Dia da Consciência Negra

Importante para todos nós o significado do dia da consciência de um povo resistente diante da opressão, capaz de orgulhar-se de seus valores, afirmar sua identidade racial e exigir igualdade de direitos pela afirmação de sua humanidade.

O preconceito, somado com a visão estreita e parcial dos que entendem suas razões como verdades absolutas, não conduzem a nenhum avanço social. Os exemplos sobram na história, quando ações discricionárias e deterministas denotam atitudes negativistas da igualdade racial. Nosso país foi um dos últimos a encerrar a prática escravista, expressão de uma compreensão mercantilista, exploradora e desumana, que usava o mercado de africanos como uma forma simples de resolver o problema do trabalho nas lavouras dos senhores brancos escravistas.

Importante lembrarmos que o 20 de novembro quer homenagear o dia em que Zumbi, o líder negro do Quilombo de Palmares, foi trucidado pelos caçadores de escravos, a serviço dos senhores brancos do poder central. Naquele 20 de novembro de 1695, esse episódio criou condições para que a ideia de liberdade se fortalecesse cada vez mais entre o povo negro e entre os brancos que não eram cúmplices de um império opressor.

A substância essencial da consciência negra se apoia nas significações de resistência, liberdade e emancipação, que investe contra o mito da superioridade branca. A lógica da opressão não se coaduna com a consciência crítica dos que são oprimidos pela identidade de sua raça. Existe uma ideia de libertação na consciência negra, que se torna um substrato filosófico fortalecedor de valores éticos e culturais, capaz de construir uma filosofia da libertação do povo negro, podendo romper com a lógica supremacista da branquitude.

Por tais razões, o fortalecimento da negritude rompe a ideia de servidão e essa consciência de si afirma a identidade, não pela cor da pele, mas pela compreensão de racionalidade presente em todos, sem as diferenças de superioridade e inferioridade entre os humanos.

O colonialismo, o racismo, a dominação dos que se sentem superiores sempre foram fatores impeditivos de compreensão das diferenças raciais, religiosas, culturais, na sociedade em geral. Mas ainda que tentassem suprimir tais diferenças à força, ou pelo extermínio, não conseguiram, porque as pessoas têm os seus valores e o chicote dos senhores nunca foi capaz de anular convicções.

A opressão não pode ser considerada uma fatalidade, um destino, mas é um problema que desafia a racionalidade ética e deve ser enfrentado. A luta racial consegue trazer significados mais perversos do que a luta de classes, porque a exigência de submissão pelos que se sentem superiores por serem brancos, ultrapassa uma lei de mercado e torna-se um determinismo aniquilador.

Importante para todos nós o significado do dia da consciência de um povo resistente diante da opressão, capaz de orgulhar-se de seus valores, afirmar sua identidade racial e exigir igualdade de direitos pela afirmação de sua humanidade.

Que o Brasil avance mais e melhor na qualidade de vida para todos e que não haja espaço para que se cometam mais crimes contra o povo negro. Ousemos pensar e ousemos atuar sobre a importância da igualdade racial em nosso país.

Autora: Cecília Pires. Também escreveu e publicou no site “E a mulher, o que ela quer”?: www.neipies.com/e-a-mulher-o-que-ela-quer/

Edição: A. R.

Consciência negra enseja resistir e lutar por reconhecimento e respeito, sempre!

Através do site, da nossa amizade e do trabalho como divulgador dos conhecimentos das religiões de matriz africana, conhecemos e reconhecemos a importância do trabalho de Ipácio Carolino junto às escolas da rede pública municipal e estadual na região de Passo Fundo, RS. Carolino é um incansável defensor das religiões de matriz africana, acreditando no poder do conhecimento e da educação antiracista.

Ipácio Carolino (Babá Ipácio de Bará Agelu) também recebeu o reconhecimento feito pela deputada estadual Luciana Genro com Troféu Guardião da Ancestralidade.

Luciana Genro defende o direito ao toque dos tambores, reconhecendo-o como uma expressão cultural e religiosa sagrada, e não como mero ruído. Ela realiza audiências públicas, realiza criação de leis que protegem as religiões de matriz africana e elabora materiais informativos e de denúncia contra o racismo religioso e a intolerância.

Alguns registros de evento:

Em 2020, publicamos uma importante matéria/entrevista com Ipácio Carolino e Tânia Mara Duda.

Segue o link: www.neipies.com/conhecendo-religioes-de-matriz-africana-testemunho-de-um-religioso-iniciado/

A nosso convite, Ipácio Carolino escreveu reflexão que segue sobre Política e religião.

Política e Religião

“No meu entendimento, é falsa a afirmação de que política e religião não se misturam. A história nos fala dessa estreita relação entre as religiões hegemônicas e o poder político em detrimento de outras visões de mundo com menor número de adeptos.

Alguns imperadores eram tidos como representantes de deus na terra; outros se diziam o próprio deus em forma humana. Ainda hoje existem governos teocráticos e mesmo os declarados estados laicos privilegiam determinados segmentos religiosos. Resta às minorias resistir, lutar por reconhecimento e respeito.

O Brasil, historicamente, proibiu e puniu a fé dos escravizados e dos povos originários.

E mesmo depois da constituição de 1988, que assegura a laicidade do estado e garante a liberdade de culto e crença em seu art. V, as religiões de matriz africana e afro-indígena são alvo de preconceito, discriminação, ataques violentos, da negligência ou inação do estado em fazer valer o que diz a Constituição.

Os espaços institucionais de poder e de decisão ainda estão sob o controle de quem promove uma “caça às bruxas”. Mas há uma luz na escuridão, uma luz no fim do túnel. É o farol de uma locomotiva que carrega pessoas dispostas a quebrar paradigmas.

A deputada estadual Luciana Genro – PSOL/RS, que não tem religião, tem um mandato que reconhece, respeita e valoriza as minorias – ou as maiorias minorizadas.

Junto com o lançamento da 2ª edição da Cartilha do Povo de Terreiro, instituiu o troféu “Guardião da Ancestralidade”, entregue à dezenas de líderes de terreiros do Rio Grande do Sul.

Sinto-me honrado por estar entre os homenageados e divido e multiplico essa honraria com muitas pessoas. Seria impossível nominá-las todas aqui, desde meus ancestrais, os antepassados, até os meus descendentes. Política e Religião podem coexistir, desde que de forma respeitosa e harmônica, sem que uma anule a outra.

Saravá!

Axé!”

(Autor Ipácio Carolino)          

Para Ipácio Carolino, Babalorixá e Cacique de Umbanda, o reconhecimento dos terreiros como espaços de cura representa reafirmar, dar visibilidade, tornar de conhecimento público aquilo que nós, povos de terreiro, sabemos desde sempre, que a saúde deve ser considerada em três dimensões: corpo, mente e espírito. Leia mais: www.neipies.com/a-ponte-entre-os-terreiros-de-matriz-africana-e-o-sistema-unico-de-saude-sus/

Edição: A. R.

Pentecostalismo e racismo religioso: as faces do racismo frente a presença negra em uma Igreja Assembleia de Deus no contexto de um Quilombo Urbano

As entrevistas com líderes da Igreja demonstram uma tendência, não absoluta, mas recorrente entre os grupos evangélicos, que é a falta de interesse ou participação em pautas sociais e ligadas as comunidades do seu entorno.

Os pentecostalismos no Brasil representam a instituição religiosa mais negra aqui constituída. Em um contexto de pouca problematização sobre o lugar de apagamento e estigmatização sofridos pela população negra em nossa realidade, mesmo leis como a 10.639/2003 que torna o ensino de História da África e Cultura Afro Brasileira se deparam com uma estrutura social, ideológica e política.

O espaço no qual a pesquisa de campo foi desenvolvida foi estabelecido pela sua relevância central para o debate quanto a questão do racismo sistêmico em nossa sociedade e como o fenômeno das religiões e religiosidades podem ser um sinal dessa prevalência.

Pensar o racismo no Brasil é compreender a própria formação social que estrutura a operacionalização do que é se perceber enquanto país.

Porém, um viés ainda subestimado é a função racializada que espaços religiosos podem representar, e nesse sentido os pentecostalismos apresentam particularidades muito intrigantes que se demonstram presentes na Igreja Evangélica Assembleia de Deus no Bairro da Liberdade que se situa dentro do Território Quilombola Urbano da Liberdade no centro da cidade de São Luís, capital do estado do Maranhão.

A abordagem do trabalho foi encaminhada adotando os depoimentos de líderes da Igreja para compreender suas visões e perspectivas e como a instituição lida com efervescência cultural e religiosa necessariamente negras.

Inúmeras realidades são vivenciadas no Quilombo da Liberdade, a riqueza do Boi de seu Leonardo, os espaços de cultura negra que tipificam a africanidade de uma territorialidade que pulsa ancestralidade e pertencimento assim como o CISAF.

Os bairros da Camboa, Liberdade, Sítio do Melo, Diamante e Fé em Deus carregam em si uma conotação histórica que se confunde com a constituição das origens da Ilha Upaon Açú. Desde os primeiros moradores vindos de Alcântara com uma presença significativa de quilombolas que passam a ressignificar seus elementos e símbolos no espaço urbano ludovicense.

Nesse processo de construção da base fundamental do Território da Liberdade no ano de 2019 desponta a aprovação de sua certificação como Quilombo Urbano, o maior do Brasil e que configura a realidade maranhense enquanto uma espacialidade de diversidade e negritude extremamente enraizadas nas suas mais plurais manifestações e panoramas. No entanto, o viés religioso, manifesto em determinadas cosmovisões de sagrado, ainda apontam para essa condição do ser quilombola com estranhamento ou mesmo sem diálogo.

As entrevistas com líderes da Igreja demonstram uma tendência, não absoluta, mas recorrente entre os grupos evangélicos, que é a falta de interesse ou participação em pautas sociais e ligadas as comunidades do seu entorno.

Nesse sentido emerge a problemática que Goffman argumenta como central enquanto percepção explicativa para as relações humanas, pois o estabelecimento do estigma e o modo como as linguagens dentro do real o legitimam fazem toda uma narrativa se consolidar. Portanto a medida que a Igreja mesmo estando fisicamente presente, com um endereço no Território do Quilombo Urbano, o maior ponto de convergência que coaduna seus moradores que era justamente a Certificação enquanto Quilombo Urbano passou de forma ilesa pela AD da Liberdade.

Uma das contradições observadas também à medida que as falas eram compartilhadas era a resistência em relação a identidade negra do Quilombo da Liberdade, ou seja o duplo pertencimento, ser quilombola e pentecostal/assembleiano se demonstrava como algo inválido para os líderes da Igreja com a máxima do “Não se pode servir a dois senhores”.

Conflito entre o Ser Quilombola e o Ser Pentecostal

Disponível em: https://turismo.ig.com.br/destinos-nacionais/2024-01-05/maior-quilombo-urbano-da-america-latina.html. Acesso em: 11/11/2025.

Diante disto se expressa uma característica histórica dos pentecostalismos, a essência de seu modus operandi que é o proselitismo religioso, muito calcado na concepção ancorada na Bíblia sobre o Ide de Cristo e a constante necessidade de fazer discípulos buscando a sua conversão.

A origem das Igrejas Pentecostais se volta muito para a experiência dos dons, com ênfase no falar em línguas. Apesar de hoje existirem outras narrativas sobre como o movimento pentecostal começou no mundo a sua pertença ao Milagre da Rua Azuza ainda é um discurso bastante proeminente. Portanto, é intrigante perceber que uma Igreja e forma de ver a fé se iniciou entre negros nos Estados Unidos da segregação racial no início do século XX e que no século XXI em um país como o Brasil, marcado pela presença negra mas ainda refém de um estereotipia do seu lugar na sociedade instituições como as Assembleias de Deus que arrogam que representam um lugar para todos, podem também se organizar numa dinâmica de racismo religioso.

AUTORES DESTA PUBLICAÇÃO: Marcus Vinicius de Freitas Reis e Rímilla Queiroz de Araújo.

Autor da Coluna: Marcus Vinicius de Freitas Reis. Também escreveu e publicou no site “A importância das religiosidades indígenas nas aulas de Ensino Religioso”: www.neipies.com/a-importancia-das-religiosidades-indigenas-nas-aulas-de-ensino-religioso/

Edição: A. R.

O narcoterrorismo e o neoliberalismo para o século XXI

O combate ao narcoterrorismo no século XXI exige, portanto, não apenas uma resposta militar, mas a recuperação urgente da soberania estatal, investindo massivamente em infraestrutura social, dignidade e serviços que o mercado se recusou a fornecer.

O século XXI marca a consolidação de um fenômeno global: a interconexão letal entre o crime organizado transnacional e as falhas estruturais dos Estados. A raiz deste cenário complexo remonta à ascensão do neoliberalismo, que, a partir das décadas de 1980 e 1990, promoveu a desregulamentação econômica radical e a crença na primazia do mercado como único agente eficiente de desenvolvimento.

A característica central e mais perigosa deste novo paradigma foi o enfraquecimento deliberado do Estado-Nação, visto como ineficiente e burocrático. Priorizou-se o ajuste fiscal, o corte em investimentos sociais e a privatização de serviços essenciais, resultando na retirada ou no encolhimento do aparato estatal em vastas regiões periféricas e vulneráveis. Este vácuo de poder e soberania se tornou o solo fértil para novas formas de governança paralelas.

O declínio da presença estatal nessas áreas urbanas e fronteiriças abriu espaço para a expansão exponencial das organizações criminosas. Estes grupos passaram a operar não apenas como agentes econômicos ilícitos, mas como verdadeiros “quase-Estados”, oferecendo um conjunto de serviços substitutivos. Eles garantem segurança privada (o que chamam de “ordem”), assistência social precária e, sobretudo, a regulação da vida cotidiana, do comércio e das disputas nas comunidades abandonadas.

Essa fusão de táticas de terror e objetivos financeiros ilícitos deu origem ao fenômeno do narcoterrorismo, onde a violência política e a econômica se entrelaçam. Grupos transnacionais de alta notoriedade, como o Hezbollah no Líbano, o Cartel de Sinaloa no México, e células radicais como o ISIS no Oriente Médio, utilizam o terror sistemático para controlar territórios, garantir lucros e desafiar a jurisdição soberana.

No Brasil, essa dinâmica global se manifestou de forma crítica na Operação Contenção, ocorrida no Rio de Janeiro em 28 de outubro de 2025. O evento demonstrou que a disputa violenta não é mais apenas um problema de segurança pública, mas sim uma guerra territorial pela soberania. O poder de fogo, a coordenação logística e a hierarquia dos grupos criminosos cariocas evidenciaram o quão profundamente as estruturas paralelas de poder controlam a vida na metrópole.

A Operação Contenção, realizada no dia 28-10-2025, sublinha o legado do neoliberalismo: a criação de um Estado forte para a proteção do capital e das fronteiras financeiras, mas perigosamente fraco e ausente para garantir a vida e a ordem social nas periferias.

O combate ao narcoterrorismo no século XXI exige, portanto, não apenas uma resposta militar, mas a recuperação urgente da soberania estatal, investindo massivamente em infraestrutura social, dignidade e serviços que o mercado se recusou a fornecer.

Autor: Israel Kujawa. Também escreveu e publicou no site “Os humanóides e a educação que desejamos”: www.neipies.com/os-humanoides-e-a-educacao-que-desejamos/

Edição: A. R.

COP30: transição ecológica e transformação da realidade

Como se não houvesse o amanhã, os humanos, sempre chamados de “modernos”, seguem devorando os recursos da Terra. Faz tempo, por sinal, que a nossa Amazônia Legal (59% do território brasileiro) está virando pasto. É o costume de sempre, dirão alguns! Em meio a essa loucura, o projeto civilizatório, como se supõe, corre riscos.

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) prevê em relatório: as temperaturas médias de longo prazo do planeta ultrapassarão 1,5 graus Celsius pela primeira vez em 2027, muito antes do estimado pelo IPCC, Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. Enquanto isso, a economia global do excesso – o modelo de crescimento que nos guia – continua em delírio, desrespeitando a regeneração da natureza. Assim, o clima está mais quente e as ondas de calor, confirmadas pela ciência, já matam todos os anos mais de 500 mil pessoas.

O meio ambiente – a Casa Comum da Vida – agoniza. O planeta, cada vez mais doente, sangra e grita (de 31 sinais vitais da saúde planetária, ao menos 18 deles estão seriamente comprometidos). O ar segue muito poluído (são 11 milhões de vítimas fatais todos os anos no mundo). As florestas viram cinzas e os animais, desde muito, estão no radar da extinção (em apenas 50 anos, o mundo já perdeu 73% de vida selvagem).

Como se não houvesse o amanhã, os humanos, sempre chamados de “modernos”, seguem devorando os recursos da Terra. Faz tempo, por sinal, que a nossa Amazônia Legal (59% do território brasileiro) está virando pasto. É o costume de sempre, dirão alguns! Em meio a essa loucura, o projeto civilizatório, como se supõe, corre riscos.

Do ponto de vista prático, resta claro que os mais ricos (e privilegiados) são os que mais emitem gases de efeito estufa. Os mais pobres, na contrapartida, são costumeiramente aqueles que pagam a conta. Na lógica disso tudo, o lucro (economia de curto prazo) fala mais alto.

Seguindo a toada, diante dos extremos, já não se fala mais em mudança climática, mas sim em EMERGÊNCIA CLIMÁTICA.

Outros ainda, tendo em vista a proximidade dos pontos de inflexão (tipping points), são mais diretos e não hesitam em chamar de COLAPSO CLIMÁTICO.

NO CORAÇÃO DA AMAZÔNIA

Mas, a COP30 (30° Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima – UNFCCC), no coração da Amazônia, vem aí.

E vem com a missão de ser símbolo de uma nova economia verde, em que a restauração florestal e a inovação climática, valores que precisam se combinar, ocupem mais espaço.

Assim sendo, é chegada a hora de discutirmos com mais seriedade o impasse civilizatório (na verdade, uma policrise do capitalismo) que o mundo moderno vem passando por conta do agravamento da crise climática.

O QUE ESTÁ EM JOGO?

Diante da perturbação ecossistêmica, do desafio da mitigação e do agravamento dos danos ambientais, pergunta o senso comum: o que está em jogo?

A continuidade do desmonte ambiental ou a recuperação?

A resiliência planetária ou a supremacia do capitalismo predatório?

Ruptura ou manutenção?

Separação irreversível ou reconciliação com a natureza – matriz de tudo?

Ora, para todos que ansiamos em poder construir na base e no todo uma sociedade mais justa e resiliente, parece lícito imaginar, sem muito esforço, que as discussões na COP30 devem desesperadamente pautar as bases de uma nova civilização ecológica, caso queiramos imprimir certa qualidade ao sistema vida.

Para tanto, urge levantar medidas concretas de conservação, de proteção e financiamento de florestas, além, é claro, do desenvolvimento sustentável.

Dando o exato tom da conversa na COP30, a pauta “revolucionária”, digamos assim, vai da transição energética justa ao fim do desmatamento. Vai da conservação dos oceanos à adaptação climática. De sistemas alimentares eficientes à proteção da biodiversidade. Do combate à poluição à proteção irrestrita da natureza.

Contas feitas, é fato que a COP30 – verdadeiro corpo de ação – deve inicialmente propor a realização de uma completa assepsia na ferida do mundo moderno: o modo de vida da humanidade mais rica e privilegiada do planeta. Afinal, não é devorando o planeta que nos acolhe que nos tornaremos modernos.

Sendo franco, nenhum progresso será possível se, antes, nossa sociedade humana não enfrentar com muita disposição a complexidade climática.

Em tempos de crise climática e ambiental, nossa consciência clama por levantar uma meta única: priorizar a sustentabilidade, valor que procura devolver o equilíbrio à Terra.

Nesse sentido, o Brasil, vale o registro, tem participação decisiva em todo esse processo. Evitar o agravamento do colapso climático está na ordem do dia, assim como proteger a sociobiodiversidade.

Falando de modo simples, não é segredo que sem a transformação estrutural da economia não avançaremos. Assim, a oportunidade é histórica e urgente.

A transição para uma economia de baixo carbono precisa ser entendida como nossa definitiva saída da armadilha em que o capitalismo predatório nos meteu.

Em nosso caso em particular, soluções baseadas na natureza, restauração de ecossistemas, bioeconomia e floresta em pé completam, por assim dizer, o roteiro conhecido para alcançarmos um meio ambiente saudável e resiliente, eficiente e não poluído. Não há mais tempo a perder.

Ainda em nosso caso, elencando responsabilidades, competências e deveres, muito se afirma que o Brasil apresenta todas as condições para se tornar o primeiro país tropical desenvolvido da história, afinal, temos a matriz elétrica mais limpa do mundo; temos uma matriz energética com 47% de recursos renováveis (a média no mundo é de 14%).

E temos agricultura de baixo carbono e a possibilidade de dobrar a produção de bioenergia até 2050 (impulsionando tecnologias de descarbonização no transporte e na energia – não por acaso, o pacto dos combustíveis limpos faz parte da Agenda de Ação Brasileira para a COP30).

Temos ainda condições de se tornar um país carbono negativo, que significa retirar mais carbono que o país emite.

VOZ DO SUL GLOBAL

NA COP30, como uma potente voz do Sul Global, o Brasil foi um dos primeiros países a entregar suas NDCs, Contribuições Nacionalmente Determinadas: reduzir as emissões líquidas de GEE entre 59% e 67% até 2035.

Nesse cenário, como uma coisa está diretamente ligada a outra, é senso comum que precisamos aprender a olhar para a Amazônia, o que implica, num primeiro momento, em levantar esforços para desmontar a economia do desmatamento.

Dito de outra forma, assusta saber que, até hoje, trocamos vegetação nativa por commodities.

Pesar reconhecer que estamos atrasados em relação ao que o mundo vem fazendo com precisão: colocar preço no carbono.

Quer dizer: incentivar quem protege o clima e cobrar de quem ajuda a poluir.

Sendo assim, na COP30, a maior vitrine para assuntos relacionados ao clima, poderemos afirmarmos ao mundo que não cabe mais visões reducionistas. Com a COP30, temos o dever de “realocar” a Amazônia (território vivo) no centro de debate climático, informando ao mundo moderno que temos todas as possibilidades de levar adiante um novo ciclo de projeto de desenvolvimento responsável que inclui soberania científica, preservação e inovação; biodiversidade e potência energética; serviços ecossistêmicos, floresta e populações locais respeitadas.

Na COP30, será a hora de todos promovermos o debate necessário: a transformação da realidade.

Na COP30, despertando atenções, também será o time de “expulsarmos” (figuradamente falando) os países pouco interessados na agenda da recuperação socioambiental.

Na COP30, salvando os juízos responsáveis, será o momento de consolidar o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, TFFF, privilegiando países que se esforçam para manter suas florestas tropicais (financiar a conservação florestal), com uma lógica básica: reduzindo o desmatamento tropical, pode-se captar 125 bilhões de dólares nos próximos anos, sendo US$ 25 bilhões dos demais governos e US$ 100 bilhões com recursos privados.

Por fim, a COP30 será o palco mais apropriado para reafirmar uma mensagem objetiva: é muito mais barato reduzir o desmatamento. Conservar a natureza não é tão caro quanto se imagina. Na Amazônia, desmatar sai mais caro (principalmente com investimento em máquinas e na limpeza do local) que recuperar pastagem.

Na COP30, em nossa casa, será o momento preciso para o Brasil gritar ao mundo que proteger nossa floresta é, antes de tudo, prioridade nacional.

Autor: Marcus Eduardo de Oliveira. É economista e ativista ambiental. Mestre emIntegração da América Latina pela Universidade de São Paulo – USP (2005).  Autor de Civilização em desajuste com os limites planetários (CRV, 2018) e A Civilização em risco (Jaguatirica, 2024), entre outros. prof.marcuseduardo@bol.com.br Também escreveu e publicou no site “Estamos jogando roleta russa com o Planeta”: www.neipies.com/estamos-jogando-roleta-russa-com-o-planeta/

Edição: A. R.

Festa da família na escola: valorizando habilidades socioemocionais

Nos últimos anos, escolas vem adaptando comemorações que envolvem as famílias de seus estudantes. Além de respeitar a diversidade da formação das famílias na atualidade, escolas promovem e valorizam a integração entre todos os sujeitos que fazem parte da comunidade escolar: estudantes, professores e professoras, funcionários e funcionárias, pais, mães, avôs e avós, tios e tias, padrastos e madrastas. Leia mais: www.neipies.com/diversidade-das-familias-celebradas-em-escolas/

A EMEF Guaracy Barroso Marinho realizou, neste início de novembro de 2025, a sua primeira Festa da Família. O tema da festa foi “Divertidamente juntos”, uma referência ao filme Divertidamente 1, onde as emoções são exigidas para uma boa organização de cada ser humano e do ser humano em suas relações sociais: família, escola, sociedade.

A escola é um espaço de construção do desenvolvimento humano integral. Além dos conteúdos de cada componente curricular, crianças e adolescentes aprendem a se relacionar, a lidar com frustrações, a tomar decisões e a compreender suas emoções e as dos outros.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) reconheceu essa necessidade ao incorporar as competências socioemocionais que fazem parte das competências gerais da educação básica. O trabalho com essas habilidades exige mais do que boas intenções: requer criatividade, planejamento, intencionalidade pedagógica e sensibilidade.

Destacamos cinco habilidades socioemocionais fundamentais que podem — e devem — ser estimuladas no ambiente escolar. São elas: 1. Autoconhecimento como a base de tudo; 2. Empatia: colocar-se no lugar do outro; Autorregulação: lidar com emoções difíceis; Tomada de decisão responsável: agir com ética e consciência; Colaboração: aprender e crescer juntos.

Leia mais:

www.educacaoconquista.com.br/blog/socioemocional/5-habilidades-socioemocionais-para-trabalhar-na-escola/

***

Durante a Primeira Festa da Família da EMEF Guaracy Barroso Marinho ocorreu uma grande integração de toda comunidade escolar: pais e mães ou responsáveis, estudantes, professores e professoras, funcionários e funcionárias.

Nesta integração, houve um café da manhã compartilhado, onde famílias trouxeram alimentos. Houveram atividades de integração, apresentação de trabalhos produzidos nas salas de aula, apresentações das crianças sobre os cinco sentimentos: alegria, tristeza, raiva, medo e nojo, brincadeiras orientadas entre as crianças e adolescentes, das crianças com seus pais ou responsáveis, dos professores e professoras entre si.

Houve também apresentação e exposição de trabalhos do FECIT (Festival de Ciência, Inovação e Tecnologia).

Esta integração, gerada através da comida, das brincadeiras, das apresentações e dos trabalhos escolares propiciou um ambiente de amizade e camaradagem, indispensável para uma boa aprendizagem, como já previa o patrono da educação brasileira Paulo Freire:

Escola é…
O lugar onde se faz amigos.
Não se trata só de prédios,
salas, quadros,
programas, horários, conceitos.
Escola é, sobretudo, gente.
Gente que trabalha, que estuda,
que alegra, se conhece, se estima.
O diretor é gente,
o coordenador é gente,
o professor é gente,
o aluno é gente,
cada funcionário é gente.
E a escola será cada vez melhor
na medida em que cada um
se comporte
como colega, amigo, irmão.

Nada de ilha cercada de gente
por todos os lados.
Nada de conviver com as pessoas
e descobrir que não
tem amizade a ninguém.
Nada de ser como tijolo
que forma parede,
indiferente, frio, só…

Importante na Escola,
não é só estudar,
não é só trabalhar.
É também criar laços de amizade.
É criar ambiente de camaradagem.
É conviver, é ser “amarrado nela”.
Ora é lógico…
Numa Escola assim vai ser fácil
estudar, trabalhar, crescer,
fazer amigos, educar-se,
SER FELIZ! (Paulo Freire FREIRE, Paulo. Escola. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, n. 7, p. 31-32, jan./jun. 1997)

***

Uma mãe de estudante escreveu:

“Sou mãe da Maria Vitória do 3 ano B! Vou falar um pouco sobre a festa da família na escola. Quero dizer que achei muito linda e muito bem organizada a festa, teve uma pequena homenagem as tias do lanche, as meninas da limpeza, aos professores e toda equipe da escola. Acho isso muito bom, todos(as) merecem todos respeito e carinho dos alunos e de nós pais e mães também! Teve ainda a gincana entre pais e nós pais. Participar das brincadeiras foi muito legal. Gincana dos alunos, gincana entre pais e filhos, muito legal. Foi um momento de dar muitas risadas. As apresentações dos alunos estavam muito bonitas e organizadas também! Enfim, estava tudo perfeito! Só agradecer o respeito e carinho com os alunos e com nós Pais! Obrigada!

Na avaliação da diretora Maria Lima, a realização da nossa primeira Festa da Família foi um momento verdadeiramente especial! Mais do que uma celebração, foi uma oportunidade de mostrar todo o trabalho, o carinho e a dedicação que fazem parte do dia a dia da nossa escola.

A escola é um espaço vivo, onde o conhecimento se transforma em experiências, onde cada aluno constrói sua identidade, cria laços e desenvolve-se por completo, corpo, mente e coração.

No dia 08 de novembro, vivemos algo inesquecível: ver as famílias integradas à escola, participando com alegria de cada atividade, foi emocionante! Os alunos se sentiram pertencentes a esse espaço que é deles, e o brilho nos olhos de cada um mostrou o quanto esse momento significou.

Todos os funcionários e funcionárias estiveram presentes,  do café compartilhado às brincadeiras, tudo foi feito com amor e união.

Nossa escola tem um papel essencial nesta comunidade: aqui, professores e alunos são protagonistas de uma educação humanizadora, que valoriza o afeto, o respeito e o aprender juntos.

A Coordenadora da Escola dos Anos Finais, e também coordenadora do evento, Briane Schmitt, entende que a 1° Festa da Família é o passo inicial para a construção de uma comunidade escolar mais unida e capaz de compreender a importância da escola no desenvolvimento dos alunos.

“O evento foi todo pensado enquanto um movimento de partilha, de integração. Uma das rotinas que mais integram a nossa vida enquanto sociedade está, geralmente, relacionada às refeições, que são feitas com a família unida, geralmente em torno de uma mesa. Pensando nisso, ao invés de colocarmos à venda alimentos durante a festa, como é geralmente realizado em outras festividades, por exemplo a festa junina, optamos por construir também essa mesa de partilha na escola. Assim, cada família trouxe um prato para compartilhar com os demais: o resultado foi uma mesa repleta de carinho, de memórias afetivas consolidadas em receitas de família e mesmo costumes alimentares, trazidos para o ambiente escolar e construindo uma atmosfera de união.

Também pensando na integração dos sujeitos que fazem parte do contexto familiar, a gincana de pais e filhos divertiu quem estava presente e colocou à prova algumas competências socioemocionais, como esperar sua vez, saber perder, trabalhar em equipe, entre outros.

No geral, tivemos uma experiência super válida em termos de proposta pedagógica e socioemocional. Com certeza, vamos repetir a dose e tornar essa festa uma tradição de nossa escola.

 

Para a professora Rozana Almeida, a Festa da Família foi um momento especial para a nossa Escola Guaracy, sendo uma oportunidade para fortalecer os laços entre escola, alunos e família.

Durante as apresentações, os alunos tiveram a oportunidade de demonstrar os aprendizados adquiridos no ano letivo, com autonomia e confiança. As famílias presentes vivenciaram a importância do vínculo afetivo e da parceria com a escola.

A presença das famílias, o entusiasmo dos estudantes e o trabalho conjunto tornaram a Festa da Família ainda mais significativa, atingindo o objetivo que é unir família e escola.

Eventos como esses fortalecem os laços entre comunidade e escola, celebrando o espírito de união e alegria que nos inspiram todos os dias.

Parabéns à equipe gestora da Escola Guaracy por proporcionar momentos como estes. Que venha a próxima Festa!!!!

Fotos: Divulgação/ rede social da EMEF Guaracy Barroso Marinho

Edição: A. R.

Um “RASTRO”

.. fui achando um jeito de me tolerar quando não conseguia. A ouvir e ouvir como um eco: “Vocês se acham com poderes que não têm.

Em uma tarde chuvosa, sob o abrigo do ônibus que nos levaria da universidade ao centro, alguns colegas e eu confessamos o quanto nos sentíamos falhando, deixando a desejar quando nos voltávamos para cuidar apenas de nossas vidas pessoais.

Acabamos, assim, nos envolvendo no Diretório Acadêmico com a ideia de que, pela via da política, nos tornaríamos úteis aos demais. Porém, logo o Diretório foi fechado pela ditadura militar da época. Eram os anos 1970.

Acabamos estagiando voluntariamente em um triste e imenso asilo destinado a mulheres velhas e pobres. Fazíamos bem a elas e a nós. Um colega, um pouco mais velho, nos criticava: “Vocês se acham com poderes que não têm”.

Era fato que, quando percebia minha insignificância, não sentia culpa por cuidar da minha vida, apenas dela. Mas eu não queria ir de um extremo a outro.

Talvez quisesse corresponder às expectativas da minha família em relação a mim. No entanto, ela, pelo que percebia, esperava que eu sobrevivesse com dignidade, que conseguisse ter uma vida construtiva. Nada mais.

A vida na faculdade – e fora dela – foi seguindo. A vida não para, é óbvio. Tive a sorte de encontrar uma área que muito me interessou: a psiquiatria.

Passei a ouvir a história de vida das pessoas e a gostar de ouvir. Passei a fazer plantões voluntários no Hospital Psiquiátrico e a ter a boa sensação de, por pouco que fosse, estar contribuindo para o alívio do sofrimento das pessoas internadas. De gente como a gente.

Fui percebendo que, quanto mais gostamos de algo, menos sofremos nessa vida e mais momentos temos de bem-estar. E contaminamos com felicidade os que nos rodeiam.

E vendo o exemplo, magnífico exemplo, de meus professores Pedro Martinez e Milton Shansis, incorporei a beleza de se fazer algo da melhor maneira que podemos. Aquela sensação de realização por construir algo bem feito.

E fui achando um jeito de me tolerar quando não conseguia. A ouvir e ouvir como um eco: “Vocês se acham com poderes que não têm”.

Em uma tarde de domingo, estava junto a uma lagoa, sentado na areia, quando vi uma jovem mãe observando seu filho de uns dois anos ou um pouco mais colocando e tirando areia de um baldinho.

Houve um momento em que ela se aproximou da lagoa, observando um pássaro que descansava sobre as águas. Chamou seu menino e, ajoelhada ao lado dele, apontou para o pássaro.

Quando dei por mim, estava junto aos dois a ponto de ouvir ela dizer: “É uma marreca!”

Aquela leveza, não sei se é esse mesmo o nome, chegou a mim de repente, como um relâmpago! Um clarão!

Dava, sim, para deixar de fora da minha mente expectativas, deveres autoimpostos e sei lá mais o que e apenas apreciar! Sim, apreciar a vida que “vivia” perto de mim. Como estava a fazer o menininho que apontava o dedinho para o pássaro que, agora, deslizava suavemente sobre a água.

Depois de um tempo que não cabe nas medidas do tempo, nós, os três, vimos as asas do pássaro baterem na água e impulsioná-lo a alçar voo e a desenhar uma sequência de imagens refletidas na lagoa.

Um “rastro” fugaz e belo. Belíssimo.

Autor: Jorge Alberto Salton. Também escreveu e publicou no site “Há um fantasma dentro de nós”?: www.neipies.com/ha-um-fantasma-dentro-de-nos/

Edição: A. R.

Em quem somos transformados quando não somos nós mesmos?

Eu sou uma das tantas Tatis… (Depoimento resposta da Tatiana, personagem a que se referiu Nelceu Zanatta, em sua crônica: “Mas por que esta menina saiu do meu lado para se afundar nas drogas?”)

Resposta a texto de nossa autoria, publicado no site www.neipies.com/mas-por-que-esta-menina-saiu-do-meu-lado-para-se-afundar-nas-drogas/

“Eu sou uma das tantas “Tatis” a que o seu artigo poderia se referir, visto a quantidade de mulheres envolvidas pelas garras do álcool e outras drogas.

 Mas a Tati que sou hoje ganhou forças… Em muita teimosa ao procurar ajuda para entender por quê? Por quais motivos uma menina de classe média, criada numa família católica, com todo amor que poderia receber na época, com valores e cuidados ambientais, envolveu-se neste mundo sombrio e fétido – o submundo – onde medo e alívio andam juntos?

A resposta chegou ao encontrar outros e outras como “eu”, sofrendo, sem conseguir parar, pois a dependência química, como o nome já fala, é uma doença que nunca começa realmente nas drogas.

Começa no vazio!

A primeira vez a gente escolhe experimentar, as outras vezes, são as drogas que escolhem por nós, pois o cérebro atingiu um clímax de prazer imediato e que meu corpo jamais havia experimentado.

Assim como um corpo que atinge o orgasmo pela primeira vez e não se contenta mais com roçadas de pernas, havia ali 50 mil vezes mais potência. Neste ponto não há escolha… Tentei pedir ajuda.

Mas a ajuda não veio, tinha muita vergonha de ser eu e ser mais uma na estatística que estava na lista de “drogados”, marginalizados. Quantas Tatis ainda estão nas ruas?

A maioria das pessoas não sabe por onde as drogas entram na vida de seus queridos, e eu posso dizer com certeza: o álcool e as drogas entram pelo vazio.
Onde tem um buraco na alma, qualquer coisa cabe e algumas pessoas nunca saberão o nome dos seus próprios vazios.

Eu, inquieta, fui procurar algum nome em meio as minhas ausências,
e o primeiro que encontrei, ao ler um diário da minha mãe, descobri que meu pai biológico tinha a deixado no hospital, no dia do meu nascimento e nunca mais apareceu…
Ahh esse  meu vazio foi a falha paterna, o suporte, o escudo, a regra, o espelho que me daria um direcionamento do que é um homem, e, talvez, tendo-o conhecido, não estaria procurando um pai nos meus namoros; cuidador, protetor…

Sem referências, qualquer coisa servia.

Foi aí que entrou esse namorado, bonito, forte, com boas características aparentes, para ser o meu par romântico idealizado. Eu era romântica e sempre esperei pelo príncipe encantado que viria me salvar. Hoje, entendo que eu queria mesmo era um salvamento da angústia, do vazio, do desejo de pertencimento, de não ser abandonada.

Não sabendo discernir o homem do objeto do amor e sua idealização, eu fui completamente ingênua e apaixonada, experimentando pela primeira vez, sem saber, que já possuía uma pré-disposição em me apegar a tudo que me desse colo e foi isso que a droga fez; me deu colo primeiro. Depois me tirou tudo.

Mas eu me transformei no meu milagre, eu e muitos outros nos grupos de apoio que insistem em se ajudar, mutuamente, anonimamente, e onde a cada dia chegam mais e mais pessoas que não querem usar, mas não sabem o que fazer para parar.
Hoje, no dia em que respondo este seu artigo, completam-se 15 anos, 6 meses e 14 dias que eu não uso qualquer substância que altere minha mente. Tudo começou com um dia, depois mais outro, um de cada vez, bem devagar. Lembro da minha mãe, em que nunca desistiu de mim.

Fui internada em uma clínica a forças, pois a minha Mãe queria me salvar. Não há salvação por si própria.

Depois de formada psicóloga, aos 38 anos, a minha missão estava em ajudar os outros. Montei uma clínica e queria que fosse parecida com a clínica que me abrigou, claro com muitas melhorias. Afinal, eu já estive dos dois lados: o do paciente, que chega completamente derrotado e sem forças, e o outro, uma empresária, psicóloga e com muita disposição em auxiliar aqueles que estão perdidos nas garras da ilusão.

Fiz o meu propósito para, aproximadamente, 2 anos, atender os pacientes e suas famílias, todos adoecidos de dores encobertas pela cereja do bolo: a “droga.” Quem dera o problema fosse somente a retirada das substâncias!!!

Ao retirar as drogas, encontra-se o sintoma, o vazio, cada um com o seu nome, cada um com a sua história de vida.  Nesse espaço de dor e luta é que todos têm em comum: uma ausência, ainda viva, um trauma, uma violência sexual, um abandono, uma rejeição… Um pai ou uma mãe alcoólatra.

Dentre todos, não se encontra uma pessoa que não carregue em sua sombra, as marcas de seu precipício. Então, cabe-nos descobrir onde ele está e qual o seu verdadeiro tamanho, para tentar ressignificar… Porque preencher é impossível. Aprende-se a viver apesar do vazio, porque não tem mais como remediar tamanhas feridas internas, sendo a maioria nascidas na infância, tão primitivas, onde se leva muito tempo para nominá-las e muito mais muito tempo para alcançá-las.

Cabe a mim, hoje, ser o próprio colo que me faltou.  Sou mãe dos meus filhos, sou avó, sou psicóloga, estudando, continuadamente, e aprendendo inglês como a segunda língua, em uma escola presencial em New Jersey, EUA.

Foi aqui que eu vim parar, meu amigo!

Sou grata por todas as vezes em que você me ouviu e, sem saber, também ocupou este lugar de “colo;” o colo da escuta, que realmente ouve.

Quem sabe, talvez, esta mensagem chegue para muitas Tatis e sirva de incentivo para o recomeço de uma nova vida.

Acredito, desde o lugar de onde eu vim, ter muitos milagres como o meu acontecendo.

Minha mensagem: busque ajuda! É possível! Existe vida abundante após as drogas, e o único caminho que não funciona é o que se tenta superar a sós”.

(Autora: Tatiana Gomez)

Autor da coluna: Nelceu A. Zanatta. Também escreveu e publicou no site “Você quer que eu empilhe troféus: já pensou em conquista-los comigo?”: www.neipies.com/voce-quer-que-eu-empilhe-trofeus-ja-pensou-em-conquista-los-comigo/

Edição: A. R.

Ser independente é mais que informar: é resistir com ética e coragem

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Há 33 anos, o Jornal Rotta assumiu uma missão que poucos ousaram: praticar um jornalismo independente, corajoso e crítico. Em um cenário de polarização, narrativas pré-fabricadas e interesses ocultos, manter um veículo livre tornou-se mais do que um ideal: é uma necessidade social. Este é o compromisso do Rotta: informar com rigor, questionar com coragem, registrar histórias que transformam e dar voz a quem não tem espaço, mantendo viva a memória da comunidade e a ética jornalística. (Geneci Quadros, diretora do Jornal Rotta)

Comunicar

Comunicar é muito mais do que transmitir informações: é interpretar a realidade, conectar experiências e provocar reflexão. A pintura, a música e a literatura inspiram transformações, mas é o jornalismo que muda a sociedade, revelando fatos, injustiças e vozes esquecidas.

O Rotta nasceu com a convicção de criar um espaço livre, transparente, independente e ético, onde cada história fosse respeitada e cada fato investigado. Desde os primeiros números, o jornal se destacou por não seguir padrões, por ousar em denúncias locais, dar voz a minorias e investigar problemas que impactam diretamente a vida dos cidadãos.

Mais do que relatar acontecimentos, o Rotta se tornou um registro histórico de Passo Fundo, documentando mudanças, ciclos políticos, transformações sociais e iniciativas comunitárias. Cada página é ponte entre informação e consciência coletiva, cada reportagem é ferramenta de cidadania.

Desafio

Manter um jornal independente não é tarefa simples. Exige coragem para enfrentar pressões políticas, econômicas e sociais, determinação para resistir a ameaças e ética para preservar imparcialidade. Cada reportagem publicada, cada denúncia, é resultado de investigação rigorosa e resistência.

O Rotta enfrentou momentos delicados em que reportagens sobre transporte coletivo, licitações públicas e serviços urbanos incomodaram autoridades locais. Denúncias sobre ônibus sucateados, falta de abrigos e falhas no transporte escolar provocaram debates, pressão da sociedade civil e, em alguns casos, respostas diretas do poder público.

Nos bastidores, a equipe enfrentou resistência, críticas e tentativas de intimidação. Jornalistas, colunistas, diagramadores e entregadores demonstraram coragem ao manter a integridade editorial, mesmo quando confrontados por interesses poderosos. Esse é o verdadeiro jornalismo sem medo: aquele que cumpre seu papel, mesmo diante de riscos.

Geneci Quadros, diretora do Jornal Rotta.

Referencial

O jornalismo brasileiro tem exemplos inspiradores de investigação e coragem. A Operação Vaza Jato é um desses marcos, mostrando o impacto da imprensa na fiscalização do poder e na transformação da opinião pública. Mas também demonstrou a necessidade de crítica constante pois nem toda cobertura acompanhou os princípios de imparcialidade.

O Rotta usa essa referência para reforçar sua própria prática: investigar, questionar e reportar com rigor, imparcialidade e responsabilidade social. Inspiramo-nos em jornalistas que enfrentaram regimes autoritários, grandes interesses econômicos e políticos, sem se curvar, como os profissionais que participaram da cobertura da Lava Jato e de outras investigações nacionais que expuseram corrupção e irregularidades.

No contexto local, aplicamos os mesmos princípios. Cada denúncia, cada reportagem, cada matéria é tratada com cuidado para informar a população sem distorções e com compromisso ético, transformando a imprensa local em instrumento de cidadania.

Impacto

O Rotta tem histórias concretas de impacto em Passo Fundo. Reportagens sobre transporte coletivo, educação, saúde, limpeza urbana e infraestrutura geraram respostas da sociedade civil e do poder público. Coberturas sobre falhas em abrigos de ônibus, prédios escolares e serviços públicos levaram a melhorias efetivas.

Além de denúncias, o jornal dá voz a associações comunitárias, professores, lideranças de bairro e cidadãos que lutam por direitos. Um exemplo marcante foi a cobertura sobre a falta de manutenção em áreas públicas, que gerou debate em audiências e obrigou autoridades a agirem, mesmo que parcialmente.

Cada matéria publicada não é apenas notícia, mas registro histórico, memória coletiva e ferramenta de pressão social. O jornalismo local, embora muitas vezes subestimado, tem poder de transformação e impacto direto na vida das pessoas.

Resistência

Resistência é central ao jornalismo independente. O Rotta enfrentou pressões, tentativas de censura e momentos de desconforto político, mas jamais abriu mão da integridade editorial.

Em uma situação específica, uma denúncia sobre contratos públicos irregulares gerou forte reação de autoridades locais. Apesar das tentativas de intimidação, a equipe manteve a publicação rigorosa e ética dos fatos. Cada reportagem publicada é prova de que o jornalismo sem medo não se curva, não se omite e não se silencia.

Essa resistência não é apenas prática editorial, é também compromisso com a democracia, com a justiça e com a sociedade. A equipe do Rotta compartilha essa missão todos os dias, garantindo que sua independência e sua imparcialidade permaneçam inabaláveis.

Comunidade

O Rotta valoriza cada história, cada cidadão e cada bairro. Não apenas grandes eventos, mas pequenas conquistas, ações comunitárias e projetos culturais merecem destaque.

Coberturas de escolas, grupos culturais e iniciativas de cidadania são parte do nosso jornalismo. Dar espaço a essas histórias, fortalece a identidade coletiva, a consciência social e a participação cidadã. Cada matéria é uma ponte entre o cidadão e a realidade, entre o fato e a memória.

Além disso, o jornal promove debates, provoca reflexões e conecta pessoas que, de outra forma, permaneceriam isoladas ou invisíveis. É assim que construímos comunidade e cidadania: informando, inspirando e registrando a realidade com responsabilidade.

Futuro

Olhando para o futuro, reafirma seu compromisso com ética, coragem e independência. Continuaremos a denunciar injustiças, celebrar conquistas, dar visibilidade aos invisíveis, preservar memórias e educar a comunidade.

Fazer jornal é resistir ao silêncio, enfrentar omissões, fortalecer a cidadania e educar o público. Cada reportagem é um ato de coragem, cada página publicada é resistência, cada história contada é contribuição para uma comunidade mais justa, informada e conectada.

Celebrar 33 anos é celebrar coragem, paixão, persistência e compromisso com a verdade. É reconhecer a equipe que jamais desistiu, aos leitores que continuam acreditando e à comunidade que inspira diariamente. Que o Rotta continue sendo voz firme, respeitada e relevante, iluminando fatos, promovendo justiça e transformando realidades. Que venham muitos anos de resistência, inovação e jornalismo sem medo, mantendo viva a missão de informar, questionar e impactar.

Associo-me aos jornais impressos que têm como missão integrar as comunidades pelo caminho da informação. Produzir informação e jornalismo com responsabilidade social é uma das características que justificam a existência de jornais impressos, contanto que as informações neles contidos não sejam instrumentos de dominação, mas que sirvam para democratizar o conhecimento nas comunidades.Nei Alberto Pies, Editor do site www.neipies.com

Edição: A. R.

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