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Chapeuzinho Vermelho

No dia em que Chapeuzinho Novermelho completou dezoito anos, sua mãe decidiu presenteá-la com a Certidão de Emancipação.

– Assim ficará dona de si, falou para seus botões.

Feliz com o presente, prontamente foi ao banco para retirar, mediante Procuração, a aposentadoria de sua vó. Quase esquecida de todos, a nona morava num bairro muito distante e já não tinha mais condições de tomar um ônibus para sacar a aposentadoria.  A neta, de ora em diante, faria o trabalho para a vó. Foi daí que planejou mudar as coisas, buscando humanizar as relações com a dama da melhor idade. Pensando alto disse para si:

– Se comprar faz bem, é hora de fazer um rancho completo, reformar o guarda-roupa, comprar algumas joias. A vó ficará tão contente!

Repetidamente, dizia às amigas:

– Como não há mal que sempre dure e nem bem que não tenha fim, um dia choverá em minha horta.  Enfim!

Ainda muito dentro dos seus sonhos, Novermelho produziu-se toda. Vestindo a melhor roupa e calçando o salto mais alto, muito linda ela ficou. Porém, antes de sair de casa, mais uma vez teve que ouvir os eternos conselhos da mãe:

– Minha filhinha do coração, ao falar com estranhos, por favor, não liga prá conversa fácil. Em caso perigo iminente, segura o tchã com rédeas curtas, amarrando-o com uma camisinha de força.

Novervelho tinha um coração muito grande, mas, nestas situações, ficava bocuda e intolerante:

– Não enche o saco, mãe! Sei muito bem o que devo fazer. Estou emancipada. Não te deste conta?!…

Na fila do banco, Novervelho brilhava como as pedras preciosas e como flores, embelezava e perfumava o ambiente. Lobato viu tudo e não se conteve. Louco de paixão a primeira vista, disse para si mesmo:

– Até que enfim encontrei a mulher ideal, isto é, a dos meus sonhos!

Lobato vestia um terno verde e bem alinhado. Tinha um corte de cabelos curtos. Pele linda. Lábios carnudos.

– Um verdadeiro príncipe! Doce como mel. Um perfil de homem sedutor, diziam as amiga de Novermelho sobre Lobato.

Tomando coragem, o homem aproximou-se de Novermelho, pedindo licença para presenteá-la com um coquetel de palavras mágicas e regadas com o perfume de rosas silvestres.  Ela permitiu.

– Pois não.

– Princesa dos meus sonhos! Podes crer que és mais linda do que as rosas, mais preciosa do que os diamantes e mais encantadora do que o arco-íris!

Estranhando a ousadia do homem e tocada pela força das palavras, Novermelho, quase nada conseguiu falar. Ao sair do banco, pôs-se a radiografá-lo com olhares verticais.  Viu-o fraco, frágil e trêmulo nas mãos, nas pernas e nos lábios. Mas o amor pareceu-lhe ter vindo tão íntimo e tão à flor da pele. E ele continuava sua luta com as palavras:

– Milhares de olhares voltam-se para ti.  No entanto, meus olhos e meu coração podem ver tuas duas almas: a de fora e de dentro.

Daí veio um pequeno silêncio. Depois, raros olhares, dispersos e difusos. Enfim, a realidade. E ficaram. Decidiram ir ao shopping para passeio e compras. Não àquele indicado pela mãe de Novermelho. Foi daí que Lobato propôs:

– Conheço coisa melhor. O outro é menos perigoso, mais próximo, moderno e repleto de espelhos.

Lá subiram e desceram pelas escadas de Babel. Viajaram pelos labirintos de Borges. Subiram para o céu de Zeus e desceram para o “hades” de Dante.  E tudo foi tão rápido! Assim que deu, em si, nada conseguiu comprar, como prometera a si às outras. Iludida com seu homem e com seu baixo poder de compras, pensou três vezes e disse:

– Teu plano foi lobático!  Vejo que, apesar da passagem do tempo e do vento, homens e mulheres continuam repetindo a antiga história de Chapeuzinho Vermelho.

– Será mesmo! Nunca pensei nisso, disse Lobato.

Novermelho disse para si mesma:

– Capitu tinha lá suas razões!

Era uma vez uma mulher que ficou com um homem que nunca mais a quis.

Escola e família: modificações positivas na vida dos sujeitos

O comportamento humano não é algo dado ou meramente natural da espécie, mas é produzido e transformado pela atividade do próprio homem, de forma coletiva. Portanto, assumir a natureza social do desenvolvimento humano significa dizer que sua dimensão orgânica é impregnada pela cultura, ou seja, a família tem um papel importante na vida do sujeito, mas não determinante.

As desigualdades dos cidadãos que se fundamentavam na diferença das classes sociais reaparecem atualmente sob a forma de desigualdade das capacidades intelectuais, como se a falta de dinheiro fosse condição para a falta de inteligência.

Podemos fazer uma analogia da relação da escola com os alunos segundo a visão de Aristóteles a respeito do escravo onde ele diz que: homem é um “animal é constituído de alma e corpo, para o corpo é natural e conveniente ser governada pela alma”. Para ele o corpo seria representado pelo escravo e a alma pelo senhor. Ou seja, somente tem direito a uma vida intelectual o senhor que desfruta de uma vida farta e teria tempo livre para o ócio e uma vida contemplativa. O escravo por não ter tempo livre, pois a ele são delegadas as funções de manutenção do status do senhor, então este não teria alma, pois esta estaria ligada as questões do saber.

Será que esta relação não se estabelece ainda hoje? A condição econômica dos alunos se coloca como fator preponderante no processo da educação, não tem dinheiro, logo não tem alma, logo não tem direito a uma educação de qualidade. Podemos constatar esta relação quando comumente dentro do contexto escolar ouve-se por parte de direção e professores a fala de total desistência em relação aos alunos “eles não querem nada com nada, não se interessam por nada”, “não querem aprender, os pais mandam para a escola por causa do Bolsa Família”. De certa forma não trocar de lugar, não mudar de ideia, operar de acordo com os pré-conceitos, pode parecer confortável a todos, ou seja, onde há fragilidade há dominação e manipulação.

A família, entendida como o primeiro contexto de socialização, exerce enorme influência sobre a criança e o adolescente. A atitude dos pais, suas práticas de criação e educação, e a atmosfera cultural vivenciada no ambiente doméstico são aspectos que interferem no desenvolvimento individual e, conseqüentemente, influenciam o comportamento da criança na escola, bem como o resultado que ela irá atingir.  (OLIVEIRA; REGO, 2002. p.5) Pensando em um contexto fraco de estímulos e perspectivas, a educação trará a possibilidade da construção de uma história diferente da protagonizada pelos pais.

Não podemos deixar de pensar a relação familiar e a importância desta na vida escolar das crianças, porém, podemos pensar a escola sem esta, ou pensar uma escola que se mobilize no sentido de aproximar a família na vivência escolar, pois a falta da participação dos pais não pode se colocar como mais um desculpa, dentre muitas, para que a escola desista de desempenhar seu papel em construir cidadãos, ou pelo menos se esforçar para que alguma modificação positiva aconteça na vida dos sujeitos que a ela foram entregues.

Escolarização e constituição dos sujeitos

A escolarização desempenha um papel fundamental na constituição do indivíduo. O fato do indivíduo não ter acesso à escola significa um impedimento da apropriação do saber e de um instrumento de atuação no meio social e de condições para a construção de novos conhecimentos. Porém, não podemos pensar que a freqüência da criança na escola seria suficiente para apropriação do saber. Este saber dependerá entre outros fatores de ordem social, política econômica, e da qualidade do ensino oferecida.

Nesse sentido, fica a cargo da escola possibilitar uma vivência social diferente a do grupo familiar, tendo um relevante papel, o de oferecer a oportunidade à criança de ter acesso a informações e experiências novas e desafiadoras capazes de provocar transformações e de desencadear processos de desenvolvimento e comportamento.

O comportamento humano não é algo dado ou meramente natural da espécie, mas é produzido e transformado pela atividade do próprio homem, de forma coletiva. Portanto, assumir a natureza social do desenvolvimento humano significa dizer que sua dimensão orgânica é impregnada pela cultura, ou seja, a família tem um papel importante na vida do sujeito, mas não determinante.

De acordo com o modelo histórico-cultural, os traços de cada ser humano estão intimamente ligados ao aprendizado, ressalta-se aí o papel da escola. O comportamento e a capacidade cognitiva do individuo dependerá de suas experiências, de sua historia educativa. A singularidade do individuo não resultará apenas de fatores isolados (ex: exclusivamente da educação familiar, do contexto socioeconômico), mas sim de uma multiplicidade de influências que recaem sobre o sujeito no curso do seu desenvolvimento.

Segundo Vygotski (1984, p. 99) o aprendizado é o aspecto necessário e universal, uma espécie de garantia do desenvolvimento das características psicológicas especificamente humanas e culturalmente organizadas.

O julgamento sobre a possibilidade de desempenho das crianças terá sérias consequências podendo ser, muitas vezes, determinante para o prosseguimento da escolaridade, pois pode modificar e até mesmo deteriorar profundamente as relações da criança com a possibilidade do sucesso na escola e na vida.

Lacan (Revista Educação, n° 9, p. 22) acredita haver ensino somente quando aquele que ensina desencadeia algo no outro, ou seja, quem ensina tem sempre que pagar um preço: por um pouco de si. Só é ensino verdadeiro aquele que consegue despertar uma insistência naqueles que escutam, este desejo de saber só pode surgir quando ele próprio (o aluno) toma a medida do possível, a apropriação deste desejo pelo conhecimento.

O tipo de escolarização vivenciada (propostas pedagógicas desenvolvidas, o perfil do professor e o modo como lida com o conhecimento e com os alunos, tipo de tratamento e expectativa depositada no estudante, possibilidades de interação com os colegas, a experiência nos planos social, cultural, artístico promovidas ou possibilitadas pela instituição) é um fator importante na definição da natureza e do impacto sobre o indivíduo.

Referências

CORDIÉ, Anny. Os atrasados não existem. Porto Alegre: Atmed, 1993.
CANDAU, Vera Maria (org.). A didática em questão. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1997.
OLIVEIRA, Marta Kohl; SOUZA, Denise; REGO, Teresa Cristina (org.). Psicologia, Educação e as Temáticas da Vida Contemporânea. São Paulo: Moderna, 2002.
Revista Educação, n°9. Especial Lacan Pensa a educação. São Paulo: Editora Segmento, Ano II.

Educação ambiental e pedagogia do amor

A educação ambiental inicia como educação da uma interioridade que gesta a sua comunhão com a exterioridade. E se faz consciência da pertença à teia da vida, em conduta amorosa e ativa, religando o cuidado de si ao cuidado com o derredor. Quem ama, cuida. Não porque necessita cuidar, mas porque deseja.

Diante da miríade de detalhes maravilhosos que compõem a caixa de jóias de cada ecossistema da Terra; em meio às conexões onde a vida se manifesta em sua teia de infindáveis possibilidades; perante a surpreendente beleza da arquitetura do cosmos… há a resposta de quem contempla e medita sobre o bem, o sentido e a gratuidade da existência. Exercício espiritual de quem vivencia uma emoção fundamental que religa o seu universo interior ao mistério da vida e, assim, educa a si mesmo para aprender a amar.

O amor é um sentimento que expressa uma ligação profunda, uma pertença, um envolvimento. Quem ama, cuida. Não porque necessita cuidar, mas porque deseja, porque se percebe conectado e reconhece em sua própria existência e na existência de cada ser vivo uma obra de arte inigualável. Quem ama, admira. Por isso, toma a iniciativa de tornar-se melhor por saber que a vida é um acontecimento de valor infinito. Amar é um modo de sentir profundamente a existência, e de contemplar a interdependência de todos os seres. Quem ama confere espontaneamente a cada um dos seus atos uma responsabilidade autônoma, e não necessita que outro olhar o vigie.

A educação reside neste trabalho cotidiano de criar a si mesmo, quando, mais que apenas racionalmente, corações e mentes estão engajados na tarefa de construção de sentido, buscando tornar o tempo da vida uma obra de arte. A educação ambiental inicia, assim, como educação da uma interioridade que gesta a sua comunhão com a exterioridade. E se faz consciência da pertença à teia da vida, em conduta amorosa e ativa, religando o cuidado de si ao cuidado com o derredor. Ao transmutar a significação que pomos em nossas ações, observamos o modo como elas simultaneamente nos transformam. Para ver a natureza como a nossa morada, e prepararmos o mundo para as gerações futuras.

A educação ambiental que se faz por uma pedagogia do amor exigirá, então, mais que informações sobre espécies, ciclos e processos vitais, a vivência da natureza. Conhecer para amar, e amar para conhecer: eis o círculo do sentido humano do conhecimento. De um conhecimento que é prazer, pois confere valor àquilo que assim reconheceu como significativo.

Educação do olhar, do sentir, do escutar, do sensibilizar-se, que não mais domina, mas integra-se. Educação da razão, que não apenas explica, mas se põe a serviço da tarefa de constantemente reaprender a amar. Educação do desejo, que não possui, mas oferece. Educação interior e ambiental que principia por aprender a ver a vida com carinho, e se consolida em uma ética do cuidado.

Pois nos habituamos a observar uma flor, uma árvore, um inseto, cada ser vivo, a própria vida do planeta como se fossem objetos ao nosso dispor; como se estivéssemos, em nosso íntimo, apartados, distantes de tudo. Mas o ambiente não está apenas à nossa volta: em nossa carne vivenciamos a vida do mundo. A condição humana, nesta distância, torna-se meramente artificial. E o imaginário do futuro é reduzido à ideia de que a evolução tecnológica seria suficiente para nos tornar plenamente humanos.

Começamos a nos educar quando passamos e exercitar a admiração pela beleza da vida, não como turistas, mas como nativos que dividem o seu território, o seu ambiente exterior e interior com os demais seres que o habitam. Quando, então, amar e respeitar se tornam ações compartilhadas. E hábitos são transformados a partir de um contínuo trabalho interior.

As crianças parecem ser espontaneamente abertas a este amor que se renova e cresce incessantemente no exercício cotidiano de brincar de ver com carinho. Poderemos aprender com elas. E este aprender é também por amor a elas, a quem pertence o futuro. Pois uma ética do cuidado de si e do ambiente se completa com uma ética do cuidado do outro. Talvez possamos, com isso, reinventar o imaginário do futuro, iniciando pela reinvenção do presente, com o exercício da visão da beleza e do mistério da vida.

Feira ecológica e de economia solidária da UPF afirma a responsabilidade social da Universidade

A Universidade de Passo Fundo (UPF), por meio de sua Política de Responsabilidade Social 2013/2016, reconhece-se como parte da comunidade e trabalha com ela na promoção dos direitos coletivos, que pressupõem condições de vida digna, reconhecimento da cidadania, da convivência com as diferenças e enfrentamento de violações que prescindem de solidariedade e urbanidade. Assim, a UPF procura realizar ações nos diversos âmbitos de atuação (ensino, pesquisa e extensão), estabelecendo parcerias com várias instituições.

Uma dessas iniciativas, desenvolvida em 2015, foi a realização de quatro edições da feira ecológica e de economia solidária no campus I, como resultado da mobilização de estudantes após discussão sobre o tema alimentação saudável. A proposta surgiu como uma estratégia da comunidade acadêmica, elaborada pela Comissão de Alimentação do Fórum de Estudantes UPF, com o apoio do Diretório Central de Estudantes, possibilitando a oferta de produtos agroecológicos e de economia solidária para toda a comunidade acadêmica.

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Com base nas discussões do Fórum de Estudantes UPF, promovido pela Reitoria, foi constituída a comissão que, apoiada por funcionários da Divisão de Extensão e por professores, promove debates acerca de uma proposta de alimentação saudável e para além da relação custo versus produto, pretendendo fomentar uma nova política de alimentação baseada na segurança alimentar.

A Constituição federal brasileira, em seu artigo 6º, institui que o acesso à alimentação é um dos direitos sociais, sendo dever da família, da sociedade e do Estado assegurá-la à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, como disposto no artigo 227. No entanto, para a concretização do direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente e sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, as normas do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional destacam que é preciso fazer uso de práticas alimentares promotoras de saúde que respeitem a diversidade cultural e que sejam ambiental, cultural, econômica e socialmente sustentáveis.

Nesse sentido, ações de educação alimentar e nutricional que visem à promoção do direito humano à alimentação adequada devem ser estimuladas, assim como parcerias entre instituições públicas e privadas para o enfrentamento dessa realidade. Discussões sobre resgate da cultura regional, valorização de frutas nativas e alimentos típicos e estímulo à alimentação saudável devem ser oportunizados nos espaços da universidade.

Sob essa perspectiva, diversas articulações, aproximando projetos de extensão e iniciativas dos cursos da universidade, reuniram participantes do Programa de Extensão Comunidades Sustentáveis e do projeto Fazendo a Lição de Casa, ambos vinculados ao Centro de Ciências e Tecnologias Ambientais, e agregaram os integrantes do projeto Extensão Universitária e Trabalho Decente: assessoria em economia solidária, vinculado ao Núcleo de Economia Solidária. Também participa do grupo de trabalho, o Núcleo de Estudos em Agroecologia, criado a partir de um edital do CNPq e do Ministério de Desenvolvimento Agrário, que se constitui em um fórum de estudo e discussão constante sobre agrobiodiversidade e agroecologia, procurando atender os interesses dos agricultores e da população demandante e consumidora, estabelecendo a produção e troca de sementes, de plantas medicinais e de frutas nativas, estimulando o uso de insumos para uma produção ecológica. Em algumas edições, também integra a feira ecológica e de economia solidária, o projeto BookCrossing UPF, que participa com seu troca-troca de livros e incentiva a “libertação” das obras já lidas da estante para os espaços públicos.

Aprovada pela Fundação Universidade de Passo Fundo, a feira ecológica e de economia solidária acontece às terças-feiras, das 11 horas às 17 horas, em duas edições por mês.

Tendo em vista que promover o diálogo sobre o assunto é peça fundamental para o avanço da construção de uma política alimentar que atenda às necessidades de um projeto sustentável demandado pelos estudantes, as edições da feira ecológica constituem-se em um espaço de sensibilização e formação para a comunidade acadêmica, no sentido de fortalecer ações de responsabilidade social, econômica e ambiental.

Professora Elisabeth Maria Foschiera
Acadêmica Monique Tartas

Fotos: Alexandre Hahn e Monique Tartas

Drogas legais no Brasil: o caso do açúcar

Se continuarmos a dar sentido a nossa vida pela boca que não para, terminaremos destruindo com o único “templo” mais importante de cada ser, ou seja, o seu próprio corpo. Essa geração sonha com cirurgias plásticas para poder conquistar rapidamente o corpo idealizado pelo mundo fictício da moda e da propaganda.

O açúcar é uma droga? O que consideramos alimento? Um debate necessário….
Lembro quando era criança e minha avó adoçava o Nescau. Na minha casa, eu tinha pouco acesso ao açúcar refinado, era hábito da minha mãe nos ensinar a sentir o sabor natural dos alimentos. Quando minha avó adoçava o Nescau, eu sentia o quanto aquela substância aparentemente realçava o sabor das coisas.

Descobri que o açúcar transformava um simples chá em um melado excelente (que nos períodos de férias de verão, se transformava em ótimos picolés, bastando encher as formas de gelo com este melado de chá e colocar pequenas colheres de metal em cada quadradinho). Sem falar no café frio que eu descobria em uma pequena garrafa térmica vermelha, que poderia ser transformado em outro tipo de melado, que de tão saboroso, podia ser tomado de colherinha (e passava a curtir uma tarde de alta ansiedade por causa da cafeína, sem nem saber direito os efeitos). Logo depois vieram as balas de menta e os chicletes Ping-Pong. Gastava todos os centavos que ganhava em doces.

Na minha infância, míseros cinco reais, compravam: caixa de bombom, refrigerante e salgadinho. E ainda sobravam moedas para comprar balas e chicletes. Em outras palavras, posso afirmar: Sou um viciado em açúcar. Um vício tão forte, que ainda hoje me sinto desconfortável quando não tenho chocolate na dispensa ou vai chegar o final de semana, e não tenho reserva estratégica de chocolates em casa. Assustador, né? Quantos leitores são como eu? O ponto que desejo discutir é: Qual a diferença do vício em drogas ao vício em alimentos? Qual deles causa mais danos a saúde? Qual deles causa mais mortalidade?

Muitos dizem que o açúcar é energia e, por isso, é alimento. Mas ninguém diz os problemas resultantes do seu uso indiscriminado. Somos uma geração que consumimos gordura, sal e carboidratos em uma louca abundância, e claro, açúcar. Levei anos para diminuir o consumo exagerado desta última substância. Mas é cada vez mais difícil comer sem que tenha altos níveis de açúcar e sal já inserido na fórmula dos alimentos.

E o que vejo hoje em relação aos alimentos consumidos pela próxima geração? Vejo crianças cada vez mais expostas ao consumo abusivo de tudo o que não é alimento (São embutidos de sal, amido de milho frito, com conservantes, imitações de sabores, muito, mas muito açúcar). No meu tempo (nasci em 1983), tomar refrigerante, consumir sorvete e biscoitos era luxo reservado a dias e datas específicas. Hoje? Bom, hoje esses artigos são comprados em grande quantidade e considerados “alimentos” para as crianças. Estão todos os dias na geladeira e nos armários das casas.

Essa geração leva para escola “lanches” que antes eram considerados sobremesa ou literalmente “bobagens”. Acredito que as crianças tenham atualmente mais acesso a doces açucarados e industrializados do que acesso a frutas e legumes, sendo os últimos mais caros e de difícil acesso. Qual o problema disso? Aparentemente nenhum, já que o argumento dos pais é que “Meu filho gosta, né?”; “é gostoso e ele merece” ou mesmo “ele chora se não ganha”.

Não quero entrar aqui numa discussão sobre educação infantil, mas precisamos urgentemente discutir a alimentação de nossa geração, mas principalmente da próxima. As crianças estão trocando o leite materno por refrigerantes…

A obesidade infantil é algo tão absurdo que presenciamos diariamente o momento em que os pais dão Coca-Cola na mamadeira das crianças e nem paramos para pensar no absurdo que isso representa. No passado, temos relatos de pais que davam cachaça diluída em água na mamadeira dos filhos homens, já que beber era coisa de macho (Como foi a história do jogador Garrincha e sua absurda iniciação no álcool que o tornou um dependente químico). E quantos alimentos, doces e brinquedos incentivam as crianças a repetirem o hábito de vício dos adultos?

Sem falar nas crianças que fumam as “bitucas” dos cinzeiros quando os pais saem do recinto, pois é tão lindo fumar de forma elegante na frente dos filhos, não é verdade? Ou mesmo os filhos que podem beber a espuma da cerveja dos pais, quando os últimos estão bêbados e sorridentes. Mas e o açúcar? Ele é uma droga? Indicaria que os leitores pesquisassem na internet o quanto o consumo de açúcar diminui a atividade cerebral, alguns estudos inclusive comparam os efeitos ao consumo de cocaína. No mínimo, essa comparação nos faz refletir.

Ou seja, permitir que crianças antes dos 6 meses de idade comam biscoitos recheados até enjoar, que tomem suco de “néctar” aos litros (que nada mais são que chá de cascas com corante e muito açúcar, ou seja, não são sucos e muito menos são naturais), é um comportamento absurdo, pois já estimula a dependência química destas substâncias. Sobre esse assunto, indico um dos melhores documentários produzidos no Brasil sobre alimentação e propaganda para o público infantil, chamado: “Muito Além do Peso”, que está disponível no Youtube.

Se o açúcar e a gordura deveriam ser considerados drogas? Sim, sem dúvida. Mas o objetivo de incluí-los nesta categoria não tem o objetivo de reprimir e proibir, mas incluir numa categoria que informa sobre os perigos do consumo desta substância. Vejam os argumentos que utilizamos para os problemas das drogas ilícitas: Viciam, destroem a nossa saúde, nos levam a morte e acabam com nosso senso social de existência, a sua utilização em excesso é destruidor do organismo. Mas ainda assim, os teimosos dirão: Mas tudo que é utilizado em excesso faz mal. Hum… então me diga o quanto podemos usar de açúcar? Tentem tirar por apenas uma semana o açúcar refinado da sua alimentação e logo descobrirão que quase tudo que é industrializado possui açúcar refinado e que se realmente conseguirem, sentirão uma terrível abstinência.

Aprendi com minha mãe uma lição muito importante sobre qualquer substância química: “você consegue controlar seu uso quando está bem e feliz. Porém, basta ficar triste ou deprimido que você se “afunda no consumo”. Nos momentos de dor e tristeza, quando perde o equilíbrio de vida, o tão falado “controle” vai para o espaço e você literalmente mergulha no seu vício. E as pesquisas mostram que o consumo de doses de açúcar, café, álcool e cigarro estão profundamente relacionados ao estado emocional dos dependentes. Isso é a mais pura verdade. Dito isso, meu vício no açúcar não terá fim, serei sempre um dependente em recuperação. O ponto é: eu desejo isso aos meus filhos? Eu desejo isso ao futuro das crianças? Não!

Hoje procuro suprir sua falta com frutas doces e com alimentos açucarados naturalmente (açaí, damasco, passas de uva e mel). Mas vejo que o processo não é nada fácil. Mas eu não fui estimulado desde criança a consumir tudo e da forma que eu desejava. E por isso eu sei, que quando a próxima geração tem liberdade e falta de mediação no consumo abusivo desta substância, seus filhos, irmãos e neto talvez não tenham a mesma sorte que eu tive. Talvez o problema da obesidade no Brasil, problema que não para de crescer, se transforme em poucos anos em um processo irreversível. Se não discutirmos essas substâncias como drogas teremos crianças e famílias inteiras viciadas que comem açúcar na busca de aliviar seus problemas e angústias, encurtando suas vidas…

Se continuarmos a dar sentido a nossa vida pela boca que não para, terminaremos destruindo com o único “templo” mais importante de cada ser, ou seja, o seu próprio corpo. Essa geração sonha com cirurgias plásticas para poder conquistar rapidamente o corpo idealizado pelo mundo fictício da moda e da propaganda. E na tristeza, não esqueça, abra a felicidade que é vendida em lata…..e veja o seu filho bêbado de sono com as explosões de glicose em seu sangue, com dificuldade para caminhar e fazer atividades simples, afinal, gordura, sal e açúcar são “coisas que eles gostam”.

Brasil: maio de 2036

Só poderá contar a história quem participa dela! A geração dos jovens de hoje deseja antecipar o que no futuro será contado para as novas gerações não omitindo-se dos acontecimentos que constituem este momento histórico complexo e conturbado de nosso país.

Dedilhando sonhos: servindo o bem público e ajudando pessoas

Apresentamos a primeira entrevista da série, “Profissões Educadoras”, buscando através de um  olhar jornalístico oferecer ao leitor exemplos de pessoas que contribuem com a educação,  a partir da profissão que escolheram, compartilhando saberes. Nosso primeiro entrevistado da série é o juiz da Vara da Infância e Juventude de Passo Fundo, Dalmir Franklin de Oliveira Júnior.

dalmir_2Juiz desde 2001, fez faculdade na PUC, em Porto Alegre, e logo nos primeiros semestres do curso de Direito sabia  que seguiria a mesma profissão do  irmão mais velho, seria juiz de direito. Mesmo enfatizando que foi influenciado pela aspecto familiar,  destaca  que duas questões foram fundamentais para a escolha de sua carreira, primeiro,  queria trabalhar para o Estado, servindo e atendendo ao bem público e,  segundo,  desejava ajudar as pessoas. Foi na magistratura que conseguiu conciliar os desejos e transformou seu ofício em missão:  contribuir para melhorar a vida do outro. Já o gosto pela música o levou a realizar o sonho de trabalhar a arte com crianças e adolescentes no Case de Passo Fundo.

Márcia Machado: Frente a atual conjuntura do país, qual a contribuição de sua profissão à sociedade?

Juiz Dalmir: O juiz é um agente político atrelado a uma das funções do poder do Estado que é o Judiciário que tem por missão garantir o direito das pessoas, garantir o direito estabelecido na Constituição, nas leis, resolver os conflitos que existem na sociedade.

Márcia Machado: Em tempos onde tanto se discute a garantia de direitos, qual os desafios da sua profissão?

Juiz Dalmir: Passamos por mudanças grandes e acentuadas, importantes no Brasil, há sim, acesso maior ao conhecimento de maneira geral, à cidadania, à consciência da população em ter e ir em busca de seus direitos, o que aumentou muito a demanda judicial e aos processos judiciais. Nós temos muitas legislações protetivas de segmentos como Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e o Código de Defesa ao Consumidor, por exemplo. Esse acesso das pessoas ao conhecimento e à cidadania, proporcionou o aumento dessa demanda significativa, especialmente, na justiça comum, gerando um desafio permanente do judiciário em resolver tais questões e garantir os direitos em tempo razoável, dar respostas com qualidade e o mais rápido possível,  dentro de um universo muito grande de ação e, muitas vezes, sem estrutura, é  muito complicado.

“[…] garantir os direitos em tempo razoável, dar respostas com qualidade e o mais rápido possível,  dentro de um universo muito grande de ação e, muitas vezes, sem estrutura, é muito complicado”.

Márcia Machado: Percebe-se que um dos grandes desafios, hoje, na sociedade é a efetivação de direitos conquistados e a humanização do sujeito.  Enquanto magistrado como o senhor avalia e trabalha com tais matérias?

Juiz Dalmir: Existe a questão da efetividade de direitos, temos muitos direitos conquistados na lei que não são respeitados, não são realidades, claro, que o poder executivo é um dos atores do Estado que realiza políticas públicas e efetiva alguns direitos, porém, se o poder público não faz isso, o cidadão acaba recorrendo ao judiciário que é o último guardião em garantia destes direitos e torná-los efetivos.  A humanização decorre da visão de apesar de trabalharmos com papel, processos e petições, é a vida das pessoas que está por trás desses processos.  São os interesses das pessoas, que pode ser patrimonial, mas que representa muito na vida do cidadão, interesses de família, divórcio, guarda de um filho, pedido de alimentos, proteção de crianças e adolescentes, questões relevantes e importantes que ficam sob a responsabilidade do judiciário, e penso que o  juiz, necessariamente,  para tentar fazer  justiça, precisa ter compreensão  e entendimento da realidade, empatia, se colocar no lugar do outro para poder decidir. Tudo isso são elementos importantes para exercer a magistratura e da jurisdição.

“Humanização decorre da visão de apesar de trabalharmos com papel, processos e petições, é a vida das pessoas que está por trás desses processos. “

Márcia Machado: Essa visão humanista que o senhor diz ser necessária dentro do judiciário, como ela está inserida no seu trabalho como ela contribui  na educação das crianças e adolescentes ?

Juiz Dalmir: Dentro área da infância, da criança e do adolescente, nós trabalhamos com a perspectiva que esse sujeito está em fase de desenvolvimento e todo o investimento que se faz nesta pessoa é voltado para o carácter pedagógico e educativo, seja, na área da proteção quando  a criança e adolescente tem seus direito violados, de uma forma ou de outra, e precisa de proteção, claro, que essa proteção pode se dar em todos os níveis, pode ser  uma questão de saúde ou psicológica. Contudo, dentro da visão de integralidade desse sujeito, a questão pedagógica educacional sempre está inserida, pois para que o sujeito possa se desenvolver bem, ele tem que ter as condições mínimas para isso, e, obviamente que o acesso à educação é uma dessas condições. Quando o menor responde a um ato infracional, ou seja, não quando ele tem seus direitos violados, mas quando viola os direitos de outrem, a resposta que o Estado dá, a sanção que o Estado dá,  não é uma punição meramente,  tem um aspecto pedagógico agregado,  por isso a medida é socioeducativa.  Há um investimento sim, na tentativa chamar a atenção deste jovem para a importância do estudo, do conhecimento, para que ele possa ter uma escolaridade razoável, para que no futuro possa exercer uma profissão. Usamos todas as técnicas possíveis, não só a escolaridade formal, mas também oficinas como é a o projeto da Banda Liberdade que usa a arte como formação pedagógica.

“Há um investimento sim, na tentativa chamar a atenção deste jovem para a importância do estudo, do conhecimento, para que ele possa ter uma escolaridade razoável, para que no futuro possa exercer uma profissão. Usamos todas as técnicas possíveis, não só a escolaridade formal, mas também oficinas como é a o projeto da Banda Liberdade que usa a arte como formação pedagógica”.

Márcia Machado: Como surgiu o projeto da Banda Liberdade dentro do Case?

Juiz Dalmir: Quando vim para cá (Passo Fundo), conheci os projetos que haviam dentro da unidade do Case, conversei com o Isair Barbosa Abraão, que era psicopedagogo e responsável pelos projetos na instituição, e ele me mostrou os projetos que existiam. Nós conversamos, falamos em realizar oficinas de música dentro da Unidade, pois sempre gostei de música e queria trabalhar com música, criança e adolescentes, ele (Isair) disse que tinha a mesma ideia, então, a gente acabou juntando esses sonhos. Eu doei alguns instrumentos, ele conseguiu dinheiro para comprar outros e pagar professores, foi assim que surgiu a Banda Liberdade, bem informalmente.

“[…] sempre gostei de música e queria trabalhar com música, criança e adolescentes…”

Márcia Machado: Como a arte, através da música, tem auxiliado na ressocialização dos jovens do Case ?

Juiz Dalmir: Tem vários benefícios trabalhar com a música, com a arte, elas  têm a função de sublimar a questão das energias motoras e psíquicas que muitas vezes são voltadas à violência e agressividade.  A arte é um modo de canalizar essas energias para algo bom, bem visto e aceito pela sociedade, uma das ideias do projeto é essa, a outra, é tirar um pouco a etiqueta que esses jovens recebem quando praticam um ato infracional. Eles recebem uma etiqueta do sistema e da sociedade que são bandidos, infratores, se queremos ressocializá-los e devolvê-los à sociedade,  temos que tirar essa etiqueta, do contrário, eles vão voltar com essa ideia que têm que ser bandidos, têm que ser marginais. A etiqueta que gente quer colocar é que eles têm condições de fazer coisas boas e o projeto também proporciona isso. Quando os jovens  vão para sociedade, vão para comunidade se apresentar tocando – ainda mais depois da ampla divulgação da Banda, isso marca bastante a história do projeto –  eles ficam muito ansiosos para participar,  para tocar.  É uma forma de sair da Unidade, se não eles ficam  só fechados. Existem autores, entre eles  Alvino Augusto de Sá,  psicólogo que trabalhou no sistema prisional em São Paulo, que diz  “ a possibilidade  de ressocialização passa por uma reaproximação do cárcere com a sociedade”, e  você deixar o sujeito fechado e, após largar na sociedade sem que ele tenha  oportunidades, não vai ter muita função,  não vai ter uma consequência positiva, então, a privação da liberdade tem que permitir sim, essa reaproximação do cárcere com a sociedade, através de projetos com possibilidades e competências que possam ser explorados, distintos dos quais o levaram ao crime.

“Eles recebem uma etiqueta do sistema e da  sociedade que são bandidos, infratores, se queremos ressocializá-los e devolvê-los à sociedade,  temos que tirar essa etiqueta, do contrário, eles vão voltar com essa ideia que têm que ser bandidos, têm que ser marginais”.

Márcia Machado: Mesmo tendo um cunho social e pedagógico, o Projeto Banda Liberdade foi suspenso. Por quê?

Juiz Dalmir: O projeto que ganhou uma dimensão grande, uma divulgação grande, sofre com problema de investimentos. Atualmente, o Projeto está suspenso, recebi a notícia com tristeza, uma vez que o professor de música, Marcelo Pimentel, foi para Porto Alegre por motivos profissionais e, para manter as oficinas no Case o professor necessita de recursos  para deslocamento até Passo Fundo e não temos recursos para isso. Mesmo com toda a divulgação e dimensão que o projeto ganhou, hoje, estamos sem as oficinas e com ele suspenso. Esperamos em breve retomá-lo.

Márcia Machado: Como o senhor avalia a educação de maneira geral?

Juiz Dalmir: A realidade nos mostra que muitos dos jovens que cometem ato infracional estão afastados da escola e eu acho que isso tem uma série de causas, primeiro, a não valorização da educação pelas famílias de meio socioeconômico mais baixo, se a educação não é importante para a família, ela acaba não transmitindo a herança da educação para seus filhos, segundo, tem a questão que envolve o aspecto pedagógico da escola em manter o aluno interessado, estudando.  É preciso uma reflexão para  transformar a escola em um objeto de interesse do jovem para que ele não evada. Muitas vezes,  a saída da escola nas classes mais baixas tem a ver com necessidade, quando o jovem deixa o estudo para trabalhar, é uma questão social que também deve ser repensada.

“[…] se a educação não é importante para a família, ela acaba não transmitindo a herança da educação  para seus filhos…”

Márcia Machado: A partir de sua experiência  como magistrado da área da infância e juventude qual  mensagem  o senhor deixa aos educadores ?

Juiz Dalmir: A escola é uma das mais importantes instituições que trabalha com o sujeito depois que ele passa da primeira infância, porque até esta fase ele é atendido pela figura materna e paterna, assim,  primeira instituição social  que a criança tem acesso  é a escola, a responsabilidade da escola é muito grande. Não há dúvida que a escola é uma das instituições  mais importantes da sociedade e  precisa da valorização dos seus profissionais,  de vocação,  pois a função da docência, por ser uma das mais importantes, precisa de gente vocacionada que goste do que faz e que faça sabendo da sua importância.  A escola é uma extensão da família, é uma instituição social que tem função simbólica na vida do sujeito, por exemplo, o juiz, o magistrado, a justiça, eles cumprem a função simbólica paterna que  é do estabelecimento do limite,  da lei, da ordem, o que pode e o que não pode. A escola também cumpre essa função paterna, a escola tem que manter sua autoridade, porém, ela não pode ser exercida com autoritarismo, não se trata de dizer sim ou não, sem dar as razões. Na escola democrática há diálogo, há debate, há transmissão do conhecimento, mas as decisões são tomadas com bases nesses diálogos, numa democracia mais responsável. Esta é  uma forma como a escola pode pensar e  reestruturar  a função do cuidado, a função materna, que é o bom acolhimento, pelo carinho,  pelo cuidado,  oferecendo  limites, uma educação  bem pesada e bem executada, através de  um bom plano pedagógico.

“Não há dúvida que a escola é uma  das instituições mais importantes da sociedade  e precisa da valorização dos seus profissionais,  de vocação,  pois a função da docência, por ser uma das mais importantes, precisa de gente vocacionada que goste do que faz e que faça sabendo da sua importância”.

Márcia Machado: Como definiria  a sua missão enquanto profissional  numa frase?

Juiz Dalmir: É garantir os direitos da pessoas quando eles são violados, quando existe uma ameça de lesão a um direito ou lesão a direitos, a função do juiz é garantir o direito das pessoas, é fazer justiça.

Créditos/Foto: Diogo Zanatta

Os jovens se mantém “acordados”

Foto: Márcia Machado
Controlar ou emancipar a juventude é um dos dilemas de nossos tempos. Segundo o jornalista Moisés Mendes, o jovem com vontades é uma invenção recente da humanidade. E o jovem capaz de influenciar os outros com suas vontades é uma invenção com pouco mais de 40 anos”. Teremos disposição para o diálogo e a escuta, buscando entender os desejos, sonhos, medos e angústias que os movem?

[quote_box_right]”A rebeldia nos jovens não é um crime. Pelo contrário: é o fogo da alma que se recusa a conformar-se, que está insatisfeito com o status quo, que proclama querer mudar o mundo e está frustrado por não saber como”. (http://www.chabad.org.br)[/quote_box_right]

Controlar ou emancipar a juventude é um dos dilemas de nossos tempos. O jornalista Moisés Mendes, em artigo Esses jovens, descreve que “o jovem com vontades é uma invenção recente da humanidade. E o jovem capaz de influenciar os outros com suas vontades é uma invenção com pouco mais de 40 anos”. Ao longo dos tempos, os jovens resistem e mantém acesa a ideia de mudar o mundo. Desejam, profundamente, que ideais e mundo sejam uma nota só. Seus sonhos projetam ideias em teimosia. Eles têm consciência que precisam controlar o seu “fogo ardente”, mas desejariam que este controle fosse deles, não daqueles que representam qualquer autoridade (pais, professores, psicólogos, legisladores, juízes, polícia). Rejeitam serem pensados pelos outros.

Fotos: Márcia Machado
Fotos: Márcia Machado

Os jovens sempre gostaram de desafiar os adultos, embora nunca tenham dispensado o apoio sincero e franco, a escuta compreensiva e a orientação bem intencionada dos mais velhos.

A novidade de agora é que se apoderaram, como antes nunca visto na história, de uma poderosa ferramenta de comunicação e interação: a internet e as redes sociais. E descobrem agora que, juntos, com o pincel da cidadania e a tinta de sua criatividade, podem fazer mudanças por si mesmos e pela educação, ao ousarem ocupar suas próprias escolas.

O inconformismo que caracteriza os jovens é a força renovadora que move o mundo, mas também algo que incomoda os já acomodados. Acomodados, despreparados ou desconhecendo a realidade do universo juvenil, muitos desqualificam a juventude, vendo-a como um incômodo ou como uma fase de passageira rebeldia. Ao invés de emancipar, desejam controlar, dominar, moralizar. A rebeldia é o sinal de que a juventude continua sadia, cumprindo com o seu papel de provocadora de mudanças. A rebeldia, aos olhos da filosofia, é atitude de quem quer ser sujeito de sua história, não seu coadjuvante. A filosofia, como o inconformismo, motiva cada um na busca de seus próprios caminhos. Se os jovens mantiverem senso de direção, terão o poder de mover mundos.

O filósofo Sócrates, na Grécia Antiga, acreditando na emancipação humana, desenvolveu a maiêutica. Concebeu o papel dos sábios a um trabalho de parteira (que ajudam a dar a luz). Ele acreditava que a verdade e o conhecimento estão com cada um e cada uma de nós, e cada indivíduo pode descobrir as razões e verdades que motivam seu viver. Não por acaso, fora considerado um incômodo para Atenas. Uma das razões de sua condenação à morte foi insuflar a juventude a pensar por sua conta.

O fato é que os jovens de hoje vivem o seu tempo a partir de suas percepções, vivências e leituras. Seremos capazes de compreendê-los em nosso momento histórico? Teremos disposição para o diálogo e a escuta, buscando entender os desejos, sonhos, medos e angústias que os movem?

Vale a pena pensar que filosofia e rebeldia desencadeiam atitudes altivas e saudáveis, próprios daqueles que decidem pensar e, agora, ocupar as ruas de nossas cidades. Jovens e adultos, no entanto, precisam discernir que causas valem suas vidas. A violência e a agressão, em forma de rebeldia, não podem ser toleradas. Mas, acima de tudo, a opção é da sociedade: apostar e empenhar-se na emancipação e inclusão da juventude ou considerá-la como constante ameaça contra a ordem social. Cada opção, com seu preço.

Veja entrevista com Prof. Nei.

Que sábios nossos jovens!

Ouvi alguém dizer por aí e resolvi recriar a sua fala. Neste mundo não há nada de tão original, mas a gente está sempre recriando coisas dos outros e coisas da gente. Assim ouvi: “eu penso que hoje as pessoas estão cansando. Estão cansando de ditaduras, de enganação, de falsidade, de promessas fáceis, de corrupção. As pessoas estão cansando de ser manipuladas. E eu acredito muito nisso”.

Lembrei então de uma das mais sensatas análises que já vi sobre as manifestações dos jovens por decência neste país: “os jovens estão cansados dos entulhos da política”. Concordo que os jovens acordaram novamente seu poder transformador e questionador. Querem renovar o mundo e a política, reinventando o que já ocorria já mais de 2500 anos nas àgoras gregas. Querem ser ouvidos diretamente, sem burocracias que entulham a política e os políticos. Querem democracia participativa e direta. Querem ser ouvidos!” Querem mudar a qualidade social da educação e por isso ocupam escolas públicas para demonstrar sua indignação e sua capacidade criativa de lutar por seus direitos. Querem ocupar espaços que julgam seus.

Pus-me então a pensar que tudo está mesmo na contramão do nosso tempo, que ignorou que temos que conviver e conversar mais para nos entender melhor. Estranhamente, quem denuncia e quer revolucionar nossos tempos é quem já percebeu os limites das liturgias virtuais: os nossos adolescentes e jovens. Pensei então: que sábios! Os mesmos permanecem hiper e mega conectados, mas também descobriram que é importante se encontrar, se agrupar, para organizar direitos e imprimir o seu modo de ser.

Estou com eles, pois acredito que ninguém veio ao mundo de passagem. Neste aspecto, tenho grandes concordâncias com nosso maior pedagogo Paulo Freire quando afirmou:

Não viemos ao mundo para ser treinados, fizemo-nos no mundo seres modificadores. A adaptação ao mundo é apenas um momento do processo histórico. Adapto-me hoje, para amanhã, desadaptando-me, corrigir o mundo e inserir-me nele.

Elói Elisabete Bocheco: universo infantil na escola, na paixão e na literatura

Eloí Elisabete Bocheco é  formada em Letras pela Universidade de Passo Fundo-RS e pós-graduada em Alfabetização e Metodologias de Leitura. Atuou como alfabetizadora, professora de Língua Portuguesa e Literatura. Trabalhou como animadora da biblioteca escolar, foi coordenadora do ensino de língua e literatura, dentre outras atividades ligadas ao ensino.

O texto literário foi sempre o grande aliado na tarefa de criar a corrente de paixão pela leitura, e na criação de uma memória literária na vida de crianças e jovens com quem conviveu nos anos de magistério.

Teve, na juventude, grandes mestres de leitura e destaca especialmente a professora Ana Schirley Favero e Paulo Bragatto Filho no ensino básico e o professor Henrique Manuel Ávila, na graduação em Letras na Universidade de Passo Fundo/RS.

Iniciou na literatura escrevendo crônicas para o Jornal A Notícia de Joinville, SC, quando era editor do caderno de Cultura o jornalista Sílvio Melatti. Uma seleção dessas crônicas foi publicada no livro Pedras Soltas, pela EdUFSC, em 2006.

O primeiro livro infantil editado foi Uni…Duni…Téia.  Escrito no último ano de magistério da autora, é  marcado pelas experiências com leituras e leitores na biblioteca escolar. Os poemas infantis, deste e de outros livros, usam recursos e temas da tradição oral, vivenciada pela autora durante toda a infância, tais como: parlendas, cantigas de roda, jogos de palavras, cantos de trabalho, quadrinhas e adivinhações.

Alguns de seus livros como Olha a Cocada!, Roda Moinho e Beatriz em trânsito expressam as utopias de leitura que a autora procurou dar forma na escola. Dentre outros pontos, estes livros encenam modos de ler e de envolver crianças com a leitura desde cedo.

Participou de várias antologias, dentre as quais,  Cuentos Infantiles Brasilenos, editada na Costa Rica e organizada por Ninfa Parreiras e Glória Valladares Grangeiro, Presença da Literatura Infantil e Juvenil em SC (Org. por Yedda Goulart), Antologia do Concurso Sérgio Farina – São Leopoldo-RS, Antologia SESC/Brasília de crônicas.

Recebeu prêmios por sua obra, dentre os quais, o prêmio Mário Quintana, o Literatura Para Todos ( MEC), o Leia Comigo! Da FNLIJ e participou da seleção Bolonha e White Ravens com a obra Beatriz em trânsito.

Foi responsável, junto com Zenilde Durli, durante dez anos, pela pauta do Jornal de Literatura Infantil e Juvenil – O BALAINHO –  da Universidade do Oeste de SC (UNOESC).

Um poema infantil:

MARTINA

No canteiro da ponta
há um girassol.
Dentro do girassol
há uma gota de orvalho.
Dentro da gota de orvalho
há uma réstia de luz.
Dentro da réstia de luz
há um grão.
Dentro do grão
há um anel
Dentro do anel
há uma cantiga de roda.
Dentro da cantiga de roda
a menina Martina
brinca uma ciranda
com sementes
beijadas de sol.

Poema estraído de: BOCHECO, Eloí. Tá pronto seu lobo? e outros poemas. São Paulo: Formato, 2014. p. 11.

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