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A vida Ed Mort

Esse humor gráfico e escrito era o mesmo Veríssimo que eu via no bar: discreto, mas implacável. Quem não prestasse atenção perdia a piada, mas quem prestava sabia que ali estava uma filosofia inteira disfarçada de trocadilho.

Conheci o Veríssimo numa entrevista. Eu, nervoso, ele, calmo. Eu com perguntas afiadas, ele com respostas mansas — e sempre com aquele jeito de quem parecia estar imaginando outra coisa, mas estava, na verdade, pensando em tudo. Perguntei sobre Gula: o clube dos anjos, aquela confraria de amigos que se reúne para comer até a morte, literalmente. Ele respondeu com a filosofia mais simples e imbatível que já ouvi:

— O pior de ficar velho é não poder comer o que se gosta.

Ou seja, a morte não é tão grave quanto uma dieta.

Depois disso, vi o Veríssimo algumas vezes. Na Casa de Cultura Mario Quintana, nas reuniões da Grafar, e em outras ocasiões mais insalubres do que literárias, como no Tuti Giorni, na escadaria da Borges de Medeiros. Sempre em turma, sempre com a esposa junto. O ritual era parecido: cumprimentava todo mundo, trocava duas palavras, ficava quieto o resto da noite. Mas quieto daquele jeito que prestava atenção em tudo. Quem falava esquecia que ele estava ouvindo. Só que ele ouvia. E, pior, lembrava.

Uma vez, assisti a uma palestra dele sobre humor. Lembro bem de quando defendeu a ideia de abandonar aquelas piadas antigas, as que sempre tinham como alvo alguma minoria. “Não porque perderam a graça”, explicou, “mas porque nunca tiveram.” Propôs um humor novo, cheio de trocadilhos e desvios inteligentes. Era como se dissesse: se dá pra rir sem machucar, por que escolher o contrário?

Noutro dia, liguei para a esposa dele para pedir opinião sobre um conto. Ela me disse que o Veríssimo não podia atender, estava trancado escrevendo oito crônicas de uma vez. Oito. Porque iam passar a semana em Paris. Eu perguntei se ele não pensava em se aposentar. Ela riu e respondeu:

— Temos um filho que não sai de casa. O Veríssimo nunca vai se aposentar.

E nunca se aposentou mesmo: escreveu até o último gole de café.

A família Veríssimo sempre teve uma relação curiosa com casas. O seu pai Érico comprou uma no bairro Petrópolis, em Porto Alegre, nos anos 40. Não era mansão de escritor consagrado, era casa de Cohab — só que, naquela época, as casas populares eram tão bonitas que davam inveja nas casas “oficiais”.

A vizinhança incluía Dionélio Machado, comunista aguerrido que pagou caro por sua coragem: cadeia, tortura, esquecimento. Enquanto Érico era discreto, Dionélio enfrentava tudo de peito aberto. As famílias, apesar das diferenças de destino, compartilhavam pequenos rituais de vizinhança.

Dizem que os Machado gostavam de tocar clarinete e modas de viola na frente da casa, como se a calçada fosse palco. E havia ainda a caixa d’água da praça da esquina, que se transformava em balneário improvisado no verão: abriam as torneiras para todo mundo se refrescar. É possível que naquele banho coletivo tenha nascido mais literatura do que em muitas bibliotecas.

E, no meio disso tudo, o menino Luis cresceu lendo, ouvindo, olhando. Até que um dia, além das crônicas, começou a desenhar. Vieram As Cobras, filosofando de modo rastejante; e veio também o Ed Mort, um detetive particular que vivia mais de dívidas do que de casos, uma versão porto-alegrense de Humphrey Bogart em filme sem glamour. E, claro, o Analista de Bagé, que conseguiu transformar o divã em cadeira de barbeiro e a psicanálise em conversa de vizinho, com direito a chimarrão e um “mas bah, tchê” no lugar da interpretação freudiana.

Esse humor gráfico e escrito era o mesmo Veríssimo que eu via no bar: discreto, mas implacável. Quem não prestasse atenção perdia a piada, mas quem prestava sabia que ali estava uma filosofia inteira disfarçada de trocadilho.

Autor: Por Leandro Dóro. Também escreveu e publicou no site “Amazônia tupã”: www.neipies.com/amazonia-tupa/

Edição: A. R.

A paixão segundo Pilar

Eu não sigo a receita fácil de negar o novo. Muito pelo contrário. E, até pelo sentimento de dever, que me vejo obrigado, como membro da Academia Passo-Fundense de Letras, eu costumo prestigiar lançamentos de livros, adquirir exemplares e ler obras de escritores locais.

Jorge Luis Borges, nas inúmeras entrevistas que deu ao longo da vida, especialmente depois dos anos 1960, quando, tendo ficado cego, se valia dos olhos de terceiros para as suas leituras, não poucas vezes, declarou que escritores contemporâneos não deveriam ser lidos, e ele não os lia, pois, quando se faz isso, há o risco de o leitor ler a si mesmo, uma vez que, ao fim e ao cabo, todos os escritores de uma mesma época são parecidos.

Insistia que se deveria buscar escritores de outras épocas, pois ao se retroceder, séculos e mais séculos, até os clássicos gregos, se conseguiria ler gente muito diferente da gente e, só então, o novo apareceria. Há ironia nessa afirmação, por isso urge certa cautela para não se cair em tentação de interpretar literalmente a fala de Borges.

Há pessoas, e eu conheço algumas delas, que dizem não ler autores desconhecidos, pois, em meio à vasta oferta de obras de escritores famosos, não desperdiçariam o seu tempo lendo escritores menores.

Se todo mundo agisse nos moldes preconizados por Borges ou seguisse, ao pé da letra, àqueles que não se resignam a dispensar o mínimo de tempo para a leitura de obras assinadas por autores pouco conhecidos, como os novos escritores poderiam almejar um lugar no panteão da fama? Como, nesse tipo de ambiente, um autor desconhecido poderia ficar conhecido entre os seus contemporâneos?

Eu não sigo a receita fácil de negar o novo. Muito pelo contrário. E, até pelo sentimento de dever, que me vejo obrigado, como membro da Academia Passo-Fundense de Letras, eu costumo prestigiar lançamentos de livros, adquirir exemplares e ler obras de escritores locais.

E foi assim que, no começo da noite do dia 6 de junho de 2025, na sede do Sodalício das letras locais, tive o privilégio de assistir ao lançamento do livro “Atraídos pelo fogo”, da escritora Beatriz Maria Ecker.

Na ocasião, teve as falas do poeta Jorge Ventura, autor do prefácio do livro, do Professor Eládio Weschenfelder, o entusiasta, mentor e revisor da obra, e da escritora Beatriz Ecker, dando detalhes da sua história pessoal e de como o livro foi construído, uma vez que iniciado como conto terminaria como novela (um romance, talvez), além da presença, na cobertura do evento, do fotógrafo responsável pela imagem usada na capa do livro, seguidos pelos autógrafos, gentilmente distribuídos pela autora, e um coquetel de confraternização entre os presentes.

Desnecessário dizer, eu li o livro “Atraídos pelo fogo”. A leitura, posso assegurar, é agradável, os diálogos são fluidos, bem-construídos, o enredo e a história, especialmente da protagonista Pilar, instigam o leitor, em meio ao desfile de personagens masculinos de matizes variados, todos com um traço de fragilidade em comum (indecisão e/ou vícios), espera-se o desfecho, ainda que previsível, com certa ansiedade, diante das múltiplas possibilidades que poderiam ter sido exploradas pela autora.

Acesse esta entrevista com a autora: https://youtu.be/GE0tzEfolG8?t=17

Admito, foi por ter assistido à fala da autora e a dos demais que palestraram na sessão de lançamento do livro, que me foi facultado, ao ler a obra, não deixar de associar Pilar, a personagem, do alter ego de Beatriz, a autora, que a teria usado para se revelar, indiretamente, aos leitores mais atentos.

Tanto Beatriz, autora, quanto Pilar, personagem, são professoras; ambas escreveram livros de literatura infantil (Beatriz é autora de “O Mundo de Nander”, “Saltitando Poesia”, “Os dois Fusquinhas”, “Amigo não é coisa”, “Baú de segredos” e “Eu te conto…Entre um café e outro”); lecionaram na Serra Gaúcha (leia-se Bento Gonçalves); as duas tiveram um filho médico, que, desde a infância, foi aquilo que, ambas, chamariam de “seu porto seguro”; e, ainda que não se ignore tratar de uma obra de ficção, no enredo, há relações passionais suficientes para dar justificativa ao título “Atraídos pelo fogo”.

Tampouco, tem como dissociar o Curso de Pós-Graduação, feito por Pilar, na área de Leitura e Animação Cultural, em uma Universidade renomada, da UPF, e o exímio professor de Literatura e contador de histórias, Zeferino, como sendo o Professor Eládio Weschenfelder, que estimulou Pilar (Beatriz) a escrever o livro, para o qual lhe serviu de inspiração a forma como a sua avó Emma contava histórias.

Pilar, talvez Beatriz, nunca perdeu a esperança de encontrar um grande amor. Encontrou? Afinal, quem seria esse grande amor da vida de Pilar? Francisco, Ruan, Sebastian, Cláudio, Ronaldo ou o garboso bombeiro Santiago. Leia o livro para saber resposta. Eu, desde os primeiros capítulos, fiz a minha aposta. Inclusive, suponho, o escolhido estava presente na sessão de lançamento do livro.

Autor: Gilberto Cunha. Também escreveu e publicou no site “O cemitério das almas fracassadas”: www.neipies.com/o-cemiterio-das-almas-fracassadas/

Edição: A. R.

Vocação: um Chamado que Se Move no Amor

Ser vocacionado é ser enviado. É amar até o fim. É dar-se inteiro. É reconhecer que a própria vida só encontra sentido quando se torna dom. O amor vocacional não é romântico nem idealizado: ele é crucificado.

Agosto, na Igreja do Brasil, é o mês vocacional e está chegando aos seus últimos dias.

Um tempo sagrado de escuta e discernimento, onde a comunidade eclesial é chamada a contemplar o mistério das vocações à luz do amor de Deus que chama, envia e sustenta.

Celebrar o mês vocacional é, antes de tudo, mergulhar na própria essência da fé cristã: um Deus que continua a chamar homens e mulheres para serem sinal vivo do seu Reino no mundo.

Vocação é dom e resposta. Nasce do coração trinitário, onde o Pai, no Filho e pelo Espírito, gera continuamente vida nova. Cada vocação — seja ela laical, matrimonial, religiosa, sacerdotal ou missionária — é expressão concreta do amor de Deus que se derrama no mundo. Não se trata de um privilégio, mas de um serviço.

Não se trata de status, mas de entrega. A vocação verdadeira nasce quando o amor se torna movimento, quando a vida se deixa conduzir por um chamado maior do que si mesma.

Em um mundo ferido por guerras, divisões, miséria, desigualdade e solidão, a vocação é resposta concreta às dores e feridas abertas da humanidade.

Não é um chamado ao isolamento, mas à imersão. Deus não chama para tirar do mundo, mas para enviar ao mundo com o bálsamo do Evangelho.

É nesta lógica que o chamado de Jesus ganha força: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio” (Jo 20,21).

A vocação se realiza plenamente quando se coloca a serviço da vida, da justiça, da paz e da dignidade humana.

Vivemos tempos em que a Igreja é desafiada a ser cada vez mais “hospital de campanha”, como nos recordava o Amado Papa Francisco. E para isso, precisa de vocações que se movam — que não se acomodem, que não se contentem com uma espiritualidade estéril, mas que entrem no drama da história com os pés descalços e o coração ardente.

Uma vocação que apenas contempla, mas não age, está desconectada do Cristo que lavou os pés dos discípulos, curou os doentes, chorou com os enlutados e deu a vida por amor.

Ser vocacionado é ser enviado. É amar até o fim. É dar-se inteiro. É reconhecer que a própria vida só encontra sentido quando se torna dom. O amor vocacional não é romântico nem idealizado: ele é crucificado.

É amor que sofre, que sustenta, que reergue, que não desiste. É amor que vê as feridas do mundo e se compromete com a cura, mesmo que isso custe a própria vida.

Mas também é tempo de questionar: quem são aqueles que hoje se ordenam apenas para chamar atenção para si mesmos?

Quantos buscam no altar uma forma de segurança pessoal, prestígio social ou estabilidade emocional, enquanto famílias inteiras seguem ignoradas em suas dores, suas perdas, sua fome?

Quantos dizem “sim” ao chamado, mas vivem fechados em seus próprios castelos, alheios ao sofrimento real do povo de Deus?

Quantos são os que se escondem atrás de belas cantigas, roupas rendadas, shows de fé, igrejas lotadas que só sabem louvar, mas não se movem?

Não se trata de julgar a beleza do rito ou a riqueza simbólica da liturgia, mas de lembrar que vocação não é performance, não é vaidade religiosa, não é se colocar acima ou à parte, olhando de longe a luta diária contra a violência estrutural, a ausência de políticas públicas, o encarceramento em massa, o genocídio da juventude negra, a desigualdade que mata.

De que serve uma vocação que se recusa a caminhar ao lado dos “leprosos” de hoje — os excluídos, os marginalizados, os rejeitados pela moral religiosa e pelo preconceito disfarçado de doutrina?

Quantas vezes se diz “não sou capaz de estar com esse povo” quando, no fundo, o que existe é medo, comodismo e preconceito?

A vocação verdadeira não se mede pelo número de fiéis, pelo tamanho da paróquia, pela quantidade de eventos, mas pela capacidade de se fazer próximo, de abrir os olhos e o coração, de sujar as mãos na lama das realidades humanas.

A sociedade vive julgando e crucificando uns aos outros, inclusive dentro da própria Igreja.

Há quem carregue o nome de Cristo no peito, mas use a cruz como espada para ferir.

A vocação autêntica, ao contrário, não condena, mas acolhe. Não exclui, mas integra. Não aponta o dedo, mas estende a mão.

Por isso, neste mês vocacional, a Igreja é chamada a se ajoelhar em oração, mas também a se levantar em missão. Ainda é tempo — sempre é tempo.

A vocação não é algo fixo, parado, enclausurado.

É um chamado em constante movimento, que se atualiza na escuta de Deus e na resposta ao grito dos irmãos.

É espiritualidade encarnada, fé operante, esperança que não se cansa.

Que cada cristão redescubra a beleza do seu chamado pessoal. Que cada jovem se sinta inquietado por essa voz que ressoa no silêncio do coração.

E que todos, como Igreja em saída, sejamos testemunhas de que seguir Jesus é a aventura mais radical e transformadora que se pode viver.

Pois a vocação autêntica não é fuga, mas compromisso; não é privilégio, mas cruz; não é conforto, mas doação.

E é nesse movimento de amor — que se ajoelha para servir, que se debruça sobre os caídos, que grita por justiça e se recusa a se calar — que se revela o verdadeiro rosto da Igreja: missionária, samaritana, apaixonada pela vida e ferida pelas dores do mundo. 

Autora: Vera Dalzotto. Também escreveu e publicou no site “O sentido da vida é fazer sentido a outras vidas”: www.neipies.com/o-sentido-da-vida-e-fazer-sentido-a-outras-vidas/

Edição: A. R.

Considerações sobre a vida política na contemporaneidade

A característica humana de agir e reagir diante dos fatos, neste momento da história política, tornou-se intimidatória, atemorizante mesmo. Diante das circunstâncias desfavoráveis, os indivíduos se condicionam por sentimentos de ódio e violência, com vistas a destruir aquilo que os desagrada.

O mundo que construímos para habitar se reveste de características que nós produzimos, como valores. É possível que o estabelecimento desses valores nem sempre corresponda à expectativa de um mundo ético, no sentido de um mundo fundamentado no que é bom e livre do que é mau.

Estaríamos pensando em utopias irrealizáveis? Ou desenhando um mundo em que os humanos seriam somente pessoas virtuosas? 

Não se trata de fantasias ou contos de fada. Antes, trata-se do desejo de um mundo justo, cuja solidariedade possa ser construída.

O que percebemos é que o mal também habita o mundo, expresso nas ações humanas, cujos valores são construídos pelos sujeitos com seus desejos e contradições. Há necessidade de criarmos formas de superação desse mal e do fenômeno da violência, como decorrência imediata do mal, para que possamos redimensionar a perspectiva de um mundo ético, em que a liberdade e a igualdade sejam seus fundamentos.

A característica humana de agir e reagir diante dos fatos, neste momento da história política, tornou-se intimidatória, atemorizante mesmo. Diante das circunstâncias desfavoráveis, os indivíduos se condicionam por sentimentos de ódio e violência, com vistas a destruir aquilo que os desagrada.

A racionalidade humana tem como uma das características agir e reagir, utilizando mecanismos de aniquilamento e de destruição. Os fornos de Auschwitz não foram idealizados por alguém desprovido de racionalidade, mas por inteligências nas quais os sentimentos de solidariedade e alteridade estavam ausentes.

A tensão não resolvida entre racionalidade e barbárie, como traço cultural da espécie humana, ainda nos amedronta.

Sabemos que as conjunturas da governabilidade e do convívio na sociedade civil não carregam consigo os traços da inocência, desejando uma vida política equilibrada. Ao contrário, constata-se cotidianamente a intolerância e a ausência de solidariedade entre os humanos, na medida em que a beligerância se tornou soberba na sociedade, alimentando a competição entre os sujeitos. Tudo isso estimulado pela ideologia do progresso, que constrói uma corrida para saber quem é o melhor na olímpiada da história.

Talvez fosse permitido pensarmos que a crise ética, que assola o mundo, nos seus quatro cantos, produziu uma espécie de pessimismo persistente. Reflete de parte dos indivíduos o desinteresse e o descaso com a coisa pública, tanto em termos de participação na vida civil, quanto no âmbito da cidadania efetiva, cuja consequência resulta na ruptura do tecido social.

Vemos isso nos continentes em que os povos se fortalecem ou se aniquilam pela guerra contínua, na tentativa de impor um único pensamento, uma única verdade. Nas diferentes situações, constatamos a negação da alteridade, expressas em atitudes intolerantes e preconceituosas, que separam os bons dos maus, construindo muros, numa logica maniqueísta atrasada e absurda.

Os desafios atuais estão a exigir de nós compreensões dialéticas ampliadas, que fortaleçam a democracia para viabilizar a liberdade, condição de convívio inteligente na vida política da sociedade civil.

Os sujeitos sociais devem pactuar a vida digna, sem estarem reduzidos à esfera da escassez. Uma nova utopia? A utopia é o que nos diferencia dos outros seres da natureza, expressando nossa condição humana, nas esferas da racionalidade e da liberdade.

Autora: Cecilia Pires. Também escreveu e publicou no site “Sobre o ódio”:Sobre o ódio – Nei Alberto Pies

Edição: A. R.

Negacionismo: força destrutiva, inclusive negacionismo econômico

O negacionismo passou a ser uma pauta importante e seguida por várias pessoas, defendido muitas vezes de forma ferrenha por um grupo político, como sendo um valor fundamental. É uma força destrutiva que somente consegue prosperar na agitação e conflito permanente.

A negação da vacina surgiu recentemente – os anti-vacina. Até 10 anos atrás, o normal era a preocupação com as vacinas em dia. A negação da vacina é um exemplo evidente e fácil de ser compreendido, e comprovado, em relação aos efeitos danosos e destrutivos, pois pode levar à morte. 

Infelizmente a negação da vacina é apenas um fato dentro de um contexto maior – o negacionismo. Nega-se praticamente tudo, é a negação da vacina, negação da ciência, negação da terra redonda (discípulos de Olavo de Carvalho diziam que a terra é plana), negação da arte, negação do Novo Testamento (que revogou o Antigo Testamento), negação da política como instrumento de solução de divergências, e inclusive negacionismo econômico. 

O negacionismo passou a ser uma pauta importante e seguida por várias pessoas, defendido muitas vezes de forma ferrenha por um grupo político, como sendo um valor fundamental. É uma força destrutiva que somente consegue prosperar na agitação e conflito permanente.

Nas enchentes catastróficas do RS estamos vendo negacionistas espalhando desinformação, mentiras, Fake News. O negacionismo tem um objetivo: minar a confiança entre as pessoas. Os negacionistas, alguns sem se darem conta, são inimigos da democracia. Fica tão fácil de perceber o espírito anti-democrático dos negacionistas ao ver a defesa veemente ou velada que fazem das ditaduras militares, que torturaram e assassinaram pelo mundo afora.  

E o negacionismo econômico?

O negacionismo econômico é defender e acreditar que um Estado Mínimo vai gerar prosperidade para todos. O que temos de fatos e evidências para avaliar? Qual o país que mas cresce hoje em dia? Qual modelo de Estado foi adotado pelos países que cresceram?

Todos concordam que é preciso industrializar a cidade, o Estado, o País para gerar crescimento econômico. No caso do Brasil seria na verdade reindustrializar, porque o país já foi muito mais industrializado do que é hoje. 

Uma primeira questão seria avaliar por que o Brasil se desindustrializou a partir dos anos 1990. A partir de 90, foram os anos da abertura econômica, do dólar flutuante, do início das privatizações … que nos levaram à desindustrialização. É o famoso Consenso de Whashington, as “10 leis econômicas” do neoliberalismo, que já demonstraram ser um retumbante fracasso. 

Como explicar o espetacular crescimento da China desde os anos 1990? Pois justamente, a China não adotou as políticas neoliberais do Consenso de Washington, não adotou a “lei maior” do Estado Mínimo, que no outro lado da moeda é o Mercado Máximo. 

O negacionismo econômico é continuar “apostando” e implementando uma política econômica (Consenso de Washington, Estado Mínimo, privatizações …) que gerou desindustrialização. Também gerou meia dúzia de bilionários (concentração de renda e riqueza) e milhões de pobres. 

O negacionismo é uma força destrutiva, tanto na negação da vacina (morte), como na democracia (forças anti-democráticas), e inclusive na economia (desindustrialização).

Mas por que tem ricos bilionários defendendo e financiando o negacionismo? Porque monetizam as mentiras, as Fake News, e ganham dinheiro com a desgraça alheia. No negacionismo econômico, os bilionários são os favorecidos.

Autor: João Carlos Loebens. Também escreveu e publicou no site “A meritocracia capitalista”:  A meritocracia capitalista – Nei Alberto Pies

Edição: A. R.

Por que não nos importamos tanto com o diagnóstico de uma doença…Do outro?

Obrigado por nos lembrar, Preta Gil!

Sim!  Somos seres compostos de fluidos, tecidos e cartilagens, que sequer sabemos como foram formados ou criados.

Carregamos sobre os nossos pés a mais complexa máquina conhecida e criada; inventada ou evoluída, que seja, nada se compara a ela. Os homens a estudam há milênios. Uma dor de cabeça, entretanto, uma prisão de ventre ou um enjoo, deixam de lado nossas perguntas em troca de cura imediata.

Negociamos o que for possível para nos livrar de qualquer tontura, em alguns passos em falso, orientados por uma infame labirintite. Então, tornamo-nos amigos fiéis de estranhos farmacêuticos. Queremos nossa cura, porque passamos a vida pensando que nossos corpos são imunes à decadência ou ao embaraço de células indisciplinas, que podem se multiplicar sem controle.

Somos uma máquina perfeita, em uma cadeia de vasos e artérias, tendões e músculos, vivendo em um ambiente hostil.  Nossos corpos não deveriam adoecer, sequer envelhecer.  Mas passamos nossas vidas tão centrados em nós mesmos e em nossos interesses, que esquecemos o que de fato somos, além do espírito: corpos físicos a caminho do esgotamento.

A Preta Gil nos deixou um legado inestimável, na música, poesia, em todo o conjunto de sua obra e história. Há pouco, permitiu-nos ver a coragem de quem se apega à vida e luta por alguns dias; até o fim. Permitiu uma transparência incrível nessa sua jornada, pois em nenhum momento escondeu a sua batalha, desde o primeiro fio de sangue em que lhe escorreu pela perna e o tornou público, como alguém que inaugurava uma luta sem trégua: contra o inesperado, o desconhecido, até no combate desigual em que se trava quando a morte escolhe o seu novo alvo. Foi o que ela mesma falou em uma entrevista: um fio de sangue.

Agigantou-se a Preta! Agarrada à vida com suas forças, em sua tentativa de provar o que fosse possível para prolongá-la, não teve medo de se expor, mostrando a todos, que é na iminência de deixarmos esta vida, justamente, quando mais nos apegamos a ela.

Diferentemente do que vemos em certas pessoas, revestidas de poder ou arrogância, em que pensam ser eternas e que seus corpos também não têm prazo a vencer. Tem-se a impressão de que suas entranhas são feitas de aço ou diamante e que pela sua empáfia e soberba, seus intestinos são revestidos de metais nobres.

Compomos uma estrutura maravilhosa e, ao mesmo tempo, apavorante: basta que nossa pele desapareça para que nos tornemos assustadores.

Na verdade, somos corpos nus, disfarçados. Mas nosso interior é um acúmulo permanente de água e sangue, retidos e que torna envergonhado o engenheiro mais astuto.

Mas um dia, todos vamos sangrar. Talvez usemos fraldas. Daí que o mínimo que deveríamos ter nesta vida é uma tremenda compaixão. Por sabermos que somos todos iguais, na matéria em que somos feitos e no destino que a ela é reservado. Rigorosamente iguais, na origem e no fim. E, para os incrédulos, nosso sangue até contém ouro, muito embora em uma quantidade ínfima. Mas ouro!

Somos todos feitos de cartilagens, tendões, vasos, tecidos e ossos. Sangramos várias vezes nessa passagem, carregando conosco pelas ruas o mais complexo sistema estrutural vivo. Moléculas, células, órgãos, membranas e filamentos, nervos, músculos e membros, formam uma trama de conexões, interdependentes, e que ninguém jamais explicou.

Ahh, carregamos resíduos, igualmente, que descartamos todos os dias para a renovação de nossas vidas e para que nossos corpos continuem em frente.

Vendo pessoas que se têm em conta demais, muito além do que realmente são, que pensam ter poder sobre a vida e a morte dos outros – poderosos, governantes passageiros, políticos pretenciosos, quando os vemos em sua presunção e prepotência, temos o dever de lembrá-los sobre os seus corpos. Limitados que são e presos ao seu tempo. Não os imitemos, pois um dia, igualmente, sangrarão.

Os corredores dos hospitais estão cheios de pessoas empáticas. Muitas por sua essência, claro, outras, nem tanto, assustadas todas pela lembrança do que a vida espalha por estas galerias:  há um fim a se enfrentar.

Gratidão à Preta Gil, por nos lembrar que somos corpos que podem ser dilacerados e que neles não há comportas, suficientemente fechadas, para conter as micro represas líquidas de que carregamos.  Vale o lembrete dos seus últimos dias; sua simplicidade e sua aceitação do que lhe coube em vida.

Há muitos que nos rodeiam e imaginam ser as suas entranhas de metal incorruptível. Passam a impressão de que o seu desenho interno não é o mesmo de todos os mortais, pois se julgam muito além dos demais. Algumas certezas são formadas na beira dos abismos.

Mas é no corredor de um hospital, sem importar os bens de cada um, ali mesmo é que se dá o enfrentamento com tudo o que nos lembra de nossa fragilidade e finitude. Apenas esta consciência já valeria uma vida de empatia e solidariedade.

Não há sangue azul em nenhum convencido que caminha ao nosso lado. Apenas sangue represado.

Um dia, todos sangrarão.

Obrigado por nos lembrar, Preta!

Conferir a entrevista da Preta Gil no programa da Ana Maria Braga, (Youtube) quando afirma que descobriu o câncer em uma ‘turnê’ com o seu Pai, Gilberto Gil.  No mesmo programa, ela revela os seus sintomas iniciais e que todos deveriam estar atentos. https://youtu.be/5XttdfFTXC4?t=305

Autor: Nelceu Zanatta. Também escreveu e publicou no site “Quais são os limites de nossa empatia? Sentir o desamparo do outro ou viver a sua dor?”:  www.neipies.com/quais-os-limites-da-nossa-empatia-sentir-o-desamparo-do-outro-ou-viver-a-sua-dor/

Edição: A. R.

Educação e meritocracia nas escolas públicas do RS

Escola pública não é empresa; educação não é mercadoria que se produz em série; professores, gestores, secretários não possuem superpoderes; estudantes são sujeitos heterogêneos e por isso merecem políticas equitativas de cuidados efetivos que lhes assegurem o direito de sonhar, indignar -se e trabalhar no sentido de enaltecer a condição humana.

Embora sejam afirmações aparentemente óbvias, as premissas acima estão bem distantes do olhar, do coração e das ações neoliberais promovidas pelo governo do Estado do Rio Grande do Sul.  Uma análise que mantenha o mínimo de coerência, antes de propor uma política de estado fundada na meritocracia (bonificações por frequência, décimo quarto salário, premiação em dinheiro para alunos que obtiverem melhores resultados), iria levar em consideração o contexto no qual se inserem e do qual se alimentam as diferentes escolas estaduais. Falo de estruturas físicas, inclusive sanitárias, condições de trabalho, realidade socioeconômica do público atendido, características culturais de cada localidade, bem como dos recursos humanos, da qualificação e saúde dos mesmos. 
 
Assista à reportagem sobre condições sanitárias de escolas estaduais exibida no dia 09 de julho no RBS Notícias: https://globoplay.globo.com/v/13670056
         
Essa lógica corporativa fundamentada na premiação dos melhores, é excludente. O discurso político responde que todos estão incluídos, concorrendo às bonificações, no entanto, desconsidera a enorme desigualdade que persiste nas instituições de ensino, entre estudantes advindos de diferentes contextos familiares e socioeconômicos. Colocados na condição de competidores, algumas escolas e estudantes estão a quilômetros de distância uns dos outros.
 
Como esperar resultados melhores de quem não possui condições para entrar na corrida? Estudantes que já adentraram o mercado de trabalho estão em condições de igualdade com os que possuem mais tempo livre? Aqueles que advêm de famílias bem estruturadas, com incentivo e acompanhamento dos responsáveis podem se equiparar aos que não contam com o mínimo de apoio?  Que concepção de educação fundamenta essa política empresarial aplicada à educação pública? Está correto tratar a escola como uma empresa, os estudantes como produtos, os professores e servidores como robôs e ou super-heróis?     

 


Desconsiderar a diversidade de contextos nos quais a educação acontece  é um descaso revelador do total desinteresse pela justiça, essa virtude capaz de questionar, criticar e transformar realidades. A esse respeito citamos Fávero: 
  
“[…]como a escola pode ser uma instituição justa se há competição entre alunos que possuem individualidades diferentes e vivem em condições desiguais? Desse modo, Marcato e Conti (2017) evidenciam que assegurar que todos os alunos participem da competição, sob o respaldo de uma igualdade de oportunidades, não se traduz em justiça (p. 67). Isso indica que ter a mesma oportunidade de participar não implica ter igualdade de desempenho, pois a oportunidade de acesso à educação escolar não é o suficiente. Há muitas variáveis que necessitam ser consideradas, tais como: boas condições de estudo e moradia, apoio e incentivo familiar, alimentação adequada etc. A retórica da meritocracia desconsidera tais variáveis e parte do pressuposto de que todos têm oportunidade; portanto, os que obtêm êxito devem ser recompensados por merecimento. Nas palavras de Dubet (2004, p. 542), “a escola é gratuita, os exames são objetivos e todos podem tentar a sorte”. Isso significa que, do ponto de vista formal, os alunos podem visar à excelência. No entanto, o próprio Dubet (2004, p. 541) adverte que a igualdade de acesso não significa que essa “escola se tornou mais justa porque reduziu a diferença quanto aos resultados favoráveis entre as categorias sociais”; ela apenas “permitiu que todos os alunos entrassem na mesma competição”.
 
Importante ressaltarmos que a escola pública precisa ocupar-se da formação, superando essa lógica competitiva do mercado. Ensino – aprendizagem é assunto sério, não somos empresa/ indústria; comércio, somos defensores da justiça, amantes da verdade que liberta, labutamos em prol de uma sociedade renovada pela força do conhecimento. 
 
Não temos superpoderes, não podemos responder pelo descaso de algumas famílias, nem pela desmotivação de crianças, adolescentes e jovens, para os quais a escola deixou de fazer sentido. Sobre este aspecto chama atenção a política de bonificação proposta pelo governo, gestores e equipes serão premiados a depender da frequência dos estudantes.
 
A quem cabe garantir a frequência? Será que a responsabilidade pelo estudante vir para a sala de aula, de fato, deve recair sobre gestores, professores e equipes? 
 
Respondemos à pergunta acima lembrando o que diz a constituição brasileira, Art. 205.  “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. Neste sentido, parece que o dever da família é, assim como muitos serviços, terceirizados para a instituição de ensino, essa precisa dar conta da infrequência e desmotivação.
 
Dentro dessa lógica competitiva parece que equipes diretivas possuem superpoder e amplo domínio sobre todo o contexto. A constituição é precisa ao mencionar o direito de todos e assegurar o dever do estado, da família e de toda sociedade. 
 
Por fim, mas sem a intenção de encerrar o debate, convém propor: todo suposto investimento em bônus e prêmios poderia, aliás deveria ser revertido em valorização real do salário dos professores e das equipes diretivas.
 
Enquanto a lógica coorporativa “do pão e circo” prevalecer sobre a formação humana (o que a mencionada lei chama de pleno desenvolvimento da pessoa), seguiremos remando contra a maré, num barco com motor fundido e casco furado. Muitos já são vítimas deste naufrágio, outros reúnem suas parcas esperanças e seguem tentando fazer a diferença perante uma política que se mostra indiferente aos apelos daqueles que vivem o dia a dia no chão da escola aos “trancos e barrancos”. Caberia retomarmos a radicalidade dos anos oitenta e reivindicarmos com apoio de toda sociedade o direito de sermos ouvidos e levados em consideração. 
 
REFERÊNCIAS
 
FAVERO, Altair Alberto; OLIVEIRA, Julia Costa; FARIA, Thalia Leite de. Crítica as “Medições” em Educação à Luz da Teoria das Capacidades: A Meritocracia que Reforça a Desigualdade. Rev. Int. Educ. Super. Campinas, v. 8, e022024, 2022.   Disponível em <http://educa.fcc.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2446-94242022000100214&lng=pt&nrm=iso>. Acessos em 20 ago.  2025.  Epub 12-Ago-2022.  https://doi.org/10.20396/riesup.v8i0.8665579.
 
POLO Fenada, Programa de bonificação para professores e alunos anunciado pelo governo do RS gera debate; entenda os pontos.  Porto Alegre. ZERO HORA, Disponível em https://gauchazh.clicrbs.com.br/educacao/educacao-basica/noticia/2025/08/especialistas-criticam-programa-de-bonificacao-para-professores-e-alunos-anunciado-pelo-governo-do-rs-entenda-os-pontos-cmed20vqi00t1015p2dqswjup.html Quarta Feira,  20 de agosto de 2025.
BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República,. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 2 fev. 2021.
 
Autor: Marciano Pereira. Também escreveu e publicou no site “A vida é uma jornada pedagógica”: www.neipies.com/a-vida-e-uma-jornada-pedagogica/
Edição: A. R.
 

 

A primeira namorada do Jonas. Aquele cabeludo da banda

Até construir amizades, arrumar uma namorada, fui sempre que pude à lancheria do Nardes comer as bolachas recheadas e tomar a batida de banana na esperança de que às 15h30 de uma daquelas tardes a primeira namorada do Jonas entrasse para comprar bala de hortelã.

“Cabelos longos, olhar profundo e cativante…” – dizia Nardes, o dono da pequena lancheria que ficava embaixo do prédio onde, aos dezoito anos, fui morar pela primeira vez longe da família.

Nardes, não tenho certeza se era esse mesmo o seu nome, contava de uma jovem mulher, uma “guria” linda que todas as tardes passava pela calçada. Algumas vezes entrara para comprar bala de hortelã. “Ela foi a primeira namorada do Jonas, aquele cabeludo da banda. Quase namorada, porque em poucos dias ela não o quis mais”. E continuava a elogiar sua indescritível beleza.

Um dia, na lancheria, um homem mais velho alertou-me: “Nardes é um escultor preocupado em descrever uma obra de arte, não uma jovem mulher. Se é que ela existe”.

O problema era que eu, naquelas alturas, ainda solitário, apenas começando a conhecer os colegas de faculdade, queria que a primeira namorada do Jonas não fosse apenas uma escultura mental do dono lancheria. Sempre que dava, às 15h30, o horário mais provável de ela passar em frente à lancheria, estava eu lá comendo um pacote inteiro de bolacha recheada e tomando um copo grande de batida de banana.

“Olha! Olha! Ela está passando!” – foi só o Nardes falar e eu me virei para ver. De relance, só vi a cor azul de um vestido. Fiquei com vontade correr para a calçada, mas me dominei.

O Nardes poderia estar me aprontando, poderia ser outra guria e eu passar por bobo. Afinal, até então só escutava quieto, não revelava que estava mergulhado na fantasia criada por ele. Não me mexi. E o Nardes: “Perdeu! Perdeu de ver a imagem mais bonita que poderias ver na tua vida. Azar! Mas volte amanhã!”

Houve uma vez que, por ter passado a noite estudando para uma prova, cochilei com a cabeça escorada no braço sobre o balcão. Tive um sonho curto como o cochilo: a primeira namorada do Jonas estava de bermudas e suas pernas lindas estavam com os leves pelos arrepiados de frio; de repente, ela falou muito perto de mim perguntando se eu já tomara a batida de banana. Levei um susto que me acordou!

Outra vez, assim como quem pergunta por perguntar, quis saber o nome da primeira namorada do Jonas. Nardes apenas respondeu que não sabia e foi atender outros fregueses.

Não pude mais continuar negando, Nardes era um escultor mental, talvez nada além disso estava acontecendo. Mas a mentira dele, que bem podia não ser mentira, me fazia bem. Na solidão uma boa fantasia é útil, ajuda! É como uma luz de uma luminária (foto) a clarear a escuridão de quem se sente só.

Até construir amizades, arrumar uma namorada, fui sempre que pude à lancheria do Nardes comer as bolachas recheadas e tomar a batida de banana na esperança de que às 15h30 de uma daquelas tardes a primeira namorada do Jonas entrasse para comprar bala de hortelã.

P.S.: essa história é citada brevemente no longa metragem POR UMA ALEGRE MEIA TARDE. DRAMA 81′ que pode ser visto sem custo no YouTube Canal Jorge Salton ou pelo link: https://youtu.be/TCRQPkaFrAQ?si=JZLD172vkOW3s-OK

Autor: Jorge Alberto Salton. Também escreveu e publicou no site “Como faz  bem ouvir, de vez em quando que seja, que nós também somos bons”: https://www.neipies.com/como-faz-bem-ouvir-de-vez-em-quando-que-seja-que-nos-tambem-somos-bons/

Edição: A. R.

Docência Universitária em Perspectiva

A coletânea é continuidade de um amplo e qualificado processo de estudos, pesquisas e práticas docentes que têm ocorrido em torno da disciplina de Estágio Docência I: Pedagogia Universitária, ministrada por mim em diversos Cursos de Mestrado e Doutorado da UPF, articulado com o projeto de Pesquisa “Docência Universitária e Políticas Educacionais” desenvolvido pelo Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Educação Superior (Gepes/PPGEdu/UPF).

O título que deste escrito é o título de uma coletânea que acaba de ser publicada pela editora CRV de Curitiba, organizada por mim e pelas professoras Carina Tonieto e Daniê Regina Mokolaiczik. A coletânea é composta de 19 capítulos envolvendo mais de quarta autores de diversas áreas do conhecimento. Os capítulos versam sobre diversas temáticas relacionados à Docência Universitária dentre elas interdisciplinaridade, improvisação docente, criatividade, desenvolvimento profissional docente, avaliação, autoavaliação, metodologias ativas, práticas reflexivas docentes, resolução de problemas; práticas desruptivas, saberes docentes, tecnologias digitais, dentre outros.

Tivemos a honra da coletânea ser prefaciada pela Dra. Cristina Zukowsky-Tavares, pesquisadora no campo da Docência Universitária e uma das expoentes neste campo de estudos.

A coletânea é continuidade de um amplo e qualificado processo de estudos, pesquisas e práticas docentes que têm ocorrido em torno da disciplina de Estágio Docência I: Pedagogia Universitária, ministrada por mim em diversos Cursos de Mestrado e Doutorado da UPF, articulado com o projeto de Pesquisa “Docência Universitária e Políticas Educacionais” desenvolvido pelo Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Educação Superior (Gepes/PPGEdu/UPF).

Os estudos sistemáticos sobre Formação Docente no Gepes/PPGEdu/UPF iniciaram em 2009 com a investigação sobre a diversidade de teorias e práticas pedagógicas desenvolvidas por diversos autores no cenário nacional e internacional. Destes estudos resultou na publicação do livro autoral Educar o Educador: reflexões sobre formação docente (Fávero; Tonieto, 2010), composto de 8 capítulos os quais abordaram diversas reflexões sobre formação docente tais como os professores e suas histórias de vida, a formação de professores reflexivos, a relação entre conteúdo e método, a relação entre teoria e prática, a articulação entre ensino e aprendizagem, o papel da universidade na formação docente, currículo e os desafios da diversidade na formação de professores e educação ambiental na formação docente.

O potencial do campo de estudos sobre Docência Universitária resultou na continuidade das investigações no Gepes em 2014, resultando na publicação da coletânea Docência Universitária: pressupostos teóricos e perspectivas didáticas (Fávero; Tonieto; Ody, 2015), composta de 13 capítulos os quais abordaram as seguintes temáticas: criatividade e improvisação na docência universitária, a prática educativa emancipadora e socialmente responsável, os (des)caminhos da formação do docente pesquisador, a inovação no ensino universitário, os impactos do problema da mercantilização e acreditação no Ensino Superior, a construção do sensível e a formação estética na docência universitária, os saberes e não saberes da docência universitária, autoavaliação e desenvolvimento profissional, a importância dos laboratórios didáticos na formação de professores na área das ciências da natureza, o planejamento da disciplina e a organização da aula universitária, aportes teóricos sobre pedagogia universitária, o papel do gestor no gerenciamento da formação dos professores universitários, e a construção de um projeto coletivo e permanente de formação docente.

Os avanços dos estudos no Gepes nos fez perceber que a docência universitária requer uma compreensão dos pressupostos epistemológicos que mobilizam as práticas, as compreensões da forma como se constitui a identidade docente, a maneira como se articulam as distintas formas de ensino e aprendizagem no Ensino Superior.

Destes estudos surgiu a coletânea Epistemologias da Docência Universitária (Fávero; Tonieto, 2016) composta de 12 capítulos onde são abordadas as seguintes temáticas: a dimensão crítico-dialética na formação docente na perspectiva freireana, o lugar da teoria na pesquisa sobre docência na Educação Superior, os aspectos do pensamento complexo que perpassa a autoeco-organização e autoeco-formação do docente universitário iniciante, a atitude vigilante do professor universitário para enfrentar os obstáculos epistemológicos do seu fazer docente, a constituição dos saberes da docência universitária, a epistemologia que perpassa o fazer docente no cenário da sociedade líquida baumaniana, a negação da pedagogia das aparências em prol de uma pedagogia científica na perspectiva bachelardiana, o falibilismo como fundamento epistemológico na formação de professores para o ensino de ciências naturais, os paradigmas necessários à construção da docência universitária no cenário atual, a relação entre racionalismo aplicado e os novos rumos da ciência contemporânea para compreender a docência universitária, a sensibilização docente na compreensão da epistemologia da prática na docência universitária.

A interdisciplinaridade também foi tema de estudos do Gepes e torna-se uma temática imprescindível para enfrentar os desafios da docência universitária contemporânea. Destes estudos surgiu a coletânea Interdisciplinaridade e Formação Docente (Fávero; Tonieto; Consaltér, 2018), composta de 15 capítulos onde são tratados as seguintes temáticas: entendimentos  e perspectivas da interdisciplinaridade na formação de professores, a interdisciplinaridade e o falibilismo na formação docente, os equívocos e as possibilidades da interdisciplinaridade na formação de professores, a resolução de problemas como prática interdisciplinar na educação, a perspectiva história e política da interdisciplinaridade pelo enfoque da educação, as interlocuções possíveis entre interdisciplinaridade e alteridade na educação numa perspectiva estética, a vivência teatral como experiência interdisciplinar formativa, a interdisciplinaridade como crítica à fragmentação do saber, o desafio da reflexividade interdisciplinar na educação escolar, o potencial freireano e interdisciplinar nos processos formativos, as exigências e consequências da complexidade presente na relação entre interdisciplinaridade e educação em direitos humanos, a interdisciplinaridade proposta para a educação física no Referencial curricular do Rio Grande do Sul, a interdisciplinaridade na formação de docentes na Educação infantil na perspectiva da psicanálise e a presença da interdisciplinaridade no campo teórico e no campo de intervenção das políticas educativas.

A relação entre políticas educacionais e formação de professores também foi pauta de estudos e discussões dos pesquisadores do Gepes na disciplina “Políticas de Formação de Professores”, na qual participaram mestrandos, doutorandos e alunos com matrícula especial no segundo semestre de 2018. Destes estudos e discussões resultou a publicação da coletânea Políticas de Formação de Professores (Fávero; Consaltér; Trevisol, 2019) composta de 14 capítulos onde são tratadas as seguintes temáticas: o desafio da prática pedagógica na formação docente de professores de cursos de bacharelado, a pós-graduação stricto sensu como espaço de formação docente no contexto da educação inclusiva, as diretrizes para a formação inicial e continuada dos profissionais do magistério da educação básica, análise comparada entre os planos estaduais de educação do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina sobre a formação de professores da educação básica, a formação docente e a construção da identidade do professor na educação infantil, a especificidade da formação continuada de professores no PROCAMPO, o lugar das humanidades na perspectiva estética da formação docente, a importância da teorias e das pesquisas na formação docente, um estado do conhecimento sobre a formação de professores para o uso de tecnologias, os sentidos atribuídos às tecnologias da informação e da comunicação por professores em formação, as compreensões teórico-metodológicas da interdisciplinaridade na gestão escolar na formação continuada de professores, um diálogo para além da especialidade na relação entre interdisciplinaridade e formação docente.

A ideia do Estágio de Docência como tempo e espaço formativo tem sido uma das tônicas importantes e fundamentais para estruturar o trabalho teórico-didático com os mestrandos e doutorandos dos programas de Pós-Graduação Stricto Sensu da Universidade de Passo Fundo. Esta ideia está presente na coletânea Docência Universitária: temas emergentes na formação de professores (Fávero; Lorenzon; Pereira, 2023) composta de 11 capítulos onde são abordadas as seguintes temáticas: as especificidades da docência universitária nos cursos de formação de professores à luz da epistemologia da prática, a aula como espaço de experiência formativa do professor pesquisador, possibilidades para o enfrentamento da crise ambiental na formação docente, a formação continuada de docentes do Ensino Superior na legislação brasileira, em prol de uma abordagem humanista e emancipatória das juventudes na educação profissional, inquietações sobre a formação juvenil na prática docente, contribuições da estética para uma docência humanizadora na formação da juventude, o feminismo negro como pauta na academia por uma universidade como espaço de igualdade, contribuições da educação estética para a formação ética do professor, as contribuições das pesquisas acadêmicas sobre interdisciplinaridade no Ensino Superior e, por fim, os desafios do Ensino Superior no formato on-line durante a pandemia de covid-19.

Conforme já mencionado no início desta apresentação, a presente coletânea tem uma relação direta com o trabalho de Estágio Docência I, II e III de diversos programas de Pós-Graduação Stricto Sensu da Universidade de Passo Fundo. O Estágio Docência é parte obrigatória da formação do pós-graduando e obrigatório para os alunos beneficiários de bolsas concedidas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) aos programas Acadêmicos de Pós-Graduação Stricto Sensu. As Portarias Capes nº 76, de 14 de abril de 2010 (Brasil, 2010), Capes nº 181, de 18 de dezembro de 2012 (Brasil, 2012), Capes nº 149, de 1º de agosto de 2017 (Brasil, 2017) e Capes nº 73, de 6 de abril de 2022 (Brasil, 2022), definem os critérios e procedimentos relativos à realização das atividades de Estágio Docência nos programas de Pós-Graduação stricto sensu, o que fez com que o Estágio Docência fosse ofertado e realizado de forma compulsória pelos alunos bolsistas.

Para além da obrigatoriedade, a presente coletânea tem por escopo dar evidência de que o Estágio Docência pode constituir-se numa importante e produtiva experiência formativa.

Num recente escrito, Fávero (2024, p.21) destaca que “o Estágio Docência pode se constituir numa oportunidade de formação, de estudo, de vivências, de ‘olhar-se no espelho’ como professor ou futuro professor, para revisar quem somos ou o que queremos ser”. Com isso defende o posicionamento pedagógico e epistemológico de que é possível tornar o Estágio Docência, além de uma experiência formativa, um “locus de reflexão e teorização do fazer docente”.

A ideia de “experiência formativa” é retomada dos escritos do filósofo educador americano John Dewey (1979) que em seu escrito Experiência e educação ressaltava que a educação não um processo que se limita ao âmbito formal da escolarização, mas que acontece também nas distintas interações cotidianas das vivências pessoais. Para Dewey (1979), nem todas as experiências são educativas, pois pode haver experiências que são “deseducativas”. Enquanto as experiências educativas são caracterizadas pela presença dos princípios da continuidade e da interação, as experiências deseducativas são aquelas que se esgotam nelas mesmas e não provocam novas experiências. Conforme ressaltam Fávero; Bortolini; Trevizan; Mikolaiczik; Velho (2024, p.54-55), os “exercícios mecânicos de repetição, práticas de ensino que visam fixar hábitos de controle comportamental ou mesmo treinamentos de habilidades funcionais podem resultar em experiências deseducativas na perspectiva deweyana”.

No dia 13 de agosto, a coletânea foi oficialmente lançada na nova turma de mestrandos e doutorandos da UPF, contando com a presença de diversos autores da coletânea, seus organizadores, o Dr. Luiz Marcelo Darroz (Diretor do Instituto de Humanidades, Ciências, Educação e Criatividade – IHCEC), a Dr. Ana Carolina Bertoletti de Marchi (Diretora de Pesquisa e Pós-Graduação da UPF) e diversos outros convidados.

Na solenidade de lançamento, houve o pronunciamento das autoridades presentes, dos organizadores e de alguns autores. Foram depoimentos muito animadores elogiando a iniciativa e o papel da disciplina de Estágio Docência na formação de mestres e doutores. Dentre os depoimentos destaco a fala na íntegra da doutoranda em Educação Deise Elen Abreu do Bom Conselho. Coloco em itálico, pois se trata da fala literal da doutoranda:

Depoimento sobre a experiência na disciplina Estágio de Docência I e escrita do artigo sobre formação inicial de professores

Com alegria, recebi esse convite para escrever sobre a minha experiência na disciplina de Estágio de Docência I e autoria coletiva do artigo intitulado: A pesquisa como prática pedagógica na formação inicial docente: da lógica reprodutivista à perspectiva crítico-reflexiva.

Para sintetizar a experiência, dividirei o meu relato em 3 aspectos, são eles:

  1. Experiência
  2. Postura
  3. Colheita
  1. Experiência

Ao iniciar a disciplina Estágio em Docência, confesso que estava, até certo ponto, imbuída de um pensamento equivocado. Prematuramente, lidei com certa estranheza, o fato de ser professora universitária e ter que estagiar em algo que eu já me julgava profissional. Esse fato gerou em mim uma sensação desconfortável. Mas comportei-me. Afinal é uma disciplina obrigatória para os bolsistas e eu também sou bolsista, pensava comigo mesma. Mesmo que não quisesse estava diante de uma obrigatoriedade.

Esse foi o sentimento primeiro. Eu poderia ter deixado que a minha experiência fosse assinalada por essa sensação. No entanto, logo nas primeiras aulas eu fui tomada pela magia da sequência didática. O professor Altair, no auge da sua experiência preparou um percurso, que nos levaria a refletir sobre o saber e o fazer docente, os entraves da questão pedagógica na docência universitária, a importância da pesquisa no processo formativo, sobretudo, na licenciatura, o desenvolvimento da capacidade estética na docência e as afrontas do neoliberalismo ao processo educacional. Acendeu-me uma luz! Coloquei-me a pensar sobre a minha práxis. Logo várias perguntas surgiram sobre mim mesma… Como eu tenho compreendido a sensibilidade estética na docência? De que maneira tenho me rendido à massificação? Serei uberizada enquanto profissional docente? Que novos caminhos o Ensino Superior tem assumido? Abria-se com aquela sequência didática apresentada um universo de conceitos, fenômenos educativos e temas a serem pensados, novamente compreendidos e até mesmo aprendidos. Dentre eles a curricularização da extensão, as reformas educacionais, a problemática do Ensino Médio, a precarização do trabalho docente e os impactos da BNCC.

Aos poucos, percebi o quanto estava equivocada em pautar a minha experiência na superficialidade ou na obrigatoriedade. Como tinha cometido um ledo engano. Recorro aqui ao pensamento de José Pacheco no livro Aprender em comunidade, quando escreve uma carta a Paulo Freire na qual relata que: “[…] ainda há professores que aprendem, que se apercebem da sua incompletude e sabem que o ser humano está em permanente estado de projeto” (2014, p. 98). 

Nesse sentido, ouso dizer que a experiência na disciplina Estágio em Docência, nos convida a ser uma “uma comunidade de aprendizagem” onde se aprende por meio da interação, do esforço conjunto, compartilhamento de ideias e uma revisão da própria prática. Um exercício para que sejamos capazes de aprender a enxergar com cientificidade, emoção, vigor e rigor o que é a docência. A nuance da disciplina me fez compreender o que Dewey enfatiza sobre a experiência. Exercício reflexivo capaz de transformar um acontecimento em experiência.  Nesse sentido, refletir sobre a vivência na disciplina me ajudou a dar um sentido maior a essa experiência.

Sobre a postura, sem pedantismo ou pretensão de ditar manual, recomendo que aprendam que ler texto e diferente de estudar texto. Isso foi o próprio professor Altair que nos disse. Eu gostei tanto que anotei e repito a vocês. Estudem os textos. Isso significa que a postura de investigadora e de participe dessa disciplina requer que estejam dispostos a fazerem conexões entre o lido, o vivido e o que precisa ser transformado. Ao lerem os textos anotem, perguntem ao próprio texto e quem sabe aos próprios autores, já que alguns textos são de autoria do próprio professor Altair Fávero. Ao fazerem esse ciclo perceberão que não só leram, mas que estudaram o texto. Haja dicionário de termos a serem consultados e conceitos a serem investigados.

Anotar, registrar, elucubrar por meio da escrita é outra postura necessária. Na medida do possível tenham caderno, lápis e borracha, afinal eles não servem somente para a educação básica. Não tenha a pretensão de ser google, reconheça com simplicidade que o registro é uma foram de estudo e até mesmo de memória. Se você é moderno, digite, mas salve em algum lugar que possa encontrar.

Outra aspecto a ser ressaltado é que a aula se torna melhor quando você está inteiro nela e para ela. Cuidado com a tentação de não abrir câmera ou ficar digitando outras coisas no momento das discussões. Isso pode não ajudar na sua concentração. São posturas, maneiras que poderão ajudar. Se não forem essas encontre as suas. Mas as tenha!

Por fim, o terceiro e último ponto é a colheita. Além do aprendizado, do gostoso revisitar a minha própria prática, essa disciplina proporciona uma escrita coletiva a ser publicada em uma coletânea. Isso é real. Hoje estamos aqui com o nosso artigo em um livro com ISBN, um editorial com gente de ponta. Essa colheita também é fruto da generosidade do Prof. Altair e demais organizadores do .

A partir dessa disciplina eu também junto com um colega cadastrei um trabalho em um Congresso Internacional na Colômbia. O trabalho foi aprovado, estivemos lá em Bogotá para apresenta-lo.

Essa disciplina desenvolveu o gosto e a ousadia de escrever. Afinal estagiar na docência é saber que há caminhos que a gente começa a fazer e não para mais e estudar, ler, escrever e pensar são aspectos reforçados aqui.

Concluo sintetizando a minha experiência como a de quem parou para mirar o correr do rio e a partir dessa contemplação foi capaz de refletir sobre essa experiência, dando a ela um sentido original que possibilite a descoberta de novas nascentes que farão jorrar outros percursos, visto que: “a experiência não pode ser exportada, ela só pode ser reinventada. […]. As pessoas responsáveis pela educação deveriam estar inteiramente molhadas pelas águas culturais do momento e do espaço onde atuam”. (FREIRE, 1996, p. 27). O nosso momento é o agora e o nosso contexto é de mestrando e de doutorandos que possuem a responsabilidade de levar a diante a qualidade desse programa, a seriedade de transformar a educação, de intervir nas políticas públicas e de sermos cada vez mais, como pesquisadoras, pessoas e sobretudo aprendizes.

Deise Elen Abreu do Bom Conselho – agosto de 2025

Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação

A coletânea foi publicada na versão impressa e também em e-book. Para os que tiverem interesse em acessar gratuitamente o e-book segue o link de acesso:

https://www.researchgate.net/publication/392654282_Docencia_universitaria_em_Perspectiva

Referências:

DEWEY, John. Experiência e Educação. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1979.

FÁVERO, Altair Alberto; TONIETO, Carina. Educar o educador: reflexões sobre formação docente. Campinas: Mercado de Letras, 2010.

FÁVERO, Altair Alberto; TONIETO, Carina; ODY, Leandro Carlos (Orgs.). Docência Universitária: pressupostos teóricos e perspectivas didáticas. Campinas: Mercado de Letras, 2015.

FÁVERO, Altair Alberto; TONIETO, Carina (Orgs.). Epistemologias da docência universitária. Curitiba: CRV, 2016.

FÁVERO, Altair Alberto; TONIETO, Carina e CONSALTÉR, Evandro (Orgs.). Interdisciplinaridade e formação docente. Curitiba: CRV, 2018.

FÁVERO, Altair Alberto; CONSALTÉR, Evandro e TREVISOL, Marcio Giusti (Orgs.). Políticas de Formação de Professores. Curitiba: CRV, 2019.

FÁVERO, Altair Alberto; LORENZON, Mateus; PEREIRA, Taís da Silva (orgs.). Docência Universitária: temas emergentes na formação de professores. Porto Alegre: Livrologia, 2023.

FÁVERO, Altair Alberto. Docência na educação superior: entre a barbárie e a civilidade de uma experiência formativa. In: DIEDRICH, Marlete Sandra; MARINHO, Lucas Danielli; GOLEMBIESKI, Gabriela (orgs.). Narrativas de Estágio. São Carlos/SP: Pedro & João Editores, 2024, p.11-30.

FÁVERO, Altair Alberto; BORTOLINI, Bruna de Oliveira; TREVIZAN, Catiane Richetti; MIKOLAICZIK, Daniê Regina; VELHO, Priscila Campos. O Estágio como experiência filosófica formativa: em defesa da escola pública contra certos discursos pedagógicos. In: CASAGRANDA, Edison Alencar; DARROZ, Luiz Marcelo; BORDIGNON, Luciane Sanhol (orgs.). Estágios nos cursos de licenciatura: Experiências e práticas docentes. Passo Fundo: Editora UPF, 2024, p.54-76.

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero – altairfavero@gmail.com Também escreveu e publicou no site “A trajetória de 15 anos do Gepes”: www.neipies.com/a-trajetoria-de-15-anos-do-gepes/

Edição: A. R.

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