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Pode o amor morrer de tanto amar? Conheça Rita Pawlosky

Após os primeiros anos de um amor imaginado, viver transformou-se em servir.  Já não era amor, aliás. Mas como desfazer os nós da frieza de quem já amou e viu esmorecer sua cumplicidade, na rotina de dias que se sucedem em uma vida sem paixão?

Vocês todos, aí! Já viram aquele sujeito tranquilo, caminhando como que contando seus passos? Que caminha organizando as pedras da calçada, silenciosamente, sempre pensativo e que avança muito pouco?

Pois este era o Zeca. Um homem tranquilo e que cuidava da guarita de uma fábrica. O abre e fecha da cancela tornara o seu Zeca uma pessoa previsível, como todos os que repetem seus gestos, dia após dia, tornam seu andar dócil, apático e aborrecido. Um sujeito pacato, com o olhar certeiro, andando de cabeça baixa, como alguém que aceita os fins de noites a sós. Corpulento e com o rosto exposto em uma barba malfeita, caminhava lento de sua casa para a guarita; todos os dias, todas as noites… Mas sempre retornava ao amanhecer, pelas 5h.

Um dia, fora devolvido da cancela de sua guarita para o seu antigo posto; o matadouro.  Como era hábil com uma faca, fazia o trabalho de muitos.

Mas antes…

_Lá vem o Zeca Lume, comentavam todos, escravizado que era por sua rotina, por suas horas de turno, e que, nestes últimos trinta anos, jamais falhara.  Noite após noite, semana após semana, vivia mais para a sua guarita do que para Rita. Pelo ir e vir dos portões, seus dias eram um abrir e fechar cadeados e talvez por isso pensava:  – prendendo Rita em casa poderei prender seu coração.

Ao contrário de seus esforços para contê-la, Rita carregava um amor confuso pela vida, pelas noites e madrugadas e que a sucessão deles a deixava mais infeliz. Sua paixão instável era a casa e a sua tentativa em amar um homem de paz e tolerância e que nunca sequer erguera a voz com ela. Mas onde há muita paz há também vazio.  Zeca, o homem a quem afeiçoou-se anos atrás, após vê-lo caído pelos bares, quando perdeu sua primeira esposa, era o seu chão. Não havia amor, o amor complexo, o amor dos equilíbrios a que tanto ela sonhava, que põe homens e mulheres a cuidarem uns dos outros e a se cansarem, igualmente. Porque o amor também cansa!

Nasceu assim uma cumplicidade humana, difícil de entender e explicar, quando os opostos tendem atrair-se; mais por suas contradições do que pelos seus desejos.

Infelizes os dois, Rita pensava em sua casa como um pequeno castelo de madeira escura, sempre brilhando, em seu rigor diário com o seu lar e seus pertences. Quando Zeca chegava, ainda noite, um café, assobiando fumaça pra fora do bule, aguardava-o. Café com sorriso e uma vontade imensa de tê-lo em seus braços. Fervia Rita de um amor não correspondido, pois os braços de Zeca foram consumidos pela matança do dia.

Pudera! Qual amor é possível manter quando se passa o dia pensando em matar?

Zeca, era o mais exímio adestrador de facas.  Em minutos desmembrava uma galinha.  E, em meia hora, um porco não lhe fazia de difícil. E assim crescera, com facas afiadas, poucos amigos e a vontade de estripar.

Como acontece com o que não se quer, fora transferido novamente para o seu cargo anterior; de uma guarita sem graça para matança de aves.  Quaisquer aves posto que odiava asas.

Rita, parecia, nunca fizera frente com a real paixão de Zeca; a sua faca.  Límpida, com o cabo torneado, em perfeita empunhadura, nada a roubaria de sua escolha. E a trazia escondida, quieta, como todos os que caminham calados pelas ruas assim que anoitece.

Por vezes, consumia a tarde de sábados na pequena varanda de casa, limpando suas unhas com a ponta da adaga, tamanha a sua precisão. Fitava sua faca tão compenetrado, a ponto do galo Jeremias, que passeava pelo pátio, ressentido e desconfiado, cruzava ao largo da varandinha, medo que tinha, decerto, de se tornar o próximo caldo.

Depois, Zeca cansado, sentado rente à mesa, com o olhar perdido na boca aberta de um velho fogão à lenha, azul desgastado, tentava contar os estalos que faziam a lenha gemer, maltratada que era pelo fogo.

Soubesse Zeca sobre a paixão escondida de sua Rita, não olharia desta forma para a lenha ardente. Contida em um corpo abaulado e beirando a perfeição, imaginasse ele em que mundo a Rita passava suas tardes de solidão e apaixonada, sabe-se lá por quem, sonhando com um amor que ainda haveria de acontecer, Zeca não olharia mais para o fogo.

Rita, ainda jovem, nos idos de seus 14 anos, linda que era, foi apresentada a uma cigana por sua mãe, para que a sua sorte fosse lançada.  Ao ver tamanha beleza, a cigana foi franca; ela pode morrer de paixão!

_Porque todo o coração de uma mulher, dizia ela a sua mãe, bate trocado quando decide se perder por amor.  O que se acha por amor, pelo mesmo amor, acha-se a dor.

_Credo! Respondeu!

Sua Mãe nem queria pagar por tal prenúncio. Mas foi o que ouviu e teve de pagar pela sentença.

Quanto ao Zeca, claro, passando os dias e horas contados, seu andar o denunciava como um homem que nasceu para fazer poucas perguntas.  Além da sua coleção de facas, a sua fixação tinha outros contornos, cor e nome:  o medo de perder o amor de Rita.

Uma menina perfeita para um casamento infeliz.  Justo ela, com tantos sonhos a sonhar e tanto amor para dar e trocar, casou-se com um homem obtuso e calado, dados a pensamentos extraviados e que somente ele poderia descortinar.

Amor não havia, sequer paixão.  Pois a paixão tem pressa em passar, mas amar é uma escolha.

Rita escolheu cedo demais. Apresentado como amigo de seu pai, colega de matadouro, casou-se. Um futuro incerto em troca de futuro nenhum.  Até para quem pensa ter nascido infeliz a beleza se contorce em ajudar.  Como o destino de muitas que saíram da pequena cidade, amava a vida, mas temia aventurar-se em dias amargos, como muitas de suas amigas da primeira infância confessavam. 

Ao fugirem do tédio de sua vila, de oportunidades escassas, algumas voltaram. Outras fugiram com caminhoneiros ocasionais, sumiram com estranhos, e ainda as que se viram às portas de meretrícios, pois sem o amparo de um amanhã, muitas preferiram doar o seu corpo em troca de uma segurança qualquer. Não seria de todo improvável, que em algum momento, em alguma manhã, Rita também tenha sofrido a tentação de trocar gemidos por moedas.

Preferiu ficar, mas queria mais.  Casou-se casta e tinha o apelido de noviça, pois seu rosto resplandecia uma alegria inocente e seus gestos delicados, mais lembravam uma vestal do que a menina de um vilarejo do interior. Um fosso patriarcal e sempre impiedoso para paixões intensas, onde o casamento não era uma rota para o amor, mas um caminho para todas as vocações da submissão.

E foi o que aconteceu!  Após os primeiros anos de um amor imaginado, viver transformou-se em servir.  Já não era amor, aliás.  Mas como desfazer os nós da frieza de quem já amou e viu esmorecer sua cumplicidade, na rotina de dias que se sucedem em uma vida sem paixão?

Zeca dormia com a sua faca embaixo do travesseiro, como um cinto de castidade portátil para os desejos de Rita.

Um dia… Sempre um dia, o velho circo passou pela cidade. E nele havia um trapezista.  Quem resiste ao ver um humano voar? Então, Rita pensou em asas… E voou.

Mas uma faca estava em seu caminho.

(continua)

Introdução do livro ‘A Paixão de Rita Pawlosky’, escrito por Nelceu Alberto Zanatta e que a partir deste romance, baseado em fatos de sua infância, assinará seus textos como NAZanatta.

Autor: NAZanatta. Também escreveu e publicou no site “Valentina”: www.neipies.com/valentina/

Edição: A. R.

Pesquisa sobre práticas leitoras em Passo Fundo

A tese da Professora Doutora Fátima Cristina dos Passos Cunert, intitulada “Práticas Leitoras Literárias nos ‘Caminhos e Estações’: o Perfil Leitor Experienciado dos Estudantes de Nono Ano das Escolas Públicas Municipais de Passo Fundo”, lança luz sobre uma questão essencial: de que forma as preferências literárias dos alunos são moldadas pela interação com profissionais da educação?

A análise de 188 estudantes revela a influência da mediação docente e dos eventos culturais na construção do perfil leitor.

Sempre que falamos em estudo, estamos — consciente ou inconscientemente — falando de livros. Há outras formas de aprendizagem? Sem dúvida. Mas, em qualquer área, mais cedo ou mais tarde, encontraremos uma das forças mais fundamentais do progresso humano: o texto escrito.

Não importa se falamos de médicos, dentistas, advogados, motoristas ou padeiros — compartilhamos, enquanto civilização, a crença de que a leitura tem o poder de nos tornar melhores. E hoje, mais do que uma crença, temos pesquisas que comprovam os benefícios da leitura para o desenvolvimento pessoal, intelectual e social.

Seria natural, então, imaginar uma sociedade com cidades repletas de bibliotecas, livros acessíveis em cada esquina, livrarias ativas e um circuito vibrante de autores antigos e contemporâneos. No entanto, a realidade nos mostra o oposto: bibliotecas sucateadas — inclusive escolares —, livrarias fechando e, no lugar dos livros nas esquinas, farmácias. Uma sociedade que busca nos fármacos o alívio para suas dores — inclusive as existenciais — em vez de encontrar prevenção e sentido na arte, na cultura, na literatura.

Nesse contexto, a tese da Professora Doutora Fátima Cristina dos Passos Cunert, intitulada “Práticas Leitoras Literárias nos ‘Caminhos e Estações’: o Perfil Leitor Experienciado dos Estudantes de Nono Ano das Escolas Públicas Municipais de Passo Fundo”, lança luz sobre uma questão essencial: de que forma as preferências literárias dos alunos são moldadas pela interação com profissionais da educação?

Professora Fátima Cristina dos Passos Cunert

Os limites do mundo de cada indivíduo são definidos pelas experiências que seu meio proporciona — algo ainda mais verdadeiro quando falamos de crianças e adolescentes. O que estamos oferecendo a eles? Como esperar um retorno sensível e humano quando não criamos as condições para isso? Que experiências estamos possibilitando para que construam, dentro de si, mundos mais amplos, complexos e integradores?

A pesquisa da Professora Fátima investiga como estudantes de escolas públicas, que participaram da 8ª Jornadinha Nacional de Literatura, desenvolveram seu imaginário leitor a partir da mediação pedagógica e da vivência com o evento. O estudo envolveu 188 alunos das EMEFs Antonino Xavier, Daniel Dipp, Dyógenes Martins Pinto e São Luiz Gonzaga, e destaca o papel dos professores como mediadores afetivos e culturais da leitura.

Tanto o tema quanto sua execução são urgentes, especialmente em tempos de crescente burocratização da educação, adoecimento psíquico e desmonte das políticas públicas voltadas ao livro e à leitura. Com base em dados objetivos, a autora aborda uma questão decisiva para educadores, escritores, contadores de histórias — e também para gestores públicos e todos que se preocupam com o desenvolvimento integral das novas gerações.

Valorizar a literatura como um alicerce da cultura é uma tarefa coletiva e inadiável. É preciso reacender o imaginário de que podemos, sim, ser melhores. E que isso ainda é possível — graças à literatura.

***

Tese defendida por professora busca descobrir perfil de estudantes leitores das escolas públicas da rede municipal de Passo Fundo, RS.

Acesse o link para ler e conhecer a tese completa da professora Fátima Cristina dos Passos Cunert: 2025FatimaCristinadosPassosCunert.pdf

Em 2018, Fátima Cristina dos Passos Cunert apresentou também sua tese de mestrado, sendo recebida pelo Secretário Municipal de Educação à época, Edemilson Brandão. O título da tese foi:  “O perfil leitor dos professores de língua portuguesa das escolas públicas municipais de Passo Fundo”. (Foto: rede social Prefeitura Municipal de Passo Fundo)

Autor: Aleixo da Rosa. Também escreveu e publicou no site “O curioso caso dos alunos que preferiram os livros”: www.neipies.com/o-curioso-caso-dos-alunos-que-preferiram-os-livros/

Edição: A. R.

Os Essênios

A origem da Fraternidade Essênia ainda é incerta.  Ela existiu e foi atuante durante os últimos dois a três séculos antes de Cristo e no primeiro século depois de Cristo, junto ao Mar Morto, na Palestina e na Síria, e próximo ao Lago Mareote, no Egito, onde eram conhecidos como terapeutas ou curadores.

A Fraternidade dos essênios era composta pelos verdadeiros discípulos de Moisés. Eles cultuavam o estudo e prática dos Dez Mandamentos e dos legados escritos   autênticos de Moisés que ensinavam a deslumbrar a eterna beleza da Lei Divina nas penumbras aprazíveis das rochas.

Originalmente eram conhecidos como “Irmãos do Silêncio”.   Tinham por ideal a busca, o estudo e a cópia dos manuscritos religiosos antigos e originais e a conjugação com as ideias novas, sempre com o objetivo de melhor servir às pessoas que viviam nas comunidades próximas dos redutos onde estava estabelecido o santuário.    

Seus adeptos procuravam sempre fazer o bem, compreendendo a ignorância dos que agiam mal e orando por eles.

A “voz do silêncio” era a senha usada entre eles; o silêncio era o costume usual para não se exporem, pois eram muito perseguidos pelo Sinédrio judaico porque buscavam divulgar a verdade contida nos textos autênticos escritos por Moisés. Lutavam, silenciosamente, contra o egoísmo do clero judeu e sobre as alterações que foram feitas nos cinco textos de Moisés e de outros profetas do Velho Testamento, bem como contra o poder romano que, despoticamente, dominava e explorava o mundo conhecido da época.

Para eles, Deus, que era invisível, vivia como uma essência em tudo quanto tem vida. Deus se encontra no ar, na água, nas plantas, nos astros, nas pessoas e animais. Compreendiam que era necessária uma evolução avançada para despertar o desejo de estudar e conhecer a causa suprema de tudo que existe e começar a morrer em si mesmos as ambições de grandeza material e dos desejos grosseiros. Eles escolhiam, para participar das atividades por eles realizadas, só os que já estavam aptos para, gradativamente, absorverem a proposta de vida da Fraternidade Essênia.

Há cerca de dois mil anos, as comunidades essênias viviam afastadas das cidades, dos grandes centros urbanos. Elas se estabeleciam nos montes afastados ou praias de lagos ou rios e praticavam o modo comunitário de vida, compartilhando de tudo igualmente; desta forma, eram ignorados pelo mundo social organizado e, assim, tinham a liberdade necessária para agirem em completo sigilo nos retiros onde moravam, na busca da perfeição espiritual e preparar o caminho do Enviado Divino esperado por todos. Eles esperavam a vinda do Messias, Cristo de Deus, e tinham a certeza que lhes preparavam o caminho e que sua missão não seria fácil. Estavam disseminados por toda a Palestina e Síria e não havia lugar onde não existisse um essênio, que, com seu conhecimento mais avançado, ajudava os necessitados discretamente, curando suas dores físicas e morais.

A obra silenciosa e oculta desta fraternidade formava uma rede prodigiosa de amor e caridade que se estendia no auxílio ao próximo oprimido e injustiçado. Nas cavernas destes montes eles organizavam as Escolas da Sabedoria Divina onde os adeptos externos   eram preparados em sete graus de educação e desenvolvimento espiritual, que levava anos, durante os quais o aluno ia dando mostras, na vivência prática diária, na família e   no grupo social da comunidade a que pertencia, do seu progresso, tendo em vista o preceito maior da Lei Divina: “Amar A Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”. 

Os Mestres observavam criteriosamente se os adeptos do primeiro e segundo graus estavam aptos a prosseguirem na formação da busca da luz eterna ou deveriam ficar mais tempo nestes níveis para se desprenderem dos preconceitos e das ideias mundanas adotadas por eles e vigentes na sociedade.  Era exigido dos mesmos o trabalho honrado que dá o pão para si e para as obras de auxílio ao necessitado, o estudo da Torá, a oração, a auto iluminação, o controle de si próprio e a misericórdia para com o próximo.

Os mestres essênios que moravam nos retiros ocultos, eram homens celibatários e viviam de forma metódica, tinham vida regular e simples, levantando-se diariamente antes do nascer do sol para se comungarem com as forças da natureza.  Após os afazeres nos campos, nas hortas, nos pomares e no cuidado com os animais domésticos, reuniam-se em silêncio para fazer a refeição frugal.  

Geralmente, ao anoitecer, consagravam-se ao estudo e às comunicações com o plano espiritual. Eles obtinham revelações divinas, especialmente sobre a vinda do Messias, que era esperado por séculos pelos judeus, e se preparavam para recebê-lo e ampará-lo na missão heroica que Ele viria executar.  Eles tinham conhecimento dos escritos originais de Moisés, que estudavam com afinco, através das cópias que possuíam. Elas eram guardadas como relíquias   preciosas.

Foi o profeta Isaias que   organizou regularmente a fraternidade essênia.  Ele   viveu entre os judeus de 740 Ac a 701 AC, era muito culto, escrevia muito bem e é considerado o profeta que anunciou, com detalhes claros, a vinda do Messias que nasceria entre os judeus. Ele foi um dos profetas mais importantes do Velho Testamento.

Um dos principais santuários ficava no monte Horeb ou Sinai, que era repleto de pequenas cavernas as quais formavam celas onde os adeptos viviam. O estilo de vida dos essênios devotos estava ligado ao tempo de Moisés e Arão e se assemelhava a uma ordem religiosa.

Um dos objetivos da fraternidade era a instrução das pessoas comuns que precisavam ser esclarecidas para buscarem seus direitos humanos com êxito, para conseguirem ocupar seu lugar na ordem da vida universal, de ter ciência de quem ela é, de onde veio e para onde vai, enfim, saber sua origem e seu destino.

Propunham a vivência da solidariedade, da fraternidade, da união e da harmonia entre todos, com vistas à conquista da felicidade futura. Esta ação era realizada pelos essênios terapeutas, que atuavam como médicos e professores na comunidade onde viviam, mas sempre mantinham silêncio sobre onde se localizava a sede da Ordem a que pertenciam. Estes formavam família e tinham lar, convivendo no meio social. Se disseminavam por toda a Palestina e formavam uma segunda cadeia espiritual que mantinha contato permanente com os mestres essênios solitários dos santuários, que viviam em celibato. Iam de casa em casa, curando as enfermidades físicas e as almas das pessoas simples do povo a quem, conforme a necessidade, doavam também roupas, remédios e alimentos que vinham dos retiros onde eram fabricados.  

Visitavam, regularmente, as prisões e os locais onde estavam os inválidos, os leprosos para levar-lhes um pouco de esperança, alento e, se fosse permitido do Alto, a cura, na aplicação da bioenergia.  Eles eram exímios nesta prática.

Os terapeutas peregrinos usavam manto cor de nogueira seca, pelos quais eram reconhecidos pelos necessitados de assistência.  Esta atividade caridosa era feita sem alarde de espécie alguma, pois todos sabiam que os “religiosos oficiais” da época os perseguiriam.  Eles percorriam as aldeias das cidades próximas das montanhas da Síria e da Palestina.

Os essênios que viviam nos santuários eram excelentes agricultores, apicultores, engenheiros, tecelões, marceneiros, pois sabiam trabalhar com todos os elementos naturais. Conheciam o regime das colheitas, dos solos e das condições climáticas.  

Cultivavam grande variedade de frutas, vegetais e ervas medicinais; muitas vezes recuperavam áreas desérticas com grande trabalho e as tornavam férteis.  Os terapeutas preparavam remédios em forma de loções, xaropes e pomadas que utilizavam no tratamento dos doentes; também usavam o recurso da água magnetizada e a vibração da imposição das mãos.  Os essênios que viviam fora dos retiros, tinham vida normal, constituíam família e nos seus lares tinham sempre pequeno santuário que consideravam sagrado.   

Em todo retiro essênio havia um local específico que   era o santuário e destinava-se ao culto; tinha mesa de pedra talhada na gruta onde ficavam os Sete Livros dos antigos profetas de Israel e uma cópia das Tábuas da Lei, recebida por Moisés. Os   grandes   mestres essênios foram: Elias, Eliseu, Isaías, Samuel, Jonas, Jeremias e Ezequiel. Os   santuários dos essênios existiam no Monte Ebat, para os judeus da Samaria; no monte Carmelo e no Tabor para os galileus; no monte Hermon, para os   da Síria. 

O grande Conselho dos Setenta Anciãos, dirigentes da Fraternidade Essênia, se estabelecia no Monte Moab, na margem oriental do Mar Morto onde, uma vez por ano, se reuniam os adeptos para serem avaliados e elevados a um novo grau, quando eram analisadas as provas relativas aos diversos graus.

O seguidor essênio tinha por desafio a possibilidade de ser promovido do primeiro ao sétimo grau. Aos essênios do primeiro grau tinham por dever, vivenciar por determinado tempo a hospitalidade ao próximo e o silêncio; os do segundo grau tinham por acréscimo o dever de trabalhar duas horas a mais, diariamente, para poder prover com seus recursos a ajuda e a manutenção de um indigente, com desprendimento e generosidade.  À medida que ascendiam a um novo grau, novos desafios eram exigidos dos adeptos. Só quando chegavam aos últimos graus é que ingressavam na vida solitária dos santuários para o desenvolvimento das faculdades superiores do espírito.

Ao tempo do nascimento de Jesus existiam quatro grupamentos judeus de Fraternidade Essênia espalhadas nas grandes grutas das montanhas de Moab, nas Cordilheiras do Líbano e nos montes da Samaria e da   Judéia. Através de suas atividades místicas e mediúnicas estes   grupos souberam quando aconteceu a aproximação do Grande Messias junto à humanidade terrena: e Jesus nasceu na cidade de Belém.

Os essênios esperavam um Messias – Instrutor, cheio de luz divina e de conhecimentos superiores para demarcar aos homens o roteiro que os conduzissem a Deus, o fim supremo de toda a criatura. Os demais judeus esperavam um Messias-Rei, que vencesse os romanos…

Leia também: www.neipies.com/a-linguagem-simbolica-das-parabolas-de-jesus/

Nesta época, nas Montanhas de Paran, às margens do Mar Vermelho, na Arábia, estava estabelecida a Escola de Sabedoria Divina coordenada pelo sábio astrólogo Melchior, que dirigia um grupo de estudiosos e seguidores   que buscavam a serenidade do infinito, a esperança, a paz e a sabedoria.

Eram conhecidos como Ermitãos Horeanos, e considerados como oráculos, astrólogos e terapeutas. Existia também, na Pérsia, entre as montanhas da Cadeia dos Montes Zagros, outro grupo místico de estudiosos da sabedoria divina que se dedicava ao estudo, à meditação, à música e aos trabalhos manuais e eram dirigidos pelo conselheiro Baltazar. Outro grupamento religioso e místico estava situado nos Montes Suleiman, próximo ao rio Indo, que se dedicava às observações astrológicas e ao despertamento dos poderes internos concedidos por Deus aos homens, e era dirigido pelo sábio Gaspar. Estes grupos se dedicavam ao estudo profundo para a compreensão das leis divinas que regem a vida, demostravam grande respeito à natureza e, por suas ligações com o plano espiritual elevado, lhes foi revelada a informação da descida do Cristo Planetário em um corpo físico.

Os essênios judeus tinham forte ligação com a escola de filosofia de Alexandria, no Egito, nos vales do Rio Nilo, liderada pelo filósofo Filon.  Nesta escola havia um prolongamento dos estudos profundos dos manuscritos religiosos antigos, feitos pelos essênios. Essas informações eram trocadas e se somavam às pesquisas de outros estudos  filosóficos feitos por Filon e seus adeptos. Deste modo, essas escolas de Sabedoria Divina se conectavam e sabiam da descida do Grande Avatar ao mundo físico.

Estes sábios astrólogos e filósofos sabiam o que significava a conjunção astral entre os planetas Júpiter e Saturno, juntamente com Marte. Eles sabiam que a reunião destes três planetas era a eterna clarinada que marcava a hora em que o Messias-Instrutor nasceria na vida física para trazer seu legado de amor e sua posterior imolação.

Os três sábios, conhecidos por magos, saíram de suas Escolas de Sabedoria Divina em busca do local que a luz astral os conduzia e mostrava onde acabara de nascer o Filho de Deus.  Melchior saiu das Montanhas de Paran, às margens do Mar Vermelho; Gaspar, da Pérsia e Baltazar, da Índia, cada um com seus ajudantes. Se reuniram, casualmente, sem planejamento prévio, ao pé de uma das colinas do Monte Hor e se dirigiram a   Jerusalém.

Os três sábios do oriente foram amparados por essênios e conduzidos a Belém, até onde estava Maria e José com o menino Jesus que já estava com 10 meses. Eles examinaram detidamente a criança e constataram que todas as características físicas demonstravam, por suprema lógica, que ele reunia todas as perfeições físicas, morais e espirituais; era um poderoso receptor e transmissor da Energia Eterna, da Luz e do Supremo Amor – causa e origem de todo alento que existe no Universo.

Antes de retornarem aos seus países de origem, os três sábios foram conduzidos, secretamente, ao grande santuário essênio do Monte Moab e junto com os Setenta Anciãos, organizaram um vasto programa de preparação, a fim de que todas as Escolas de Divina Sabedoria pudessem secundar a obra apostólica de Jesus Cristo o que foi feito pelos trinta e três anos que Jesus permaneceu, fisicamente, no Planeta Terra.

Obras pesquisadas:

– Szekely, Edmond Bordeaux – O Evangelho Essênio da Paz – Ed. Pensamento – 2022.

– Alvarez, Josefa Rosália Luque – Harpas Eternas – Volumes I, II, III e IV ED. Pensamento – 2020.

– Oliveira, Gladis Pedersen – Jesus, Mestre, Guia e Modelo – Ed. OLSEN – 2024.

– Maia, João Nunes – Jesus Voltando – Shaolin – Ed. Espírita Cristã Fonte Viva – 1991

Autora: Gladis Pedersen. Pedagoga, Especialista em Educação, Escritora, Historiadora. Também escreveu e publicou no site “O método pedagógico de Jesus”: www.neipies.com/o-metodo-pedagogico-de-jesus/

Edição: A. R.

Como devemos enfrentar a violência?

Promover a paz é mais do que desejar o bem: é se comprometer com o cuidado, a escuta, o outro. E, acima de tudo, com nossa própria cura. Pois só corações curados podem restaurar o mundo.

A pergunta ecoa forte em tempos tão marcados por tragédias e desamparo. Mas talvez a resposta não esteja em mais armas, mais grades ou mais ódio. Talvez a resposta esteja justamente em desaprender a violência que nos habita – porque, sim, ela também mora em nós.

Somos todos responsáveis. Não há neutralidade diante da violência. Quando cruzamos os braços, quando fechamos os olhos para os sinais que alguém dá, quando preferimos culpar do que cuidar, estamos fortalecendo o ciclo do sofrimento.

Quantos dos que hoje cometem violências brutais não deram sinais antes? Quantos não pediram ajuda em silêncio? Quantos não foram vítimas de outras violências antes de se tornarem agressores?

“Quem são os assassinos? Apenas quem comete o ato ou também quem se omite diante do sofrimento alheio?”

A Justiça Punitiva fracassou porque ela olha o crime, mas não olha a dor. Ela aponta o dedo, mas não estende a mão. Ela pune, mas não cura. E enquanto curar não for prioridade, seguiremos repetindo os mesmos ciclos – agora mais sofisticados, mais cruéis, mais impessoais.

Nossos pais educaram com dureza e, por medo, talvez tenhamos evitado certos comportamentos. Mas em nossos filhos — criados num mundo cada vez mais acelerado, individualista e desconectado da empatia — as violências já são silenciosas, internas, emocionais.

“Quantas vezes desejamos, mesmo que em pensamento, a morte de alguém?”

Quantas vezes usamos a palavra como arma? Quantas vezes julgamos sem saber?

Não somos só vítimas da violência: muitas vezes, somos seus agentes.

O capitalismo selvagem, o consumismo desenfreado, a violência estrutural das favelas, da falta de oportunidades, da ausência de políticas públicas, tudo isso nos adoece e naturaliza o abandono. E então, quando a tragédia explode, perguntamos: por quê?

Mas deveríamos perguntar:

👉Onde estávamos quando aquele menino sofreu bullying?

👉 Quem ouviu aquela menina que pediu socorro no silêncio?

👉 Por que as escolas não têm rodas de escuta com quem tem dor?

👉 Quem nos ensinou a sentir sem machucar? A chorar sem ser fracos?

A resposta passa por prevenção. E prevenção se faz com cuidado, presença, escuta, afeto.

Grupos formados em Justiça Restaurativa e práticas circulares podem abrir espaços seguros para que crianças e adolescentes falem, chorem, gritem, compartilhem. Onde há escuta verdadeira, há possibilidade de transformação. Onde há acolhimento, há caminho. Onde há comunidade, há proteção.

Mas quem nos ensinou a lidar com as emoções?

Ninguém.

Ninguém nos ensinou a nomear a tristeza. A acolher a raiva. A transformar o medo em cuidado. O que aprendemos foi a reprimir ou explodir.

A História está cheia de horrores. O rei Herodes mandou matar todas as crianças com menos de dois anos. Guerras foram travadas em nome de poder, fé e lucro. E seguimos, século após século, colocando a culpa fora de nós.

Mas é tempo de mudar. É tempo de restaurar.

Perguntas geradoras para um círculo de diálogo:

a) Em que momento da vida você sentiu que precisava ser ouvido, mas ninguém percebeu?

b) Você consegue identificar uma situação em que respondeu com violência por não saber o que sentia?

c) Quais violências você testemunha e prefere não ver?

d) Quem você gostaria de perdoar? Quem gostaria que te perdoasse?

e) Você acredita que sua dor, se não cuidada, pode virar arma contra outro?

f) Se pudesse mudar uma coisa em nossa forma de viver juntos, o que seria?

***

Concluímos com a luz da Palavra: “Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.” (Mateus 5,9)

Promover a paz é mais do que desejar o bem: é se comprometer com o cuidado, a escuta, o outro. E, acima de tudo, com nossa própria cura. Pois só corações curados podem restaurar o mundo.

Grupos formados em Justiça Restaurativa e práticas circulares podem abrir espaços seguros para que crianças e adolescentes falem, chorem, gritem, compartilhem. Onde há escuta verdadeira, há possibilidade de transformação. Onde há acolhimento, há caminho. Onde há comunidade, há proteção.

Mas quem nos ensinou a lidar com as emoções? Ninguém.

Ninguém nos ensinou a nomear a tristeza. A acolher a raiva. A transformar o medo em cuidado.

O que aprendemos foi a reprimir ou explodir.

Autora: Vera Dalzotto. Também escreveu e publicou no site “Educação ou prisão: o futuro que escolhemos construir”: www.neipies.com/educacao-ou-prisao-o-futuro-que-escolhemos-construir/

Edição: A. R.

Retrocesso desesperador que ameaça futuro do país

Diante de um simples apertar de botão, todas as licenças ambientais do País são transformadas. Por isso chegou a hora de unir forças. Organizações da sociedade civil, movimentos sociais, comunidades tradicionais, povos originários. Todos, unidos, pressionando para a reversão desse retrocesso.

Estamos diante do maior problema multidimensional que afeta o sistema vida. Estamos diante da maior emergência desses tempos atuais – o colapso climático. Estamos num País que, historicamente, sofre com desastres ambientais, pondo em risco direto à vida de milhões de brasileiros, e mesmo assim, na madrugada da última quinta-feira, 17, em votação final, a Câmara dos Deputados, por 267 votos a 116, aprovou o PL, Projeto de Lei n°2159/21, que simplesmente desmonta (flexibiliza) as regras (Lei Geral) de licenciamento ambiental no Brasil. Isso significa renunciar a estudos ambientais e de análises alternativas.

Importa esclarecer que foi desmontado o principal instrumento de controle dos impactos ambientais de empreendimentos no país. Por isso foi batizada de PL da Devastação, uma vez que favorece, como é fácil supor, o avanço de empreendimentos alheios à preocupação ambiental.

Com a quebra de regras, cria-se possibilidades de procedimentos autodeclaratórios, dispensa (afrouxamento) de licenciamento ambiental. Estamos falando, portanto, de inacreditável retrocesso ambiental (verdadeiro dano ao sistema de proteção ambiental) arquitetado por um Congresso que faz o jogo do quanto pior, melhor.

Análise realizada pelo projeto Amazônia Revelada, em parceria com a InfoAmazônia, mostra, pela primeira vez, que milhares de sítios arqueológicos cadastrados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) podem ficar vulneráveis. Patrimônio histórico desprotegido. Terras indígenas não homologadas pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) serão diretamente afetadas. Nada menos do que 86% dos projetos de mineração e suas barragens em Minas Gerais serão aprovados de forma automática.

Na base disso tudo, apresentado como um marco de eficiência e desburocratização, o Congresso brasileiro, com a aprovação do PL 2159/21, ecoando uma tragédia anunciada, acaba de incentivar um modelo de desenvolvimento arcaico, inimigo do meio ambiente, gerador de diversos impactos ambientais que, sobretudo, ameaça a defesa da vida.

Por isso, como apropriadamente demonstrou o geógrafo Bruno Araújo, “o PL da devastação é um retrato cruel do que o capitalismo faz quando quer aumentar suas taxas de lucro: acelera sua máquina de destruição, mesmo que isso signifique colocar toda a sociedade em risco”.

Em nosso sentir, a aprovação desse projeto – certamente o mais grave ataque dos parlamentares brasileiros ao meio ambiente – faz avançar a lógica da destruição em nome do lucro. Diante desse grave retrocesso, convém frisar que está em jogo a qualidade da Amazônia, do Pantanal e da generosa Mãe Natureza.

Diante de um simples apertar de botão, todas as licenças ambientais do País são transformadas. Por isso chegou a hora de unir forças. Organizações da sociedade civil, movimentos sociais, comunidades tradicionais, povos originários. Todos, unidos, pressionando para a reversão desse retrocesso.

E que não percamos de vista: é a proteção da vida, do solo, da floresta, do verde, da água, do ar, da biodiversidade que deve falar mais alto. Por justiça social, por justiça ambiental, nosso grito, daqui para a frente, deve ser um só: exigir o veto da Presidência da República.

Assista também:

Autores:

Gilberto Natalini, é médico-cirurgião, vereador por cinco mandatos na Câmara Municipal de São Paulo. Foi secretário municipal do Verde e do Meio Ambiente (2017) e candidato a governador do Estado de São Paulo pelo Partido Verde (PV) em 2014.

Marcus Eduardo de Oliveira é economista e ativista ambiental. Autor de A civilização em risco (Jaguatirica, 2024), entre outros. Também escreveu e publicou no site “Estamos jogando roleta russa com o Planeta”: www.neipies.com/estamos-jogando-roleta-russa-com-o-planeta/

Edição: A. R.

Estamos em choque. Mas temos que agir!

Muito ajuda as escolas terem alguém ou um grupo com a função específica de detectar e prevenir a violência dentro do seu espaço e nos seus arredores. Esses agentes da não violência vão com o tempo aprendendo muito a respeito e, quem sabe, nos trazer propostas eficazes.

Há dois anos, abordei esse tema ao comentar os crimes em Blumenau, em Saudades e em Aracruz. Volto a ficar em choque com o crime aqui pertinho, na tranquila cidade de Estação, RS.

Como é possível alguém fazer isso?! É pior que o pior dos horrores!

Mesmo em choque, temos de agir. As pesquisas a respeito desses “lobos solitários” revelam que eles ou não apresentam nenhum transtorno mental ou apresentam transtornos antissociais, narcisistas ou psicóticos.

O narcisismo se revela à medida em que eles querem chamar a atenção: pensem mal mas pensem em mim. Há muito que nós psiquiatras solicitamos a imprensa que divulguem o ocorrido, revelem o sofrimento das vítimas e seus familiares, mas não revelem o nome e a imagens do assassino.

O componente antissocial se percebe pela ausência de empatia afetiva e de sentimento de culpa ou responsabilidade por ferir os outros.

O psicótico confunde fantasia com realidade. É ele o menos difícil de ser identificado. E é bom salientar que a maioria das pessoas que apresentam essas alterações citadas não cometem crime. Ou seja, há algo mais que não identificamos ainda.

E aqueles que não apresentam transtornos mentais, como identificá-los? Difícil, muito difícil. Histórico de comportamento agressivo pode ajudar, mas não necessariamente. E o que mais?

Sabemos que o “lobo solitário” age sozinho e por conta, mas mentalmente muitos deles se identificam com algum grupo radical, violento, extremista, excludente, intolerante. Mentalmente não são “lobos solitários”.

Temos muito que observar e aprender para adotar medidas realmente eficazes.

Estudos de casos tentam encontrar características que distingam os futuros “lobos solitários” das demais pessoas. Já se sabe que: (1) não há relação direta com uma doença mental listada nas classificações; (2) há com frequência a presença de traços narcisistas; (3) isolamento social; (4) acesso a armas; (5) agem por conta mas mentalmente estão na bolha de algum movimento violento, discriminador, xenofóbico, excludente; (6) o pensar primitivo, maniqueísta, em dado momento passa a dominar a mente desses indivíduos: os “outros” são inimigos.

Muito ajuda as escolas terem alguém ou um grupo com a função específica de detectar e prevenir a violência dentro do seu espaço e nos seus arredores. Esses agentes da não violência vão com o tempo aprendendo muito a respeito e, quem sabe, nos trazer propostas eficazes.

Estamos todos muito tristes, muito mesmo. Mas a tristeza não pode nos paralisar. Temos de agir. Temos muito trabalho pela frente.

Professora Márcia Carbonari, da rede municipal de Passo Fundo, RS, faz uma interessante reflexão. Assista:

Autor: Jorge A. Salton. Também escreveu e publicou no site “Bruno está infectado pelo maniqueísmo”: www.neipies.com/bruno-estava-infectado-pelo-maniqueismo/

Edição: A. R.

Por quê, meu Deus?

Eu acredito em Deus. Não em um Deus decididor dos nossos destinos. Acredito no Deus que nos sopra a vida e que nos garante, desde os inícios, a inteligência e a liberdade.

Somos seres capazes da escolha. E, para a escolha, a inteligência. Então, por quê? É a pergunta que faço com alguma frequência diante da frequência de escolhas erradas que nós, humanos, fazemos.

E a inteligência? A palavra inteligência vem de dois vocábulos “inter”, de entre; e, “legere”, de escolher. A inteligência é, então, escolher entre.

O tempo todo, o todo do mundo escolhe entre uma coisa e outra. Por que alguém escolhe a guerra podendo escolher a paz?

Por que alguém escolhe a perversidade podendo escolher a bondade? Por que alguém escolhe espalhar dizeres que doem podendo escolher o silêncio?

Eu estava em um aeroporto chegando a um outro país. E alguns homens abordaram uma mulher que estava com sua filha com deficiência. Porque ela fazia barulho. A abordagem foi tão dolorosa que nem o pranto da mãe amoleceu a rudeza dos homens do poder. Quem deu poder a eles? Um homem ainda mais rude que destila ódios e que faz um barulho ensurdecedor na humanidade. E quem deu poder a esse homem? Muitos homens e muitas mulheres com informações erradas que levaram a escolhas erradas. E a inteligência? E o escolher entre?

Alguns jovens esperam um outro jovem na saída da escola. O jovem que estava sendo esperado sofria por não se sentir fazendo parte da parte que conhece do mundo. O que esses jovens farão com ele? Em que prateleiras deixaram guardados sentimentos essenciais, na arte da escolha, no uso da inteligência, como o respeito, a compreensão, a compaixão?

Em uma casa, em tantas casas, adultos violentam crianças, por quê, meu Deus? Se o sopro criador da vida sopra também o amor, onde foi que a liberdade nos levou a esquecer o de onde viemos e o para onde vamos? Chamamos isso de liberdade ou de sua ausência?

Os homens e suas ausências. A ausência do cuidado faz com que cotidianamente causemos dor uns nos outros. Um grupo de trabalhadores trabalhavam felizes quando chegou alguém com poder. E a felicidade foi saindo timidamente, porque os gestos e as palavras desse alguém, com poder, desaprovam a felicidade de seus comandados.

Quem são os comandantes dessa embarcação incauta que se tornou a mente humana? Quem nos deposita desde os inícios os comandos que nos comandarão?

Por que nos tornamos tão competitivos, tão sequiosos do ter, tão necessários do dizer que vencemos?

Ouço vozes que se unem a vozes que não nos identificam. Vozes que diminuem uma parte da humanidade da qual fazemos parte como se essa parte não fosse parte também? Vozes e atitudes inumanas desumanizam a humanidade inteira.

Um grupo conversava sobre a morte aos diferentes. Desacreditei. Interveio o meu dizer sem saber se tive ou não o poder do convencimento ou do despertar o pensar.

A escolha é filha do pensar. Sem o pensar, a escolha é eco de outras escolhas ou de suas ausências.

Uma mulher agride em um lugar do alimentar um outro que ela decide infamiliar, porque diferente dela. Do que alimentamos a alma para, ao escolher entre o conhecer e o julgar, escolhermos errado?

Uma criança pede ao pai que trate com mais educação um garçom que fazia o seu trabalho. Olho para a criança e agradeço e lembro de uma canção que diz de um mundo que vê uma flor brotar de um impossível chão.

Por quê, meu Deus?

Eu insisto na pergunta e prosseguirei insistindo. E poderia dar tantos outros assombros de ações inumanas. Um cão esfaqueado por disputas em redes inssociáveis. Uns fazendo e outros oferecendo dinheiro para requintes de crueldade. O que pensaria o cão se pensasse como pensam os humanos ao desacreditar de atitudes tão inumanas?

Mas a criança chorou ao ouvir a notícia e abraçou o seu cão, recolhido das ruas, depois do abandono. É a flor brotando em outro chão.

É isso, meu Deus?

É entendermos os desentendimentos e prosseguirmos semeando? Um dia, o dia amanhecerá com música? Ou talvez já amanheça. Um dia, o dia amanhecerá com música e nós com a sensibilidade necessária para o ouvir?

Ouvir a delicadeza da flor brotando do impossível chão.

Ouvir uma oração sincera pedindo a Deus o dom da não desistência.

FONTE: https://odia.ig.com.br/opiniao/2025/06/7083167-por-que-meu-deus.html

Autor: Gabriel Chalita.

Sobre se permitir deixar ir o que já partiu

Esse gesto silencioso de acolher a dor e aceitar o fim é o que nos permite deixar que certas coisas sigam o seu próprio caminho. É o que nos permite continuar vivendo. Afinal, talvez saber viver seja permitir-se morrer – ao menos um pouco – todos os dias.

Helena estava fazendo um sanduíche simples de pão integral em seu espaço para lá de apertado, chamado de mesinha de preparo ao lado da pia. Enquanto tentava abrir aquelas embalagens de mussarela fatiada, que a gente bem sabe que são difíceis, ela colocou força demais, o negócio abriu, a mão saiu voando, e a xícara, quase na borda da pia onde estava secando, também. Helena olhou para ela espatifada no chão e pensou: aqui jaz. Abaixou-se para recolher os cacos.

Ao mesmo tempo em que uma parte dela se sentia desolada com o “descuido” (se é que dá para chamar de descuido algo que foi totalmente imprevisto), a outra tentava se acalmar com a música da Rita Lee: “São coisas da vida”. Ela até mesmo pensou em fazer o tal do Kintsugi, uma arte japonesa de reparar objetos de cerâmica quebrados, utilizando laca com ouro para unir as partes.

Metaforicamente falando, é um jeito bonito de se recompor dos tantos cacos que a vida faz da gente. Sem esquecer, nem esconder as rachaduras, que também são uma parte de nós.

Obviamente que o Kintsugi dela ia ser uma releitura: com cola e tinta dourada mesmo. Mas, ao olhar para a pobre da xícara – e para a pobre da ideia de adaptação -, Helena concluiu ser um dos casos sem salvação. Era só juntar e enterrar… ou melhor, colocar no lixo. Mas, ao tocar o chão para recolher o primeiro caco, ela sentiu uma força gravitacional e resolveu sentar ali mesmo. Não sei… algo naquela cena, além de poético, parecia materializar um pouco de tudo que Helena estava sentindo.

– Eu poderia dizer que esta xícara morreu? Mas ela nem vida tinha… ou tinha? E por que mesmo o oposto da vida deve ser a morte?

Já fazia um bom tempo que Helena observava uma espécie de padrão dualista da mente. Que não apenas colocava dois conceitos em oposição, mas logo escolhia um como bom e o outro… eu nem precisei terminar de escrever, você mesmo já deve ter pensado em “ruim”!

Então, se a vida é boa, o que sobra para a morte?
– Que papo de maluco! Pensou Helena. Quer dizer que a morte é boa?

Não sei se é bem aí que eu gostaria de chegar. Na verdade, queria apenas dizer que a morte é um conceito pouco explorado. Pode até mesmo soar paradoxal, ou seja, como explorar a morte em vida?

Mas, a palavra “morrer” deriva do latim clássico e possui certo sentido de “cessar a existência”.

Bom, aqui já fica mais fácil alegar que aquela xícara, enquanto xícara, cessou de existir. E mesmo que ela não tivesse “vida” nos padrões eventuais daquilo que se mexe, é orgânico e tem certa complexidade, ela tinha lá sua utilidade bem estabelecida – que também se foi.

E sabe… a gente se apega muito a vida por uma cola forte e grudenta chamada de emoções. Ainda mais porque a xícara foi um presente da avó, que também já se foi.  Isso explicava o choque, e os cacos da Helena no chão. E o pior mesmo são as memórias que já não se sentem preenchidas pela presença. Como uma alma precisando de um corpo, elas voltam para encontrar o que foi, sem nunca mais poder ser.

Nisso Helena respirou fundo, como quem recolhe os próprios pedaços, e depositou os cacos no lixo com uma delicadeza quase ritual. Sabe… há algo profundamente alentador quando conseguimos soltar. Encerrar. Colocar um ponto onde não há mais espaço para vírgula.

Esse gesto silencioso de acolher a dor e aceitar o fim é o que nos permite deixar que certas coisas sigam o seu próprio caminho. É o que nos permite continuar vivendo. Afinal, talvez saber viver seja permitir-se morrer – ao menos um pouco – todos os dias.

Autora: Ana P. Scheffer. Também escreveu e publicou no site “Não está tudo bem”: www.neipies.com/nao-esta-tudo-bem/

Edição: A. R.

Estados podem compensar juros da dívida com investimentos em educação

Programa de renegociação da dívida dos estados com a União visa a ampliar as oportunidades educacionais e profissionais para a população.

Os 26 estados e o Distrito Federal devem R$ 827,1 bilhões à União, segundo dados do Tesouro Nacional. Os quatro maiores devedores são os estados de São Paulo (R$ 292,9 bilhões), Rio de Janeiro (R$ 180,3 bilhões), Minas Gerais (R$ 165,6 bilhões e o Rio Grande do Sul (R$ 103,1 bilhões), totalizando aproximadamente R$ 741,9 bilhões.

Por meio da Lei Complementar nº 212, de 13 de janeiro de 2025 e do Decreto nº 12.433 de 14 de abril de 2025 está Instituído o Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag), destinado a promover a revisão dos termos das dívidas dos estados e do DF com a União e investir os juros em educação.

Fundo de Equalização Federativa (FEF)

Programa de renegociação e pagamento da dívida prevê a criação de um Fundo de Equalização Federativa (FEF), ao qual os estados precisam aderir até 31 de dezembro de 2025, para compensar juros investindo em educação.  O principal objetivo é criar condições estruturais para aumentar a produtividade e ampliar as oportunidades educacionais e profissionais para a população.

O Fundo de Equalização Federativa é um instrumento que compensa a baixa capacidade de investimento dos estados que têm pouca ou nenhuma dívida. O aporte ao FEF é anual. Os recursos serão distribuídos anualmente entre os estados, de acordo com os seguintes critérios: 20% – o inverso da relação entre Dívida Consolidada e Receita Corrente Líquida; e 80% – coeficientes de participação no Fundo de Participação dos Estados (FPE). Independente do cenário da dívida, os estados que aderirem ao programa receberão os recursos da distribuição do fundo.

Programa Juros por Educação

No capítulo Contrapartidas: Programa Juros por Educação está definido que os estados poderão compensar, investindo em expansão da Educação Profissional Técnica de Nível Médio, em Universidades Estaduais, em infraestrutura para universalização do Ensino Infantil (EI) e Educação em Tempo Integral (ETI), e em ações de infraestrutura de saneamento, habitação, adaptação às mudanças climáticas, transportes ou segurança.

Portanto, o RS, como o quarto maior devedor, ao realizar adesão ao Propag e se comprometer usar juros por educação, deverá elaborar e apresentar um programa de expansão das matrículas na educação profissional técnica de nível médio, em alinhamento com as metas do Plano Nacional de Educação (PNE), com vistas ao aumento da taxa de matrículas em cursos técnicos de nível médio.

No âmbito do programa, serão consideradas as matrículas das ofertas de Educação Profissional Técnica de Nível Médio (EPTNM) da rede estadual nas seguintes formas:
– Educação profissional técnica de nível médio articulada na forma integrada;
– Educação profissional técnica de nível médio articulada na forma concomitante;
– Educação profissional técnica de nível médio na forma subsequente;
– Educação de jovens e adultos, articulada à oferta de cursos técnicos.

Tais formas de ofertas podem ser articuladas à aprendizagem profissional.

Cabe lembrar que o investimento em EPTNM está vinculado ao cumprimento de metas de desempenho e estas metas coincidem com as metas de EPT atualizadas como o novo PNE 2024-2034.

Os estados devem realizar o investimento direto mais FEF assim distribuídos: 60% Investimento Obrigatório em EPTNM e, 40% Investimentos não vinculados: EPT, Educação Infantil, ETI, Saneamento básico, Habitação, Mudança Climáticas, Universidades Estaduais, Segurança e Transporte

Como e em que os Estados poderão gastar? Em obras, aquisição de equipamentos, material permanente, sistemas de informação, despesas correntes e de pessoal Exemplos: computadores; material didático; financiamento de mostras tecnológicas; formação e qualificação de profissionais da educação.

Metas do PNE em EPT 2024-2024

O descumprimento da maioria das Metas do PNE 2014-2024 e dos Planos Estaduais de Educação é consequência da falta te recursos financeiros. A Meta 11 de triplicar as matrículas de Educação Profissional e Técnica (EPT) no nível médio, assegurando a qualidade da oferta e pelo menos 50% (cinquenta por cento) da expansão no setor público foi descumprida nacionalmente por falta de políticas de EPT e de ampliação dos recursos financeiros.

O Censo Escolar de 2024 e o Relatório do 5º Ciclo de Monitoramento das metas do PNE (INEP, 2024) apontaram que de 1.602.946 matrículas em EPT 2013 passou-se a 2.575.293, em 2024, totalizando um crescimento de aproximadamente 49, 6% no período, que era de chegar a 4,8 milhões de matrículas em 2024, tendo como ponto de partida o ano de 2014.

Verificaram-se a forte tendência de expansão das matrículas nos cursos técnicos integrados (131,1%), o crescimento, mais moderado, nos cursos técnicos subsequentes (36,0%) e uma pequena alta nos cursos técnicos concomitantes (6,9%), alcançada pela alta registrada no último ciclo. Na contramão, a oferta integrada à EJA (-7,2%) e a de normal/magistério (-65,0%) experimentaram retração.

No RS, além do descumprimento das Metas estabelecidas no Plano Estadual de Educação (PEE 2015-2025), estamos retrocedendo nas matrículas no Ensino Médio, da Educação Profissional na rede estadual e, também, da Educação de Jovens e Adultos (EJA).

O Censo Escolar de 2024 que o RS registrou uma redução de 44,3 mil alunos matriculados na educação básica; na educação profissional tivemos uma redução de 4% nas matrículas enquanto no Brasil cresceram de 6,7%; na EJA tivemos uma redução de quase 8 mil matrículas na rede estadual. Desde 2019, a queda já chega a 46.827 matrículas, o que representa uma retração de 65,3% no número de estudantes atendidos e, o RS, é o segundo pior estado na oferta de Educação Integral do Brasil.

Metas do PNE em EPT 2024-2024

Proposto pelo Poder Executivo Federal o Projeto de Lei (PL) 2.614/2024, que está em tramitação na Câmara Federal, o novo PNE para o próximo decênio 2024-20234, estabelece as metas para toda educação brasileira para este período.

Entre as diversas metas e estratégias, a Meta 11 o direito de “Acesso, permanência e conclusão na Educação Profissional e Tecnológica” (EPT) e estabelece que o objetivo para a EPT continua sendo o de “ampliar o acesso e a permanência na educação profissional e tecnológica, com redução de desigualdades e inclusão’. Para tanto, o Projeto de Lei propõe quatro Metas para a EPT no novo PNE 2024-20234:

Meta 11.a. Expandir as matrículas da educação profissional técnica de nível médio de modo a atingir 50% (cinquenta por cento) dos estudantes matriculados no ensino médio, de modo a assegurar a qualidade da oferta e a permanência do estudante, observados, no mínimo, 45% (quarenta e cinco por cento) da expansão no segmento público;

Meta 11.b. Expandir em 50% (cinquenta por cento) as matrículas nos cursos subsequentes, de forma a assegurar a qualidade da oferta e a permanência dos estudantes;

Meta 11.c. Expandir para, no mínimo, 25% (vinte e cinco por cento) as matrículas de educação de jovens e adultos, nos ensinos fundamental e médio, na forma articulada à educação profissional.

Meta 11.d. Expandir para três milhões o número de matrículas em cursos de qualificação profissional com carga horária mínima de cento e sessenta horas, em instituições credenciadas pelos sistemas federal, estaduais, distrital e municipais de ensino.

Estas novas Metas para EPT no próximo decênio vão exigir que diversas Propag. fontes de financiamento sejam acionadas e articuladas para expandir as matrículas do ensino médio r da educação profissional.

O Propag com Juros pela Educação, o Novo Fundeb, o Programa Escola tempo Integral e Propag. o Programa Pé-de-Meia, além dos percentuais constitucionais que cada Estado deve investir na Educação Básica, é possível atender fazer mais e melhor na Educação Básica brasileira e gaúcha.

Para esta expansão da oferta pública aos jovens e estudantes, contamos com diversas redes municipais, estaduais, Rede Federal de Institutos (IFs), Escolas Técnicas Federais, rede privada de ensino, escolas sindicais, Instituições Privadas e Comunitárias de Ensino Superior (IPES) e toda estrutura das escolas do Sistema S (Sesi, Senai, Sesc, Senac, Sebrae, Sescoop, Sest e Sena).

Os jovens têm o direito a educação, ao trabalho e a qualificação previsto no Estatuto da Juventude (Lei nº 12.852/2013), o seu art. 14: “O jovem tem direito à profissionalização, ao trabalho e à renda, exercido em condições de liberdade, equidade e segurança, adequadamente remunerado e com proteção social” expandindo as matrículas de Educação Profissional no Brasil e no RS.

O Plano de Desenvolvimento Econômico, Inclusivo e Sustentável do RS atual estabelece como primeira prioridade estratégica entre cinco o “Capital humano: qualificar a educação básica e profissional, consolidar as escolas em tempo integral e atrair e reter pessoas”. Portanto, o Propag dialoga com este plano e é uma oportunidade que o RS precisa aderir já e investir na EPTNM e na Uergs.

Uma Educação Profissional Técnica de Nível Médio, com sólida formação integral dos estudantes, impacta positivamente na vida dos jovens, no seu bem-estar, na inserção no mundo do trabalho, na renda e no planejamento de sua vida. O Propag é uma inovadora oportunidade no financiamento da EPTNM. Os juros das dívidas dos estados ao invés de engordarem o sistema financeiro podem e precisam financiar a educação.

FONTE: www.extraclasse.org.br/opiniao/2025/07/estados-podem-compensar-juros-da-divida-com-investimentos-em-educacao/

Autor: Gabriel Grabowski. Professor e pesquisador. Escreveu e publicou no site “O dilema educacional brasileiro e gaúcho persiste”: www.neipies.com/o-dilema-educacional-brasileiro-e-gaucho-persiste/

Edição: A. R.

“Corrupção Pública” versus “Corrupção Privada”

A corrupção como o maior problema do Brasil é mais um dos tantos mitos do contexto fiscal que circulam livre e fortemente no imaginário de boa parte da população brasileira.

A corrupção é o maior problema do Brasil? É comum ouvirmos uma resposta afirmativa a essa pergunta nas rodas de conversa. Qual seria a fundamentação?

Quando uma afirmação carece de fundamentação, trata-se de um mito[i], equiparável aos dogmas de fé religiosos. Seria essa afirmação (A corrupção é o maior problema do Brasil!) um mito? Nesse sentido, vamos buscar elementos para embasar uma avaliação.

Para avaliar essa questão, precisamos de 3 elementos:  definir o que entendemos por corrupção (delimitar o alcance), buscar estimativas de valor para corrupção (para efeitos de comparação maior/menor), e apontar/comparar com outro problema (o de valor inferior).

De forma concisa, no âmbito fiscal podemos definir corrupção como sendo o desvio de recursos públicos. Por tratar-se de desvio, precisamos levar em consideração o percurso que fazem os recursos públicos, visando abranger os diferentes momentos ou etapas onde os recursos públicos são ou podem ser desviados.

Vamos usar um exemplo prático para facilitar a explicação. Uma pessoa vai a uma loja e compra um celular por R$ 1.000,00. Nesse valor estão incluídos os impostos sobre o consumo (ICMS, IPI, COFINS etc.), que hipoteticamente podemos definir como sendo R$ 200,00.

A pessoa (consumidor) que comprou o celular, pagou R$ 800,00 pelo aparelho e R$ 200,00 de impostos, sendo que esses R$ 200,00 foram entregues ao lojista (pessoa jurídica), devendo este lojista depositar esses R$ 200,00 na conta do Estado no final do mês. Ou seja, esse lojista está com R$ 200,00 reais de recursos públicos no caixa de sua empresa até depositá-los na conta do Estado.

Passado o mês, o lojista deposita os R$ 200,00 na conta do Estado, momento a partir do qual os gestores públicos usam esse dinheiro para o pagamento dos diferentes serviços públicos, como salário de professores, policiais, aposentadorias, basicamente para pessoas físicas, ou obras públicas, como estradas, ou mesmo os benefícios fiscais, basicamente para pessoas jurídicas.

Nesse sentido, e visando atender a presente avaliação de desvio de recursos públicos, o importante é destacar dois fluxos:

1 – o primeiro fluxo, onde os recursos públicos circulam do contribuinte até o caixa do Estado (pessoas físicas e principalmente pessoas jurídicas), e

2 – o segundo fluxo, onde os recursos públicos circulam do caixa do Estado até os prestadores dos serviços públicos ou beneficiários finais (também pessoas jurídicas e pessoas físicas).

São nesses dois fluxos que ocorrem os desvios dos recursos públicos. No primeiro fluxo, usando o exemplo acima descrito, o lojista, em vez de depositar os R$ 200,00 na conta do Estado, desvia esse recurso público para sua empresa, em benefício próprio. No segundo fluxo, após os R$ 200,00 reais terem ingressado no caixa do Estado, o agente público desvia esse recurso para benefício próprio na forma de obra superfaturada por exemplo.

Apesar de, em ambas situações, tratar-se de desvio dos mesmos recursos públicos, o “mercado” (ou quem seria?), com o consentimento dos economistas, deu nomes diferentes a esses desvios.

Quando os recursos públicos são desviados no segundo fluxo (após terem ingressado no caixa do Estado), chama-se de corrupção. Quando os recursos públicos são desviados no primeiro fluxo (antes de ingressarem no caixa do Estado), chama-se de sonegação. Independente dos motivos que embasaram essa diferenciação na nomenclatura, verifica-se que, na prática, essa diferenciação cria no imaginário das pessoas a impressão ou convicção de que a corrupção privada não existe.

Diria que essa decisão de dar nomes diferentes a idêntico desvio de recursos públicos dificulta o entendimento do fenômeno da corrupção, motivo pelo qual, e visando facilitar o entendimento, sugiro a adoção da seguinte nomenclatura:

1 – “Corrupção Pública” para o desvio de recursos públicos ocorridos após o ingresso dos recursos no caixa do Estado, e

2 – “Corrupção Privada” para o desvio de recursos públicos ocorridos antes do ingresso dos recursos no caixa do Estado.

Superada a etapa de definição do que entendemos por corrupção, passemos à segunda etapa, a da busca de estimativas de valores de corrupção no Brasil. Óbvio que é difícil mensurar a corrupção, mas há trabalhos nesse sentido que ajudam a embasar um melhor entendimento da questão.

Para a corrupção pública, por exemplo, no artigo “A corrupção não é o principal ralo do dinheiro público no Brasil”, baseado num estudo do economista Claudio Frischtak sobre superfaturamento em obras de infraestrutura, conclui-se: “Se dividirmos o maior valor pelos 45 anos pesquisados, dá uma média de R$ 6,66 bilhões por ano”.[ii]Para fins de comparação, mesmo sabendo que as obras de infraestrutura são conhecidas como a principal forma de desvio de recursos públicos, vamos multiplicar por 10 o valor apresentado, estimando os desvios de recursos públicos após ingressarem no caixa do Estado em 60 bilhões/ano.

Pelo lado da corrupção privada, o estudo mais relevante é o realizado pelo SINPROFAZ, conhecido como Sonegômetro, que estima a sonegação anual no Brasil (corrupção privada) em valores próximos aos 600 bilhões de reais por ano.[iii]

Dessa forma, o valor anual da corrupção pública seria de R$ 60 bilhões e o valor anual da corrupção privada seria de R$ 600 bilhões. Nesse momento, cabe uma última comparação macro: quanto representam esses desvios de recursos públicos na arrecadação total do país, somados os três níveis de governo?

A Carga Tributária brasileira está ao redor de 33% do PIB (R$ 6 trilhões x 33%), aproximadamente 2 trilhões de reais. Comparando a corrupção pública (R$ 60 bilhões) e a corrupção privada (sonegação – R$ 600 bilhões) com a arrecadação total (R$ 2.000 bilhões), verifica-se que a corrupção pública representa aproximadamente 3% da arrecadação total e a corrupção privada representa aproximadamente 30% da arrecadação total do Brasil.

Dizendo de outra forma, se as corrupções pública e privada fossem eliminadas (sabe-se que na prática isso é impossível – todos os países possuem algum nível de corrupção) a arrecadação total passaria de 2.000 bilhões para 2.600 bilhões/ano (os R$ 60 bilhões de corrupção pública já foram arrecadados – não aumentariam a arrecadação total – seriam apropriadamente aplicados).

Considerando somente a eliminação da corrupção pública, praticamente a única atacada nos meios de comunicação, seriam apropriadamente aplicados os R$ 60 bilhões dos R$ 2.000 bilhões arrecadados anualmente (3%), o que, nas palavras do autor do artigo acima citado, “não traria maior equilíbrio às contas públicas, ou seria fonte relevante para novas necessidades públicas ou melhor cobertura para as demandas sociais’, de forma que, “ao contrário do que habita o imaginário popular, não basta devolver o que foi ‘roubado’ para atender às urgências da população mais pobre do país”. No entanto, se for somada a parcela da corrupção privada (sonegação – R$ 600 bilhões – 30%), esse quadro apresenta uma expressiva alteração com poder de influir de forma relevante no equilíbrio das contas públicas.

Concluindo: no âmbito da nomenclatura habitualmente usada, o desvio de recursos públicos representado pelo problema da sonegação (600 bilhões) é 10 vezes maior que o problema da corrupção (60 bilhões).

A resposta à pergunta inicial é: a corrupção NÃO é o maior problema do Brasil, pois a corrupção é aproximadamente 10 vezes inferior à sonegação. Com base nos valores acima, pode-se concluir que a afirmação “a corrupção é o maior problema do Brasil” é mais um dos tantos mitos do contexto fiscal que circulam livre e fortemente no imaginário de boa parte da população brasileira, especialmente aquela parte da população que tem como principal ou única fonte de informação o praticamente monopólio de imprensa brasileira.

Publicado originalmenteInstituto Justiça Fiscal.

Autor: João Carlos Loebens. Doutorando em economia e auditor-fiscal da Receita Estadual do Rio Grande do Sul. Também escreveu e publicou no site “Os gastos tributários”: www.neipies.com/os-gastos-tributarios/

Edição: A. R.

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