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A racionalidade neoliberal e a cilada da meritocracia

Social justice money flat composition with unequal opportunities for people with more income and less vector illustration

A meritocracia se torna uma cilada, pois produz “frustrações profundas” para todos, sentimento de impotência e desesperança nas camadas pobres, “ressentimentos sem precedentes dentro da classe média” e “ansiedade incompreensível dentro da elite”.

A compreensão da meritocracia requer um cuidadoso e detalhado olhar, pois se trata de um termo polissêmico, complexo e problemático. Não se trata de uma simples definição que facilmente pode ser resolvida com a ida ao dicionário ou com a invocação o senso comum, pois requer investigação de forma mais profunda sobre seu desdobramento sociológico, histórico, filosófico e ideológico.

Há um consenso entre os diversos estudiosos sobre a temática que o termo meritocracia tem sua origem semântica na obra The Rise of the Meritocracy (A Ascensão da Meritocracia, 1958, sem tradução para o português) do sociólogo inglês Michael Young (1915-2002). Para o sociólogo, a meritocracia se colocaria como um sistema de oposição aos privilégios aristocráticos que perduram na história humana.

A obra distópica de Young (1958) propunha que a Grã-Bretanha mudasse seu critério de organização social, imaginando que o mérito passaria ser o fator que as lideranças utilizariam para selecionar entre as massas os indivíduos que teriam um maior grau de inteligência e de esforço individual, para ocupar as profissões mais bem remuneradas e os cargos políticos mais importantes.

Na distopia de Young (1958), haveria testes sofisticados, cada vez mais eficientes e eficazes, os quais permitiriam prever o coeficiente de inteligência dos indivíduos a tal ponto que seria possível determinar o futuro de cada pessoa, logo após seu nascimento. Assim, a estratificação, antes balizada pelos laços de sangue, agora seria definida pelo mérito “igualmente excludente”.

No final da obra, Young (1958) descreve uma revolta social das classes baixas contra o sistema meritocrático, pois ele acabou por produzir uma elevada eficiência de uma sociedade aparentemente justa, mas profundamente desigual.

Assim, conforme ressaltam Mazza e De Mari (2021, p. 4) em estudo recente, “o texto de Young não se propõe fazer uma discussão analítica dentro dos rigores acadêmicos sobre o significado da meritocracia, mas apresenta as consequências contraditórias pela adesão ao princípio como resultados de uma ideologia de organização social”.

É importante ressaltar que, seguindo os passos de Mazza e De Mari (2021), bem como os estudos de Barbosa (2008), embora o termo meritocracia apareça na segunda metade do século XX, seu nascimento enquanto ideia se confunde com o período moderno europeu, pois foi nesse contexto que a sociedade começou a questionar os privilégios hereditários destinados aos nobres e aristocratas. Se tivermos por referência que “a apologia do liberalismo à igualdade” constitui um dos valores meritocráticos de um processo de organização social, então é possível dizer que a concepção de meritocracia lança suas raízes na gênese do pensamento moderno.

Também é possível afirmar que a seleção por mérito pode manifestar-se tanto como um “valor negativo”, na medida que recusa os privilégios e afirma que nenhum indivíduo pode ter seu destino determinado pelo nascimento e classe social, quanto um “valor afirmativo”, na medida em que as características particulares dos indivíduos se tornam critérios para distingui-los dos demais para obter o merecimento da posição ou status que ocupa. “A meritocracia entendida como negação de privilégios é aceita por todos como uma ferramenta contra a desigualdade social, mas quando aplicada como afirmação do merecimento, justifica as desigualdades” (Mazza; De Mari, 2021, p. 5).

A distinção da “meritocracia como negação” e a “meritocracia como afirmação” é importante, pois, enquanto a primeira tem como consequência social “a tentativa de equalizar oportunidades de desenvolvimento e mobilidade social”, a segunda “se converte na verificação das capacidades individuais”, o que gera individualismo, competição, distinções arbitrárias, consequências paradoxais, “pois o mérito passa de instrumento de luta contra os privilégios a um novo critério de discriminação da sociedade moderna” (Mazza; De Mari, 2021, p. 5–6). É nessa segunda perspectiva que a meritocracia se torna um ideal ético na racionalidade neoliberal.

No seu polêmico e provocativo ensaio A cilada da meritocracia, o professor de direito privado Daniel Markovits (2021) denuncia o mito fundamental da sociedade neoliberal que alimenta a desigualdade, destrói a classe média e consome a elite. A origem de sua denúncia, transformada posteriormente em livro, deu-se quando, ao ser convidado a discursar para os formandos de 2015 da Escola de Direito da Universidade de Yale, “em vez do tradicional discurso laudatório”, Darkovits optou por “partilhar com seus pupilos uma reflexão sobre as causas, engrenagens e consequências da meritocracia” (Vieira, 2021, p. 7).

As reflexões de Darkovits (2021) são oportunas, pois, além de “dissecar o regime meritocrático norte-americano, com especial atenção às distorções que provoca no sistema educacional e no mundo do trabalho, aumentando a desigualdade” (Vieira, 2021, p. 11), ajudam-nos a entender a falaciosa retórica da Tirania do Mérito (Sandel, 2021) ou das medições que reforçam as desigualdades (Fávero; Oliveira, Faria, 2022), ou ainda, “fornecer combustível intelectual para a desconstrução da armadilha meritocrática” e possibilitar “a construção de um regime de ‘igualdade democrática’, centrado no valor inerente a cada ser humano, e não numa falsa meritocracia” (Vieira, 2021, p. 11, grifos do autor).

Darkovits (2021, p. 17–18) inicia a introdução do seu ensaio dizendo que “mérito é uma farsa”, pois, “a meritocracia promete promover a igualdade e a oportunidade”; promete “compatibilizar as vantagens privadas com o interesse público, ao afirmar que riqueza e status devem ser obtidos por conquista”; pretende “unir a sociedade em torno de uma visão comum de trabalho árduo, competência e merecida recompensa”, mas, na prática, “a meritocracia já não funciona como promete”.

Um olhar atento mostra que “as crianças de classe média perdem para as crianças ricas nas escolas”, os adultos da classe média “perdem para a elite de formação superior no trabalho” e, assim, “bloqueia as oportunidades para a classe média”, que se sente culpada por perder “a competição por renda e status”.

A própria elite se torna vítima da meritocracia, pois exige altos investimentos de tempo e dinheiro na educação dos filhos e “os empregos meritocráticos exigem que os adultos da elite trabalhem com uma intensidade esmagadora”, o que leva a uma “concorrência vitalícia implacável para garantir renda e status por meio de sua exagerada dedicação ao trabalho”.

A análise crítica de Markovits (2021, p. 18–22) é cirúrgica quando diz que “a meritocracia atual concentra privilégios e sustenta desigualdades tóxicas”, visto que se tornou “um mecanismo para a concentração e transmissão dinástica de riqueza e privilégios de geração para geração”. Por isso que “o próprio mérito tornou-se um simulacro de virtude, um falso ídolo” que precisa ser exposto, percebido e combatido.

O mérito é um falso ídolo porque faz crer que a meritocracia carrega em si o “senso de justiça e bondade”, que os privilégios foram conquistados com esforço e trabalho, mas, ao mesmo tempo, esconde as condicionalidades dessas conquistas e as desigualdades produzidas pelo jogo meritocrático. Enquanto “o brilho da meritocracia seduz a imaginação e captura o olhar”, identificando-se como moral básica para a experiência cotidiana do jogo democrático, “dissimula os danos” e progride, impondo “uma nova e opressiva hierarquia” das e nas elites que “monopolizam não só a renda, a riqueza e o poder, mas também as atividades, as honras públicas e o apreço”.

A meritocracia é cruel e desumana com os pobres, com os destituídos de condições materiais, com os que recebem uma educação precária, com os que não possuem, nos termos de Bourdieu (2001), capital econômico, cultural, social e simbólico. Mas, para Markovits (2021, p. 22–25), a meritocracia oprime também a classe média, pois “expulsa a maioria dos cidadãos para as margens da sociedade, condenando as crianças de classe média a escolas menos brilhantes e os adultos de classe média a empregos medíocres”. É um equívoco, frequentemente assimilado pelo senso comum, confundir “meritocracia com igualdade de oportunidades” (Markovits, 2021).

Embora a meritocracia tenha sido adotada retoricamente como estando à serviço da igualdade de oportunidades, proporcionando virtualmente uma suposta mobilidade de classe, “atualmente ela mais estaciona do que favorece a mobilidade social” (Markovits, 2021). De forma astuta, “a meritocracia modifica empregos de modo a favorecer os graduados super instruídos das universidades de elite” (Markovits, 2021), “faz do desempenho escolar e laboral a imagem da honra”, ao mesmo tempo que “frustra as tentativas de satisfazer os padrões que ela própria proclama, garantindo que a maior parte das pessoas não os atinja”.

Outro fator importante apontado por Markovits (2021, p. 27), diz respeito à forma como a meritocracia divide a sociedade, em que se produz uma “desigualdade meritocrática” que “inspira hostilidade” e “alimenta um conflito de classes sistemático que deforma a vida social e política”. Tal conflito gera “ressentimento e desconfiança” contra “os ideais e as instituições que a meritocracia valoriza”. Facilmente, o ressentimento e a desconfiança se transformam em discurso de ódio contra os diferentes, os indesejados, os estranhos, os oponentes e os rotulados como “culpados”.

O Brasil vive esse cenário quando a polarização política ganha traços de ressentimentos convertidos em discurso de ódio às instituições ou a grupos que supostamente se colocam como obstáculos à suposta e mal compreendida liberdade de expressão e a participação do ilusório jogo meritocrático.

Seguindo os propósitos deste escrito, resta dizer que a meritocracia é peça chave para compreender a lógica interna da racionalidade liberal, pois concretiza tanto os princípios quanto as ações que dão materialidade à referida racionalidade. Individualismo, competição, competitividade, empresariamento de si mesmo, livre iniciativa, flexibilidade, redução dos encargos sociais e dos direitos sociais, mínima intervenção estatal da economia, autogestão e autorregulação do mercado, flexibilização, globalização da economia, ethos empreender, eficiência, eficácia, gerencialismo são alguns dos tantos termos que caracterizam a racionalidade neoliberal que tem colonizado o mundo da vida nas últimas décadas, inclusive no campo educacional escolar.

Conhecer e compreender essa racionalidade colonizadora constitui uma estratégia importante e central para descortinar as armadilhas sedutoras que dominam corpos e mentes na triste epopeia neoliberal que transformou o planeta terra e a própria humanidade em objetos subservientes ao deus mercado, em que tudo e todos são reduzidos à condição de mercadoria. Nesse processo de transformação da vida e das relações em bens mercadológicos, a apropriação da meritocracia pela racionalidade neoliberal ocupa um lugar estratégico importante de convencimento e de sedução.

Conforme bem qualifica Markovits (2021, p. 28–30), “o brilho da meritocracia sequestra a imaginação e distrai a atenção analítica”, ao mesmo tempo que desmobiliza o “espírito crítico” e produz “um poço profundo de descontentamento”. O discurso amplamente difundido de que “qualquer um pode ter sucesso”, de que a “educação nunca recebeu tanto dinheiro nem foi tão acessível como na atualidade” e de que empregos e carreiras “agora estão cada vez mais abertos ao esforço e ao talento”, torna-se falacioso quando confrontado com as evidências empíricas do aumento da “desigualdade meritocrática”.

Assim, a meritocracia se torna uma cilada, pois produz “frustrações profundas” para todos, sentimento de impotência e desesperança nas camadas pobres, “ressentimentos sem precedentes dentro da classe média” e “ansiedade incompreensível dentro da elite”. A cilada da meritocracia se torna mais eficiente quando se torna um dispositivo educacional doutrinador da racionalidade neoliberal.

O texto aqui apresentado é uma parte do Capítulo intitulado “A meritocracia como ideal ético da racionalidade neoliberal e suas implicações na educação” (Pereira, Fávero, Costa e Fochesatto, 2024) publicado na décima quarta coletânea do Gepes/PPGEdu/UPF. Para os que tiverem interesse em acessar a coletânea completa, segue o link de acesso ao ebook gratuito:

https://www.researchgate.net/publication/381806089_Politicas_educacionais_e_Neoliberalismo

Referências:

FÁVERO, Altair Alberto; OLIVEIRA, Julia Costa; FARIA, Thalia Leite de. Crítica às “medições” em educação à luz da teoria das capacidades: a meritocracia que reforça a desigualdade. Revista Internacional de Educação Superior – Riesup, Campinas/SP, v. 8, p. 1–16, 2022. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/riesup/article/view/8665579 Acesso em: 23 out.2023.

MARKOVITS, Daniel. A cilada da meritocracia. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.

MAZZA, José Giordano; DE MARI, Cezar Luiz. Meritocracia: origens do termo e desdobramentos no sistema educacional do Reino Unido. Pro-Posições, Campinas/SP, v.32, e20190063, p. 1–22, 2021. Disponível em: https://www.scielo.br/j/pp/a/RgrxhFhvFqnLwSGcdZ3VMky/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 13 out. 2023.

PEREIRA, Taís Silva; FÁVERO, Altair Alberto; COSTA, Adriana; FOCHESATTO, Ana Luiza. A meritocracia como ideal ético da racionalidade neoliberal e suas implicações na educação. In: FÁVERO, Altair Alberto; TONIETO, Carina; BELLENZIER, Caroline Simon; CENTENARO, Junior Bufon (Orgs.). Políticas Educacionais e Neoliberalismo. Porto Alegre: Livrologia, 2024, p.613-630.

VIEIRA, Oscar Vilhena. Prefácio. In: MARKOVITS, Daniel. A cilada da meritocracia.Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021, p. 7–16.

Autor: Altair Alberto Fávero – E-mail: altairfavero@gmail.com Professor e Pesquisador do Mestrado e Doutorado em educação UPF. Também escreveu e publicou no site “Educar para humanizar e resistir à racionalidade neoliberal”: www.neipies.com/educar-para-humanizar-e-resistir-a-racionalidade-neoliberal/

Edição: A. R.

“O negacionismo climático ameaça a vida”: entrevista com Marina Silva

Reproduzimos, nesta Seção do site, entrevista com ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, concedida à Revista Radis número 259/abril 2024. Esta entrevista demonstra os desafios do Brasil para conciliar agenda econômica/de desenvolvimento com as questões emergentes do meio ambiente.

Filha dos seringais

Não foi fácil encontrar uma brecha na rotina da ministra. Marina não para. Da estiagem em Roraima às enchentes no Acre, de um encontro com jovens no Rio de Janeiro onde falou sobre justiça climática em tempos de transformações às reuniões em seu gabinete em Brasília para discutir o mercado de carbono e a transição para a economia verde. Sua fala é um percurso por todos os lugares por onde passa: Vale do Taquari, Brasileia, São Gabriel da Cachoeira, Curralinho. Nesse trajeto, ela nos convoca a todos.

Da pequena comunidade de Breu Velho, onde nasceu no Seringal Bagaço, em Rio Branco, ela guarda muitas histórias e a casinha em miniatura onde morou com a avó. “Para nunca esquecer de onde eu venho”. Aos 66 anos, mãe de quatro filhos, três vezes candidata à Presidência da República, Maria Osmarina da Silva Vaz de Lima — nome de batismo — está cada vez mais aguerrida.

Em 2023, durante uma reunião do G-20, indagou de forma direta: “Se esse grupo aqui tem a consciência do problema, porque tem acesso aos melhores estudos científicos, aos recursos financeiros e tecnológicos, o que está faltando para começar a fazer a diferença?” 

Aqui, ela esboça uma resposta. Com a palavra, a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima.

Ministra, há 17 anos, a senhora esteve na capa de Radis e, já naquele momento, alertava para os efeitos do aquecimento global na vida das pessoas, em especial entre os mais vulnerabilizados. O que mudou de lá para cá?  

Acho que a gente tem uma mudança paradoxal. A primeira delas é que ampliou a consciência. Há 17 anos, a gente falava dessas questões, mas não tinha a mesma reverberação que hoje tem. A gente não tinha a quantidade de meios de comunicação mostrando o problema, não tinha tantas pesquisas científicas. A outra questão é que também aumentaram os problemas. Ou seja, hoje, nós temos uma percepção muito maior porque a gente tem um agravamento da situação. Eu diria que teve uma ampliação da consciência em função de vários vetores, inclusive o vetor da dor e do sofrimento concreto. As pessoas perdem seus entes queridos, perdem suas casas, seu patrimônio, suas ruas, suas cidades — seja pela seca e pelo calor intenso, seja pelas cheias.

“A política ambiental tem que ser transversal.”

Ministra Marina Silva com professor, pesquisador, economista e ambientalista, Convidado deste site, Marcus Eduardo de Oliveira (https://www.neipies.com/author/marcus_oliveira/ )

Por outro lado, aumentou também o negacionismo?

Eu diria que, naquele momento [2007], a gente ainda não tinha um segmento organizado politicamente com uma quantidade significativa de gente fazendo uma militância negacionista em relação às mudanças do clima. Agora, a gente tem um contraponto também mais organizado nessa sociedade dividida. Naquela época, a gente era considerado um nicho, uma minoria, um segmento. Sempre repito: a gente era os ‘ecochatos’, os ‘ecoterroristas’, que ficavam falando de coisas que pareciam tão distantes. Ou seja, agora a gente tem os meios de comunicação, a própria sociedade e uma quantidade muito maior de pessoas relacionando essas questões e debatendo os efeitos das mudanças climáticas. Da parte do governo, se 20 anos atrás, a gente era um grupo pequeno, agora a gente tem o próprio presidente da República liderando essa agenda e dizendo que a política ambiental tem que ser transversal. Porque os problemas causados pelos danos ambientais são igualmente transversais em relação à saúde, às questões econômicas e à qualidade de vida das pessoas, até porque os mais afetados são sempre os mais vulnerabilizados.

Ondas de calor intensas, enchentes, eclosão de novas pandemias. Já estamos sentindo na pele, e de maneira irrestrita, as consequências da crise climática. A pergunta é: o que falta para que a pauta ambiental ganhe adesão total?

Sinto que hoje temos uma aderência incomparavelmente maior. Vou medindo pela minha trajetória de vida. Aos 17 anos, quando a gente começou essa luta, lá atrás com Chico Mendes [ambientalista, sindicalista e seringueiro, símbolo da preservação da Amazônia, assassinado em 1988], a gente era o gueto do gueto. Dentro do próprio campo progressista, a gente era uma minoria — inclusive, muito incompreendida. Diziam que, nessa luta ecológica, a gente era um jogo nas mãos do capitalismo americano para tentar frear a luta dos trabalhadores. Ou seja, tínhamos isso dentro do próprio espaço em que a gente gostaria muito de ser, pelo menos, acolhido. Eu diria que houve, sim, um aumento significativo de adesão entre os formadores de opinião e até em determinados setores de alguns nichos econômicos. Mas do ponto de vista do Congresso, por exemplo, infelizmente essa luta continua sendo minoria. Quando vamos para os temas ambientais, que são os temas de ponta do debate hoje no mundo — a disrupção tecnológica, a questão da mudança climática, o desafio de como as democracias continuarão vigorosas e dando respostas aos problemas da humanidade —, temos ali uma minoria de parlamentares identificados e comprometidos com essa agenda. 

Que rumos esse debate tem tomado dentro do Congresso?

É sempre no caminho de retrocesso: como vamos flexibilizar licenciamento? Como vamos flexibilizar a questão em relação ao uso de agrotóxicos? Como vamos flexibilizar a demarcação de terra indígena? Como vamos conter a criação de unidades de conservação? É totalmente na contramão do que precisa ser acelerado. 

E como garantir que a pauta ambiental e climática seja prioridade no governo, que em sua base de apoio também reúne setores contrários a essa agenda?

Dentro do governo hoje a mudança é muito grande. Dos 88 programas do PPA [Plano Plurianual], coordenado pela ministra [do Planejamento] Simone Tebet, 50 estão ligados à agenda ambiental e de sustentabilidade. O ministro [da Fazenda] Fernando Haddad está coordenando o Plano de Transformação Ecológica pensando em eixos estratégicos e já trabalhando nos processos de implementação desses eixos. Conseguimos, com a ajuda do Ministério da Fazenda, fazer com que o Fundo Clima, que era da ordem de 400 milhões de reais, passasse agora com os títulos verdes para cerca de 10 bilhões de reais para projetos de desenvolvimento sustentável na área de clima. O próprio PAC [Programa de Aceleração do Crescimento] coloca a questão da sustentabilidade para que projetos muito complexos e com muita pressão política sejam logo reencaminhados para estudos. O ministro [da Casa Civil] Rui Costa encaminhou para estudos a Ferrogrão [Projeto de ferrovia para ligar o Pará ao Mato Grosso], a exploração de petróleo na margem equatorial e o projeto da [Usina Nuclear] Angra 3. Anteriormente, essas coisas iam direto para o PAC. Agora, está no PAC, mas não vai andar enquanto não vierem os estudos de viabilidade.

“Tem que cair a ficha de que aquele Brasil, com aquelas regularidades naturais que nós tínhamos, não existe mais. Então, vamos ter que acelerar o processo.”

Foto: Luan Martins

O que ainda falta? 

Essa pergunta que vocês fazem é a mesma pergunta que fiz numa reunião do G-20: “Se esse grupo aqui tem a consciência do problema, porque tem acesso aos melhores estudos científicos, aos recursos financeiros e tecnológicos, o que está faltando para começar a fazer as coisas, já que 80% dos recursos financeiros do mundo, digamos assim, estão nas mãos dos 20 países mais ricos, e já que mais de 70% das emissões de CO2 estão sendo feitas por esses países mais ricos? O que está faltando para fazer a diferença?” Acho que tem uma complexidade objetiva, material. Como se perdeu muito tempo desde a Rio 92 [Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, popularmente conhecida como ECO-92] sem fazer o dever de casa, a gente chega ao momento que a mudança climática e os eventos extremos estão instalados, mas, por não ter sido preventivo fazendo o dever de casa progressivamente, você olha e diz: “Mas o que dá para fazer agora?” Agora, não tem mais uma resposta. Não se consegue mudar a matriz energética da noite para o dia. Ainda bem que o Brasil, ao longo desses anos, conseguiu ter uma matriz energética 43% limpa e uma matriz elétrica quase 90% limpa. Mas, mesmo assim, ainda tem espaço para mudança. E somos um país vulnerável porque dependemos de hidroeletricidade. Tem que cair a ficha de que aquele Brasil, com aquelas regularidades naturais que nós tínhamos, não existe mais. Vamos ter que acelerar o processo.

Como isso vai ser possível?

Eu acho que essa aceleração depende de vários esforços: os esforços globais e os esforços no âmbito dos estados nacionais. Nós estamos trabalhando nossas NTCs [Notas Técnicas Conjuntas] para que elas sejam ambiciosas; estamos trabalhando o Plano Clima [principal orientador para o Brasil manter o ritmo de redução no desmatamento e a transição para a economia de baixo carbono rumo à neutralidade climática]; nós temos cerca de nove ações na área de mitigação e 15 ações na área adaptação. A questão da adaptação é urgente, urgentíssima e, infelizmente, essa é uma agenda que foi sendo negligenciada não só no Brasil, mas no mundo. Não sei se é negligenciada, mas a gente falava muito de mitigação, mitigação, mitigação. Agora, a gente está vendo que há necessidade de adaptação, inclusive, do ponto de vista de pensar que novas doenças estão surgindo ou que estão se alastrando para regiões em que elas não existiam. Eu digo que a gente vai ter que se desadaptar. Ao mesmo tempo que a gente vai ter que se adaptar a uma nova realidade, vamos ter que nos desadaptar da velha realidade que tínhamos.


Em que sentido, ministra?

Eu fui no Vale do Taquari, no Rio Grande do Sul, e falei assim: “Olha, infelizmente esse lugar aqui é um lugar vulnerável, esses eventos vão acontecer de novo”. E aí, uma pessoa dizia pra mim, resistindo: “Não, mas isso aqui aconteceu há 93 anos”. Talvez querendo dizer: “Vocês, ambientalistas, se aproveitam do problema”. Mas, infelizmente, as enchentes aconteceram três vezes só no ano de 2023. É uma pedagogia dura, difícil de lidar. A pessoa pensa: “Ah, mas a minha rua não vai mais existir? A minha casa não vai existir? A minha empresa não tem mais como ser aqui? A minha identidade com esse bairro, às vezes até com esse município, como fica?” Eu vi agora em Brasileia [cidade do Acre que registrou a maior cheia de sua história em fevereiro]. O município é terra arrasada. Já foram feitas várias reconstruções lá. Não tem como insistir para mudar uma realidade que, no ano que vem, vai acontecer de novo.

“Pensamos a questão ambiental não só do ponto de vista da proteção ambiental estrito senso, mas como mudança de modelo de desenvolvimento.”

Nesse cenário, há um ano e meio, a senhora assumiu mais uma vez o comando do Ministério do Meio Ambiente — hoje também Ministério de Mudança do Clima. Está sendo como esperava? Que balanço é possível fazer?

Esse primeiro ano foi duplamente desafiador. Primeiro, foi um ano de reconstrução de políticas públicas, não só na área ambiental, mas em vários setores, principalmente aqueles completamente abandonados e até mesmo perseguidos pelo governo anterior — por exemplo, a área dos direitos humanos, das políticas para mulheres, a área social. A área ambiental, nem se fala. E esse processo não se encerra porque se passou um ano. Tem estruturas que continuarão sendo fortalecidas porque o esgarçamento foi muito grande. Mas acho que a gente conseguiu sair de um momento basal, ali na UTI, para poder ter alta e começar a trabalhar. Estamos trabalhando. Só que nós decidimos que não íamos esperar pelo orçamento ideal ou a situação ideal. A gente foi trabalhando da forma como foi possível desde que chegou aqui. E já no primeiro ano, conseguimos uma redução de desmatamento de 50%. Isso é muita coisa diante da terra arrasada que a gente encontrou. Nós pensamos a questão ambiental não só do ponto de vista da proteção ambiental estrito senso, mas como mudança de modelo de desenvolvimento, pegando os eixos estratégicos de um plano de transformação ecológica: a questão das finanças sustentáveis, do adensamento tecnológico, da infraestrutura resiliente, da bioeconomia, da segurança energética, e a agenda da economia circular. Pensamos todos esses eixos sinalizando que os desafios de um novo ciclo de prosperidade que o país precisa não é mais na velha lógica da visão puramente desenvolvimentista que perpassou toda a história do Brasil nos últimos séculos. Esse desafio também entra numa outra fase: não mais da formulação, agora é da implementação.

“Os desafios de um novo ciclo de prosperidade que o país precisa não é mais na velha lógica da visão puramente desenvolvimentista que perpassou toda a história do Brasil nos últimos séculos.”

E quais são os maiores desafios a partir daqui?

Nós temos uma contradição: ao mesmo tempo que os investimentos terão de ser de longo prazo e com mais recurso, a gente tem mecanismos fiscais que nos impedem em relação a várias políticas que o Estado gostaria de patrocinar e de estar ali na ação de indução dessas políticas. Então, o primeiro desafio foi da reconstrução e da formulação de novas políticas ou da atualização de políticas que deram certo e que precisavam ser atualizadas, como foi o caso do PPCDAm [Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal], a retomada de políticas que tinham sido paradas, como foi o caso do Fundo-Amazônico e outras. E agora nós estamos neste ano com o desafio de implementar tudo aquilo que a gente planejou. Na Amazônia, depois desses primeiros meses, tivemos uma redução de 29,2% no desmatamento em cima dos 50% que já haviam caído. Por outro lado, tem um desafio enorme em relação ao Cerrado. O bom é que conseguimos fazer o PPCerrado [conjunto de medidas intersetoriais para tentar conter a destruição de parte da vegetação do Cerrado] e estamos em fase de implementação. Tivemos ali uma pequeníssima queda de 4% em relação a 2023, mas ainda não dá para dizer que é uma tendência. É um esforço hercúleo. 

Como lidar com essas contradições?

Às vezes, as pessoas falam: “Ah, mas tem contradições”. Existem contradições! Nós somos uma frente ampla, não tem como ser diferente. A contradição faz parte da dinâmica política, social, cultural, acadêmica, né? Dentro do mesmo departamento, você vai ter abordagens metodológicas, que muitas vezes podem parecer contraditórias. É da natureza das dinâmicas humanas. Mas o importante é que o presidente Lula, ele mesmo, está liderando a agenda. A ministra do Meio Ambiente não teria força para dizer: “Não, o Ferrogrão não entra agora no PAC, vai para estudo!” A gente apresenta as razões, os argumentos técnicos, mas a decisão, o poder disso é do presidente da República. E mesmo que haja as contradições, elas têm que ser dirimidas politicamente e tecnicamente. Nem tudo é dirimido só politicamente. A Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] não pode dizer que aquele agrotóxico não faz mal para saúde, em função de uma visão política. Assim como o Ibama tem a liberdade de dizer que determinado empreendimento não tem viabilidade ambiental e que é preciso buscar alternativas, que às vezes até podem ter um custo maior. Mas, paciência, é isso que precisa ser feito.

Por Adriano De Lavor, Ana Cláudia Peres e Luíza Zauza* (estágio supervisionado)

FONTE: https://radis.ensp.fiocruz.br/entrevista/o-negacionismo-climatico-ameaca-a-vida/

Edição: A. R.

O resto é a sombra de árvores alheias: as árvores e Fernando Pessoa

Ou morreremos de sede ou de calor, mas de dor e de amor ficaremos cegos em busca de nos tornarmos alheios às nossas sofrências iguais às nossas irmãs árvores que, de tanto chorarem, as suas dores decidiram ficar alheias às luzes dos eclipses dos astros criados pelos robôs que se dizem homens e mulheres do bem. O bem é um alheio ao mal.

No poema “Segue o teu destino” do poeta português Fernando Pessoa ele nos diz num dos seus mais bonitos versos “O resto é a sombra de árvores alheias.” Confesso ser este um dos meus poemas preferidos deste poeta que foi pouco reconhecido em vida e hoje é um dos maiores gênios da literatura. Tendo sido sombra durante toda a sua vida na sua própria pátria.

Poema em vídeo: https://youtu.be/eyhnB8BKt_E?t=4

No entanto, ao ler este verso, faz alguns anos, fiquei curiosa para saber o que ele queria dizer com “árvores alheias” e depois de muito refletir posso estar enganada, mas acho que encontrei uma resposta bem ao meu gosto, bem cheia de ternura e criancice daquelas que a gente inventa quando quer esquecer que é gente grande: as árvores para o poeta não estão preocupadas com as coisas que acontecem ao seu redor ou estão tanto quanto as crianças assustadas, mas preferem fingir um riso, o riso da inocência, elas só querem saber de brincar e dar sombras e frutos para quem as ama ou não.

As árvores por fingirem ser alheias aos problemas mundiais e quantos problemas inventamos todos os dias para complicarmos a vida, elas só querem que nos deitemos embaixo das suas sombras e descansemos as nossas almas de todas as bobagens e obstáculos que costumamos acrescentar às nossas existências. Ser alheio não é tornar-se irresponsável, ao contrário é estar por dentro de tudo, mas pensar como quem sabe que tudo será resolvido dentro de instantes, rapidamente, em breve.

Assim, as árvores nos dão a lição de que não adianta ficarmos aflitos, perturbados, ansiosos, depressivos com as dificuldades que nos são impostas diariamente, porém fazermos de conta que somos alheios a tudo isso e que logo venceremos os problemas por mais que pareçamos irresponsáveis, simplesmente não nos deixamos abater por coisas que acreditamos serem possíveis de se resolver com paciência e determinação.

As árvores são alheias não aos problemas dos homens e assim não estão nem aí para eles, ao contrário, elas se preocupam com as nossas vidas e dores, mas elas também sabem que do mesmo jeito que acrescentamos pedras ao benquerer dos nossos corações também podemos tirá-las de lá. Somos nós os culpados por essa bagunça que se tornou o mundo e o existir. Não sabemos sequer quem somos ou o que fazemos por aqui. Parecemos mais robôs do que os próprios softwares de Inteligência Artificial.

Na vida, muitas vezes precisamos ser alheios às coisas ao nosso redor e esquecermos por um ou outro momento as nossas dores para nos colocarmos no lugar do outro, da natureza, das plantas, das florestas, dos animais. Para pensarmos que o conjunto das coisas ao nosso redor é o que nos proporciona um viver com saúde e bem-estar. Não somos deuses que mandamos em tudo e mesmo prevendo tempestades e furacões ainda não podemos fazer a chuva parar de cair.

Se pensarmos que o poeta Fernando Pessoa quis dizer com as árvores serem alheias porque elas simplesmente estão cansadas de tentarem todos os dias nos ensinarem a sermos seres melhores respeitando-as e admirando-as como o olhar de uma criança inocente, se pensarmos que o poeta escolheu esse ser alheio para nos chamar a atenção de que a natureza resolveu parar de pedir socorro e decidiu silenciar-se diante do abuso e mediocridade dos homens que as derrubam todos os dias com machados e serras elétricas que sangram, chega a doer nas suas raízes, machucam, ferem e matam quem só quer nos dar sombra e frutos levaríamos mais a sério o ser alheio das árvores.

Quando as árvores permitiram-se ser alheias aos atos desumanos e cruéis dos homens ao seu redor, tratando-as como coisas que nada significam, quando as árvores acharam melhor ficarem quietas e sem balançarem seus galhos numa tarde de outono qualquer, é porque elas estão aguardando que percebamos o quanto seus silêncios são gritos que chegam a estrondar os chãos e céus à espera de ajuda para que não sejam abandonadas, derrubadas, podadas de forma errada, tratadas como se não servissem para nada.

Não deixemos que as árvores continuem alheias as suas dores e fazendo de conta que está tudo bem consigo quando sabemos que as maltratamos com as nossas ambições desassossegadas de desenvolvimento e massacre das florestas. As árvores assim como as crianças também têm medo de serem abandonadas num lugar frio e cheio de monstros, elas também têm pesadelos e suas angústias.

Que possamos reconhecer a nossa pequenez diante do ser alheias das árvores quando elas, na verdade, nunca param de prestar atenção as nossas ideais malucas de construirmos prédios em lugares onde poderiam plantarmos mais irmãs suas, a nossa rotina de crescimento está destruindo a boniteza das árvores e suas histórias contadas nos finais  de tarde às crianças e idosos que sentam-se embaixo das suas sombras para simplesmente ouvirem delas que seus heróis estão vivos e ali prontos para lhes salvarem a qualquer momento.

Tornar-se alheio é o mesmo que dizer cansei, contudo cansar não é desistir da luta e, sim, parar por algum tempo para procurar nas profundezas do existir, do ser, do estar aqui para um propósito qualquer a verdadeira essência do ir além do que a metafísica tenta buscar, ou seja, respostas às dúvidas do que tudo é por um motivo especial e único da sua criação.

Parar e esperar o momento exato da sua fala é o mais correto assim fazem os psicanalistas nos seus consultórios, o sábio já nos ensinava a arte de ouvir. As árvores são mais ouvintes do que falantes, e menos indiretas do que diretas nas suas buscas por sobrevivências em lugares onde a sombra do desenvolvimento assombra e faz medo… tudo está crescendo além céus.

A vida é, existimos, tudo ou nada, somos átomos e células… e nós não temos a certeza se somos únicos no Universo, nem as árvores conseguem mesclar caminhos com desertos em busca de respostas ao mais alheio de que se tornem para não sofrerem ao toque dos tambores dos seus algozes que as matam sem lhes perguntarem por que existem e são o ser do mais-ser.

De uma certa complexidade. ás árvores são como se fossem séculos escapados das mãos de um criador qualquer além religiões que as colocaram na Terra para dizerem aos homens que mais poder têm àqueles que se fingem do que os que saem por aí gritando as suas ambições e destruindo seus próprios jardins primaveris de um existir de paz e virtudes esquecidos no passar dos anos, pois tudo que não passa fica adormecido feito gigante nos oceanos de águas mansas, se bem lembro nunca mais ouvi falar de Adamastor, Pantragruel e Gargântua andando por aí.

O tornar-se alheias das árvores dá para elas uma sabedoria imensa, pois nos mostra que apesar de estarem assustadas com os nossos machados e serras elétricas elas se conservam unidas e mais fortes do que nunca à espera de uma revolução da natureza que vem chegando aos poucos com as constantes enchentes, queimadas, furacões e outros desastres naturais que mostram aos homens o ser mais da natureza diante das suas elucubrações mescladas a um desenvolvimento mesquinho e ambicioso que só destrói a si próprio.

Enquanto as árvores ficarem alheias e deixarem os homens se entenderem e descobrirem que sem elas não serão nada neste mundo criado por algum Bem maior do que eu e você, estarão mais felizes e prontas para receberem as superioridades e inoportunas ausências de cuidado dos nossos governantes e autoridades que comem os olhos da natureza em pratos de ouro sem saberem que o mundo está dando a sua resposta fingindo-se de alheio às crueldades e matanças das árvores.

Ou morreremos de sede ou de calor, mas de dor e de amor ficaremos cegos em busca de nos tornarmos alheios às nossas sofrências iguais às nossas irmãs árvores que, de tanto chorarem, as suas dores decidiram ficar alheias às luzes dos eclipses dos astros criados pelos robôs que se dizem homens e mulheres do bem. O bem é um alheio ao mal.

Autora: Rosângela Trajano.  Também escreveu e publicou no site “Por que estamos trocando árvores por concreto”: www.neipies.com/por-que-estamos-trocando-arvores-por-concreto/

Edição: A. R.

O gato não quis descer do trem

Arrisquei passar a mão na sua cabeça, ele só piscou. Na infância, havia sete gatos na nossa casa, então eu sabia como conseguir a simpatia do meu vizinho. Não alcançaríamos total sintonia. Eu vivia no presente, mas também no passado e no futuro. E ele, com certeza, só no presente. Fomos assim até a próxima estação.

Das seis horas da manhã às seis horas da tarde, as 12 horas no trem faziam com que eu descesse em todas as paradas. Alguns desembarcavam, outros embarcavam, mas quase todos desciam, menos o gato que havia no trem. Talvez fosse eu o único passageiro a fazer todo o trajeto Santa Maria – Passo Fundo e o gato o único a não descer nas inúmeras e pequenas estações.

No trajeto entre duas delas, fui ouvindo os acordes de um gaiteiro. Em uma das breves paradas, consegui comprar uma garrafa de cerveja não muito gelada. Foram 600 ml tomados no bico.

Em outra, um vizinho de banco me aconselhou a não descer, mas eu desci. Ainda bem, assim tenho o que contar.

Na lancheria da minúscula estação, havia algumas mesas de madeira, todas ocupadas. Só consegui comprar rapadura. Tinha cachaça, mas eu sabia que ela era bem mais forte que eu. Fumavam palheiro, a história que conto é antiga mesmo. Tinha dezenove anos e estava viajando para casa. Minha irmã festejava seus quinze anos de idade ou era seu baile de debutante, não me lembro.

Um dos fumantes, um de bigode, levantou-se cambaleando e cutucou com o cabo de um facão outro fumante, este sem bigode e com muita barba por fazer. Os dois saíram da lancheria e todos os seguimos. Pena que o trem apitou.

Pude ver que as bombachas e as botas de ambos eram parecidas. Vi porque baixei o olhar para ver dois facões no chão. O trem começou a se mover. Tive de correr. Da janela não consegui mais vê-los. Não sei se começariam uma dança ou uma luta. Achei que o primeiro a se levantar fazia-se de mais bêbado do que parecia estar. Sabia de uma recomendação: “Se for começar uma luta, se faça de muito bêbado. O adversário vai achar que será fácil”.

Meu vizinho de banco, agora, não era mais aquele que sugerira que eu não descesse. Era o gato, aquele que nunca descia nas estações. Cinza-escuro com manchas brancas, nem gordo nem magro, no peso. Ao me ver, não deu importância. Voltou a deitar a cabeça no banco. Parecia me espiar com seus belos olhos de gato.

Arrisquei passar a mão na sua cabeça, ele só piscou. Na infância, havia sete gatos na nossa casa, então eu sabia como conseguir a simpatia do meu vizinho. Não alcançaríamos total sintonia. Eu vivia no presente, mas também no passado e no futuro. E ele, com certeza, só no presente. Fomos assim até a próxima estação.

Convidei o gato para descer. Não quis. Fiz menção de levá-lo no colo, mesmo assim ele não quis. E isso que era uma tarde de sol, de céu sem nuvens. E não estava muito quente.

Havia ali alguns cavalos pastando. Consegui comprar uma garrafa de cerveja por preço menor que aquele pago pela anterior, tinha um casco para trocar. Não estava gelada, fazer o quê?

Acabei ajudando uma alegre família que ia para um casamento e levava a torta da festa. Depositada sobre um enorme tabuleiro quadrado, a torta não entrava pela porta. Finalmente, com o maquinista já cansado de tanto apitar, conseguimos passá-la por uma janela que abria de todo.

Alcancei meu banco com o trem já em movimento e fui tomando a cerveja no bico.

Com a mão livre, acariciava o gato; com os olhos, via passar pequenas lagoas, algumas ovelhas, casas de madeira sem muita pintura, árvores como cinamomos e outras que eu não sabia o nome. Também vacas que pareciam cochilar enquanto mastigavam.

Tomei toda a cerveja.

O gato dormiu. E eu também.

Autor: Jorge Alberto Salton. Também escreveu e publicou no site “Humana beleza de ser empático”: www.neipies.com/humana-beleza-de-ser-empatico/

Edição: A. R.

¿Porque hay que poner a la educacion en el centro?

Ter vivido muito tempo permitiu-me conhecer muitas pessoas diferentes, em idade, posição social, interesses, e nunca encontrei, com uma paradoxal exceção entre aqueles com maior formação académica, um efeito adverso causado pela melhor ou pior educação que podiam receber.

En principio porque no hay civilización, cultura o sociedad que no se haya ocupado de la trasmisión intergeneracional, que es la forma en que por excelencia podemos pensar a la educación.

No obstante ¿Por qué? ¿Por alguna forma de interés corporativo? ¿Porque se debe actuar con corrección política? ¿Por demagogia discursiva? Sin duda no, tampoco se trata de la idea ingenua de los que no entienden cómo funciona el mundo global, ni es la expresión interesada de quienes tienen alguna relación con los sistemas educativos.

Se trata simplemente de que el humano necesita para incorporarse al mundo, además de los imprescindibles cuidados maternos, de sistemas que complementen el cuidado biológico y emocional ampliándolos en escenarios exogámicos y expandiendo la actividad mental que le permite hacer desde las operaciones más básicas como leer el nombre de una calle, diferenciar un chaparrón de una tormenta, practicar una cirugía con un robot o gobernar un país.


Al albañil que levanta una pared, alguien, incluso una circunstancia observada, le enseñó que tanto de arena, tanto de cemento y los ladrillos encadenados de una cierta forma; el cirujano no nació sabiendo dónde hacer la incisión y qué hacer con un órgano, como al carpintero que corta una madera en ángulo de 45 grados alguien le explicó el porqué.

Si algo hemos logrado como civilización, con sus luces brillantes y sus sombras -que son oscuras y muchas-, es porque desarrollamos procesos complejos de transmisión cultural en los escenarios más diversos, inimaginables, creados específica o incidentalmente.

El haber vivido mucho tiempo me permitió conocer mucha gente diferente, en edades, condición social, intereses y nunca encontré, con una paradójica excepción entre los de mayor formación académica, un efecto adverso provocado por la educación mejor o peor que pudieron recibir.

De hecho, en una tapera en el campo, en una escuela rural, en un colegio comercial urbano, en una universidad, alguien se hizo cargo de una transmisión que logró que sus niños o jóvenes encuentren un rumbo, ponerlos en condición de tomar decisiones individuales que siempre son sociales, y puedan funcionar eficientemente en un mundo extremadamente complejo como el que nos toca habitar y en un país que suma complicación entorpecedora e innecesaria a la complejidad que resulta de la interdependencia, con hechos pasados o presentes y personas próximas o remotas, de todos los aspectos nuestra vida.


(VERSÃO EM PORTUGUÊS)

Por que temos que colocar a educação no centro?

El haber vivido mucho tiempo me permitió conocer mucha gente diferente, en edades, condición social, intereses y nunca encontré, con una paradójica excepción entre los de mayor formación académica, un efecto adverso provocado por la educación mejor o peor que pudieron recibir.

Em princípio porque não existe civilização, cultura ou sociedade que não tenha lidado com a transmissão intergeracional, que é a forma por excelência   como podemos pensar a educação.

Porém, por quê? Por causa de alguma forma de interesse corporativo? Por que deveríamos agir com correção política? Por demagogia discursiva? Sem dúvida que não, não é a ideia ingênua de quem não entende como funciona o mundo global, nem é a expressão interessada de quem tem alguma relação com os sistemas educativos.

Simplesmente, para entrar no mundo, o ser humano necessita, além dos cuidados maternos essenciais, de sistemas que complementam os cuidados biológicos e emocionais, expandindo-os em cenários exógamos e ampliando a atividade mental que lhes permite realizar as operações mais básicas como como ler um livro, nomear uma rua, diferenciar uma chuva passageira de uma tempestade, realizar uma cirurgia com um robô ou governar um país.

Ao pedreiro que constrói um muro, alguém, mesmo uma circunstância observada, ensinou-lhe que tanta areia, tanto cimento e tijolos estão acorrentados de uma certa maneira; o cirurgião não nasceu sabendo onde fazer a incisão e o que fazer com um órgão, como o carpinteiro que corta madeira num ângulo de 45 graus, alguém explicou o porquê.

Se alcançamos algo como civilização, com suas luzes brilhantes e suas sombras – que são escuras e muitas –, é porque desenvolvemos processos complexos de transmissão cultural nos mais diversos e inimagináveis cenários, criados específica ou incidentalmente.

Ter vivido muito tempo permitiu-me conhecer muitas pessoas diferentes, em idade, posição social, interesses, e nunca encontrei, com uma paradoxal exceção entre aqueles com maior formação académica, um efeito adverso causado pela melhor ou pior educação que podiam receber.

De fato, num ranchinho no campo, numa escola rural, numa escola comercial urbana, numa universidade, alguém se encarregou de uma transmissão que conseguiu ajudar os seus filhos ou jovens a encontrar um rumo, colocá-los em condições de tomar decisões individuais que são sempre sociais e podem funcionar eficientemente num mundo extremamente complexo como o que vivemos e num país que acrescenta complicações dificultadoras e desnecessárias à complexidade que resulta da interdependência, com acontecimentos passados ou presentes e pessoas próximos ou remotas, de todos os aspectos da nossa vida.

Autor: Eduardo Corbo Zabatel. Ensayista, Psicólogo, Profesor de Historia, Magister en Ciencias Sociales. Mora em Buenos Ayres e está começando a ocupar a sua coluna neste site com esta publicação. Já publicou no site “Temos de nos ocupar em desconstruir a estupidez”: https://www.neipies.com/temos-que-nos-ocupar-em-desconstruir-a-estupidez/

Edição: A. R.

O velho e a enchente

Neste país de cultura de preconceitos onde se avolumam as ofensas de todas as naturezas, o crime de etarismo se faz presente. É intolerável o descarte da pessoa idosa Precisamos encetar um movimento da sociedade civil, pois a pessoa Idosa por si só não terá a força necessária para impor as políticas públicas necessárias por uma existência digna.

A leitura de “O velho e o mar” me ajudou entender as enchentes de maio. Escrito, em 1951, Ernest Hemingway mostra a luta de um velho pescador em busca da pesca. Ele apanha o maior peixe de todos os tempos. Luta contra força dele, é arrastado pelas águas. O velho continua na luta, vence e mata o peixe de 700 quilos. Ao tentar trazê-lo à margem, os tubarões avançam e o destroçam. Ele chega à praia apenas com a espinha.

O velho é reconhecido pelos pescadores e ajudado. Lembrei-me dos velhos de agora, lutando contra as águas barrentas e volumosas de maio de 2024. Velho, idoso, velha, idosa…. Pessoas Idosas….que domaram o Tempo, o frio e o albergue improvisado. Aos pedaços, venceram. Foram vitoriosos, sobreviveram, porque houve solidariedade, como foi o conforto dos amigos pescadores ao velho pescador.

O conforto recebido pelas pessoas idosas desalojadas foi a quentinha doada, e às vezes o velho custo salvo ao seu lado.

Os governos não os alertaram no momento adequado, nada fizeram antes para que o infortúnio não acontecesse. São os tubarões devoradores. 

Depois da luta contra as águas, a busca dos albergues, as esperas sem fim por abrigos adequados, veio o “amargo regresso”.

O “amargo regresso”

Em 1978, o filme “O amargo regresso” deu a Jon Voight e Jane Fonda o Oscar de melhor ator e atriz. O filme começa com um jogo de sinuca (a imagem não é fortuita) e os “aleijados” pelas granadas jogam e falam dos infortúnios da Guerra do Vietnam. Em 2024, em junho, começa aqui o “amargo regresso” com a busca dos “desalojados” por suas casas, várias delas levadas pelas águas, outras danificadas, sujas de lama e nenhum objeto a ser salvo, esperando limpeza.

Além das Memórias que as águas sujas e turbulentas levaram para não se sabe aonde, havia o vazio: vazio da casa, vazio nas almas, o boteco da esquina também vazio. Nem jogo de carta, pois a mesa do jogo de damas da Praça as águas levaram. E me assomam perguntas: quem sabe quantos idosos acamados existem morando com suas famílias? Quem sabe quantos voltaram para morar sozinhos? Quantos foram ou são deixados em “geriatrias” que não passam de depósitos de velhos?

Registre-se: o regresso de um pobre à favela é diferente daquele idoso da classe média.

Entrar num bairro destroçado, com entulhos tomando ruas, pessoas labutando pela limpeza é uma cena de guerra também como as lembranças vistas naquele filme.

Este “amargo regresso” é viver os traumas, a saúde mental abalada, o vazio existencial. Muitas pessoas não resistem. Se uma senhora de 94 e um senhor de 100 anos.- como me contaram.- vão “começar tudo de novo” é uma brecha para construir os “caminhos da reconstrução”. É um raio de luz na fria capital. E uma mudança de mentalidade da sociedade, sempre tão difícil de acontecer, seria um luar nesta noite fria.

Perdi tudo, e agora?

Os autores que, em 2023, produziram o livro “Metamorfose da vida”, volume 1, conseguiram naquele momento dar aos leitores elementos essenciais e básicos sobre o “envelhecer”, sabendo das suas lacunas. Faltaram temas a tratar, como não se analisou a desgraça da Covid 19 sobre o mundo dos idosos. Só não sabiam, apesar de seus estudos e lides, o quanto ainda havia por ser feito.

Começou-se a planejar, entre eles e outros, o segundo volume, e surpreendidos pelas enchentes de maio, com a visível falta de preparo para lidar com as Pessoas Idosas, alguns daqueles resolveram lançar um livro de bolso “Perdi tudo, e agora”.

No mínimo já se teve o impacto da agilidade da resposta ao infortúnio. Quem leu o pequeno volume e retornou garante diz que foi um aprendizado. Dentre estes, destaco a falta de políticas dos poderes públicos. Vamos aos fatos.

No dia 06 de julho de 2024, no Xalé da Praça XV, ocorreu lançamento do livro “Perdi tudo, e agora”?

Seguem registros.

Ausência de políticas públicas

A capital Porto Alegre, com o maior contingente de 60+ do país e com altos índices de longevidade, conheceu o desconhecido: o problema da falta de trato com a pessoa idosa. E isto que estamos falando da capital do “turismo de saúde” desde abril de 2003, quando um Manifesto foi lançado. Serviços de excelência em sua rede hospitalar de atendimento de alta complexidade, recebendo pacientes do Estado e fora dele, muitas vezes de outros países, dado aos tratamentos de alta especialidade. A catástrofe, porém, desnudou um lado precário e desdenhado: a atenção à pessoa idosa.

Ao estourar a catástrofe, somos colhidos pela falta de quase tudo em relação à pessoa idosa. Evacuações e salvamentos amadores, é certo que, com coragem e abnegação, servidores públicos e voluntários foram heróis. Porém, ficou evidente a falta de preparo da cidade e das pessoas para as intercorrências climáticas e os cuidados com idosos.

O mais chocante é que, no site da Prefeitura, há apenas uma página de “Atendimento ao Idoso”, sem quaisquer responsáveis, sem fone, sem whatsapp, sem e-mails!

Criou-se uma narrativa que, no episódio que vivemos e vamos viver por muito tempo, não há responsáveis e culpados. Há responsáveis. Não temos quaisquer políticas de atenção à pessoa idosa nem na capital nem no Estado. Logo, os gestores são sim os culpados.

Em Porto Alegre, no quesito de “Atenção ao Idoso”, como qualquer outro, os atuais gestores fazem de tudo para esconder fatos e omissões, omitem e mentem, falsificam dados.

Já nos setores privados, como as casas geriátricas, de repouso, hotelaria para idosos também não tinham o devido preparo, deixando pessoas idosas sem água, sem banho, sem se prepararem com geradores de energia pela falta dela. Sem luz à noite gerava-se um caos, colocando pessoas idosas em risco.

Somos levados a pensar na importância da criação de protocolos específicos de prevenção, preparação a resgates. Devem partir do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil, para então oferecer capacitação à sociedade, para os “bombeiros civis”, corpos de voluntários, cuidadores, parentes. Urge a criação de políticas e programas mais eficazes, incluindo a prevenção de acidentes, especialmente quedas e o desenvolvimento de produtos específicos para idosos, seja no cotidiano, mas em especial em situação de risco.

Em Porto Alegre, ficou evidenciado que as edificações antigas não têm condições adequadas para resgates de emergência, sobretudo no Centro Histórico, onde temos o maior contingente de pessoas acima de 60 anos.

O que despontou foi a solidariedade de todos os cantos, com seu voluntariado, este mesmo que criou um abrigo para as pessoas idosas. A Prefeitura não tomou qualquer cuidado ou atenção, deixando idosos, doentes, “acamados” largados em alojamentos com colchões rente ao chão, impedindo muitos de se levantarem sem uma mão solidária ajudando.

Disto decorre o repensar, a articulação da sociedade civil, capaz de, pela reflexão e ação, erguer políticas públicas, essenciais para uma existência digna aos idosos.

Legislações existem em todos os níveis, formalmente temos os conselhos que são afrontados pelos executivos. Isto nos deve levar a buscar os órgãos de controle e fiscalização para que sejam efetivos e respeitados.

O velho e a enchente

Ainda não fomos capazes de fazer as necessárias reflexões sobre a pessoa Idosa e a covid, deve ficar para o 3° volume do Livro “Metamorfose da vida”, pois o tempo nos cobrou falar das enchentes.

E neste país de cultura de preconceitos onde se avolumam as ofensas de todas as naturezas, o crime de etarismo se faz presente. É intolerável o descarte da pessoa idosa Precisamos encetar um movimento da sociedade civil, pois a pessoa Idosa por si só não terá a força necessária para impor as políticas públicas necessárias por uma existência digna. Assim, sejamos nós a partir de agora a faísca para o necessário movimento de efetivar os direitos das Pessoas Idosas.

Os livros mencionados nesta publicação podem ser solicitados pelo whatsapp 51.999335309. Serão enviados pelos correios.

Autor: Adeli Sell, professor, escritor, bacharel em Direito. Também escreveu e publicou no site outras 13 reflexões, dentre as quais “Caminhos da reconstrução”: https://www.neipies.com/caminhos-da-reconstrucao/

Edição: A. R.

A Coluna do Colunista e a Coluna Vertebral: trajetórias de vida entre Linhas e Vértebras

Gilberto Cunha é o quiropata literário que ajusta e realinha as memórias da cidade, dando forma e sentido a histórias que poderiam ser esquecidas.

Na quietude das manhãs de domingo, enquanto o mundo se despreguiça das travessuras da noite, um colunista de jornal prepara-se para sua rotina singular. Ele, um artesão de palavras, sabe que sua coluna semanal transcende a mera “sopa de letras”; é a coluna vertebral da cultura de sua cidade, sustentando histórias que desafiam a gravidade do cotidiano. Cada palavra que escolhe é um ajuste quiroprático, alinhando medos e expectativas até que a confiança surja plena. Essas histórias são sopros de vida nos espaços intersticiais entre L2 e L4, onde o possível e o impossível se encontram e se reconciliam.

Ao escrever sobre dois colegas da Academia Passo-Fundense de Letras (APL), ele observa a dança das vértebras transformando-se em um balé de superação. As vidas de Welci Nascimento e Daniel Viuniski, colunas vertebrais que enfrentaram escoliose e lordose, agora se endireitam com a força de seus feitos.

A coluna semanal do Cientista Gilberto Cunha no jornal “O Nacional” é uma espinha dorsal que sustenta a memória viva de Passo Fundo.

Acesse: https://www.onacional.com.br/colunistas/gilberto-cunha,231

Cada palavra escolhida por ele carrega algo íntimo e profundo, um toque de alquimia que transforma o banal em essencial. Neste sábado, 6 de julho de 2024, ele desvela a homenagem da APL a duas pessoas cujas trajetórias são vértebras firmes na espinha dorsal cultural da cidade: Welci Nascimento e Daniel Viuniski.

Gilberto Cunha é o quiropata literário que ajusta e realinha as memórias da cidade, dando forma e sentido a histórias que poderiam ser esquecidas. Sua coluna não é apenas um espaço de opinião e informação, mas uma artéria vital que bombeia inspiração e resiliência, reconfigurando trajetórias e criando uma sinfonia vertebral onde antes havia desarmonia, uma verdadeira “esculhambose” (híbrido de lordose com escoliose).

Acesse também sua coluna no site: www.neipies.com/author/gilberto-cunha/

Mais que um simples texto semanal, a coluna de Gilberto é a espinha dorsal de Passo Fundo, um monumento de palavras que mantém viva a chama da memória e da cultura. Assim, a coluna no jornal “O Nacional” se mantém ereta, robusta, sustentando histórias que, como uma coluna vertebral bem ajustada, permitem que a vida siga em frente com mais leveza e menos dor. Ao homenagear a Academia Passo-Fundense de Letras por lançar mais luz na direção de Welci Nascimento e Daniel Viuniski, ele reafirma o poder da escrita de sustentar, inspirar e iluminar nossos caminhos.

Imagens do evento/homenagem da APLetras.

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LITERATURA LOCAL – A Poesia de Jaime Caetano Braun – outro homenageado neste evento: https://youtu.be/nKtx8ba91Q4?t=931

Fotos: Divulgação/ redes sociais da APLetras

Autor: Prof. Dr. Mauro Gaglietti. Titular da Cadeira 31 da Academia Passo-Fundense de Letras (APL)

Edição: A. R.

Filosofia, cultura digital e combate ao Bullying

Estas propostas pedagógicas servem para atividades pedagógicas das séries finais do Ensino Fundamental ou de turmas do Ensino Médio.

Um dos propósitos do site é realizar publicações sobre práticas educativas que apresentem diferentes metodologias e reflitam aprendizagens feitas por professores e professoras e pelos estudantes. Neste caso específico, trataremos de roteiro com conteúdo de apoio que conecta Filosofia e Cultura Digital no combate ao Bullying e Cyberbullying. Trata-se de uma oportunidade para gerar percepções valiosas e promover mudanças positivas na forma como interagimos com os outros e nos comportamos no mundo digital.

Estas propostas pedagógicas servem para atividades pedagógicas das séries finais do Ensino Fundamental ou de turmas do Ensino Médio.

(EF08FL01PF04) Analisar e compreender a relação dos jovens com as mídias, grupos sociais;

(EF08FL02PF02) Reconhecer e valorizar situações morais e éticas presentes nas relações do homem em sociedade, para melhor pensar e criar saídas para problemas cotidianos;

(EF08FL04PF05) Formular hipóteses, apropriar-se da argumentação, saber ouvir outras possibilidades argumentativas e assumir uma postura dialógica na análise de temas éticos;

(EF09FL02PF01) Respeitar a diversidade e agir por uma sociedade não violenta;

(EF09FL04PF02) Analisar temas e problemas que envolvem a vida cotidiana do adolescente.

Objetivos:

Esta proposta de trabalho objetiva avaliar como a filosofia pode abordar o bullying de maneira significativa explorando as raízes éticas, morais e sociais desse fenômeno, além de buscar interfaces com a Cultura Digital, a fim de combater o Bullying e o Cyberbullying.

Investigação sobre as diferentes formas de bullying (cyberbullying) e suas ramificações psicológicas, sociais e éticas.

Bully = palavra em inglês que pode ser traduzida por brigão, valentão e agressor.

Bullying = palavra em inglês que pode ser traduzido por intimidar ou amedrontar.

Cyber = é o diminutivo da palavra cybernetic, que em português significa alguma coisa ou algum local que possui uma grande concentração de tecnologia avançada, em especial computadores, internet etc.

Cyber + Bullying = Cyberbullying = Implicância, discriminação e agressões feitas através de meios de alta tecnologia ou internet, como por exemplo, através das redes sociais.

Trabalhar com os estudantes o passo a passo de pesquisa em fontes confiáveis.

Sugestão de tema para trabalhar em grupos: identificar os principais contextos onde o bullying (cyberbullying) ocorre, como por exemplo, nas escolas, grupos de amigos, redes sociais, jogos multiplayer, etc.

Sugestões para apresentar os dados após pesquisa:

Jamboard / PADLET / Apresentação colaborativa no Google

Criar uma WORDCLOUD com os estudantes a partir das reflexões realizadas em aula.

Precisamos discutir conceitos filosóficos como identidade digital, comunicação mediada por computador e a natureza da realidade online!

Investigar as questões éticas relacionadas ao comportamento online, como anonimato, privacidade, liberdade de expressão e responsabilidade digital.

Examinar como os valores éticos tradicionais se aplicam ou precisam ser adaptados aos mais diferentes ambientes.

Você conhece a Lei Geral de Proteção de Dados?  (Pesquisar: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/lei/l13709.htm )

Fazer uma observação on-line nas redes sociais.

Pedir para os estudantes identificarem comportamentos que eles identificam como antiéticas.

Pode ser de forma individual ou uma atividade colaborativa com os pais.

Abra uma discussão em sala de aula para os alunos exporem os achados a partir do seu histórico de navegação.

Usando a criatividade!!! Vamos produzir um jogo com os alunos na Sala Maker ou no computador, utilizando o Canva ou outros recursos!

JOGO “Truth or Tale” (Verdade ou Ficção)

Objetivo do jogo: O objetivo do jogo é educar os participantes sobre a diferença entre notícias verdadeiras e falsas, bem como promover uma discussão saudável sobre liberdade de expressão e responsabilidade na disseminação de informações.

Materiais Necessários: Cartas com manchetes de notícias reais e fictícias. Um tabuleiro para marcar o progresso. Peças para cada jogador. Um cronômetro. Um conjunto de regras claras e concisas.

Como Jogar:

 -Os jogadores se sentam ao redor do tabuleiro.

– Cada jogador recebe uma peça e coloca no ponto de partida.

– Um jogador começa virando uma carta que contém uma manchete de notícia, lendo-a em voz alta para todos.

– Os outros jogadores têm um tempo limitado para decidir se a manchete é verdadeira ou falsa. Eles discutem e depois escrevem suas respostas.

– Uma vez que o tempo acabou, as respostas são reveladas e a verdadeira natureza da manchete é discutida.

– Se um jogador acertar, ele avança uma casa no tabuleiro. Se errar, fica onde está.

– O próximo jogador faz o mesmo, e o jogo continua até que todos tenham tido a oportunidade de jogar várias vezes.

 – O jogador que alcançar a linha de chegada primeiro ganha.

Variantes:Adicione cartas de desafio que exijam que os jogadores justifiquem suas respostas com evidências. – Introduza cartas que não apenas apresentem manchetes, mas também fontes e argumentos usados para apoiar ou refutar as manchetes. – Incentive a discussão após cada rodada para explorar mais a fundo a diferença entre liberdade de expressão e a responsabilidade na disseminação de informações.

Pontos de Discussão:

– O que diferencia uma notícia verdadeira de uma falsa?

– Quais são as responsabilidades dos consumidores de mídia ao compartilhar informações?

– Como podemos discernir a veracidade das informações em um mundo onde as Fake News são abundantes?

 – Qual é o papel das plataformas de mídia social na propagação de informações falsas?

– Até que ponto a liberdade de expressão deve ser protegida, mesmo quando se trata de informações erradas ou enganosas?

A relação entre a filosofia e a cultura digital é fascinante e complexa. A filosofia tem sido fundamental para entendermos as implicações éticas, sociais, políticas e epistemológicas da era digital. Por sua vez, a Cultura Digital participa da aproximação desses conceitos.

A filosofia moral e ética tem um papel crucial na discussão sobre o comportamento online, como privacidade, segurança cibernética, liberdade de expressão, e o impacto das tecnologias digitais na sociedade, bem como, suas implicações com a cultura do Bullying.

A filosofia da tecnologia investiga a natureza das tecnologias e seu papel na vida humana, questionando como as tecnologias digitais moldam nossa percepção do mundo, nossa identidade, nossas relações sociais e nosso modo de pensar. Questões sobre a confiabilidade da informação, a validade das fontes online e a natureza do conhecimento em um mundo conectado são cada vez mais relevantes.

A ascensão da inteligência artificial e da robótica levantam questões filosóficas profundas sobre a natureza da mente, da consciência, da inteligência, validade e autonomia das IAs. Como a Filosofia explora conceitos como dados, informação e conhecimento, especialmente em um contexto digital. A mídia digital levanta questões sobre representação, autenticidade e poder. A filosofia investiga como as tecnologias de comunicação digital influenciam a percepção pública, a cultura e a política. Em suma, a filosofia desempenha um papel vital na análise crítica da cultura digital, ajudando-nos a compreender as implicações profundas das tecnologias digitais em nossas vidas individuais e em nossa sociedade como um todo.

Estudo de casos reais de cyberbullying e suas implicações éticas e filosóficas com pesquisas online.

Círculos de Discussão: Organize círculos de discussão regulares onde os alunos possam falar abertamente sobre suas experiências com o bullying, compartilhar histórias e discutir estratégias para lidar com isso.

Palestras e Visitas de Especialistas: Convide palestrantes ou especialistas em bullying para falar com os alunos sobre o impacto do bullying e estratégias para preveni-lo e combatê-lo.

Programas de Mentoria: Estabeleça programas de mentoria entre alunos mais velhos e mais novos para promover um ambiente de apoio e amizade na escola e de forma digital, onde os alunos se sintam seguros para pedir ajuda se estiverem sendo intimidados.

Treinamento em Habilidades Sociais e Resolução de Conflitos: Ofereça atividades que ajudem os alunos a desenvolver habilidades sociais, como comunicação eficaz, empatia e resolução de conflitos, para que possam lidar melhor com situações de bullying.

Debates Éticos sobre Tecnologia: Escolha um tópico relevante, como privacidade online, inteligência artificial, ou o impacto das redes sociais na sociedade, e organize um debate em sala de aula. Divida os alunos em grupos e peça que pesquisem diferentes perspectivas filosóficas sobre o tema. Eles podem apresentar argumentos éticos a favor e contra, e discutir as implicações dessas tecnologias em nossa vida cotidiana.

Análise de Filmes ou Séries: Exiba filmes ou séries que abordem questões éticas relacionadas à tecnologia, como “Black Mirror” ou “Her”. Também, questões diretamente ligadas ao Bullying como “Extraordinário” ou “Te pego lá fora”. Após a exibição, promova uma discussão em sala de aula sobre os dilemas morais apresentados e como eles se relacionam com os princípios filosóficos estudados.

Projeto de Ética em Tecnologia: Divida os alunos em grupos e peça que criem um projeto sobre ética em tecnologia. Eles podem escolher um tema específico, como o uso de algoritmos de recomendação em plataformas de mídia social, e desenvolver uma apresentação que analise o impacto ético dessa tecnologia, propondo possíveis soluções ou diretrizes éticas. Simulações Éticas: Crie simulações de situações éticas envolvendo tecnologia. Por exemplo, você pode apresentar um cenário em que os alunos são responsáveis por tomar decisões sobre o desenvolvimento de uma nova tecnologia controversa, e depois discutir as implicações éticas de suas escolhas.

Desenvolver estratégias para prevenir o bullying (cyberbullying), incluindo educação digital (netiqueta), promoção de empatia pessoal e online criando ambientes sociais e digitais mais seguros e inclusivos a partir da Escola. Promover a conscientização sobre os impactos psicológicos e sociais negativos do bullying e fornecer recursos para as vítimas.

O que podemos fazer?

Elaboração de materiais gráficos de conscientização para a campanha da escola. Sugestão: usar o CANVA Elaboração de vídeos. Sugestão: usar o CapCut Refletir sobre onde rodar a campanha: blog de conscientização; redes sociais da escola; meios de comunicação da comunidade.

Teatro e Dramatização

Criar, junto com os alunos, esquetes envolvendo situações de bullying, que possam ser encenadas e apresentadas não apenas em sala de aula, como também para toda a escola. Essa atividade pode ser desenvolvida junto com o professor de Língua Portuguesa e Arte, uma vez que envolve a preparação do roteiro, cenário, figurino. Promover a encenação de situações de bullying e conflito em sala de aula. Essa ação ajuda os alunos a entender melhor o impacto das ações deles e dos outros. Na sequência podem ser introduzidas discussões sobre como as situações poderiam ter sido resolvidas de forma mais positiva. Essa atividade pode ser um trabalho integrado com o professor de Artes. Dica: A atividade pode ser filmada e então, trabalhar ferramentas de gravação e edição de vídeo, como CAPCUT.

Jogos on-line ou desenvolvimento de jogos nos Espaços Maker de aprendizagem. (O jogo on-line pode ser desenvolvido em softwares como o Scratch, OctoStudio e WordWall)

Redação Criativa: Peça aos alunos que criem poesias ou histórias que promovam a conscientização sobre o bullying e incentivem a empatia e o respeito. Dica: Fazer a produção textual de modo colaborativo do google docs.

A avaliação pode ser realizada por meio de participação em debates, apresentações individuais ou em grupo, produção de ensaios ou relatórios sobre temas relacionados ao bullying e suas implicações filosóficas, bem como pela participação e contribuição nos projetos ou campanhas anti-bullying desenvolvidos. Essa ideia pode servir como base para envolver os alunos em reflexões profundas sobre o bullying, não apenas como um problema social, mas também como um desafio filosófico, ético e digital que exige uma resposta ponderada e fundamentada.

Sugestões: textos, vídeos e atividades

 Cyberbullying atinge 1/3 dos jovens de 13 a 24 anos: https://youtu.be/MCp31i2-VWM?t=5

Vídeo Bullying na escola: https://youtu.be/EeJsPF-aL9E?t=6

Texto Bullying na escola: https://activesoft.com.br/bullying-na-escola/

Outros materiais (como sugestão):

Autor: Rodrigo Gomes Rodrigues. Professor de Filosofia da Rede Municipal/ Coordenador do Componente Curricular de Cultura Digital na Secretaria Municipal de Educação de Passo Fundo.

Escola não é empresa, policial não é educador

A escola não é uma empresa nem a educação um bem do capital. Policiais militares não são educadores e nunca estiveram no rol de profissionais autorizados a exercer esta função pública tão relevante. A autoria pedagógica do professor é decisiva para pensar as mudanças na educação e na escola.

As reformas empresariais da educação avançam em vários estados brasileiros em duas perspectivas concomitantes: privatização da educação básica e militarização. Estados como Paraná, São Paulo e Brasília são as mais expressivas evidências do momento.

Está em curso a implementação de um sistema de desfinanciamento gradual do sistema escolar estatal e fortalece-se o mercado educacional na direção da extinção do sistema público da educação. Trata-se de um programa conservador (da direita) que quer privatizar tudo e eliminar ao máximo o Estado.

O que está em jogo aqui é a ganância interminável de um tipo de capitalismo que deseja transformar tudo em mercadoria vendável. Isso passa a valer, inclusive, para a Educação, a Saúde e a Previdência, ou seja, as áreas que o avanço democrático do último século tinha definido como dimensões da vida a qual todos têm que ter acesso independente da renda familiar eventual. (Autor: Jessé Souza) Leia mais: www.neipies.com/a-privatizacao-da-educacao/

Para o especialista e estudioso do tema, professor Luiz Carlos de Freitas (Unicamp), esta ação visa facilitar o cumprimento do programa libertariano:

a) permitir maximizar o controle sobre o conteúdo e forma das escolas colocando-as nas mãos de agentes ideologicamente seguros (empresas, incluindo as confessionais ligadas às religiões), maximizando dessa forma o controle ideológico sobre a escola; e

b) também permite criar um patamar de operação para as escolas privadas que aumente as margens de lucro e o interesse pela exploração econômica da educação.

Desde o início do século XXI vêm crescendo e se intensificando as tendências de críticas à escola e, principalmente, à escola pública e aos educadores. As razões são variadas, mas uma se sobrepõe: expansão sem precedentes de uma “indústria global da educação”, fortemente calcada no digital, com ofertas privadas, mas interessada sobretudo na produção de conteúdo, materiais e instrumentos de gestão para a educação pública.

Chistian laval, autor de A escola não é uma empresa: o neo-liberalismo em ataque ao ensino público, afirma que a evolução mercantil do serviço educativo não se explica somente pelo aspecto ideológico. Ela se inscreve no processo em curso de liberalização das trocas e no desenvolvimento das novas tecnologias de informação e comunicação em escala mundial. A tendência do período é colocar em competição mais direta os sistemas educativos nacionais, em um mercado global. Nesta perspectiva, a instituição escolar estatal seria enviada para o lixo da história.

Por mais que alguns pais e mesmo professores acreditem em um mundo competitivo, os estudantes e jovens também precisam ser competitivos, é preciso ter responsabilidade e reconhecer que haverá consequências não somente ao acesso no direito à educação pública, a aprendizagem e desenvolvimento integral do estudante, mas na saúde mental de estudantes perdedores e ganhadores. Não podemos colocar nossas juventudes em jaulas de competitividade.

Vivemos em uma constante competição, que separa o mundo entre “ganhadores” e “perdedores” que esconde privilégios e vantagens. Esta corrida por desempenho e status social transforma o colega em um adversário e provoca enorme frustração e sofrimento quando não se transforma em um dos poucos vencedores.

Outra grande consequência é o aumento da ansiedade, depressão e mesmo a escalada de casos de suicídio entre crianças e jovens, conforme diversos estudos rigorosos realizados no mundo todo e mesmo no Brasil.

Diversas são as causas para toda esta angústia estudantil e juvenil, como as crises econômicas, climáticas, uso excessivo de celulares (geração smartphone), jogos, autodiagnósticos simplistas, não sendo necessário a educação meritocrática e de desempenho agravar ainda as preocupações estudantis como seu presente e futuro.

A privatização e a militarização agravam este cenário para a grande maioria de estudantes matriculados (86%) na educação básica que possuem apenas uma oportunidade: a escola pública de qualidade e necessariamente democrática.

Preocupados, mais de uma centena de entidades da sociedade civil e acadêmica se manifestaram publicamente contra o Programa de Militarização das escolas públicos, alertando e argumento para os graves danos à educação, tais como:

– “Por sua natureza disciplinar voltada para a promoção da obediência à hierarquia ancorada em bases militares, a militarização fere princípios constitucionais do ensino, como a liberdade de aprender e ensinar, o pluralismo de ideias, a valorização de profissionais da educação e a gestão democrática (Constituição Federal, art. 206, incisos II, III, V e VI); fere o direito à liberdade, ao respeito e à dignidade de crianças e adolescentes (Estatuto da Criança e do Adolescente, art. 15, 16 e 18-A); e o respeito à identidade e à diversidade individual e coletiva da juventude (Estatuto da Juventude, art. 2º, inciso VI)”, entre outras normativas;

– Os programas de militarização, em todos os entes federativos, não estão amparados em nenhuma das diretrizes, objetivos, metas e estratégias de implementação inscritas no Plano Nacional de Educação (Lei n. 13.005/2014);

– Policiais militares não são educadores, não estão no rol de profissionais autorizados pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (art. 61) a atuar na gestão das escolas ou em qualquer outra função típica dos trabalhadores da educação. Escolas militarizadas, também, violam liberdades de expressão, de organização e de associação sindical dos profissionais da educação, aumentando o fenômeno de autocensura e censura de professores;

– As escolas militarizadas não são mais seguras, ampliam violações de direitos e violências; há diversas denúncias de situações de assédios moral e sexual e abusos físicos e psicológicos contra estudantes praticada por agentes militares;

– O modelo militarizado não contribui para o desenvolvimento integral dos estudantes, seu preparo para o exercício da cidadania e para a promoção de sua autonomia e emancipação;

– Os programas de militarização ampliam as desigualdades educacionais, introduzindo desigualdades no financiamento internas às redes de educação e mecanismos de exclusão de estudantes em maior vulnerabilidade socioeconômica, com deficiência, com distorção idade-série, dificuldades de aprendizagem e de se adequarem às normas e padrões;

– Escolas militarizadas reforçam os estereótipos em relação aos papéis masculinos e femininos na sociedade, que limitam a liberdade dos indivíduos, coíbem a expressão da diversidade de gênero e sexualidade e a demonstração de afetos, principalmente de jovens LGBTQIAPN+.

Camila Rocha, pesquisadora da USP, em recente artigo “Tarcísio e Nunes querem educação para a ditadura”, em vez de ordem e progresso, o futuro com escolas militarizadas promete retrocesso e ditadura, ou seja, é para preparar um novo ataque à democracia e ao estado democrático de direito.

Afirma a pesquisadora que “violações de direitos humanos ocorridos nas escolas militarizadas já foram denunciadas à ONU. No entanto, em meio a omissão do governo federal e do STF sobre a flagrante inconstitucionalidade de tal “modelo escolar’, governos estaduais (como São Paulo) e Assembleias Legislativas em vários e insistem em aprovar e implementar escolas militarizadas.

Neste contexto, é necessário reafirmar a escola como um espaço público comum da educação.

Para o educador e pensador António Nóvoa (Universidade Nova de Lisboa), esse espaço público comum só terá sentido no cenário de uma forte participação social, com capacidade de deliberação e exercício de cidadania. Não se trata, apenas, de consultar, mas de organizar processos de decisão sobre as políticas de educação.

Em outra perspectiva e concepção, um grupo de pesquisadores, pesquisadoras, professores e professoras, estudantes e gestores, especialistas e investigadores, reunidos na Unicamp em junho do corrente ano, por ocasião da realização do IX Simpósio Internacional de Estudos e de Pesquisas do Grupo Paidéia, publicaram a Carta de Campinas de 2024, onde nos reafirmam um horizonte para o debate sobre a educação e escolarização no Brasil.

Destacamos, a seguir, alguns posicionamentos expressos na Carta de Campinas que se contrapõem ao modelo escolar privatista e militarizado defendendo uma concepção histórica e republicana da educação não como propriedade individual, mas como pertencente, por essência, à comunidade e à sociedade (Pólis). Os participantes do Simpósio expressam na Carta que:

– Reafirmamos o pleno e irrevogável compromisso com a Educação pública, laica, universal, gratuita e obrigatória, tal como determina nossa Constituição Federal, quando prescreve que a “educação é direito subjetivo e social, dever do Estado e das famílias”, em suas diversas e autônomas formações sociais, institucionais e culturais ( Brasil, CF, Art. 205, 1988);

– Reiteramos o reconhecimento pleno da concepção de Educação como direito e do direito à Educação, sempre compreendida como prática social, cultural, antropológica e histórica, como processo de hominização e de humanização;

– Manifestamos veemente protesto e repúdio ao processo de privatização da gestão escolar pública, pelo Estado do Paraná, e pela concepção perversa de inserção de tecnologias digitais na educação, em detrimento da autonomia dos docentes e dos gestores, legitimamente formados para realizar o ensino e a docência nas escolas, na produção de sua autônoma, livre e criativa atuação na educação escolar, como se anuncia nas políticas estaduais paulistas;

– Repudiamos, também, a proposição das Escolas Cívico-Militares que tem sido lamentavelmente continuada no atual governo como forma de enquadramento militarizado das crianças e dos jovens das periferias urbanas e sociais, com a falsa ideologia da formação disciplinarista da ordem;

– Declaramos plena adesão à concepção de Educação Integral, sobre uma concepção omnilateral, de totalidade e de conjunto, para a formação escolar e educacional.

– defendemos a retomada da concepção de Currículo como a formação para a vida, democrática e humanizadora, em grupos e na sociedade, para a apropriação polifônica da cultura e da vida política, coletiva e comum, para a geração da qualidade social da Educação Pública, com a Filosofia, a Sociologia, a Arte, a Cultura Popular, a Educação Física, a Educação de Jovens, Adultos e Idosos ao longo da vida, a Educação do Campo a partir de suas características e de sua autonomia, a Educação nas Aldeias e Quilombos, a formação autônoma nos núcleos culturais ribeirinhos e nos espaços resilientes, com a Educação Inclusiva efetiva, a defesa da formação para a pesquisa e para a Educação Socioambiental e Sustentável.

Sim, percebam que são projetos de sociedade, de educação e de escola em disputa, com perspectivas, concepções e fins bem diferentes. Um à serviço da reprodução e da acumulação do capital, da riqueza e das oportunidades para poucos bilionários planetários, o outro na defesa da educação pública, democrática e cidadã para a grande maioria da população. Faça sua escolha e lute. Numa ditadura não teremos escolhas e a luta será muito mais árdua!

FONTE: https://www.extraclasse.org.br/opiniao/2024/07/militarizacao-e-privatizacao-escola-nao-e-empresa-policial-nao-e-educador/

Edição: A. R.

Por que estamos trocando árvores por concreto?

As árvores são crianças abandonadas que não sabem onde se amparar da chuva, do sol e da maldade humana. Estão adoecendo e morrendo de tristezas as mais diversas porque perderam a briga para o concreto faz alguns anos. Quero ser a voz das árvores neste pequeno ensaio.

Quero ser a voz das árvores neste pequeno ensaio onde penso chamar a atenção de quem ainda tem tempo para ler um texto que pode falar apenas simplicidades, mas que pede socorro pelas árvores da minha cidade e do mundo inteiro porque o passarinho que sou virou árvore antes do poema do meu querido Manoel de Barros que nos diz

“Um passarinho pediu a meu irmão para ser uma árvore. / Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho. / No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de sol, / de céu e de lua mais do que na escola…”

Que muitas crianças possam aprender e exercitar ser uma árvore por um instante na vida, sentindo as dores da faculdade de uma existência que parece ter deixado de ser boniteza num mundo de concreto feito de cimento, areia e pedras. As árvores são crianças abandonadas que não sabem onde se amparar da chuva, do sol e da maldade humana. Estão adoecendo e morrendo de tristezas as mais diversas porque perderam a briga para o concreto faz alguns anos.

A beleza dos canteiros de uma cidade está nas suas árvores com galhos enormes espalhados pelos quatro cantos de uma avenida dando-nos sombra e frescor com o vento nas suas folhas. Eu que amo as árvores sei bem do que é abraçar uma delas e receber um acalanto na alma daquelas que pouco recebem de nós e nos dão tantas coisas boas.

As árvores deveriam ser imortais e nunca derrubadas pelos homens. As crianças precisam aprender desde cedo a respeitarem as árvores assim como idosos e adultos. Outro dia, eu vi uma mulher grávida quase dar à luz a uma criança embaixo de uma velha árvore na periferia da minha cidade. Nas periferias é onde a vida acontece de verdade, leitor lindo.

Fico me questionando por que algumas pessoas ainda insistem em dizer que as árvores sujam as ruas e atrapalham o trânsito nas grandes cidades se elas chegaram primeiro, a história é meio parecida com a colonização do nosso país, pois os indígenas estavam aqui bem antes dos portugueses, mas isso é outra história que quero contar outro dia.

Hoje quero falar para vocês de que os homens estão ficando malucos com essa ideia de desenvolvimento, inteligência artificial, smartphones e compras pela internet.

Vi uma pessoa comprar uma plantinha num site até fofinho, mas planta a gente consegue em qualquer canteiro, não é mesmo? Pois acreditem isso não acontece mais. Os canteiros estão deixando de existir. Nos lugares das árvores placas de sinalizações, postes de iluminação pública ou radares de segurança e outras bugigangas que os homens inventam para prejudicar a si próprios.

Se quisermos ter uma plantinha dentro de casa teremos que ir a um site e comprarmos porque elas já não estão mais onde deveriam estar: espalhadas pela cidade. Nos seus lugares estradas de concreto, edifícios enormes, supermercados e até mesmo escolas para crianças derrubam árvores para construírem seus prédios.

O mundo virou um concreto e o verde já não está mais no seu lugar. Se você olhar atentamente verá poucas ou nenhuma árvore na sua cidade caso more numa metrópole. Os homens esqueceram que o verde da natureza nos traz ar puro e é necessário para a vida humana, trocando-o por concreto.

Eles dizem que é preciso desenvolver as cidades, que é preciso acompanhar o mundo contemporâneo, que é necessário se igualar as grandes megalópoles. Ora, ora, e o nosso desenvolvimento sustentável? Fica somente no papel, leitor. Na hora de construir um prédio de vinte ou trinta andares aquelas cinco lindas árvores são esquecidas no que diz respeito aos seus benefícios para os pulmões dos engenheiros e pedreiros. Elas são derrubadas violentamente por grandes carros que parecem mais umas geringonças de fazer medo a qualquer criança.

Já teve um tempo que quis nascer árvore, mas hoje teria medo, muito medo. Os homens estão fazendo com as árvores o mesmo que o prefeito da província romana da Judeia, Pôncio Pilatos, fez com Jesus Cristo, ou seja, forçando-as a pagarem um pecado que nunca cometeram. Estou cansada demais para continuar a minha luta pelas árvores e seus encantos, pelos seus mundos imaginários que nos mostram o quanto é lindo ver o desenho de uma criança brincando debaixo de uma delas.

Estamos trocando as nossas árvores por concreto porque somos humanos demasiados humanos ratificando o que diz o livro do grande filósofo Nietzsche, ou seja, a ausência da liberdade, as ações humanas são contingentes e precisas num mundo de caos e político masoquista.

A liberdade das árvores de poderem reivindicar os seus direitos; os homens têm sido meio animais cheios de instintos regidos por uma coisa chamada: desenvolvimento. As árvores estão com taquicardia, com ansiedade, com depressão e todos os problemas mentais que um ser vivo pode ter neste último grande século em que estamos vivendo porque temem os malditos corações dos homens de paletó e gravata.

Eu queria mesmo era que as árvores deixassem de ser generosas e fizessem uma revolução no mundo inteiro saindo em passeatas pelas ruas das cidades dizendo aos homens más que eles precisam delas, que elas são indispensáveis à vida. Deus criou a árvore da vida, quem foi lá e a derrubou? O homem pecador. O homem cruel. Certamente um homem que queria o desenvolvimento do seu lugar de moradia.

Na minha cidade todos os dias árvores são derrubadas para serem construídos prédios, viadutos, estacionamentos, shopping centers e ninguém diz nada. Todos ficam calados com medo de serem expulsos do paraíso do concreto onde atrás dos muros que se escondem têm uma vida pacata. Não precisam brigar por sombra ou água fresca porque compram com o dinheiro se possível até mesmo a vida imagine uma árvore. Isso é coisa de gente que não tem com o que se preocupar ficar brigando por uma árvore.

Porque toda árvore que é derrubada nas cidades grandes é para o bem do seu povo, alegam as autoridades. Só que elas não sabem que o bem do povo é conservar o verde das florestas e saber conviver com a natureza e os prédios num lugar só. Acho que ninguém ousa perguntar se é preciso mesmo derrubar árvores para construir um shopping em uma dessas reuniões chiques de engenheiros e empresários. Quem vai perder tempo com uma arvorezinha qualquer? Elas não são nada para esses homens loucos por dinheiro e mentirosos ao ponto de dizerem que praticam o desenvolvimento sustentável.

Eu conheço bem as árvores. Sou amiga íntima de várias delas, principalmente as das periferias da minha cidade, as que ninguém dá nada por elas, aquelas que o povo tem mania de colocar entulhos e lixos nos seus troncos e a prefeitura com raiva prefere derrubar a árvore para impedir que essas coisas aconteçam. As árvores estão com medo de continuarem sendo elas mesmas, e já começam a se vestirem de monstros para assustarem esses homens ambiciosos que só pensam em dinheiro.

Nos livros didáticos das crianças a gente vê muito desenho de árvore, mas quantas delas não foram necessárias serem derrubadas para a fabricação do papel daquele livro? Que adianta insistir com as crianças de que a natureza é linda se já não damos o verdadeiro exemplo para elas de cuidado e respeito com as árvores ao nosso redor? As árvores vão morrer de infarto qualquer dia desses porque seus corações não resistirão a maldade humana.

Num lugarzinho serrano do meu Estado foram derrubadas várias árvores para a construção de um hotel. Eu fiquei bastante triste quando soube disso e fui lá, fiz um trabalho com as crianças sobre as árvores onde elas brincavam e que tinham sido derrubadas para a construção do tal hotel, mas elas foram enganadas pelos seus pais e responsáveis que lhes disseram que no hotel teriam parquinho de diversões, piscinas e áreas de lazer para elas se divertirem à vontade. Já viu criança pobre entrar em hotel de luxo?

Mentem para as crianças, mentem para os idosos, mentem para a sociedade e assim vão derrubando as nossas árvores para construírem seus prédios com muros altos e portarias cheias de seguranças onde ninguém se aproxima sem se identificar.  Nem as árvores são bem-vindas em alguns desses prédios, pois elas sujam muito com as suas folhas e será preciso contratar um jardineiro para cuidar delas, um gasto desnecessário para muitos moradores.

As árvores perderam a batalha contra o concreto até nas cidades pequenas. A grama de um estádio de futebol moderno é sintética e não real como a grama do campinho do bairro de dona Maria. O verde perdeu a sua audácia, a sua estada, o seu oceano, a sua Terra e a sua dignidade. E quando se perde a dignidade não nos resta mais nada a não ser morrermos para o mundo. Nos silenciar e deixar que as coisas aconteçam conforme a necessidade dos homens que controlam as armas nucleares capazes de fazer deixar de nascer plantas e gente em lugares aonde elas chegarem por vários anos.

Estamos todos mortos, principalmente as árvores. Delas vão sobrar alguns poucos desenhos de crianças que ainda podem brincar com elas na casa dos avós que não as derrubaram para acimentar o quintal de casa e assim ficar mais fácil a limpeza. Até os avós estão usando cimento no lugar de grama nas suas casinhas de sapê.

Para encerrar este pequeno ensaio um pouco tristonha, mas sabendo que a minha luta pela vida das árvores continua ainda mais forte deixo vocês com o poema de António Gedeão que nos diz

“…As árvores, não. / Solitárias, as árvores,
exauram terra e sol silenciosamente. / Não pensam, não suspiram, não se queixam. /Estendem os braços como se implorassem; / com o vento soltam ais como se suspirassem; / e gemem, mas a queixa não é sua…”

Ao contrário do que diz o poema de António Gedeão eu acredito que a queixa das árvores é o silêncio de estar presente num mundo que era seus e hoje pertence ao concreto dos homens ambiciosos que só pensam em construir prédios e fazer estradas para irem onde nunca saberão.

Leia também: www.neipies.com/as-arvores-sao-guardiaes-das-historias-dos-nossos-ancestrais/

Autora: Rosângela Trajano. Também escreveu e publicou no site “As arvores são guardiães dos nossos ancestrais”: https://www.neipies.com/as-arvores-sao-guardiaes-das-historias-dos-nossos-ancestrais/

Edição: A. R.

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