A filosofia como meio de transgressão da própria consciência intelectual

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Precisamos nos reinventar para tornar a escrita filosófica não apenas um conhecimento necessário para a sociedade atual, mas também recuperar o prazer da escrita, a liberdade de escrever sem calcular tempos, custos, alcances, normas ou ganhos. Entendo que ainda podemos fazer um caminho inverso a partir das mesmas ferramentas que a filosofia nos dá. Haverá outros que sejam corajosos o suficiente para tentar?

Estudar e escrever sobre filosofia tem a ver -nos casos em que me incluo- com uma transgressão inventiva contínua que nos mantenha alertas diante de qualquer normalização. Transgressão, porque implica romper com algo para ir em direção a outra coisa diferente, seja uma situação externa, mas acima de tudo implica uma atitude interna; inventiva, porque implica criatividade, inovação, que não pode cair no engano da repetição. Transgredir inventivamente é muitas vezes aceitar criticamente uma condição imposta e agir contra dela, de agir em contra a corrente.

No contínuo devir da vida intelectual, o filósofo acadêmico deve conhecer, respeitar e cumprir as normas impostas pelos cânones científicos, se quiser ter sucesso. Isso faz parte da normalização. Mas, atenção: o que é ter sucesso no mundo acadêmico? Sabemos que somos medidos por números, em termos de produção de textos denominados científicos, que devem cumprir as normas de publicação, mas acima de tudo somos tratados como números, esquecendo-nos de que somos pessoas.

Desgastamo-nos escrevendo artigos (papers) que sabemos que quase ninguém lerá, apenas os revisores da revista para onde os enviamos e algum que outro colega. Mais frustrante ainda é o negócio da publicação, onde não só se paga para publicar, mas também se deve pagar para acessar aos textos, e o autor e o leitor são roubados para enriquecer as grandes empresas proprietárias das revistas.

Quando falamos em ter sucesso na academia, do que estamos falando? Ainda não vejo nisso nenhuma consonância com o reconhecimento público, com a promoção do humano, com a valorização e o cuidado do trabalhador intelectual. Estamos longe disso. Quanto mais sucesso, mas exploração. Muitos intelectuais se autoexploram para produzir em meio a longas jornadas de trabalho, entre aulas a ministrar, teses a ler, artigos a corrigir, revistas a organizar e, em esforços extremos de cansaço, produzem artigos para publicar.

Como é compreensível, é muito difícil dizer algo novo, desenvolver uma ideia ou conceito que contribua com outros, mas acima de tudo é mais difícil que o que escrevemos seja lido. Se a métrica também exige ser citado, isso leva muitos acadêmicos à autocitação contínua, em uma vida totalmente oprimida e submetida às exigências da produção.

Há anos que os jovens que iniciam uma carreira acadêmica atraídos pelas humanidades encontram vários obstáculos que devem superar. A ilusão de dedicar alguns anos a uma formação básica, depois a uma especialização, para depois ter tempo para escrever e publicar -com a consequente formação permanente nos temas de seu interesse- vê-se, na grande maioria das vezes, frustrada pela esmagadora maquinaria acadêmica.

O sonho de realizar uma vida como escritor vai se transformando no de um funcionário autômata, produtor “em série” de escritos, muitas vezes repetitivos, arrastado pelas exigências acadêmicas.

Nas palavras de Han: “A exigência de tornar transparente a própria escrita equivale à sua eliminação. Escrever é uma ação exclusiva, enquanto que escrever coletivamente, de forma transparente, é meramente aditivo”[1] quando se perde o essencial da escrita. Desde o próprio processo educacional, seja uma graduação, um mestrado ou um doutorado, o jovem estudante experimenta a obrigação de publicar seus primeiros trabalhos se quiser garantir um futuro de sucesso, muitas vezes sem ter tempo para pesquisar em profundidade.

Precisamos questionar o clima cultural em que vivemos diante da falta de liberdade quando esta é submetida à máquina digital e à máquina do capital. Han escreve: “não constituem uma aliança terrível, que aniquila essa liberdade de ação? Não vivemos hoje em uma época dos não mortos, em que se tornou impossível não apenas nascer, mas também morrer?”[2] Essas perguntas esclarecem este ponto: diante do nascimento de uma vocação intelectual, se torna impossível cuidar dela e ajudá-la a crescer. Por quê? Porque a maioria dos acadêmicos e intelectuais está preocupada em evitar sua própria morte. Não há tempo para se dedicar a formar os futuros intelectuais, por um lado, porque eles são sua competência -embora em potencial-, mas acima de tudo porque eles próprios precisam sobreviver.

Em outro texto, Han diz: “A crescente atomização da sociedade nos torna surdos à voz do outro. Isso também leva à perda da empatia”[3]. Na vida acadêmica, assistimos cada vez mais a uma desumanização, com indivíduos que são forçados a viver em um medo contínuo de punição e com uma preocupação que gira em torno da mentalidade econômica, “como a preparação dos estudantes para ingressar na força de trabalho e a transformação do corpo docente em um exército de trabalhadores subalternos e temporários”[4].

Em um texto muito crítico, mas não isento de beleza, intitulado A claustrofobia da Academia, o jovem filósofo argentino Martin Grassi afirma: “A Universidade é hoje outra coisa… já não é academia. Lá já não se inicia nada, porque não há nada para iniciar; nada se inaugura, tudo se repete. Com uma estocada fatal e dialética, a Academia desferiu seu golpe contra a dignidade da Universidade: enquanto na Academia encontramos o poder de produção da verdade, na Universidade encontramos apenas o funcionamento da máquina fabril da reprodução simbólica”[5]. Eis aqui dito de forma poética e consciente o que vivemos hoje.

Precisamos transgredir a própria consciência acadêmica que nos faz repetir esquemas e que não nos permite crescer, mudar, evoluir. Precisamos nos reinventar para tornar a escrita filosófica não apenas um conhecimento necessário para a sociedade atual, mas também recuperar o prazer da escrita, a liberdade de escrever sem calcular tempos, custos, alcances, normas ou ganhos. Entendo que ainda podemos fazer um caminho inverso a partir das mesmas ferramentas que a filosofia nos dá. Haverá outros que sejam corajosos o suficiente para tentar? Acredito que sim, que há muitos por todas as partes.

REFERÊNCIAS:


[1] Han, Byung-Chul. (2014), En el enjambre, Madrid: Herder, 2014, p. 38. Tradução pessoal do espanhol.

[2] Ibidem, p. 56.

[3] Han, Byung-Chul. (2014), Infocracia. La digitalización de la democracia, Buenos Aires: Taurus, 2022, p. 38. Tradução pessoal do espanhol.

[4] Giroux, Henry, La guerra del neoliberalismo contra la educación superior, Barcelona: Herder, 2018, p. 254. Tradução pessoal do espanhol.

[5] Grassi, Martín, El Dios de los ladrones. La disputa por los sentidos del mundo, Buenos Aires: SB, 2021, p. 113. Tradução pessoal do español.

Autor: Diego Pereira Rios. Uruguayo, Profesor de Filosofía por la Universidad de Montevideo (ANEP), Magister en Teología Latinoamericana por la Universidad Centroamericana “José Simeón Cañas” (UCA), El Salvador. Actualmente cursa el doctorado en Filosofía en la Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), Toledo-PR, Brasil. Autor de once libros sobre educación, filosofía, poesía y teología. Email: pereira.arje@gmail.com Também escreveu e publicou no site “A rebeldia do filosofar”:  www.neipies.com/a-rebeldia-do-filosofar/

Uruguaio, 46 anos, professor de Filosofia pela Universidade de Montevidéu (ANEP), Mestre em Teologia Latino-Americana pela Universidade Centro-Americana “José Simeón Cañas” (UCA), El Salvador. Atualmente cursa o doutorado em Filosofia na Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), Toledo-PR, Brasil. Escritor e autor de onze livros sobre educação, filosofia, poesia e teologia. E-mail: pereira.arje@gmail.com

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