Mas por que esta menina saiu do meu lado para se afundar nas drogas?

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Foi um recado tão simples que ela me passou! Mas não respondi.

A Tati era uma pessoa maravilhosa!

Os anos eram os 90 e nos conhecemos em início de carreira, os dois, trabalhando na mesma Empresa, ela vendendo, eu, ainda um pretenso chefe.

Não durou muito e ela se mudou para São Paulo. Saí da Empresa, igualmente, em seguida, e tomei o rumo da aventura.  Quando somos mais jovens usamos uma régua mais curta e o que está longe não nos interessa muito; o que está por explodir, sim. Com os anos, todavia, um novo currículo enviado pode ser uma aventura temerária.

O mundo capotou e nos anos seguintes, na empresa seguinte, com matriz em São Paulo, lá fui eu transferido para a metrópole.  Antes, subia e descia pelo Paraná todas as semanas, sempre em busca de vendas. Por que será que se vende tanto?  Ou, é porque se compra demais!

Após idas e vindas, nestas buraqueiras a que chamamos de estradas, todas as semanas, finalmente, fui acomodado na capital. Mesa e ternos a postos, rotinas previamente demarcadas e metas a cumprir, construía aos poucos um time, uma equipe, que seria a minha família temporária; em uma cidade de tantas gentes e tão grande solidão.

E quem apareceu para se juntar ao ‘team’?  A Tati, sim, pela segunda vez fomos testados como parceiros de vendas e negócios, confissões e esperanças, pouco comuns no mundo corporativo, em contraste com o ambiente devorador que se instala em quase todas as empresas, nas quais as pessoas se empurram, simultaneamente, aos pilares que elevam ao pódio, ou, umas contra outras, ao precipício.

O tempo foi passando, como sempre.  Ahh! O tempo!  Sem que se perceba suas intenções, vive a devorar os nossos dias e num deles, aliás, no tumulto do turbilhão comercial, recebi uma mensagem ao final da tarde:  – estou perdida. Preciso de ajuda. Era ela.

Ahh, se eu pudesse resgatar aquela mensagem no ‘cel’!  Na época, as mensagens estavam começando a ganhar forma.  Muito curtas ainda para celulares enormes. Não levei a sério pois achei ser uma brincadeira de fim de tarde. A Tati era assim mesma:  leve, solta, feliz, transparente, brincalhona, amiga… E cheia de probleminhas que carregava logo atrás de seu sorriso magnético.

Mas não foi para brincar! Muito tempo depois, soube, era o apelo sincero de uma Tati perdida à beira de um penhasco, que, de fato, deixou-se cair. E caiu feio!

Com o seu namorado, consumiu o que pode e encontrou um caminho curto e luminoso, para várias viagens sem volta. Drogas em excesso, extorquia de sua vida o que estava ao seu alcance; crack, o que dispunha. Perdeu a confiança, perdeu quase todos os elos com a sua família, e, finalmente, conheceu a rua, literalmente.  Vivendo sobre calçadas de uma São Paulo garoenta, no limite do que supõe ser uma pessoa ferida e abandonada, ali mesmo e já quase de saída, com o último recurso humano em que se pensa ser amor, teve mais dois filhos.

Já tinha uma, a mais velha, menina, linda, inteligente e independente.  Puxava a mãe.

Quando eu soube da sua história ela já estava de volta. Não tive como não ruborizar a alma ao saber que, sem mim, eu, falsamente servindo como referência de um chefe amigo, fui ausente. Assistindo a sua frágil recuperação, deparei com uma gigante enfraquecida, que retornava ao mesmo mercado de vendas, de ganhos e perdas, como são todas as vendas de fato.

Não me cobrou nada, entretanto, não exigiu nada, nem lembrava de seu chamado no celular, naquele fim de tarde… Apenas me falou:  – estou limpa, tem um tempo que estou limpa.

Nossa reaproximação nunca mais foi a mesma?  Foi muito melhor! Durante anos e anos fizemos parceria com nossos clientes e produtos; ela cada vez mais livre, eu, cada vez mais culpado. De alguma forma, poderia ter falado, alertado, ajudado. Não o fiz.

Com o seu namorado preso e ainda ameaçada de perder seus filhos, com conexões débeis e desacreditada pela família e mais alguns, um dia me ligou e disse que estava pensando em fazer Psicologia.

Um bicho a Tati!  

Estudou, insistiu, trabalhou e terminou o curso, lendo autores e livros que jamais imaginaria.  Com o diploma ainda fresquinho, junto a sua amiga, comprou uma casa para abrigar dependentes, inclusive os que foram largados pelas suas famílias; estes de quem se ouve falar ‘que ninguém aguenta mais’.  Mas a Tati era assim mesma: sem religião alguma, crendo fielmente em Deus, sempre se derramava em empatia, como que tentando evitar que outros caíssem na tentação de explosões em prazer a custo baixo, fortes e fugazes, como somente as drogas nos ofertam; independentemente do tipo de alucinógenos que nos viciam.

Lembrei dessa história pela semana, quando uma mulher da Vila aqui próxima, enviou uma mensagem dizendo que, finalmente, fez um acordo com a Companhia de energia e teve a luz da sua casa religada.

Poderia ter acertado a sua conta, que nem deveria ser alta, decerto.  Um simples pedido e eu pagaria.  Ou, quem sabe esta senhora, que vivia na escuridão com duas filhas, já não tinha enviado alguns recados… Mas eu não os ouvi.

Pedidos de socorro nos chegam todos os dias. Em sua maioria, despercebidos. Muitos chamados desesperados chegam a nós com sorrisos contidos; em olhos marejados. Mas quando não se está disposto a ouvir ou ajudar, nem os explícitos nos comovem.

É certo que muitos já se humilharam esperando ajuda, em um grito mudo, a beira do despenhadeiro, contando com um abraço, e, quiçá, um pouco de dinheiro para pagar a luz ou coisa que o valha. Importa a percepção: quando se quer ajudar, o olhar firme em nosso amigo, enroscado em problemas de tamanhos variados, já deveria ser o suficiente. Geralmente não é!

Quem já pediu ajuda e não levou nada? 

 _ Perdão Tati!  Torci muito por você nesses anos. E espero que as nossas conversas, intermináveis, tenham compensado aquela mensagem recebida, indiferente, ao fim de uma tarde limpa em uma cidade suja.

A ‘Tatibitati’ continua maravilhosa!  Até mudou de país.  Recentemente, despachou um namorado, continuou com um sorriso implacável, ainda vai escrever um livro e não sente a mínima falta dos que não apostaram na sua subida. E vive cercada de netos.

Subiu do poço com baldes de água nas mãos.  Sempre pronta para ajudar.  Viva a empatia!

Saudades sem fim, Tati!

Autor: Nelceu A. Zanatta. Também escreveu e publicou no site “Pode o amor morrer de tanto amar”?: www.neipies.com/pode-o-amor-morrer-de-tanto-amar-conheca-rita-pawlosky/

Edição: A. R.

2 COMENTÁRIOS

  1. Eu sou uma das tantas “Tatis” que seu artigo poderia se referir, visto a quantidade de mulheres envolvidas pelas garras do álcool e outras drogas, a Tati que sou hoje ganhou forças de tão teimosa, procurar ajuda para entender porquê? Por que uma menina de classe média, criada numa família católica, com todo amor que poderiam me oferecer na época, com valores e cuidados ambientais se envolveu nesse mundo sombrio e fétido, o submundo, onde medo e o alívio andavam juntos.
    a resposta veio ao encontrar outros e outras como “eu”, sofrendo, mas, sem conseguir parar, pois a dependência química, como o nome ja diz é uma doença e ela não começou nas drogas, começou no vazio, a primeira vez a gente escolhe experimentar, às outras vezes são as drogas que escolhem por nós, pois o cérebro ja atingiu um climax de prazer imediato, que meu corpo jamais tinha experimentado.
    assim como um corpo que atinge um orgasmo pela primeira vez, não se contenta mais, com as roçadas de pernas. porém 50 mil vezes mais potente. neste ponto não havia escolha, eu tentei pedir ajuda, mas a ajuda não veio, tinha muita vergonha de ser eu, e ser mais uma na estatística que estava na lista de “drogados”, marginalizados. Quantas Tati’s ainda estão nas ruas?A maioria das pessoas não sabem por onde as drogas entram na vida de seus entes queridos, e eu posso te dizer com certeza, o álcool e as drogas entram pelo vazio.
    onde tem vazio, qualquer coisa cabe, e alguns nunca saberão o nome dos seus vazios.
    eu, teimosa fui procurar o nome dos meus vazios.
    o primeiro vazio_ao ler um diário da minha mãe descobri que meu pai biológico tinha deixado minha mãe no hospital no dia do meu nascimento, e nunca mais apareceu…
    Ah esse vazio é “impreenchivel”, a falha paterna, o suporte, a regra, a lei, a função paterna seria a função que me daria um direcionamento do que é um homem, talvez, se eu soubesse não estaria procurando um pai nos meus namorados, um cuidador, um protetor… sem referências, qualquer coisa servia.
    foi aí que entrou esse namorado, ele era bonito, forte, tinha boas características aparente para ser o meu par romântico. eu era romântica, eu sempre esperei pelo príncipe encantado que iria me salvar, hoje sei, que eu queria uma salvamento da angústia, do vazio, do desejo de pertencimento, de não ser abandonada. Mas eu não sabia de tudo isso antes, eu fui completamente ingênua e apaixonada, experimentei a primeira vez, sem saber que ja tinha uma pré disposição a me apegar a tudo que me desse colo. e foi isso que a droga fez. me deu colo primeiro, depois me tirou tudo, e vc foi um dos amigos, que, por inexperiência e por estar no lugar certo, continuou seguindo, assim como é o cotidiano de todos os “normais”
    você não tem culpa meu amigo querido, ninguém tem culpa, mas, eu diria, responsabilidades. Eu sou o meu milagre, eu e muitos outros nos grupos de apoio se ajudam anonimamente hoje em dia, cada dia chegam mais e mais pessoas que não querem usar, mas não sabem o que fazer para parar.
    Hoje no dia em que respondo seu artigo fazem 15 anos, 6 meses e 14 dias que eu não uso qualquer substância que altere minha mente, mas tudo começou com um dia de cada vez, bem devagar. lembro da minha mãe, ela nunca desistiu de mim, me internou numa clínica às forças, ela queria me salvar, e eu não iria conseguir sozinha.
    eu achava que era minha missão, depois de formada psicóloga aos 38 anos, ajudar outros de mim, eu montei uma clínica, queria que fosse parecida com a clínica que me abrigou, claro com muitas melhorias, afinal eu ja estive dos dois lados, do lado do paciente que chega completamente derrotado e sem forças, e agora estava eu do outro lado, uma empresária, psicóloga e com muita disposição de ajudar aqueles que estão perdidos nas garras da adicção.
    Fiz o meu propósito por aproximadamente 2 anos, atendi os pacientes e suas famílias, todos adoecido de dores encobertas pels cereja do bolo “droga” quem dera o problema fosse somente a retirada das substâncias.
    você retirar as drogas e encontra o sintoma, o vazio, cada um com o seu nome, cada um com a sua história de vida. mas nesse requisito todos têm incomum, um vazio, um trauma, uma violência sexual, um abandono ou rejeição, um pai ou uma mãe alcoólica. dentre todos, nao tem um, que não tenha o seu vazio, cabe-nos descobrir onde ele está e tentar ressignificar, porque preencher é impossível, ensina-se a viver apesar do vazio, não tem como remediar tamanhas feridas internas, a maioria são feridas tão infantis, tão primitivas, que leva-se muito tempo a alcançar.
    cabe a mim hoje ser o colo que mr faltou, hoje sou mãe dos meus filhos, sou avó, sou uma psicóloga, continuo estudando, pois nessa área nunca para de estudar, estudo também inglês como segunda língua, numa escola presencial em New Jersey, EUA.
    foi aqui que eu vim parar meu amigo.
    sou grata a todas as vezes que você me ouviu e sem saber também ocupou esse lugar de “colo “, chamamos de colo no ouvido. uma escuta que realmente ouve.
    Quem sabe talvez essa mensagem chegue para outras Tati’s e seja um incentivo ao recomeço de uma nova vida. eu acredito, de onde vim tem mais muitos milagres desse acontecendo. Busque ajuda!! É possível, existe vida após as drogas, o único jeito que não funciona é sozinho.

  2. Boa tarde, sou tia da Tati, quero agradecer por ter feito esta nota sobre ela, sempre desejei e continuo desejando o melhor da vida para ela. Obrigada

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