As entrevistas com líderes da Igreja demonstram uma tendência, não absoluta, mas recorrente entre os grupos evangélicos, que é a falta de interesse ou participação em pautas sociais e ligadas as comunidades do seu entorno.
Os pentecostalismos no Brasil representam a instituição religiosa mais negra aqui constituída. Em um contexto de pouca problematização sobre o lugar de apagamento e estigmatização sofridos pela população negra em nossa realidade, mesmo leis como a 10.639/2003 que torna o ensino de História da África e Cultura Afro Brasileira se deparam com uma estrutura social, ideológica e política.
O espaço no qual a pesquisa de campo foi desenvolvida foi estabelecido pela sua relevância central para o debate quanto a questão do racismo sistêmico em nossa sociedade e como o fenômeno das religiões e religiosidades podem ser um sinal dessa prevalência.
Pensar o racismo no Brasil é compreender a própria formação social que estrutura a operacionalização do que é se perceber enquanto país.
Porém, um viés ainda subestimado é a função racializada que espaços religiosos podem representar, e nesse sentido os pentecostalismos apresentam particularidades muito intrigantes que se demonstram presentes na Igreja Evangélica Assembleia de Deus no Bairro da Liberdade que se situa dentro do Território Quilombola Urbano da Liberdade no centro da cidade de São Luís, capital do estado do Maranhão.
A abordagem do trabalho foi encaminhada adotando os depoimentos de líderes da Igreja para compreender suas visões e perspectivas e como a instituição lida com efervescência cultural e religiosa necessariamente negras.
Inúmeras realidades são vivenciadas no Quilombo da Liberdade, a riqueza do Boi de seu Leonardo, os espaços de cultura negra que tipificam a africanidade de uma territorialidade que pulsa ancestralidade e pertencimento assim como o CISAF.
Os bairros da Camboa, Liberdade, Sítio do Melo, Diamante e Fé em Deus carregam em si uma conotação histórica que se confunde com a constituição das origens da Ilha Upaon Açú. Desde os primeiros moradores vindos de Alcântara com uma presença significativa de quilombolas que passam a ressignificar seus elementos e símbolos no espaço urbano ludovicense.
Nesse processo de construção da base fundamental do Território da Liberdade no ano de 2019 desponta a aprovação de sua certificação como Quilombo Urbano, o maior do Brasil e que configura a realidade maranhense enquanto uma espacialidade de diversidade e negritude extremamente enraizadas nas suas mais plurais manifestações e panoramas. No entanto, o viés religioso, manifesto em determinadas cosmovisões de sagrado, ainda apontam para essa condição do ser quilombola com estranhamento ou mesmo sem diálogo.
As entrevistas com líderes da Igreja demonstram uma tendência, não absoluta, mas recorrente entre os grupos evangélicos, que é a falta de interesse ou participação em pautas sociais e ligadas as comunidades do seu entorno.
Nesse sentido emerge a problemática que Goffman argumenta como central enquanto percepção explicativa para as relações humanas, pois o estabelecimento do estigma e o modo como as linguagens dentro do real o legitimam fazem toda uma narrativa se consolidar. Portanto a medida que a Igreja mesmo estando fisicamente presente, com um endereço no Território do Quilombo Urbano, o maior ponto de convergência que coaduna seus moradores que era justamente a Certificação enquanto Quilombo Urbano passou de forma ilesa pela AD da Liberdade.
Uma das contradições observadas também à medida que as falas eram compartilhadas era a resistência em relação a identidade negra do Quilombo da Liberdade, ou seja o duplo pertencimento, ser quilombola e pentecostal/assembleiano se demonstrava como algo inválido para os líderes da Igreja com a máxima do “Não se pode servir a dois senhores”.
Conflito entre o Ser Quilombola e o Ser Pentecostal

Disponível em: https://turismo.ig.com.br/destinos-nacionais/2024-01-05/maior-quilombo-urbano-da-america-latina.html. Acesso em: 11/11/2025.
Diante disto se expressa uma característica histórica dos pentecostalismos, a essência de seu modus operandi que é o proselitismo religioso, muito calcado na concepção ancorada na Bíblia sobre o Ide de Cristo e a constante necessidade de fazer discípulos buscando a sua conversão.
A origem das Igrejas Pentecostais se volta muito para a experiência dos dons, com ênfase no falar em línguas. Apesar de hoje existirem outras narrativas sobre como o movimento pentecostal começou no mundo a sua pertença ao Milagre da Rua Azuza ainda é um discurso bastante proeminente. Portanto, é intrigante perceber que uma Igreja e forma de ver a fé se iniciou entre negros nos Estados Unidos da segregação racial no início do século XX e que no século XXI em um país como o Brasil, marcado pela presença negra mas ainda refém de um estereotipia do seu lugar na sociedade instituições como as Assembleias de Deus que arrogam que representam um lugar para todos, podem também se organizar numa dinâmica de racismo religioso.
AUTORES DESTA PUBLICAÇÃO: Marcus Vinicius de Freitas Reis e Rímilla Queiroz de Araújo.
Autor da Coluna: Marcus Vinicius de Freitas Reis. Também escreveu e publicou no site “A importância das religiosidades indígenas nas aulas de Ensino Religioso”: www.neipies.com/a-importancia-das-religiosidades-indigenas-nas-aulas-de-ensino-religioso/
Edição: A. R.












A origem das Igrejas Pentecostais se volta muito para a experiência dos dons, com ênfase no falar em línguas. Apesar de hoje existirem outras narrativas sobre como o movimento pentecostal começou no mundo a sua pertença ao Milagre da Rua Azuza ainda é um discurso bastante proeminente. Portanto, é intrigante perceber que uma Igreja e forma de ver a fé se iniciou entre negros nos Estados Unidos da segregação racial no início do século XX e que no século XXI em um país como o Brasil, marcado pela presença negra mas ainda refém de um estereotipia do seu lugar na sociedade instituições como as Assembleias de Deus que arrogam que representam um lugar para todos, podem também se organizar numa dinâmica de racismo religioso.
AUTORES DESTA PUBLICAÇÃO: Marcus Vinicius de Freitas Reis e Rímilla Queiroz de Araújo.