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Ideias são lentes? – Sérgio Augusto Sardi

Há algo de estranho e admirável no mundo. Pensar, por exemplo, que tudo poderia simplesmente não existir, ou que sequer sabemos o que somos, para onde vamos e qual o sentido de tudo… pode até causar vertigens. Pois, são muitas, e são decisivas as perguntas que surgem quando indagamos o sentido último de tudo o que nos cerca.

Começa, aqui, uma singular experiência do pensamento, a Filosofia, caminho trilhado desde a Grécia Antiga, ou ainda antes. Mas, além de um começo na história, esse despertar está em cada um que vivencia a mudança de percepção da realidade que as questões filosóficas evocam. Assim como os gregos, um dia começamos a refletir sobre os mitos que narram as origens, os porquês e a finalidade de tudo. Como eles, passamos a estranhar aquilo que pensávamos ser trivial, a duvidar do óbvio e a buscar as razões das nossas perguntas e respostas.

O mundo atual seria impensável sem o legado de pensadores gregos como Sócrates, Platão e Aristóteles. Suas lentes ainda hoje são importantes para compreendermos nosso mundo em ligeiras e significativas mudanças.

Tudo se transforma?

Qual o problema que moveu os primeiros filósofos? Quais foram as lentes que eles utilizaram para ver e interpretar o mundo? Eles se deram conta de algo surpreendente: tudo muda, tudo está constantemente deixando de ser o que era para vir a ser outra coisa. Nada permanece igual, nem sequer eu, ou você! Eis que surge o outro lado da questão: se tudo está em transformação, como é possível que o mundo, ou cada um de nós, continue a ser, de certo modo, o mesmo?

Deve haver algo, pensaram os gregos, que permanece idêntico, no fundo de tudo o que se transforma. Um princípio de estabilidade e unidade, apesar da multiplicidade e da mutação incessante de todas as coisas.

Tales e Anaxímenes, no século VI a.C., buscaram esse princípio no âmbito do visível. Julgaram ser algum tipo de matéria, como a água, ou o ar, que se transformaria naquilo que observamos na natureza, podendo voltar a ser o que era. Porém, outro pensador, Heráclito, seguiu um caminho diverso, propondo que a ordem do mundo estava no próprio vir a ser contínuo de todas as coisas. Seria preciso ir além, e filósofos como Pitágoras e Parmênides, dentre outros, pensaram a estabilidade e a unidade do mundo a partir do invisível, chegando aos números e ao Ser como princípios. Inauguraram, com isso, outro problema: o das relações entre conhecimento e realidade. A busca prosseguiu com Demócrito e Leucipo, no século V a.C., que conceberam partículas indivisíveis, os átomos, a sustentar a existência do mundo, uma ideia bastante familiar aos dias atuais.

O que é a verdade?

Algo começou a mudar quando Sócrates, nas ruas de Atenas, passou a interrogar àqueles que diziam conhecer a verdade, até que se dessem conta de que, no fundo, não a conheciam. Ele mesmo dizia saber apenas que nada sabia. Livre de preconceitos, cada um poderia fazer nascer, em sua interioridade, novas ideias. Pois só começamos a filosofar quando percebemos que somos aprendizes do aprender, e passamos a pensar sobre como pensamos. Com Sócrates, foi o próprio homem o motivo de admiração e reflexão filosófica.

Platão retratou, em diálogos, este método de educação de Sócrates, a maiêutica, assim como sua vida. Em “O banquete”, disse que a sabedoria não pertence ao ser humano, pois é algo divino, mas é preciso continuar a buscá-la, ser “amigo da sabedoria”, ou seja, filósofo. Ele se voltou, então, contra a relação utilitária com o discurso e o conhecimento que alguns sofistas representavam. Eles eram homens que diziam poder defender igualmente teses contrárias, dependendo dos interesses em jogo. Para tanto, buscavam iludir, distorcendo argumentos e promovendo uma luta verbal. Assim, Platão passou a sua vida buscando distinguir as aparências da realidade. Mas, para isso, precisou refletir sobre a totalidade do mundo e do conhecimento humano.

Platão, assim como Aristóteles, que foi seu discípulo, concebeu o mundo como um sistema, algo como uma pirâmide de ideias ou conceitos, onde, no topo, ou princípio, deveriam estar aqueles que abrangessem a realidade como um todo, conferindo unidade e estabilidade ao real. Na base, as coisas múltiplas e mutáveis que nos cercam. Discordaram, porém, sobre a relação entre essas ideias e o mundo.

Aristóteles vai além, desenvolvendo a Lógica e os fundamentos das ciências, como, por exemplo, a Física. De fato, o mundo atual seria impensável sem o legado destes pensadores.

A escola só serve para ensinar conteúdos? – Sueli Gehlen Frosi

A escola para muitos é lugar de aprender as várias disciplinas obrigatórias, submeter os estudantes a provas de conhecimento e aprovar os que aprenderam e reprovar os que não. É um conjunto arquitetônico pensado para a vigilância, para a promoção da disciplina, com o intuito de que a norma seja respeitada.

Historicamente preferimos silenciar acerca da sexualidade infantil. Negamos essa dimensão como se as crianças não fossem seres que tentam descobrir o próprio corpo e, com isso, descobrem que são dotados de características sexuais, que os diferenciam uns dos outros. São, em essência, seres desejantes, desde bebezinhos.

A criança entra para a escola por inteiro. Ela não deixa a sua sexualidade em casa, nem cala suas descobertas. A observação da vida é um aprendizado ininterrupto, que tem o mundo físico como laboratório, por isso a convivência com os amigos e colegas é pautada pela vivência da sexualidade. Todo o comportamento humano é perpassado pela sexualidade, o que na infância e na adolescência é algo pulsante e revelador.

O corpo transmite visões de mundo. Consegue-se detectar as relações que as crianças têm com o próprio corpo, que podem ser de vergonha, de inadequação, de constatação de que é admirado, olhado, enfrentado. Sabendo-se disso, deve-se perguntar como algo tão forte e importante não é objeto de estudo aprofundado por parte dos professores e professoras, como o Estado se mantém neutro frente a tantos conflitos, preconceitos e violência dentro das escolas, em grande parte por causa de problemas de gênero.

A dimensão social e coletiva é vivida fora da família, motivo pelo qual é tão importante que a escola esteja preparada para acolher a questões tão delicadas e determinantes para a saúde e integralidade da pessoa como a sexualidade.

Cuidar de todas as dimensões humanas deveria ser a mola propulsora de todas as escolas e dos que elaboram Planos Nacionais, Estaduais e Municipais de Educação. Chamar de ideologia o cuidado com as questões de gênero revela a concepção ultrapassada de que nascemos prontos e que podemos pensar como sempre foi pensado, que devemos obedecer a normas cegamente, que não devemos questionar um modelo falido, mas que nos dá o poder de vigiar, controlar, perpetuar – agora sim – ideologias. Ao invés de nos comportarmos de forma anacrônica, podemos ajudar as crianças a pensar sobre si e sobre o outro de forma cuidadosa, identificando e respeitando as diferenças.

A família passa as informações primárias sobre sexualidade, na medida em que produz situações de amamentação, parto, gravidez, contracepção e, importante, fala sobre esses assuntos. Ela tem a prerrogativa primeira de educar para a sexualidade e o cuidado pessoal. Mas a dimensão social e coletiva é vivida fora da família, motivo pelo qual é tão importante que a escola esteja preparada para acolher a questões tão delicadas e determinantes para a saúde das pessoas.

O silêncio da escola nas questões de gênero reproduz o medo que temos de problematizar a realidade. As questões de gênero são algo profundo e abrangente. Espera-se que o Estado esteja atento a isso e que a academia forme profissionais da educação capazes de discutir, acolher e pacificar os muitos conflitos e mal entendidos que ainda ofuscam a beleza da sexualidade humana.

Deve ser uma beleza reproduzir conhecimento que já não atende às exigências atuais! Agindo sempre igual não precisamos nos preocupar em pensar, nem em tomar decisões próprias. Podemos nos limitar a lembrar com saudade de como fomos criados, de como nossos avós foram criados e de como alguns livros tratam de todos os assuntos, como se não houvesse necessidade de atualização, nem adequação aos rumos de uma sociedade que se reinventa todos os dias. A escola, para além dos conteúdos formais, pode servir como um grande laboratório para conceber e compreender a vida integralmente.

Reino encantado de Luzé

Num reino encantado, bem longe daqui, mas perto de Susa, reina Luzé. Luzé de luz com muito brilho. O rei tem estranha mania de tocar e intervir em tudo. Onde toca e intervém, joga suas luzes e seus brilhos. Alimenta a ilusão de que reina sobre tudo e sobre todos. Tem pretensão de sempre ser paparicado e exaltado, mesmo quando seus feitos não são os mais acertados e apropriados.

Seu reino é encantado, mas os encantos não afastam as contradições. Luzé considera-se sempre o mais esperto e o mais astuto de todos os reis.  Luzé conta, solidariamente, com contribuições bem medidas e intencionadas de três importantes súditos: Matzu, Zimbá e Neco. Junto com eles, organiza um complexo círculo de governança e de poder. Matzu, um obstinado por frações de poder. Zimbá, um oportunista de plantão. Neco, o mais fiel defensor e escudeiro.

Nenhuma mulher é uma referência em seu reino. Luzé faz questão de estar rodeado de mulheres, ocupando espaços de poder e dividindo responsabilidades. Todavia, sempre em funções bem subordinadas a ele. As mulheres lhe servem na resolução dos maiores problemas, dadas suas capacidades intelectivas e intuitivas.

Luzé sabe que todo reinado corre riscos. Para tanto, deseja imprimir, sem perder tempo, sua grande marca: ocupar todos os espaços físicos para garantir-lhe uma importância relevante. Deseja constituir espaços determinados para o lazer, entretenimento e a diversão do povo. Pretende ainda doar outros espaços para novos empreendimentos para gente influente de seu reino. O rei Luzé tem certeza de que o brilhantismo de suas ideias sempre será maior do que todas as vozes críticas que sobrevivem no seu reino, quase sempre combatidas por sutis mecanismos.

Nesta sua tentativa de ocupar a cidade e dar-lhe novos significados e novas roupagens, vale-se da influência de seus mais importantes súditos. Para realizar seus desejos impetuosos, Luzé faz alianças programáticas com o líder Matzu. Como é jovem, Matzu joga com sua força, sua oratória e jovialidade para impressionar tanto o rei e seus admiradores. Ele até tenta, mas não consegue esconder o desejo de, mais tarde, ser recompensado com um espaço mais privilegiado de poder no reino.  Desejaria, um dia, ser apresentado com grandeza e em praça pública aos súditos e governados pelo rei, como também fora o desejo de Amã, súdito do rei Assuero.

Zimbá é outro líder que colabora significativamente com o rei Luzé. Zimbá é líder de um grupo de governados que mantém os serviços essenciais do reino: educação, saúde, segurança, trânsito, habitação, tributação e pequenas obras. Para muitos deles, nunca inspirou muita confiança. Até bem pouco tempo atrás, declarava-se ferrenho questionador das obras do rei. Contudo, resolveu aliar-se em troca de futuras benesses.

Neco, como todo fiel escudeiro, é sempre firme e fiel ao rei. No passado, alimentava indignação e rebeldia. Para quem o conhecia há mais tempo, passa a impressão de que Neco transformou o vigor das suas rebeldias juvenis em defesas sempre coloquiais, seguras e certeiras em defesa de todas as iniciativas do rei. Talvez, por isso mesmo, o rei não precise nem mesmo de defesas de outros súditos, que lhe são mais próximos.

Com tanto sucesso nesta sua engenhosa forma de governar, o rei Luzé se sente cada vez mais mimado e querido por todos os seus súditos e governados. Quando aparece, mostra sempre um sorriso bem aberto, fácil. Sempre impressiona pela desenvoltura da chegada, pelo calor quase excessivo dos abraços, pelos acenos insistentes e pelos discursos empolgantes.

Contaram que já há súditos e governados que desconfiam dos verdadeiros propósitos do rei Luzé. Preocupam-se os desejos impetuosos do rei que trata de esconder a realidade para seus governados para fins de se perpetuar no poder. Muitos destes já leram O Livro de Ester. Sabem que em todo o reino precisa haver um Mardoqueu e uma Ester para que o poder possa estar a serviço da justiça e não a serviço das vaidades e interesses pessoais de quem quer que seja. Desejariam até mudar de reinado, mas ainda estão órfãos de um líder que represente seus desejos de mudança.

Espetáculos maniqueístas

[quote_box_right]Sei que em todas as multidões há quem sequer saiba por que esta lá e que o direito à manifestação é algo necessário e sagrado. (Sueli Ghelen Frosi)[/quote_box_right]
Vivemos espetáculos e somos midiáticos. Sem escrúpulos e sem vergonha, exibimos, instintivamente, o melhor do que carregamos, do que somos ou do que temos. Vimos, assistimos e acessamos – pelas mídias e redes sociais – conteúdos que não agregam os brasileiros no combate à corrupção como um dever cívico, permanente e sóbrio, respeitando os poderes constituídos e os regramentos da nossa Constituição Federal.  Nas mais recentes manifestações de rua pelo Brasil afora, em agosto de 2015, novamente assistimos alguns excessos e radicalismos dos que pretendem apontar mudanças para o país.

Ódio, raiva, estupidez, violência, despudor, arrogância e superioridade marcaram muitas manifestações públicas e midiáticas por este Brasil afora, mas sempre demarcando serem de “pessoas do Bem”.

[quote_box_center]“Que triste espetáculo proporcionamos para o mundo! Quero pelo menos alguns metros de distância das pessoas “de bem” que formam a massa crítica atual. Sei que em todas as multidões há quem sequer sabe porque esta lá e que o direito à manifestação é algo necessário e sagrado. Mas é preocupante convivermos com a maldade explicitada nas ruas, na medida em que se pede sangue, se legitima chacinas e enforcamentos. Estou muito mais assustada do que envergonhada. Você não?” (Sueli Ghelen Frosi)[/quote_box_center]

Acredito que o bem e o mal não estão personificados em determinados grupos ou pessoas. Por isso, preciso indagar: a) Quem não quis, não concorda ou não se manifestou é uma pessoa do Mal? b) Pode o Bem estar “encarnado” em alguém ou num grupo de pessoas? c) Combater a corrupção passa, necessariamente, por afirmar um coletivo do Bem? d) Os brasileiros já decidiram que a corrupção é um problema suficientemente sério para ser levado a sério, até as últimas consequências e em todas as instâncias e instituições?

Estou lendo a obra O maniqueísmo em nossas vidas: a bondade dos maus e a maldade dos bons, do autor Jorge A. Salton, Editora Movimento, lançada no dia 15 de agosto de 2015, em Porto Alegre. O autor joga luzes ao momento histórico que vivemos no Brasil. Em sua introdução, o autor afirma:

O pensar maniqueísta, a divisão entre nós, os bons e eles os maus, é sinal patognomônico do surgimento da maldade – no sentido de sinal ou sintoma que por si só afirma a presença de algo. Ao dissecar o fenômeno, encontraremos, em sua base, o reducionismo, a generalização, a dogmatização, uma forma de pensar que, a partir de uma suspeita qualquer, já salta para a conclusão, a ausência de autocrítica, a inexistência de empatia e a necessidade de inimigos.

O livro sobre o maniqueísmo invoca em mim a revisão de conceitos, atitudes e pensamentos. Está mexendo nos meus modos de ser, pensar e agir no mundo. Estou convencido de que deverei eliminar as tentações maniqueístas de enquadrar, julgar ou condenar os outros, até alcançar um pensar empático e pluralista, para perceber a realidade e construir vivências positivas. Por outro lado, teimo no meu direito de dizer o que penso dos recentes fenômenos públicos que insistem em aplicar um golpe na democracia brasileira, através de um impedimento (impeachment). Pelo respeito à democracia e ao sagrado voto, deixemos a presidenta Dilma governar e respeitemos os princípios democráticos e de direito que a todos são estendidos pela Constituição.

Governar não é tarefa de anjos, é tarefa de pessoas que erram e acertam; que não são inteiramente boas nem inteiramente más. Estes que se denominam “Exército do Bem” e que afirmam carregar consigo os mais nobres desejos de mudança no Brasil valem-se de ideias maniqueístas. Estas ideias não colaboram com o pluralismo e o respeito, essências da democracia.

Espaço autores passo-fundenses

Desde o mês de agosto de 2013, a Biblioteca Pública Municipal de Passo Fundo Arno Viuniski abriga estande Autores Passo-fundenses. Este espaço pretende-se parte de uma ação de incentivo à produção de cultura local e representa um compromisso com os escritores que enriquecem a história da cidade.

Este projeto retomou também as ligações da Academia Passo-fundense de Letras e a história da Biblioteca Pública, na perspectiva de um esforço conjunto para fomentar a leitura e reconhecer Passo Fundo como a Capital Nacional da Literatura.

Escrevo porque acredito que as palavras escritas, lidas e recitadas, podem colaborar imensamente no nosso principal desafio: humanizar-se. Humanizar-se é tornar-se melhor ser humano. O poder das palavras consiste em nos libertar dos sofrimentos e das angústias que teimam em nos deixar menos felizes e menos livres.

Passo Fundo busca, há muitos anos, ser referência em educação, cultura e formação de leitores. Este é um caminho que se consolida a cada dia, com ações de diversos atores e personalidades que desafiam o paradigma estabelecido para construir uma cidade leitora.

A partir do dia 12 de agosto de 2015, meu livro Conviver, educar e participar: nos palcos da vida também está disponível no espaço dedicado aos autores passo-fundenses podendo ser visto, acessado e manuseado pelos leitores nas dependências da Biblioteca Pública de nossa cidade.

Filhos humanizam

[quote_box_right]“Os anos deixam rugas na pele, mas a falta de entusiasmo deixa rugas na alma” (Michael Lynberg)[/quote_box_right]

A paternidade e maternidade estão permanentemente submetidos à avaliação e análises, feitas por todos nós. Pais e mães são homens e mulheres que assumiram um compromisso denso com filhos e filhas. E em tempos em que nem sempre eles conseguem compreender as mudanças culturais que operam neste mundo de ligeiras transformações. Ser pai e ser mãe é mais do que um ofício; é assumir uma missão, criando condições de aconchego e de vôo, como fala Padre Zezinho. Somos pais e mães menos presentes na vida cotidiana de nossos filhos. Por isso mesmo, a convivência com eles pode e deve ser, por excelência, um convite e uma oportunidade para a humanização (nossa e deles).

O ser humano não nasce lapidado, não nasce pronto. Faz-se no tempo, na experiência e na vida concreta. Esta vida concreta é feita de oportunidades. Umas nós mesmos as construímos, sobretudo em nossos espaços de convivência familiar. Outras, o mundo as oferece, de forma permanente. E fogem do nosso controle e da nossa vontade.

Certas coisas somente aprendemos a partir da experiência concreta. Quando éramos apenas filhos, não possuíamos noção da ideia de “pertença” e proteção, tão intrínsecas à vida dos verdadeiros pais e mães. Achávamos que éramos superprotegidos, que nossos pais desperdiçavam tempo e cuidado para com a gente. Finalmente, achávamos que o que nos faltava era a liberdade. Mas somente com a paternidade e a maternidade pudemos compreender o valor dos “investimentos” afetivos, culturais, emocionais e porque não econômicos que pais e mães fazem em função de seus filhos. Filhos não têm mesmo condições para compreender estes valores, mas deveriam supor e tolerar a ideia de que pais e mães só os querem proteger, porque ainda os consideram seres frágeis e suscetíveis a muitos perigos que os rondam enquanto forem crianças, adolescentes ou jovens. E que estes perigos são reais, e existem.

Filhos a gente não cria para a gente. Filhos, a gente cria para o mundo.

Por sua vez, a sabedoria popular encarregou-se de nos ensinar que “filhos a gente não cria para a gente. Filhos, a gente cria para o mundo”. Diz Padre Zezinho que “não dá para ninar um filho a vida inteira. Um dia a aguiazinha fica madura e precisa voar sozinha e fazer seu próprio ninho. Tem que haver mais do que asas de mãe naquela vida. Existe vento forte lá fora e alguém tem que empurrá-las para voarem sozinhas. Filho que não entende isso chega aos 32 anos dependendo da mesada do pai. Pai que não entende isso vai amar errado. Há um tempo para o aconchego e outro para o vôo para longe. Ou isso, ou não haverá mais águias..”.

O ambiente familiar é um espaço privilegiado de promoção de vida, dignidade e de humanidade. Aqueles e aquelas que, convivendo, compõem uma mesma relação afetiva, podem construir a mais rica experiência do amor. Mas há que se considerar ainda os filhos e filhas dos outros e outras. Aqueles que não possuem um ambiente familiar que os promova e os proteja. De quem a responsabilidade? Se filhos do mundo, também filhos nossos. São de nossa responsabilidade também.

Rugas no corpo são inevitáveis com o passar do tempo. Rugas na alma não colam naqueles que são entusiastas da vida, do amor e do ambiente familiar. Nossas famílias devem ser lugares de aconchego e de vôo. Aconchego e vôo são da essência humana; constroem felicidade.

Diego Vitor: ensaísta e escritor

Diego Vitor Dalmagro é bacharel em Filosofia e Contador. Seu amor pela literatura, por romances e pela riqueza da diversidade cultural da sociedade, lhe acompanha desde a adolescência. Há muitos anos vem ensaiando para concluir uma obra literária e publicá-la, porém, infelizmente, sua inserção no mundo profissional o tornou mais uma “vítima da liquidez do tempo”. O mundo da correria e dos prazos o consome e o seu sonho de ser escritor ficou para trás, porém a sua busca pela escrita permanece através de publicações em seu blog Além da Lenda. São escritas curtas, mas bem consistentes, na forma de afirmações (frases).

Abrimos espaço em nosso site para publicar alguns de seus escritos, no intuito de estimular o amigo e colega a continuar “brigando com as letras e as palavras”.

Alguns textos de Diego Vitor Dalmagro:

“Quando há estrelas, bússolas são dispensáveis.” (2015)

“Forçam-se indignamente a ser igual à massa, mas decidi ser eu mesmo.” (2014)

“Vê-se que vivemos numa sociedade de descartes, onde tudo é brevemente útil, independente se ainda há valores atrelados.” (2015)

“A esperança reside na brisa suave do amanhecer.” (2014)

“Se por natureza não tenho asas, as tenho por imaginação.” (2014)

Vida na roça

[quote_box_right]”Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. Não é. A coisa mais fina do mundo é o sentimento. Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, ela falou comigo:  — Coitado, até essa hora no serviço pesado. Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente. Não me falou em amor. Essa palavra de luxo”. (Poema Ensinamento, Adélia Prado)[/quote_box_right]

Muitos, como eu, nasceram e viveram a infância na roça. Eu sinto orgulho de ser um filho da roça, porque a vida no “interior” me ensinou valores muitíssimo finos e refinados. Na companhia de árvores frutíferas, animais, nascentes, riachos e lavouras, as pessoas que lá residem formam verdadeira comunidade. Comunidade quer dizer comunhão, integração, relação. Esta comunhão se perdeu na vida urbana atribulada e estressante. Todo o tempo na cidade tem que ser um tempo ocupado. Não temos mais tempo para curtir o próprio ritmo (do tempo).

Roça é um lugar de fartura, mas também de muito trabalho. Iludem-se aqueles que pensam que uma “chácara” é um lugar maravilhoso sem dar muito trabalho. Para quem não pode oferecer seu trabalho, terá de ofertar dinheiro para que alguém cuide, zele e organize o ambiente, para poder desfrutá-lo lindo, aconchegante e organizado. Neste sentido, não podemos romantizar o trabalho de quem cuida da terra; é preciso reconhecê-lo e valorizá-lo com a grandeza que ele merece.

Quantos, como eu, matam saudades de sua terra visitando propriedades que ainda resistem em levar adiante um estilo de vida interiorano! Colhem, no inverno abundante das frutas, o sabor de suas saudades e recordações. Visitam matas, riachos, casas, salões comunitários, em busca de algo que um dia deixaram para trás: a simplicidade e a compaixão pela terra.

Como ilustram os versos acima, os valores da roça confundem-se com as necessidades mais imediatas de quem lá reside e faz de seu trabalho e suor o próprio modo de vida. Os pequenos agricultores ou camponeses ainda preservam os valores da gratuidade e da reciprocidade que aprenderam na relação com os outros, com a natureza e com o mundo. Nem tudo na roça tem preço, mas tudo na roça tem o seu valor.

As relações com a natureza, particularmente através das semeaduras, reservam ao homem e à mulher do campo a noção do tempo, que é a mesma noção da paciência. Quem espera colher, precisa saber esperar. Quem espera colher, precisa pacientemente acompanhar a renovação da vida em cada amanhecer e em cada anoitecer. Quem deseja recuperar a terra, precisa investir insumos, cuidados e tempo.

Só podem sentir saudades aqueles e aquelas que já experimentaram a vida da roça. Para estes, são necessárias brechas em sua conturbada agenda urbana para cultivar flores, frutas, hortaliças, chás, verduras. Não há nada mais contagiante e gratificante do que o alvorecer de vidas que dependem de terra, de ar, de água e de cuidados pacientes e permanentes.

A natureza nos permite a compreensão da própria existência. A vida na roça nos fornece importantes aprendizagens sobre os próprios desafios do ser humano. Valorizando a terra, estaremos sempre valorizando a nossa dimensão de humanidade e dignidade.

Muitos ideais: uma imagem

As dependências da Câmara de Vereadores de Passo Fundo ficaram pequenas para acolher a diversidade de ideais, numa noite chuvosa deste inverno: dia 08 de julho de 2015. Acontecia mais uma audiência pública, desta vez para ouvir a comunidade, através de suas organizações, sobre a Proposta do Plano Municipal de Educação de Passo Fundo, enviada pelo Executivo Municipal e que vigorará para os próximos dez anos.

Assista a audiência:

Algumas conclusões sobre a concorrida audiência:

  • os debates desfocaram questões centrais para a qualidade da educação quando supervalorizaram as temáticas da ideologia de gênero, sexualidade e família tradicional. Pouco se falou da valorização dos professores, da gestão democrática, dos investimentos financeiros para a educação, das metas específicas para os próximos dez anos;
  • a escola pública é laica, e ponto. Não serão as leis e nem os fundamentalismos religiosos que impedirão a mesma de continuar acolhendo, respeitosamente, as crianças independente de suas condições sociais, econômicas, de gênero ou de organização familiar (as realidades sempre se impõem quando as leis são burras);
  • por desconhecimento, cegueira ou falta de entendimento, o debate torna-se perigoso quando colegas professores manifestam-se pelo apoio à retirada ou supressão das questões de gênero e sexualidade, desprezando as suas próprias dificuldades em lidar com questões que envolvem as diferentes vivências e experiências da vida e da sexualidade dos seus educandos;
  • o palco de discursos da audiência serviu para demonstrar o que está em curso na sociedade, sobretudo quando argumentos religiosos são utilizados na contramão da cultura de tolerância, de inclusão e de direitos humanos que pensávamos já fosse melhor compreendida pela sociedade.

Esta bela imagem, captada por Erviton Quartieri Junior, traduz a grandeza do lugar e o interesse pelos debates em torno da educação passofundense. Ao que concluímos: ainda bem que nossos pensamentos, atitudes e ações não ficam confinadas em um cubo como este da fotografia! Viva a democracia que sempre transcende as muralhas que alguns tentam impor!

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