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Os mesmos, porém, diferentes

“Somos o resultado das viagens que fazemos,
dos livros que lemos e das pessoas que amamos.”
Airton Ortiz

Inspiro-me em reflexão sensacional do escritor Antonio Prata (Caderno ZH PROA, 03.01.16) com título: 2016. Neste, o autor zomba de gente ingênua que acredita que o simples findar de um ano encerra tudo para começar algo totalmente diferente no ano novo. Afirma também que “o 2016” não entende porque a gente espera tanto dele. Termina citando Heráclito, para lembrar que sempre somos os mesmos, porém diferentes.

Aconteceu comigo na véspera da virada. Em Sarandi, RS. Sentado na cadeira, ouvi o cabeleireiro dizer e concluir, sem que eu nada lhe perguntasse: “Depois dos 40, aprendi a respeitar e viver o tempo”. Justificou-se ainda dizendo que, definitivamente, aprendera a dar mais valor ao agora, pois o dia de amanhã é sempre muito incerto. Sua reflexão foi sugestiva para a minha “festa da virada”.

Histórias de cabeleireiros, enfermeiros, cuidadores, médicos e de outras gentes que cuidam de gente são sempre ricas e emblemáticas; fazem parte das experiências de renovação e sentido que cada um de nós dá à sua vida quando resolve cuidar-se ou promover-se. Estes profissionais precisam despertar confiança, a exemplo do cabeleireiro que com as crianças criou técnica dizendo que não corta cabelos, mas que “arruma para deixá-los bonitos”.

Mas voltemos à sua provocação. Ora, ninguém é eterno e ninguém vive para sempre. Parece tão óbvio, mas o desespero da morte sempre derruba esta tese. O medo de morrer se explica porque tememos o desconhecido. O que assusta é que desembarcaremos desta viagem sem data, horário e lugar marcados. Viver é o maior risco humano. Desembarcar é a maior aventura, porque sempre encerra um ciclo para começar outro: incerto, desconhecido, inexplicável.

A literatura me convenceu que “todos estamos de passagem”. Na metáfora, a vida é como um grande trem. Um trem que roda, que faz paradas para alguns entrarem e para outros descerem. Durante a viagem, nem tudo acontece conforme planejado. Podem ocorrer obstáculos que precisam ser enfrentados. Pode haver perdas e ganhos. O trem não para, nós é que descemos dele. Outros continuarão viajando, curtindo a vida, a paisagem e realizando novas experiências.  Nós vamos vivendo e morrendo todos os dias. Vamos arrumando jeitos e trejeitos para deixar nossa existência mais leve, mais suave, mais prazeirosa. Vamos recolhendo esperanças das experiências nossas e dos outros, pois nada somos sozinhos e isolados.  Vamos suportando os nossos sofrimentos.

Se viver é o maior risco, o jeito é arriscar, até para mudar de percurso, sem perder de vista o ideal do que somos, pensamos e sonhamos. A vida tem o sentido que a gente lhe dá: não está nos outros e nem fora da gente. Ano a ano, dia após dia, continuamos os mesmos, mas diferentes, com as marcas e impressões das novas experiências.

UPF: a Universidade que impulsiona o desenvolvimento de Passo Fundo

A construção de um município é alicerçada no esforço coletivo e em ideias que não podem ser de uma única pessoa, mas de uma comunidade. Ao longo de seus 47 anos de existência, a Universidade de Passo Fundo (UPF) teve um papel fundamental no desenvolvimento do município que deu nome à Instituição. A formação de quase 70 mil profissionais teve influência e repercussão positiva na agricultura, na educação, na saúde, na economia e no estímulo à inovação tecnológica, entre tantas outras áreas. Sempre com a missão de ser a Universidade da comunidade, a UPF mantém, entre seus compromissos, o de formar cidadãos éticos e críticos com a realidade que os rodeia.

Atualmente, a UPF conta com mais de 20 mil alunos nos cursos de graduação, pós-graduação lato e stricto sensu, ensino médio, cursos técnicos, cursos de idiomas e atividades de extensão. A instituição mantém 61 cursos de graduação e oferta a possibilidade de educação continuada por meio dos mais de 45 cursos de especialização em andamento, 15 mestrados, seis doutorados e dez estágios pós-doutorais. Nos mais de 400 hectares de área total, a Universidade oferece um ambiente de socialização e conhecimento. Para isso, conta com 150 clínicas e mais de 300 laboratórios, 23 anfiteatros e auditórios, 174 salas de ensino prático-experimental, museus, centro de idiomas, ginásio poliesportivo e ampla área verde. A Rede de Bibliotecas é um dos diferenciais, colocando à disposição da comunidade acadêmica mais de 470 mil exemplares no acervo.

Além disso, os projetos de extensão incluem a população em diversos serviços, que são prestados gratuitamente. Na extensão, são realizados projetos nos quais o conhecimento e a força profissional que são desenvolvidos na Instituição são oferecidos à comunidade, que tem acesso a atendimentos jurídicos, psicológicos, a atividades da terceira idade, a projetos que cuidam de crianças, de famílias em situação de vulnerabilidade, que cuidam de animais, dentre outras ações, beneficiando mais de 113 mil pessoas a cada ano.  Se consideradas as atividades artísticas e culturais, esse número aumenta em quase 50 mil o número de beneficiados, resultando em mais de 160 mil pessoas atendidas anualmente.

Propulsora da economia

A Universidade de Passo Fundo influenciou e continua sendo uma das principais fontes propulsoras da economia, especialmente do setor comercial e de serviços. Inúmeros empreendimentos locais foram realizados e aperfeiçoados nos últimos anos por intermédio da UPF. Destaca-se a vocação de Passo Fundo para a área da saúde, na qual a UPF tem contribuído decisivamente, trazendo recursos e capacitação profissional por meio de projetos.

 José Carlos Carles de Souza, reitor da UPF.
José Carlos Carles de Souza, reitor da UPF.

O efeito também é sentido em outras áreas, como o agronegócio, a construção civil, o setor imobiliário e, consequentemente, a geração de empregos e renda. Merece destaque, também, o propósito da formação de professores, um compromisso da Instituição desde a sua origem, uma vez que a UPF sempre teve, em sua essência, a preocupação com a formação de docentes, voltada à excelência e marcada pela capacidade de difundir conhecimentos. “O desenvolvimento econômico só faz sentido quando é acompanhado pelo desenvolvimento das pessoas. A formação educacional de qualidade, nos diversos níveis, permite que o cidadão sustente seus projetos e seja capaz de se sentir realizado em todas as esferas da vida. A UPF tem o orgulho de contribuir para que as pessoas sejam melhores todos os dias, em cada ação desenvolvida”, avalia o reitor José Carlos Carles de Souza.

A geração de novos conhecimentos também recebe investimentos e a pesquisa consolida-se cada vez mais. Nesse universo, todas as pesquisas e a inovação tecnológica desenvolvidas na Instituição são revertidas em benefícios para a comunidade. O reitor José Carlos Carles de Souza destaca a criação do Parque Científico e Tecnológico UPF Planalto Médio (UPF Parque), primeiro parque tecnológico do interior do Rio Grande do Sul, por meio do qual a UPF assume papel de protagonismo na área da inovação. A iniciativa da Universidade de Passo Fundo é desenvolvida em parceria com o Governo do Estado do Rio Grande do Sul, com apoio da Prefeitura Municipal de Passo Fundo, e tem o propósito de constituir um ambiente que possibilite o aumento da competitividade das empresas incubadas, startups e maduras, tendo como base uma matriz acadêmica e científica que promova a inovação, o desenvolvimento tecnológico e a inclusão social.  “O UPF Parque é a concretização de um grande planejamento, por meio do qual a Universidade busca aproximar os empreendedores da região às inovações geradas na Instituição em uma relação sinérgica que tenha como principal objetivo o desenvolvimento e o fortalecimento de Passo Fundo e região”, destaca.

Nesse sentido, o reitor reitera que o compromisso da UPF de ser uma instituição comunitária exige, além da interação com a sociedade, a construção constante da cultura democrática e, diante dessas premissas, reafirma a disposição de toda a comunidade acadêmica, professores, funcionários e alunos, de seguir trabalhando e construindo uma grande Instituição com os olhos voltados para as pessoas.

Oração ao curumim – Ingra Costa e Silva

Imagine que você está sentada na sombra, alimentando seu filho de dois anos, tentando se refrescar um pouco e esperando alguns minutos para voltar ao trabalho. Um estranho se aproxima do seu bebê. Vai afagá-lo, pois o achou um bebê bonito. Você tinha certeza que ele era o mais lindo do mundo. Era, pois o estranho sacou uma lâmina e degolou a criança de apenas dois anos de idade. A vida do seu filho foi tirada no lugar que você acreditava ser o mais seguro: os seus braços.

Essa é a história de Sônia e Vitor Pinto e aconteceu há poucos dias, no dia 30 de dezembro de 2015, na rodoviária da cidade de Imbituba em Santa Catarina. Mas como uma história dessas não saiu em todos os veículos de comunicação? Porque não foi destaque na imprensa?

Porque Vitor era Kaingang. Sua mãe e o resto da família estavam na cidade para vender artesanato até o Carnaval e seu sofrimento parece não importar para o resto da população. Sua dor parece não importar para a imprensa nacional, que teria alterado sua programação inteira caso algo parecido acontecesse com uma criança branca.

O assassino foi preso no dia 1º de janeiro e aguarda a conclusão do inquérito policial. Classificado como frio e debochado Matheus de Ávila Silveira, 23 anos, se dizia satanista e amante da escuridão. Sua página no Facebook traz várias postagens que tratam destes assuntos. A polícia acredita que não se trata de crime étnico já que foi constatado que Matheus passa por graves problemas psicológicos.

Matheus, assim como Vitor, precisa de orações (para a entidade que você acreditar). De acordo com uma matéria escrita por Renan Antunes de Oliveira para o site Diário do Centro do Mundo, primos e tios do jovem afirmaram que ele, expulso de casa por ser homossexual, passava por graves transtornos e esperava atendimento psiquiátrico do posto de saúde do município. Quando foi preso vivia na rua e era alcoólatra e dependente químico antes da terceira década de vida, um ano mais novo que eu.

De acordo com os parentes, o jovem era espancado na rua pelo próprio irmão que não aceitava sua orientação sexual.  Ele sofria bullying na escola, por parte dos colegas que sem ter uma educação adequada, achavam que sua orientação era motivo para chacota e até agressões.

Ele já havia demonstrado desequilíbrio um ano atrás ao revidar o ataque verbal dos pais com violência, partindo para cima deles com uma faca. Ele foi preso e ao sair da cadeia foi expulso de casa, passando a morar nas ruas.

Vítor é vítima de uma pessoa doente e mais que isso: de uma sociedade doente. Que não lamenta a morte de um índio como lamenta a de um branco. Que não respeita a dor de uma família indígena como a de uma branca e que não se importa nenhum pouco com aqueles que sempre estiveram aqui e tem uma cultura lindíssima e que deve ser respeitada. Que não discute as condições que essas pessoas estão vivendo a mercê do mundo e sem qualquer amparo.

Matheus é vítima de uma sociedade intolerante e homofóbica, além de uma família que não lhe deu auxílio quando passou a demonstrar desequilíbrio. É ainda vítima de um sistema de saúde que não funciona e não lhe deu assistência, permitindo que ficasse fora de si a ponto de cometer algo desta proporção.

Para Vítor, nossas orações. Para Matheus, meu sentimento por sua história ter sido tão triste. Que a Justiça determine a melhor pena e que a mesma seja cumprida! Pois se fosse o contrário (um indígena degolasse uma criança branca) não tenho dúvidas que até música do plantão ia ter tocado alto nas emissoras.

Nada justifica a ação de Matheus. Com certeza ele não teria agido assim com uma criança branca e de olhos claros. Ele escolheu Vítor e sua mãe porque os estavam vulneráveis e desassistidos. Como todos os indígenas no Brasil.

Minhas orações ao curumim.

De nossa esperança ativa

[quote_box_right]“É preciso sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não sairmos de nós.” (José Saramago)[/quote_box_right]
Desesperança é a palavra da hora. Editoriais de muitos jornais e revistas, artigos em sites e blogs, diferentes manifestações e compartilhamentos nas redes sociais disseminam desesperança como virtude, como imposição de uma realidade vivida em nosso país, como sintoma da atual situação política, econômica e social. No sagrado direito de perguntar, minhas indagações: a) quem está disseminando estas ideias?; b) a quem interessa a desesperança?; c) com que propósitos pregar desesperança?; d) a esperança é mesmo danosa às pessoas, às coletividades?

Nunca vi esperança como um mal do povo, ou uma ilusão pessoal ou coletiva. Muito antes pelo contrário, acredito que esperança é que nos move, é o que move a história coletiva e individual de nossa gente. Para formular considerações sobre o assunto, fui pesquisar e ler sobre esperança. Descobri que ela carrega duplo sentido. O sentido da palavra que vem do latim spes, cujo significado é “confiança em algo positivo”, um dos sentidos que a palavra carrega em português. Este sentido mais genuíno, mais original, perpetuado ao longo da história e das civilizações. Na cultura patrimonialista do Brasil, também adquiriu o sentido de expectativa, de espera. Muitas vezes, esta última concepção deturpa o que é uma virtude (confiar em algo positivo), tornando-a uma inércia, uma simples espera passiva.

Minha formação humanística e cristã sempre apontou a esperança como sentido da existência. Não consigo conceber pessoas ou grupos desprovidos de esperança. Para mim, esperança é possibilidade, é projeção, é ação para concretizar o que ainda não existe. Esperança é horizonte das lutas e das conquistas humanas. Esperança é sair de si, é sair da ilha, como propõe Saramago, justamente para melhor compreender a si mesmo e o mundo.

No caso do Brasil das últimas décadas, a esperança foi alicerçando avanços e conquistas sociais, traduzidos por mais liberdade, mais acesso à terra, saúde, cultura e educação, maiores condições de vida e dignidade, mais oportunidades de viver e experimentar cidadania, mais direitos. A esperança da maioria dos brasileiros não é passiva; é ativa porque projeta mudanças e organiza as lutas individuais e coletivas para concretizá-las. A esperança não é um slogan, mas é possibilidade concreta de mudanças projetadas na luta cotidiana, na organização, nas manifestações públicas da fé, das crenças e da cidadania.

A disseminação da desesperança, no atual momento histórico, explica-se porque há no Brasil um grupo de pessoas que nunca precisou alicerçar sua vida na “esperança ativa” que se traduz em lutas, em conquistas e em organização coletiva por melhores condições de vida e dignidade. Para estes, o Brasil sempre ofereceu “abundância” e privilégios. Na medida em que se descortinam os entendimentos e a compreensão sobre o funcionamento do próprio país, ficam mais claros os mecanismos de exploração, exclusão e alienação a que são submetidos a maioria dos brasileiros. Aí, a esperança (da mudança) da maioria passa a ser um problema.

A esperança, no seu sentido mais genuíno, provoca mudanças a partir da organização, das lutas e das conquistas sociais. A esperança não é, para a maioria, um otimismo vazio e sem sentido. Concordo com Saramago: “não sou pessimista. O mundo é que é péssimo”.  Com esperança, somo-me a outros tantos para que continuemos mudando o mundo, para mudar-nos a nós mesmos. Com esperança, combato desesperança!

Universidade e Comunidade: Parceiras na Promoção do Gosto Pela Leitura

Eládio Vilmar Weschenfelde
Professor de Literatura na Universidade de Passo Fundo.

Cristiane Barelli
Professora nos cursos de Medicina e Farmácia da Universidade de Passo Fundo.

No início do século XIX, o filósofo e linguista alemão Walter Benjamin (1995, p. 199) denunciou o fim dos narradores orais, os quais classificou em dois grupos: o camponês sedentário e o marinheiro comerciante. Segundo ele, o fato acabou prejudicando “a faculdade de intercambiar experiências” orais como as comunidades. Soma-se ao fato de que hoje, em pleno início do terceiro milênio, as comunidades estão “encantadas” com os modernos meios de comunicação e entretenimento, através dos quais pessoas e grupos ficam em silêncio tuitando, ou consultando suas mensagens eletrônicas, posto que cada indivíduo está no umbigo do próprio celular, parecendo cada vez mais evidente que as tecnologias aproximam as pessoas distantes e as afastam das próximas. Nesta perspectiva um tanto trágica, o contexto atual suscita que é o momento propício da Universidade de Passo Fundo, como Fênix, buscar reestabelecer a troca de experiências com as comunidades de sua abrangência, promovendo trocas de experiências por meio da contação de histórias, como faziam os antigos Aedos da Grécia.

Para Benjamin (1995, p. 198), o fim dos contadores de histórias – narradores – deveu-se à difusão da informação, a reprodutividade técnica. Para ele, as notícias que advêm das novas tecnologias são pobres em termos de histórias, cabendo pouco espaço para a imaginação, pois muito do que se ouve e lê está a serviço da descrição e pouco para a narração, carecendo emoção e encantamento. Neste sentido, em plena era cibernética, há que se buscar o fogo que nos aquece e as pontes que nos unem com fios invisíveis. As palavras são estímulos indispensáveis para enfrentar as tristezas do mundo, essenciais no amor e na paz. Em contrapartida, Regina Machado (2004, p. 18), considera que, “…é nesse caos de começo de milênio que a imaginação criadora pode operar como a possibilidade humana de conceber o desenho de um mundo melhor. Por isso talvez a arte de contar histórias esteja renascendo por toda a parte”. Pergunta-se então, como contar histórias na era digital? Como a contação de histórias pode se incorporar no processo de promoção da leitura e da saúde? Considerando que a formação de leitores no século XXI, compreende um modelo de leitor competente a ser considerado nesse processo, Lucia Santaella (2007, p. 33) descreve o perfil cognitivo do leitor imersivo/virtual, enfatizando que a era digital traz um modo inteiramente novo de ler, distinto do leitor contemplativo da linguagem impressa:

Trata-se, na verdade, de um leitor implodido, cuja subjetividade se mescla na hiperatividade de infinitos textos num grande caleidoscópio tridimensional, onde cada novo nó e nexo pode contar uma outra grande rede numa outra dimensão. Enfim, o que se tem aí é um universo novo […], uma biblioteca virtual, mas que funciona como promessa eterna de se real a cada clique do mouse[i]. 

A educadora Andrea Cecilia Ramal, em Educação na Cibercultura: hipertextualidade, leitura, escrita e aprendizagem (2002, p. 13), por seu lado, ensina que a o novo estilo de sociedade exige mudanças na forma da construção do conhecimentos e de apreensão do conhecimento e o novo estilo da sociedade.

bandinho-de-letrasNo caso do Bando e do Bandinho de Letras da UPF, constituído por acadêmicos, professores universitários, bibliotecários, agentes culturais e crianças das escolas da região, os quais dedicam parte do seu tempo para encantar, pelo instrumento da palavra dita, multidões ávidas por narrativas literárias e poemas, os quais são selecionados em função da faixa etária e do nível cultural. Contrariando Benjamin (1996), não são campesinos, nem marinheiros. Os mesmos são chamados para muitas atividades de extensão, especialmente na área da educação, cultura e saúde. Inicialmente procuraram quebrar paradigmas, identificando-se como anarquistas da palavra literária, “invadindo” distintos espaços, tais como hospitais, creches, sindicatos, emissoras de rádio e televisão para, de livros em punho, semear poemas, contos, crônicas, invocando sempre um poema do poeta romântico brasileiro Castro Alves (NEVES, 2006, p. 11):

Oh, bendito o que semeia
Livros …à mão cheia…
E faz o povo pensar!
O livro caindo n’alma
É germe – que faz a pala
É chuva – que faz o mar.

Assim, plenamente imbuídos nesse espírito do terceiro milênio, os cibercontadores do Bando e do Bandinho de Letras operaram o recurso artístico como possibilidade humana de conceber o desenho de um mundo melhor.  Há que se considerar também que os cenários e as ações desenvolvidas pelo projeto de extensão denominado Bando e Bandinho de Letras, segundo Weschenfelder e Burlamaque (2009, p. 131),

Na verdade, constituem as antessalas para o maravilhoso mundo dos contos, das lendas, das fábulas e dos poemas, que dão sentido e riqueza à diversidade cultural, mesclando o tempero do prazer, da emoção e do conhecimento. Neste sentido, o contador – narrador – comunica aos ouvintes três fontes de histórias: as vivenciadas, as ouvidas, e as lidas com base nos textos literários.   

No ano de 2013, 2014 e 2015 dialogando com a área da saúde, foram priorizados algumas intervenções nos espaços onde se promove a saúde, nos quais a contribuição do projeto se volta para minimizar a dor e o sofrimento e promover saúde, a qualidade de vida e a cultura do bem viver, tais como enfermaria de hospitais, asilos e unidades de tratamento ambulatorial de longa duração como hemodiálise e quimioterapia. Outrossim, também ocorreram atividades em eventos sociais e durante o 3º Seminário Internacional de Contadores de Histórias, ocorrido em 2013, especificamente antes e durante a 15ª Jornada Nacional de Literatura.

Portanto, a arte de contar histórias e de recitar poemas, como uma atividade de extensão universitária é de fundamental importância, posto que seus desdobramentos abrem portas e parcerias recíprocas – a Universidade à comunidade e a comunidade à Universidade – constituindo-se uma antessala para a formação do gosto pelas leituras múltiplas, para a promoção da saúde e da qualidade de vida. Renascendo das cinzas, como Fênix, não como teatralização, mas como comunicação de narrativas e poemas, como forma de troca de experiências, a arte de contar histórias contrói pontes que integram quatro elementos: Universidade, Comunidade, Arte e Saúde. É o “Abre-te, Sésamo” para a comunidade cada vez mais humanizada pela força da palavra.

 

REFERÊNCIAS

BENJAMIN, Walter. O narrador – considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas. Magia e técnica, arte e política. 6. ed. São Paulo: Brasileirense, 1995.

MACHADO, Regina. Acordais – fundamentos teórico-poéticos da arte de contar histórias. São Paulo: DCL, 2004.

NEVES, André. A caligrafia de dona Sofia. São Paulo: Paulinas, 2006. p. 11.

RAMAL, Andrea Cecília. Educação na cibercultura: hipertextualidade, leitura, escrita e aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 2002, p. 81.

SANTAELLA, Lucia. Navegar no ciberespaço: o perfil cognitivo do leitor imersivo. São Paulo: Paulus, 2004.

WESCHENFELDER, Eládio Vilmar & BURLAMAQUE, Fabiane Verardi. Bando de Letras: nem camponeses, nem marinheiros. In: Leitura dos espaços e espaços de leitura. Passo Fundo: EDUPF, 2009. p. 131.

Crianças, futuro e esperança

[quote_box_right]O pessimista se queixa do vento, o otimista espera que ele mude e o realista ajusta as velas. (William George Ward)[/quote_box_right]

Terminemos 2015 com esperança. Nós adultos somos professores, pais, mães, avôs, avós, tios, tias e temos a responsabilidade de sinalizar que os dias de amanhã serão melhores, com mais esperança, amor, solidariedade, compaixão. As crianças, por sua vez, nos animam com sua presença, singularidade e vida. Demonstram, todos os dias, sensibilidade, ingenuidade e doces encantos que não nos deixam desanimar. A responsabilidade de anunciar esperanças é sempre nossa, não podemos fugir desta responsabilidade.

A recíproca das crianças é reconhecer que seus pais, seus professores, suas famílias e suas comunidades trabalham muito para lhes dar o melhor que podem. As crianças retribuem com o que de melhor possuem: seu carinho, seus abraços, seus inocentes pedidos e desejos de uma vida sem males e sem violência.

Precisamos treinar nossas sensibilidades para sermos capazes de anunciar esperanças. Os movimentos que percebem a vida, o amor, a felicidade geram boas percepções de vida, de ser humano e de beleza.

Estes movimentos são próprios daqueles que tem olhos para ver, ouvidos para ouvir e boca para falar, serenamente. O contrário é autosuficiência, arrogância e prepotência, qualidades que não cativam e não agregam mais ninguém.

Sejamos capazes de oferecer, todos os dias, o melhor do que somos, por amor às nossas crianças, adolescentes e jovens. Ofertemos a elas luzes de esperança, forjadas na luta cotidiana de nossa superação pessoal e profissional. Se os adolescentes sonham em transformar o mundo, mostremos a eles caminhos de saudável rebeldia, esta arrebatadora força que move causas, sonhos e desejos em todos nós. Se os jovens acreditam no poder do conhecimento, os estimulemos a fazerem suas buscas e suas escolhas, com liberdade.

Creiamos que cada ser humano possui as mais ricas e únicas possibilidades de superar-se. Como na educação, na política, nas igrejas e nas escolas só deveriam atuar aqueles que, acima de suas vaidades e interesses, são capazes de acreditar que todo ser humano é capaz de superar-se em todos os seus contextos, singularidades e peculiaridades.

Para isto servem a política, a religião e a educação: propiciar instrumentos e possibilidades às pessoas para sua liberdade, sua felicidade e sua emancipação.

Afirmemos ainda a “política” para a vida não desesperar. As verdadeiras mudanças passam por soluções coletivas, não pelo desespero ou “mérito” individual. A política é regra para a solução dos problemas da humanidade, não a exceção que se aplica quando esgotamos o nosso egoísmo.

“Quem luta, também educa”. Quem ama, também educa. Quem não se acovarda de suas responsabilidades, ganha mais vida na dignidade, justamente por assumir-se como é. Quem educa com amor segue acreditando que educação não é um fim, mas meio para estimular os mais loucos desejos do ser humano: a felicidade. E não aceita que o mundo será de desesperança, pois o mundo sempre será aquilo que sonhamos que seja.

Boas festas e que renovemos as melhores esperanças e crenças na virada de mais um ano.

Mudanças: longe de nossas vistas!

[quote_box_right]Se, na verdade, não estou no mundo para simplesmente a ele me adaptar, mas para transformá-lo; se não é possível mudá-lo sem um certo sonho ou projeto de mundo, devo usar toda possibilidade que tenha para não apenas falar de minha utopia, mas participar de práticas com ela coerentes. (Paulo Freire)[/quote_box_right]

Eu acredito em mudanças. Acredito que verdadeiras mudanças fazem a sociedade, as organizações e as pessoas evoluírem na sua compreensão de vida e de mundo. Mas arrisco dizer que as propaladas e necessárias mudanças que deveriam ocorrer no Brasil não acontecerão no médio prazo. Ainda demoraremos muito para fazer verdadeiras mudanças em nosso sistema político e de representação que começam em nossas escolas, sindicatos, associações de moradores, organizações sociais diversas, câmaras de vereadores, prefeituras, casas legislativas, governos estadual e federal. Ao invés de vivermos verdadeiras mudanças, a maioria de nós prefere conviver com as ilusões de “mudanças superficiais” para nada mudar.

Sustento tese acima a partir de vivências no universo micro de minhas relações interpessoais. Criamos oportunidades reais de mudança de rumos em sindicatos, escolas, organizações sociais, associações de moradores. Por falta de uma reflexão crítica e por medo de mudanças substantivas, a maioria ainda decide pela continuidade, pela mesmice, pela manutenção do mínimo que sempre se apresenta como o máximo do que é possível fazer. Observando os brasileiros, todo dia mais sabedores de sofisticadas artimanhas de corrupção, pergunto se já estamos preparados para combater a corrupção e a manipulação dos interesses públicos! Parece ainda estarmos distantes, sem convicções e receosos para enfrentar, como um dever cívico, a corrupção e a manipulação em todos os níveis, espaços e instituições em que ela possa ocorrer.

Chego a pensar que a perspectiva de não-mudanças seja confissão das desesperanças de nossa gente, o que é fato muito sério e preocupante.

A descrença e a desmoralização da política é ingrediente que nos permite entender parte deste fenômeno. Como muitos não acreditam mais em ninguém, propostas mais ousadas e inovadoras de gestão e organização da cidadania não são bem acolhidas. A maioria prefere, então, acomodar-se aos benefícios do conhecido, do mesmo, do mínimo. A maioria prefere “viver de realidade”, não permitindo lutar por novas perspectivas de vida e de mundo. Triste assim!

Para quem defende a cidadania ativa, a organização coletiva, a criticidade e a reflexão como ferramentas de transformação da realidade, eis o dilema: o que fazer com uma ampla maioria que não acredita em mudanças. O que fazer com aqueles que fazem apenas jogo interesseiro para salvar seus privilégios. O que fazer para retomar a importância dos desejos, dos sonhos e das utopias como ingredientes para não desesperar.Historicamente, sempre foram poucos os que arquitetaram e lançaram as bases das mudanças significativas das sociedades e do mundo. Estes poucos, hoje mais do que nunca, precisam fortalecer-se para superar barreiras de pessimismo e desesperança.A vanguarda dos sonhos e das utopias sempre esteve sob a responsabilidade de poucos!

Combato a desesperança propondo novas ações, recriando meus desejos, sonhos e utopias. Acredito em mudanças, pois sei que os desejos dela ainda estão por aí. Os espaços coletivos, os pequenos grupos e as parcerias não nos deixam desesperar! Um grupo, um coletivo fortalece os ideais de mudança. As grandes mudanças nunca chegam de cima, sempre são forjadas de baixo e de dentro de cada um de nós, em relação com os outros.

Ativismo, uma necessidade! – Sueli Ghelen Frosi

Ativismo é uma palavra de peso! Ela representa práticas que pretendem transformações da realidade, saindo da especulação pura e simples, para a atuação quase sempre visível. Há ativistas anônimos, como todos nós que reciclamos, economizamos, cuidamos do que temos com zelo e responsabilidade.

Quero falar do ativismo escancarado, aquele que presenciamos todos os dias e grita nossas mazelas. Não dá pra imaginar um mundo sem a interferência dos ativistas ambientais, dos Direitos Humanos, das mulheres, dos índios, quilombolas, grupos LGBT, pelas crianças e idosos, enfim, são grupos que incomodam, e como!

A jornalista Adriana Carranca lançou o livro Malala, a Menina que Queria Ir para a Escola (Companhia das Letras), em uma reportagem que retrata a menina de dezesseis anos, paquistanesa, baleada dentro de um ônibus, em 2012, por um grupo radical paquistanês, por querer estudar.

Malala representa as mulheres confinadas em casa, enroladas dentro de burcas, mantidas longe do convívio social e das escolas. Há países conseguindo regredir ao tempo dos califados, tentando reeditar seus princípios. Mas o movimento silencioso dessas mulheres no sentido de libertarem-se das imposições é uma realidade.

[pull_quote_center]O ativismo feminino é transformador. No ocidente do século XX, as mulheres conquistaram o direito de votar, de estudar, de trabalhar ao lado dos homens, de conquistar um lugar em todas as instâncias sociais e políticas, tendo hoje todos os seus direitos assegurados. Há ainda resquícios machistas, que tolhem os plenos direitos que elas conquistaram com tanto fervor.[/pull_quote_center]

O que está em marcha no oriente é muito mais difícil, mas as mulheres como Malala, mesmo tão novinha, formam um exército cuja atuação é inexorável. A visibilidade de Malala é um golpe na falta de tolerância e em direção à paz. As mães oprimidas lutam por seus filhos e filhas. Uma mãe que consegue estudar não admite ter filhos ignorantes. As mães alfabetizadas alfabetizam seus filhos. As mães que têm acesso a livros, alcançam o conhecimento aos filhos.

Os movimentos das mulheres são constantes e irreversíveis. As médicas, engenheiras, sociólogas, psicólogas silenciadas no oriente não estão paradas. Elas estão encontrando jeitos que produzem filhos como Malala. A coragem juvenil tem uma origem, que certamente parte de mães que lutam por seus filhos.

Há que ter esperanças enquanto houver mães. A ingerência feminina na vida dos filhos é uma força poderosa. Negligenciar essa força é condenar o mundo à degradação em todos os níveis. São as mulheres que impulsionam as mudanças necessários em direção ao desenvolvimento humano.

Devemos reverenciar o ativismo. Sem os ativistas chatos, persistentes, cuja tenacidade incomoda tanto, o mundo seria muito mais poluído, as mulheres não teriam nenhuma voz e nem vez, as leis seriam favoráveis apenas ao que é imediato e útil.

A exemplo de Miriê Tedesco, a nossa pensadora empreendedora, que colocou a boca no trombone na semana passada, em favor dos que geram empregos e são tão sacrificados pelas políticas econômicas, assim como dos desempregados vítimas da tão propalada crise, devemos ficar atentos e não nos acomodar ao o status quo, que cerceia, que limita nossa atuação cidadã, reagindo cada um na sua área de atuação.

O mundo tem um símbolo de luta. Em qualquer atividade humana devemos olhar para a frente, para o novo, para o desenvolvimento das potencialidades de todas as pessoas.

Malala quer estudar e está estudando, apesar de tão requisitada para gritar o que as mulheres querem. A liberdade é a bandeira maior de quem pensa e contribui com a evolução humana.

Reciclagem: basta ser politicamente correto? – Sérgio Augusto Sardi

Em geral, as pessoas desejam hoje ser politicamente corretas em relação ao meio ambiente. Mas, pensam elas por si mesmas ao pensarem assim? Ser “politicamente correto” é suficiente?

Ouvimos dizer em toda parte, por exemplo, que a reciclagem é a solução para o lixo que se acumula em todo o planeta, além de poupar os recursos naturais. Isso está parcialmente correto. Porém não se trata da solução, mas de parte dela, e talvez de uma parte bem pequena. Pois não nos damos conta de que a reciclagem também consome energia e gera resíduos, muitas vezes tóxicos, além de não ser praticável de forma eficiente com alguns materiais. Além disso, é precária a reciclagem do lixo gerado durante a produção de uma mercadoria, e nos preocupamos apenas com o resultado final, ou seja, a mercadoria já fabricada, essa que consumimos em nossas casas. Sim, reciclar é importante, mas não é a solução.

Isso se torna mais grave quando julgamos que a reciclagem resolverá todos os problemas relacionados com a produção desenfreada de mercadorias e à geração de lixo. Pois, no fundo, estaríamos apenas justificando que mantenhamos o ritmo atual de depredação da natureza, de transformação dos recursos naturais, de consumo e de descarte, e o consumismo desenfreado, para nos mantermos livres de culpa. Se pensarmos que essa é a solução final, continuaremos produzindo e consumindo de forma linear, que se caracteriza pela extração dos recursos, transformação pela indústria, comercialização, consumo do produto final e descarte na forma de lixo. Na natureza, porém, não há produção de lixo, pois ali tudo é cíclico. O que vem da natureza é a ela devolvido e volta a participar da teia da vida.
A reciclagem, sim, é importante, pois ela pode amenizar o impacto da produção sobre o meio ambiente. Mas nem de longe é a solução para a exigência de uma produção e consumo sustentável. É preciso muito mais.

A reciclagem consome energia e gera resíduos. Reciclar é importante, mas não é a solução dos problemas ambientais e sociais do mundo.

A crescente perda da biodiversidade segue em ritmo acelerado. Geralmente pensamos na preservação apenas na medida em que determinadas espécies são úteis ao ser humano, ou se tornaram meros símbolos de preservação, ou por interessarem à indústria biogenética. Os oceanos se tornaram depósitos de dejetos. A água potável é cada vez mais escassa. Desastres nucleares e derramamentos de petróleo no oceano, dentre outras catástrofes ambientais causadas pela intervenção humana, são possibilidades iminentes. O degelo dos polos segue acelerado. A desertificação do planeta avança, sem contar os desertos verdes da indústria de celulose. Enquanto isso, o movimento ambiental, assim como ações isoladas em defesa do meio ambiente, embora imprescindíveis, parecem apenas adiar o que seria aparentemente inevitável, a considerar a tendência mais forte em curso, esta regida pela lei do lucro.

Tratado como conjunto de recursos naturais, o meio ambiente é visto como um espaço de depredação em busca de lucro e poder. O consumo de mercadorias resume o sentido da vida em nossos tempos. O stress cotidiano é a regra, e as relações propriamente humanas são aos poucos substituídas por processos artificiais. De tanto vivermos em um mundo artificialmente arquitetado, inicia-se um processo de esquecimento da integração e da responsabilização do ser humano para com a vida como um todo.

Há algo no coração do sistema que não ousamos tocar. Talvez porque isso exigiria mudanças profundas de comportamento e, inclusive, de valores e de percepção. Um exemplo importante é o caso do consumismo e da “obsolescência planificada”, ou seja, a produção de mercadorias destinadas a ir, em pouco tempo, para o lixo, acelerando ainda mais o consumo. Fazemos parte disso tudo.

Para atingir o núcleo deste sistema predatório e resgatarmos o sentido de nossas vidas, que valores deveremos afirmar? Que valores deveremos negar? Que atitudes deveremos construir?

Estupros em intervalos – Ingra Costa e Silva

O que você faz em dez minutos? Perguntei a alguns amigos e ouvi coisas aleatórias. Porém todos dividiam a mesma opinião: dez minutos é muito pouco tempo. Passa muito rápido! É o tempo de organizar a gaveta de meias ou a mesa do escritório. De esquentar água e fazer uma miojo. De abrir uma notícia em um site, correr os olhos e tecer um comentário (e publicar). E já e foram os dez minutos. E já se foram mais dez e mais dez…

Seissentos segundos. Esse é o intervalo entre um estupro e outro no Brasil. A cada dez minutos uma pessoa é violentada sexualmente no nosso país. Esses dados assustadores foram declarados pelo estudo mais recente do Ministério da Justiça, que aponta que 50 mil mulheres são estupradas por ano no Brasil.

Os números são apavorantes e correspondem a 26,1 estupros por grupo de 100 mil habitantes. No Rio Grande do Sul são 18,4, estupros por grupo de 100 mil habitantes. Esses números de ocorrências registradas, por sua vez, não contemplam todos os casos que acontecem. Milhares deles são abafados e ficam escondidos envoltos em um mar de vergonha e culpa. Em até 65% dos casos o agressor é familiar ou conhecido da vítima.

Infelizmente os brasileiros fazem questão de perpetuar a cultura de estupro, que nada mais é que o fato de tirar o foco do criminoso e colocar na vítima. Recentemente na cidade de Castelo, no Piauí, quatro adolescentes foram brutalmente violentadas por jovens com a idade semelhante à delas. Uma das meninas não resistiu e morreu. Na cidade de Passo Fundo, norte do Rio Grande do Sul, duas jovens estupradas por homens que ofereceram carona depois de uma janta. Todas disseram não.

Nenhuma foi ouvida.

Depois de terem suas vidas destruídas e no caso de uma delas, interrompida, recebem o pesado fardo da culpa pelo que aconteceu. Afinal de contas, elas não deveriam ter conversado com os estranhos, elas não deveriam estar ali, elas não deveriam usar shorts tão curtos (pouco importa se fazem 40ºC), elas que foram putinhas. Isso mesmo, putinhas. É assim que homens do alto de sua experiência com assédio se referem às meninas que tiveram seus corpos violados e adentrados contra a sua vontade.

Os mesmos homens que não titubeiam ao dizer que seu o estupro é o seu maior medo caso sejam presos um dia. Dias atrás, em um vídeo aleatório sobre tatuagens,  um homem que removeu a tattoo de uma mulher nua nas costas porque ia passar alguns meses na prisão. Seu maior medo: o estupro.

Esses mesmos homens que apontaram para as meninas que sofreram estupro se tivessem tomado conhecimento de um caso igual, mas com as vítimas MENINOS, teriam começado uma cruzada em busca do bandido.

Nem passa pela cabeça falar que meninos de respeito não pegam carona. Esses homens nunca falariam que os meninos foram putinhos e provocaram, pois como li num dos vários comentários babacas que vejo por aí de um homem sobre o caso: “se pegaram carona sabiam que ia ter”. Esse, meu amigo, é o pensamento de um estuprador.

Quando eu pego carona a única coisa que sei e que espero ter é transporte.

Fui obrigada ainda a presenciar mulheres que diariamente colocam a música no último volume em seus fones para não ouvir comentários sobre seu corpo (isso é assédio!), mulheres que perdem alguns minutos do dia tendo que pensar qual trajeto fará para poder escolher uma roupa “menos estuprável”. Ouvir uma acusação dessas (não que ser puta seja um problema, mas isso fica pra outro dia) de mulheres que, assim como essas meninas sentiram frio na nuca só de imaginar alguém não respeitando o seu não. Fazer isso, irmãs, é cuspir no espelho.

E o não destas meninas, destas mulheres, destas irmãs, não foi respeitado.

Estuprum, em latim, significa relações culpáveis. Sua palavra derivada, estupro, é explicada no dicionário mais famoso da língua portuguesa como crime que consiste no constrangimento a relações sexuais por meio de violência; violação.

Como para muitas pessoas é preciso desenhar para entender, há alguns meses a blogueira Rockstar Dinosaur Pirate Princess postou um pequeno vídeo aonde explica, usando uma metáfora com uma xícara de chá, que relações sexuais se houver consentimento. A produção do vídeo é da BlueSeat Studios, com animação de Rachel Brian e narração de Graham Wheeler. No vídeo Chá e consentimento fica muito mais fácil entender, já que você prepara uma xícara de chá e oferece para a sua acompanhante. Se ela disser que sim, sirva uma xícara para ela. Se disser que não, não a obrigue. Se inicialmente ela estava empolgada com a ideia de tomar um chá, mas depois hesitou não a force. Se antes de dormir ela queria e de manhã não, não insista. Se estiver inconsciente, nem tente. Se quando entrou no carro ou aceitou a companhia os planos eram tomar chá, mas depois a vontade passou, não continue.Essa metáfora pode parecer boba, ma se ninguém obriga o outro a tomar chá, porque tem que obrigar a fazer sexo?

Eu fui criada a me esconder, a me cuidar. Mas e os meninos? São bichos com instintos incontroláveis e as mulheres devem se esconder para não incomodá-los ou sofrerão as consequências sem direito de reclamar? Não é legal ter medo sempre que sai sozinha. Não é legal saber que por eu estar com uma calça colada indo pra casa a noite, depois da academia, eu mereço ser estuprada. Não é legal sentir um frio na espinha quando percebe que tem um homem andando atrás de você? Sabe aquele medo que vocês têm de ser estuprados se um dia por ventura em algum momento da vida forem presos?

Nós temos esse medo todos os dias. E não é uma hipótese, é na vida real. No caminho do trabalho. No caminho da escola. No caminho da balada. Na carona do amigo. No quarto ao lado. Na casa do lado. Toda hora. E a cada dez minutos, o medo vira terror.

Atualmente a pena no Brasil é de 6 a 10 anos de reclusão para o criminoso, aumentando para 8 a 12 anos se há lesão corporal da vítima ou se a vítima possui entre 14 a 18 anos de idade, e para 12 a 30 anos, se a conduta resulta em morte.

De acordo com o artigo 213 da Lei nº 12.015, de 2009 o estupro é considerado crime hediondo e está entre os mais violentos. O crime pode ser praticado mediante agressão ou quando praticado contra menores de 14 anos, alienados mentais ou contra pessoas que não puderem oferecer resistência. Isso inclui drogar (lembrando que álcool também é droga) uma pessoa para manter com ela conjunção carnal, pois a vítima não pode oferecer resistência e configura crime de estupro praticado mediante violência presumida.

Enquanto você lia esse texto, ao menos uma pessoa foi obrigada a tomar chá.

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