Os perigos das telas para nossas crianças

1497

Os entusiasmados com es tecnologias reagem dizendo que as crianças e jovens leem no celular e no computador e, talvez, aí esteja o grande problema. É ilusório para Dermurget (2024) acreditar que “as crianças estão lendo nas telas” ou dizer que “as crianças nunca leram tanto”. Entretenimento com as telas, a maioria das vezes assistindo vídeos ou consumindo jogos eletrônicos e propagandas de produtos, não é o mesmo que ler bons livros “para desenvolver competências linguísticas complexas”.

O título deste escrito é retirado do livro A fábrica de cretinos digitais de Michel Desmurget (2023), considerado um dos mais prestigiados neurocientistas do mundo, doutor em Neurociências e diretor do INSERM (Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica da França). O livro tornou-se um best-seller e certamente uma leitura obrigatória para pais, professores, gestores e todos aqueles que estão comprometidos com a educação humanizadora e com a saúde psíquica dos seus filhos.

A tese geral apresentada por Desmurget (2023) é de que o uso excessivo de telas pelas crianças está causando efeitos preocupantes reais às suas capacidades cognitivas, emocionais, sociais e físicas.

Crianças expostas sem nenhum tipo de controle por parte dos pais ou responsáveis tendem a apresentar profundos distúrbios no seu desenvolvimento intelectual, perturbações emocionais em termos de auto controle, dificuldade de relacionamentos saudáveis com seus pares e até mesmo problemas físicos que vão da obesidade a deficiências de visão. Para o pesquisador francês, nesta geração expostas às telas, pela primeira vez na história, observa-se um declínio no QI (quociente de inteligência) de filhos em comparação aos pais.

Desmurget (2023) chama atenção ao fato de que o perigo das telas é tão eminente e preocupante que muitos profissionais de tecnologia, que trabalham com telas o tempo inteiro, são cautelosos e deliberadamente limitam o uso de telas para seus filhos, porque sabem do quanto seu uso excessivo pode ser altamente prejudicial.

As críticas de Desmurget (2023) ao uso das telas não são panfletárias ou ideologicamente influenciadas. São críticas baseadas em estudos e pesquisas cuidadosamente produzidas nas últimas duas décadas em diversas partes do mundo. As médias diárias do uso de diferentes faixas etárias, indicam o quanto estamos silenciosamente formatando uma geração de dependentes midiáticos: crianças de 2 a 8 anos passam em média mais de 3 horas/dia em telas; de 8 a 12 anos, sobre média para 5 horas/dia; adolescentes, quase 7 horas/dia. Importante constatar que são horas retiradas de outras atividades, como convivência social, atividade física, estudo, sono dentre outras.

Esse uso excessivo das telas produz um conjunto de impactos:  o desenvolvimento da linguagem, a capacidade de atenção, os exercícios de memória e a capacidade de concentração são alguns dos impactos cognitivos; depressão, agressividade e transtornos comportamentais são alguns dos impactos emocionais; distúrbios do sono, obesidade e problemas cardiovasculares são alguns dos impactos físicos; dificuldade de escuta, impaciência e dificuldade de trabalhar em grupo são alguns dos impactos sociais.

Talvez seja urgente e necessário, seguindo os alertas de Desmurget (2023), desconstruir certos mitos que foram sendo criados em torno das tecnologias. O primeiro deles e talvez o mais reverenciado diz respeito ao termo idealizado de “nativos digitais” referindo-se a ideia de que crianças nascidas imersas no digital já teriam uma adaptação cognitiva superior.

Para o neurocientista francês, não há evidência científica que sustente que nascer no ambiente digital confere vantagens cognitivas inerentes. Um segundo mito diz respeito a crença de que tecnologia sempre melhora educação ou aprendizado.

Para Desmurget, muitas políticas educativas, entusiasmadas com as novidades, apelam para as iniciativas tecnológicas, sem questionar ou calcular os custos altíssimos dos investimentos e sem apropriar-se de estudos que mostram outras formas aprimorar e melhorar a educação ou o aprendizado investindo em outros aspectos formativos dos professores e dos alunos.

Um aspecto problemático e altamente preocupante para o campo educacional formativo, diz respeito a diminuição da leitura das futuras gerações atestadas por diversos estudos. Numa entrevista concedia a Veja e publicada em suas páginas amarelas em 5 de abril de 2024, Desmurget foi enfático ao dizer que “numerosos estudos confirmam que nos últimos cinquenta anos o tempo de leitura diminuiu drasticamente, e isso está relacionado ao aumento do tempo dedicado às telas”. A ocupação dos filhos com o entretenimento digital é “roubada” e modo especial da leitura, e “à medida que os mais novos leem menos, cai também a proficiência em leitura”, e com isso “o declínio da competência linguística”.

Os entusiasmados com es tecnologias reagem dizendo que as crianças e jovens leem no celular e no computador e, talvez, aí esteja o grande problema. É ilusório para Dermurget (2024) acreditar que “as crianças estão lendo nas telas” ou dizer que “as crianças nunca leram tanto”. Entretenimento com as telas, a maioria das vezes assistindo vídeos ou consumindo jogos eletrônicos e propagandas de produtos, não é o mesmo que ler bons livros “para desenvolver competências linguísticas complexas”.

O que circula nas telas de forma inflacionada nas redes sociais e nos milhares de sites, é um conteúdo “pobre demais do ponto de vista linguístico”, e os estudos mostram, segundo Desmurget (2024; 2023), impacta negativamente quando analisamos o desempenho das crianças e jovens “nas habilidades com o idioma e o desempenho acadêmico”. As consequências para a formação cidadã é catastrófica e previsível.

Quando perguntado pela Veja sobre a forma “como vislumbra o futuro da humanidade” se continuarmos a perder de forma acelerada a formação de leitores de livros para os consumidores de telas, Dermurget (2024) responde dizendo que ao deixarmos de ler livros “perdemos uma parte essencial daquilo que nos torna humanos”. E acrescenta: “não é por acaso que os livros e a linguagem têm sido consistentemente alvos das ditaduras implacáveis”. Assim foi com o nazismo da Alemanha de Hitler, que mandou queimar 100 milhões de livros e considerava que “a literatura era um veneno para as pessoas”, e assim continua acontecendo com as ditaduras contemporâneas em experiências recentes, inclusive no Brasil.

Se fizermos hoje uma enquete no Congresso Nacional, nas Assembleias Legislativas Estaduais ou mesmo nas Câmaras de Vereadores dos mais de 5 mil municípios do Brasil, ficaríamos surpresos com a constatação de que a grande maioria dos deputados ou vereadores que nunca leram um livro de literatura. Em sua atuação como vereadores ou deputados (homens públicos por ocuparem este cargo) têm visivelmente tendências autoritárias e posicionamentos desumanizantes na proposição de seus projetos para a condução dos rumos da sociedade. Isso quando eles têm projetos, porque em sua maioria são incapazes de compreender sua própria função de gerir o bem comum e as ações do coletivo público.

O pior problema dos políticos brasileiros e desconhecerem ou ignorarem sua própria função, pois não se veem como homens públicos e sim como representantes de grupos econômicos que bancam suas campanhas e transformam o espaço público num espaço privado. Geralmente são perseguidores dos direitos humanos, refratários às políticas afirmativas e chamam de “comunistas” todos os que lutam por “justiça social”.

Nossa extrema direita no Brasil não gosta de livro e não vê com simpatia quem lê bons livros. Seu amor ao dinheiro é diretamente proporcional ao ódio que destilam contra todos os aqueles que lutam em defesa das causas sociais e em defesa da preservação ambiental.

Por aí entendemos os discursos de ódio cada vez mais frequentes na forma como atua a extrema direita. Para eles livros são inúteis, perda de tempo e devem ser evitados por todos aqueles que querem o progresso econômico e a produção de uma sociedade de consumidores. A natureza não é vista por eles como casa comum, como nosso lar coletivo que precisa ser cuidado, preservado e compartilhado para o bem estar de todos. A natureza é para eles uma propriedade que dever ser extorquida, explorada, usurpada para produzir lucros para os que são mais expertos. E assim, caminhamos a largos passos para nosso próprio extermínio da espécie.

Por fim, o próprio Desmurget (2023) apresenta algumas recomendações/orientações no que diz respeito aos perigos das telas para nossas crianças. A primeira delas é limitar o tempo de uso das próprias telas. Bebês não deveriam ser expostos ao seu uso, crianças pequenas deveriam ter poucos momentos e adolescentes deveriam ser cuidadosamente acompanhados por evitar sejam vítimas frágeis da exposição às telas. Uma segunda orientação diz respeito evitar telas em momentos críticos das rotinas das crianças como antes de dormir, usar as telas como distração em momentos que requer a atenção dos adultos. As telas não podem substituir a interação dos pais no processo formativo dos filhos.

Escolher conteúdos adequados, privilegiando atividades que estimulem a leitura, as interações humanas, atividades físicas, atividades musicais, artísticas, expressivas que promovam processos de sensibilização, de humanização. Tornar a leitura de bons livros um hábito diário que pode ser feito em família, principalmente com as crianças pequenas. A leitura não é uma atribuição apenas da escola, e esta consegue muito pouco se não tiver a contrapartida da família. Menos telas e mais livros se torna uma aposta de humanização para que possamos promover uma infância mais saudades para nossas crianças.

Para os que estiverem interessados, além do livro indico a resenha publicada na Revista Espaço Pedagógico do PPGEdu/UPF. Segue os links de acesso: https://www.researchgate.net/publication/383940286_fabrica_de_cretinos_digitais_os_perigos_das_telas_para_nossas_criancas ou https://seer.upf.br/index.php/rep/article/view/15723

Referências:

DESMURGET, Michel. A fábrica de cretinos digitais: os perigos das telas para nossas crianças. 1. Ed. São Paulo: Vestígio, 2023.

DESMURGET, Michel. “Os livros nos tornam mais humanos”. Veja, publicado em 5 de abril de 2024. Disponível em: https://veja.abril.com.br/paginas-amarelas/os-livros-nos-tornam-mais-humanos-diz-neurocientista-michel-desmurget/ Acesso em: 18 de set. 2025.

Autor: Altair Alberto Fáveroaltairfavero@gmail.com Coordenador do Gepes/PPGEdu/UPF. Também escreveu e publicou no site “Formação para dar sentido à vida”: www.neipies.com/formacao-para-dar-sentido-a-vida/

Edição: A. R.

DEIXE UMA RESPOSTA