O Velho e o Novo Mundo

Pode-se afirmar que o Velho Mundo deu as bases para que seus filhos, no Novo Mundo, buscassem seus próprios caminhos.

A história dos  descobrimentos de áreas na região do Oceano Pacífico, que poderemos chamar de países e civilizações que atualmente  estão incluídos no hoje denominado novo mundo,  é mais conhecida a partir da chegada do hoje denominado Peru, em 1532, pelos espanhóis, liderados por Francisco Pizarro

As antigas culturas da área do Oceano Pacifico foram gradativamente influenciadas pela cultura europeia e pela dominação militar, que protegia a economia extrativista dos países europeus.

A gradual e irreversível evolução dos países da área do Oceano Pacifico e do Oceano Atlântico, deu origem a economias desenvolvidas, principalmente na área agrícola. No caso da Argentina e do Brasil, as imensas áreas agrícolas passaram não só abastecer os mercados internos, como a buscar mercados externos para o excedente de produção agrícola, concorrendo com os exportadores norte-americanos.

O conceito de Velho Mundo e Novo Mundo, que era visualizado como uma questão do tempo em que estas áreas estavam com suas populações estáveis ou em franco crescimento, passou também a significar poderio econômico e superação das produções agrícolas em relação aos produtores europeus.

Sem temor, pode-se afirmar que uma economia “cansada”, como a europeia, tem medo da concorrência de uma agricultura jovem e predisposta a crescer cada vez mais, com melhores tecnologias de produção de grãos e de proteína animal.

E mais. País com agricultura forte, lança as bases para o desenvolvimento industrial. Brasil e Argentina, decolaram suas agriculturas e pavimentaram o caminho dos demais setores da economia.

Internamente, o Brasil, há anos, tinha medo da agricultura argentina na produção de trigo. Mas, atualmente, quem tem medo de quem? Dos produtores de Velho Mundo?

Foi-se o medo, via desenvolvimento de tecnologias locais. As tecnologias desenvolvidas pela EMBRAPA e pelos sistemas estaduais de pesquisa, aliados a ambição dos agricultores, deixaram para trás as tecnologias dos pequenos, médios e grandes agricultores. Abriu-se o mundo para a soja, o milho e a produção animal, em escala industrial, assim como para o setor de maquinaria agrícola e a indústria de transformação.

É o Novo Mundo abrindo caminho para onde o Velho Mundo não mais é competitivo.

Pode-se afirmar que o Velho Mundo deu as bases para que seus filhos, no Novo Mundo, buscassem seus próprios caminhos.

O tão esperado Acordo de Livre Comércio, na prática, é uma tentativa de sobrevivência dos interesses europeus, do Velho Mundo, e da crescente concorrência da economia do Novo Mundo.

Autor: Roque G. Annes Tomasini. Cadeira 38Academia Passofundense de Letras-APL. Também escreveu e publicou no site “Ciência: ontem, hoje e amanhã”:  www.neipies.com/ciencia-ontem-hoje-e-amanha/

Edição: A. R.

Acordo com o inconsciente

O que eu penso não é mais do seu interesse/ e o que ele me traz à tona me torna mais/ indiferente.

Fiz um acordo com o inconsciente!

Prometi jamais revelar ao mundo o que ele pensa.

Em troca,

prometeu a mim que esquecerá o que mente;

em um jogo de empurra…

Uma promessa doente.

O que eu penso não é mais do seu interesse,

e o que ele me traz à tona me torna mais

indiferente.

 Não o revelo a ninguém!

E ele nem pensa em me denunciar em sã consciência.

Pois como mentir é seu talento,

os sinistros em que penso toda hora, são inocência.

Por sua vez,

ele esquecerá meus contratempos.

E tem mais; nas tragédias que se empilham à frente,

 ficará em silêncio.

Sobre as desgraças em que me lembra,

nada falo e nem lamento.

E chegou o dia para assinar o acordo!

Pedi a ele esquecer aquela mulher.

Bem que tentava, dizia, mas a trazia sempre envolta.

Tanto fiz para esquecê-la, que, perplexo,

passei a lembrá-la muito mais…

como que em uma reviravolta.

Não me dando por vencido,

escancarei minha revolta!

Para esquecê-la, dei-me por esquecido.

Puro engano!

Todas as noites ele a trazia de volta!

(20/08/2024)

Autor: Nelceu A. Zanatta. Também escreveu no site “O santo mel de cada dia”: www.neipies.com/o-santo-mel-de-cada-dia/

Edição: A. R.

De discursos lindos e práticas vazias

Se a luta é coletiva, então que ela seja sustentada por mãos dadas de verdade. Não por discursos vazios.

(Por Keli Cristina dos Santos de Oliveira)

Eu já ouvi muitas vezes que a luta precisa ser coletiva. E eu concordo. Mas aprendi, na prática, que nem toda coletividade é verdadeira.

Existe a coletividade de palco, de discurso bonito, de postagem em data simbólica. E existe a coletividade real, aquela que acontece no cansaço, no bastidor, no dia em que ninguém está olhando.

Eu falo da luta das famílias atípicas. Das mães que não dormem direito.

Dos professores que se desdobram em salas lotadas. Das crianças que precisam de acolhimento e recebem improviso.

Das profissionais que também são mães e ainda assim são silenciadas quando ousam dizer que não estão dando conta.

Eu falo de uma inclusão que, muitas vezes, existe no papel… mas não chega no corpo de quem precisa.

Mas eu também falo de outras lutas.

Falo do feminismo que vira slogan, mas não sustenta mulheres reais quando elas incomodam, quando elas são mães, quando elas falham, quando elas dizem não.

Falo de quem levanta a bandeira da liberdade, mas julga a outra mulher pelas escolhas que ela faz com o próprio corpo, com a própria vida, com a própria maternidade.

Falo das causas LGBTQIA+ que ganham cor em mês específico, mas perdem apoio quando a realidade exige coragem, posicionamento e proteção verdadeira.

Falo de pessoas que defendem diversidade em público, mas no privado reproduzem preconceito, silêncio e exclusão.

Porque entre quatro paredes, longe das câmeras e dos discursos ensaiados, a verdade aparece.

A empatia vira incômodo. O acolhimento vira custo. E a responsabilidade sempre cai no colo de quem já está sobrecarregado.

E eu vejo.

Eu vejo quem levanta bandeiras para aparecer. Eu vejo quem usa causas para ganhar visibilidade, votos, reconhecimento.

Mas eu também vejo quem está ali, no chão da escola, na rotina da casa, na madrugada, sustentando o que ninguém quer sustentar.

A luta só é luta quando é coletiva, mas coletiva de verdade.

Coletiva é quando a mãe atípica não precisa implorar por escuta.

Quando o professor não adoece tentando dar conta do impossível.

Quando a criança é vista na sua singularidade e não tratada como problema.

Quando mulheres são apoiadas não só quando são fortes, mas também quando estão cansadas, confusas e vulneráveis.

Quando pessoas LGBTQIA+ podem existir com segurança, respeito e dignidade, todos os dias, e não só quando é conveniente.

Coletiva é quando as decisões são tomadas com quem vive a realidade, e não sobre quem vive.

Quando o discurso continua o mesmo dentro e fora da sala. Quando a prática acompanha a fala.

Quando a causa não é usada — ela é vivida.

Eu não me interesso por palcos. Eu me interesso por transformação.

E se for para lutar, que seja com verdade. Com coerência. Com presença.

Porque luta de verdade não é performance. É compromisso.

E compromisso não se prova com palavras.

Se prova com atitude, com constância e com coragem de fazer diferente, mesmo quando ninguém está vendo.

Se a luta é coletiva, então que ela seja sustentada por mãos dadas de verdade. Não por discursos vazios. Eu sigo. Com cansaço, sim. Mas com consciência.

Porque quem sente de verdade não consegue mais fingir que não vê. E é desse lugar que eu falo. E é desse lugar que eu luto.

Leia também: www.neipies.com/vozes-caladas/

Autora: Keli Cristina dos Santos de Oliveira. Professora da educação infantil da rede municipal de Passo Fundo, RS. Mãe atípica.

Edição: A. R.

De Ray Bradbury a Edward Lorenz, o efeito borboleta

Um erro mínimo, como matar uma borboleta, ao perturbar estados de equilíbrio estabelecidos ao longo de 60 milhões de anos, como bem ilustrado pela ficção de Bradbury, pode trazer resultados imprevisíveis no futuro. Algo assim, casualmente (ou nem tanto), teria levado Edward Lorenz, no começo dos anos 1960, à descoberta do caos determinista, que revolucionaria as previsões meteorológicas e de resto a nossa visão cientifica de universo.

Imagine-se embarcando, na ficção de Ray Bradbury (1920-2012), para um safári no tempo. Que tal retroceder 60 milhões de anos e ter a satisfação (ecologicamente incorreta, frise-se) de poder abater um Tyrannosaurus rex?

Foi o que fez Eckels, personagem de Bradbury, no conto “Um som de trovão” (A sound of thunder, 1952), sem saber que, na hora derradeira, hesitaria. E que, após desistir da empreitada e retornar para a máquina do tempo, inadvertidamente sairia do caminho permitido e, por ter pisado em uma borboleta, seria o responsável por mudanças inimagináveis no presente, inclusive no resultado de uma eleição que teria acontecido na véspera da sua partida.

Um erro mínimo, como matar uma borboleta, ao perturbar estados de equilíbrio estabelecidos ao longo de 60 milhões de anos, como bem ilustrado pela ficção de Bradbury, pode trazer resultados imprevisíveis no futuro. Algo assim, casualmente (ou nem tanto), teria levado Edward Lorenz, no começo dos anos 1960, à descoberta do caos determinista, que revolucionaria as previsões meteorológicas e de resto a nossa visão cientifica de universo.

Edward Norton Lorenz (1917-2008) passou a maior parte da vida na Nova Inglaterra, EUA. Estudou matemática na Universidade de Darthmouth, fez mestrado em Harvard (1940), serviu como meteorologista do Corpo Aéreo do Exército Americano (1942-1946) e concluiu doutorado em meteorologia no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), em 1948. Nessa instituição, viria a ser professor emérito, em 1987, e permaneceria vinculado até o fim da vida. Mas foi como professor visitante na UCLA, nos anos 1950, onde iniciou um programa de previsão numérica do tempo por meio de computadores eletrônicos, que Lorenz fez a sua descoberta seminal.

Depois de rodar o modelo computadorizado que ele havia escrito para a solução de equações meteorológicas, Lorenz decidiu repetir uma dessas simulações. Mas, em vez de reutilizar os dados iniciais da primeira rodada, ele digitou, reza a lenda que sem querer, os mesmos dados, porém arredondados, porque o computador manipulava algarismos com seis casas decimais, mas os imprimia com apenas três.

Depois de uma pausa para um café, quando voltou, Lorenz foi surpreendido por resultados muito diferentes dos obtidos na primeira simulação. Havia ocorrido algum problema no computador?

Ele, dono de uma mente privilegiada, logo percebeu que a causa não podia ser atribuída a erro da máquina, mas à modificação das variáveis usadas como condições iniciais. Apesar das diferenças “insignificantes” nos dados, elas eram as responsáveis pela discrepância dos resultados. Na prática, ele havia demonstrado o que, hoje, se conhece por caos determinista, cuja peça central é a entidade matemática “atrator estranho”, descrita pela geometria fractal.

A descoberta de Edward Lorenz foi, originalmente, publicada em 1963 (J. Atmos. Sci., v.20, n.2, p.130-141), e popularizar-se-ia como efeito borboleta. Mas, nesse mesmo ano, numa conferência em Nova York, não foram borboletas e sim gaivotas que Lorenz utilizou na sua fala: “(…) se a teoria estiver correta, o bater das asas de uma gaivota poderia mudar o curso da meteorologia para sempre.” E, também, dizem, não foi pela analogia com a metáfora perfeita dada pelo enredo do conto de Ray Bradbury, que se deu essa popularização.

No livro A essência do caos (The essence of chaos), de 1993, Edward Lorenz explica que a denominação “Efeito Borboleta” ganhou força a partir de 1972. Ele fora convidado como conferencista de um encontro anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência (a AAAS, que publica a revista Science), em Washington, D.C., em dezembro daquele ano. E que foi o meteorologista Philip Merilees, o moderador da seção quem, por conta própria, ao não conseguir contato com ele, deu o título definitivo para a conferência: Pode o bater das asas de uma borboleta no Brasil desencadear um tornado no Texas? (Does the flap of a butterfly’s wings in Brazil set off a tornado in Texas?). O resto é lenda!

Leia também crônica de Jorge A. Salton sobre esta temática, numa outra perspectiva: www.neipies.com/um-som-de-trovao/

Autor: Gilberto Cunha.  Também escreveu e publicou no site “ Charlie Brown e Snoopy discutem o acordo de Paris”: www.neipies.com/charlie-brown-e-snoopy-discutem-o-acordo-de-paris/

Edição: A. R.

Superar a polarização

No livro de Provérbios 4,26-27 lê-se: “Fique atento às trilhas onde você coloca os pés, e que todos os seus caminhos sejam firmes. Não se desvie nem para a direita, nem para a esquerda, e afaste do mal os seus passos”. Portanto, a recomendação é que, qualquer desvio, seja para um lado ou para outro, pode ser perigoso e ocasionar resultados prejudiciais. Permanecer no equilíbrio é o caminho certo.

Há muita polêmica entre a esquerda e a direita. Há equívocos também. O primeiro deles é achar que dá para dividir a sociedade e o mundo todo entre a esquerda e a direita. Como se não houvesse norte, sul, leste, oeste, extrema direita, extrema esquerda, centro, centro direita, centro esquerda e tantas outras posições. As confusões se dão quase sempre porque não se sabe ao certo em relação a qual ponto fixo, baliza, referência se estabelecem as posturas que são defendidas. E as controvérsias se ampliam quando se passa a achar que tudo na vida são questões político-ideológicas antagônicas que precisam ser combatidas.

Muitas vezes, basta apenas respeitar o diferente ou divergente.

Do ponto de vista político-ideológico, a classificação esquerda x direita surgiu na Assembleia Nacional Constituinte, na França, em 1789, que marcou o início da Revolução Francesa, a qual defendia os ideais iluministas da Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Na ocasião, à direita do presidente da Assembleia sentavam-se os deputados que defendiam a continuidade do antigo regime, a Monarquia absolutista com o rei no poder. Eram conhecidos como girondinos. À esquerda do presidente ficavam posicionados os deputados que desejavam mudanças profundas no regime monárquico. Queriam a República, com a consolidação da soberania popular. Eram conhecidos como jacobinos. Assim, esquerda passou a representar a posição de quem defende mudanças sociais com justiça, igualdade e dignidade. Direita ficou sendo considerada a posição de quem busca conservar o regime vigente, muitas vezes marcado por desigualdades, injustiças e privilégios.

No dia a dia, é fundamental ser sensato.

Significa dizer, é preciso saber distinguir em que situações é melhor, correto ou normal o lado esquerdo; e em que casos é melhor, correto ou normal o lado direito. No peito, o coração pulsa à esquerda. E é normal que seja assim. No trânsito, convencionou-se ultrapassar pela esquerda. E está tudo certo. Igualmente, pactuou-se que o acostamento fica à direita. Quem precisar parar, deverá fazê-lo à direita de quem passa. E não há problemas quanto a isso.

Leia também: www.neipies.com/pe-direito-pe-esquerdo-e-o-andar-do-brasil/

No livro de Provérbios 4,26-27 lê-se: “Fique atento às trilhas onde você coloca os pés, e que todos os seus caminhos sejam firmes. Não se desvie nem para a direita, nem para a esquerda, e afaste do mal os seus passos”. Portanto, segundo a recomendação do autor do livro sapiencial, qualquer desvio, seja para um lado ou para outro, pode ser perigoso e ocasionar resultados prejudiciais. Permanecer no equilíbrio é o caminho certo.

O evangelista Marcos (16,19) afirma que “depois de falar com os discípulos, o Senhor Jesus foi levado ao céu, e sentou-se à direita de Deus”. Há os que acreditam que a cadeira onde Jesus estaria sentado é uma posição político-ideológica. Equívoco pensar assim, pois que a fé cristã ensina que Jesus veio para salvar a todos os que se dispõem seguir seus ensinamentos.

O texto bíblico foi escrito muito antes do surgimento da polarização entre esquerda e direita. Na antiguidade, sentar-se à direita era considerado o lugar de maior poder e autoridade. E a Bíblia incorporou esta visão, mostrando que Jesus exerceu sua autoridade como serviço, sobretudo aos mais pobres e indefesos.

Por outro lado, ninguém gostaria de perder o olho direito porque ambos são importantes; e nem a perna direita, porque as duas são necessárias. Jesus, no entanto, afirma: “Se o olho direito leva você a pecar, arranque-o e jogue-o fora! É melhor perder um membro do que o seu corpo todo ser jogado no inferno. Se a mão direita leva você a pecar, corte-a e jogue-a fora! É melhor perder um membro do que o seu corpo todo ir para o inferno” (Mt 5, 29-30).

Nota-se que, na Bíblia, direita e esquerda tem outros significados. Algumas questões são objetivas, outras são convencionadas e outras são simbólicas. Distinguir umas das outras é ser sábio. Ideologizar tudo é inadequado e doentio. Facilmente gera intolerância, desentendimentos, ódio e violência.

A temporada de guerras ideológicas já vem de bastante tempo e parece se acentuar em anos eleitorais. Todavia, nesse contexto são fundamentais algumas atitudes como: praticar a escuta ativa; exercitar a comunicação não-violenta; aceitar as diferenças; reconhecer que nem sempre o mais importante é convencer o outro; buscar o silêncio estratégico; selecionar as fontes sérias, buscando informações corretas; evitar propagar fake news; cuidar da saúde mental, evitando exposições a conteúdos violentos ou abusivos; buscar engajamento em vista do bem comum. Não tratar os que pensam diferente como inimigos. Defender a democracia em todas as situações como valor supremo.

A polarização não ajuda a construir a paz necessária. O melhor é caminhar juntos, mantendo a identidade, o respeito e a valorização mútua. Enfim, o pé direito não precisa destruir o esquerdo e nem vice-versa. Ambos, alternando-se no chão e no ar imprimem a boa caminhada!

Autor: Dirceu Benincá. Professor da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e do mestrado em Ciências e Sustentabilidade da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Autor do livro “Terra Sem Males dos Males da Terra”. Também escreveu e publicou no site “Terra sem males dos males da terra”: www.neipies.com/terra-sem-males-dos-males-da-terra/

Edição: A. R.

Universidade é inútil?

A universidade não forma apenas profissionais; forma cidadãos. Gente que convive com diferenças, que aprende a dialogar, que questiona dogmas religiosos usados como instrumento político, que resiste à moralização seletiva e à violência simbólica disfarçada de tradição.

A hostilidade da extrema direita ao acesso amplo dos nossos filhos à universidade não é acidental nem fruto de ignorância ocasional. É um projeto. E, como todo projeto de poder, tem razões muito claras.

A primeira delas é econômica. A universidade forma sujeitos mais qualificados, mais conscientes de seus direitos e menos dispostos a aceitar qualquer salário, qualquer jornada, qualquer forma de exploração. Para um modelo que depende de mão de obra barata, submissa e descartável, jovens críticos e diplomados são um problema. Gente que estuda faz perguntas. Gente que faz perguntas não aceita ser tratada como peça de reposição.

A segunda razão é a emancipação do pensamento. A experiência universitária, quando saudável, expõe o estudante à diversidade de ideias, à ciência, à filosofia, à história, ao pensamento crítico. Ensina a ler o mundo para além de slogans, a desconfiar de respostas simples para problemas complexos. A extrema direita, que se alimenta do medo, da desinformação e da obediência cega, sabe disso. Por isso investe tanto na demonização das universidades, chamando-as de “doutrinadoras”, quando o que realmente teme é a autonomia intelectual.

Há ainda a dimensão política. Pessoas com maior escolaridade tendem a compreender melhor as estruturas de poder, as desigualdades sociais, os mecanismos de manipulação e as estratégias de concentração de renda. Não por acaso, a extrema direita aposta em discursos anti-intelectuais, glorifica a ignorância como virtude e transforma o desprezo pelo conhecimento em identidade. Um povo que pensa é mais difícil de governar pelo ódio. Um povo que estuda é menos manipulável.

Some-se a isso o interesse em manter hierarquias rígidas. Quando filhos de trabalhadores, de pobres, de periferia e de minorias entram na universidade, eles rompem lugares historicamente impostos. Passam a disputar espaços de decisão, produção de saber e liderança. Para projetos autoritários, isso é intolerável. É mais confortável que cada um “saiba o seu lugar” e não ouse sonhar além do que lhe foi permitido.

Por fim, há o medo da transformação cultural. A universidade não forma apenas profissionais; forma cidadãos. Gente que convive com diferenças, que aprende a dialogar, que questiona dogmas religiosos usados como instrumento político, que resiste à moralização seletiva e à violência simbólica disfarçada de tradição.

Por isso, a extrema direita prefere nossos filhos longe das faculdades e perto do trabalho precarizado, da fé instrumentalizada e da obediência sem reflexão. Defender a universidade pública, gratuita e de qualidade não é elitismo. É um ato de resistência. É afirmar que nossos filhos não nasceram para servir calados, mas para pensar, criar e transformar o mundo.

Autor: Hermes C. Fernandes. Também escreveu e publicou no site “Tire as sandálias dos teus pés”: www.neipies.com/tire-as-sandalias-dos-teus-pes/

Edição: A. R.

Quaresma, um convite a despir fantasias

Na nervura cronológica que faz a passagem do Carnaval para a Quaresma, Jesus pede que abandonemos as práticas que atraem luzes, as atitudes postiças que atraem aplausos. Ele pede autocrítica e conversão, inclusive em relação às práticas de piedade tradicionais e tidas em alto valor: o jejum, a esmola e a oração. Deus vê o que está oculto!

O tempo festivo dos desfiles, fantasias e diversões que marcam o carnaval brasileiro está terminando. Alguns grupos ainda não enterraram os ossos e insistem em prorrogar este tempo especial, que também tem seu caráter de competição e de faturamento econômico.

As comunidades cristãs já puseram o ponto final, reverberando o chamado à conversão.

Não me parecem razoáveis e evangélicas declarações do tipo “precisamos de Deus, e não de carnaval”. É certo que o carnaval midiático tem seus excessos e passa a impressão de um indulto de “liberou geral”. Isso também ocorre em outras festas, como a Semana Farroupilha e a Oktoberfest, mas não é motivo bastante para considerá-las puro pecado.

Há quase cinco décadas, o cristianismo progressista do Rio Grande do Sul marca o último dia do carnaval com a Romaria da Terra. Despido de memórias fantasiosas e descrentes de mitos e heróis fabricados, este “desfile” reverencia os líderes populares e suas lutas, em parte inglórias. E cultiva amorosamente as sementes da indispensável esperança.

“Revolucionário é também saber escolher nossos heróis”, apregoou uma Escola no seu samba-enredo. E nós, peregrinos de esperança, romeiros da terra sem males e contra os males da terra, fazemos nossas escolhas: Sepé Tiaraju, Sérgio Görgen, Dorothy Stang, Pedro Casaldáliga, Luther King, Margarida Alves, Chico Mendes, Roseli Nunes e uma multidão de nomes e rostos, com o mártir Jesus de Nazaré marchando à frente.

Esta Romaria faz ressoar, a seu modo, o chamado profético com o qual iniciamos a Quaresma (que prepara com intensa dedicação a verdadeira ‘festa da alegria’, a Páscoa de Jesus e nossa): “Rasgai o coração e não as vestes!” (Joel 2,13). Rasguemos as fantasias de poder e de grandeza, de supremacia e machismo, de país cordial, pois não o somos.

Na nervura cronológica que faz a passagem do Carnaval para a Quaresma, Jesus pede que abandonemos as práticas que atraem luzes, as atitudes postiças que atraem aplausos. Ele pede autocrítica e conversão, inclusive em relação às práticas de piedade tradicionais e tidas em alto valor: o jejum, a esmola e a oração. Deus vê o que está oculto!

“Ele veio morar entre nós”, lembra o lema da Campanha da Fraternidade. E não veio fantasiado de poder, de saber e de grandeza, mas fez-se um de nós, experimentou o que significa não ter moradia, deu a vida para que os mais pobres tivessem sua dignidade reconhecida e devolvida. Este é o jejum, a esmola e a oração que agradam a Deus.

Autor: Dom Itacir Brassiani msf. Bispo da Diocese de Santa Cruz do Sul. Também escreveu e publicou no site “Um Deus ao alcance da nossa mão”?: www.neipies.com/um-deus-ao-alcance-da-nossa-mao/

Edição: A. R.

“Um som de trovão”

 
Reparar não significa ressuscitar a borboleta, nem voltar no tempo histórico. Coisas impossíveis. Mas reparar continua sendo possível.

“Um som de trovão”, conto do escritor norte-americano Ray Douglas Bradbury, nos faz refletir sobre o reparar.

Eckels, o personagem principal, vive no ano 2055. Com o avanço da técnica, já foi possível construir uma Máquina do Tempo que permite aos habitantes da Terra organizarem sofisticados safáris ao passado.

Eckels resolve matar um Tyranossaurus rex. Volta no tempo levado pelo guia Travis que o adverte:

– Não queremos alterar o futuro, muito cuidado.

O animal escolhido era caçado segundos antes da hora em que iria naturalmente morrer. E havia que se ter extremo cuidado para não matar mais nada. Nem um rato. Porque, matando um rato, todas as demais famílias oriundas desse rato não existiriam. Por falta de dez ratos, uma raposa morre. Por falta de dez raposas um tigre morre de fome. Dali a milhões de anos, um homem das cavernas sai à caça e não encontra o tigre que iria encontrar e comer. Esse homem morre antes de reproduzir. Significa que milhares de homens não mais nascerão. Um povo todo não existirá.

Eckels não pode pisar fora de uma plataforma suspensa. Ocorre que ele, num erro involuntário, se desequilibra e pisa com a bota direita na relva.

De volta ao ano 2055, Eckels observa que a sala de onde haviam partido estava lá, mas não era exatamente a mesma. O mesmo homem estava sentado atrás do mesmo balcão, mas o mesmo homem não estava sentado exatamente atrás do mesmo balcão. Havia algo diferente no aroma do ar. As mesmas ruas estavam lá mas não eram exatamente as mesmas. O cartaz de propaganda do Safári estava lá, mas algumas letras eram estranhas.

Eckels imagina o pior. Examina seu calçado. Vê barro embaixo de sua bota. Retira-o e verifica que, misturado com ele, há uma borboleta morta. Que horror, matara uma borboleta! Matar uma borboleta não podia ser tão importante assim! Podia! O planeta não era mais exatamente o mesmo.

Como reparar?

Não poderá fazer a borboleta viver de novo. Nem a Terra voltará a ser o que era. Eckels acha que não há como reparar e, culpado, pede que Travis o mate. Ajoelhado, vê Travis apontando-lhe um rifle e o último som que ouve é o som de um trovão. E não o de uma bala. Até esse som não era mais o mesmo.

Eckels errou ao não perceber que reparar sempre é possível.

Reparar não significa ressuscitar a borboleta, nem voltar no tempo histórico. Coisas impossíveis. Mas reparar continua sendo possível.

Quando erramos em relação a determinada pessoa, por exemplo, erramos em relação a um “ser humano”. Se não podemos dirigir o ato reparatório a este, podemos dirigir a outro ou a outros “seres humanos”. É a vida possível.

Autor: Jorge A. Salton. Também escreveu e publicou no site “Há um fantasma dentro de nós”?: www.neipies.com/ha-um-fantasma-dentro-de-nos/

Edição: A. R.

Cidade: um sistema social interligado

Para humanizar a cidade, é preciso descobrir seus pontos estratégicos e redimensioná-los a serviço da pessoa humana.

A cidade tem ritmo próprio, com características específicas de relacionamento interpessoal e mecânico. A cidade é um sistema social interligado por partes. As partes são as estruturas que garantem o dinamismo da cidade. O fenômeno urbano não é apenas um aglomerado de casas e de edifícios que formam as grandes metrópoles.

Além da aparência fenomênica, a cidade comporta quatro elementos básicos, que muitas vezes são contraditórios entre si. Os quatro elementos são: os grupos humanos, os valores da cidade, os papéis sociais e a estrutura de funcionamento. O presente artigo tem a pretensão de mostrar a dinâmica de funcionamento da cidade, a partir destes quatro elementos geradores da urbanidade, numa abordagem sociológica político-cultural.

A cidade é o lugar da abundância: alimentos, água tratada, moradia, serviços e proximidade. Sendo assim, a cidade é o lugar da satisfação e do prazer. As pessoas buscam a cidade para atender suas necessidades.

A cidade comporta também dois grupos distintos: “o grupo das áreas naturais” e o “grupo das áreas funcionais”. O grupo das áreas naturais é espontâneo e não está preocupado com a estética urbana, quer habitar, ter um lugar para “fixar-se”. O grupo natural fixa-se normalmente na periferia urbana, formando os cortiços e os aglomerados de favelas. Já os grupos funcionais são planejados, residem em bairros com ruas personalizadas, numeradas e com CEP, etc.

A passagem da pobreza para a cidade é histórica. A cidade é o lugar da fixação. Por causa da diversidade de situação que enfrenta “o povo ribeirinho” não se define como povo do campo. “Os ribeirinhos” são itinerantes: ora estão no campo, ora estão na cidade.

O povo que vive nesta itinerância são os empobrecidos que no Brasil é ainda um número alarmante, sem nenhuma garantia de fixação permanente, gerando daí o êxodo rural e urbano. O êxodo forçado é fruto de uma transformação social perversa, resultado dos obstáculos econômicos e políticos. Os obstáculos econômicos são geradores do antagonismo entre cidade e campo. Este antagonismo histórico tem causado muitos conflitos, gerando daí a violência com muitos assassinatos, que se tornam um “prato cheio” para a mídia sensacionalista. Os colonos são desafiados a entregar sua colheita à cidade.

O conflito entre cidade e campo é legitimado por uma ideologia que separa o capital e o trabalho. Este antagonismo tem um significado sócio-filosófico-histórico, colocando o seguinte desafio: onde se encontra a satisfação prometida pela cidade?

A cidade se articula a partir de valores, uns de caráter genérico, e outros de caráter específico. Pode-se dizer que um valor genérico na cidade é a questão da segurança. Para haver “harmonia social” na cidade, a segurança tem que ser para todos/as. Um valor específico da cidade é o acesso da população ao transporte coletivo. O valor genérico atinge a todos/as, o valor específico atinge um determinado grupo. Para cumprir seus objetivos, os valores urbanos exigem papéis de execução. Os papéis são as estratificações, os vários serviços que a cidade comporta para o seu funcionamento: a polícia, o posto de saúde, ônibus urbano, o táxi, os rádios, os garis, etc.

A cidade não é uma organização espontânea. Ela possui uma estrutura de sustentação. Nas estruturas vemos a concentração de todos num mesmo lugar, como também a pluralidade, isto é, todos no mesmo lugar geográfico, na mesma rua, no mesmo bairro, mas muitas vezes com visões diferentes e contraditórias. A cidade se estrutura também num plano diretor, a partir de pontos estratégicos. Para humanizar a cidade, é preciso descobrir seus pontos estratégicos e redimensioná-los a serviço da pessoa humana.

O que seria uma cidade sem considerar as pessoas? www.neipies.com/o-que-seria-uma-cidade-sem-considerar-as-pessoas/

Hoje existe um fenômeno: o da formação das megalópoles. É o mundo urbano que absorve a antiga “civilização rural”. O mundo rural tradicional desaparece como realidade econômica, como ideal de vida. O tradicional é recuperado para ser visto pelos turistas.

A cidade é o ponto de concentração econômica. Como ponto de atração cultural ela possui símbolos representativos que cumprem o papel de descontração da massa urbana. Hoje aparecem algumas forças de produção centrais, entre as quais a televisão, que tem grande capacidade de formação de símbolos. A pergunta é se a televisão anima a cidade? O maior perigo é cair num pessimismo dolorido e não acreditar mais no lado lúdico da cidade.

Pensar hoje a urbanidade é perceber de perto os desafios que a cidade nos apresenta: o urbanismo, a segurança, a moradia e o trabalho. A cidade também é o símbolo da instabilidade emotiva, causando consequências desastrosas sobre a base afetiva da vida coletiva.

A metrópole como expressão significativa da realidade urbana tenderia a intensificar a agitação neurótica do indivíduo, criando-lhe uma sensação de incerteza e de irritabilidade de julgamento e de sentimentos (neutralidade afetiva). Assim, como também um forte sentido crítico com referência à esfera pública. A cidade deve tornar-se o espaço da ternura e do encontro fraterno, se quiser ser o lugar do humano.

Leia também: www.neipies.com/senhoras-prefeitas-senhores-prefeitos-cidades-podem-ser-educadoras/

Autor: José André da Costa, msf. UNIFASAM – GOIÂNIA – GO. Também escreveu e publicou no site “A buzina na cidade: um sinal de ansiedade”: www.neipies.com/a-buzina-na-cidade-um-grito-de-ansiedade/

Edição: A. R.

O carrasco nazista e o poeta dos olhos memoráveis

O “Deutsches Requiem” de Borges, por mais incrível que possa parecer, soa atual. Em tempos belicosos, quando ideias e movimentos fascistas e nazistas, sem qualquer disfarce ou travestidos sob outros rótulos, insistem em ressurgir nos mais diversos países, inclusive no nosso, nunca é demasiado refletir sobre a tragédia que outrora causaram no mundo.

As reflexões do oficial nazista Otto Dietrich zur Linde, na noite que precedia ao seu fuzilamento, dão o tom do conto “Deutsches Requiem”, de Jorge Luis Borges. Nelas não há qualquer sinal de arrependimento.

Otto Dietrich havia abraçado o nazismo como missão de vida. Estava convicto que a ordem sonhada pelo nazi-socialismo triunfara. Não denotava o menor abalo nas suas convicções ideológicas. Não esboçou qualquer defesa nos tribunais. Ao contrário, sentia-se gratificado pelo julgamento ter durado tão pouco. Não queria ser perdoado, pois não havia culpa nele, apenas ser ouvido.

Insistia que, quem o escutasse, iria compreender a história da Alemanha e a futura história do mundo. Quando o relógio da prisão marcar 9 h tudo estará terminado. Talvez, apesar da serenidade com que esperava o derradeiro momento, no seu íntimo, lamentasse que, ao contrário dos seus antepassados militares, que tiveram mortes gloriosas nos campos de batalha, ele seria executado como torturador e assassino.

No seu Réquiem Alemão (“Deutsches Requiem”), Jorge Luis Borges tem lado. E isso ele deixou explícito no epílogo do livro “El Aleph”, publicado, originalmente, em1949, pela Editorial Losada, que incluiu o conto “Deutsches Requiem”, ao destacar: “na última guerra, ninguém pode desejar mais que eu a derrota da Alemanha; ninguém pode sentir mais que eu a tragédia do destino alemão; “Deutsches Requiem” quer entender esse destino que não souberam chorar, nem sequer suspeitar nossos “germanófilos”, que nada sabem de Alemanha”.

O que Borges conseguiu com o seu “Deutsches Requiem” foi realçar a tragédia que o nazismo e a guerra impuseram à Alemanha. O mal que os utópicos ideais nazistas e a sua política de extermínio causaram, ao se escancarar, aos olhos do mundo, o holocausto judeu e a triste realidade dos campos de concentração, que personificaram, mais do que qualquer outra coisa, a barbárie e a bestialidade humana. Nada menos que a desumanização da humanidade. 

O título do conto de Borges foi, claramente, tomado do “Ein Deutsches Requiem” de Johannes Brahms, peça composta por volta de 1865. E, tanto o Réquiem Alemão de Brahms, inspirado na Bíblia de Lutero, quanto o de Borges, ao contrário da liturgia católica, cujas missas de réquiem começam com orações pela paz dos mortos, são dirigidos aos vivos. Em vez do “dai-lhes, Senhor, o repouso eterno” (requiem aeternam dona eis, Domine), ambos louvam “felizes são os que choram, pois serão consolados” (Mateus, 5:4). E, por vivos, nesse caso, entenda-se: nós! 

Otto Dietrich zur Linde, num final e tarde, em 1º de março de 1939, em Tilsit, por ocasião de distúrbios numa rua atrás da Sinagoga, teve uma perna transpassada por duas balas. Essa perna teve de ser amputada. Apesar do sofrimento, pela gravidade do ferimento, não esmoreceu. Havia se entregado de corpo e alma aos ideais de Adolf Hitler e à construção do Terceiro Reich. E, assim, sentiu-se revigorado, quando, em fevereiro de 1941, foi nomeado subdiretor do campo de concentração de Tarnowitz, onde, à semelhança de Sobidor, Auschwitz, Dachau e outros tantos, assassinatos em massa de judeus eram perpetrados sem qualquer compaixão. 

Os dilemas de consciência de Otto Dietrich zur Linde, admite ele, começaram quando o insigne poeta judeu David Jerusalém foi transferido de Breslau para Tarnowitz.

Otto Dietrich, apesar da sua fé inabalável no nazismo, era um homem culto. Leitor de Schopenhauer, Spengler, Nietzsche e Lucrécio. Resistia admitir, mas admirava David Jerusalém, um homem da poesia, um homem do livro, que havia dedicado a vida a cantar a felicidade, personificando valores que haviam sido banidos da vida do oficial nazista. Era a sua imagem especular.

Desesperou-se ao contemplar que a sua consciência ainda não havia sido irreversivelmente tomada pelo nazismo. Lutou para não cometer o pior dos pecados, segundo ele, a piedade. E, por isso foi severo com o homem que ele descreveu como o poeta de olhos memoráveis, de pele citrina, de barba quase negra, para não permitir que a compaixão o abrandasse. Foi implacável com David Jerusalém, impingindo-lhe a tortura que o levaria a perder a razão e a dar fim à própria vida, data não casual, em 1º de março de 1943. E, ao cabo, as mortes de ambos se entrelaçam, conforme a ironia de Borges, explícita na escolha da epígrafe do conto, tirada do Livro de Jó (13:15), conforme a Bíblia do Rei James: “Ainda que ele me mate, nele confiarei”.

O “Deutsches Requiem” de Borges, por mais incrível que possa parecer, soa atual. Em tempos belicosos, quando ideias e movimentos fascistas e nazistas, sem qualquer disfarce ou travestidos sob outros rótulos, insistem em ressurgir nos mais diversos países, inclusive no nosso, nunca é demasiado refletir sobre a tragédia que outrora causaram no mundo.

Autor: Gilberto Cunha. Também escreveu e publicou no site “Ainda resta esperança, segundo J. Shukla”:  www.neipies.com/ainda-resta-a-esperanca-segundo-j-shukla/

Edição: A.R.

Veja também