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UPF e Prefeitura de Passo Fundo tem parceria para qualificação de servidores

A UPF e a Prefeitura de Passo Fundo firmaram, ainda em 2021, um convênio de cooperação que permite aos servidores o ingresso em cursos da Instituição com descontos.

O benefício permite descontos nas matrículas e mensalidades em cursos de graduação, pós-graduação e técnicos aos servidores da Administração Pública Direta do Município de Passo Fundo, bem como aos seus dependentes legais em 1º grau.

Para ser contemplado, o servidor que tiver interesse em usufruir do desconto, deverá apresentar documento, emitido pela Coordenadoria de Recursos Humanos do Município de Passo Fundo, que comprove o vínculo com a Administração Pública Direta. O desconto fica condicionado a matrícula em, no mínimo 50% dos créditos do curso escolhido.

O convênio estabelece desconto 20% para cursos técnicos oferecidos pelo Integrado UPF, cursos de graduação realizados de forma presencial no Campus I e na estrutura multicampi, bem como cursos de especialização e MBAs, além de mestrados e doutorados.

Os cursos oferecidos podem ser acessados em www.upf.br/editais, Chamamento Público 09/2021.
Leia também outra publicação da Coluna: www.neipies.com/upf-conhecimento-para-o-desenvolvimento/

Edição: A. R.

O que Platão pode nos ensinar sobre Inteligência Artificial?

Repercutimos interessante reflexão do professor Pedro Dotto, publicado no site do Estadão, onde o mesmo identifica limitações da Inteligência Artificial, na contemporaneidade.

“Enquanto a IA generativa funciona por correlações estatísticas, o pensamento humano nasce da experiência, do espanto e da curiosidade, da indagação e da pesquisa, da busca apaixonada pela verdade”. (por Pedro Dotto)

Assim como Platão testemunhou a transição de uma cultura oral para a era da escrita, uma revolução tecnológica com implicações culturais, sociais, comunicacionais e cognitivas de vasto alcance, também nós, hoje, nos confrontamos com a ascensão acelerada de inteligências artificiais capazes de produzir textos, imagens, planilhas e vídeos, influenciar decisões, alterar rotinas pessoais e moldar processos empresariais.

Surpreendentemente, é na crítica platônica à technē da escrita, articulada por volta de 2.500 anos atrás na Atenas clássica, que encontramos algumas pistas para entender os paradoxos e perigos da nossa atualidade com o advento dos modelos mais sofisticados desta nova technē do século 21, a IA generativa. 

No diálogo Fedro, Platão apresenta, por meio de um mito egípcio, duas advertências basilares sobre a natureza e as limitações do texto escrito. Tais ressalvas, formuladas em um período histórico situado no limiar da passagem da oralidade à escrita, adquirem uma força renovada para jogar luzes no debate contemporâneo sobre a IA generativa.

Ao mimetizar o raciocínio humano e acarretar a proliferação de conteúdo burilado, consistente e convincente sobre qualquer tópico, a IA convida a um olhar atento às advertências platônicas sobre a technē da escrita a fim de descortinar os impasses do nosso tempo presente.

Aprofundemo-nos, então, sobre o teor da crítica à escrita de Platão como uma chave interpretativa para decifrar a IA generativa. 

A primeira fragilidade estrutural da escrita, observada no mito egípcio do Fedro (274c5-275b2, na citação canônica dos diálogos platônicos segundo a paginação Stephanus, fruto do trabalho editorial de Henri Estienne na última quadra do século XVI) é particularmente pertinente para o entendimento dos riscos que a IA generativa oferece.

Platão distingue a mnēmē, a memória viva exercitada pela alma, da hupomnēsis, a rememoração externa mediada por registros escritos. A invenção da escrita, nessa linha, apresentaria o risco de atrofia da memória pela confiança excessiva em registros externos e pela negligência da capacidade mnemônica.

A escrita, nesse contexto, surgiria como uma espécie de “prótese mnemônica” que, ao externalizar as informações, paradoxalmente enfraqueceria a capacidade natural de rememorar em razão da falta de exercício da memória.

Para Platão, o conhecimento genuíno não reside em proposições fixadas em um suporte material, diligentemente memorizadas e mecanicamente recitadas. O discurso que realmente importa é aquele que é “escrito com conhecimento na alma” (276a5-7), nas palavras de Sócrates no diálogo. 

No cenário contemporâneo, percebemos um fenômeno paralelo, mas amplificado exponencialmente. A atrofia não se limitaria à memória, senão que se estenderia ao próprio pensamento e a um rol mais amplo de nossas competências cognitivas. A distinção se estabeleceria entre respostas geradas por algoritmos e o pensamento independente, forjado pelo esforço intelectual e pessoal. Assim, a IA pode atuar como uma “prótese cognitiva” ainda mais sedutora e insidiosa do que a escrita. Sua facilidade em prover respostas prontas pode substituir o trabalho do pensamento de formular problemas originais e desenvolver argumentos, testar a consistência de um dado raciocínio e chegar a conclusões inéditas. 

Aliás, um estudo recente de pesquisadores do MIT Media Lab sugere que tecnologias como o ChatGPT podem enfraquecer a potência do pensamento, evidenciado pelo menor engajamento neural e pior desempenho cognitivo entre os seus usuários. A pesquisa alerta para as consequências deletérias desta técnica na autonomia intelectual e no desenvolvimento de aptidões cognitivas, especialmente para mentes em formação.

Enquanto a IA generativa funciona por correlações estatísticas, o pensamento humano nasce da experiência, do espanto e da curiosidade, da indagação e da pesquisa, da busca apaixonada pela verdade. 

O segundo ponto da crítica platônica à escrita se refere à produção de um simulacro de conhecimento (“doxosophoi”, “sábios de aparência”, é como Platão os chama para diferenciá-los dos “philosophoi”, os “filósofos” ou amantes do saber). A crítica platônica se dirige a um tipo de pseudo-sabedoria, uma erudição superficial e aparente, desprovida de compreensão genuína. Se a escrita já permitia a indivíduos parecerem sábios e galgarem a reputação de conhecedores, a IA eleva este fenômeno à enésima potência.

Considere-se a celeridade com que sistemas de IA geram textos aparentemente lúcidos e coerentes. Essa capacidade, impressionante por si só, dissimula precisamente o perigo apontado por Platão: a simulação de saber sem compreensão real do conteúdo. Além disso, a ilusão de que o conhecimento pode ser simplesmente “baixado” ou “acessado” como um arquivo digital ofuscaria uma distinção essencial entre informação e conhecimento, dados e sabedoria. 

A IA generativa, ao prometer respostas instantâneas, ameaça eliminar o tempo constitutivo da formação intelectual, ou seja, o tempo da perplexidade, da reflexão, do erro e da retificação. A instantaneidade das respostas da IA compromete o tempo necessário ao amadurecimento intelectual em troca da geração de um “saber” aparente e transitório. As informações geradas são prontamente absorvidas e, com igual agilidade, relegadas ao esquecimento.

Para Platão, ao contrário, a educação (paideia) não é mero intercâmbio de informações, mas um processo longo e formativo que envolve o ser em sua inteireza. 

A tecnologia da escrita era, para Platão, um pharmakon, uma “droga”, simultaneamente remédio e veneno. A IA pode ser vista como um pharmakon digital de intensidade turbinada, capaz de processar um vastíssimo volume de dados em uma velocidade vertiginosa. Sendo assim, a advertência do mito egípcio no Fedro ganha renovada urgência: técnicas inventadas para auxiliar nossas capacidades cognitivas podem, paradoxalmente, enfraquecê-las. O desafio, no meu entender, não é rejeitar a tecnologia, mas cultivar uma certa atitude de curiosidade e cautela, num empenho para compreender suas funções e limitações de modo a assegurar que esta nova technē não substitua o trabalho do pensamento vivo e do exercício dialético, de dar e receber razões, empobrecendo a nossa vida intelectual de maneira irremediável. 

Contudo, seria simplista ignorar as capacidades que a IA generativa aparenta ter, superando inclusive algumas das limitações que Platão imputava à palavra escrita. Enquanto o texto fixo permanecia mudo diante das interrogações do leitor, os sistemas de IA respondem de forma didática e dinâmica, formulando conteúdos contextualizados e aparentemente adaptados à demanda (prompt). Se a escrita tradicional se restringia à repetição cristalizada, a IA produz variações incontáveis sobre os mesmos temas, remodelando explicações conforme as solicitações. E, enquanto o texto escrito jaz desamparado, incapaz de defender-se ou esclarecer ambiguidades sem seu autor, a IA parece capaz de elaborar clarificações e responder a objeções.

Entretanto, uma análise mais rigorosa do funcionamento da IA generativa revela que essa superação é, na melhor das hipóteses, aparente e parcial. Por mais sofisticadas que se mostrem suas respostas, a IA generativa funciona com base no processamento estatístico de vastos repositórios de dados textuais (data sets), combinando e recombinando padrões linguísticos de acordo com probabilidades estatísticas. Tal modus operandi conforma o que a literatura especializada denomina de “papagaio estocástico” (stochastic parrot), uma vez que a IA generativa se limitaria ao rearranjo padrões linguísticos aprendidos em seu treinamento e replicado segundo escalas de probabilidade.

Assim, enquanto a escrita platônica padecia do silêncio, a IA generativa responde sem compreensão; onde havia fixidez, ela oferece variação estatística; e, em vez do desamparo do texto, surge a ilusão de assistência. A ilusão de assistência que a IA oferece pode, em cenários extremos, levar à “terceirização” irrefletida de processos decisórios complexos, com implicações éticas e sociais profundas, especialmente quando se trata de vieses inerentes aos dados de treinamento ou da opacidade de seus mecanismos internos, para não mencionar o definhamento das nossas capacidades cognitivas.

Os sistemas de aprendizado de máquina baseados em modelos de linguagem de grande escala (LLM) que sustentam os modelos atuais de IA têm uma limitação inerente, qual seja, a dependência de padrões preexistentes. A IA é uma técnica de compressão informacional (“compressão”, de “comprimir”, o que é muito diferente da “compreensão”, de “compreender”), que identifica e reproduz regularidades com base em dados pretéritos. Tal procedimento, fundado em correlações algorítmicas sobre massivos volumes de dados, suscita questões prementes como as de plágio e direitos autorais em textos, imagens e vídeos produzidos por essas IAs. Mas isso nos levaria para um outro debate.

Na discussão atual sobre IAs, é essencial não perder de vista a distinção entre téchne e sophia, entre “técnica” e “sabedoria”.

Essa diferença se insinua entre o acesso facilitado à informação e o entendimento genuíno, ou entre a manipulação probabilística de vastos conjuntos de dados e o desenvolvimento de capacidades cognitivas pessoais, que são, como tais, intransferíveis.

A aparente superioridade da IA em relação à escrita, baseada em sua velocidade e no volume de processamento de dados, pode gerar uma falsa sensação de inteligência sobre-humana desses sistemas computacionais. Mas a IA generativa não deixa de ser um processador estatístico extremamente eficiente, e sua “inteligência” é categoricamente diferente da cognição humana.

FONTE: https://estadodaarte.estadao.com.br/filosofia/o-que-platao-pode-nos-ensinar-sobre-inteligencia-artificial/

Autor: Pedro Dotto. Doutor em filosofia pela The New School for Social Research (NSSR) e pesquisador de pós-doutorado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, com bolsa da FAPESP.

Edição: A. R.

Os apóstolos

Jesus Cristo, o líder e educador mais excelente que já esteve entre nós, não trabalhou sozinho. As boas notícias que trazia em seu Evangelho de luz, precisariam ser divulgadas e exemplificadas.  Para que o objetivo deste planejamento pudesse acontecer, no futuro, preparou pequeno grupo em três anos e retornou à morada do Pai, amparando a todos espiritualmente.

SIMÃOPEDRO

Era natural de Betsaida, filho de Jonas, era pescador de grande prestígio na cidade de Cafarnaum e exercia sua profissão no lago de Genesaré, conhecida também como Mar da Galileia. Era um homem simples, transparente, destemido e sincero, muito sensível, de grande coração, mas, quando necessário, enérgico e de temperamento altivo. Era casado, mas não tinha filhos.  Foi o primeiro apóstolo escolhido por Jesus.

Na época do encontro com Jesus, Pedro já morava em Cafarnaum onde, com seu irmão André, exercia liderança entre os pescadores locais, era muito respeitado e querido pois sempre tinha interesse em servir a todos. Era conhecido também por Simão Bar Jonas. Ao amanhecer, diariamente, no primeiro clarão da aurora, Pedro já estava no barco, lançando às águas suas redes enquanto cantava canções nativas. Em cada cidade, às margens do lago, os pescadores levantavam um grande rancho onde todos, das diferentes localidades, pudessem se reunir para descansar juntos, tratar assuntos sobre a pesca, fazer negócio, consertar as redes, se alimentarem e confraternizarem.

Num belo dia ensolarado, quando Pedro e seu irmão André estavam ancorando seu barco de pesca na praia de Cafarnaum, viram Jesus, que eles já conheciam, que os olhava atentamente e se encaminhava para eles dirigindo-lhes amável saudação e o convite enfático: “Vinde após mim, e os farei pescadores de homens” (Mateus, 4:19). Pedro tinha o costume, por hábito, de frequentar a sinagoga local, mas as falas dos escribas e fariseus não tinham muito sentido para ele, pois não percebia sinceridade nelas, e, mais por receio, respeitava as autoridades religiosas que exerciam poder sobre o povo, cumprindo seus deveres com retidão.   Jesus já o conhecia bem e o convidou a ser o líder, no futuro, deste pequeno grupo que Ele estava formando. A partir daí, Pedro ficou fascinado por Jesus, pelo seu magnetismo, pelo seu amor aos sofredores e abriu as portas de seu lar para Ele. A casa de Pedro se tornou, em Cafarnaum, a sede física das reuniões e atividades de Jesus.  Desde o primeiro encontro, a reunião com o pequeno grupo que Jesus estava formando, foi na casa de Pedro.

No início do contato direto com Jesus, Pedro o observava e percebia que o Mestre preferia atender os infelizes, não fazendo diferença entre ricos e pobres e aceitava o convívio de pessoas consideradas de má vida. Com Ele foi aprendendo a servir quem o buscava, tornando-se mais amável e foi até o fim de sua vida, sempre fiel a Jesus. Ergueu a Casa do Caminho, na estrada entre Jerusalém e Jope, para abrigar sofredores, em memória do Mestre. Arrependeu-se amargamente de ter negado Jesus em Jerusalém, quando Jesus foi condenado, mas superou com galhardia, este deslize. Morreu em Roma, no ano 67 d.C. – onde viveu por mais de vinte anos ensinando o Evangelho de Jesus-  testemunhando tudo o que aprendeu com o Mestre.  Foi martirizado a mando do imperador Nero.

Pedro escreveu duas epístolas, registradas no Novo Testamento.

ANDRÉ

André, natural de Betsaida, irmão de Pedro, era pescador, mas se envolvia também com agricultura. Ele tinha o caráter formado pela religião judaica.  Antes de conhecer Jesus, ele era discípulo de João Batista que falava que o Messias esperado pelo povo judeu já estava entre eles. 

André era discreto, muito curioso estava sempre tentando compreender a vida e seu verdadeiro significado. Mantinha com Pedro uma sociedade de pescaria, era o relações públicas da dupla e percorria todas as cidades a beira do lago de Genesaré, através dos barcos de pesca, organizando os negócios do comércio de peixes.  Era culto, estava sempre se informando sobre outros assuntos religiosos e filosóficos e gostava de conhecer, especialmente, sobre a filosofia grega. Morreu em Patros da Acaia, Grécia, martirizado, aos 60 anos.

JOÃO

João era filho de Maria Salomé e Zebedeu e irmão de outro apóstolo de Jesus, Tiago, conhecido como Tiago Maior. João amava as coisas naturais, plantas, animais, tudo que tinha vida, a natureza o extasiava. Ele gostava de passear pelas margens do Rio Jordão, o maior da Palestina, especialmente no local onde o profeta João Batista batizava as pessoas arrependidas de seus erros e dispostas a se melhorarem; foi nessas águas que Jesus foi batizado. 

João reconhecia que o Rio Jordão era um raio de luz da Palestina e que suas águas tinham o poder de curar os enfermos. Era pescador e como seu irmão e muito ligado a Pedro e a André. Maria Salomé, sua mãe, dignificava a família, tinha grande estrutura espiritual e ensinou a seus filhos toda a Lei da Torá. Contava, com muito gosto, as histórias dos antigos profetas judeus, escritas nos livros sagrados do judaísmo.

Desde menino, João acompanhava a mãe nas idas a Jerusalém, capital da Judeia. Lá ele ficava muito tempo sondando as belezas do templo de Salomão e, de forma mística, refletia em silêncio sobre Deus.  O jovem não possuía conflitos íntimos e se admirava dos problemas pessoais que seus amigos tinham. Ele tinha preferência pelo estudo do profeta Isaías, sobre o qual meditava muito. Ele desejava amar e respeitar todas as pessoas e a natureza. Estudou, também, a vida dos grandes vultos da humanidade que, na época, se tinha conhecimento, como Buda, pelo qual tinha muito apreço.

João possuía uma personalidade extraordinária. Segundo o próprio João, em seu Evangelho (João 1:43) descreve: “Após convidar Pedro e André, continuou caminhando, alegre e convidou outros dois pescadores: João e Tiago. Eles, deixando logo as redes, seguiram-no.” João, desde esse chamamento, seguiu a Jesus cheio de fé e alegria. Ele era 12 anos mais moço que Jesus, todos os outros apóstolos eram mais velhos que Jesus.  Ele deixou para a humanidade seu legado de luz registrado no Novo Testamento: O Evangelho de João.  Esteve durante todo seu apostolado ao lado de Jesus. No momento da crucificação do Mestre, foi o único apóstolo que permaneceu junto à cruz, amparando Maria, mãe de Jesus. O Mestre deixa, neste momento culminante, o último ensinamento quando entrega sua mãe aos cuidados de João. Anos depois, ele convida Maria, a mãe de Jesus, para morar com ele em Éfeso. João não foi martirizado como os demais apóstolos.   Morreu com 94 anos, em Éfeso, na Turquia.

João escreveu três epístolas e o Apocalipse, além dos registros belíssimos de seu Evangelho, constantes no Novo Testamento.

TIAGO MAIOR

Era irmão de João, filho de Maria Salomé e Zebedeu, era natural de Betsaida.  Foi muito amigo de Pedro e André pois, como eles, era pescador. Tiago era muito sensível e modesto, de temperamento agitado, impaciente e bastante extrovertido, lutava para se autodisciplinar e ser educado no trato com os outros. Prezava a verdade, a pureza das coisas e buscava a sabedoria nos conhecimentos espirituais. 

Era estudioso das escrituras sagradas de seu povo e de algumas escrituras sagradas antigas da Índia e da China, mas tinha predileção pelos estudos dos gregos Sócrates e Platão, dos quais entendia melhor que as escrituras sagradas do judaísmo. Ele procurava evitar a fé cega. Quando analisava os feitos de Jesus que ele presenciava, comparava com as propostas dos antigos profetas que tanto conhecia, chegava à conclusão que realmente Jesus era o Messias esperado, o “Cordeiro de Deus”.

Como apóstolo, tudo fez para que a Boa Nova, legada por Jesus, fosse divulgada a outros povos além dos judeus, não mediu esforços para fazer a sua parte. Tinha o costume de refletir, meditar na busca da perfeição moral para, sempre que possível, fazer o melhor. Conversava muito com seu irmão, João, sobre o futuro dos ensinamentos de Jesus. Sentiu muito pavor com a crucificação de Jesus, permanecendo à distância, mas, com o retorno glorioso do Mestre, todo iluminado, voltou a ficar entusiasmado. Após a experiência do Pentecostes ele percebeu que ficou totalmente envolvido pelo psiquismo de Jesus e, corajosamente, saiu pelo mundo a divulgar a Boa Nova, chegando até a Espanha. Morreu em Jerusalém, foi decapitado no ano 44d.C. sendo o primeiro apóstolo martirizado, a mando de Herodes Agripa, filho de Herodes, O Grande.

SIMÃO, O ZELOTE

Era natural de Caná, também conhecido como cananita, era muito político e nacionalista, e revoltava-se com o domínio romano na Palestina pela exploração que o povo sofria por parte de Roma que cobrava exorbitantes tributos em forma de impostos. Almejava ver o povo judeu livre da subjugação romana. Desejava a paz e o trabalho digno para todos, mas não concordava em agredir ninguém.

Quando tomou conhecimento sobre como Jesus agia e pregava, ficou muito empolgado e foi procurá-lo.  Jesus, então, o convida para participar do seu partido de amor. Finalmente ele encontrou o que procurava tanto: um caminho para ajudar na defesa dos fracos e oprimidos do povo. Ele era conhecedor das leis de muitas nações, frequentava as sinagogas sem compromisso e ia seguido ao Sinédrio, no Templo de Jerusalém, para se inteirar de todo movimento político-religioso dos sacerdotes. Ao se integrar na equipe do Nazareno percebe que está fazendo parte do maior partido que ele jamais conhecera antes, pois apoiava-se em conceitos universais e se baseava na liberdade de todas as criaturas, com direitos e deveres iguais para todas, na mesma proporção, pois todas são criadas por Deus e irmãs entre si.

Após a partida de Jesus, destemidamente, Simão levou os Seus ensinos em lugares distantes.  Foi, também, martirizado.

FELIPE

Era natural de Betsaida. Se caracterizava por ser muito cauteloso na busca da verdade. Examinava, com muito critério, as novas ideias não se deixando levar pela opinião alheia. Era observador crítico da vida social.  Convidado por Jesus para tornar-se membro do pequeno grupo que Ele estava formando, Felipe aceitou o convite, muito feliz, pois percebeu que o Mestre ensinava a verdade.  Ele tornou-se verdadeiro repórter do grupo e   anunciava os feitos de Jesus onde ele estivesse, divulgando para todos que o Messias esperado por tanto tempo já estava entre eles. Influenciado pela conduta e ensinamentos de Jesus aprendeu a respeitar as condições pessoais dos outros na compreensão da Verdade.  Tinha vontade de fazer tudo de bom com entusiasmo e energia, queria ser útil a si e aos outros, levando consolo e esperança. Com o Mestre aprendeu a usar a justiça, o bom senso, a boa vontade, ser amorável e gentil.

Após a experiência do Pentecostes, sentindo-se amparado espiritualmente pela equipe angelical de Jesus, uniu-se a Bartolomeu   e juntos foram pregar o Evangelho na Ásia Menor, especialmente na Índia e na Armênia. Realizava muitas curas e esclarecimentos que deixavam as pessoas fascinadas com um novo sentido para a vida, apesar dos sofrimentos em que viviam. Morreu no ano 90 d.C., em Hierápolis, na Turquia no flagelo da crucificação.

JUDAS ISCARIOTES

Era natural de Kerioth, pequena cidade ao sul de Judá, distante oito quilômetros de Jerusalém. Ele era um jovem idealista e sonhador, de inteligência lúcida. Quando foi convidado por Jesus para fazer parte do grupo que O acompanhava, ele ficou muito feliz e entusiasmado com o convite. Foi recebido pelos outros componentes do grupo, pescadores e pessoas simples, com carinho e júbilo. Pelas suas características intelectuais foi escolhido para ser o responsável pela guarda dos escassos recursos monetários do grupo que serviria para manter as atividades de deslocamento, alimentação e outras despesas do grupo.

A mensagem e as atitudes de Jesus, repassadas de compreensão e ternura, representavam para ele um alívio para o seu temperamento inquieto e suas ambições de conquistar o mundo pelo poder, pelo destaque pessoal. O reino que Jesus anunciava o fascinava, sentia-se honrado em poder fazer parte deste reino quando observava todo o poder de Jesus, nas curas que fazia, no amor que ensinava, no domínio, inclusive, das forças da natureza. Ficava perplexo de como a multidão sofredora. O seguia submissa.  Mas não entendia porque Ele preferia os pobres, os miseráveis, os de conduta equivocada e dialogava com todos, principalmente os que eram rejeitados pela sociedade.  Percebia que os grandes socialmente eram recebidos por Ele sem qualquer privilégio ou deferência que as suas posições requeriam, conforme seu entendimento.

Com o passar do tempo, foi sentindo insegurança quanto à vitória da proposta de Jesus. Quando percebeu que o Mestre não iria proporcionar ao povo judeu a liderança política do mundo nem esmagar o Império Romano, tenta forçar o poder de Jesus e provocar Sua reação, traindo-o, entregando-o aos fariseus. Quando se deu conta da condenação de Jesus e que o reino dos céus não era na Terra, num gesto tresloucado, em profundo arrependimento, se suicidou.

MATEUS

Mateus era também chamado de Levi, seu nome judeu. Mateus era seu nome romano. Era publicano, ou seja, cobrador de impostos nas alfândegas que pertenciam ao Império Romano, em Cafarnaum. Numa manhã, cheia de luz solar, foi convidado por Jesus para fazer parte do Seu grupo. A partir daí passou a segui-Lo e mudou de vida, distribuiu com amor os recursos que possuía àqueles a quem havia prejudicado e aos necessitados, libertando-se da imposição que os romanos lhe exigiam como cobrador de impostos. 

Passou a ajudar por prazer de ser útil, conforme ensinava e vivia Jesus. Era muito culto e se expressava muito bem. Ele assistiu muitas curas de Jesus por simples palavras ou leve toque de mãos. Pelos exemplos que o Mestre deixou, ele desejou tornar-se médico das almas, para curá-las pelo amor e esclarecimento. Serviu e ensinou o evangelho nas nove cidades que circundavam o Lago de Genesaré, percorreu a Pérsia, a Judeia e a Etiópia levando a Boa Nova do Mestre. Morreu na Etiópia, martirizado, aos 72 anos. Escreveu o Evangelho, Segundo Mateus, deixando registrado para a posteridade, o relato da passagem de Jesus sobre a Terra.

BARTOLOMEU

Era natural de Caná, na Galileia e também conhecido como Natanael. Pessoa atenta ao trabalho de pescaria, companheiro de Pedro e dos outros pescadores. Foi na sua terra natal que ocorreu o primeiro fenômeno provocado por Jesus quando este transforma a água em vinho, abrindo o evangelho dos fatos – primeiro fato surpreendente que Jesus apresenta. Foi levado a conhecer Jesus por Felipe. O Mestre logo o convidou a fazer parte da primeira comunidade cristã. Ele era muito resguardado, introspectivo, sem muito conhecimento, mas de grande maturidade espiritual. Conhecia em profundidade os ensinos de Moisés e esperava a vinda do anunciado Messias. Era jovem de qualidades morais nobres. Uniu-se a Felipe para divulgar, com muito sacrifício, a Boa Nova na Ásia Menor. Foi a Anatólia, Índia, Irã, Síria, Mesopotâmia e Armênia. Conseguiu traduzir o Evangelho de Mateus para os idiomas locais destes povos.   Morreu martirizado no ano 51 d.C.

TIAGO MENOR

Era filho de Alfeu e Maria de Cleofás, prima de Maria de Nazaré. Era irmão de Judas Tadeu, conhecido como irmão de Jesus. Era um judeu muito religioso e de grande retidão de caráter. Seguidamente ministrava os ensinamentos da Torá nas sinagogas como imediato dos rabinos. Era sincero e fiel na sua pregação. Era muito culto e conhecedor dos idiomas da época, especialmente o grego. Escrevia muito bem. Era um sensitivo nato. Teve grande papel na divulgação do Evangelho. Morreu em 62d.C. em Jerusalém.

Escreveu uma epístola aos judeus das doze tribos dispersos da Ásia, registrada no Novo Testamento.                                                                                                                                                      

JUDAS TADEU

Era natural da Galileia, jovem de grande qualidade de coração. Era primo irmão de Jesus. No início da experiência no grupo de discípulos de Jesus tinha dificuldade em compreendê-Lo, mas a convivência com o Mestre o tornou um cidadão do universo. Era muito viajado, conhecia vários lugares. Morreu no Reino da Armênia.

Há registro, no Novo Testamento, de uma epístola escrita por ele.

MARIA DE MAGDALA

Maria de Magdala é um dos mais eloquentes exemplos de transformação moral que uma pessoa possa demonstrar. No primeiro encontro com o Mestre, em Cafarnaum, na casa de Pedro, após diálogo esclarecedor com Jesus, ela mudou radicalmente de vida, arrependendo-se e dando rumo valioso a seus passos. Ela passou a seguir as atividades do Mestre, disponibilizando-se para ajudar no que fosse possível. Tempos depois, na dolorosa situação do martírio do Mestre na cruz, foi a ela que Jesus primeiro se fez radiante, cumprindo a promessa de que retornaria ao convívio com seus seguidores, ao terceiro dia, pela ressurreição. Na ocasião, relatando ao grupo sua visão, só teve o apoio de Maria, mãe de Jesus.

Maria de Magdala fazia parte do destemido grupo de mulheres que sempre acompanharam Jesus, inclusive no momento desafiante na subida para o Gólgota: Maria de Nazaré, Joana de Cusa, Verônica, Suzana, Salomé – mãe do apóstolo João -, Maria Marcos, de Jerusalém, e outras.  Maria de Magdala, respeitando a posição machista dos apóstolos do Mestre, não seguiu na missão de divulgação da Boa Nova, com nenhum deles. Ela optou por exercer seu apostolado no Vale dos Leprosos.

PAULO DE TARSO

Era natural de Tarso, cidade grega onde nasceu. Pertencia à uma família judaica tradicional. Tinha muita cultura e era portador da cidadania romana. Exerceu a função de famoso Doutor da Lei em Jerusalém e foi quem iniciou a perseguição aos primeiros seguidores de Jesus, comandando a lapidação de Estevão, o primeiro mártir.

Quando se dirigia a Damasco, com ordens para prender os seguidores de Jesus, foi convocado pelo Mestre, para mudar de rumo, quando Jesus lhe aparece, numa visão extraordinária, na estrada para aquela cidade. A transformação foi imediata, segundo Emmanuel: “ele viu, ouviu, negou-se a si mesmo, arrependeu-se, tomou a cruz e seguiu o Cristo até o fim de suas tarefas materiais… Foi um homem intrépido e sincero, caminhando entre as sombras do mundo, ao encontro do Mestre. Foi um realizador que trabalhou diariamente para a luz. Entre ele e Jesus havia um abismo, que o apóstolo soube transpor em decênios de luta redentora e constante” (in “Paulo e Estevão”, pág. 8 e 9). Ele levou o Evangelho de Jesus aos povos não judeus.

Morreu em Roma, decapitado.

Paulo redigiu catorze epístolas de orientações às igrejas que ele fundara e que estão registradas no Novo Testamento.

BIBLIOGRAFIA

Franco, Divaldo Pereira

“Pelos Caminhos de Jesus” (Amélia Rodrigues, Espírito). 7ª Edição. Salvador, BA. Livraria Espírita Alvorada Editora, 2012.

Xavier, Francisco Cândido

“Boa Nova” (Humberto de Campos, Espírito) 37 ª Edição. Brasília, DF. Federação Espírita Brasileira, 2020.

“Paulo e Estêvão” (Emmanuel) 24ª Edição. Brasília, DF. FEB EDITORA, 1987.

 “Há Dois Mil Anos”, (Emannuel) 3ª Edição. Rio de Janeiro, RJ. Livraria Editora da Federação Espírita Brasileira, 1944.

Da Silva, Severino Celestino

“O Evangelho e o Cristianismo Primitivo”.  8ª Edição. João Pessoa, PB. Ideia Editora Ltda., 2017.

Maia, João Nunes

“Ave Luz” (Shaolin, Espírito) 1ª Edição. Belo Horizonte, MG. Editora Espírita Cristã Fonte Viva, 1984.

“Jesus Voltando” (Shaolin, Espírito) 3ª Edição. Belo Horizonte, MG. Editora Espírita Cristã Fonte Viva, 1991.

Emmerich, Anna Catarina

“Santíssima Virgem Maria”. 9ª Edição. São Paulo, SP.MIR Editora,

Alvarez, Josefa Luque, “Harpas Eternas, Volume I, II, III e IV- 1ª Edição. São Paulo, SP.  Editora Pensamento-Cultrix Ltda., 1993. 16ª Reimpressão em 2022.

De Almeida, João Ferreira

“A Bíblia Sagrada”. Várzea Paulista, SP. Casa Publicadora Paulista, 2017.

Oliveira, Gladis Pedersen

“Jesus, Mestre, Guia e Modelo”.  Olsen Editora,  2024.

Autora: Gládis Pedersen. Já escreveu e publicou no site “O método pedagógico de Jesus”: www.neipies.com/o-metodo-pedagogico-de-jesus/

Edição: A. R.

Cristo lavaria os pés de Bolsonaro?

Cristo, o verdadeiro Messias, lavaria os pés de todos, inclusive dos que o negam, duvidam ou traem, não para validar seus atos, mas para nos lembrar do caminho da humildade, do arrependimento e da verdade.

Sim, lavaria. Assim como lavou os pés de cada um dos Seus discípulos: os de Pedro, que O negou; os de Tomé, que duvidou; e até os de Judas, que o traiu. Aliás, esse último chegou a levantar o calcanhar para que Jesus fizesse o serviço direito, numa atitude que revelava seu verdadeiro caráter, servindo-se despudoradamente da boa vontade do Filho de Deus.

Jesus veio para servir, não para ser servido, e não faria distinção de ninguém. Diferente Dele, muitos que dizem segui-lo preferem lavar as próprias mãos, como fez Pilatos, principalmente quando se prestam a se eximir da responsabilidade social enquanto apoiam projetos de poder.

Mesmo diante de chantagens externas que ameaçam um governo democraticamente eleito, são capazes de provocar o caos econômico e lançar milhões na miséria, seguem firmes para defender aquele a quem proclamam como seu novo “messias”.

Mas Cristo, o verdadeiro Messias, lavaria os pés de todos, inclusive dos que o negam, duvidam ou traem, não para validar seus atos, mas para nos lembrar do caminho da humildade, do arrependimento e da verdade.

E você, lava os pés até de seus desafetos ou lava as mãos diante daquilo que afetará até quem você diz amar?

Se essa reflexão falou ao seu coração e contribuiu para o seu crescimento espiritual, curta, comente e compartilhe para que possa alcançar outras pessoas que também precisam dessa mensagem.

Autor: Hermes C. Fernandes. Também escreveu e publicou no site “Quanta verdade somos capazes de suportar”?: www.neipies.com/quanta-verdade-somos-capazes-de-suportar/

Edição: A. R.

A noite diz e ensina – Reflexões sobre “Confidências da Noite”

Autoras como Luciana Marinho não podem estar apenas nos saraus, com alguns leitores ilustrados, seus escritos tem que ir para as escolas. Os professores tem que puxar a leitura e a escrita em sala de aula.

“Confidências da Noite – poemas, sonhos e delírios” é um livro de 60 páginas da escritora Luciana Marinho. Nascida em Porto Alegre, filha de uma professora inspiradora, mora em Passo Fundo.

Luciana participa ativamente da Academia Passo-fundense de Letras e de vários movimentos culturais.

É escritora, poeta, contadora de histórias, produtora cultural e gestora de projetos. Docente do programa Jovem Aprendiz Senac Passo Fundo. Youtuber no canal Mil e uma Histórias.

Fundadora e administradora da Projetos Sorrisos Editora e Produtora Cultural.

Chega. Vamos ao seu livro de poesias. É um livro de 2020, contando com ilustrações de Giúlia Cittolin.

Há uma sintonia do título com uma capa pretíssima e as nuances de letras e traços em branco como luzes abrindo caminho dentro da escuridão.

Um livro para todas as mulheres, com seus sonhos, a gente sonha mesmo à noite, mesmo sendo um mistério, aqui se mostram plenos de sentidos.

E ela vai dizendo que “esse livro não foi escrito,/ Ele foi tecido.” Está ali na palavra-titulo TEAR.

E este “tear” de Luciana vai desenrolando novelos. Cada pouco tem as palavras que denotam estados da alma, como solidão (umas 8 vezes), noite (uma dúzia), madrugada (6 vezes), com a sua reiteração marca-se uma cadência na obra, marca um estado de espírito, que tem que ser passado. A notícia do faminicídio da amiga é lida num jornal velho numa noite insone.

No entanto, calma, lá na página 54 lemos “Um poema para mim”:

                   “Mesmo exausta

                   Sou toda cor.

                   “Dor? Sim, às vezes,

                   Mas é o amor que me conduz.

                   Se eu desisto hoje,

                   Amanhã, já esqueci.

                   Voltei a lutar.

                   E nem percebi.”

Ou seja, é luta entre as dores, as mortes, solidão, as trevas (com seus “impulsos negativos/destrutivos, insanos”), a angústia, a raiva e lá vai… e a dança da menina que cresce e vem a maturidade.

Luciana trabalha esta vida com este lado soturno, doentio, mas que lá vem mais uma vez a menina rodopiando, sempre tem alguma luz, pois o dia traz esta claridade.

Aqui, volto a um debate que corre na atualidade: ler clássicos, ler os novos. Não temos “grandes” nomes. Ora, não teremos grandes nomes sem a leitura de quem escreve aqui e agora.

Autoras como Luciana Marinho não podem estar apenas nos saraus, com alguns leitores ilustrados, seus escritos tem que ir para as escolas. Os professores tem que puxar a leitura e a escrita em sala de aula.

Por fim, fico feliz em ver uma autora como Luciana, escrevendo, fazendo projetos na área do livro, vivendo basicamente destes afazeres.

Continuemos escrevendo, nós temos que ler e divulgar: é nossa obrigação.

Fotos: Divulgação/arquivo pessoal

Autor: Adeli Sell. Professor, escritor e bacharel em Direito. Também escreveu e publicou no site “Ler, escrever e publicar”: www.neipies.com/ler-escrever-e-publicar/

Edição: A. R.

Curupira e quem mais na COP30?!

O Brasil, ora país sede da COP30, com apoio dos cientistas, grupos ecológicos, governantes, imprensa e da população como um todo, busca liderar a luta contra o aquecimento global, procurando criar as melhores condições para prevenir mais prejuízos à Mãe Terra. Verbas há, mas ainda falta muita vontade política.

Como textos também dialogam, promovemos, nesta publicação, uma “conversa” entre dois gêneros discursivos, de dois escritores: a crônica, de Eládio Weschenfelder; e a poesia, de Roseméri Lorenz. Afinal, se até os textos dialogam, por que todos não podem fazer o mesmo?

Curupira e quem mais na COP30?! (De Eládio Vilmar Weschenfelder)

“Antes de tudo, para facilitar a vida do leitor, é necessário esclarecer os sentidos do título acima. COP30 significa Conferência das Partes, ou Conference of the Parties, em sua 30ª edição.

De um lado, as partes representam 19 países-membros associados, os quais se reunirão, por um período de duas semanas, em novembro de 2025, em Belém/PA, para avaliar a situação das mudanças climáticas e propor medidas de combate à poluição e formas de descarbonização do planeta Terra.  Lá os representantes dos países membros buscarão debater alternativas conjuntas para conter o aquecimento global, propondo ações sustentáveis à vida saudável dos oceanos, continentes, rios, lagos e florestas. 

O outro núcleo temático refere-se à presença do mascote Curupira, uma das figuras mais importantes do folclore brasileiro. Retratado, na maioria das vezes, como uma espécie de anão de cabelos vermelhos, de grande força física e pés invertidos (com os calcanhares para frente, para fins de desnortear os malfeitores da natureza), o Curupira representa a cultura dos povos originários, cujo foco é a preservação do meio ambiente. Ele é o símbolo protetor dos animais e guardião das florestas.

Nessa biosfera vital, seres lendários, como ele, combatem os caçadores e os devastadores, que exploram, mais do que o necessário, os recursos naturais, sem considerar as consequências, tanto aos povos originários como aos residentes urbanos e ribeirinhos.

Assim, tal figura lendária denunciará, como mascote da conferência, os problemas enfrentados pelos povos da região, os quais sofrem com a degradação ambiental e a consequente perda da subsistência e da qualidade de vida.  Nesse sentido, nada mais coerente do que evocar também outros seres do folclore brasileiro, como o Saci-Pererê, a Caipora, o Boitatá, para também sensibilizarem o público participante sobre a necessidade de se proteger a diversidade natural, em pleno coração da Amazônia Legal.

Faltando alguns meses para a realização da COP30, a pergunta é quem virá para debater o tema das mudanças climáticas, espelho das desigualdades sociais? Os negacionistas, com certeza, não aparecerão. Recolhidos em suas torres urbanas, ofuscados pela ganância, não veem o que se passa além das sombras e das nuvens cibernéticas. Feitos cínicos ideológicos, vociferam: “Aquecimento global, enchentes, furacões, incêndios devastadores, secas inclementes, geleiras polares em derretimento irreversível!? Tudo não passa de delírio dos ecologistas!”

A previsão é de que o Presidente da alegada “nação mais poderosa” não virá. Mas muitos representantes de seus Estados virão. Contrariando o consenso mundial, que busca fazer uso de formas de energia mais limpas para reduzir o consumo de combustíveis fósseis para fins de mitigar a emissão de gases do efeito estufa, Trump retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris. E, mais, para o enriquecimento dos EUA, promete aumentar a produção de petróleo e gás, incentivando a produção de carros a combustão, o que prejudicará a indústria de carros elétricos. Isso, com certeza, contribuirá para o aumento geotérmico global. Como escreveu o jornalista Rodrigo Lopes, “A alegada Era do Ouro está mais para a Idade Média” (ZH em 20.01.25).

Que venha também o Papa Leão XIV à COP30! Nascido nos EUA, o Bispo migrou ao Peru, país membro da Amazônia Internacional. Durante anos, viveu entre os povos originários. Seria de bom tom ainda a participação da CNBB, já que, por ocasião da abertura da Campanha da Fraternidade 2025, reforçou a importância do evento. A instituição, aliás, declarou que “A Campanha da Fraternidade expressa a disponibilidade da Igreja, no Brasil, em contribuir para que, durante a COP30, as nações possam se comprometer com práticas que ajudem na preservação da maravilhosa obra da Criação”.

Por sua vez, o Presidente do Brasil, colocou o governo federal à disposição do Estado do Pará para fins de ajudar no que for necessário ao evento, mesmo que o saneamento básico da capital, Belém, ainda esteja a níveis muito baixos, especialmente no que se refere ao tratamento da água e do esgoto. Promete que o Estado do Pará vai encantar o mundo por suas belezas naturais e pela diversidade cultural.

Também o Governador do Pará expressou orgulho por sediar uma conferência tão relevante: “É um privilégio para o Brasil e para o Estado do Pará. Estamos ávidos para receber a todos, trabalhando para que possamos, por um lado, fazer um belo evento, mostrando que a Amazônia está preparada para receber os conferencistas à construção do desenvolvimento sustentável na região, o verdadeiro pulmão desse planeta”.

O Presidente da COP30, o embaixador André Corrêa do Lago, por ocasião do lançamento do evento, apresentou uma carta com as diretrizes e objetivos da Conferência. Sugeriu a formação de um mutirão na luta contra as mudanças climáticas, isto é, um esforço coletivo e amplo em favor da proteção do meio ambiente e da transição energética. Sinalizou que há sinais evidentes do aumento da temperatura global e que todos os países devem estar prevenidos para sua contenção, considerando-se o notório aumento do nível dos oceanos pelo derretimento das geleiras. Ao final da Carta, afirma que, apesar da retirada dos EUA do Acordo de Paris, o tempo de agir e preservar a natureza contra os malefícios do Efeito Estufa é agora.

Em recente visita à França, o Presidente Lula, juntamente com a Ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, trataram sobre um futuro acordo entre o Mercosul e a União Europeia, o qual envolve questões relacionadas à agropecuária e ao meio ambiente. Por sua vez, o Presidente francês, Emmanuel Macron, confirmou a vinda à COP30. Na ocasião, o Presidente do Brasil participou da Agenda sobre os Oceanos, a qual tem relação com os preparativos do Brasil para sediar o evento.

Enfim, o Brasil, ora país sede da COP30, com apoio dos cientistas, grupos ecológicos, governantes, imprensa e da população como um todo, busca liderar a luta contra o aquecimento global, procurando criar as melhores condições para prevenir mais prejuízos à Mãe Terra. Verbas há, mas ainda falta muita vontade política.

Isso fica evidente a partir de duas questões a serem esclarecidas quanto ao que acontece no país sede da COP30:

  1. Como explicar a aprovação, por parte do Congresso Nacional, em 16/07/25, da Lei 2159/2021, que afrouxa as regras ambientais, as quais flexibilizam as licenças ambientais quanto ao uso da água nas pequenas e médias propriedades, para fins de construção de rodovias, hidroelétricas, viadutos e mineradoras, mediante autolicenças ambientais feitas pelos próprios poluidores? 

2- Como justificar as pesquisas para prospecção de petróleo na zona da foz do rio Amazonas, se o objetivo da COP30 é justamente discutir a diminuição do uso de combustíveis fósseis para combater o aquecimento global?

Valei-nos Curupira, Caipora, Saci-Pererê, Boitatá! Que os virtuosos exemplos do Negrinho do Pastoreio e de São Longinho ajudem os participantes da COP30 a acharem as boas intenções que movem a humanidade nesse pequeno planeta. Zumbi dos Palmares, Sepé Tiaraju, Chica da Silva, Chico Mendes, que venham seus espíritos guerreiros para lutar pela defesa da mãe natureza!  

Vozes da Amazônia (De Roseméri Lorenz)

“Ponha-se no seu lugar!”

Disse-me, a me insultar,

Um filho das caravelas.

“Não posso!” – eu respondi.

“Sempre estive aqui,

Da aquarela, faço parte.

Tu que manchaste a arte

Com o sangue de meu povo.

Querias um quadro novo

E destruíste o meu.

Nem sabes o que perdeu,

E perde todos os dias,

O país que te acolheu.

Na gananciosa cegueira,

Transformas mata em poeira,

Degradas o ambiente.

Por tua mente não passa

Que irás gerar desgraça,

Pois meio não é metade,

Mas essa totalidade

Onde estamos inseridos.

O gelo lá derretido

Inunda o quintal aqui.

E a árvore ali caída

Interfere em tua vida

Mesmo distante de ti.

Como pensas que a ti chega

A chuva que barra a seca,

A água que tu consomes?

Sem a floresta, ela some,

Já que os rios de cima,

Numa sintonia fina,

Alimentam os de baixo.

Não me vem com cambalacho

Pra querer levar vantagem!

Se a mata virar pastagem,

Garimpo e plantação,

Sobreviveremos não

Em um clima tão hostil.

O planeta está febril,

Mas preferes mais carbono.

Nem consideras os danos

Desse teu negacionismo.

Se a Terra é um organismo

E dela fazemos parte,

Não é só ela que arde,

Ardemos conjuntamente.

Por isso, bem francamente,

Te pergunto sem rodeios:

Será que teus vis anseios

E teus efêmeros gozos

Valem a vida de todos?

Assim, não vem decretar:

‘Ponha-se no seu lugar!’

Este é meu lugar… de fala!

(De fala, e não de cala).

Minha boca, tão oca,

É a oca onde ecoam

Clamores dos animais,

Vozes de meus ancestrais.

E sabe ainda o que mais?

Vivo aqui e em todo lado.

Quem sabe até camuflado

Aí, em teu DNA,

Um pouco de mim há?

Se não queres ajudar,

Não refreia minha luta,

Porque a minha conduta

Reflete a minha honra,

Que não se vende ou tomba

Por efeito de ameaça.

Não importa o que tu faças,

Este é meu lugar de fala.

Aqui, eu que digo cala!

E, da Amazônia, cai fora!

Sou Curupira, Caipora,

Sou Boitatá, Pererê.

Pra defender a floresta,

Só falta mesmo VOCÊ!”

https://www.instagram.com/reel/DMq4_9SSa1f/?igsh=azB0NXA3ZHF4aDQx

Assista também esta poesia na voz da autora.

Edição: A. R.

A religião e as imagens de Deus

Desmascarando o tirano que subjaz à ideia de Deus ensinada pelos operadores da religião e das instituições, Jesus também abre caminho para um humanismo novo e radical. Sendo verdadeiro Deus, ele mesmo é o Homem verdadeiro, e, assim, anula a oposição entre o humano e o divino.

No final do século passado, vários e analistas identificaram sinais do declínio da relevância da religião no mundo ocidental. A seu modo, eles ecoaram a voz de filósofos que, algumas décadas antes, propugnavam a morte de Deus e o nascimento do Homem livre e maduro, ou do ‘Super-homem’ como previa Nietzsche. O que estava em pauta era o desaparecimento da religião da arena social e dos imperativos éticos externos. 

O que vemos hoje no Brasil parece desmentir estas constatações e previsões: bancadas evangélicas nos parlamentos; marchas com Jesus e romarias diversas reunindo multidões; proliferação de pequenas e grandes igrejas, especialmente de matriz neopentecostal; aumento de grupos esotéricos e ‘seitas’ cientificistas; etc. E isso não obstante a tendência de crescimento do número de brasileiros que se declaram sem religião, como assinala o último senso do IBGE. 

Ao que parece, a fé e a noção de Deus não têm desaparecido da arena social e, especialmente, da perspectiva subjetiva dos indivíduos. O que está acontecendo é uma espécie de ‘sequestro’ da noção de Deus (e de Jesus Cristo) e a subordinação das crenças às demandas de sentido e de segurança individuais ou de grupos ideológicos obcecados pela manutenção ou pela recuperação do controle sobre a sociedade. 

Se essa percepção não estiver errada, o grande desafio que as Igrejas e comunidades cristãs precisam enfrentar hoje é ‘libertar’ a ideia de Deus e de Jesus Cristo da prisão à qual alguns grupos a conduziram. E, ao mesmo tempo, lançar as bases de um novo humanismo, marcado pela abertura radical aos outros, ao meio ambiente e ao futuro, e livre da ‘camisa de força’ do individualismo e da indiferença anunciados como virtude. 

Na verdade, esse desafio não é novo. Jesus mesmo o enfrentou, a seu modo e no seu tempo. Sua atitude firme nesse aspecto é uma das causas que o levaram à cruz. ‘Deus’ é um dos arquétipos mais poderosos da psique humana e da estruturação social, e quem domina seu conteúdo domina as pessoas e a sociedade. Por isso, a agressividade e a violência adormecidas costumam se lançar contra quem ousa mudar seu conteúdo. 

Jesus concentra sua missão no questionamento das práticas de exclusão social e religiosa vinculadas à imagem de Deus.

Ele não cansa de repetir que Deus pede misericórdia, e não sacrifícios; que o estômago de uma pessoa faminta tem prioridade sobre todas as leis e instituições; que o culto não pode encobrir a violência e a indiferença; que Deus trata seus filhos e filhas conforme suas necessidades, e não segundo seus méritos. 

Desmascarando o tirano que subjaz à ideia de Deus ensinada pelos operadores da religião e das instituições, Jesus também abre caminho para um humanismo novo e radical. Sendo verdadeiro Deus, ele mesmo é o Homem verdadeiro, e, assim, anula a oposição entre o humano e o divino.

O ser humano maduro não é o ‘amigo de César’, aquele que se submete por medo ou ambição, mas quem se reconhece irmão e é capaz de doar-se inteiramente pelos outros, correndo todos os riscos. O homem e a mulher são portadores de uma dignidade inalienável que nenhum erro ou condição pode anular.  

Autor: Itacir Brassiani. Também escreveu e publicou no site: “Conviver como irmãos ou perecer como loucos”: www.neipies.com/conviver-como-irmaos-ou-perecer-como-loucos/

Edição: A. R.

Jovem e tolo

Cedo ou tarde, você morrerá. No fim das contas, nada lhe pertence. Tudo lhe foi apenas emprestado.

Eu tinha 20 anos e havia escrito 4 livros.  Todos de poemas.

Ruins. Mas eu não sabia disso.

Dono de uma energia e de uma estupidez que apenas a juventude é capaz de fornecer, eu desejava publicar minhas poesias.

Queria ser escritor e morava em uma cidade bem pequena.

Eu não sabia, na verdade, como agir. Eu sabia, porém, que precisava fazer alguma coisa, nem que fosse algo mínimo.

Assim, certa manhã, fui até a Prefeitura, pedir se havia algum recurso para a publicação dos meus livros.

Por ser jovem e tolo, acreditava que alguém iria querer ler meus poemas. Por ser jovem e tolo, acreditava que alguém iria me ajudar a publicar meus livros.

Fui informado, então, de que havia, de fato, o projeto de uma antologia poética em andamento, organizado pelo Instituto Histórico e Geográfico de Getúlio Vargas (IHGGV).

E com recurso público.

Hoje percebo o quanto aquele “encontro” foi inusitado.

Menino raquítico que eu era, introvertido, não sei o que me deu na cabeça para, em uma manhã qualquer, levantar da cama com a convicção de que conseguiria publicar meus poemas.

Pela primeira vez tive textos publicados.

Mais: consegui um emprego em um jornal — na redação! Mas isso fica para a próxima história…

Com essa experiência, aprendi uma lição importante.

Se você tem um sonho, não se preocupe com o sucesso. Se concentre em viver esse sonho. Conforme puder.

O sucesso não depende de nós. Viver, sim.

Se você tem um teto sob o qual se abrigar, alguma roupa e um pouco de comida, já pode começar a viver seu sonho.

De forma mínima, primeiro. Um dia, talvez, ao máximo.

Cedo ou tarde, você morrerá. No fim das contas, nada lhe pertence. Tudo lhe foi apenas emprestado. Logo, jamais terá algo a perder. 

Avante…

Autor: Aleixo da Rosa. Também escreveu e publicou no site “Um professor fracassado”: www.neipies.com/um-professor-fracassado/

Edição: A. R.

Dia da Sobrecarga do Planeta

Neste ano de 2025, o Dia de Overshoot da Terra é no dia 24 de julho. Infelizmente, esta data significa uma realidade forte: a demanda da humanidade por recursos naturais ultrapassou o que o nosso planeta pode proporcionar de forma sustentável.

Enquanto a Terra grita, a degradação ambiental puxada pelas atividades humanas e pela expansão [suicida] do capitalismo mundial, deixa profundas marcas. Enquanto a temperatura global da atmosfera continua batendo recorde e as concentrações atmosféricas de CO2 continuam a subir, os ciclos naturais da Terra, indispensáveis ao projeto civilizatório, são severamente afetados. Isso é tão grave que a habitabilidade de regeneração do planeta, agora mesmo, está em risco.

Tal e qual, dentro da mesma lógica predatória própria do capitalismo devorador de recursos, a ideia de progresso conhecida, como não é difícil supor, se torna incompatível com a preservação do equilíbrio ecológico do planeta.

Nesse caso em particular, podemos afirmar que a sociedade de hiperprodução e hiperconsumo, capaz de evidenciar a escalada do consumo planetário, conseguiu produzir em escala mundial o que se chama de overshoot ecológico.

Quer dizer, a humanidade utiliza a natureza 1,8 vezes mais depressa do que os ecossistemas conseguem se regenerar.

Em outras palavras, em apenas 7 meses, nós, os modernos, já consumimos (exploração de recursos talvez seja mais apropriado) tudo o que a Terra conseguiria repor ao longo de 2025.

Na conta desses abusos ecológicos, a constatação é uma só: estamos esgotando “o capital natural da Terra”, conforme consta em comunicado do Global Footprint Network, organização internacional responsável pelos cálculos da pegada ecológica da humanidade.

Efetivamente, na lista disso tudo, muito mais desflorestação, perda de biodiversidade, erosão do solo, fragmentação de habitats, acumulação de dióxido de carbono.

Como mudar esse cenário?

Em termos gerais, por conta de nosso pesado antropocentrismo central, influenciado pela corrida em busca de crescimento econômico transformador do meio ambiente, o conjunto de elementos e processos biológicos, químicos e físicos responsáveis pela vida na Terra são imediatamente solapados.

Daí em diante, vendo a questão assim, precisamos refletir seriamente sobre o impacto do nosso consumo no planeta.

Precisamos também repensar nossas ações nas cidades, a forma como usamos a energia e como produzimos os alimentos, e quais as possibilidades que temos para reduzir as emissões de carbono.

Parece certo dizer que, enquanto não mudarmos a tecnologia que cria coisas novas à base de destruir o planeta, tudo indica que seguiremos da forma como está: fingindo não acreditar que “nosso problema é o crescimento físico em um mundo finito”, como sentenciou tempos atrás Dennis Meadows, cientista americano.

Por conjectura, me parece lícito argumentar que a cultura capitalista, inclinada a favorecer o crescimento como o único instrumento capaz de organizar a vida moderna, nos obriga a viver no mundo insustentável de agora.

O detalhe mais relevante, seguindo de perto os especialistas, é que só sairemos desse buraco mediante uma radical intervenção, que necessariamente deve começar pela: 1) transição para fontes de energia renovável; 2) promoção da agricultura sustentável; 3) redução de desperdícios; 4) conscientização ecológica; 5) prática de consumo consciente.

Assim sendo, se faz parte da “fórmula” desse capitalismo-devorador de recursos naturais colocar em xeque o desempenho da vida humana e não humana, resta claro que precisamos imaginar outra economia, comprometida, antes de qualquer coisa, com a saúde do planeta, com a qualidade do sistema vida, com o nosso futuro comum e com a sustentabilidade – o valor que devolve o equilíbrio à Terra.

Sendo rigoroso na análise, já passou da hora de inaugurarmos a “economia do conhecimento da natureza” que Berta Becker [1930-2013] falava com propriedade.

Se o mundo está cada vez mais complexo, não surpreende perceber em linhas gerais que as chagas ambientais abertas pelo capitalismo voraz estão, por um lado, cada vez mais doloridas; que a capacidade biofísica do mundo natural está delicadamente comprometida e que as mudanças ecológicas e climáticas que estamos passando refletem no desequilíbrio da cadeia ecológica que rege o que mais importa, a vida na Terra.

Assista também: https://youtu.be/1uFrQKLd6pU?t=6

Nota: Neste ano de 2025, o Dia de Overshoot da Terra é no dia 24 de julho. Infelizmente, esta data significa uma realidade forte: a demanda da humanidade por recursos naturais ultrapassou o que o nosso planeta pode proporcionar de forma sustentável.

De acordo com dados das Nações Unidas, o primeiro Dia global da Overshoot da Terra ocorreu em 25 de dezembro de 1971. Desde então, esta data cresceu mais cedo a cada ano, refletindo uma tensão crescente nos recursos da nossa Terra. Ainda no ano passado, caiu no dia 1 de agosto.

Autor: Marcus Eduardo de Oliveira. Economista e ativista ambiental. Delegado do CORECON-SP por Osasco. Autor de “A civilização em risco” (Jaguatirica, 2024), entre outros. prof.marcuseduardo@bol.com.br Já escreveu e publicou no site “Retrocesso desesperador que ameaça futuro do país”: www.neipies.com/retrocesso-desesperador-que-ameaca-futuro-do-pais/

Edição: A. R.

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