Uma importante imersão na vida e obra de Eça de Queiroz

Repercutimos, nesta matéria, a primeira atividade denominada Momento Cultural da APLetras (Academia Passofundense de Letras) no ano de 2026. Na oportunidade, o confrade desta valorosa Academia, Senhor Luiz Juarez Nogueira de Azevedo fez uma importante imersão na obra do escritor português Eça de Queiroz.

O evento ocorreu no dia 07 de março de 2026, na sede da APLetras, contando com ampla participação de pessoas interessadas em leitura e literatura.

Publicaremos, a seguir, o texto do palestrante Luiz Juarez Nogueira de Azevedo, destacando a sua eloquente intervenção e entendimento sobre a literatura, de modo especial referindo-se ao autor Eça de Queiroz.

***

A INTEMPORALIDADE DE EÇA DE QUEIRÓS

Desde a minha juventude, venho lendo e, de tempos em tempos, releio os romances, crônicas e a produção jornalística de Eça de Queiroz. O número de suas produções é impressionante, passando os livros, traduzidos em mais de trinta idiomas, de duas dezenas.  Também li as suas melhores biografias, das quais me servi para este estudo.

I.

Antes de mais nada, desejo agradecer à direção desta Academia de Letras, na pessoa do presidente Gilberto Cunha, pelo honroso convite, que não poderia declinar, para participar como palestrante do primeiro evento cultural promovido sob a administração recém começada.

No meio de escritores de invejáveis méritos, poetas, prosadores, memorialistas e historiadores, aficcionados à arte e à cultura que integram o nosso sodalício, receio não poder dizer nada que não seja sabido e ressabido.

Neste círculo acadêmico sou dos poucos que nunca publicaram um livro que possa chamar de seu. Apenas, há mais de sessenta anos, colaboro na imprensa local e, nesse tempo, como fiz enquanto docente da Faculdade de Direito e procurador do Estado, participei de publicações coletivas, na Revista da Procuradoria Geral, na Revista da Faculdade de Direito, depois denominada Justiça do Direito, e também na preciosa Água da Fonte, a obra prima imperecível, viva e vibrante, de Paulo Monteiro e Gilberto Cunha, nosso atual presidente. Nesta, principalmente, sempre generosamente acolhido por seus editores, tenho estado sempre presente no afã de corresponder à honrosa condição de membro desta Academia.

II.

Portanto, é como leitor e não como escritor, que aqui me apresento.  Sei muito pouco de teorias literárias e não  me tenho como crítico ou especialista nessa matéria.

Devo confessar, entretanto, que, há muito tempo desde o curso ginasial no antigo Ginásio Osvaldo Cruz, quando funcionava no vetusto prédio da Praça Tochetto, e no Clássico do Conceição, afeiçoei-me profundamente à literatura portuguesa e à sua constelação de poetas e prosadores.  Antes disso, com a clássica “Anthologia Nacional” herdada do meu pai, repassei, entre outros, Camões, Vieira e Bernardes, Castilho, Antero de Quental, Guerra Junqueiro, Almeida Garret e Alexandre Herculano, até conhecer José Maria Eça de Queiroz.

Foi do meu pai que herdei o apreço por Eça. Conservo na minha biblioteca preciosas edições da Livraria Chardron, como esta, de 1924, mais que centenária, autografada por meu pai.

Para mim, Eça foi e ainda é, em todas as épocas o maior de todos. Somente se lhe compara, como romancista, no nosso idioma, o insuperável Machado de Assis. Eça e ele foram contemporâneos e se admiravam mutuamente. Na opinião dos críticos e dos leitores, eles  disputaram e continuam a disputar o primeiro lugar entre os autores em língua portuguesa.

Claro que a literatura portuguesa, paralelamente à que se desenvolveu deste lado do Atlântico, não estacionou em Eça de Queiroz. Depois dele, em Portugal, muitos vieram. Nomes como Aquilino Ribeiro, Fernando Pessoa, Agustina Bessa Luís e José Saramago, prêmio Nobel de Literatura, continuam a encantar-nos com sua arte de escrever textos cada vez mais perfeitos na poesia e na prosa.

III.

A história de Eça de Queiroz começa com seu nascimento em circunstâncias dramáticas. Ele iria nascer na Póvoa de Varzim, localidade praieira na região do Porto, onde estive uma vez de passagem.

Seu pai e sua mãe não residiam na localidade.  Ela viera em segredo para o parto porque ainda não estavam casados. Consta que ela era de forte temperamento e, embora grávida do pai de Eça, também chamado José Maria, por algum motivo resistia ao casamento. Por isso o recém-nascido viveu seus primeiros anos numa localidade próxima, — Vila do Conde — separado dos pais, na companhia da madrinha Ana Joaquina Leal de Barros. Somente quando do casamento dos pais, quatro anos depois, sua existência foi revelada e ele foi levado para a moradia da família, que se estabelecera em Lisboa, onde seu pai era juiz de direito.

Um dos biógrafos de Eça, Campos Matos, observa que as circunstâncias do seu nascimento viriam a “deixar marcar visíveis no seu comportamento e na sua obra”.

Ao atingir a idade escolar, tendo a família se transferido para o Porto, o jovem Eça foi matriculado no Colégio da Lapa, pertencente a uma ordem religiosa, onde permaneceu entre os anos de 1856 e 1861. Nele, José Maria teria passado “tempos amargos, amenizados apenas pelas férias que passava não com os pais, que viviam então no Porto, mas na casa da tia materna Carlota, que residia também nessa cidade, na rua da Cedofeita, e tinha duas filhas jovens”.

Não demorariam os tempos de Faculdade de Direito, que cursou na Universidade de Coimbra. Pouco afeito aos estudos jurídicos, preferia as leituras e a literatura, especialmente a francesa. Naquele ambiente estreito e autoritário prevalecia a autoridade do reitor-déspota Basílio Alberto de Souza Pinto. Em passagens frequentes da sua obra, Eça critica acerbamente a atmosfera da Universidade ao mesmo tempo em que manifesta a excelente recordação, que manteve pela vida afora, do cenário estudantil. Nos romances A Capital e Os Maias é constantemente evocado o ambiente coimbrão que tão decisivo foi na sua formação literária e ideológica.

Em junho de 1866 Eça conclui a sua formação em Direito e volta a habitar na casa dos pais, num 4º andar, nº 26, do Rossio, a praça central de Lisboa.  Forma nessa altura um local de convívio de amigos, parte dos quais vindos de Coimbra, a que chamavam O Cenáculo, a todo o tempo inspirado pela marcante personalidade de Antero de Quental. No seu horizonte literário fervilhavam os principais nomes da literatura francesa: Proudhon, Renan, Taine, Balzac, Vitor Hugo, Comte e Flaubert.

A instâncias de seu pai, magistrado prestigioso, futuro ministro da Justiça e do Superior Tribunal do Reino, Eça deverá partir para Évora para uma experiência jornalística de grande fôlego: dirigir e redatar sozinho um jornal do Partido Histórico, de oposição ao governo da época, cujo título era O Distrito de Évora. Durante oito meses ele põe à prova seus dotes de escritor. Cria folhetins, artigos de fundo e tudo o mais, envolvendo-se também em polêmicas. É quando tenta, também, sem êxito, exercer a advocacia, profissão que sempre rejeitou.

Retornando a Lisboa, reencontra seus companheiros do Cenáculo, principalmente com Ramalho Ortigão. Junta-se a Antero de Quental e Batalha Reis para criar o grupo Satânicos do Norte, que defendia uma outra forma poética para corresponder ao realismo no mundo da poesia.

Em outubro de 1869, Eça parte com Luís de Castro, conde de Resende, para uma viagem ao Oriente (Egito e Terra Santa). O pretexto da viagem foi a inauguração do Canal de Suez, a que ambos assistiriam, o que seria contado detalhadamente n’O Egito, obra publicada postumamente.  Sua experiência no Egito e na Terra Santa foi aproveitada n’A Relíquia, onde é narrada a trajetória do irrequieto Teodorico Raposo em sua passagem por aquelas terras.  Na sua jornada, Eça e Resende estiveram    depois no Cairo, Heliópolis, Gizé, Sakarah e Mênfis. Do Cairo partiram para a Palestina, indo até Jerusalém, onde conheceram o Santo Sepulcro e a Mesquita de Omar. Depois seguiram   para  Betânia, Belém e o Mar Morto e  voltaram  a Jaffa,   na Síria, para visitar Beirute.  No Oriente Eça e Resende ainda encontraram gentes, costumes e paisagens como eram nos tempos bíblicos.  

Ao   regressar à pátria, soou para Eça a hora de cuidar da sua vida e do seu futuro. Esteve alguns meses em Leiria, onde, sempre por influência paterna, tinha sido nomeado administrador do conselho, uma espécie de prefeito. Muito da sua experiência em Leiria é retratado no Crime do Padre Amaro, cujos personagens foram desenhados a partir de figuras que conheceu naquela vila pacata e interiorana.  Lá estão, o grupo de padres, as devotas, o notário, o noivo da Amelinha, ela própria, o sacristão, as alcoviteiras e outros protagonistas.

 

Em seguida, Eça iria se submeter a concurso para a carreira consular, de onde partiria para representar Portugal em diversos lugares do mundo. Foi aprovado em primeiro lugar e seu destino seria a Bahia. Por influências políticas mais poderosas, seu destino foi trocado pelo consulado de Havana, em Cuba, que ainda se encontrava sob o domínio da Espanha. Lá permaneceu apenas por onze meses. O restante do tempo foi aproveitado em viagem aos Estados Unidos, onde viveu turbulentas experiencias amorosas com duas jovens norte-americanas e visitou Nova York, Pittsburgh, Chicago e as cataratas do Niágara.  

Depois seguiu para o seu segundo posto consular, em Newcastle, na Inglaterra, onde chegou em novembro de 1874. Lá se demoraria por cinco anos, de 1874 a 1879.

Esse foi o período mais produtivo de sua carreira literária quando desenvolveu um importante projeto a que denominou Cenas Portuguesas. Dele resultaram O primo Basílio e o Crime do Padre Amaro, romances realistas.

No fim de sua missão em Newcastle, antes da remoção para o consulado em Bristol, Eça iria casar-se no Porto com D. Emília de Castro, irmã do conde de Resende, seu companheiro na jornada pelo Oriente Médio.

Pouco depois do casamento, iria ocupar seu derradeiro posto diplomático: o consulado em Paris. A Cidade-Luz, aonde chegou em 1888, vivia um momento de esplendor e magnitude. Entre o fim da Revolução e a Belle Époque, se convertera em modelo de modernidade e centro cultural da Europa.

Naquela metrópole cosmopolita, o mais importante centro cultural da Europa e do mundo, Eça poderia realizar seus sonhos e aspirações. A cultura francesa para ele sempre fora alimento e inspiração. Ela fez parte das crônicas de sua autoria, publicadas na Gazeta do Rio de Janeiro entre 1880 e 1897. Numa crônica sobre a Europa, de 1888, a França é referida como “a nossa mãe latina’’. Em carta a Ramalho afirmava que “o meu amor pela França que foi e há de ser sempre a nossa mãe, a nossa educadora, que nos ensinava a vestir-nos que nos iniciou com seus livros em tudo o que há de belo, grande e generoso”.

Ao contrário do que se poderia esperar, seus anos em Paris não foram dos mais animados nem estimulantes. Escrevendo incansavelmente, além dos cuidados com a família, funcionário exemplar que era, cumpria escrupulosamente as suas tarefas no consulado. Também continuava a ler, pensar e escrever intensamente. Decepcionava-se com a política e com os acontecimentos da época.

Não há notícia de que tenha feito algum amigo entre os franceses, mas é certo que continuava vinculado a seu grupo dos Vencidos da Vida, a quem revisitava em idas periódicas a Lisboa. Os artigos que escrevia para a imprensa eram conjunturais.

Nos seus anos finais em Paris, Eça se sentia profundamente abatido. Nem mesmo queria saber do que acontecia em Portugal.

Logo chegaria o seu fim. A doença de que padecia havia alguns anos agravou-se subitamente em fevereiro de 1900. Tentou se recuperar com um tratamento em Genebra, na Suíça, onde se fartou da solidão, do tédio, da tristeza e do frio intenso.  No retorno, ao desembarcar do trem, apresentava-se magro, enfraquecido, com uma cor doentia e ar singularmente desamparado. Era o fim. Iria expirar em seu leito na tarde de 16 de agosto de 1900, sob um calor intolerável, recebendo a extrema unção.

IV.

Desde a minha juventude, venho lendo e, de tempos em tempos, releio os romances, crônicas e a produção jornalística de Eça de Queiroz. O número de suas produções é impressionante, passando os livros, traduzidos em mais de trinta idiomas, de duas dezenas.  Também li as suas melhores biografias, das quais me servi para este estudo.

Gostaria de mencionar aqueles de que mais gosto. São, pela ordem, 1º) Os Maias, 2º) A Ilustre Casa de Ramires, 3º) O Crime do Padre Amaro, 4º) A Relíquia e 5º) O Primo Basílio.  De todos eles, Os Maias é reputado como a sua obra prima. Juntamente com O Primo Basílio, os Maias foram objeto de séries televisivas, de grande sucesso no Brasil.

Deixo a dica a todos para que, como eu, leiam e apreciem muito a obra Os Maias.

V.

É o que, nos limites do tempo convencionado, posso dizer sobre Eça de Queiroz e sua obra.

É opinião de todos os críticos e dos leitores de bom gosto que a sua obra é transcendental e intemporal. Sua importância e perenidade ultrapassa um século e cresce cada vez mais.

No paralelo entre Eça e Machado de Assis, para reflexão, peço licença para ler a observação de Arnaldo Jabor a esse respeito:

“O grande Machado atingia subtons que Eça nem tentou, por escolha Machado é mais inglês, Eça é mais francês. Saído dos castelos de Flaubert, Balzac e Zola, que ele “pós-modernamente chegou até a ”plagiar”, Eça funda um realismo caricatural contra as perdidas ilusões ibéricas que passa por traços grossos, pelo riso deslavado, por uma proposital “falta de sutileza” (que resulta depois sutilíssima) na tradição de um realismo quase carnavalizado, sem anseio de transcendência, Machado é mais, digamos, “nauseado”. Deixa-se envolver por um pessimismo que o claro riso de Eça recusa.

Veja também material do evento no Instagra: https://www.instagram.com/reel/DVl5oXxgO_D/?igsh=bnpyZ3AybWJ1OHVn

Passo Fundo, 7 de março de 2026.

Autor:  Luiz Juarez Nogueira de Azevedo

Edição: A. R.

Quando as mulheres dão nome às coisas

Uma vida, ou várias, sem valor diante do objetivo de manter o poder. Essa é a história das mulheres, mas também da humanidade.

Eu não sei você, querida(o) leitora(o), mas, se é o sol em Marte ou a lua em Saturno, a questão é que 2026 começou com um ar de:

REVOLUÇÃO!

Isso parece algo irrelevante, mas é um dos principais processos da terapia.
Dar nome às experiências ativa circuitos cerebrais ligados ao pensamento consciente e ajuda a reduzir a intensidade da reação emocional; além da ajudar a processá-la.

E quando dão um nome diferente ao que de fato você sente que é, isso pode mesmo criar uma narrativa ilusória e esconder gravidades. Exemplo da GUERRA da Rússia contra a Ucrânia, que por lá, dizem as fofocas da internet, chama-se Operação Militar.

Falando nisso, presumo que a palavra “Revolução”, associada à imagem anterior, pode ter causado justamente esse sentimento de incoerência, não? Guerra, talvez, faria mais sentido para retratar um pouco do que estamos vivendo.

Porém, é sobre o ESTUPRO que eu gostaria de falar hoje. (Oi?)

Essa palavra mesmo, que faz a gente sentir um certo incômodo ou até mesmo vergonha só de ser mencionada. Ela deriva do termo latim stuprum, que por sua vez vem de stuprare, que significava desonrar sexualmente, corromper, violar. Curiosamente, ele também está ligado à raiz stupere, que significa ficar atônito, paralisado, estupefato (reações muito comuns da vítima).

Esse é o sentido literal. Mas a linguagem é um campo fértil, e queria pedir uma licença poética para refletir acerca das possibilidades da palavra que traz à tona aquela sensação deviolação pela força.

Não necessariamente por uma violação de caráter sexual, mas pelos nossos direitos. Pelos nãos que não pudemos dizer. Pela submissão que precisamos engolir.

Sobre tudo aquilo que nos invade sem necessariamente ser um falo.

E quantas vezes não tivemos sequer a oportunidade de nos permitir chamar isso de violência?

Curiosamente, quando estupro e violência ganham a proporção que deveriam ganhar, passam a ter outro nome, principalmente para os coniventes, em algum grau, com o ato: dissimulação e/ou exagero.

Que também pode ser compreendido como a velha e boa estratégia infantil de dar culpa ao outro pela frustração com si mesmo.

Quando não temos explicação para determinados fenômenos que nos beneficiam, chamamos de Deus. Quando precisamos culpar alguém, chamamos a mulher.

Com as ressalvas literárias, também podemos chamar de estupro uma bomba que invade uma escola na cidade de Minab, no sul do Irã, matando cerca de 180 pessoas, principalmente meninas entre 7 e 12 anos. Sendo meninas, a questão passa a ser simbólica e integrar o contexto.

Não é difícil imaginar o Trump envolvido no caso Epstein.
Não é difícil imaginá-lo violando qualquer coisa que seja! Sim, coisa, porque quando não compreendemos a dignidade humana, transformamos o outro em objeto.

Uma vida, ou várias, sem valor diante do objetivo de manter o poder. Essa é a história das mulheres, mas também da humanidade.

Tá, mas e a revolução, Ana?

Sócrates foi condenado a beber cicuta por fazer as pessoas pensarem, por fazer aquilo que acreditava ser justo e necessário.

Nós, mulheres, estamos escolhendo beber cicuta. Porque quando o medo da morte já não é maior que o medo de continuar vivendo caladas, a revolução deixa de ser escolha.

Ela, a revolução, se torna um caminho sem volta.

Este texto é a minha flor para você, no dia Internacional da Mulher e no mês dedicado às reflexões sobre nosso modo de ser no mundo.

Com carinho, e um abraço apertado, a escritora.

Autora: Ana P. Schaeffer. Também escreveu e publicou no site “Não está tudo bem”: www.neipies.com/nao-esta-tudo-bem/

Edição: A. R.

Existem pessoas cruéis disfarçadas de boas pessoas

Repercutimos esta importante publicação da Página “A mente é Maravilhosa” sobre as diferentes formas das pessoas se disfarçarem, passando-se por boas pessoas.

Existem pessoas cruéis disfarçadas de boas pessoas. São seres que machucam, que agridem por intermédio de uma chantagem emocional maquiavélica baseada no medo, na agressão e na culpa. Aparentam ser pessoas altruístas, mas na verdade escondem interesses ocultos e frustrações profundas. 

Muitas vezes ouve-se dizer que “quem machuca o faz porque em algum momento da vida também já foi machucado”. Que quem foi magoado, magoa.No entanto, ainda que por trás destas ideias exista uma base verídica, existe outro aspecto que sempre nos custa admitir: A maldade existe. 

As pessoas cruéis, por vezes, dispõem de certos componentes biológicos que as empurram em direção a determinados comportamentos agressivos.

“Não há maldade mais cruel que a que nasce das sementes do bem.” (Baldassare Castiglione)

O cientista e divulgador Marcelino Cereijudo nos assinala algo interessante. Não existe o gene da maldade, porém há certos aspectos biológicos e culturais que a podem propiciar”.A parte mais complexa deste tema é que muito frequentemente tendemos a buscar rótulos e patologias em comportamentos que simplesmente não entram dentro dos manuais de psicodiagnóstico.

Os atos maliciosos podem ocorrer sem que exista necessariamente uma doença psicológica subjacente. Todos nós, em algum momento da nossa vida, já conhecemos uma pessoa com este tipo de perfil. Seres que nos presenteiam com bajulação e atenção. Pessoas agradáveis, com êxito social, mas que em privado delineiam uma sombra obscura e alargada. Na profundeza dos seus corações respira a crueldade, a falta de empatia, e até mesmo a agressividade

Como se defender da crueldade camuflada

No nosso cotidiano, nem sempre nos relacionamos com pessoas cruéis. Porém, somos vítimas de outro tipo de interações: as de falsa bondade, a agressividade encoberta, a manipulação, o egoísmo sutil, a ironia mais daninha, etc.

“O mundo não está ameaçado pelas pessoas más, e sim por aquelas que permitem a maldade.” (Albert Einstein)

Estes comportamentos podem ser resultado de vários aspetos. Carência de inteligência emocional, um ambiente pouco afetivo onde a pessoa cresceu ou até mesmo um déficit na liberação da oxitocina. Tudo isto talvez determinará essa agressividade mais ou menos encoberta. De qualquer forma, não podemos esquecer que quando falamos de agressividade, não estamos nos referindo exclusivamente ao dano físico. 

A agressão emocional, a instrumental ou a verbal são feridas menos denunciáveis devido à necessidade de serem provadas, mas são mais corriqueiras e por isso temos que nos defender. Explicaremos como.

Pessoas cruéis: saber reconhecê-las e evitá-las

Todos podemos ser vítimas das pessoas cruéis. Não importa a idade, o status ou as nossas experiências anteriores. Este tipo de pessoa pode ser encontrado no meio da família, em ambientes de trabalho e em qualquer outro cenário. No entanto, podemos identificá-las de várias formas.

  • A pessoa de coração obscuro nos seduzirá com a mentira. Elas irão se camuflar por trás de palavras bonitas e atos nobres, mas pouco a pouco surgirá a chantagem. E mais tarde, a criação do medo, da culpa e da violência mental.
  • Perante estes mecanismos, cabe apenas uma opção: a não-tolerância. Não importa que seja a nossa irmã, nossa parceira ou um colega de trabalho. Os perturbadores da calma e do equilíbrio só buscam uma coisa: acabar com a nossa autoestima para ter o controle.
  • Teremos a sensação clara de que não há saída. De que elas nos têm sob suas redes. No entanto, vale recordar que “é mais poderoso aquele que é dono de si mesmo”. Por isso, é importante acabar com o jogo da dominação e da agressividade com determinação.

Os jogos da dominação e da agressividade encoberta são muito complexos. No entanto, é necessário agir com rapidez para remover armadilhas e reagir a ameaças veladas. No momento em que sentirmos desconforto ou preocupação em relação a certos comportamentos, só existe uma opção: a distância.

Assista também: Instagram

Fonte: https://amenteemaravilhosa.com.br/pessoas-crueis-disfarcadas/

Edição: A. R.

A febre de Gaia

De maneira concisa e em termos mais diretos, isso significa dizer que, pela economia dominante que dita os rumos de agora, ajudamos a alterar o funcionamento geral geológico e biológico do planeta.

Dada a dinâmica de um mundo que mercantiliza tudo, ninguém mais coloca em dúvida que esses tempos atuais são marcados pelos excessos antropocêntricos alimentados, sobretudo, por uma economia global destrutiva, agora mesmo entendida como a principal causadora de profundas mudanças no planeta. Assim sendo, em meio as erosões do Antropoceno, diante da civilização do carbono, “jamais a humanidade reuniu tanto poder a tanta desordem, a tantas preocupações e a tantas manipulações, a tantos conhecimentos e a tantas incertezas”, como disse o poeta Paul Valéry, que complementa dizendo que “a inquietude e a futilidade se justapõem em nossos dias”.

Sendo breve e objetivo, a verdade é que a escala de interferência humana no sistema Terra assusta, uma vez que impõe um padrão de degradação da biosfera sem precedente. Como se sabe, a capacidade e as funções dos ecossistemas estão em desequilíbrio; assim como a crise climática global – e isso não é segredo – produz rupturas e abre de vez a possibilidade para se eliminar vidas. Na conta do estresse térmico, por exemplo, a ONU estima que, entre 2030 e 2050, o mundo conhecerá 250 mil mortes humanas ao ano.

O pior é que, nessa coordenada, uma vez apartados de uma relação harmônica com a natureza, ainda temos dificuldade de pensar nos direitos da Terra, pouco questionamos a tecnologia dominante e seguimos, como de costume, enquanto “sociedade de hiperconsumo”, como gostava de falar Gilles Lipovetsky, muito mais atentos à política de desenvolvimento.

Nesse entorno, não nos damos conta de que, para cada dólar investido na proteção da natureza, o mundo gasta mais de 30 dólares na sua destruição, como consta no relatório “Estado das Finanças para a Natureza 2026”, lançado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), em janeiro de 2026.

Seja como for, soa razoável dizer que, a par de toda essa moldura do atual capitalismo destrutivo, tanto mais as ameaças ambientais se multiplicam. Para falar abertamente, são ameaças sobre a regulação do clima, sobre a reciclagem de nutrientes, sobre a manutenção do equilíbrio ambiental, sobre a falta de conservação dos ecossistemas. Ou seja, um mundo em descontrole, diante dessa atual lógica de destruição socioambiental. Mas não é só isso. A temperatura da Terra fora de controle e a biodiversidade erodida numa velocidade assustadora – afinal, os números não mentem: no reino da vida selvagem, uma espécie desaparece por dia.

Portanto, estamos falando às claras de males civilizatórios que afetam sobremaneira o desempenho do sistema vida.

Males que aumentam os perigos ecológicos. Nessa era dos combustíveis fósseis, todos estamos envolvidos nisso.

Por um lado, cumprindo determinações concretas, sempre em nome da noção de progresso e evolução social, vamos ordenando globalmente as sociedades. Clóvis Cavalcanti, voz de referência da economia ecológica, diz que agimos “como se não existisse aquilo que se chama de degradação entrópica, à qual tudo na Terra é submetido”.

Ora, de maneira concisa e em termos mais diretos, isso significa dizer que, pela economia dominante que dita os rumos de agora, ajudamos a alterar o funcionamento geral geológico e biológico do planeta.

Dentro dessa perspectiva, sem que desobedeçamos a racionalidade econômica, é fato concreto que já fomos longe demais com nossos abusos.

Agora mesmo, para falar como o físico Henry Kendall, “humanos e mundo natural estão numa rota de colisão”. Ou seja, temos um planeta doente, uma Terra cansada.

Não por acaso, no momento mais grave da crise do meio ambiente, vários estudos mostram que 25% da massa terrestre já foi alterada pela ação antrópica. Pelo menos 20% das terras agrícolas do mundo estão degradadas. E já inauguramos a mais nefasta erosão da biodiversidade.

Na sequência, vale dizer ainda que nada menos que 47% das bacias hidrográficas do mundo já apresentam sinais de esgotamento e metade das zonas úmidas do planeta (pântanos, mangues, charcos, trufeiras) já desapareceu devido aos impactos da agricultura, urbanização e poluição atmosférica, esta última, classificada pela ONU como a “maior assassina do planeta”, responsável por um quarto das mortes prematuras e doenças em todas as partes do planeta.

Pela cultura do capital que não respeita os limites ecológicos, já deixamos claro que nossa pegada ecológica excede em 50% a capacidade de regeneração e absorção do planeta. E assim seguimos produzindo estragos generalizados nos quatro ecossistemas que fornecem nossos alimentos – florestas, pradarias, pesqueiros e terras agrícolas.

Já fizemos desaparecer em menos de duas décadas algo como três milhões de quilômetros cúbicos de gelo dos oito que existiam no Polo Norte e, se a tendência for mantida, tanto mais aprofundaremos as alterações antropogênicas, desregularemos ainda mais a temperatura terrestre, desequilibraremos ecossistemas inteiros e empobreceremos de vez a diversidade biológica da Terra, afetando diferentes seres vivos.

Aliás, já se sabe, por exemplo, que o declínio das populações de insetos avança rápido a ponto de os especialistas chamarem de “apocalipse dos insetos”.

Por sua vez, as plantas estão florescendo mais cedo e algumas espécies de animais – por conta direta das mudanças climáticas, que fique claro – estão diminuindo de tamanho.

Nesse emaranhado, no plano geral, à medida que o sistema dominante devora os recursos do planeta e ameaça o clima global, a economia de curto prazo, que exige mais degradação, segue com seu projeto de modernidade, mesmo com os sistemas climáticos da Terra descompassados e com a resiliência do planeta em risco, e mesmo fechando as portas do supermercado universal para 75% da humanidade na parte Sul do globo.

Diante de todas essas evidências, convém lembrar Walter Benjamin: “a tempestade do progresso nos levou à catástrofe”.

Atualizando a narrativa, Ailton Krenak não cansa de dizer, sobre isso, que “o organismo de Gaia está com febre porque nós, os humanos, somos os únicos que temos a capacidade de incidir sobre esse organismo de maneira desordenada. E estamos ameaçando outras vidas, outras existências, causando uma febre neste organismo”.

Assim sendo, fechando o raciocínio, temos o dever de entender como mais um sinal de alerta (quiçá, um lembrete de urgência) as contundentes palavras do Dalai Lama: “É senso comum que não conseguiremos sobreviver se continuarmos trabalhando contra a natureza”.

Autor: Marcus Eduardo de Oliveira. Economista e ativista ambiental. Mestre em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo (USP), pelo Programa de Integração da América Latina (Prolam). Delegado do CORECON_SP por Osasco/SP. Autor de Civilização em Desajuste com os Limites Planetários (CRV, 2018) e A Civilização em Risco (Jaguatirica, 2024), entre outros. prof.marcuseduardo@bol.com.br Também escreveu e publicou no site Humanos, essa força geológica: www.neipies.com/os-humanos-essa-forca-geologica/

Edição: A. R.

CARTAS PEDAGÓGICAS: O que aprendemos com PAULO FREIRE?

Dos diversos instrumentos do homem, o mais impressionante é, sem dúvida, o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões de sua vista; o telefone é extensão da voz; ainda temos o arado e a espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação (Jorge Luís Borges)[1].

Estimados e estimadas, há tempo ensaiava mais um livro que pudesse subsidiar nossa caminhada de formação humana no estudo e pesquisa do legado de Paulo Freire. A propósito de prestar-lhe homenagem, no decorrer do trigésimo ano de sua partida, maio/2026-maio2027, anuncio CARTAS PEDAGÓGICAS – o que aprendemos com PAULO FRERE. Certa de que Freire tenha levado um pouco de sol de nosso mundo, somos muitos que abraçamos o compromisso ético, pedagógico e político de impedir seu esquecimento. 

O trabalho aqui concretizado foi intenso e prazeroso. Mexer com memórias desinstala nosso medo de pensar e escrever, exige nossa retirada dos ruídos do mundo, para fazer as lembranças fluir e ordenar a memória no papel. Valeu o esforço, sobretudo, os aprendizados.

Essa escrita, um olhar retrospectivo e projetivo com Cartas Pedagógicas, pretende ser um diálogo pedagógico com educadores, educandos, pesquisadores, engajados e ocupados há tempo com a temática, e outros, agregados, recentemente. Quer também conversar com adolescentes e jovens da educação básica e superior, que antes de conhecer e apreciar os diferentes gêneros literários, lhes é roubada a liberdade, aprisionados às redes digitais. Deseja oferecer alguns elementos de análise de experiências valiosas que contribuíram com o fortalecimento deste debate circular, fazendo a roda girar mais rápido pela força pedagógica multiplicadora de novos grupos e locais de trabalho.

A rigor, pode ser tomada como inventário de um processo que articula estudo e formação, compromisso e elaboração, fundamentada na Educação como Prática da Liberdade. A quem preferir, pode ser um guia de estudo da construção memorial do movimento pedagógico que vem cercando largamente o tema, em diferentes regiões do País, crescendo em estatura e qualidade o trabalho com cartas pedagógicas, para além fronteiras.

Com esse esforço, deseja-se despertar e incentivar a criação de novas iniciativas, que venham alimentar a dinâmica de estudo, pesquisa e escrevivência de Cartas Pedagógicas. Pois, o que já estudamos é minúsculo, comparado ao que está para ser desvendado.

Com mais esta singela obra, espero contribuir com o debate e fortalecimento da temática em questão.

Abraço fraterno,

Isabela Camini. Do Setor de Educação do MST. Doutora em Educação/pela UFRGS.

LANÇAMENTO – março/2026.

Autora: Isabela Camini. Também escreveu e publicou no site Natalino e Anoni: memórias eternizadas no tempo: www.neipies.com/natalino-e-annoni-memorias-eternizadas-pelo-tempo/

Edição: A. R.


[1] BORGES, Jorge Luis. Borges Oral. Madrid, (1999, p. 9).

Senhor! O mundo precisa de paz.

Faz de mim um instrumento da Tua paz, como disse certa feita o santo que revolucionou o conceito de amor e de simplicidade: São Francisco de Assis.

A paz não é apenas ausência de guerra.

A paz não é apenas o abandonar das armas.

A paz é decisão. É ação.

Senhor! O mundo precisa de paz.

Da paz de crianças que aprendam desde cedo a amar e respeitar.

Da paz de adolescentes que convivam com as mudanças sem raivas.

Da paz dos jovens decididos a manter a harmonia do universo.

Da paz dos maduros de todas as idades, que não tenham preguiça de ensinar aos que estão ainda engatinhando pela vida.

Da paz dos velhinhos que se sintam livres e felizes. Que se sintam amados e acolhidos.

Senhor! O mundo precisa de paz.

Da paz dos que pouco têm e, mesmo assim, partilham. Dos que sabem que os bens materiais ajudam, mas não constituem a essência de existir.

Da paz dos que muito têm e, tendo, agem como se não tivessem. E, agindo assim, são desapegados e generosos, e não guardam arrogância nenhuma em seus sentimentos.

Senhor! O mundo precisa de paz.

Da paz das famílias que se fazem Igreja. Das famílias que, cientes da missão de educar, conduzem os filhos pelo legado do amor, da ética, da fé. Das famílias que conseguem viver sem máscaras. Mãe e pai. Mulher e homem. Não há superioridade, mas respeito. Não há violência, mas ternura. Filhos. Filhos nascidos e crescidos em espaço seguro, desde a gestação.

Senhor! O mundo precisa de paz.

Da paz das escolas. Escolas que são espaços de luz e que têm a natural vocação de iluminar os que, iluminados, iluminarão o mundo. Das escolas em que professores, e funcionários, e alunos, e diretores vão construindo, juntos, um espetáculo de amor. Das escolas que, acolhedoras, abrigam os que hão de, no futuro, também saber acolher. Personagens que distinguem o acidental do essencial no aprendizado. Das escolas que ensinam a brincar e a respeitar. De professores que não confundem sisudez com competência. E que aceitam que o sorriso está na moda, e estará sempre.

Senhor! O mundo precisa de paz.

Da paz da comunidade. Do bairro que tem de voltar a conversar. Dos vizinhos que, calados pelo medo, ou pelo tédio, ou pelo ritmo de uma vida acelerada, deixaram de lado o lindo costume de conversar e contar histórias. Das crianças que podiam brincar livres pelas calçadas, enquanto os pais se divertiam ao ver quanto todos podiam ser felizes.

De comunidades que se organizam para vencer a violência e a destruição. Das que sofrem quando sofre um de seus membros. Das que têm a capacidade de se reconstruir a cada vendaval e de contemplar com êxtase a calmaria.

Senhor! O mundo precisa de paz.

Da paz que habita o coração das mulheres e dos homens. Só será possível reconstruir o mundo se reconstruirmos primeiro as pessoas. É de dentro para fora. E como essa paz é fundamental! A paz da serenidade, da sabedoria, da simplicidade. A paz do equilíbrio. A paz do amor. Esse sentimento que faz com que toda nossa ação tenha um sentido. Esse sentimento que faz com que o outro seja tão importante quanto eu mesmo. E que eu, Senhor, consiga agir na minha vida como se Tua fosse a ação. Pensar os Teus pensamentos. Amar o Teu amor.

Senhor! O mundo precisa de paz.

Faz de mim um instrumento da Tua paz, como disse certa feita o santo que revolucionou o conceito de amor e de simplicidade: São Francisco de Assis.

Faz de mim um instrumento da Tua paz comigo mesmo, com os outros com os quais convivo, com o mundo e com aqueles que nem conheço, mas que são também meus irmãos.

Assim seja!

(Livro “Educar em oração”, autor Gabriel Chalita)

Este site já publicou também, de autoria de Gabriel Chalita, a reflexão “Por que meu Deus”?: www.neipies.com/por-que-meu-deus/

Edição: A. R.

Deus! Salve-nos, com urgência, da maldade dos homens que você enviou para nos salvar”

Será que os deuses que estão em guerra? O Deus Persa está em crise?  Alá está temeroso?  Não deu tempo para armar sua população?  Serão massacrados?  Seus mísseis estão superados?  Ou será que para calar uma população inteira e subjugá-la por anos esqueceram de limpar as outras armas!

As grandes empresas que fornecem mísseis, seus CEOs, suas negociatas com os governos de guerra que os compram, sim, eles nunca estiveram tão felizes.  Pedidos que não param de chegar, encomendas inesperadas de última hora, demandas fechadas e programações de novas cargas. A morte encomendada!

Como será que é negociar mísseis de última geração, os que matam mais e melhor?  Como será a consciência dos que apertam o último parafuso de foguetes que, sabidamente, levantam voo para matar? Dormem todos tranquilos?

Estamos na iminência de mais uma guerra?  Depende.

Uma guerra entre os homens, estes pobres homens que decidem em que lugar haverá explosões, já começou. Ou estamos falando de uma guerra entre deuses?

Sim, o nosso deus ocidental está ganhando todas. Há uma engenharia atualizada, uma precisão milimétrica entre os mísseis do deus que está lutando pelo ‘nosso lado’ e do Deus dos outros, que não é cristão.

Há pessoas felizes, ‘honradas’, dotadas de capacidade incomum de destruição para o nosso deus, que sempre gostou de matar e que se nutre da morte e por ela comanda os povos.  Há milhares de anos é assim:  em seu nome, pela sua causa, os homens vêm se matando e se aniquilando. É o deus que ouvimos na narrativa; _faça segundo a sua vontade.

Se bem que desde o Império Romano e sua decadência, passando pelas cruzadas e pelos descobrimentos portugueses e espanhóis, em nome desse mesmo deus, matou-se mais do que em todas as guerras somadas.

Desprezamos o Deus alheio porque achamos que há somente o nosso: daí que nossos mísseis têm a sua bênção.  Não é e nunca foi em nome da liberdade.  Sempre foi em nome do poder e seu deus, na verdade, com d minúsculo, e sua narrativa obtusa de que é único, e, em seu nome, vale invadir, depredar, esmagar e trucidar.  Crianças, inclusive. Mata-se para prevenir.

Não há chances de nos salvar, se deus enviou criminosos para salvar o mundo… Tudo será destruído, com o devido amparo de alguns versículos bíblicos; não teremos a mínima chance de sobreviver lendo somente o Antigo Testamento.

Assista: https://youtu.be/9x7FGbW3IVc?t=114

Se você nasceu vizinho a qualquer destes predestinados na Terra, que pensam serem escolhidos, você será invadido; pelo menos ameaçado.

Na Casa Branca, já vimos orações e mãos dadas, enquanto em sua fronteira, pais são separados dos seus filhos, pelo simples fato de escolherem um país melhor para viver e não morrer pelo tráfico. Uma escolha nada divina:  morrer por gangues no quintal da América esquecida ou morrer na sua fronteira. 

Que deus é este que separa crianças de seus pais, pelo simples fato de emigrarem?  Que deus cruel e sádico que atende os seus filhos em oração, no centro do seu poder, para em seguida permitir que famílias sejam destroçadas em suas beiradas?

Quanta maldade, quanta injustiça em um só mandato em nome de deus: programas de ajuda cancelados, socorro aos países que sempre precisam de assistência, muitos ainda secando suas feridas causadas pelos mesmos cristãos em movimento. Quanta dor e desesperança por estes homens enviados por deus para nos salvar. E, agora, mais guerra!

Será que os deuses que estão em guerra? O Deus Persa está em crise?  Alá está temeroso?  Não deu tempo para armar sua população?  Serão massacrados?  Seus mísseis estão superados?  Ou será que para calar uma população inteira e subjugá-la por anos esqueceram de limpar as outras armas!

Há uma outra pergunta ainda: para crianças indefesas seria preciso bombas tão grandes?  Porque poderiam economizar em letalidade e conteúdo; elas morrem de qualquer forma. Ou explodindo suas cabeças pequenas por mísseis abençoados, por homens malditos que falam em nome de deus; ou por abandono e fome. Na Guerra, o pavor do olhar de uma criança deveria valer mais que todo o arsenal do país agressor.

Quem faz a guerra não vai para guerra.  Possivelmente seus filhos estão protegidos. Os filhos dos outros é que vão.

Os que morrem não terão a chance em falar dos seus motivos reais. Os que sobrevivem sim: terão a sua oportunidade de mentir e construir suas narrativas.

Afinal, desde Herodes, esse deus tem passado a mão na cabeça de homicidas e infanticidas, e quase nada lhes acontece.  Um míssil errado, uma escola explodida e o que se ouve é que foi dano colateral.  A escola e seus alunos estavam no lugar errado. Ou será que matar crianças é uma estratégia para que não se tornem adultos incômodos? Terroristas!

Até quando?

Até o dia em que Deus desmascarar a humanidade e seus criminosos, eleitos pelo voto com a incumbência de levar a ‘pax cristã’ ao resto do mundo. Não é por acaso que vemos templos religiosos com a bandeira do país estampada. Não é sede de fé; é fome de poder.

Deus nos salve de tais homens. 

Que a paz na Terra nos seja dada pela graça do verdadeiro Deus e sua vontade, mas que Ele nos ouça e nos ajude a tapar a boca dos acham que podem falar e matar em seu nome.

Assim pedimos!

Leia também: www.neipies.com/steve-cutts-arte-reflexiva-sobre-comportamentos-humanos-na-cultura-atual/

Autor: Nelceu Zanatta. Também escreveu e publicou no site “O fim da empatia é o fim da civilização”: www.neipies.com/o-fim-da-empatia-e-o-fim-da-civilizacao/

Edição: A. R.

Que a guerra não me seja indiferente…

As guerras e os destroços humanos e materiais que elas multiplicam nos são servidos diariamente enquanto jantamos placidamente. Quem teria conseguido a façanha de nos convencer de que são normais e aceitáveis? “Eu só peço a Deus que a guerra não me seja indiferente; é um monstro grande e pisa forte toda pobre inocência desta gente”.

O compositor argentino León Gieco compôs, em 1978, a canção “Sólo le pido a Dios”, que se tornaria uma das suas canções mais conhecidas e lhe daria reconhecimento internacional. A canção é uma espécie de manifesto contra toda espécie de indiferença, desde a sua forma mais inocente e inimputável até a sua forma mais cínica e culpável.

Começa com uma sinceridade comovente: “Eu só peço a Deus que a dor não me seja indiferente, que a morte não me encontre um dia solitário sem ter feito o que eu queria”. E prossegue, questionando até o mandamento de oferecer a outra face a quem nos agride impunemente: “Eu só peço a Deus que a dor não me seja indiferente”.

Ouça a canção na voz de Mercedes Sossa: https://youtu.be/rYaDqtGbskw?t=10

Creio que seria de esperar que essa canção ressoasse hoje em várias traduções nos rádios e nas redes sociais. Não sei exatamente qual foi o vírus que infectou o mundo e destruiu uma das características humanas mais fundamentais: a capacidade de indignar-se. A indiferença se globalizou e passou a ser receitada como estratégia para sobreviver.

As guerras e os destroços humanos e materiais que elas multiplicam nos são servidos diariamente enquanto jantamos placidamente. Quem teria conseguido a façanha de nos convencer de que são normais e aceitáveis? “Eu só peço a Deus que a guerra não me seja indiferente; é um monstro grande e pisa forte toda pobre inocência desta gente”.

Os chefes do mundo promovem guerras apelando a desculpas defensivas, preventivas e até humanitárias. Mas a guerra é sempre injustificável. “Toda a guerra deixa o mundo pior do que o encontrou. A guerra é um fracasso da política e da humanidade, uma rendição vergonhosa, uma derrota perante as forças do mal” (Papa Francisco).

Para os cristãos, as razões da paz devem ser sempre mais fortes do que os interesses particulares (econômicos ou políticos) e a ingênua confiança na força das armas. Apostar na guerra denota a falta de uma visão de futuro e de uma consciência compartilhada sobre o nosso destino comum, diz o Papa Francisco (cf. Fratelli tutti, § 261).

Aceitemos o pedido do Papa, e não disfarcemos nossa indiferença pecaminosa com cínicas discussões teóricas. Toquemos a carne de quem sofre os danos das guerras. Consideremos a verdade das vítimas, olhemos a realidade com os seus olhos e escutemos as suas histórias com o coração aberto. Assim poderemos reconhecer a monstruosidade da guerra, e faremos pouco caso se nos tratam como ingênuos por defendermos a paz.

Autor: Dom Itacir Brassiani msf Bispo da Diocese de Santa Cruz do Sul. Também escreveu e publicou no site “Desarmar o coração e reconstruir a paz”: www.neipies.com/desarmar-o-coracao-e-reconstruir-a-paz/

Edição: A. R.

Jesus: a síntese perfeita

Em Cristo, não há separação entre fé e vida, entre pensar e viver, entre crer e existir. Ele é a síntese perfeita porque é o ponto onde o eterno toca o tempo, onde o invisível se faz carne, onde o amor se torna história.

Em Cristo encontramos a síntese perfeita entre fundamento, essência e existência.

Ele não é apenas alguém que aponta uma direção; Ele é o próprio chão sobre o qual pisamos. Não é apenas quem ensina sobre a vida; é a própria vida pulsando no íntimo do ser. Não é apenas quem diz a verdade; é a verdade que sustenta tudo o que é.

Quando afirmou ser o caminho, a verdade e a vida, Jesus não estava oferecendo três conceitos desconectados, mas revelando uma realidade indivisível. Caminho é fundamento, aquilo que sustenta nossos passos e dá direção ao movimento. Verdade é existência, aquilo que permanece quando todas as ilusões se desfazem. Vida é essência, o sopro interior que nos faz ser quem somos.

O apóstolo Paulo declarou, em Atos dos Apóstolos 17:28, que “nele vivemos, nos movemos e existimos”. Essa afirmação ecoa como uma chave ontológica e espiritual. Nele vivemos, nossa essência encontra sentido, propósito e pulsação. Nele nos movemos, nossos passos deixam de ser erráticos e passam a ter direção e fundamento. Nele existimos, nossa própria realidade deixa de ser fragmentada e encontra coerência na verdade que não se desfaz.

Cristo é o fundamento que impede o colapso, a essência que impede o esvaziamento e a existência que impede o absurdo. Fora dele, o ser se fragmenta; nele, o ser se integra. Fora dele, buscamos identidade em máscaras; nele, descobrimos quem sempre fomos chamados a ser.

Em Cristo, não há separação entre fé e vida, entre pensar e viver, entre crer e existir. Ele é a síntese perfeita porque é o ponto onde o eterno toca o tempo, onde o invisível se faz carne, onde o amor se torna história.

Nele, fundamento não é rigidez, é segurança.

Essência não é abstração, é vida pulsante.

Existência não é acidente, é propósito.

E assim, ao nos ancorarmos nele, deixamos de apenas sobreviver, passamos a existir com sentido.

Autor: Hermes C. Fernandes. Também escreveu e publicou no site “Do Cristo genérico e do Cristo autêntico”: www.neipies.com/do-cristo-generico-e-do-cristo-autentico/

Edição: A. R.

Sem flores, sem festa, sem comemorações: dia 8 de março é um convite para memória, reverência e demanda por políticas públicas

No Brasil, a visibilidade da violência contra mulher ganha espaço e reconhecimento formal com a publicação da Lei Maria da Penha em agosto de 2006. Há vinte anos atrás nosso país revelava que o espaço da vida privada é território onde se reconhece a ocorrência de crimes e se aplica a legislação brasileira.

De acordo com Organização Mundial de Saúde, a violência exige estudos constantes para que sejam formuladas estratégias de entendimento, prevenção e enfrentamento. Trata-se de fenômeno que deita suas raízes sobre múltiplos fatores como biológicos, sociais, culturais, econômicos e políticos, sendo inviável a pretensão de um conceito único. Essa impossibilidade é resultante da compreensão de que se trata de fenômeno, o qual se apresenta em variadas formas e é baseada no parâmetro social vigente para comportamentos aceitáveis e inaceitáveis. Portanto, passa pelo filtro da cultura e dos valores morais presentes. 

A complexidade aumenta quando se fala em violência contra meninas e mulheres, a tal ponto considerada uma urgência global que foi incluída pela ONU na Agenda 2030, como um dos 17 objetivos centrais para se atingir o desenvolvimento sustentável, eis que a ODS 5 (objetivo do desenvolvimento sustentável) refere-se à Igualdade de Gênero. Porém, apesar desse protagonismo num cenário de desenvolvimento social, econômico e político do planeta, o que se observa e a intensificação da desigualdade e o aumento da violência.

No Brasil, a visibilidade da violência contra mulher ganha espaço e reconhecimento formal com a publicação da Lei Maria da Penha em agosto de 2006. Há vinte anos atrás nosso país revelava que o espaço da vida privada é território onde se reconhece a ocorrência de crimes e se aplica a legislação brasileira.

Na famosa Lei Maria da Penha se alinha as diversas formas de violência contra a mulher. Sinteticamente: a) violência física, qualquer conduta que ofenda o corpo da mulher provocando-lhe lesão corporal; b) violência psicológica, conduta que cause dano de ordem emocional com diminuição ou inibição – total ou incompleta – da autoestima, ou prejudique de qualquer maneira o desenvolvimento da saúde psicológica e autodeterminação. Resumindo, toda ação ou omissão que dela decorra humilhação, ridicularização, sofrimento e/ou medo; c) violência sexual, qualquer conduta que obrigue a mulher a participar, assistir ou manter relação sexual de qualquer ordem não desejada.

Quaisquer atos referentes ao uso da força ou da intimidação que possam dar causa a casamentos, prostituição, aborto, comercialização da sexualidade não queridos pela mulher; d) violência patrimonial, quando se configuram retenção, subtração, destruição, violação de bens, sejam eles objetos, valores, instrumentos, ferramentas de trabalho e documentos; e) violência moral, é aquela que se configura em calúnia, injúria e difamação. Ferem a honra o sentimento da mulher, na maneira como ela se observa e no modo como os demais componentes do corpo social a entendem, isto é, ofende sua imagem.

Além dessas, hoje se luta pela inclusão da violência digital, isto é, quando a vítima é atingida através da utilização dos meios tecnológicos de comunicação e ainda a violência vicária, situações onde para agredir e fazer sofrer a mulher o agressor atinge covardemente seus filhos.

Somando-se a citada Lei, em 2015 a legislação brasileira passa a contemplar a qualificadora do feminicídio presente no delito de homicídio o que vai dar origem ao crime do feminicídio presente no artigo 121-A do Código Penal, com a maior pena máxima prevista na nossa legislação: 40 anos. Aliado a isso foram publicados em 2023 o Pacto Nacional de Prevenção aos feminicídios e em fevereiro de 2026 o Pacto Brasil Contra o Feminicídio.

De acordo com o Conselho Nacional de Justiça (2026) em 2025, a Justiça brasileira julgou, em média, 42 casos de feminicídio por dia, totalizando 15.453 julgamentos, um aumento de 17% em relação ao ano anterior. Foram concedidas 621.202 medidas protetivas, o equivalente a 70 por hora, segundo o Conselho Nacional de Justiça. O disque denúncia – Ligue 180 -, coordenado pelo Ministério das Mulheres, registrou, em média, 425 denúncias por dia em 2025.

No Rio Grande do Sul o feriado de Páscoa de 2025 registrou a tragédia provocada de 10 feminicídios consumados, o ano terminou com 80 casos, prenúncios de um 2026 que até o momento desta escrita contava com 20 mulheres mortas violentamente. De acordo com o CNJ (2026), 85% dos casos de feminicídio ocorreram em relações íntimas e 97% dos feminicidas são homens, companheiros ou ex-companheiros da vítima.

Essa escalada do terror comprova que a previsão do crime de feminicídio e quantidade de pena máxima são necessários, os pactos também necessários, entretanto tudo isso tem sido insuficiente, pois continuamos morrendo. A rua não é segura para nós, para nossas casas se mostram ainda mais perigosas. É preciso dizer que não são todos os homens, mas quase sempre são homens.

Nossa pauta é prioritária e urgente e como tal exige mobilização dos poderes públicos federal, estadual e municipal, a transparência se impõe, afinal pautas urgentes possuem orçamento, mobilização, coordenação e equipes em condições de trabalho. Até o momento, legislação temos, discursos temos, mulheres mortas e homens que matam temos também.

Enquanto estivermos vivas lutaremos, projetos como o Projur Mulher e Diversidadade do Direito UPF resistirão e se multiplicarão! Contudo, o Estado precisa de comprometer e investir em políticas públicas e priorizar na agenda da coisa pública a prevenção e o combate à violência que nos mata.

Dias mulheres virão!

Autora: Josiane Petry Faria. Doutora em Direito com Pós-Doutoramento pela Universidade Federal de Rio Grande, Coordenadora do Projur Mulher e Diversidade, professora Titular da Faculdade de Direito, professora Permanente do Programa de Pós-Graduação em Direito – Mestrado, todos da Universidade de Passo Fundo. Coordenadora estadual da Produção da Científica da Comissão da Mulher Advogada da OAB/RS.

Veja também