afetuosos e tolerantes. Com gentileza e bom humor. O mundo os acolherá.

Como sempre disse, bom final de semana e levem junto o juízo.

Muito obrigado e, novamente, o maior sucesso para vocês!”

 

Altenor Mezzavila, professor de língua portuguesa da rede municipal de Passo Fundo.

Projeto Valendo Nota: Musicalidade na Universidade

O projeto “Valendo Nota! Musicalidade na Universidade” nasceu de uma parceria entre a Universidade, por meio da Vice-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários (VREAC), e a Patrulha Escolar do Núcleo de Policiamento Comunitário da Brigada Militar. Suas atividades foram marcadas pela promoção de oficinas de dança, judô, capoeira e slackline, além de atividades de arremesso ao alvo, puxa corda, brincadeiras antigas, entre outras. As ações foram desenvolvidas com o apoio do projeto de extensão Polo Regional de Desenvolvimento de Esporte e Lazer da Faculdade de Educação Física e Fisioterapia (Feff). Ao longo do segundo semestre de 2016, quatro encontros foram marcados pela realização de oficinas de música e pela apresentação dos grupos artísticos Big Band Comunitária, Grupo de Choro e Grupo de Percussão, projetos de natureza extensionista da Universidade de Passo Fundo.

valendo_nota_upf_02O projeto Valendo Nota foi instigado pelo Núcleo de Policiamento Comunitário, que mantém parceria há algum tempo com a Universidade, e tem como objetivo promover uma cultura de paz nas escolas. As atividades tiveram como elemento norteador a ludicidade e garantiram momentos de lazer e recreação. A intenção foi tornar as tardes prazerosas e mostrar para os alunos participantes que a UPF é um espaço comunitário, onde é possível usufruir, por meio dos projetos de extensão, do conhecimento construído academicamente.

Nos encontros, que tiveram um público acumulado estimado de 300 crianças, os alunos foram recepcionados por palhaços, que fizeram os pequenos dançar e cantar, em momentos de recreação. Os alunos percorreram um trajeto organizado pelo Polo “UPF Caminho da Alegria”, com obstáculos geométricos, e participaram de uma série de oficinas, no Centro de Eventos, no Portal das Linguagens e na área externa.

valendo_nota_upf_01O projeto Valendo Nota foi instigado pelo Núcleo de Policiamento Comunitário, que mantém parceria há algum tempo com a Universidade, e tem como objetivo promover uma cultura de paz nas escolas. Nesse sentido, a UPF tem como propósito proporcionar a essas crianças um universo diferente e alternativas de não violência. A estudante Emanuelle de Lazari, 10 anos, aluna do quarto ano da Escola Benoni Rosado, informou que se divertiu muito durante o evento. “Achei todas as atividades legais, mas a que mais gostei foi o judô. Aprendemos muitas coisas sobre esse esporte. Nos divertimos bastante. Pra mim, essa tarde significou muita alegria”, revela.

O encerramento do projeto ocorreu juntamente com a formatura do Proerd da Brigada Militar, no dia 2 de dezembro. O coordenador do Núcleo de Policiamento Comunitário de Passo Fundo, Tenente Daisson de Andrade da Silva, enfatiza que “essa atividade foi um momento de promover uma tarde de entretenimento para os alunos. O único requisito para participar foi o bom comportamento. Realizamos, durante todo o ano, um trabalho de prevenção contra a violência, por meio de palestras e atividades de integração na escola. Queremos que essas crianças cultivem a paz”, pontua.

Coro e Orquestra Infanto-juvenil da UPF

A Vice-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários da Universidade de Passo Fundo, por meio da Divisão de Assuntos Comunitários, tem sob seus cuidados o Projeto Coro e Orquestra Infanto-Juvenil.

A formação dos grupos trouxe como objetivos capacitar crianças para a música através de aulas de musicalização, técnica vocal, prática de canto coral e prática instrumental com repertório eclético, no qual são abordados temáticas lúdicas até temáticas reflexivas, além de dificuldades musicais que visam a evolução técnica e cultural dos integrantes do grupo.

Cantar e tocar em grupo, subjacente aos aspectos musicais mencionados, está o trabalho em equipe no qual as pessoas são inseridas em um processo que busca o entendimento e o respeito pelo próximo. As crianças se ligam entre elas porque fazem parte de um mesmo grupo, onde precisam aprender a respeitar as aptidões naturais dos colegas e as individualidades, bem como dividir responsabilidades, erros e acertos.

orquestra_upfO projeto é mais que uma ação comunitária da Vice-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários. Trata-se de uma ação que demonstra o quanto a Universidade de Passo Fundo acredita no poder transformador da música e na capacidade de envolver e desenvolver o universo onde é inserida. Acredita-se que desenvolver o projeto com o público infanto-juvenil é plantar sementes que germinarão e impulsionarão o crescimento intelectual e social dos cantores e instrumentistas.

Crianças de seis a dezesseis anos têm a oportunidade de participar nas oficinas de Canto Coral, Musicalização, Violino, Violão e Flauta em encontros semanais. São crianças da rede pública de ensino, crianças da ONG Amor e filhos de funcionários da instituição.

No segundo ano de execução, o projeto está sob o olhar atento dos professores que ministram aulas e o retorno já começou a aparecer e apresentações já estão acontecendo com uma média de cinquenta crianças. Para 2017, a Vice-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários pretende ampliar o número de participantes e fortalecer as ações musicais, buscando fomentar o coro e orquestra com apresentações em conjunto.

Assim, o projeto não estimula somente a prática musical, mas também o exercício da cidadania e o desenvolvimento intelectual. Acima de tudo, no entanto, oportuniza uma nova perspectiva de vida para as crianças integrantes das oficinas de música, pois enquanto estão fazendo música são agentes transformadores de suas realidades e também daqueles que os assistem porque música toca direto nos sentimentos de quem escuta. E quando executada por crianças esse toque aumenta e impulsiona a ver o mundo com melhores possibilidades de alegria e boa convivência.

Escrito por Maestro Ademir Camargo e Professor José Carlos Gheller.
Fotos: Assessoria de Imprensa UPF

Crianças: pequenos guardiões de uma história – Victória Holzbach

O convívio com as crianças revela a simplicidade. Nossa esperança é que o futuro destes pequenos seja num mundo onde tenham direito à ternura e alegria, à saúde e escola, ao pão e à paz, ao sonho e beleza.

O dia nem bem amanhece e a trilha sonora já começa. O repertório se resume em quatro nomes, entre eles, o meu. Assim segue a cada hora. À tarde ou a noite, os pequenos curiosos me relembram a todo instante a forma como meus pais decidiram chamar-me.

Em dois meses, já é possível saber quem está lá a gritar com tanto ardor. A primeira impressão é que precisam de algo, mas depois não é difícil compreender para que vieram. Sua missão – daquelas que a gente assume sem nem bem saber – é reafirmar em mim minha identidade, aquilo que sou, que me forma e que me trouxe até aqui. O nome, o meu nome, em sua boca, ganha novo sentido.

Lembro, no tempo da catequese, ter aprendido que um dos mandamentos avisa para não falar o nome de Deus em vão. Se Ele gosta ou não que o chamem toda hora, para coisas importantes ou nem tanto, não sei.

“Na minha humanidade, aprendi que quando estas crianças chamam meu nome não existe acaso nem vazio.”

Em casa há pouco para fazer. Não há caixa de brinquedos, carrinhos, bonecas, vídeogames, televisão ou tecnologias. Brinquedo é aquilo que se acha na rua, se (re)constrói, se (re)cria. As crianças que vão à escola são poucas e as motivações para irem menores ainda.

“A falta de habilidade para o diálogo mora em nós, adultos: deixamos de saber lidar com a infância que sobrevive dentro de nós. Mais grave ainda: temos medo de revisitar essa criança que subsiste no nosso íntimo.” (Mia Couto)

 

Assista interpretação Contos de Mia Couto:

Encontrá-los no portão ou na rua diariamente é ter a oportunidade de, na simplicidade dos gestos e dos olhares, ajudá-los a descobrir uma nova realidade. Mais que isso, este encontro é também porta para o seu mundo. Lá se brinca de correr com pau e rodas, se constroi carrinhos com palhas de milho e papagaios com sacolas velhas.

Em Moçambique, os pequenos também são guardiões dos maiores tesouros. Tratam de perpetuar a cultura e a língua makua na graça da fertilidade de suas mamás.

As meninas não precisam crescer muito para já ajudar a manusear o pilão e buscar água para a casa. Os meninos, que também não tardam a ajudar suas mães, são também responsáveis por cuidar dos rebanhos – algumas vezes de gado, mas em sua maioria, de cabritos.

No convívio com as crianças se sente a vida pulsar intensa na simplicidade. Nossa esperança é que o futuro destes pequenos seja em um mundo onde tenham direito à ternura e  alegria, à saúde e escola, ao pão e  paz, ao sonho e beleza.

Por uma cultura médica mais doce e mais generosa

J.J. Camargo, médico e escritor se diz especialista em gente, mas está mais para médico de almas. Com uma sensibilidade humana impressionante, retrata em seus textos histórias vividas por seus pacientes com um olhar que  desnuda a alma humana.

Chegamos à penúltima entrevista do ano da série Profissões Educadoras do ano de 2016 e tenho satisfação  de apresentar-lhes  o médico cirurgião,  professor e escritor: J.J.Camargo.

Ele se diz especialista em gente, porém, me atrevo a dizer que ele é um médico de almas. De uma sensibilidade humana impressionante, retrata em seus textos histórias vividas por seus pacientes com um olhar que  desnuda a alma humana,  de tal forma, que passamos a rever nossos conceitos sobre doença, vida e morte. Mais que salvar vidas, toca corações e acalenta almas. Qual a técnica? Generosidade, a virtude de quem compartilha por bondade.

Márcia Machado: Quem é J.J. Camargo?

J.J. Camargo: Jose J. Camargo é  um cirurgião de tórax, professor de cirurgia da UFCSPA, diretor do Centro de Transplantes da Santa Casa, Diretor de Cirurgia Torácica da Santa Casa, pioneiro em transplante de pulmão na America Latina e responsável por dois terços dos transplantes de pulmão feitos até hoje no Brasil. Foi a primeiro a realizar transplante de pulmão com doadores vivos fora dos EUA. É membro titular da Academia Nacional de Medicina e cronista semanal de ZH.

Márcia Machado: O Sr. se diz  especialista em gente? Por quê ?

J.J. Camargo: Trabalhar com pessoas é uma requintada prática de humanismo. Se estas pessoas forem pacientes, mais ainda. Porque os médicos convivem, diariamente, com criaturas autenticadas pelo sofrimento, pois na doença, ninguém tem  tempo ou ânimo para impressionar ninguém. O paciente é, por definição uma pessoa a verdadeira, transbordando autenticidade no seu medo de morrer. Por isso é possível, nesta circunstancia, conhecer profundamente uma pessoa depois de poucos dias de convívio, e este é um trunfo para o medico se tornar o que chamo de “especialista em gente”.  Se depois de 10 anos de formado, o médico ainda não alcançou esta condição invejável, só tem uma explicação: ele não tem sensibilidade para explorar esta matéria prima maravilhosa que é o ser humano desnudado de todas as vaidades e miudezas.

“[…] na doença, ninguém tem  tempo ou ânimo para impressionar ninguém.”

Márcia Machado: A medicina avançou muito, os profissionais estão cada vez mais técnicos, porém muitas vezes o paciente só quer ser ouvido. Tá faltando humanização na medicina?

J.J. Camargo: Se os médicos sabem muito mais dos que seus antecessores, mas os pacientes idosos falam com nostalgia dos médicos de antigamente, sem dúvida em algum ponto do percurso, esta geração moderna perdeu o compasso.  Alguns equivocadamente põem a culpa no excesso de tecnologia. Isto é uma bobagem. Nós devemos querer mais e mais tecnologia, não menos, porque estas conquistas contribuem muito para qualificar imensamente a medicina moderna. O que não podemos permitir é que a tecnologia substitua o humanismo da relação medico paciente, que sempre será  uma relação entre dois seres  humanos: um que tem um problema e outro que foi treinado para ajudá-lo na solução. O afeto que surge espontaneamente deste encontro, sempre  proporcional à intensidade do sofrimento do paciente, é uma das coisas mais maravilhosas dessa profissão.

 “O que não podemos permitir é que a tecnologia substitua o humanismo da relação médico paciente…”

Márcia Machado: Como a  relação médico paciente pode influenciar na recuperação do doente?

JJ Camargo: A experiência  médica ensina que o medo da doença é uma forma multiplicada de se adoecer.  A segurança que o médico possa transmitir, é uma parte fundamental do tratamento. Transmitir esta segurança com mensagens confiantes e otimistas,  constitui  a nobreza da tarefa médica que deve  misturar  ciência e arte.

O exercício médico qualificado envolve a disponibilidade de ouvir, o jeito de dizer o que o paciente precisa ouvir, a oferta incondicional de parceria e a preservação da esperança.  Sem estes requisitos, o atendimento médico se confunde com uma relação interpessoal comum, o que de nenhuma maneira satisfará quem está  fragilizado pela doença e terrificado pela ameaça da morte.

Márcia Machado: O Sr. fala  em morte digna, de que forma se daria esse processo no seu entendimento?

J.J. Camargo: A ideia da morte digna passa pela noção fundamental em medicina que se chama cuidados paliativos. A propósito, a palavra palium (de paliativo)  vem do latim e quer dizer manto, cobertor, tal como o que se ofertava aos guerreiros das cruzadas para protegê-los do inverno e do medo.

Na batalha final, a primeira intempérie a ser enfrentada é o sofrimento físico, e aqui uma observação fundamental: nesta condição, toda queixa deve ser encarada como urgência. Nada mais incompreensível, por exemplo, que um paciente moribundo  gemente de dor, num hospital.

Depois, temos que aplacar o sofrimento emocional com seus desdobramentos, familiar e espiritual, e entender que nunca estamos prontos para partir e, portanto, este é também um tempo de reconquistas apressadas, de restaurações afetivas urgentes, de confissões intransferíveis e, sempre e muito, de perdão. Propiciar a alguém que está morrendo a oportunidade de perdoar e ser perdoado, é uma apoteose de humanismo e generosidade.  O médico que consegue se oferecer como parceiro neste transe, apesar da vontade natural de sair correndo, está içando a arte médica a uma dimensão superior.

Se contribuirmos para que o nosso paciente transponha este umbral, tão triste quanto inevitável,  mas  sem dor, sem falta de ar, sem remorso e sem culpa,  concluiremos que a Prof. Ana Claudia Arantes tinha razão quando ensinou que a morte pode ser um dia que valha a pena viver.

“Se contribuirmos para que o nosso paciente transponha este umbral, tão triste quanto inevitável,  mas  sem dor, sem falta de ar, sem remorso e sem culpa,  concluiremos que a Prof. Ana Claudia Arantes tinha razão quando ensinou que a morte pode ser um dia que valha a pena viver”

Márcia Machado: Enquanto professor, como o Sr. trabalha essa  humanização médico/paciente com seus alunos?

J.J. Camargo: Há muitos anos, no final de cada uma das 18 aulas que ministro a cada grupo de estudantes que passa pela cirurgia torácica na Faculdade, eu incluo um slide que relata uma situação objetiva da relação medico paciente e a partir daí discuto com JJ Camargo: a estratégia da simulação. Por exemplo, eu sou o paciente e vocês, alunos “vão me explicar o que tenho” ou “porque eu devo fazer uma biópsia” ou uma tarefa terrível, vocês “vão me contar que meu pai morreu!” Eles ficam literalmente em pânico porque ninguém ensina a arte de ser médico. O treinamento na maioria das escolas médicas é deficiente: limitado a fazer diagnóstico e prescrever tratamento, torna a medicina muito  pobre na relação com o paciente angustiado e sofrido.

“O treinamento na maioria das escolas médicas é deficiente: limitado a fazer diagnóstico e prescrever tratamento, torna a medicina muito  pobre na relação com o paciente angustiado e sofrido.”

Márcia Machado: O que o levou a escrever? Soube que no início de sua carreira o Sr. se correspondia por cartas com seu irmão em Vacaria, nas quais relatava fatos ocorridos com seus pacientes, isso procede?

J.J. Camargo: A verdade é que a gente, naquela época trocava muitas cartas, não tanto pelo prazer de escrever, mas porque era a única maneira de comunicação disponível. Mas eu sempre gostei de escrever. E escrevi irregularmente  para jornais, sempre movido por alguma ideia nova ou, mais frequentemente, por alguma indignação.

Quando fui convidado para ocupar o espaço que Moacyr Scliar manteve em Zero Hora  durante muitos anos, fiquei assustado porque nunca tinha escrito com  agenda,  e o compromisso num primeiro momento me angustiou, mas depois descobri que exatamente ter o compromisso de uma crônica semanal, me deixava muito mais atento, porque a rigor qualquer motivação original pode justificar uma crônica.

Meu entusiasmo cresceu quando vi nesta tarefa a oportunidade de tentar dar a minha modesta contribuição para humanizar a prática médica, e a julgar pelo número de convites que tenho recebido para falar em entidades médicas, faculdades e academias, ficou claro que as pessoas perceberam que este é um assunto que estava a descoberto.

Márcia Machado: O que a literatura e medicina têm em comum?

J.J. Camargo: O que aproxima a literatura da medicina é o compartilhamento de um território comum em que ambas lidam com a condição humana, a dor, o desespero, a esperança e a morte, como o fim da espera.  O escritor e o médico dependem da palavra, instrumento de criação estética  de um, e arma poderosa do outro. A mesma palavra que o escritor esculpe na busca da frase mais pura é a que expressa o sentimento sofrido do enfermo, e que dá a chance a que o médico juntando os pedaços de suas queixas construa a anamnese que, do grego, significa o antiamnésia, o que não se esquece, a recordação. E essas palavras constituirão o primeiro registro escrito de uma relação que começa com uma investigação sumária das possibilidades diagnósticas e passa a fazer parte do prontuário do paciente, um arquivo pessoal, indevassável e permanente.  Com a palavra o médico, desde sempre, ofereceu solidariedade, esperança e consolo quando mais não havia a ser oferecido. E os prontuários, como os livros, guardam palavras que se eternizam.

“O escritor e o médico dependem da palavra, instrumento de criação estética  de um, e arma poderosa do outro.”

A literatura sempre encantou aos médicos porque eles, que trafegam na emoção, perceberam que sublimar um sentimento através da palavra é um dom dos curadores de espírito, aqueles artistas que com sutileza dão graça à vida, enternecem os que sofrem, emocionam os rígidos e dão esperança aos desvalidos.

Márcia Machado: Seus livros oferecem crônicas sobre  os dramas, as dores, mas também alegrias e esperanças em relação aos seus pacientes. Qual o objetivo de relatar  tais histórias?

J.J. Camargo: Mostrar o quanto somos desatentos com o sofrimento dos outros e o quanto a atitude alienada funciona como um poderoso instrumento de aversão. Não há nada que afaste mais duas pessoas do que a desconsideração no sofrimento. Podemos esquecer um favor, mas uma desconsideração, jamais.

As histórias cuidadosamente narradas, de modo a preservar a identidade dos pacientes, e a confidencialidade do atendimento, que é um direito intransferível de todos, são exemplos vivos que ajudam a construir uma cultura médica mais doce e mais generosa. Num tempo em que a mídia inunda, diariamente, as nossas casas com enxurradas de desamor, o relato de histórias doces e generosas, é um contraponto merecido. Se não, caímos no risco de acreditar que a sociedade está em degeneração, e isto é impossível, porque sempre que a curva comportamental começa a se inclinar para o mal, nasce uma geração nova que nos resgata porque nós todos nascemos bons. E  verdade  que quando começamos a piorar, não paramos mais, mas nascemos bons. E este recomeços é que nos preservam como seres sociáveis  intrinsecamente bons.

“Num tempo em que a mídia inunda, diariamente, as nossas casas com enxurradas de desamor, o relato de histórias doces e generosas, é um contraponto merecido.”

Márcia Machado: O Sr. esteve na Feira do Livro em Passo Fundo, onde contou um pouco sobre seu novo livro. Como é ter esse contato direto com o leitor?

J.J. Camargo: Ouvir o que as pessoas pensam e como se expressam em relação ao que escrevemos é uma  delícia, especialmente pela riqueza dos tipos que atraídos pelo fascínio da leitura viajam pelo imaginário, e constroem versões inacreditáveis a partir da ideia que passamos. É sempre muito divertido e didático, além de mostrar a grande responsabilidade que temos como formadores de opinião.

Márcia Machado: O Sr.  lançou mais um livro. Pode nos falar sobre a obra?

J.J. Camargo: Este é meu quarto livro de crônicas e o  terceiro livro de crônicas  desde que comecei a escrever regularmente no Caderno Vida de ZH, em dezembro de 2011.  Uma parte das crônicas foram publicadas no Jornal, outras são inéditas. Este livro não tem a pretensão da autoajuda, nem a fantasia  de ensinar ninguém a viver melhor. Ele tem sim a esperança de despertar nos leitores a percepção do quanto é egoísta o nosso modelo de convívio com as necessidades dos outros. Esta consciência nos tornará  pessoas socialmente mais solidárias  e eticamente mais generosas. Porque, como ensinou Kant, a moralidade não é a doutrina de como fazer  para ser feliz. É antes a doutrina do que você deve fazer para merecer a felicidade.

“Ele tem sim a esperança de despertar nos leitores a percepção do quanto é egoísta o nosso modelo de convívio com as necessidades dos outros.”

Márcia Machado: Para encerrarmos, o que cabe no seu abraço?

J.J. Camargo: O QUE CABE EM UM ABRAÇO é  um livro de crônicas centrado  no exercício da medicina, mas não é um manual de sofrimento,  não pode ser. É antes uma mistura densa  dos nossos sentimentos mais  reveladores do que de fato somos.  Como ninguém tem chance de se preparar  para sofrer,  é também um festival de improvisações,  em que se misturam dignidade, covardia, coragem, hipocrisia, sinceridade,  desprendimento, resiliência,  pureza, doçura,  fingimento e  afeto, nesta grande salada de gestos e atitudes  que chamamos natureza humana.

O abraço é reconhecido com a mais simples e completa oferta de carinho e generosidade. Quando abrimos os braços para afagar alguém estamos trazendo-o para mais perto do nosso coração.

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