A nova CHINA: o livro de KEYU JIN

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Aqui, estamos numa democracia liberal em disputa com a direita fascista.  Lá o governo comunista centraliza e decide. A economia é de Mercado, porque o partido quer e controla. O povo está bem melhor.

“A nova China”, livro de Keyu Jin foi publicado no Brasil em 2024.

Não me conformo com a ausência de informações sérias sobre a China em nosso país, ainda mais sendo nosso grande parceiro comercial.  Como diz a autora, chinesa de nascimento, tendo estudado nos EUA e trabalhando no Reino Unido a nova China é para além do socialismo e do capitalismo.

No mundo ocidental temos dificuldades de ver, ouvir e sentir algo além de nossas fronteiras.

De que nos adianta pensar ou estudar o maoísmo, a Grande Marcha e a Revolução Cultural, se nada sabemos da segunda maior economia do mundo.

Comecei a pesquisar algumas coisas na Internet, mas vi que seria impossível construir um sólido mosaico com tantas peças. Não é fortuito que a Rede Globo desloca um jornalista para acompanhar a nova China, trazendo matérias a cada domingo no Fantástico.

A China ainda preserva tradições, e a cultura está fincada sobre alicerces sólidos.  Na China, com produção e consumo desenfreado, mantém-se a ideia de que o coletivo vem antes do individual.

O ano de 1978 é o marco das mudanças com Deng Xiaopíng. É o início da modernização da China. Abrem-se amplas possibilidades para inversões de capital. Abre-se a economia. O Estado se associa. O Estado continua dando as diretivas.

No início do processo, o Estado tinha como meta produzir ao máximo, garantindo um PIB de dois dígitos. Muitos erros foram cometidos como competitividade predatória, baixa qualidade de produtos e desrespeito ao meio ambiente.

Na atualidade, sob Xi Jinping, o foco está na tecnologia e mais cuidados ambientais.

DE GERAÇÃO A GERAÇÃO

Ser um orgulho para os nossos antepassados”: a máxima confucioniana parece ser o motor do que acontece na China.

Para a geração de Deng Xiaoping, que mudou os rumos da China, a industrialização foi feita a todo custo. A própria agricultura e os trabalhadores do campo pagaram caro para ser uma força auxiliar para alavancar a industrialização. O intuito era superar o atraso.

Quando os agricultores puderam lavrar suas terras vendiam parte ao governo com os preços ditados pela burocracia estatal, e o restante estava livre para negociar. Suas vidas começaram a melhorar.

Os jovens, na atualidade, não pensam mais na industrialização, mas nas novas tecnologias. Mesmo viajando ao exterior e entrando numa corrida consumista não perderam suas raízes, pensar no coletivo antes do individual parece não se exaurir. Pensam e agem no processo intergeracional, com muito respeito aos idosos, em especial seus pais e avós.

Na industrialização desenfreada se produzia sem qualidade e muitos horrores foram praticados, como a depredação ambiental.

Em 2001, a China entra na OMC, Organização Mundial do Comércio. Ou seja, integra-se ao mercado global e suas regras.

Na atual gestão do presidente Xi Jinping há mais preocupação com uma disputa de mercado com qualidade e mais atenção aos temas ambientais. Não pensem que tudo seja um desenvolvimento linear. Muitos erros aconteceram.

O que move os governantes e gestores chineses é o pragmatismo e, desde sempre, a China lida com a meritocracia e premia os que se destacam.

A POLÍTICA DO FILHO ÚNICO

A China como sabemos, com sua grande dimensão geográfica, tem também uma imensa população.

Nos anos 1970, o governo preocupado com uma explosão demográfica sem controles, optou por uma radical política de controle populacional, exigindo das famílias controle de natalidade: um filho por casal.

Foi um processo com problemas. As famílias por certa tradição queriam filhos homens, e houve uma desproporção de gêneros, com mais homens que mulheres.

Como há uma tradição intergeracional de filhos ampararem os pais na velhice, até porque a assistência aos aposentados ainda é precária, pensava-se que homens, com mais possibilidades de emprego e ganhos, poderiam dar mais amparo.

Porém, esta política fez com que o país apostasse muito na educação dos filhos, com um só filho poderiam gastar mais e começaram com aulas e cursos suplementares, gerando nas filhas mulheres uma geração mais empoderada e autônoma.

Hoje, há falta de “noivas” para casar.

A atual geração é consumista, não apenas das milhares de coisas à mão, optam por viagens, cursos no exterior. São jovens mais focados em temas ambientais e até na defesa da vida selvagem na África.

Mas é ainda uma geração que pensa nos pais e sabem que os pais pensam em tê-los empregados perto de casa.

Os jovens têm problemas por hiperqualificacão profissional, com 20% de desempregados neste segmento, logo pensam que talvez um curso técnico tivesse sido melhor.

A nova China vive estes e outros dilemas de seu desenvolvimento desenfreado por décadas. Na China desde sempre há a cultura da competitividade o que tem causado dilemas, pois a meritocracia ainda é uma visão que prevalece.

A BENÇÃO E A MALDIÇÃO DO PIB

Há uma fixação chinesa em torno do crescimento do PIB. A questão foi, por muito tempo, fazer o PIB crescer, a qualquer preço.

Cidades e províncias apresentavam o PIB muitas vezes inflado; tanto que o PIB nacional era, em regra, inferior aos dados regionais somados. A conta não fechava, mas a fúria para alcançar maiores patamares era a tônica.

Há muita força dos prefeitos e dirigentes de províncias na economia local que, mesmo apresentando benefícios ao povo com mais empregos e renda, conquistaram tudo isso à custa de propinas, alta corrupção, destruição ambiental, do patrimônio cultural e aumento da poluição.

 Por isso, Keyu Jin, a autora do livro A nova China, fala em benção e maldição do PIB.

 Às vezes, foram feitas obras faraônicas e impactantes sem uso relevante, um desperdício; porém, estas inflavam o PIB local.

A questão chegou a um ponto intolerável, fazendo Xi Jinping – 2013 – a levantar uma rigorosa política anticorrupção. Isso pode ter causado certa lentidão, indolência e desinteresse de governantes locais. Há economistas que chegam a dizer que propinas podem ser um impulso da economia, mas o governo de Xi Jinping quer acabar com estas práticas, sendo que muitos que enriqueceram acabaram indo para a cadeia.

É uma dura tarefa do governo central enfrentar.  Talvez como mostramos deverá apelar para a cultura da competição e meritocracia, cousas estranhas para nós brasileiros.

O SISTEMA FINANCEIRO

A autora de A nova China, dedica 37 páginas ao sistema financeiro.

Ela nos diz que a bolsa chinesa não é uma anomalia, mas um reflexo de seu sistema financeiro ineficiente e caótico.

Lembra a falência do grupo imobiliário EVERGRANDE que contaminou outros setores, levando de roldão os pequenos poupadores. O povo chinês tem historicamente uma alta poupança, chegando a 30%, o que para nós é inacreditável.

Ela nos fala que a economia americana é próspera devido ao seu setor financeiro bem organizado. Já a China cresceu, apesar de seu sistema desorganizado.

A China criou, como nos EUA, um sistema financeiro paralelo. O governo abriu brechas e até incentivou os mecanismos deste sistema. Ele se apoia em criação de papéis, em especial emitidos pelos governos locais.

Houve quem no início do século dava cinco anos para um estouro do império chinês e seu crescimento exponencial.  Nada disso aconteceu.  Na crise da bolha imobiliária americana, a cúpula governamental se reuniu e abriu mecanismos para impulsionar a economia local.

Todos temem a bolha imobiliária chinesa. Em 2019, o governo resolveu puxar o freio em investimentos imobiliários. Afinal, há um envelhecimento da população chinesa, e os jovens não querem ter filhos ou poucos filhos, retardando o casamento ou mesmo não casando.

A CORRIDA TECNOLÓGICA

Desde o uso da pedra como ferramenta, a tecnologia transformou a vida humana. Atualmente, é a tecnologia que dita quem ganha ou perde na geopolítica global.

Já na dinastia Song a China descobriu a pólvora, o papel, a impressão, a bússola.

Na China se busca, além da inovação em produtos, a inovação em processos. A China disputa preços no mercado mundial, porque tem uma mão de obra mais barata. O top da Huawei custa a metade de um Iphone.

O Ocidente errou e erra ao menosprezar a capacidade da evolução tecnológica da China.

A evolução dos avanços em tecnologia passou por períodos de cópia e imitação. Mas isto é passado. A China está na OMC desde 2001.

É grande a competição entre empresas na China. Já mostramos que a cultura chinesa é de competição, de disputas, de meritocracia.

Um dos elementos essenciais hoje em dia é o valor dos dados. A China, além do contingente habitacional, tem um o povo que paga tudo de forma digital, assim dados e dados podem ser coletados.

Mas a China tem agora uma rigorosa legislação de proteção de dados. Os EUA estão muito atrás da China com os pagamentos digitais.

As plataformas são um poderio na China, desde as vendas da Alibaba, aplicativos que disputam em outros países com o Uber. A China é dona do 99. Lembrando que foi criado por brasileiros.

Hoje, depois de anos de cópias e pirataria, a China preza a propriedade intelectual e tem políticas de proteção estatal.

O PAPEL DA GLOBALIZAÇÃO

Anotem esta data: 1878.A guerra do Vietnã havia acabado. Kissinger visita a China em 1971 e Nixon, um ano após.

Em 1972, formalizam relações. Ainda estávamos na era Mao Tse Tung.

A Deng Xiaoping que a China deve a política de se reformar e adentrar o mundo, integrar-se. Mesmo com esta perspectiva, a China não se globalizou do dia para a noite, com uma ordem do PCC. A China era pobre e agrária. 

O primeiro passo foi incentivar a industrialização. E assim se fez. Copiou, pirateou e conquistou o mercado das quinquilharias. Mas, agora, a China quer muito mais. Quer estar na linha de frente da tecnologia.

A produção desenfreada de roupas e acessórios está com o Vietnã e outros países do leste asiático.

O mercado está hiperglobalizado. Uma peça pode vir da Coreia ou da Alemanha, e a Foxconn – que é de Taiwan – fabrica o produto final na China. Já se fala em desmobilização para garantir as empresas locais sem depender desta complexa cadeia global.  Mais uma vez, a vontade é uma, mas a realidade do mercado tem suas pressões violentas.

Ou seja, é fácil odiar, conveniente criticar, mas difícil de parar a China.

Na era digital somem as fronteiras, pois americanos compram roupas na plataforma Alibaba, que está entrando na Europa, tem o streaming, tem o gosto pelas viagens, tem os estudos. O aplicativo 99 era daqui e hoje é chinês. O aplicativo deles compete e ultrapassou o Uber no México.

A China quer produzir coisas mais sofisticadas, chegando aos parâmetros do Japão e outros. Quer avançar em qualidade nas confecções e sair da pecha de só produzir blusinhas para a Shein.

A China é quem mais emprega recursos no tema das mudanças climáticas.

Aposta, repetindo, na alta tecnologia seja com suas empresas ou com as estrangeiras associadas. A fábrica mais avançada da Tesla está em Xangai.

O próximo passo na integração mundial é disputar com seus avanços o sistema financeiro.

 NÓS E A CHINA

Por que se fala tão pouco da China por aqui?Por que economistas e gestores não estudam a nova China?

Ortodoxos falam da Revolução Cultural de Mao Tse Tung. Mas a nova China é de Deng Xiaoping e Xi Jinping.

É preciso ler o livro A nova China de Keyu Jin.

Nós somos um país colonizado. E isto não é pouco. A raiz cultural dos povos indígenas foi arrancada com o genocídio deles. Africanos foram caçados em suas terras e trazidos à força e escravizados. Libertos, foram jogados às ruas sem eira nem beira.

Os que vieram aqui colonizar o país eram aventureiros e de pouca instrução.  Eram todos predadores.

Já a China tem uma história milenar. Tem Confúcio e uma filosofia. Eles descobriram a pólvora, a bússola, o papel é a impressão.

A China tem mais e muitas histórias.

Sua filosofia sempre foi a ousadia e a perseverança.  Sempre focaram na meritocracia. Nós, bem nós, pegamos o pau brasil e o ouro e foi para os outros. O açúcar e o café foram para fora também.

 A China era pobre. Hoje, é rica.

Copiou muito. Fez bugigangas. Mas isso já é passado. Estão focados na alta tecnologia. Podem imaginar uma cidade com Shenzhen no Brasil?

Aqui os municípios privatizam suas empresas. Lá fazem Joint Ventures…

A nossa Carris não teria sido vendida, o município por lá buscaria uma parceria para ter todos os ônibus ecológicos ou ia mais além faria VLT ou metrô.

Aqui, estamos numa democracia liberal em disputa com a direita fascista.  Lá o governo comunista centraliza e decide. A economia é de Mercado, porque o partido quer e controla. O povo está bem melhor.

Autor: Adeli Sell. Professor, escritor e bacharel em Direito. Também escreveu e publicou no site “Quem não comunica se trumbica”: www.neipies.com/quem-nao-se-comunica-se-trumbica/

Edição: A. R.

1 COMENTÁRIO

  1. Aqui, estamos numa democracia liberal em disputa com a direita fascista. Lá o governo comunista centraliza e decide. A economia é de Mercado, porque o partido quer e controla. O povo está bem melhor.

    Autor: Adeli Sell

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