Uma máquina infernal de pensar chamada Edgar Morin

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Edgar Morin sempre lutou para escapar dos limites circunscritos pelos domínios das especializações acadêmicas. Tornou-se o pensador símbolo do pensamento complexo e advogado da transdisciplinaridade, quando a busca de soluções de problemas difíceis esbarra em verdades corporativas previamente estabelecidas como irrefutáveis.

Talvez a mais feliz qualificação dada a Edgar Morin tenha sido feita pela jornalista Laure Adler que, em vez de se ater aos convencionais e mais frequentes rótulos de sociólogo e filósofo, no prefácio do livro de entrevistas “Edegar Morin – História(s) de vida”, de 2022, publicado no Brasil em 2023, se referiu a ele como “uma máquina infernal de pensar”.

Uma adjetivação mais do que adequada para um homem que, em 8 de julho de 2025, completou 104 anos, mantendo-se física e intelectualmente ativo, publicando novos livros a cada ano, que reúnem a “crème de la crème” do seu pensamento em textos memoráveis que podem tratar tanto de questões que deram sustentação à formação do seu pensamento complexo quanto de temas atuais, como os conflitos bélicos que ora assolam o mundo ou a análise de um artigo científico sobre medicina e que foi recém-publicado na revista Nature ou na consagrada The Lancet.

Edgar Morin sempre lutou para escapar dos limites circunscritos pelos domínios das especializações acadêmicas. Tornou-se o pensador símbolo do pensamento complexo e advogado da transdisciplinaridade, quando a busca de soluções de problemas difíceis esbarra em verdades corporativas previamente estabelecidas como irrefutáveis.

Ficou conhecido como o intelectual que se movimenta entre diferentes disciplinas, porém sempre deixou claro que a sua proposta nunca visou à eliminação das disciplinas especializadas e sim articulá-las e religá-las para que, de fato, se consiga avançar um pouco mais além do que é conhecido.

Um Morin centenário, evidentemente, não tem mais a vitalidade física para escrever obras do vulto dos seis volumes que deram forma ao O Método ou de robustez de livros tipo Os sete saberes necessários para a educação do futuro, porém jamais deixou de ser intelectualmente instigante na produção literária dessa nova fase da vida. Não se afastou nunca do papel que compete aos intelectuais em tempos de crise.

A passagem de Morin pelo Twitter (atual X), fazendo daquela rede social uma espécie de praça pública para, à maneira socrática, falar aos cidadãos da cidade digital, como ele próprio destacou, resultou, depois de uma década, no livro “Sementes de sagacidade”, publicado no Brasil, em 2025, pela Editora da Unesp, a partir da tradução do original “Graines de sagacité”, de 2024. Uma coletânea de aforismos, até pelo limite de caracteres impostos pelo Twitter, que trata das reflexões de Morin sobre o mundo, a vida, os seres humanos, a sociedade e, até mesmo, os acontecimentos atuais, sem deixar de lado temas como o amor, o conhecimento, a tecnologia e as guerras, nos convidando a imaginar e perceber que, sim, futuros diferentes dos que ora estão postos são possíveis.

Foi nas redes sociais que Morin descobriu que qualquer pessoa, ainda que ele não seja uma pessoa qualquer, mais ou menos pública, pode ser amada por amigos desconhecidos e, também, odiada por inimigos desconhecidos.

A ambos, ainda que de maneira diferente, demonstrou gratidão, pois aqueles que o insultaram lhe impediram de cair na euforia ingênua de que alguém é capaz de agradar a todos e lhe fizeram lembrar das profundezas horríveis da alma humana, como destacou à guisa de agradecimentos no final do livro “Sementes de sagacidade”.

Quando do seu centenário, em 2021, Morin, com peculiar ironia, recomendou que esses marcos temporais de idade deveriam ser evitandos, passando-se direto dos 99 para os 101. A receita para se viver tanto tempo e bem, segundo ele, além da dieta mediterrânea e um cálice de vinho diário, é não guardar rancores, pois o ódio causa sofrimento àquele que odeia. É preciso saber se libertar do egocentrismo, tentar entender melhor os outros, superar mesquinharias e as miopias mentais. Parece fácil? Tente.

A essência do legado de Edgar Morin, quem sabe tenha sido sintetizada por ele próprio na feliz epígrafe do livro “Sementes de sagacidade”: “Sou como uma árvore cujas sementes, levadas pelo vento, às vezes caem em desertos ou, às vezes, germinam muito longe daqui”.

Você já sabe, mas, como reza o jargão de bordo da companhia aérea que faz a rota Passo Fundo – Campinas, não custa lembrar: Edgar Morin esteve em Passo Fundo, por ocasião da Jornada Nacional de Literatura de 2003, quando recebeu o título de Professor Honoris Causa pela Universidade de Passo Fundo. Nossa gratidão à Professora Tania Rösing e a UPF por terem trazido intelectuais da estatura de Edgar Morin a Passo Fundo.

Leia também:São os erros que nos fazem crescer”, entrevista de Edgar Morin: www.neipies.com/sao-os-erros-que-nos-fazem-crescer-edgar-morin/

Autor: Gilberto Cunha. Também escreveu e publicou no site “O livro que nenhum passo-fundense vivo até então havia lido”: www.neipies.com/o-livro-que-nenhum-passo-fundense-vivo-ate-entao-havia-lido/

Edição: A. R.

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