Natalino e Annoni: memórias eternizadas pelo tempo

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Na maior parte das vezes, lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens e ideias de hoje, as experiências do passado. A memória não é sonho, é trabalho (Ecléa Bosi).

A memória, é, ao mesmo tempo, minha matéria-prima e minha ferramenta. Sem ela, não existe nada (Gabriel Garcia Márquez, 2024, p. 5).

Voltar e pisar outra uma vez a terra, local do acampamento Encruzilhada Natalino e Fazenda Annoni, 40 anos depois, em Pontão/RS, emociona, arrepia e encanta. Faltam olhos para ver aquele território ocupado. Faltam palavras para perguntar: onde foi parar aquela poeira que atravessava os barracos de lona preta, que embaçava os olhos dos acampados, vertendo lágrimas? Como vive e o que faz todo aquele povo que ali resistiu a todas as pressões por vários anos? E aquelas crianças, que corriam e brincavam alegres entre os barracos, aguardando o horário da escola, onde estão e o que fazem hoje?  São lembranças intactas guardadas daqueles tempos, avivadas ao chegar aos dois locais na manhã do dia 24 de outubro/25, reencontrando a mesma casa de tijolos na esquina, a cruz e as pessoas, ouvindo suas vozes em depoimentos testemunhais, passadas quatro décadas.

Tão logo ocorreu o acampamento da Natalino (1981), anunciado pelas rádios de que os pobres estavam à beira da estrada, movida pela curiosidade, visitei as famílias e ouvi delas lições de vida, porque estavam acampadas. Por dias refletindo sobre o que vi e ouvi das pessoas, o sentimento de curiosidade se transformou em solidariedade. Por isso, mais tarde, retornei para morar e conviver com eles por uma semana, experimentando o gosto amargo da poeira que secava a garganta, e o sabor da comida bem preparada nos fogões improvisados.

Junto com uma multidão de gente, celebramos a 5ª Romaria da Terra no dia 23 de fevereiro de 1982 com o lema: Povo unido jamais será vencido. Essa frase, ouvida em alto e bom tom, marcou o reencontro de muitos de nós, na mesma encruzilhada onde os acampados da Natalino, tornaram o movimento, conhecido no mundo. Há 40 anos essa encruzilhada é vista como espaço de tomada de decisões importantes, de escolher qual caminho construir. Para Dom Tomás Balduíno (em memória) que visitou o acampamento, “Natalino é um lugar de memória e de orgulho”.   

Quis o destino que logo em seguida, abril de 1982 fosse morar à beira do Rio Purus no Amazonas, distante 36 horas de barco da capital Manaus. E, muito mais distante da Natalino. Movida pelo desejo de missão em territórios abandonados pela política de educação e saúde, atuei na educação como se quisesse mudar o mundo e formar intelectuais. Lá havia escola até a quarta série, multisseriada. As duas professoras, dedicadas, ensinavam o que sabiam às crianças ribeirinhas, vindas de longe, remando, driblando as ondas do rio Purus, em uma canoa escolar. Com a comunidade, lutamos e conquistamos até à oitava série. A formatura foi uma celebração festiva. Por três anos, entre as águas, as florestas, trocando cartas com familiares e amigos, seguidamente voltava-me a lembrança da Natalino, sem ter notícias do que ocorria com as famílias acampadas. Haviam elas aceitado ir para o Mato Grosso? Haviam vencido o ditador Curió? As crianças haviam parado de morrer? E a saúde do povo, como estava?  E a escola, continuava na lona? Perguntas não faltavam. Respostas não chegavam. Suponho que as cartas haviam se extraviado, pelo vento e pelas águas.   

Ao retornar ao Rio grande do Sul em abril de 1985, fui para a Universidade. Em seguida ao dia 29 de outubro deste ano, soube pela rádio de Erechim, da ocupação da Fazenda Annoni. A lembrança da Natalino se avivou de forma inquietante. Logo em seguida estive lá, em solidariedade. E mais tarde, convivi mais tempo no local, ouvindo as angústias e esperanças do povo. Visitei vários barracos, fiz refeições e tomei chimarrão com eles. De longe os via organizados em pequenos grupos, conversando, à sobra das árvores. Não arrisquei pedir para participar da conversa, por dar-me conta de que haviam segredos de organização, sigilosos. Se vazassem seria um perigo.  

Na marcha histórica à Porto Alegre, em busca de soluções para a Reforma Agrária, caminhei com eles em um domingo, próximo à Bento Gonçalves. Ali se somavam centenas de pessoas, entre apoiadores e alguns curiosos. Após 28 dias de caminhada deste povo, juntei-me à marcha para a chegada à Capital, em 25 de julho de 1986. Éramos uma multidão, em torno de 30 mil pessoas, de todas as idades, cantando os mesmos versos e acertando os últimos passos para chegar à cidade grande. Embora visse seus rostos cansados, pingando suor, e com os pés sangrando, em seu semblante, só lia duas palavras: determinação e coragem. Se havia dor, era escondida. 

Em outro momento, estive na Assembleia Legislativa, onde as mulheres faziam comida em uma cozinha improvisada, para alimentar o povo que permanecia acampado na Praça Matriz, junto com centenas de apoiadores, e também curiosos, jornalistas, fotógrafos, pesquisadores. Ali encontrei a Jorra, a Roseli Nunes, a Cleusa e outras tantas Marias e Teresas. Após dois meses acampados em Porto Alegre, sem a solução alguma para o problema, eles retornaram para Annoni, e se abraçaram aos familiares, que haviam permanecido guardando o acampamento.  

Na sua cabeça, planejavam fazer outras ocupações de terras improdutivas, porque havia pressa de ocupar e plantar para comer. A brigada militar, astuta, armada e truculenta, a mando do Estado, se colocou à sua frente, impedindo os colonos saírem do acampamento. Confrontos inevitáveis que jorravam sangue e dor. De um lado, o Estado opressor, do outro, agricultores lutando por terra para plantar e escola para os filhos. De longe, acompanhava as notícias, às vezes com poucas verdades sobre o acampamento. À noite, custava pegar no sono, lembrando deles.

Em 1986, cursando Pedagogia em Erechim, os professores: Roseli Caldart, Luiz Carlos Lukmann e eu, fomos visitar o assentamento de Nova Ronda Alta, reencontrando famílias que antes estavam acampadas na Natalino. Queríamos conhecer a escola em que Salete Campigotto dava aula, e que na época, cursava Pedagogia na UPF. Fomos recebidos em sua casa, vimos seus filhos correndo de um lado para o outro, ali por perto. Ela tinha pouco tempo de dar-lhe atenção, porque recebia muitas pessoas, e se esmerava contar de onde vieram sem-terra, e como chegaram ali. Mostrava e falava da escola e sua pedagogia com orgulho. O método de alfabetização de Paulo Freire era citado várias vezes, por que nesta escola ela tentava colocá-lo em prática, escrevendo e decifrando o significado das palavras: acampamento, morte, marcha, organização, coletivo, cruz, sino. Soube mais tarde de que faltou pouco para Paulo Freire vir ao assentamento, mas como estava exacerbado de compromissos na Secretaria de Educação em São Paulo, enviou sua equipe para dialogar com a professora e a comunidade, movidos pela ideia de fazer uma escola “diferente”, sem cercas e muros, com direito à conscientização e liberdade à palavra. Por força da organização, os três filhos de Salete, acessaram o ensino superior, assim como os muitos filhos de outros camponeses, também.  Todos vivem com autonomia e determinação.

Essa primeira visita nos motivou a organizar uma turma de Pedagogia da FAPES, hoje Universidade Regional Integrada (URI), a conhecer a experiência da escola do assentamento. Aos que foram a esta visita e prestaram atenção aos relatos da professora Salete, lhes serviu de lição e aprendizado. Retornaram inquietos, desassossegados, se percebendo professoras em escolas urbanas, sem um fio de possiblidade de mudanças, autonomia e consciência de classe. A escola para elas, era seu lugar de trabalho, de sobrevivência, obedientes ao Sistema.  Nesta visita vimos o germinar de uma semente de escola de acampamento/assentamento brotando, e que anos após anos, se espalhou por 24 estados onde o MST está organizado.   

Naquele período no curso de graduação em Pedagogia, relia Pedagogia do Oprimido, e espiei Fundamentos da Escola do Trabalho de M. M. Pistrak, único livro traduzido em Português da experiência de educação socialista (1917 a 1930) à época. Essa leitura fervilhava em minha cabeça, sem poder algum de insurgência. Sabia que meu sustento vinha de uma escola privada, onde atuava, contrariada todos os dias por pensar diferente. Ingênua ainda, queria mudar o mundo, e levar mais gente a ver o que estava acontecendo nos acampamentos do MST. Nesta escola, era vista como um espinho no pé dos professores, indiferentes às injustiças e o acúmulo dos poderosos. A maioria eram contra os sem-terra, sem nenhuma indignação com a riqueza acumulada na carteira de poucos. Entre eles haviam apenas dois, com os quais era possível trocar algumas palavras, quase em segredo.   

Desde então, acompanhei mais ao longe, a luta e resistência do povo acampado, e como se organizavam recomeçando a vida no assentamento, haja visto que a Fazenda Annoni havia sido liberada para plantação. Lembro que em 1991, tão logo as famílias estavam se organizando nas diferentes áreas, circulei por lá para entrevistar pessoas que haviam estado juntos na criação da FUNDEP/DER[1]/1990, que me incumbia de sistematizar. As estradas quase intransitáveis nos levavam, entre um atoleiro e outro, a circular pela Annoni, vendo de longe, as casas improvisadas, alguns tratores em movimento, animais pastando e muita terra plantada. Ali também, os pássaros voam livres, e já ensaiavam construir seus ninhos.

À direta da estrada por onde entramos na Fazenda, ao alto, avistamos um pequeno cemitério. Era ali que dormia para sempre Roseli Nunes (1954-1987), mulher assassinada por que lutava, disposta a contrariar o sistema capitalista que levaria o povo a morrer de fome. Com apenas 33 anos, Roseli foi arrancada de seus três filhos pequenos e da luta, mandada para o além. De lá onde está, nos envia rastro de sol, de ternura e de cuidado. Uma bandeira vermelha, hasteada, ao sol e ao vento, sinaliza aos passantes, onde repousa seu corpo, a sete palmos abaixo da terra, no coração da fazenda Annoni. 

Logo adiante avistamos uma construção diferente, mais estruturada, feita de tijolos e janelas de vidro. Ao seu entorno, um pouco de grama, e no mais, terra vermelha. Era a Escola 29 de Outubro (1990) que já estava de pé, com poucas salas de aula. Já eram os indícios de que a escola havia entrado na luta, e a luta encharcava os saberes da escola. Por isso, creio, em 24 de outubro de 2025, a Escola Estadual de Ensino Fundamental 29 de Outubro, recebeu o Prêmio Pena Libertária, do SINPRO/RS[2]. Uma homenagem merecida pela pedagogia que a engendra, com a alegria das crianças e educadores que circulam livremente pelo espaço bem cuidado, entre árvores e flores, frutos e hortaliças. E também os passarinhos.  Hoje a Escola 29 não se parece mais com aquele de 1990.  

 Nesta época, a terra que soprava poeira aos céus, já estava esverdeada pela plantação que alimentava o povo e os animais. Pensava eu, como dariam conta e construiriam suas vidas naquele descampado, atravessado pelo vento que cortava a alma, e pelo sol escaldante que penetrava em suas cabeças, ainda que quase todos se protegiam com grandes chapéus de palha. Aquela terra vermelha, vista no acampamento, já não era mais a mesma. Estava revolvida. As diferentes plantações tomavam o lugar do capim-annoni. O horizonte ao longe, a lua e as estrelas, não sofriam mais de solidão e do silêncio. O amanhecer e o anoitecer estavam acompanhados de gente, de escola, de hortas e sonhos.

A história, sistematizada e publicizada em muitas obras por pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento, socializadas na tarde ensolarada do dia 24 de outubro, no pátio da Escola 29, nos afirma que a Natalino e Annoni foram os berços onde nasceram as primeiras ideias e lutas pela educação e escolas nos acampamentos e assentamentos do MST. Assim como ali nasce as primeiras ideias de se organizar em Equipe de Educação, seguida da criação do Setor Nacional de Educação, em 1987, em uma reunião em São Mateus, no Estado de Espírito Santo. Aquelas primeiras ideias, nascidas e sistematizadas em poucas linhas, em pequenos cadernos, se espalharam pelo país, juntando gente, sonhos e esperanças. Sem dúvida, foram estas primeiras linhas o semear de muitas sementes, brotadas em lugares onde o povo vivia analfabetizado, sem escola, e por isso sem acesso ao mundo das letras, juntadas na escrita.

A princípio, a luta era por uma escola de acampamento diferente da escola usual capitalista, longe da vida. Com o passar do tempo, em 1996, essa escola, por pressão dos acampados, foi batizada e reconhecida pelo Estado/RS, por Escola Itinerante dos acampamentos do MST. Por isso sua estrutura deveria estar em condições de ser construída e descontruído a depender das circunstâncias e adversidades da luta. Com este formato e com educadores também acampados, a escola acompanhava as marchas, as ocupações. Estava presente, encharcada da vida e da luta dos acampados. Acompanhei a luta por esta Escola Itinerante por 12 anos no Rio Grande do Sul. E a exemplo desta, a criamos em Santa Catarina, Paraná, Goiás, Piauí e Alagoas.

Em 1998 concluí do Mestrado na UFRGS. Por necessidade do Setor de Educação, pesquisei e dissertei sobre a Formação de Professores nas escolas de acampamentos/assentamentos. Com a leitura das obras de Paulo Freire, a ideia era entender mais e melhor a formação pedagógica necessária para trabalhar nas escolas do MST, porque a escola conhecida não agradava e não servia ao projeto de Reforma Agrária. Assim fomos avançando e alargando a luta pela escola, junto com a organização dos setores de educação estaduais. Neste mesmo ano, colocamos na roda da história da educação brasileira o Projeto de educação do campo, hoje com 27 anos. 

Em 2006, retornei à Universidade, buscando estudar de forma sistemática alguns temas. A princípio, sem intenção e desejo de construir tese, convencida por outras pessoas, iniciei o doutorado. Obviamente que a orientação do Setor de Educação foi sistematizar a pedagogia da Escola Itinerante, porque era uma necessidade fazer reconhecer todo o aprendizado desta escola contra hegemônica, como ciência: No decorrer de quase mil dias, tentei responder à pergunta: A Escola Itinerante dos acampamentos do MST é um contraponto à escola capitalista?

Para entendê-la desde seu princípio, “diferente”, for preciso ler tudo o que havia sido escrito sobre a escola iniciada no Natalino, Nova Roda Alta e Annoni. Entrevistei as primeiras professoras e alguns pais.  Entendi que ali foi o berço de pensar e colocar em prática uma escola diferente, contrariando a escola, cuja pedagogia não dialogava com os saberes e contradições do campo, como também o berço de pensar a formação de professores/educadores. Frente as dificuldades de encontrar bibliografia que ajudasse a construir tese, fui buscar apoio em Paulo Freire. Com ele, compreendi que a realidade, viver as experiências, conversar e ouvir o povo, em boa medida teria elementos suficientes para fundamentar a tese. Assim, mergulhei na realidade, escutei o povo, fiz várias vezes e mesma pergunta, até entender o projeto, já claro em suas cabeças, mas não ainda na minha. Entre idas e vindas para os acampamentos, as marchas e ocupações ao encontro da escola itinerante, mesmo a encontrando “queimada pela brigada militar na ocupação da Fazenda Guerra, a mando do Estado, pude entender a sua dinâmica, o conteúdo e a Pedagogia do Movimento que a embasava, sistematizada em tese por Roseli Caldart em 1999.   

Em 2009, após escrever sobre uma escola em luta, com todo o cuidado, e validar o que escrevia com os educadores itinerantes, a tese estava concluída. Era hora de submetê-la à banca de avaliadores na Universidade, com todo o ritual que nos impõe. Apresentada a mais de 100 pessoas na Faced/UFRGS, aprovada pela banca examinadora, respirei fundo, segura de que havia sido reconhecida como ciência uma forma escolar que daria conta do projeto social daquele povo que lutava por outro modo de vida, e que a escola precisa estar junto, e refletir a sua pedagogia[3].

Ao descer os sete andares da Faced, e chegar ao pátio, fui surpreendida por inúmeras crianças Sem Terrinha, acampadas em frente a FACED. Elas vieram dos acampamentos próximos para encontrar-me, e saber o que havia escrito e apresentado em tese, sobre sua Escola, “aos estranhos” a elas. Vestidas de festa, com cantorias, poesias, e fortes gritos de ordem, fizeram perguntas, e atentamente ouviram minha tentativa de respondê-las em linguagem infantil. Portando a bandeira do Movimento, me deram flores e abraços apertados. Ali tive a nítida comprovação de que a verdadeira banca se fazia com aquelas crianças, que tinham a Escola Itinerante como sua casa, e não como casa alheia. Foi nestas escolas que encontrei o suporte metodológico e de conteúdo para costurar uma tese, publicada em livro: Escola Itinerante – na fronteira de uma nova escola. Olhando para aquelas crianças, as reconheci como as verdadeiras educadoras/pedagogas de mim. Eram elas que poderiam aprovar ou não o que havia visto e sistematizado em 12 anos, forjando a criação de escolas e acompanhando a construção da Pedagogia do Movimento.     

Recentemente, em 2022, me reencontrei com a Escola 29 de Outubro, originada no berço da antiga Fazenda Annoni na década de 1980.  Este reencontro se deu por uma razão muito especial, uma provocação pedagógica de troca de cartas entre crianças do quarto ano e eu, no período da pandemia que tomou volume, velocidade e concretude. Percebendo que a correspondência fluía em provocações e construção de novos aprendizados entre nós, nasceu a ideia de um livro: Cartas de Afeto e aprendizagens – relação de educandos com a educadora. Esta é a obra mais recente, com cartas escritas por crianças de pouco idade, mas grandes na coragem e determinação. Estes, filhos e netos, herdeiros de assentados, contam a história da Annoni em forma de cartas, porque ouviram essa história várias vezes, de seus pais e avós.

Esta singela obra, apresentada em mística pelas crianças/escritoras, abriu o encontro de pesquisadores/escritores no dia 24 de outubro no encontro dos 40 anos da Annoni.  Esta, acompanhou a apresentação de tantas outras, trazidas por pesquisadores, a maioria universitários, que, por quatro décadas, permaneceram escavando tudo o que diz respeito ao que cercou a vida e o movimento das pessoas que constituíram os acampamentos da Encruzilhada Natalino e Fazendo Annoni.

A mim chamou atenção a seriedade, o respeito e a ética com que mulheres e homens/pesquisadores, de várias áreas do conhecimento, entraram nestas áreas de conflitos, ganharam a confiança, perguntaram e ouviram atentamente os testemunhos que o povo lhes entregou, com toda a sinceridade e confiança. Nestes pesquisadores, os Sem Terra acreditaram e lhes confiaram o que de mais precioso poderia fazer parte de sua pesquisa, a fidelidade aos fatos. É desta forma que “a literatura testemunhal se torna uma trilha para dar outro lugar à experiência, uma vez escutada e reconhecida, ganha outro sentido em nossas vidas (Vera Vidal Brasil, 2025, p. 16).[4]

Com as informações seguras, foi se construindo os alicerces da pesquisa, sem que houvesse alguma contestação. Essas obras são de uma fidelidade à luta como de fato ocorreram os fatos, contados pelos protagonistas, lá no início, nos acampamentos, e depois já nos assentamentos. São livros que elucidam a história do povo: a presença ou interferência da Igreja, a construção dos barracos, as iniciativas na educação, a busca por saúde alternativa com chás e curandeiras, e por políticas públicas para combaterem as doenças do povo: como as gripes, verminoses, sarampo, varíola, intoxicações e falta de vitaminas. A cada criança que estava por nascer, era um dilema ser recebido num hospital e conseguir um médico que aceitasse fazer o parto. Tudo está contado em detalhes, incluindo as estratégias criadas e combinadas em segredo, para driblar com maestria a polícia, na madrugada de 29 de outubro, quando as cercas foram cortadas e os pés deles pisaram a terra vermelha. Lá dentro se conheceram, construíram a resistência, negociaram, levantaram as estacas da escola improvisada, escreveram cartas para as autoridades, planejaram as marchas e a pedagogia para explicar ao povo porque marchavam para a capital. Mesmo que seus pés sangrassem e seus chapéus voassem pelo vento, eles não voltariam atrás. O tempo do acampamento foi uma verdadeira escola a céu aberto, encharcada de pedagogia e resistência, luta e afeto.     

Ouvindo os autores das obras, a vontade é de ter e ler todas as obras, e também ajudar aqueles que já com vista fraca ou catarata avançada, não leem mais. Estas pesquisas ajudaram e ajudam muito dar visibilidade à Natalino e Annoni, desde seu início na década de 1980, até a atualidade. Ainda que há pessoas que querem esquecer toda essa história, essas obras, escritas no calor dos fatos, sempre servirão para lembrá-los de como ocorreram os fatos, principalmente porque, como e quando Roseli Nunes teve seu direito sagrado à vida, interrompido em um acidente propositalmente provocado em um trevo de estrada em Sarandi, em 1987, deixando seus filhos, ainda pequenos órfãos de uma mãe ainda tão jovem. Os livros, nós sabemos, têm sua força e poder de guardiões da memória, mesmo em folhas envelhecidas, tudo aquilo que o tempo pode apagar de nossas lembranças.

Conto tudo isso para dizer que retornar à Annoni, para a festa dos 40 anos, tem um sabor doce e um significado singular, cheio de lembranças, de memórias, de emoções acumuladas e de lágrimas não deixadas cair, para não parecer fraca, e sensível demais.

Retornar à Annoni após 40 anos, é um privilégio, certamente. Juntos fomos escavando lembranças, construindo memórias coletivas, escrevendo a sua história, estreitando as brechas para evitar a entrada de pesquisadores decididos a contá-la na versão dos vencedores. Penso que fizemos a nossa parte, disputando as memórias da classe trabalhadora, produzindo e divulgando sobre elas. Uma forma pedagógica de combater as memórias que possam vir da classe dominante. Ao tomarmos a frente para entendermos a luta pela terra travada nesta região, hoje temos estantes cheias de obras que contam a versão verdadeira dos acontecimentos, ouvidos à viva voz dos sujeitos que viveram os fatos, e agora, confiados a nós para contá-los. Lembremos que por um longo tempo a realidade do povo se fazia a melhor bibliografia, não haviam outras fontes. Quarenta anos depois, temos fontes primorosas em livros, que não deixam apagar o que foi construído por mulheres e homens, crianças e adolescentes, forjados na luta, no sol ardente e nas noites mais frias de décadas passadas.

Nos dias 24 e 25 de outubro/2025, reencontrei pessoas admiráveis e acolhedoras, com as mãos calejadas, os cabelos grisalhos e com traços faciais marcados pela idade. Hoje, cientes de que a passagem pelo tempo é inevitável e sem retorno, continuam a caminhada, sem aborrecer-se, e sem muita pressa para chegar. Com tempo, alcançaram aprendizados que tornou sua vida mais leve e divertida. Ao seu lado, encontrei seus filhos: médicos, veterinários, educadores, advogados, jornalistas, artistas, camponeses de raiz, que buscaram aperfeiçoamento para contribuir com mais competência na luta pela terra. Um passo adiante, avistei Marcos Tiarajú e sua irmã, filhos de Roseli, e o neto. Tiarajú é médico formado em Cuba e ela é assistente social. Vi também muito povo semeando solidariedade, rodeados de apoios, decididos a continuar na luta pela Reforma Agrária, ainda intacta, no papel, porque os poderosos do capital usam de todos os mecanismos para impedir sua realização. Não pensem eles que o povo está cansando. Conforme João Pedro Stédile: Pode demorar, mas já estamos a caminho.  De acordo com Telmo Marcon “a luta pela terra revela-se ser uma universidade para o desenvolvimento humano. Todos/as têm oportunidades para se desenvolver intelectualmente, aprender a conquistar direitos por meio da organização, partilha e luta assumida em conjunto”[5].

Por fim, a pergunta: Como os movimentos sociais nos constituíram como pessoas, pesquisadores, professores, cidadãos é uma pergunta provocativa para todos nós. São 40 anos que esta região/território se mostra fértil para pesquisa, capaz de interrogar os pesquisadores que a interrogam. Capaz de responder às muitas perguntas sem que as tenhamos formulado, nos dando trabalho dobrado para elucidá-las. Capaz de nos motivar a ir fundo, escavar o que a luta ainda tem a nos dizer sobre tudo o que ocorreu nestas terras hoje povoadas de gente e cheias de plantações. Terras que se mostram desafiadoras para os sociólogos, os pesquisadores, os educadores, os filósofos, os médicos e jornalistas.  E, sobretudo, para os primeiros sem-terra, hoje, Sem Terra do MST.  

De modo especial o MST e sua forma de organização, tem sido o nosso grande pedagogo, mestre de ofício, porque foi capaz de construir uma Pedagogia própria, do Movimento, obviamente inspirado na Pedagogia do Oprimido e Pedagogia Socialista. O aprendizado nos diz que aquele pesquisador, que o descortina pela pesquisa, não espera o entardecer, acha jeito de conhecê-lo, pessoalmente. E dele não se distancia mais, porque nasce entre o Movimento e o Pesquisador, um compromisso ético, uma necessidade de estar perto, próximo, aprendendo com ele. Quem diria que à sombra das árvores da Escola 29 de Outubro, no coração da antiga Fazenda Annoni, estaríamos nós, 40 anos depois, socializando nossas pesquisas, com teses afirmativas de que valeu muito apena cortar as cercas naquela noite de lua cheia de 29 de outubro de 1985! Pelo visto, o cintilar dos arrames cortados, que jogou as duas pontas para os lados, abrindo espaço para pisar naquela terra, não sairá tão fácil dos ouvidos daquele povo. E nem dos nossos, pelo tom de voz vibrante que usam para nos contar.

Contudo, com nossa aproximação e confiança que ganhamos dos Sem Terra foi sim determinante para nossa formação humana, pedagógica, política. Creio que nenhum de nós tem algum fio de arrependimento de ter “gasto” a sola de sapato, e ficar tanto tempo ocupado, ouvindo e alinhavando sua história no papel, aprendendo com cada palavra e gestos concretos de solidariedade.     

Sem dúvida, estudar e sistematizar a caminhada de uma organização, seu projeto social da forma como pensa quem luta, participando de sua construção, se constituiu um desafio e um aprendizado sem igual.  Um aprendizado que vem da escuta do povo, do pisar com respeito na terra por eles cultivada, que antes lhe causou dor e lágrimas. Do sentar-se às suas mesas, fartas de comida saudável, gratos pelo seu trabalho organizado. Respeito que fomos ganhando porque não os traímos, dando a conhecer a eles o que pesquisamos, e fazendo validar como ciência a história construída por eles, colhendo contribuições e críticas. Esta é uma convicção que deve nos acompanhar a vida inteira.     

Fiquemos atentos, mantendo-nos sensíveis às causas deste povo, e às interrogações que as mudanças da realidade possam vir a nos fazer, ainda hoje ou amanhã. Se vier aquelas mais audaciosas e desafiadoras, que tenhamos coragem de buscar suas respostas, mesmo que provisórias. A pesquisa, quando atravessa a alma do pesquisador, e a alma dos sujeitos da história pesquisada, não se esgota nunca. Não há ponto final.

Não descuidemos dos próximos 40 anos, porque a pesquisa feita do presente, com memórias do passado, tem o dever de jogar luz no futuro. Muito ainda está por vir. A artesania de sua construção deve continuar, por que “as chaves do futuro e de utopia estão escondidas, quem sabe, na memória das lutas, nas histórias dos simples, nas lembranças dos velhos (Bosi, p. 208)

Estou segura de que, nenhum de nós seria o pesquisador e ser humano que é, sem esta história de luta, construída ao lado e com o braço empunho deste povo.

Foto aérea da Escola 29 de Outubro. (Foto: Ricardo Teles)

Foto aérea da Comunidade do Assentamento 16 de março Pontão-RS (antiga Fazenda Annoni). (Foto: Ricardo Teles)

Encontro de Escritores e Pesquisadores da Luta pela Terra e Reforma

Fotos: Rafa Dotti/Matéria site MST – 40 anos da Fazenda Anoni: https://mst.org.br/2025/10/25/emocao-e-anuncios-marcaram-o-primeiro-dia-da-festa-dos-40-anos-da-fazenda-annoni/

Autora: Isabela Camini. Do Setor de Educação do MST. Doutora em Educação pela URGS. Autora de várias obras, entre elas: Escola Itinerante – na fronteira de uma nova Escola, SP, Expressão Popular, 2009: Cartas de Afeto e Aprendizagens, relação entre educandos e educadora, Passo Fundo, Saluz, 2024. 


[1] FUNDEP – Fundação de desenvolvimento, Educação e Pesquisa da Região Celeiro. DER – Departamento de Educação Rural.

[2] Esta é a terceira vez que o Sindicato das Escolas Privadas/RS, escolhe experiências de Educação do MST para a entrega deste prêmio. Em 1999, o Prêmio foi recebido pela Escolas Itinerantes dos Acampamentos do MST. Em 2000, foi para a Escola Josué de Castro (hoje IEJC), em cerimônia realizada em 11 de outubro de 2000. E em 24 de outubro de 2025, o Prêmio ficou nas mãos da Escola 29 de Outubro, como é conhecida, no Assentamento 16 de Março/ Pontão/RS, com o lema: “Da terra brota uma escola em movimento”.  

[3] Deste dia, uma lembrança não sai de minha cabeça. Dado o tema polêmico em tese, porque a governadora Yeda Crusius junto com o Ministério Público/RS, projetavam inviabilizar a vida escolar das crianças acampadas, o ex-governador Olívio Dutra veio assistir a defesa.

[4] BRASIL, Vera Vidal. Potência do desejo e dever de memória. In: Crianças e Exílio – memórias de infâncias marcadas pela Ditadura Militar. São Leopoldo. Carta Editora, 2025.

[5] MARCON, Telmo. Os Movimentos Sociais como educadores. Contribuições Políticas e Pedagógicas do acampamento Natalino. Passo Fundo: Ed. Universidade de Passo fundo, 2016.

Edição: A. R.

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