A Cultura Gaúcha como síntese de união e força social

1241

Cada geração tem sua querência nesse processo: os pequenos herdam, os jovens reinventam, os adultos consolidam e os velhos ensinam. É nesse ciclo, tal como o mate que nunca deve ser deixado morrer na cuia, que se sustenta a perenidade da tradição.

Defender a cultura gaúcha é, acima de tudo, defender a essência da identidade humana forjada no Rio Grande do Sul. Não se trata apenas de preservar o chimarrão, a pilcha, a gaita ou a dança do fandango; trata-se de reconhecer que cada toque de gaita-ponto, cada roda de mate repassada de mão em mão, carrega em si o símbolo maior da convivência entre povos, da resistência da memória e da afirmação de uma dignidade coletiva. O galpão, seja de estância ou de CTG, é muito mais do que um espaço físico: é o santuário da hospitalidade, o palco onde se reúnem histórias, saberes e afetos.

Ao mesmo tempo em que se evoca o pingo campeiro domado no laço, o churrasco de fogo de chão e a palavra franca do mateador, evoca-se também a presença do índigena que ensinou a cultivar, do negro que, com suor e luta, moldou as bases do trabalho, e do europeu que trouxe na bagagem sonhos e esperança.

O Rio Grande se fez na mescla: entre lanças e guitarras, entre a milonga e o batuque, entre a fé católica e os ritos ancestrais. Nessa fusão de raças e costumes ergue-se o verdadeiro rancho humano, que não distingue a origem de cada tijolo, mas valoriza a fortaleza da construção.

Ao defender a cultura gaúcha, não se está apartando o campo da cidade. Muito pelo contrário: está-se erguendo uma ponte sólida entre o trabalho rude da estância e o dinamismo urbano. O carreteiro que alimenta a roda é o mesmo espírito que anima a partilha da refeição na cidade; a roda de mate que congrega peões sob a sombra do cinamomo é a mesma simbologia de união que pode reunir jovens em praças e escolas. O folclore, longe de ser relíquia do passado, é ferramenta viva de coesão social, capaz de unir gerações, renovar valores e projetar a sociedade para o futuro.

Não há, portanto, cultura gaúcha sem crianças que aprendam a ensilhar, sem jovens que dancem a chula, sem adultos que mantenham o fogo aceso do galpão, e sem idosos que transmitam a memória oral. Cada geração tem sua querência nesse processo: os pequenos herdam, os jovens reinventam, os adultos consolidam e os velhos ensinam. É nesse ciclo, tal como o mate que nunca deve ser deixado morrer na cuia, que se sustenta a perenidade da tradição.

Assim, defender o Rio Grande em sua cultura é afirmar que a união entre os povos e digo, todos os povos desta querência, europeus, asiáticos, africanos, latinos, ciganos e nosso povo originário a diversidade que enriquece e o respeito às origens são o melhor instrumento de progresso. A tradição não é prisão, mas raiz; não é limitação, mas força que sustenta a árvore de uma sociedade justa e solidária.

O gaúcho, de bombacha ou roupa atual, no campo ou na cidade, sabe que sua maior herança é a de cultivar a fraternidade. E, enquanto houver um galpão aceso pela chama da hospitalidade, haverá futuro para a cultura gaúcha e para o povo que nela se reconhece.

A cultura gaúcha, quando compreendida em toda a sua riqueza, transcende o caráter meramente tradicionalista e se afirma como ferramenta de inclusão social e valorização da diversidade. O galpão, que historicamente foi lugar de encontro e partilha, hoje também pode ser compreendido como espaço democrático, no qual mulheres, crianças, jovens e idosos encontram voz e reconhecimento. Se no passado a lida campeira muitas vezes relegava papéis restritos, hoje a tradição se reinventa para acolher e afirmar a presença feminina, seja na declamação, no canto, na dança ou na liderança de movimentos culturais. Ao abrir-se para todos, a cultura gaúcha reafirma-se como patrimônio humano, e não apenas de um segmento.

Além disso, o fortalecimento da cadeia produtiva da cultura e do turismo regional é caminho fértil para garantir dignidade a trabalhadores do campo e da cidade. A indumentária, a música, o artesanato, a culinária e as manifestações artísticas de raiz compõem um circuito que gera renda, movimenta economias locais e aproxima visitantes da autenticidade da vida gaúcha. O turista que se encanta com a chama do fogo de chão ou com o bailado de uma invernada artística não consome apenas um espetáculo: ele vivencia a memória viva de um povo, perpetuando-a. Assim, a tradição se torna também motor de desenvolvimento sustentável.

Defender a cultura gaúcha, portanto, é defender um projeto de sociedade que não exclui, mas integra.

A criança que aprende a sapatear uma chula, a jovem que encontra no CTG espaço para liderança, o idoso que narra causos de campanha, a mulher que reivindica seu lugar de protagonismo na tradição — todos são parte do mesmo laço de inclusão. A cultura, quando partilhada, transforma-se em escudo contra desigualdades e em ponte para a cidadania.

Assim, mais do que preservar usos e costumes, é preciso compreender a cultura gaúcha como instrumento de justiça social, de valorização da pluralidade étnica e de respeito a todas as classes. Essa tradição que nasceu do cruzamento de povos e lutas deve, agora, seguir como farol que ilumina a construção de um Rio Grande e de um Brasil mais humano, fraterno e unido. Pois é no compasso da milonga e no calor do mate partilhado que se revela a maior lição gaúcha: a de que a cultura é sempre mais forte quando pertence a todos.

Autor: Alexandre da Rosa Vieira. Conselho Estadual de Cultura do Rio Grande do Sul. Também escreveu e publicou no site “Uma escola que ensine a subir escadas”: www.neipies.com/uma-escola-que-ensine-a-subir-escadas/

Edição: A. R.

1 COMENTÁRIO

  1. Parabéns pela abordagem, Confrade da APLetras (Academia Passo-Fundense de Letras de Passo Fundo) Alexandre da Rosa Vieira. Esta visão mais ampliada do gauchismo contempla também nosso entendimento sobre as diversas formas de ser e viver a vida de gaúchos e gaúchas.
    Que tenhas o conhecimento que mereces na presidência do Conselho Estadual de Cultura do Estado do Rio Grande do Sul.

DEIXE UMA RESPOSTA