Compreender o bolsonarismo como uma forma de patologia social significa investigar os processos políticos, culturais e comunicacionais que favorecem a deterioração do debate público, a intolerância à diferença e a adesão a formas autoritárias de exercício do poder.
Escrevo esta crônica na véspera do segundo turno das eleições no Brasil que acontecerá no dia 25 de outubro de 2026. Trata-se de um texto livre, sem muitos cuidados acadêmicos, no qual manifesto minha preocupação e perplexidade compartilhada com milhões de brasileiros que estão vivendo algo surreal: como é possível que mesmo com tantas evidências continua existindo um contingente tão grande de eleitores que vão depositar seu voto em Flávio Bolsonaro?
Minha hipótese é que estamos vivendo no Brasil uma intoxicação bolsonarista que vem de longa data, cujas consequências podem ser desastrosas para a democracia e para a vida de grande parte da população.
O que são intoxicações eletrônicas?
As intoxicações eletrônicas constituíram objeto de investigação do Grupo de Estudos e Pesquisa (Gepes) neste ano de 2026. No próximo ano, o Gepes publicará sua 17ª coletânea cujo título será Cultura Digital, Políticas e Pensamento Crítico, com previsão de publicação em maio de 2027. Dentre os quase 30 capítulos um deles terá por título “Os perigos das intoxicações eletrônicas nos processos de aprendizagem em tempos de cultura digital na escola”.
As intoxicações eletrônicas podem ser compreendidas como processos de exposição excessiva, contínua e pouco reflexiva aos fluxos de informações, imagens, mensagens e estímulos que circulam nos ambientes digitais. Não se trata apenas do tempo gasto diante das telas, mas também da maneira como os conteúdos são consumidos, interpretados e incorporados à compreensão da realidade (Desmurget, 2021). Quando a velocidade da informação, a repetição de mensagens, a sobrecarga de estímulos e a busca permanente por engajamento reduzem o espaço para a reflexão crítica, a dúvida e o diálogo, criam-se condições para o empobrecimento da experiência intelectual e para a fragilização da autonomia de pensamento (Baptista e Jerusalinsky, 2017; Jerusalinsky, 2023).
Essas intoxicações tornam-se particularmente preocupantes quando associadas à lógica de funcionamento das plataformas digitais, cujos algoritmos tendem a privilegiar conteúdos capazes de despertar emoções intensas, provocar reações imediatas e manter os usuários conectados (Fávero, Tonieto, Rosa, Trzimajewski, 2026). Mensagens que mobilizam medo, indignação, ressentimento ou entusiasmo podem alcançar ampla circulação, sobretudo quando confirmam crenças e convicções previamente estabelecidas. Nesse contexto, a repetição de informações semelhantes, a formação de ambientes informacionais homogêneos e a circulação de desinformação favorecem a construção de percepções parciais da realidade (Jerusalinsky, 2023).
O indivíduo pode passar a confundir a frequência com que uma afirmação aparece com sua veracidade, ou a intensidade emocional que ela provoca com a consistência dos argumentos que a sustentam.

A formatação dos fanatismos políticos encontra, nesse cenário, um terreno favorável. O fanatismo não decorre automaticamente do uso das tecnologias digitais, mas pode ser intensificado quando os ambientes informacionais reforçam identidades políticas rígidas, estimulam a polarização afetiva e transformam adversários em inimigos a serem combatidos. Na campanha eleitoral que estamos vivendo fica evidente nas redes sociais a predominância desta estratégia que se faz sentir na fora como grupos radicais tornaram-se incansáveis em replicar informações falsas ou criminalizar adversários políticos.
A exposição reiterada a conteúdos que desqualificam grupos opostos, atribuem todos os problemas sociais a determinados adversários ou apresentam um líder como único representante legítimo da verdade pode contribuir para a construção de vínculos políticos marcados pela adesão incondicional.
A crítica é então interpretada como ameaça, a divergência como traição e a argumentação racional como menos importante do que a fidelidade ao grupo. Desse modo, a política corre o risco de deixar de ser compreendida como espaço de disputa democrática entre diferentes projetos de sociedade para se converter em campo de confrontação moral entre grupos que se consideram mutuamente incompatíveis.
Outro aspecto importante é que as intoxicações eletrônicas podem comprometer as condições necessárias ao exercício da cidadania democrática. A velocidade dos conteúdos e a pressão por posicionamentos imediatos dificultam a contextualização dos acontecimentos, a verificação das fontes e a consideração de perspectivas divergentes (Brito Filho, 2023).
Quando o compartilhamento impulsivo substitui a análise, a indignação substitui a argumentação e a confirmação das próprias crenças substitui a disposição para rever opiniões, enfraquecem-se capacidades fundamentais para a vida democrática. O problema, portanto, não reside simplesmente na tecnologia, mas na articulação entre modelos de negócio baseados na captura da atenção, estratégias políticas de mobilização emocional, circulação de conteúdos enganosos e insuficiência de práticas educativas voltadas ao letramento midiático e digital.
A necropolítica do bolosonarismo
O artigo de João dos Reis Silva Júnior e Everton Henrique Eleutério Fargoni (2020), intitulado Bolsonarismo: a necropolítica brasileira como pacto entre fascistas e neoliberais, publicado na Revista Eletrônica de Educação, oferece uma interpretação crítica do bolsonarismo como movimento político constituído na confluência entre crises da democracia brasileira, avanço do neoliberalismo, conservadorismo autoritário e reatualização de elementos do fascismo.
A partir dessa perspectiva, o bolsonarismo não pode ser compreendido apenas como uma corrente partidária ou como expressão de preferências eleitorais individuais. Trata-se de um fenômeno ideológico que articula interesses econômicos, ressentimentos sociais, discursos moralistas, militarismo e formas de mobilização política centradas na figura de um líder apresentado como salvador da nação. Sua força decorre, em parte, da capacidade de transformar insatisfações legítimas com a política em adesão a uma narrativa simplificadora, que identifica inimigos, promete restaurar uma ordem idealizada e deslegitima as instituições e os grupos que oferecem resistência ao projeto autoritário (Silva Júnior e Fargoni, 2020).
A dimensão personalista e fanática do bolsonarismo se manifesta na construção de uma relação de identificação emocional entre o líder e seus apoiadores. Em vez de se fundamentar prioritariamente na discussão pública de programas, na avaliação crítica das decisões governamentais e no confronto democrático de ideias, essa relação tende a organizar-se em torno da fidelidade à pessoa do líder e à identidade coletiva que ele simboliza.
Não importa o que o líder diga ou faça, mesmo que expresse discursos horrorosos, posicionamento indefensáveis sob o ponto de vista racional ou ética, será aplaudido pelos seus seguidores. Silva Junior e Fargoni (2020) destacam no referido artigo o papel da televisão e das redes sociais na difusão de discursos de Bolsonaro, bem como a circulação de notícias falsas e a atuação de influenciadores digitais na conformação das percepções políticas. Foi este exército de seguidores que rendeu a eleição em 2018.
Nesse processo, a repetição de mensagens simplificadoras, a exploração do medo e a mobilização de sentimentos de pertencimento favorecem comportamentos dogmáticos, nos quais a crença pode se sobrepor à reflexão. O líder passa a ser percebido como alguém que encarna a vontade do povo, enquanto críticos, opositores, intelectuais, cientistas e instituições democráticas podem ser apresentados como adversários da pátria. O fanatismo político, portanto, não significa simplesmente apoiar intensamente uma liderança: significa, sobretudo, reduzir a disposição para questioná-la, relativizar fatos que a contradizem e tratar a divergência como ameaça moral ou política.
A articulação com o neoliberalismo constitui outro elemento decisivo para compreender a natureza do bolsonarismo. Conforme Silva Júnior e Fargoni (2020) argumentam, o movimento aproximou setores conservadores e autoritários de grupos empresariais e financeiros interessados na implementação de reformas econômicas, na redução da esfera pública e na ampliação das condições de valorização do capital.
Empresários gananciosos por faturar mais com seus empreendimentos abraçaram o bolsonarismo como sendo o que lhe daria a oportunidade de pagar menos impostos, reduzir ou eliminar os direitos trabalhistas dos funcionários, ampliar sua fome de dinheiro, enfraquecer as instituições reguladores e fiscalizadores, sentirem-se os novos reis do mercado.
Constitui-se em torno do bolsonarismo o pacto entre fascistas e neoliberais. Embora entre estes dois grupos não partilhe integralmente os mesmos valores, estabelecem uma convergência política em torno de objetivos que se reforçam mutuamente. De um lado, o autoritarismo mobiliza o nacionalismo, a defesa de tradições idealizadas, o anticomunismo, o militarismo e a intolerância à pluralidade; de outro, a racionalidade neoliberal privilegia a concorrência, a meritocracia, a flexibilização das relações de trabalho, a redução de direitos sociais e a transferência de responsabilidades coletivas aos indivíduos. Um casamento que mistura interesses econômicos, agendas ideológicas, fanatismo religiosos, patriotismo de fachada, sequestro dos símbolos nacionais, corrupção, perseguição as instituições que defendem direitos sociais.
O discurso de renovação moral e de combate aos inimigos da nação oferece legitimidade popular a um projeto econômico que pode aprofundar desigualdades e concentrar riqueza e poder. Assim, enquanto a retórica política mobiliza afetos e identidades, as reformas econômicas reorganizam as relações entre Estado, mercado e sociedade. É nesse sentido que Silva Júnior e Fargoni (2020) identificam um pacto entre o autoritarismo de inspiração fascista e os interesses neoliberais.
A consequência mais dramática dessa convergência aparece naquilo que Silva Junior e Fargoni (2020) denominam necropolítica: uma forma de exercício do poder que estabelece, direta ou indiretamente, quais vidas serão protegidas e quais poderão ser expostas à morte, ao abandono e à precarização. A categoria necropolítica está associada à produção de inimigos, à desvalorização da vida humana, ao negacionismo científico, à militarização e à intensificação da exclusão de grupos historicamente vulnerabilizados.
A pandemia de Covid-19 tornou particularmente visível esse problema, segundo a análise do que aconteceu em 2020 com o desastroso Governo Bolsonaro, diante da minimização da gravidade da doença (“Era só uma gripezinha”), dos conflitos com orientações científicas (a constante troca de ministros da saúde, indicação de cloroquina, invermectina e outros medicamentos em vez de providenciar a compra imediata de vacinas) e das própria atitudes presidenciais que contribuíram para desacreditar medidas de proteção (negar o uso da máscara, da vacina, vulgarizar o lockdawn, detre outros).
A necropolítica não se restringe, contudo, à morte física: manifesta-se também na desproteção social, no enfraquecimento de direitos, na indiferença diante da desigualdade e na naturalização de condições de vida que expõem determinados grupos a riscos desproporcionais. Quando a violência é legitimada pela linguagem política, a ciência é tratada como inimiga e a existência de populações vulneráveis deixa de orientar a responsabilidade pública, a democracia perde parte de seu fundamento ético. O fanatismo personalista contribui para esse processo quando transforma decisões governamentais em demonstrações de lealdade ao líder e enfraquece a capacidade coletiva de responsabilizar o poder.
Em síntese, a interpretação de Silva Júnior e Fargoni (2020) permite compreender o bolsonarismo como um fenômeno no qual personalismo, fanatismo político, autoritarismo e neoliberalismo se articulam na produção de uma ordem social excludente. A centralidade do líder favorece a adesão emocional; a fabricação de inimigos alimenta a polarização; o negacionismo enfraquece os critérios públicos de validação do conhecimento; e a convergência com interesses econômicos sustenta reformas que podem restringir direitos e aprofundar desigualdades.
A necropolítica representa o desdobramento extremo dessa combinação quando a proteção da vida deixa de constituir um princípio universal e passa a ser subordinada a interesses políticos, econômicos e ideológicos. Essa leitura não exige afirmar que todo conservador ou defensor de políticas de mercado seja fascista, mas reconhecer que determinadas alianças podem conferir legitimidade democrática a práticas autoritárias e a políticas socialmente destrutivas. A defesa da democracia requer, portanto, mais do que eleições: exige instituições responsáveis, valorização da ciência, direitos sociais, pluralismo político e formação crítica capaz de resistir à manipulação e à desumanização.
Bolsonarismo como patologia social: fake news, fanatismo religioso e neofascismo
O bolsonarismo é frequentemente analisado na literatura acadêmica e no debate público não apenas como uma vertente política ou ideológica, mas em chaves que cruzam a sociologia, a psicologia social e a ciência política, compreendendo-o como um sintoma de patologia social, fenômeno de opinião pública ou articulação neofascista/autoritária.
Compreender o bolsonarismo como uma forma de patologia social significa investigar os processos políticos, culturais e comunicacionais que favorecem a deterioração do debate público, a intolerância à diferença e a adesão a formas autoritárias de exercício do poder.
A expressão não deve ser entendida como diagnóstico clínico de indivíduos ou como desqualificação de todos os eleitores de Jair Bolsonaro, mas como uma categoria crítica para analisar relações sociais que passam a naturalizar a mentira, a violência simbólica, a perseguição aos adversários e o enfraquecimento de valores democráticos. Dois estudos contribuem particularmente para essa interpretação: o artigo Bolsonarismo e a psicologia das massas 100 anos depois, de Fábio Santos Bispo, Melissa Festa Scaramussa e Beatriz Oliveira da Silva, publicado em 2022, e o artigo O Que É o Bolsonarismo? Muito Além da Abordagem Sociológica, de João Feres Júnior e Carolina Almeida de Paula, publicado na revista Dados, em 2025. Embora adotem abordagens diferentes, ambos ajudam a compreender que a força do bolsonarismo não pode ser explicada apenas pela adesão a valores conservadores: é necessário examinar também os vínculos afetivos, as formas de identificação política e os circuitos de informação que sustentam suas crenças e práticas.
Um dos mecanismos centrais desse fenômeno é a circulação de fake news e de versões alternativas dos fatos. Bispo, Scaramussa e Silva (2022) retomam a psicologia das massas de Sigmund Freud para analisar como a intensificação das emoções, a identificação com o grupo e a idealização de uma liderança podem enfraquecer a disposição individual para verificar informações. Nessa dinâmica, uma mensagem não precisa ser verdadeira ou estar sustentada em evidências para adquirir força política: basta que confirme crenças anteriores, provoque indignação ou reforce a sensação de pertencimento.
As redes sociais potencializam esse processo ao permitir a circulação contínua de conteúdos, a formação de comunidades relativamente fechadas e a repetição de narrativas que apresentam os adversários como ameaças. Os autores também destacam a desqualificação de universidades, jornalistas, cientistas e instituições públicas como parte de uma estratégia que explora a desconfiança social para fazer prevalecer uma suposta verdade alternativa. Assim, a mentira política deixa de ser apenas um recurso ocasional de propaganda e passa a integrar uma forma de organização da experiência coletiva, na qual a fidelidade ao grupo pode se sobrepor à verificação dos fatos (Bispo, Scaramussa e Silva, 2022).

O estudo de Feres Júnior e Almeida de Paula (2025) amplia essa interpretação ao argumentar que a esfera comunicacional constitui um elemento central para compreender o bolsonarismo. Com base em uma pesquisa qualitativa nacional realizada por meio de grupos focais com apoiadores persistentes e pessoas arrependidas do voto em Bolsonaro, os autores examinam não apenas as preferências políticas dos participantes, mas também seus hábitos de consumo de informação e os modos pelos quais constroem suas interpretações da realidade.
A hipótese central é que o acesso facilitado a versões alternativas dos acontecimentos e a narrativas políticas concorrentes ajuda a conectar grupos com motivações distintas. Mensagens sobre corrupção, segurança pública, família, gênero, religião, patriotismo e economia podem mobilizar públicos diferentes em torno de uma mesma liderança, ainda que não exista completa unidade entre seus interesses ou convicções. Essa abordagem permite perceber que o bolsonarismo não se reduz a uma ideologia inteiramente homogênea: sua coesão é produzida, em parte, por circuitos de comunicação que selecionam, reforçam e difundem narrativas capazes de manter a identificação política (Feres Júnior e Almeida de Paula, 2025).
A relação entre fanatismo religioso e bolsonarismo deve ser compreendida nesse contexto de mobilização das crenças e dos afetos. O problema não está na religiosidade em si, nem na participação política de cristãos, evangélicos ou católicos, mas na instrumentalização política da fé quando determinadas lideranças apresentam suas posições como expressão exclusiva da vontade divina e convertem adversários políticos em inimigos morais ou espirituais.
No cenário analisado pelos dois artigos, temas relacionados à sexualidade, à família, aos valores tradicionais e à chamada ideologia de gênero foram mobilizados para estabelecer vínculos entre a liderança bolsonarista e segmentos religiosos. A política passa, então, a ser interpretada por meio de uma oposição moral entre o bem e o mal, na qual apoiar determinado líder pode adquirir o significado de defender a família, a pátria ou a própria fé. Essa sacralização da liderança dificulta o questionamento crítico: uma crítica ao governante pode ser percebida como agressão às convicções religiosas do grupo, enquanto informações contraditórias são rejeitadas como parte de uma conspiração contra os valores que ele afirma defender. O fanatismo emerge quando a crença deixa de conviver com a reflexão, a pluralidade e a possibilidade de revisão e passa a exigir fidelidade incondicional. É importante, entretanto, não confundir esse processo com a totalidade das comunidades religiosas, que são diversas e também podem constituir espaços de solidariedade, justiça social e resistência ao autoritarismo (Feres Júnior e Almeida de Paula, 2025).
A articulação entre desinformação, mobilização religiosa e neofascismo torna-se mais evidente quando se observa a construção de uma liderança personalista, apresentada como alguém que desafia as instituições, enfrenta inimigos supostamente poderosos e representa diretamente a vontade de um povo idealizado. Bispo, Scaramussa e Silva (2022) interpretam essa identificação a partir da psicologia das massas: o líder pode ser idealizado não necessariamente por suas virtudes tradicionais, mas por sua imagem de alguém que rompe convenções, afronta adversários e manifesta abertamente impulsos de agressividade.
A transgressão das normas de convivência pode ser reinterpretada pelos apoiadores como autenticidade e coragem, enquanto a hostilidade contra grupos considerados diferentes é apresentada como demonstração de força. Essa dinâmica guarda afinidades com mecanismos historicamente explorados pela propaganda fascista, como a fabricação de inimigos, o culto à liderança, a mobilização de ressentimentos e a deslegitimação de instituições que limitam o poder. No caso brasileiro, discursos de exaltação do militarismo, apologia à violência e ataques à legitimidade de instituições democráticas podem contribuir para normalizar práticas autoritárias (Bispo, Scaramussa e Silva, 2022). Isso não significa que todos os apoiadores compartilhem um projeto neofascista plenamente consciente, mas que determinados mecanismos de mobilização podem favorecer a erosão do pluralismo e a aceitação de soluções autoritárias.
É justamente nesse ponto que a noção de patologia social adquire força explicativa. Uma sociedade passa a apresentar sinais de deterioração democrática quando a mentira se torna um instrumento habitual de mobilização, a divergência é tratada como ameaça, a ciência é desacreditada por conveniência ideológica e a fidelidade a uma liderança se sobrepõe à responsabilidade de avaliar criticamente suas decisões. Bispo, Scaramussa e Silva (2022), destacam que durante a pandemia de Covid-19, a circulação de discursos negacionistas e de informações prejudiciais à saúde pública, evidenciando que as consequências da desinformação ultrapassam o campo eleitoral e podem afetar diretamente a proteção da vida.
O estudo de Feres Júnior e Almeida de Paula (2025), por sua vez, chama atenção para a importância dos hábitos de consumo de informação e dos circuitos comunicacionais na sustentação do bolsonarismo. Em conjunto, essas análises permitem compreender que o fenômeno não se explica simplesmente pela existência de pessoas conservadoras ou religiosas, mas por uma articulação entre identificação afetiva, desinformação, polarização moral e formas de comunicação que podem tornar determinadas crenças resistentes à crítica. Quando essa articulação enfraquece a capacidade de reconhecer fatos compartilhados e de conviver democraticamente com o dissenso, o problema deixa de ser apenas individual e passa a comprometer as condições coletivas da vida democrática.
Em síntese, interpretar o bolsonarismo como patologia social significa reconhecer uma forma de organização política na qual fake news, instrumentalização da religião e mecanismos de mobilização neofascista podem se reforçar mutuamente. A desinformação oferece narrativas simplificadoras; o fanatismo transforma essas narrativas em certezas protegidas contra o questionamento; e a identificação com uma liderança personalista converte a adesão política em vínculo afetivo e moral.
As redes digitais ampliam a circulação dessas mensagens e favorecem sua repetição, enquanto a desqualificação das instituições científicas, jornalísticas e democráticas reduz os espaços de verificação e debate. Enfrentar esse processo exige fortalecer a educação crítica, o letramento midiático, a formação científica e a cultura democrática, sem estigmatizar a diversidade religiosa ou presumir que todos os apoiadores de uma corrente política sejam iguais.
A questão fundamental é preservar as condições sociais para que as crenças possam ser discutidas, as informações verificadas, as lideranças responsabilizadas e as diferenças reconhecidas. A defesa da democracia depende, em última instância, da capacidade de impedir que a fidelidade a um líder ou a um grupo se torne mais importante do que a verdade factual, a dignidade humana e o direito de todos à participação política. Que tenhamos coragem de defender a democracia e tudo o que ela representa para o POVO BRASILEIRO.
Referências
BISPO, Fábio Santos; SCARAMUSSA, Melissa Festa; SILVA, Beatriz Oliveira da. Bolsonarismo e a psicologia das massas 100 anos depois. Trivium — Estudos Interdisciplinares, Rio de Janeiro, v. 14, número especial, abr. 2022. Disponível em: PePSIC/SciELO.
BRITO FILHO, Cláudio Orestes. Intoxicação digital. Paraíba: Espaço APMED, 2023. Disponível em: https://crmpb.org.br/artigos/espaco-apmed-intoxicacao-digital. Acesso em: 20 jul. 2026.
BAPTISTA, Angela, JERUSALINSKY, Julieta. Intoxicações eletrônicas: o sujeito na era das relações virtuais. Editora Ágalma: Salvador, 2017.
DESMURGET, Michel. A fábrica de cretinos digitais: os perigos das telas para nossas crianças. Tradução de Mauro Pinheiro. Rio de Janeiro: Vestígio, 2021.
FÁVERO, Altair Alberto; TONIETO, Carina; Rosa, Letícia Robalo; TRZIMAJEWSKI, Livia Tobino. Os perigos das intoxicações eletrônicas nos processos de aprendizagem em tempos de cultura digital na escola. Passo Fundo: mimeo, 2026.
FERES JÚNIOR, João; ALMEIDA DE PAULA, Carolina. O que é o bolsonarismo? Muito além da abordagem sociológica. Dados, Rio de Janeiro, v. 68, n. 4, 2025. DOI: https://doi.org/10.1590/dados.2025.68.4.401. Disponível em: SciELO — texto integral em PDF
JERUSALINSKY, Julieta. Intoxicações eletrônicas na primeira infância. Fundação Padre Anchieta: Café Filosófico-CPFL. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=CJCrRouBNAY&t=321s. Acesso em: 20 jul. 2026.
JERUSALINSKY, Julieta. Intoxicação eletrônica: o sujeito na era das relações virtuais. UNIJUÍ: Semana Acadêmica da Psicologia. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=-8z1wOeWezs&t=435s. Acesso em: 28 jul. 2026.
SILVA JÚNIOR, João dos Reis; FARGONI, Everton Henrique Eleutério. Bolsonarismo: a necropolítica brasileira como pacto entre fascistas e neoliberais. Revista Eletrônica de Educação, São Carlos, v. 14, 2020. DOI: https://doi.org/10.14244/198271994533
Autor: Altair Alberto Fávero – altairfavero@gmail.com Professor e Pesquisador do Gepes/PPGEdu/UPF. Também escreveu e publicou no site “Para entender o discurso de ódio”: www.neipies.com/para-entender-o-discurso-de-odio/
Edição: A. R.












Centésima publicação de Altair Fávero!
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