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Os humanoides e a educação que desejamos

A busca por vantagens financeiras ilimitadas que move as instituições privadas contamina gradativamente os gestores da saúde e da educação, sendo submetidos por uma lógica da produtividade na qual as pessoas se desumanizam gradativamente ao serem conduzidas por processos digitais, nos quais o humano está sendo desumanizado ao ser substituído pela tecnologia e se transformando em humanoide.

Um conjunto enorme de pensadores contribuíram e podem ser incluídos como co-responsáveis para as palavras que seguem. Citar alguns, pode significar injustiça com os inominados, por essa razão vou postergar essa tarefa para uma próxima oportunidade.

É amplamente aceito a ideia de que a evolução e qualificação da educação institucional é dependente de uma organização pedagógica que supere a fragmentação e desconexão de informações, apoiada em disciplinas, componentes curriculares, que não dialogam entre si, nem com o mundo da vida.

Como alternativa, para superar os limites dessa organização pedagógica, o conceito de multidisciplina foi substituído pelo conceito de interdisciplina.Vale registar que a transdisciplina se apresenta como ponto de partida e melhor caminho para promover a ligação entre as múltiplas disciplinas com o mundo da vida. 

Feito esse registro conceitual vale evidenciar que a qualificação necessária para a educação, certamente, não será materializada pelo caminho adotado pela mantenedora das escolas estaduais do Rio Grande do Sul, que está criando uma infinidade de novas disciplinas, na qual os sujeitos definidores, protagonistas e construtores das mesmas não são os educadores nem os estudantes.

Retomando o raciocínio dessa reflexão, ressaltamos que o ponto de partida é o fato de que as instituições educacionais, no seu conjunto, parecem desconectadas da própria missão que é contribuir para a evolução humana, que passa pela qualificação das relações dos seres humanos entre si e com a natureza.

Essa desconexão com a própria missão está materializada em números, comprovando que o aumento do tempo na escola não está significando aumento no aprendizado que contribua para a ampliação do pensamento crítico e para a expansão da consciência humana.

Paradoxo semelhante está materializado nos bilhões em recursos públicos investidos em instituições ambulatoriais e hospitalares, que deveriam promover a saúde, pois promovem o adoecimento, se comportando como uma indústria, na qual os doentes são matéria prima para a maior produtividade possível da mesma.

Uma opção para enfrentar esse paradoxo visualizado na educação, que não cumpre a missão de promover o aprendizado em favor da evolução humana, bem como das instituições hospitalares e ambulatoriais que não cumprem a missão de promover a saúde, é explicitar o modelo epistemológico orientador das instituições de ensino, bem como os propósitos que orientam a gestão das políticas públicas de educação e de saúde.

Ao recuperarmos delineamentos elementares da gestão, temos um conceito que, na teoria, é amplamente aceito.  Trata-se do argumento de que nos temas centrais para a sociedade, nos quais se incluem a saúde e a educação, a gestão deve ser pública, pois sendo privatizada e privada, estará submetida ao interesse do lucro. Veja aqui: https://www.youtube.com/shorts/PPWb1gOcpsg

Diante da situação em que os problemas públicos na área da saúde e da educação se avolumam vertiginosamente, cabe questionar as relações entre os interesses privados do lucro, simbolizados na indústria farmacêutica e das instituições digitais que passaram a controlar o currículo escolar e os planos de aula dos educadores.

A busca por vantagens financeiras ilimitadas que move as instituições privadas contamina gradativamente os gestores da saúde e da educação, sendo submetidos por uma lógica da produtividade na qual as pessoas se desumanizam gradativamente ao serem conduzidas por processos digitais, nos quais o humano está sendo desumanizado ao ser substituído pela tecnologia e se transformando em humanoide.


Autor: Israel Kujawa. Também escreveu e publicou no site “A educação na era digital”: www.neipies.com/educacao-na-era-digital/

Edição: A. R.

Sem sons, sem fantasias, ruas vazias e violência!

O Carnaval tem um histórico riquíssimo na Capital gaúcha. Vamos relembrar com alguns detalhes para falar da tristeza que se abateu sobre nós em 2025.

Estamos falando do Carnaval de Porto Alegre, a capital do Rio Grande do Sul: sem sons, sem fantasias, ruas vazias e violência. Cidade que já teve a terceira população do país, o Estado que era o terceiro mais rico, que tinha encantadores carnavais de rua e de salão.

Em 1956, Athos Damasceno já nos trazia o vigor das artes e da cultura local, com seu festejado livro: Palco, Salão e Picadeiro em Porto Alegre no Século XIX.

O Carnaval tem um histórico riquíssimo na capital gaúcha. Vamos relembrar com alguns detalhes para falar da tristeza que se abateu sobre nós em 2025.

Ele é originário do Entrudo, que passou por épocas de liberação e proibição. Por volta do ano de 1870, o Entrudo cai em desuso pelo surgimento das Sociedades (Esmeralda e Venezianos) que mudam e dominam o carnaval até mais ou menos 1900.

Para quem tiver interesse maior é só pesquisar no livro “Fragmentos Históricos do Carnaval de Porto Alegre”.

Acesse aqui: https://cphpoa.wordpress.com/2019/05/06/981/

Era o Carnaval do povão de Porto Alegre, surgido nos bairros pobres como o Areal da Baronesa e Colônia Africana. Eram redutos de população negra.

Eram tempos áureos das brincadeiras. Era nas ruas da periferia e nos salões como se vê na foto de 1930 que as coisas aconteciam.

As transformações

Uma característica do Carnaval de Porto Alegre foram os Blocos Humorísticos.

As Bandas, hoje quase sumidas, tiveram seu apogeu entre os anos 1970 e 1980. Algumas delas foram a DK, Saldanha Marinho, Medianeira, Por Causas de Quê, Área da Baronesa, JB, Filhos da Candinha, Comigo Ninguém Pode, IAPI, etc.…

Até há tentativas de sua volta, como vi com a Banda DK.

 Hoje dia se fala em Muambas, algo muito particular do carnaval de Porto Alegre com ensaios dos blocos e escolas feitos como uma prévia para o desfile oficial.

Os negros tiveram este papel inicial do Carnaval de periferia e rua. Já os nossos povos originários estavam representados por outras etnias nas Tribos – Arachaneses, Os Aymorés, Os Bororós, Os Caetés, Os Charruas, Os Navajos, Os Potiguares, Os Tapajós,

Aqui não vamos nos deter sobre as diferenças de tribos, escolas, como nem analisar o carnaval de rua e de salão, mas temos que salientar nunca fez feito em nada em se tratando de carnaval.

Os desfiles mais famosos eram aqueles da Santana, imaginem a Pepsi era patrocinadora, na Avenida Borges de Medeiros, na Perimetral e na Augusto de Carvalho sempre no Centro da cidade.

Carnaval expulso e jogado ao Porto Seco

Chamam-no de Complexo Cultural Porto Seco, mas não passa de um lugar ermo, com galpões para as escolas, mas sem arquibancadas, com gastos sem fim a cada ano para fazer um evento longe do povo.

O Porto Seco fica a 22 km do Centro. Imaginem o pessoal da Restinga que tem duas escolas de Samba fazendo uma viagem de mais de 50 km.

Os desfiles das escolas de samba no Complexo Cultural do Porto Seco estão marcados para os dias 14 e 15 de março, sexta-feira e sábado. Ou seja, fora dos festejos nacionais do nosso carnaval.

Nem na Cidade Baixa, onde nos últimos anos, surgiram blocos e grupos de carnaval, outros pelo centro e pela Orla, como em outros locais, não tem carnaval, teve violência.

Por uma pressão do Ministério Público, a Prefeitura decidiu proibir qualquer desfile no bairro boêmio da Cidade Baixa em 2025.

Já não bastasse estarmos vivendo a terceira onda de calor de 38° na cidade, veio a violência policial gratuita contra pessoas nas ruas.

Sem qualquer diálogo, não havia desfile, eram pessoas curtindo o seu tempo livre nas calçadas bebendo, é certo que às vezes extrapolando para as ruas.

No entanto, a Brigada Militar que deveria civilizadamente manter a ordem fez ataques com cavalos, cassetes, batendo nas pessoas.

Um espetáculo horroroso para uma cidade que era acostumada a vivenciar suas alegrias.

De nada neste Carnaval se parece com o esplendor de seu passado, das passeatas e das caminhadas, em especial aqueles de milhares de pessoas que vieram para cá em todas as edições do Fórum Social Mundial.

Da alegria da Borges de Medeiros, foto da Memória CP, jornal da capital, ao que podemos ver em seguida, numa foto que recebi de um morador de um prédio. É a violência contra uma mulher.

Tempos sombrios

Vivemos tempos sombrios, onde as piores pessoas perderam o medo e as melhores a esperança” – (Hannah Arendt)

Da famosa filósofa alemã também é a expressão “banalidade do mal”. Eis que neste ano em Porto Alegre adentramos o calor infernal do verão com a violência ímpar do Estado, gratuita, abalando o processo civilizatório.

Sempre se falou da briosa Brigada Militar. Isto é, uma força honrada, digna.

Nos dias de hoje, a semelhança com a PM do Rio e de São Paulo é grande.

Porto Alegre viveu o terror policial na desocupação dos Lanceiros Negros numa fria noite de inverno. E o local não serve para nada desde então, só vejo ratazanas a circular.

Em outubro de 2023, houve um bestial ataque a ocupantes de um espaço na Cidade Baixa. A ordem era: “botem para quebrar, botem tudo abaixo”.

Nos dias de hoje, vídeos são feitos na hora. Tudo se vê, nada ou quase nada se perde. Foi o caso da violência do Carnaval que não existiu em Porto Alegre.

Temo pela Humanidade!

Autor: Adeli Sell é professor, escritor e bacharel em Direito. Também escreveu e publicou no site “Os gaúchos”: www.neipies.com/os-gauchos/

Edição: A. R.

Charlie Brown e Snoopy discutem o Acordo de Paris

Tanto o tragicômico Charlie Brown quanto o sereno Snoopy, na situação posta, podem estar certos. Se engrossarmos correntes negacionistas da mudança do clima, não há dúvida que Charlie Brown está com a razão. Se entendermos que a temática da mudança do clima precisa ser levada a sério e que ações relacionadas com transição energética, menos consumo de combustíveis fósseis e mais de energias limpas/renováveis, paralelamente à construção de capacidade de adaptação ao novo clima global, ainda há esperança para o snoopynianos.

Imagine se, na cena emblemática que Charlie Brown e Snoopy aparecem sentados na beira de um lago, em vez de refletirem sobre a finitude da vida – “Algum dia todos nós iremos morrer, Snoopy!”, assevera um quase fatalista Charlie Brown. Ao qual, um sensato Snoopy se contrapõe com serenidade, “Verdade, mas todos os outros dias não.” – optassem por discutir o aquecimento global e o Acordo de Paris.

Eis que, refazendo, ficticiamente, o diálogo da bem-conhecida passagem das tirinhas de Charles M. Schulz, o mesmo Charlie Brown diria, “Em 2024 ultrapassamos o limite crítico de 1,5 °C, Snoopy! Atingimos o ponto de não retorno. O Acordo de Paris perdeu o sentido.”, e, como réplica, Snoopy assim se manifestaria: “Um ano apenas pode não significar nada, Charlie!” O Acordo de Paris indica o limite crítico de aquecimento de1,5 °C, causado pela atividade humana, como média de um período de 20 anos”. E, então, se, no diálogo original, Snoopy conseguiu angariar mais aplausos e adeptos para a sua filosofia de vida, quem você imagina que, nessa última cena, poderia estar com a razão?

A resposta mais sensata, quem sabe, você poderia encontrar lendo o artigo “A year above 1.5 °C signals that Earth is most probably within the 20-year period that will reach the Paris Agreement limit”, dos pesquisadores Emanuele Bevacqua, Carl-Friedrich Schleussner e Jakob Zscheischler, que são vinculados a Universidades e Institutos de Pesquisa da Alemanha e da Áustria, recentemente publicado na revista Nature Climate Change (disponível em https://doi.org/10.1038/s41558-025-02246-9)

Vamos rememorar que, em 2023, a temperatura média do ar da superfície da Terra atingiu 1,43 °C acima da temperatura de referência do período pré-industrial (1850-1900). Além dos fatores antrópicos, especialmente associados com a elevação da concentração dos gases de efeito estufa na atmosfera, naquele ano, a presença do fenômeno El Niño, admite-se, contribuiu para tal. E veio 2024, El Niño encerrou o seu ciclo, La Niña se estabeleceu, mas o planeta não esfriou. Pelo contrário, continuou aquecendo.

Até que, em 2024, foi quebrado o recorde de aquecimento, registrando-se 1,55 °C. Enquanto isso, emergências climáticas (secas severas, ondas de calor, incêndios florestais, inundações sem precedentes, furacões e tornados arrasadores, entre outras), se espalharam e continuam se espalhando pelo mundo todo, inclusive entre nós. Nesse começo de 2025, por exemplo, estamos, no Brasil, imersos na quinta onda de calor, podendo seus efeitos adversos serem sentidos em boa parte do País.

O destaque dado no artigo de Emanuele Bevacqua e colaboradores, merecedor de especial atenção, é que, as implicações desta superação, em 2024, da meta dos 1,5 °C de aquecimento, firmada pelo Acordo de Paris (COP21-2015), embora não estando bem-claras (mesmo com as emergências climáticas de toda ordem mundo afora), não devem ser ignoradas.

Todavia, apesar da dúvida razoável posta pelos autores, por outro lado, acendeu o sinal de alerta que, se, de fato, não for implementada uma política radical de mitigação das emissões de gases de efeitos estufa, o ano de 2024 pode se configurar como o primeiro ano acima de 1,5° C dentro do primeiro período de 20 anos com média de aquecimento global de 1,5°C ou superior; frustrando as expectativas/esperanças postas no Acordo de Paris.

Pareceu confuso? Não. A conclusão é muito clara! O ano de 2024, e isso é muito provável, pode ser o marco do início inequívoco da era do aquecimento global de 1,5 °C motivado pela atividade humana. Indica a urgência de que políticas efetivas de cortes de emissões de gases de efeito estufa sejam postas, globalmente, em prática. E, em paralelo, sobressai-se a necessidade de investimentos na construção da capacidade de adaptação a uma nova ordem climática mundial.

Voltando ao diálogo fictício dos personagens peanuts de Charles Schulz, tanto o tragicômico Charlie Brown quanto o sereno Snoopy, na situação posta, podem estar certos. Se aplaudirmos os que negam a adesão ao Acordo de Paris e engrossarmos correntes negacionistas da mudança do clima, não há dúvida que Charlie Brown está com a razão. Mas, por outro lado, se entendermos que a temática da mudança do clima precisa ser levada a sério e que ações relacionadas com transição energética, menos consumo de combustíveis fósseis e mais de energias limpas/renováveis, paralelamente à construção de capacidade de adaptação ao novo clima global, ainda há esperança para o snoopynianos.

Autor: Gilberto Cunha. Também escreveu e publicou no site “O cemitério das almas fracassadas”: www.neipies.com/o-cemiterio-das-almas-fracassadas/

Edição: A. R.

Como viveríamos todos se soubéssemos que temos somente o dia de hoje?

Os médicos se espantavam, pois uma família que poderia estar destruída pela decepção e amargura, o que observavam eram pessoas ligadas e condicionadas ao seu tempo diário, pouco se importando com as consequências trágicas de se considerar somente o agora; como a maioria vive.

Para o Federico era exatamente assim: um dia!  A sua vida por um dia, por somente um; o dia de hoje. Mas ele nem se dava conta. Apenas vivia!

_Não olhe para trás minha Mãe, não importa! Brincava ele, repetindo o que sua Mãe gostava de falar em segredo; esquecendo suas paredes.

Nascera com uma doença raríssima, em que sua mãe imaginava ser ‘A Síndrome de um dia somente.’ Com risos e sorrisos, todos viviam alegres como a condição única de seu filho: a de esquecer tudo o que viviam.

Uma família despedaçada, imaginavam, mas que se fez a mais feliz da cidade!  Isso porque quando se compreende e se aceita disfunções e malfeitos, o que está errado se transforma em grande acerto, e, o que se trinca, o tempo cola.

A rotina da família teve de ser alterada: manhãs, tardes e noites em função do Federico: uma criança maravilhosa, atenciosa e cheia de descobertas. Mas somente pelo dia!  Quando se jogava na cama, dormia com sofreguidão, pois pensava o tempo todo nas maravilhas e novidades que havia conhecido hoje. Sem se importar em numerá-las e não querendo esquecê-las.

Mas na manhã seguinte, antes do amanhecer, tudo seria esquecido.

Em sua vida não havia passado, nenhuma lembrança e em todas as noites, seu cérebro ‘zerava’ quaisquer memórias que pudesse ter. Do que vivera no dia anterior, nada seria lembrado, guardado, armazenado… Nada. Nenhuma lembrança; a não ser o seu nome e o dos seus pais.

Sua mãe, carregava uma culpa escondida.  Parecida com todas as culpas em que as mães carregam, quando seus filhos chegam ao mundo e não são recebidos. Mesmo que nesse caso, seu filho tenha chegado para viver no seu tempo certo. Diferente da noção de tempo, na maneira como o concebemos e vivemos; o ‘Chronos,’ escravizado em nossos relógios. Porque na verdade, o que nos faz pensar como eterno, sempre foi somente o agora.

Para o menino poder se adaptar, seus país mudaram suas vidas. Todas as manhãs, acordavam pelas 3 horas da madrugada, para lhe ensinar o alfabeto e alguns números; na esperança de que um dia as conexões em seu cérebro se completassem.  Como isso nunca acontecia, todos os dias, o seu aprendizado começava pela mesma letra, pelo mesmo nome…

_Meu nome é Maria e sou a sua Mãe, ok? _falava sua mãe.

_Meu nome e José e sou o seu Pai.  Ouvia de seu Pai.

_Sim, isso eu sei. Passei a noite pensando em vocês, mas as demais coisas vão se tornando brancas, límpidas, até desaparecerem; respondia.

 Ao final, vejo somente um véu transparente…que me cobre por inteiro e faz o tempo voltar.  Parece que o relógio enlouquece e os seus ponteiros ficam girando sem parar…

_ Ahh, você fala do relógio na parede?

_Isso mesmo? Vocês falaram que ele é o dono do tempo, não? E eu sonho com relógios.  Sinto que estou dentro deles.

_Mas quem sou eu? Emendava.

_Você é nosso lindo filho, que amamos profundamente.  Vamos começar agora um novo dia. Pronto?

_Mas quem eu sou diante de um novo dia?

_Você é um presente divino, que veio para lembrar a todos nós, que um dia, pode ser longo demais para que nos preocupemos com os outros; os que passaram e os que estão na fila para passar.

Vamos iniciar os seus estudos agora, pois o que importa é o que estamos vivendo em mais um deles. Na verdade, ninguém sabe das razões de estarmos aqui. Com você, estamos aprendendo a esquecer para respirar um dia por vez.

Como Federico era muito inteligente, soltou um grito de espanto e alegria!

_Para tudo! Como você falou a pouco, mãe?

O que é esquecer tudo para respirar?

_É que existe um ontem meu filho e como se não bastasse, existe ainda um amanhã. E nós vivemos a maior parte dos dias pensando em um deles.

Sendo que a maioria das pessoas vive em seu interior, mas extraviadas.

Mas você está livre de tudo, filho, porque você nada lembra do que viveu ontem, e, ainda nada espera pelo próximo dia; porque não há memórias que o forcem a esperar pelo que virá.

_O que virá minha Mãe? 

_Virá sobre nós… Mais do ontem.

_ Agora é que eu não sei de nada…E todos riram.

Começavam com o alfabeto, com matemática, com o nome de sua escola, dos seus irmãos, da sua rua, dos seus professores…

Pelas 8 da manhã, ele sabia letras e alguns números e os encaixava perfeitamente.

Seu café demorava uma hora. Provava com a máxima paciência os pedaços de pães, todas as frutas que estavam sobre a mesa, e, logo após, deliciava-se com um café, demorado, sorvido aos poucos e muito feliz. Encantava-se com o vapor sinuoso que subia de sua xícara. Ficava maravilhado com o seu calor, que aquecia suas mãos e a todos.

Sua Mãe sabia que poderia ser o seu último café, daí que não o apressava nunca.  Para cada coisa na mesa, uma pergunta.  E quando se vestia, então!  Gastavam mais tempo rindo do que se arrumando.

_Olhe, como chama isso?

_É a camisa da escola, Federico, já falei para você ontem.

_Ontem?

Hahaha. Daí lembravam que não adiantava falar, pois à noite, no seu sono mais ralo, como que uma régua, passava sobre sua consciência e apagava o seu dia.

Da mesma forma que não lembrava de ontem, sua admiração pela vida só crescia.  Tudo era lindo, apreciável; tudo era surpresa e alegria. Todos em sua casa aprendiam a rir sobre não lembrar, esquecer, e, sobretudo, não esperar.

Logo que abriam a porta de casa era preciso contê-lo: saia correndo atrás de borboletas, gatos e cachorros; o que via.  Uma bola pela rua era um motivo simples para o seu encantamento. Sorrir e só rir: seu recomeço, seus passos, seu tudo. O êxtase magistral pela vida… Para os que têm somente um dia!

_Corra atrás da bola com vontade Federico! Gritava seu pai.

Como lhe cabia somente hoje, também não conhecia rancor, raiva, decepção ou quaisquer mágoas. Um apelido estúpido? Nada o atingia. Pois a noite apagava toda sua história.  Ao nascer do dia, a vida se renovava, literalmente, sobre sua casa. Apenas o dia valeria a sua vida; nada mais.

A sua inteligência nascia do fato de ter de aprender em todos eles, repetidamente, a ponto de escrever nas paredes do seu quarto o que mais amava.  Mas assim que amanhecia, pendia sobre os seus quadros, uma história que já não importava mais.  Então, recomeçar e reescrever tudo era a sua diversão. De novo, e, de novo.

Sem raiva e sem medos, sem mágoas ou lembranças, a família foi se moldando a um mundo de extrema presença, abandonando de vez os dias que passavam, não esperando nada, nem circunstância alguma que os movesse… Sem o rancor de ontem, sem a ansiedade de amanhã, a energia fluia em sua família com um rio que se esquece de onde partiu.

_Ao dia, o seu próprio mal.  _ repetia sua mãe em voz baixa, dizendo o que escutara de alguém. E continuava:  _ esperar é inútil.  Lembrar, desperdício!

Os médicos se espantavam, pois uma família que poderia estar destruída pela decepção e amargura, o que observavam eram pessoas ligadas e condicionadas ao seu tempo diário, pouco se importando com as consequências trágicas de se considerar somente o agora; como a maioria vive.

Porque do ponto de vista de quem vive hoje, e somente hoje, o amanhã é uma ilusão desnecessária e um perigo para quem passa a vida planejando.  É o fim da aflição!  Sem um amanhã por temer, os tesouros perdem seu valor.

_ Hora de dormir Federico! Gritava sua Mãe.

Porque amanhã tem mais.

_Amanhã? ele questionava. _ você viu o que falou, minha mãe? E todos caíram na gargalhada. Ria, ria muito para o amanhã minha mãe! _ porque eu não sei onde ele estará.

Federico os mudou e os trouxe para uma dimensão mais profunda e complexa do que seus pais poderiam experimentar; o tempo que escorre pelas mãos das famílias e os consome a todos.

Ninguém fala no dia a dia de uma libélula esplendorosa, linda, liberta… Será que todos sabem que ela tem apenas um dia para voar.

Na medida em que seu filho crescia, todos em sua casa, amavam cada vez mais a sua vida e o seu modo intenso de viver e sentir… Somente pelo dia.

Sua mãe, aos poucos, foi quebrando e jogando fora as pequenas estátuas de sal e que passara muitos anos, escondendo e colecionando.

(Resenha do novo livro de NA Zanatta, nome que batizará seus trabalhos a partir de agora, e que trata de reflexões para o público infantojuvenil. O livro que se chamará “Federico por um dia”)

Autor: Nelceu A. Zanatta. Também escreveu e publicou no site “O menino sem rosto da Rua 59”: www.neipies.com/o-menino-sem-rosto-da-rua-59/

Edição: A. R.

Tenho sede de que?

Ter sede de se refazer é uma questão pertinente! Somos água; somos vida.

Meu corpo necessita, indiscutivelmente, de hidratação. Precisamos recompor nossos 70%, constituídos liquifeitas porções moles, de uma estrutura que não espera por momentos certos para se refazer. Ter sede de se refazer é uma questão pertinente!

O estado físico desta necessidade nos remete a compreender em como urge tornar-se permeável a tais reminiscências.

A biologia humana é segura de suas necessidades, porém a química psíquica nem sempre é tão objetiva: vive de sutilezas vis que nos fazem querer, não querer ou requerer estes encantos de sobrevivência. Tal qual e tão intensamente o desejo de usar a água quando ela deixa de estar a mão.

Tomar água sem sede é prevenir a desidratação, embeber-se de livros é hidratar a imaginação. Reservar água em dias muito quentes previne ficar sem, por qualquer acidente. Não deveríamos permitir que negociassem um bem precioso da sociedade, assim evitando o caos da privatização da água.

Até parece delirante e febril divagar em tempos de seca.  Mais delírio ainda é deixar que aumentem o preço em 70%, pois isso me cheira a escravidão. 

Caro leitor, não deixe de embebedar-se de água, livros ou paixão. Seres humanos  hidratados sentem o pulsar do coração. Somos água; somos vida. Lutemos para que nunca nos falte água!

Assista também: Ondas de calor e falta de chuva em Passo Fundo: https://globoplay.globo.com/v/13384313/

Autor: Alexandre Rosa Vieira. Também escreveu e publicou no site “Dezembro chegou”: www.neipies.com/dezembro-chegou/

Edição: A. R.

Autoridade docente na modernidade líquida[1]


Qual o futuro da escola e da docência numa cultura marcadamente consumista? É possível construir processo de autonomia na escola quando esta é invadida pela lógica de mercado? O professor tem diante de si um aluno que se compreende como indivíduo ou como consumidor, alguém que simplesmente obedece ou constrói processos de autonomia?

Modernidade líquida é a metáfora de Bauman (2010) para explicar e compreender a sociedade contemporânea. A modernidade, enquanto projeto, buscou a consolidação de uma sociedade estável, sólida, livre de desgraças e desvios, uma constituição perfeita da organização social. O horizonte moderno não realizado de um progresso linear para tudo, confirma que o projeto não terminou, mas ingressou numa outra fase, definida por Bauman (2010) como modernidade líquida, ou seja,“aquela forma emergente de vida, aquela forma que era moderna de uma maneira radicalmente diferente daquilo que havíamos testemunhado (e que havíamos participado) antes” (Bauman, 2010, p. 12).

Na modernidade líquida (Bauman, 2010), a educação passou a ser compreendida como uma antessala ao mercado de trabalho. Diversos países como explica Nussbaum (2015) tem orientado suas reformas educacionais em todos os níveis para o trabalho e de acordo com as habilidades profissionais, que não são de longo prazo, mas voltadas para a aprendizagem de hábitos para o tempo imediato. Esse fator também está diretamente ligado à descentralização da autoridade docente, haja vista que o professor acostumado a trabalhar numa perspectiva de uma educação para toda a vida depara-se com as exigências do mercado de uma aprendizagem ao longo da vida e que leve a mudanças constantes dos hábitos dos indivíduos. 

Nesse novo cenário educacional àquilo que era tido como “um corpus bem definido e logicamente congruente de destrezas e hábitos adquiridos, com a experiência que só o ‘longo tempo’ poderia fornecer, não é mais visto como vantagem no corrente sistema produtivo” (Almeida; Gomes; Bracht, 2009, p. 66). Isso significa que, os sujeitos precisam estar preparados para a flexibilidade, ou seja, saber abandonar com rapidez hábitos do presente para que haja adaptação imediata aos novos. As novas exigências do mercado, entretanto, colocam em xeque a própria necessidade do docente, pois “a formação profissional a curto prazo, orientada diretamente aos empregos e obtidas nos cursos flexíveis e em equipe de aprendizagens autodidatas, são muito mais atraentes do que a educação à moda antiga” (Almeida; Gomes; Bracht, 2009, p. 67, grifo nosso).

Desse modo, o docente, a escola e a universidade não possuem mais o saber “sagrado” a transmitir, já não são mais infalíveis e, por consequência, a relação com o conhecimento também muda diante dos projetos de caráter flexível e efêmero. Os alunos não devem apegar-se ao conhecimento, e muito menos seguir comportamentos por ele propostos, pois foi transformado em informação, e a velocidade com que as informações chegam e “somem” é enorme.

O próprio conhecimento torna-se descartável, passível de ser jogado fora e substituído. O conhecimento que é traduzido como informação “guarda relação com o hábito de tomar café: só é bom quando forte e quente, esfriando rapidamente antes que seu gosto possa ser saboreado e avaliado por completo” (Almeida; Gomes; Bracht, 2009, p. 68). Mas, o quê assume o lugar do conhecimento? E quem assume o lugar do professor?

Na modernidade líquida os conselheiros que apresentam várias possibilidades de seguir na vida são melhores quistos que o professor preocupado em oferecer uma única opção, já bastante congestionada. Esses conselheiros, na visão do Bauman (2010), sustentados pela sociedade de consumo, apresentam-se com mecanismos de sedução em substituição à repressão de outros tempos mais sólidos. O poder de repressão da escola moderna sólida é substituído pelo da sedução, pelas vias da sociedade de consumo e o docente já não possui tanta força de determinação e nem consegue seduzir. Os conselheiros, segundo Almeida, Gomes e Bracht (2009, p. 69 – grifo dos autores) “em suas interpretações do ‘bem viver’, oferecem àqueles que os procuram o saber fazer, ser ou viver, não ‘o saber’ que os professores da modernidade sólida pretendiam divulgar e eram bons em transmitir, de uma vez por todas, aos seus alunos”. A autoridade docente entra, desse modo, numa crise profunda com todos esses elementos, que provocaram na modernidade líquida o aparecimento de muitas outras fontes de autoridade.

Nesses novos tempos maleáveis e reconfigurados, a escola não é mais o único espaço de aprender e adquirir a cultura ideal e o professor não é mais a única autoridade para ensinar. A aquisição de conhecimentos, habilidades e atitudes está bastante pulverizada, vários agentes da sociedade educam, ensinam, treinam, preparam as pessoas.

Numa ótica de formação enraizada nos vários aspectos da vida humana, seria extremamente saudável que os vários espaços sociais educassem e ensinassem. Por outro lado, corre-se o risco de um relativismo extremo, onde tudo passa a contar como educação, como experiência formativa do ser humano. É por este viés, que Bauman (2010) alerta que os espaços da sociedade líquida, onde a todo o momento se aprende e desaprende, podem estar operando numa lógica mercantil que não necessariamente leve em consideração a complexidade do humano como o centro do processo formativo.

Talvez o ponto nevrálgico apontado por Bauman (2010), com relação à descentralização da autoridade docente, é que, as novas fontes de autoridade estão estreitamente orientadas pela dinâmica do mercado. Na modernidade líquida, o mundo do trabalho, importante espaço de construção da identidade humana e de formação, é substituído pelo artefato do mercado de trabalho “que agora toma a si o papel de juiz, de formulador de opinião, de verificador de valores, […], os intelectuais foram desalojados até na área que por vários séculos parecia constituir seu domínio monopolista de autoridade – a área da cultura em geral” (Bauman, 2010, p. 172). A antiga aliança dos intelectuais com o Estado ordenador, com capacidade de legitimar e universalizar o discurso sobre a verdade, o gosto, passou para o mercado e seu poder legislador de formador de opiniões e valores, bem como de critérios para o bem e para o mal, beleza e feiura, sucesso e fracasso dentre outros. Há de se considerar, entretanto, que no mercado não há um centro de poder único e nem existe a pretensão de criá-lo, pois o que define a hierarquia é a notoriedade e o quanto algo que é pronunciado é notado e seguido por outras pessoas: “falam de mim, logo existo!” (Almeida; Gomes; Bracht, 2009, p.70).

A já desacreditada autoridade docente em conduzir a lógica da aprendizagem, disputa sem muitas chances de vitória, com as sedutoras e atraentes mensagens dos novos famosos, artistas, esportistas, políticos, outsiders, enfim, dos chamados formadores de opinião. É bom recordar que estes atores induzem a formação de opinião, mas não necessariamente a construção e desenvolvimento do conhecimento, que é uma tarefa central do professor. 

Ocorre que, o docente, antes pertencente a um sistema escolar formal rígido e coletivo quanto a sua formação e estrutura, agora está diante da privatização dos processos de formação e sua subordinação ao mercado, ao trabalho e a múltiplas vozes que se auto intitulam autoridades dispostas a educar e tornar as pessoas mais felizes e bem-sucedidas. Tudo isso nos aponta que o slogan “educação para toda a vida” da modernidade sólida está em crise, juntamente com o ideal de autoridade docente gestado na escola moderno-sólida e, emerge assim, uma perspectiva de “educação ao longo da vida”, que em tempos moderno-líquidos exige novas reflexões acerca da autoridade docente. Sobre isso dedicar-se-á o próximo tópico.

Como bem descreveu Bauman (2010), da mesma forma que o discurso intelectual se deslocou da tarefa de legislar para a de interpretar, o discurso formativo da escola passou por consequências inesperadas, pois está frente a um imenso desafio existencial: como oferecer uma aprendizagem para toda a vida se a todo momento são exigidas novas habilidades, conhecimentos e atitudes em uma realidade de constantes transformações, literalmente em estado líquido contínuo? O que expomos até aqui não é nada empolgante para o sistema escolar e para o modelo de autoridade docente tradicional, já que, os conhecimentos são rapidamente desvalorizados e descartados; as biografias pessoais e projeções profissionais para o futuro atravessam profundas incertezas e inseguranças.

As instituições tradicionais como a escola e a universidade passam por lamaçais de precarização pelas reformas sociais e econômicas promovidas pelo mercado, que submetem os indivíduos à lógica do consumo globalizado.

Nesta trilha de problematização, outros questionamentos poderiam ser apresentados: qual o futuro da escola e da docência numa cultura marcadamente consumista? É possível construir processo de autonomia na escola quando esta é invadida pela lógica de mercado? O professor tem diante de si um aluno que se compreende como indivíduo ou como consumidor, alguém que simplesmente obedece ou constrói processos de autonomia? São questionamentos importantes que não podem ficar de fora do atual cenário que os professores encontram no cotidiano escolar. A compreensão conceitual destas problemáticas se torna importante para que nossas ações sejam conscientes e educativas. A educação não se faz com entusiasmo ingênuo ou com doses inflacionadas de otimismo descontextualizado. Processos educativos se fazem com lucidez, conhecimento e consciência da realidade que se apresenta. Tem essa lucidez fará toda diferença.

Para os que desejarem aprofundar a discussão deste texto indico o artigo completo: https://www.researchgate.net/publication/343448167_A_dialetica_entre_a_normatizacao_e_a_interpretacao_a_autoridade_docente_na_modernidade_liquida_de_Bauman

Referências:

ALMEIDA, Felipe Quintão; GOMES, Ivan Marcelo; BRACHT, Valter. Bauman e a Educação. Belo Horizonte: Autêntica. 2009. 

BAUMAN, Zygmunt. Legisladores e Intérpretes:sobre modernidade, pós-modernidade e intelectuais.Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.2010.

FÁVERO, Altair Alberto; CENTENARO, Junior Bufon. A autoridade docente na modernidade líquida. In: FÁVERO, Altair Alberto; TONIETO, Carina; CONSALTÉR, Evandro (orgs.). Leituras sobre Zygmunt Bauman e a Educação. Curitiba: CRV, 2019, p.81-99.

FÁVERO, Altair Alberto; CENTENARO, Junior Bufon. Dialética entre a normatização e a interpretação: a autoridade docente na modernidade líquida de Bauman. Educação em Questão, v.57, n.52, abr./jun., 2029. Disponível em: https://periodicos.ufrn.br/educacaoemquestao/article/view/15883

[1] Uma versão modificada deste texto foi publicada como parte de um artigo de Fávero e Centenaro (2029) que saiu na  e também em partes de uma artigo publicado na Revista Educação em Questão.

Autor: Altair Alberto Fávero – altairfavero@gmail.com Professor e Pesquisador do PPGEdu UPF. Este é a sua octagésima publicação no site. Também escreveu e publicou “Educação contra barbárie”: www.neipies.com/educacao-contra-a-barbarie/

Edição: A. R.

Ainda Estamos Aqui

O filme traz alento e fortalece o seguir dizendo “ainda estamos aqui” e seguiremos, aqui e em todos os lugares, em luta, para que a promessa alcance a realidade, as possibilidades se tornem efetivação… Badalado e premiado, o filme retoma um tema espinhoso, ainda que de um modo não tão duro: as violações de direitos humanos patrocinadas pelo regime militar brasileiro inaugurado há quase 61 anos.

Ainda estamos aqui”, dizem aquelas e aqueles que lutam por direitos humanos, uma luta que vem de longe, na ação militante como defensoras e defensores de direitos humanos, em diversas organizações, movimentos e iniciativas de luta. Sentiram um frescor no ar movimentado desde “Ainda estou aqui”, o filme.

Badalado e premiado, o filme retoma um tema espinhoso, ainda que de um modo não tão duro: as violações de direitos humanos patrocinadas pelo regime militar brasileiro inaugurado há quase 61 anos.

Em tempos de redes sociais, conseguiu resistir aos ataques da ultradireita. Rompeu um padrão militar brasileiro: o de converter toda crítica ao período militar a revanchismo. Está sendo visto como um revival da agenda antimilitares golpistas, de ontem, de hoje, de sempre. Aqueles mais entusiasmados até dizem que o filme teria destravado a agenda de denúncia dos crimes e dos criminosos, acreditando na possibilidade de reconsideração da lei da anistia, ou ao menos parte dela – como sugerem os encaminhamentos no Supremo Tribunal Federal… Aqueles ainda mais encorajados acreditam que teria ajudado a criar um clima favorável à denúncia do Procurador Geral da República contra vários militares – incluindo-se entre eles o ex-presidente – pela recente tentativa frustrada de golpe que culminou no 08 de janeiro de 2023. Nem tanto um e nem tanto outro, modestamente, se poderia dizer.

O filme certamente abriu um momento de valorização da defesa dos direitos humanos, do reconhecimento a defensoras e defensores de direitos humanos. Isso veio especialmente pelas manifestações de Fernanda Torres a este respeito na resposta que dá ao telefonema do Presidente da República, depois de laureada pelo Globo de Ouro.

Fernanda Torres disse que a vitória se dava: “Em nome da Eunice Paiva! Uma mulher defensora dos direitos humanos. É muito simbólico”. Mas, ainda que isso seja uma grande verdade, e é, seu impacto está longe de conseguir remover o entulho autoritário que marca estruturalmente a sociedade brasileira que, na sua maioria, continua achando que defensor de diretos humanos é “defensor de bandidos” – posição alimentada, aliás, exatamente pela ditadura militar.

O enredo do filme, dizem críticos, teria jogado a luta e a resistência à ditadura de um lugar costumeiramente político, típico de organizações (armadas ou não), para um lugar do afeto, a experiência familiar – de classe média alta, portanto, bem longe da típica família brasileira. Esta situação, para quem costuma ser engajado em roteiros mais politizados, pode ver na película uma certa despolitização. Mas, ela pode também ser vista como uma politização da experiência familiar, fugindo, por vários motivos, de ficar refém da captura conservadora de seu sentido e até da tipicidade de seu modelo, realçando a força feminina, realidade, inclusive, da maioria das famílias brasileiras, particularmente das mais pobres.

O reportar a experiência desde o âmbito familiar, de classe média, da zona sul carioca ou dos bairros aquinhoados de São Paulo, entre outros aspectos, pode colaborar para, mais uma vez, reforçar o lugar comum de não apresentar o quanto os pobres, os pretos e pretas, indígenas e camponeses, entre outros, teriam sido atingidos pela ditadura.

Sim, pode ser, mas é bom lembrar que esse talvez seja um problema não somente para diretores e roteiristas, talvez continue sendo uma falsa compreensão reiterada por vários setores progressistas e de esquerda da sociedade brasileira que, ou desconhecem, ou seguem não valorizando o impacto que a ditadura efetivamente gerou com força na vida popular.

Exagerando um pouco, tudo isso pode ter a ver com o fato de que os direitos humanos ainda não estão no cotidiano destas maiorias, à época e ainda hoje, produzindo um estranhamento das classes populares com os direitos humanos que, por vezes, alimenta sua desavisada aderência às posições ultraconservadoras a respeito.

Infelizmente, ainda que o filme tenha sido visto por mais de cinco milhões de pessoas e que muitas delas sejam jovens, certamente está longe de chegar às classes populares, periféricas e negativamente impactadas pela não realização cotidiana dos direitos humanos em suas vidas. Isso não torna o movimento gerado pelo filme de menor importância, somente indica o tamanho do desafio político-pedagógico que, tanto um produto audiovisual, quanto a dinâmica social e o próprio processo formal de educação ainda tem como tarefa a cumprir.

Um aplauso à valorização das lutas e dos lutadores e lutadoras de diretos humanos é fenomenal… mas, mais fenomenal ainda será quando já não for a violação e a violência o que dita o dia a dia de autodefesa nas comunidades populares e sim a proteção e garantia de todos os direitos para todas as pessoas, e mais enfaticamente ainda para aquelas que nunca sequer provaram de sua existência.

O filme traz alento e fortalece o seguir dizendo “ainda estamos aqui” e seguiremos, aqui e em todos os lugares, em luta, para que a promessa alcance a realidade, as possibilidades se tornem efetivação…  

Autor: Paulo César Carbonari, Doutor em Filosofia (Unisinos), membro da coordenação nacional do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH Brasil), associado da Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo (CDHPF). Também escreveu e publicou no site “Borrachas no passado, para tocar em frente, nunca mais”:  www.neipies.com/borrachas-no-passado-para-tocar-em-frente-nunca-mais/

Edição: A. R.

Mais professores sim, mais valorização também!

O programa Mais professores para o Brasil, lançado em janeiro pelo governo federal vai beneficiar 2,3 milhões de professores que devem impactar a qualidade do ensino ofertado a 47,3 milhões de estudantes.

Com risco real e eminente de apagão de professores em nível global, nacional e estadual, governos lançam programas como Professor do Amanhã, do governo do estado, e oMais Professores para o Brasil (MEC). As iniciativas, um pouco tardias, são louváveis, porém insuficientes para o tamanho do desafio da educação brasileira.

Apoiar a formação inicial de professores por meio de políticas e programas é necessário e, inclusive, no Brasil, deveria ser uma política pública e gratuita permanente. Porém, o apagão de professores possui causas mais profundas e estruturais, como: desvalorização social e profissional, destruição da carreira, baixos salários, contratos emergenciais e temporários, formação precária em EAD, restrição da liberdade de pensar e ensinar e incertezas de futuro.

O programa do Professor do Amanhã, do governo do RS, implementando em 2024, foi resultado de uma negociação de 11 Instituições Comunitárias de Ensino Superior (ICEs) que construíram a iniciativa com o governo gaúcho. No primeiro ano, ficou acordado: Mil bolsas em cursos de licenciatura em ICEs; R$ 800 mensais para o aluno como bolsa de permanência e mais R$ 800 mensais para a instituição como taxa acadêmica; Vigência das bolsas de quatro anos, a partir de 2024.  Para 2025, uma nova edição do programa prevê mais 500 bolsas integrais em cursos de licenciatura em cursos de Letras (Língua Portuguesa), Matemática, Geografia e História.

Já o Programa Mais Professores Para o Brasil, do governo federal, instituído pelo Decreto nº 12.358, de 14 de janeiro de 2025, também denominado Pé-de-Meia Licenciaturas, se propõe beneficiar até 2,3 milhões de professores e impactará a qualidade do ensino para 47,3 milhões de estudantes. O participante receberá mensalmente R$ 1.050 durante o período regular de integralização do curso.

O presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Heleno Araújo, afirma que “o que foi anunciado é pouco para uma mudança estrutural na valorização da nossa categoria. A fala do presidente Lula fez um diagnóstico preciso da nossa situação, quando ele relatou a dificuldade da nossa ida e volta à escola, o transporte, a violência no espaço escolar e a dificuldade do processo de formação”.

Especialistas da ONU convocados a compor Painel de Recomendações aos países recomendam a necessidade de aumentar o reconhecimento e a dignidade da profissão docente  mediante medidas como: fomentar e resgatar o status e a dignidade docente, por meio do respeito, confiança, diálogo social instituído e programas regulares de estudo e qualificação; que os/as docentes possam exercer o seu papel central de fomento às mudanças culturais da sociedade; atrair os/as jovens à profissão; garantir segurança ao exercício da profissão, fomentando o fim da violência, do assédio, das intimidações e ameaças; e, por fim, e talvez a mais contundente e importante Recomendação, que os governos eliminem as subcontratações de docentes em suas redes de ensino.

O programa Mais Professores tem por objetivo alertar a sociedade e os gestores públicos para a necessidade de valorizar o magistério da educação básica, porém, por si só, ainda se mostra insuficiente para mudar a realidade do dos professores que atuam na escola básica pública no Brasil. O desafio não se resume a apoiar a formação inicial e continuada dos professores, implica uma valorização estrutural da carreira e ampliação de investimentos.

De acordo com a pesquisa anual Education at a Glance, da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), o investimento per capita na educação básica brasileira é o terceiro pior entre os países em desenvolvimento e que possuem os melhores resultados no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa). Em 2023, o conjunto das redes públicas no Brasil investiu cerca de R$ 17,7 mil anuais por aluno, contra R$ 158,2 mil em Luxemburgo, R$ 103,9 na Suíça e R$ 99 mil na Bélgica. Como consequência direta do baixo investimento per capita na educação básica, o Brasil também se posiciona há décadas nas últimas colocações da pesquisa da OCDE em relação aos salários de professores que atuam no nível básico.

Programa Mais Professores para o Brasil orienta-se por um conjunto de princípios e objetivos relevantes, como: a melhoria da qualidade da educação; a cooperação entre os entes federativos; a superação das desigualdades educacionais e sociais; a valorização e a qualificação dos professores da educação básica e, o incentivo à carreira docente no Brasil. O problema que no Brasil é usual não implementar que a legislação estabelece e os gestores sequer são cobrados ou responsabilizados.

A cooperação entre os entes federados na implementação de políticas públicas de estado é outro desafio. A autonomia dos entes virou soberania e independência. No contexto da polarização política, cada município e estado sequem suas convicções sem cooperação efetiva. O Programa Escolas Cívico-militares e as Parcerias Público-Privadas (PPPs) são a evidência atual.

Além de um conjunto de diretrizes para o Mais Professores, o programa é estruturado em cinco eixos:

1) Seleção: a Prova Nacional Docente (PND) foi criada com o propósito de melhorar a qualidade da formação, estimular a realização de concursos públicos e induzir o aumento de professores nas redes públicas de ensino. Porém, estados e municípios estão reduzindo os ingressos por concursos públicos, contratando professores temporários e destruindo a carreira profissional docente.

Para a pesquisadora Darcilene Gomes (Fundaj) um dos principais problemas atualmente na educação pública e que afeta sobremaneira as perspectivas sobre a carreira docente é o expressivo percentual de professores com contratos temporários nas redes.“Em alguns estados, esse percentual alcança 80% dos professores atualmente em atividade, o que é um absurdo. Esses professores não conseguem ter qualquer previsibilidade sobre suas vidas, já que nada garante que estarão empregados no futuro. A remuneração também é um problema, pois os ganhos são bem menores e muitos sequer têm garantia do recebimento de 12 salários por ano”, criticou.

2) Atratividade: Neste programa o MEC criou o Pé-de-Meia Licenciaturas, um apoio financeiro para fomentar o ingresso, a permanência e a conclusão das licenciaturas. Neste programa Pé-de-Meia Licenciaturas, o participante receberá mensalmente R$ 1.050 durante o período regular de integralização do curso. Desse total, o estudante poderá sacar imediatamente R$ 700 e os outros R$ 350 serão depositados como poupança.

3) Alocação: a Bolsa Mais Professores dará apoio financeiro para incentivar o ingresso de docentes nas redes públicas de ensino da educação básica e aumentar a atuação em regiões com carência docente. O participante receberá uma bolsa mensal no valor de R$ 2.100, mais o salário do magistério, a ser pago pela rede de ensino a que estiver vinculado. Além disso, durante o período da bolsa, o professor cursará uma pós-graduação lato sensu com foco em docência.

4) Formação: para a formação de professores, o MEC criou um portal com informações centralizadas sobre cursos referentes às formações inicial e continuada, bem como às pós-graduações ofertadas pelo MEC e por instituições parceiras. A plataforma tem o objetivo de fortalecer o desenvolvimento profissional de acordo com o perfil do docente.

5) Valorização: o MEC também lançou ações junto a outros ministérios e bancos públicos para promover a valorização dos professores. Por meio de parceria com o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, serão disponibilizados benefícios exclusivos, como um cartão de crédito sem anuidade. Além disso, professores terão direito a descontos de até 10% em diárias de hotéis.

O Estado do RS O Estado do RS já deveria estar desenvolvendo uma política pública de Estado em conjunto com as Universidades Gaúchas (UERGS, Universidades Federais, os Institutos Federais e as Universidades Comunitária) que se constituem em um dos principais patrimônios culturais, científicos e educacionais do Estado. Programas pontuais e de governo possuem limites de tempo e universalidade.

Já o governo federal, especialmente o atual, que no passado recente (2003-2014) desenvolveu programas como Pibid, Residência Pedagógica Obeduc, Parfor e Prodocência, Prouni, Fies para licenciaturas, deveria retomá-los, aperfeiçoá-los, ampliá-los e financiá-los com a décima economia do mundo.

O Pibid conseguiu afirmar-se rapidamente, graças a recursos e bolsas que criaram compromissos imediatos de ação. Em poucos anos, o programa deu origem a muitas experiências, de grande significado, e um movimento que trouxe uma importante renovação da formação de professores. Este programa, em específico, foi reconhecimento em meios acadêmicos como uma das melhores políticas e experiências de formação de professores à nível global.

A desprofissionalização dos professores tem-se agravado nos últimos anos, devido a vários fatores, desde a manutenção de níveis salariais baixos e de difíceis condições nas escolas até a intensificação do trabalho docente por via de lógicas de burocratização e de controle do exercício da docência, interferindo no direito de ensinar e aprender tudo que é necessário e importante para vida.

 Leia também: www.neipies.com/quanto-vale-um-professor/

A descontinuidade de políticas públicas e programas não contribui para a formação inicial e continuada no nosso Brasil. Cumprir a legislação educacional vigente (CF, LDBN, PNE, Lei do Piso do magistério etc.) é muito mais importante que programas dos governos amparados em marcos legais (decretos) frágeis. Mais Professores no presente, no amanhã e no futuro passa por mais valorização da profissão docente, com: melhor carreira, melhores salários, mais respeito, melhor formação, mais liberdade de ensinar, mais dignidade e qualidade de vida hoje e no amanhã!

Fonte: Mais professores sim, mais valorização também

Autor: Gabriel Grabowski. Professor e pesquisador. Também escreveu e publicou no site “Novos e velhos desafios para educação em 2025”: www.neipies.com/novos-e-velhos-desafios-da-educacao-em-2025/

Edição: A. R.

Restrições ao uso do celular em sala de aula em debate. E fora dela, como os pais o utilizam?

Não podemos ter o celular apenas como um vilão. Se, por um lado, o bom uso traz vantagens que beneficiam a todos, seja na escola, no trabalho ou na vida de cada um, é preciso estar alerta ao uso indevido e eventuais prejuízos decorrentes.

É cada vez maior o número de países onde a utilização do telefone celular em sala de aula sofre restrições ou é proibida, e, no Brasil, o tema voltou à tona recentemente. E não é assunto novo, pois, desde o ano de 2015 tramita no Congresso Nacional um projeto de lei que proíbe o uso de celular e de tablet em salas de aula dos estabelecimentos de educação básica e superior.

Dados do “Relatório Global de Monitoramento da Educação 2023″, divulgado no final do mês de setembro pela Unesco, Organização da ONU para Educação, revelam que França, Itália, Finlândia, Holanda, México e Estados Unidos já proibiram o uso do celular ou de redes sociais nas escolas, e que um em cada quatro países do mundo tem leis que com igual finalidade. No Brasil, há proibições pontuais em alguns estados e municípios, mas que restringem-se às suas escolas, não atingindo, por exemplo, escolas particulares. Desta vez, uma lei em nível nacional irá normatizar para todas as escolas brasileiras, e, em todos os níveis.

Lei nº 15.100/2025 agora proíbe o uso de celulares e outros aparelhos eletrônicos em escolas públicas e privadas do Brasil. A lei foi sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 13 de janeiro de 2025. A lei proíbe uso de celulares em todo o ambiente escolar, inclusive recreio e intervalo entre as aulas. No entanto, o uso é permitido em situações excepcionais como emergências, necessidades de saúde e para fins pedagógicos. 

Levantamento do SUS mostrou que, no ano passado, a incidência de níveis elevados de ansiedade entre crianças superou a de adultos pela primeira vez, e, entre as causas, está o uso excessivo dos smartphones. 

Na Inglaterra, as escolas que baniram os celulares em salas de aula tiveram melhores resultados em exames nacionais de ensino, além do que, citado por professores, a perda de foco dos alunos, as distrações, a exposição a conteúdos sexuais e violentos e o aumento de casos de bullying on-line também diminuíram.

Poderíamos ampliar a gama de consequências que usos indevidos provocam: aumento de consumo de medicamentos em faixa etária muito jovem, alguns transtornos de aprendizagem, desestímulo à memorização e consequente ocorrência de “preguiça mental”, perturbações ao desenvolvimento de área motora ao substituir a escrita por fotos e prints de conteúdos escolares e muito mais.

Porém, não podemos ter o celular apenas como um vilão. Há pouco tempo, em meio à pandemia de Covid, foi por intermédio dele que milhares de alunos e de escolas puderam manter as atividades de ensino à distância. Se por um lado, o bom uso traz vantagens que beneficiam a todos, seja na escola, no trabalho ou na vida de cada um, é preciso estar alerta ao uso indevido e eventuais prejuízos decorrentes, e, para isto, há uma série de movimentos resultantes em estudos e pesquisas na internet. 

Há um questionamento que diz: “Você controla a tecnologia ou a tecnologia controla você?”

Se este é um desafio para adultos, imagine para crianças em seus primeiros contatos com o mundo fascinante dos smartphones. Porém, de pouco uso e desconhecida pela maioria de usuários, é a função “Bem estar digital e controle parentais” instaladas em aparelhos com tecnologia android e acessível a partir do ícone de configurações; para o IOS vá em “ajustes”. Ali, é possível monitorar quais os aplicativos mais utilizados e por quanto tempo, verificar sobre como está o uso em redes sociais, como pausar aplicativos quando atingirmos um tempo de uso (definido pelo próprio usuário), como reduzir interrupções, configurar modo de dormir e outras funções.

A minha proposta, caro leitor, é a de que você configure por um dia seu celular limitando o acesso a alguns aplicativos e, principalmente às redes sociais, para que ao final do dia possa analisar como foi a experiência. Só então, você terá condições de responder se controla ou é controlado pela tecnologia e vivenciar sobre o quanto é difícil abster-se do celular, e o mais importante: qual o seu grau de dependência, se é que há.

Poder conviver melhor com a tecnologia mantendo o foco no que realmente importa, ser capaz de se desconectar e alcançar um equilíbrio consciente entre a conectividade e a desconexão digital, tornam-se desafios para todos. A prioridade deve ser fazer com que os dispositivos e aplicativos que usamos diariamente estejam alinhados com nossas necessidades e façam parte de rotinas mais saudáveis, não nos expondo a prejuízos sociais, de aprendizagem ou de relacionamentos.

Agora, você já ouviu falar em nomofobia? Pois bem, trata-se de uma doença cada vez mais comum e pouco conhecida por este nome e caracterizada por quando você não consegue deixar o celular ou o computador de lado. Nestes casos, cuidado, você pode estar sofrendo de dependência do seu dispositivo eletrônico e os primeiros sintomas percebidos são estresse, depressão, tristeza, falta de sono e dificuldades em se relacionar. Em assim sendo, não espere o quadro agravar-se, procure ajuda, procure um psicólogo.

Recomendamos esta outra matéria sobre o assunto publicada recentemente no site: www.neipies.com/restricoes-do-uso-de-celulares-nas-escolas-o-que-pensam-professores-e-professoras/

Autor: César Augusto de Oliveira – psicólogo. Também escreveu e publicou no site “O mundo muda quando eu mudo…”: www.neipies.com/o-mundo-muda-quando-eu-mudo/

Edição: A. R.

O Sentido da vida é fazer sentido a outras vidas

Que a fé, firme e inabalável, seja o combustível que ilumina nosso caminho. Uma fé que não se fecha em templos, mas que transborda em ações. Porque o verdadeiro amor a Deus se revela no amor ao próximo.

Em Mateus 25, Jesus nos ensina o verdadeiro critério do amor: “Tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era estrangeiro, e me acolhestes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me”.

Não há sentido maior para a vida do que fazer sentido à vida do outro. Não se trata apenas de palavras ou boas intenções, mas de um compromisso ético, moral e humano de viver com empatia e partilha.

O caminho é simples e profundo: olhar cada pessoa como igual, sem superioridade, sem julgamentos. O verdadeiro valor está em estender a mão para quem caiu, ajudar a sair do buraco, e sentar-se ao lado para ouvir, mesmo quando a história não nos interessa ou o cheiro seja desagradável. Ser presença. Ser escuta. Ser abraço.

Estar pronto para incentivar, apoiar, e colaborar com quem enfrenta a escuridão da depressão. Muitas vezes, uma palavra amiga ou uma companhia silenciosa pode ser a faísca da esperança. O amor verdadeiro não calcula ganhos nem busca recompensas.

Envolver-se também é agir. A política não é apenas debate ou poder; é vida em comunidade, é escolha diária de que mundo queremos construir. Não basta dizer que se importa, é preciso lutar por igualdade e justiça. É defender a partilha, a inclusão e os direitos daqueles que são invisibilizados. E, se necessário, estar disposto até a perder privilégios para proteger quem mais precisa.

Contudo, agir com amor não é fechar os olhos à realidade, mas aprender a enxergá-la com discernimento. É fundamental buscar conhecimento, informar-se, e selecionar o que ouvimos e vemos, para não sermos presas do senso comum ou repetidores de bobagens e preconceitos. A verdade nem sempre está no discurso mais alto, mas na escuta atenta e crítica.

Além disso, respeitar a história de cada pessoa é reconhecer que ninguém é definido por um momento ou erro. Cada vida é um livro único, escrito com dores, sonhos e recomeços. E não cabe a nós julgar ou condenar. Como nos alerta Jesus, o julgamento precipitado nos torna IGUAIS ou PIORES do que aqueles que erraram. Devemos ouvir os dois lados, sempre com o coração aberto, sem alimentar ódio ou desejo de vingança.

Que a fé, firme e inabalável, seja o combustível que ilumina nosso caminho. Uma fé que não se fecha em templos, mas que transborda em ações. Porque o verdadeiro amor a Deus se revela no amor ao próximo.

Que, ao fim da nossa jornada, possamos ouvir: “Vinde, benditos de meu Pai… porque tive fome, e me destes de comer… Estava preso, e fostes ver-me”. E que o sentido de nossa vida seja esse: fazer sentido para outras vidas.

Autora: Vera Dalzotto. Também escreveu e publicou no site “Educação ou prisão: o futuro que devemos construir”: www.neipies.com/educacao-ou-prisao-o-futuro-que-escolhemos-construir/

Edição: A. R.

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