Vai ser gauche na vida

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Os fenômenos climáticos são notícias de final do ano, e há gente que os negue. Feminicídios aumentaram em dezembro no Brasil, e há gente defendendo a submissão das mulheres. A história é muito gauche.

A partida de Luís Fernando Veríssimo me faz refletir sobre o papel dos intelectuais de esquerda para manter o mundo saudável. Poesia e humor não se fazem do outro lado. A direita tem muito ódio e é ranzinza. Falta-lhe poesia e bom humor. 

Porque, você sabe, ser de esquerda hoje em dia é como ser um hippie nos anos 60. Todo mundo quer ser, mas ninguém sabe exatamente o que isso significa. E isso é muito complexo para uma descrever numa crônica.

 Não sei se eu sou de esquerda. Sou mais um cara que gosta de questionar as coisas, de duvidar da autoridade, de rir da seriedade com que as pessoas tomam a vida. E, sim, eu acho que a desigualdade social é um problema, que a educação e a saúde são direitos fundamentais, e que a política deveria ser mais transparente e honesta.

Honestidade, aliás, é uma dimensão ética, que pode estar à direita ou à esquerda. Como o autoritarismo e totalitarismo, que também não têm ideologia.

Mas, isso me torna um intelectual de esquerda? Não sei. Os direitos humanos foram uma luta do capitalismo, para se proteger a si mesmo da falência. Os direitos trabalhistas também. São o que possibilita que os operários suportem vender suas horas de vida.

Assim entendo o trabalho. Como vida vendida para se ter dinheiro para melhorar o resto de tempo que nos sobra fora do trabalho. Quando sobra.

Talvez eu seja apenas um cara que gosta de pensar e escrever sobre as coisas que o incomodam. E, se isso é ser de esquerda, então eu sou. Mas, se ser de esquerda significa ter todas as respostas certas e saber exatamente o que fazer para mudar o mundo, então eu não sou.

Como escreveu Drummond:

“Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.”

Estradas tortuosas nos mantêm atentos ao caminho. Gente muito reta é muito burra ou muito chata.

Se eu fosse de direita seria mais fácil terminar esta crônica, porque ela tem muitas ideias prontas. “Bandido bom é bandinho morto”, “se está preso é porque fez alguma coisa”, “direitos humanos é o esterco da vagabundagem”, por exemplo.

Estamos em tempo de festas de final de ano e os presos de direita querem passar com a família, coisa que nunca quiseram para os outros criminosos.

A direita se ofendeu porque uma atriz fez uma propaganda para a gente começar o novo ano com os dois pés no chão, coisa aliás, muito razoável. Ter os dois pés no chão é como se enfrenta o mundo real, ou seriam quatro? Ou viramos sacis? Ou com nenhum, como os artistas que vivem enganando a força de gravidade, ou morando na Lua.

Os fenômenos climáticos são notícias de final do ano, e há gente que os negue. Feminicídios aumentaram em dezembro no Brasil, e há gente defendendo a submissão das mulheres. A história é muito gauche.

Autor: Pablo Morenno. Também escreveu e publicou no site “O maior desejo do mundo”: www.neipies.com/o-maior-desejo-do-mundo/

Edição: A. R.

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