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Escolas, poder e democracia

[quote_box_right]Os homens constroem paredes demais e pontes de menos (D. Pire).[/quote_box_right]

A escola pública e democrática é hoje uma conquista institucionalizada mas, na prática, ainda está longe de ser realidade plenamente vivenciada na escola. A escolha democrática das direções escolares ainda não permitiu condições democráticas de organizar as escolas a partir de uma base curricular, de propostas pedagógicas, de metas e da organização do quadro dos professores (distribuição da carga horária e disciplinas). Há que se considerar ainda, por vezes, a forma autoritária como os gestores da educação organizam suas redes de ensino, sem o protagonismo da comunidade escolar e dos professores.

O exercício do poder democrático é um dever da escola e um legado que ela deve deixar para seus alunos e para a sociedade como um todo; esta é sua contribuição para a consolidação da democracia no Brasil.

A escola, lugar de significativas e distintas aprendizagens, é também um grande laboratório de exercício de poder. Cotidianamente, através das relações interpessoais, ela administra as suas tensões internas, fortemente influenciadas pelo poder externo (dos governos e da comunidade). E o professor, uma peça fundamental, nem sempre é considerado em sua dimensão de pessoa humana e de sujeito, portador de desejos, direitos e dignidade.

Além de sua estrutura administrativa, a escola é um lugar onde se constroem vínculos. Estes vínculos determinam a qualidade das relações entre professores, funcionários, equipe diretiva, alunos e pais. A maior diferença da escola pública, em relação às demais, reside no fato de sua gestão ser pública e democrática. Por isso mesmo, torna-se mais exigida e exigente para todos os que convivem nela. O professor, peça chave desta engrenagem, “deve ser um verdadeiro educador. Um mestre da vida e do saber.” (Maximiliano Menegolla).

Professores não são números. Professores são sujeitos, seres humanos, com suas opções pedagógicas e ideológicas. Aliás, o exercício de seu ofício não lhes permite neutralidade, pois a educação é, por natureza, um ato político. Suas práticas pedagógicas resultam de suas trajetórias pessoais, de seus compromissos com o ser humano e de seus conhecimentos e aperfeiçoamento profissional.

Algumas instituições de ensino público, por suas práticas contraditórias e autoritárias, minimizam o alcance e a importância das conquistas democráticas. É claro que exercitar cotidianamente a democracia, como se faz na escola, não é uma tarefa fácil. Por isso que, para muitos, ela não passa de verborragia. Para outros, incansável exercício, prática de inclusão e respeito a todos, mesmo enfrentando as contradições do discurso e da prática.

Espera-se dos diretores que serão eleitos competências técnicas, mas também que construam menos paredes e mais pontes . Que usem o poder que lhes foi delegado para valorizar e promover seus professores, com ampla participação de toda comunidade escolar. Como profetiza Menegolla, “o lugar onde o professor não é visto como pessoa, mas simplesmente como um profissional qualquer, deve ser chamado de pensionato, refeitório…, mas não chamem de escola, onde se educa e se ensina “.

O exercício do poder democrático é um dever da escola e um legado que ela deve deixar para seus alunos e para a sociedade como um todo; esta é sua contribuição para a consolidação da democracia no Brasil. Qualidade na educação será uma realidade quando tratarmos gente como gente deve ser tratada e quando tomarmos a democracia como a base de nossas vivências e relações. Qualidade de educação se mede pelo tipo de relações que acontecem entre todos os sujeitos da educação (alunos, professores, pais e comunidades que cercam a escola). Estas relações devem buscar a humanização de todos através do conhecimento. Tornar-nos seres humanos melhores é o nosso maior desafio!

Direitos humanos: tudo a ver com nossa vida!

[pull_quote_right]Como seres humanos a nossa grandeza reside não tanto em ser capazes de refazer o mundo… mas em sermos capazes de nos refazermos a nós mesmos. (Mahatma Gandhi)[/pull_quote_right]

O conceito de direitos humanos faz-se historicamente, assumindo diferentes abordagens e perspectivas, gerando diferentes posturas e compreensões. Nasce, contudo, a partir da consciência e necessidade de preservar a vida e tudo o que nela está imbricado. Ao longo dos tempos, o conceito foi sendo construído culturalmente como se os sujeitos destes direitos fossem os outros, aqueles que estão numa situação de extrema indignidade,  e nunca a gente (eu, você e nós). Há, então, a necessidade de compreender melhor o conceito de direitos humanos para que dele nos sintamos parte.

Sob o ponto de vista da compreensão histórica, os direitos humanos constituem-se a partir do reconhecimento, muito antes de constituírem faculdade de um ou de outrem. A defesa da vida, que também defesa da dignidade humana, engloba o que a humanidade, através de muita luta e conquista, reconheceu como direitos humanos. O que vem a ser dignidade humana? É difícil definir, mas entendemos quando ela falta a alguém (como aquilo que define a própria noção de humanidade, enquanto condições mínimas, básicas e elementares para sermos gente). O nosso cotidiano está repleto de infinitas realidades de indignidade, basta ativar a nossa sensibilidade e o nosso olhar.

A mesma cultura que nos fez acreditar que direitos humanos não são os nossos direitos de ser gente (de ser humano) também alimentou a falsa ideia de que, ao afirmamos os direitos das pessoas, estaríamos abrindo mão de seus deveres. Sempre nos foi dito, mesmo que não explicitamente, que temos mais deveres a serem cumpridos do que direitos a serem gozados, usufruídos. Muitas vezes entenderam-se direitos como privilégios de uma classe social, povo ou nação, em detrimento dos demais. Ocorre que, a cada direito que conquistamos, naturalmente, sem dizê-lo, está imbricado um dever. Direitos e deveres chegam juntos, não existem separados como muitos supõem.

Mas como criar identidade com direitos humanos? É preciso considerar a si mesmo e aos outros sujeitos de direitos, de liberdade, de dignidade: ao mesmo tempo diferentes e iguais uns em relação aos outros. O que todos temos em comum é que somos humanos e comungarmos das mesmas necessidades. Todos como eu e você são seres humanos, portadores de algo sagrado e inegociável: a vida da gente.

Desconhecemos outra maneira de mudar culturalmente conceitos ou ideias senão pela educação. A educação em direitos humanos significa educar para a democracia, oportunizando que os cidadãos tenham noção de seus direitos e deveres e que lutem por eles. É papel da escola, e da educação, contribuir para a compreensão do mundo, para uma melhor inserção nele. A cultura de direitos humanos promove condições em que ocorram a tolerância, o diálogo, a cidadania, a diversidade. Deve também permitir a liberdade de organização e luta aos grupos organizados em torno de seus direitos. Deve exigir um Estado protetor e promotor de direitos humanos, e não violador da vivência da cidadania e das liberdades. A consciência, quando transformada em luta (diária, cotidiana, permanente), é quem garantirá a exigibilidade de nossos direitos.

[quote_center]Educação em direitos humanos não é somente um conteúdo a ser ensinado, mas pressupõe, antes de tudo, a vivência de valores e atitudes que cultivem a preservação da vida, das singularidades e das diferenças. Para mudarmos atitudes e conceitos precisamos ser motivados, sensibilizados e estimulados a compreender o ser humano em suas diferentes situações e realidades.[/quote_center]

O reconhecimento de nossas diferenças e das múltiplas formas de ser, pensar e agir abrem horizontes para perceber e acolher a necessidade do outro. Eu, você e nós conquistaremos felicidade quando pudermos compartilhar vida plena, na humanidade que reside em cada um e cada uma de nós. Por isso mesmo, direitos humanos sempre tem a ver com a nossa vida.

Amante da natureza e da fotografia

Gerson Soares é fotografo autodidata, formado em Administração de Empresas. Em 2011 migrou de sua atuação em área administrativa para a fotografia, a convite do Grupo da Foto, ONG sem fins lucrativos que reúne fotógrafos profissionais e amadores de Passo Fundo. Esta entidade é um espaço de pesquisas e trocas sobre diferentes técnicas e linguagens fotográficas.

Trabalha em diversas áreas, mas explora principalmente a fotografia de natureza, em especial rios, campos e serras, registrando o que acredita que deve ser preservado para o futuro.

A nosso convite, escreveu e falou sobre a sua vida relacionada à fotografia e aos desafios que a vida e a natureza nos impõem. A sua relação com a fotografia de natureza, em especial os canions, está relacionada aos desafios do nosso cotidiano, em todas as áreas.

“Seja você um vendedor, um gerente ou empresário, precisa sempre se reinventar para continuar vivo no mundo globalizado. Na natureza e no trekking de montanha, esporte que se utiliza a caminhada para conhecer lugares, podemos encarar as dificuldades com muito mais serenidade. Ao superarmos as dificuldades que a montanha nos impõe, vamos criando uma força interior de “sobrevivência” e coragem que nos ajuda a superar dificuldades e crises também na vida cotidiana. A montanha nos dá uma perspectiva privilegiada da vida e nos ajuda a distinguir o essencial do não essencial, o medo real do medo do ego… Superar as reais dificuldades da montanha nos ajuda a perceber que aquele “medinho” de mudar de emprego, de mudar de cidade, de declarar-se para alguém, etc. não é nada diante da possibilidade de perder as oportunidades da vida (ou a própria vida).

Conhecemos aquela ideia de que faríamos isso ou aquilo se soubéssemos que temos apenas “x” dias de vida… Mas a verdade é que temos mesmo apenas “x” dias de vida para viver intensamente e fazer escolhas corajosas. O mundo é cheio de riscos que precisamos correr para que a vida valha a pena! Na montanha, como na vida, encontramos as dificuldades, desafios, medo, etc. Mas lá em cima é só você, não tem escape fácil, não tem muito como se refugiar de si mesmo (TV, vícios, depressão, etc), a não ser encarando e resolvendo os problemas. Afinal, a gente sempre quer voltar para casa íntegro!

Ao falar de montanhas, assim Gerson se declara:

Por isso as montanhas são uma escola de vida e por isso eu amo as montanhas! Todo montanhista de verdade já encarou um ou vários “perrengues” montanha acima (ou abaixo!): ficar sem água, ficar perdido por um tempo, tempestades, frio, escassez de alimento, dificuldade com o grupo, estafa física, etc. O risco calculado é parte inerente dessa atividade e temos que aprender a lidar com isso.

Gerson Soares publica suas imagens e produções fotográficas na página panoramio.com, como também nas redes sociais. Por sua parceria com a gente, passaremos a utilizar imagens captadas por sua câmara para ilustrar artigos ou crônicas de nossa autoria neste site.

Professores Nei e Eládio no Programa Literatura Local da TV Câmara

Em programa televisivo voltado à literatura local, Nei Alberto Pies, professor e ativista de direitos humanos, acompanhado por seu padrinho literário professor Eládio Vilmar Weschenfelder fala de sua história, dos seus desafios pessoais de leitor, professor e escritor. O apresentador Paulo Monteiro, apresentador do Programa Literatura Local, critico literário e escritor passofundense, membro da APL (Academia Passofundense de Letras) destacou a importância da literatura local e regional e os esforços para divulgação das obras literárias dos novos autores.

O autor pode revelar a sua história de leitura e escrita. Nei Alberto Pies contou que sua história de professor, ativista de direitos humanos e escritor é uma história de superação.

“Comecei escrevendo por necessidade. Como era muito gago e sofria muita discriminação por isso, achei um jeito de me tornar ‘bonito aos outros’, como ensinou Rubem Alves. Hoje, sinto-me um militante das lutas sociais e das palavras.”

Discorrendo sobre suas fontes de leitura e literatura, destacou autores como o educador Rubem Alves,o educador Paulo Freire e o escritor Eduardo Galeano. Falou ainda que os seus escritos, crônicas, precisam de jornal para que possam ser lidos e acessados permanentemente pois versam sobre questões do cotidiano.

Eládio Weschenfelder destacou que o escritor não nasce com o dom da escrita, mas é fruto de um aperfeiçoamento pessoal contínuo como leitor e escritor. Afirma que os palcos da vida do professor e escritor Nei Alberto Pies são a família, a escola, a sala de aula e agora o livro e também os espaços digitais como as redes sociais e a internet. “Nei é um lutador, um sujeito que luta com as palavras”.

O autor insiste muito no reconhecimento e na humanização, sempre feitas em função e em razão dos outros. “Os outros é que nos reconhecem. Os outros é que nos dizem quem somos, por isso é importante reconhecer que a nossa história é feita de muita gente.” Conclui dizendo ainda que os filhos, assim como os textos e reflexões sempre são feitos para o mundo, por isso não teme que sejam lidos, criticados e espalhados pelo mundo.

A fé que nos move – Sérgio A. Sardi

Sentir-se intensamente aqui e agora. Tão somente sentir-se aqui e agora, em vertiginosa, gradativa e tensa proximidade daquilo que a palavra existência ousa apontar, mas jamais esgota. Desvelando, em camadas, a senda de uma iniciação guiada pelo desejo de um contato, em si, indizível e, de todo, inalcançável. Aqui e agora é mistério irredutível. Habitamos o mistério. E, em envolvimento meditativo, o reinstauramos no cerne de nossa morada. O mistério de ser e estar aqui e agora é espelho que invade o mistério do viver. E se dobra sobre a nossa presença diante do Ser, atravessando-nos ao impregnar cada ente e aspecto daquilo que, no limite da sensibilidade, indicia a inusitada instauração de um sentir e pensar que transborda.

Escute. Há silêncio no derredor, em toda parte; e há, sim, um silêncio maior. Que se distende a partir deste. Escute o próprio viver. Há um sentir em transcendência vívida, primária, e que permanece aquém e além de qualquer possibilidade de ser subsumida pela palavra. A condição mistérica do humano é conhecimento que não necessita de razões, mesmo que as razões e conceitos e todas as lógicas possíveis possam adquirir a potência de adentrar e, com isso, expandir o silêncio em direção ao inesperadamente belo. Pois toda indagação ou resposta sobre o viver deve ser vivencialmente bela e intensa para ter sentido. A potência da palavra está, pois, em remeter para além de si mesma. A significação primeira que se produz diante do aqui e agora é perpassada por uma experiência silenciosamente humana. Pois há algo a escutar, mas que é de todo indizível.

A segunda transcendência tem início no ser visto. O olhar do outro é o espaço mais íntimo da morada no Ser. Um olhar que possui, um estar fora de si; e um ver-se a partir de fora de si mesmo. Paradoxo no qual a alteridade plena do rosto indicia derradeira proximidade. Assim conduz cada um, solitariamente, a saber-se partícipe da Vida. E a nos reconhecermos como rosto para outrem, diante do fora infinito de cada outra vida. Quando, então, o sentimento eu torna-se interminavelmente replicado em cada eu: um mesmo sentir, um mesmo Viver em múltiplas faces. Eis vertigem e sentido. E um caminho a ser reiniciado a cada encontro. A segunda transcendência é mistério no seio do mistério do aqui e agora.

Sentir a responsabilidade de estar sendo, de existir, e desejar responder à altura a tal gratuidade. Eis um caminho a ser potencialmente reinventado em cada ser humano no percurso da construção de sentido de sua vida. Mas, sentir o mistério do outro distende essa responsabilidade, pois agora se trata do sentido da nossa vida. Quando, então, a compaixão para com a humanidade é mediada por cada rosto que se aproxima. Eis a ética, como desejo, meditação e contemplação, em seu nascedouro humano.

Compaixão é este ato através do qual o pôr-se em presença do outro é partilha do mistério, em distante proximidade infinita, e que incita a transmutar a própria vida ao máximo que é possível ofertar de belo à vida do outro. O desejo de uma vida a transformar. Uma responsabilidade humildemente ofertada, no limite de nossas forças. A força motriz de uma estética da existência.

Há silêncio a dizer. E um silêncio último, de todo indizível, a escutar.

Ci-da-de mágica!?

Uma cidade linda! Tudo brilha, tudo é tomado de cores, cheiros e sabores. A cidade tem luz e alegria para todos, bebês que são tesouros, farmácias em todas as casas, educação que transforma o mundo. Obras e inovações não param de ser anunciadas!

Não é maravilhosa? Ninguém triste e nem doente, ninguém reclama saúde, educação, segurança e moradia. Todos os problemas de ontem parecem estar resolvidos hoje ou, no máximo, amanhã de manhã.

Precisaram passar 150 anos para esta cidade despertar! Cidade mágica possui um líder que brilha e fala maravilhas. Possui boa oratória e a mídia gosta dele.

Cidade mágica constrói shoppings e abre muitas farmácias. Abre cursos de medicina, mas fecha livrarias, bares, cafés e cinemas. Não tem calçadão e nem um grande parque para sua gente caminhar, andar de bicicleta, fazer piquenique, admirar a natureza e o ruído e barulho dos pássaros.

Ciclistas e pedestres descobriram a maravilha de caminhar e andar, mas o espaço para estes fins precisa ser compartilhado e é muito pequeno. Nesta mágica cidade realizam-se eventos culturais, de literatura, de folclore e grandes schows musicais. Quem pode pagar apenas assiste, e gosta!

A cidade é apenas mágica, mas alguns a pretendem cosmopolita. Com muita insistência, escondem o jeito provinciano de ser. Do amanhecer ao anoitecer, a cidade é sonorizada com o cantar seresteiro de um importante pássaro brasileiro. “Cidade inteira fica muda ao seu cantar, tudo se cala para ouvir sua canção”.

Magias são criadas e impulsionadas pelo glamour do marketing e das propagandas: sempre lindas, coloridas, sofisticadas, mágicas. Estas vendem mundos que contrastam com a dureza e as lutas cotidianas do povo que escolheu esta cidade para viver e morar. A magia rege um espetáculo de uma vida irreal. Tudo o que é anunciado fica como se já estivesse feito, há muito tempo. Os verdadeiros artistas do espetáculo cotidiano de vida e de trabalho tornaram-se sujeitos passivos e coadjuvantes.

Vamos embora, minha gente, que a cidade precisa de espetáculos! Neste contexto singular de uma cidade mágica, os problemas da vida real são manipulados, maquiados e esquecidos. É duro demais acordar, todas as manhãs, sem poções mágicas! Viva os espetáculos! A vida, que espere um pouco mais!

Uma dúvida paira no ar: até quando os habitantes desta ci-da-de suportarão as ilusões, os espetáculos e as magias que não consideram a vida como ela é?

[quote_box_left]Nota de advertência: esta cidade mágica existe e afirma-se cada vez mais como indutora do desenvolvimento da grande região do Planalto Médio do RS. É também orgulho para todas as pessoas que moram aqui.[/quote_box_left]

Professores que escrevem

Somos dois professores da rede municipal de Passo Fundo e da rede estadual da região que “brigam com as letras”. Eu, Nei Alberto Pies, escrevo crônicas. André Rossi Canals escreve contos. Desde que nos descobrimos escritores e com livros editados em 2014, estamos em campanha pela divulgação de nossos livros, mas, principalmente, motivando mais colegas professores e professoras para que escrevam e publiquem suas construções e reflexões, literárias ou não.

Enquanto não escrevemos, outros profissionais, das mais diferentes áreas do conhecimento, dizem como deve ser a educação. Uma das formas de valorizarmos nossa profissão é também manifestarmos publicamente o que pensamos, o que acreditamos e o que fazemos por nossas escolas públicas.

Acreditamos que a valorização dos professores também passa pelo exercício da leitura e da escrita. Para darmos conta da complexidade do aprender e do ensinar contemporâneos, a literatura poderá ser a nossa grande aliada. Um professor que lê e que escreve sempre será um profissional diferenciado.

Rubem Alves, um grande educador

O educador Rubem Alves foi um grande pensador. Para mim, como para outros tantos professores e professoras, continua sendo uma referência contemporânea no exercício cotidiano do ensinar e do aprender. Neste seu depoimento, fala de forma singela e clara de que precisamos nos referir à vida dos jovens, para ajudar a orientá-los em suas escolhas. Como explica, ele mesmo só chegou onde chegou porque tudo deu errado.

“Ensinar é um exercício de imortalidade.
A gente ensina e continua a viver naquele que ensinamos”.
(Rubem Alves)

Não há fórmulas que levem ao sucesso ou às conquistas de nossa vida e de nossas coisas. O exercício cotidiano de escolher e de se desafiar a buscar aquilo que nos realiza é o que determinará onde chegaremos.

Os jovens de hoje perderam a noção de tempo e de espera. Os jovens têm dificuldades de arquitetar seus sonhos e seus objetivos porque o mundo os iludiu como se tudo já estivesse pronto. A sociedade os educou para serem bons consumidores e não bons sonhadores. É por isso que eles imaginam que determinadas pessoas conquistaram sua posição ou reconhecimento por força de fórmulas ou receituários, aplicáveis para todo mundo.

Os professores podem cumprir com o papel de desconstruir este universo de ilusões que tanto decepciona e atormenta os jovens no atual momento histórico.

A filosofia como educação espiritual

As ideias que efetivamente nos movem são aquelas que se tornam mais que tão somente palavras ou enunciados. Elas impregnam os nossos sentimentos. São vivenciadas. Só por isso sustentam a possibilidade da construção de um sentido maior às nossas existências. Um sentido para além do comum, cujo desejo nasce de um gesto radical: amar a existência a tal ponto que não é mais possível passar por ela sem adentrar aquilo que a torna profundamente significativa. Desejar a vida no maior grau possível de nossas forças: eis o ponto de partida, a fonte que faz do amor o nascedouro da coragem espiritual de perscrutar os limites da linguagem e do conhecimento. Para que faça sentido viver e participar da Vida.

A filosofia, no decorrer da história, tornou-se uma forma de denominar esse desejo. É a única área do saber que contém em sua denominação um sentimento: o amor à sabedoria. Mas não há amor efetivo, nem sequer sabedoria, à parte de um profundo compromisso com a Vida. Tal atitude é inseparável do acolhimento do mistério. Pois basta sentir radicalmente a própria existência para estar em contato com o mistério, com o indizível, com a beleza transbordante do real, e com a Vida da vida. O mistério é simultaneamente fonte e horizonte onde razão, sensibilidade e religiosidade se conjugam no trabalho a cada dia renovado de tornar bela e significativa a existência. Mas não há sentido em ser feliz sozinho. O desejo de felicidade nos move ao encontro do outro. E, com isso, o amor se torna ação.

[quote_center] A filosofia é ato de amor que quer atingir, por via da linguagem, aquilo que se põe à base da significação de todo dizer, e é em si indizível. O filosofar pode ser então concebido como o percurso no qual a palavra dispõe o inefável e o inefável repõe a palavra, agora como criação. E a religiosidade como o ato pelo qual o inefável fala por si só. [/quote_center]

Em seu profundo silêncio o viver anuncia o mistério da existência. E esse silêncio, em sua infindável novidade, convida-nos a adentrá-lo, a reinaugurá-lo– sempre de formas inesperadas –, o que pode exigir um longo percurso pela palavra até alcançarmos o ponto em os significados não se encontram mais nas palavras, embora sejam disponibilizados por elas. A filosofia é ato de amor que quer atingir, por via da linguagem, aquilo que se põe à base da significação de todo dizer, e é em si indizível. O filosofar pode ser então concebido como o percurso no qual a palavra dispõe o inefável e o inefável repõe a palavra, agora como criação. E a religiosidade como o ato pelo qual o inefável fala por si só. Eis um caminho para a educação da vontade, da liberdade, da razão, e da nossa humanidade. Um percurso no qual a unidade entre fé e razão nos informa acerca da nossa condição humana, pois apenas assim se tornam humanas as ideias. Fé e razão estão em contínuo diálogo. Contemplação e ação fazem contraponto na construção de sentido. Conhecimento e gratidão se conjugam no amor e na conduta orientada pela compaixão.

Em busca da Vida da vida cabe a cada um a escuta da pertença que o mistério das nossas existências anuncia. Pois o mistério é uma resposta. Uma resposta infinita, e que ecoa do silêncio, tecida de uma beleza tal que requer, que exige a partilha para ser efetivamente vivida. E é possível sentir essa resposta na própria existência. É possível também refletir sobre ela. Para reinaugurar o viver a cada dia, a cada momento, em cada gesto e pensamento.

Não há como separa o amor à Vida do amor a cada vida. E não há como separar o conhecimento do mundo da finalidade humana desse conhecimento. Sendo assim, o conhecimento do conhecimento, enquanto reflexão sobre a finalidade humana do conhecimento, não poderia ter outra origem que a nossa própria condição. Mas essa condição é a de nos sabermos imersos no mistério. Este é um saber profundamente humano. A fé que nos move e mantém. E a razão que torna possível, ainda hoje e amanhã, renovar o sentido.

Conhecer se torna então indissociável do compromisso a que cada um foi conduzido por amar a tal ponto a existência. Pois o desejo de conhecer se torna um com o desejo de aumentar-se em sua potência de amar e agir. De amar para agir e de agir por amor. E encontrar-se ao dar a sua própria existência de presente a mais alguém, à humanidade, fazendo jus ao presente imenso de estar aqui, neste planeta, participando da Vida.

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