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Em defesa da Educação Inclusiva com devida remuneração aos professores e professoras em Passo Fundo, RS

O AEE não é uma simples atividade complementar, mas um serviço pedagógico especializado que identifica, elabora e organiza recursos e estratégias para eliminar as barreiras de acesso e participação dos alunos com deficiência.

AUMA, Associação dos Amigos da Criança Autista de Passo Fundo, lançou nota demonstrando sérias preocupações com possíveis desdobramentos do Projeto de Lei Complementar 18/2025, que altera a forma como essas gratificações são concedidas aos professores que atuam com alunos com deficiência, transtornos e altas habilidades. 

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Prezados membros do Poder Executivo e Legislativo Municipal,

A Associação dos Amigos da Criança Autista de Passo Fundo (AUMA) vem, por meio deste, manifestar sua profunda preocupação com o Projeto de Lei que visa reestruturar a remuneração dos professores que atuam no Atendimento Educacional Especializado (AEE) em todas as escolas municipais, com especial atenção à Escola Municipal para Autistas Professora Olga Caetano Dias.

Reconhecemos os aspectos positivos do projeto, como a exigência de qualificações especializadas e capacitações anuais, que reforçam a importância da formação contínua. Contudo, a possível substituição da gratificação de 40% — hoje crucial para a remuneração dos professores do AEE — por um valor fixo e substancialmente menor levanta sérias dúvidas sobre a sustentabilidade e a qualidade da educação inclusiva em nosso município.

É fundamental que se compreenda o impacto multifacetado que a redução salarial pode ter. A AUMA, como representante de centenas de famílias de pessoas autistas, entende que a desvalorização desses profissionais pode gerar um efeito dominó negativo para toda a comunidade.

A desvalorização profissional e seus efeitos:

1. Perda de interesse e evasão de profissionais qualificados:

O trabalho no AEE é complexo, exigente e sobrecarregado. A gratificação atual reconhece essa demanda adicional e atrai profissionais dedicados a essa área. A sua redução tornaria a função menos atrativa, podendo levar à evasão de professores já especializados e afastar novos talentos, comprometendo diretamente a qualidade do atendimento oferecido.

2. Obstáculo à capacitação contínua:

A dedicação e o investimento em capacitações de alta qualidade são essenciais para que os professores do AEE se mantenham atualizados e apliquem as melhores práticas. A redução da remuneração prejudicaria a capacidade financeira desses profissionais de custearem sua própria formação, contradizendo o próprio espírito do projeto de lei que exige capacitação anual.

3. Comprometimento do desenvolvimento dos estudantes:

Um professor do AEE motivado e bem remunerado é um pilar fundamental para o sucesso do aluno. Quando um profissional se sente valorizado, seu trabalho é mais dedicado, e ele tem mais condições de investir em recursos e estratégias pedagógicas que atendam às necessidades específicas de cada estudante. A desvalorização financeira pode levar à desmotivação e ao adoecimento psíquico, impactando negativamente o aprendizado e o desenvolvimento das crianças, jovens e adultos autistas.

4. Risco de precarização do ensino inclusivo:

O AEE não é uma simples atividade complementar, mas um serviço pedagógico especializado que identifica, elabora e organiza recursos e estratégias para eliminar as barreiras de acesso e participação dos alunos com deficiência. Reduzir a remuneração do professor do AEE é desvalorizar a educação inclusiva como um todo, tratando-a como uma atividade secundária, e não como um direito fundamental assegurado por lei.

Diante do exposto, a AUMA pede encarecidamente que o Poder Legislativo e Executivo reavaliem a proposta, garantindo que qualquer mudança na legislação não resulte na perda da remuneração dos professores do Atendimento Educacional Especializado. A manutenção da gratificação é um investimento na qualidade da educação, na valorização do profissional e, acima de tudo, no futuro dos nossos filhos e de todos os alunos que dependem desse serviço essencial.

Passo Fundo, 12 de agosto de 2025

Atenciosamente, Salua Younes, Presidente da AUMA – Associação dos Amigos da Criança Autista de Passo Fundo Rua Niva Bilhar, nº 80, Bairro Cohab Secchi – Passo Fundo/RS (54) 99658 1732  E-mail: aumapf@gmail.com CNPJ: 03.216.388/00

Edição: A. R.

A morte social

Em uma sociedade regida por uma lógica utilitarista, o valor do indivíduo é frequentemente associado à sua capacidade de produção, o que marginaliza aqueles que, por questões biológicas ou de saúde, deixam de atender a essas expectativas.

Queridos leitores,

É sempre uma alegria imensa usar este espaço para compartilhar não apenas reflexões literárias, mas também talentos que florescem dentro da minha sala de aula. Recentemente, propus aos meus alunos a leitura da obra O Burrinho Pedrês, de Guimarães Rosa, como ponto de partida para a produção de textos dissertativo-argumentativos nos moldes do ENEM e da UFRGS.

A única fonte de repertório autorizada por mim foi o próprio livro, e, a partir dele, cada estudante precisou construir sua argumentação. Entre tantas produções inspiradoras, uma, em especial, tocou-me profundamente.

O autor do texto que apresento hoje – Bernardo Borrin Bulik – demonstrou uma sensibilidade rara: fez comparações e analogias entre a narrativa de Rosa e a realidade contemporânea com uma naturalidade que poucos conseguem. O que mais me impressionou, no entanto, foi a coragem intelectual de relacionar os conflitos e silenciamentos presentes na obra a uma crítica contundente a uma sociedade que valoriza apenas o que é funcional — uma visão ousada e extremamente pertinente.

O dia em que ele leu o texto ficará marcado na minha memória. A sala estava cheia, o grupo de alunos apresentando seus respectivos trabalhos. Quando ele começou a ler, sua voz serena contrastou com a força das ideias. Aos poucos, o ambiente foi mudando: as conversas paralelas cessaram, os olhares se voltaram para ele, e um silêncio respeitoso tomou conta do espaço. Eu o observava atentamente, e cada frase carregava mais do que uma simples apresentação de trabalho escolar — havia ali uma consciência crítica rara, uma maturidade que ultrapassava as fronteiras da idade. Em determinado trecho, quando ele traçou um paralelo entre o isolamento social do burrinho e a marginalização de trabalhadores invisíveis no nosso país, senti um nó na garganta.

Lembrei imediatamente das notícias recentes sobre idosos abandonados, trabalhadores explorados e comunidades inteiras esquecidas pelo poder público. Aquelas linhas, escritas por Bulik, ressoavam como uma denúncia viva.

Esse jovem vem se destacando cada vez mais no universo literário dissertativo argumentativo, construindo textos maravilhosos, ricos em repertório e senso crítico. E, confesso, cada vez que leio suas palavras, consigo identificar nelas pequenas sementes lançadas nas minhas aulas — conselhos, dicas de estruturação e reflexões que hoje florescem em sua escrita, a exemplo disso, o uso de mesóclise entre outras dicas que passei para a turma toda.

No fim da leitura, o silêncio permaneceu por alguns segundos, como se todos precisassem respirar e inclusive eu, para absorver o que haviam acabado de ouvir. Eu, emocionada, apenas consegui agradecer e dizer que aquele texto era muito mais do que uma tarefa: era um convite à reflexão e à empatia.

E para encerrar, trago uma palavra sábia do próprio Guimarães Rosa, que ressoa como um convite para olhar além da superfície: “Não é nas pintas da vaca que se mede o leite e a espuma!” Assim como nessa expressão popular rosiana, não devemos avaliar um texto — ou um talento — apenas por sua aparência externa, mas pela profundidade, a sensibilidade, a coragem crítica que nele se encontra.

O texto do Bulik foi justamente isso: uma prova viva de que o valor está no que pulsa por trás das palavras, na coragem de trazer analogias, sensibilidade e crítica social a partir de O Burrinho Pedrês. Sonho com leitores que passeiem por essa leitura com o mesmo sentimento que me tomou naquele dia de aula — contemplando, emocionando-se, percebendo o valor que pulsa em cada texto que nasce do olhar atento e do pensar ousado. Afinal, como Rosa e sua cultura popular nos lembram, a essência é o que realmente conta — e é ela que emocionou e me encheu de orgulho.

Segue o texto do estudante Bernardo Borrin Bulik.

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TEMA: A desvalorização dos seres considerados “fracos” na sociedade contemporânea

TÍTULO: A Morte Social

A obra O Burrinho Pedrês ilustra a jornada de Sete-de-ouros, um velho burro que fora chamado para uma última jornada por não ser mais útil ao seu dono. Esse roteiro expõe a triste realidade da esfera social utilitarista brasileira, isto é, uma sociedade que somente valoriza aqueles que demonstram utilidade para seu funcionamento. Frente a esse contexto, denota-se uma subjetividade: Em que ponto um cidadão torna-se inútil? Em resposta, muitos consideram fatores cognitivos (como a perda de conhecimentos básicos) ou fatores etários (sejam limitações físicas, sejam mentais) como predisposição à inutilidade.

Sob esse viés, é injusto chamar outro ser humano de inútil, desabilitar uma pessoa que ignora suas próprias limitações para um bem maior, assim como Sete-de-ouros, ilustra a visão egocêntrica e apática do corpo social. Diante disso, tornou-se comum (não normal) vangloriar uma pessoa enquanto a mesma possui utilidade e desvalorizá-la quando perde tal, entretanto, essa objetificação humana é incoerente com os valores morais e éticos de uma sociedade estruturada.

À exemplo disso, ao final da obra, após o Burrinho ser descartado em sua última jornada, ele morre exausto, sem homenagem ou pesar. Isso mostra a crueldade do descarte humano, uma vez que se morresse quando “útil”, não seria em vão. Ademais, a leitura traz a passagem “Quem vai na frente bebe água limpa”, ou seja, a água suja fica somente para aqueles que são descartados pela crueldade humana, os últimos da fila já foram os primeiros, e deixá-los em último sem nenhum prestígio social, mesmo que tenham contribuído para o corpo como um todo, é injusto. Em suma, a capitalização da vida humana viabiliza a futilidade do “útil”, dando essa coroa somente aqueles que trazem resultados concretos ao meio.

Outrossim, muitos humanos são descartados por fatores que não cabem ao controle dos mesmos, como o envelhecimento ou deficiências. Em uma sociedade regida por uma lógica utilitarista, o valor do indivíduo é frequentemente associado à sua capacidade de produção, o que marginaliza aqueles que, por questões biológicas ou de saúde, deixam de atender a essas expectativas.

Paralelo a isso, na obra O Burrinho Pedrês, de João Guimarães Rosa, os personagens humanos tratam o burro Sete-de-ouros como um mero instrumento, e não como um ser digno de cuidado ou respeito. Essa frieza ilustra a desumanização que acompanha o etarismo — a ideia de que o velho não merece atenção, afeto ou empatia, mas apenas serve enquanto puder oferecer algo em troca. Assim, é configurado um ambiente de desrespeito e ignorância, pois, tal como no enredo, o protagonista estava submetido a uma função que ultrapassava seus limites físicos. Sua morte solitária e sem reconhecimento evidencia como a sociedade muitas vezes se mostra indiferente diante do sofrimento daqueles que já não se encaixam nos padrões de produtividade, perpetuando uma cultura de descarte e invisibilidade que precisa ser urgentemente superada.

Portanto, a narrativa de O Burrinho Pedrês transcende a simplicidade de uma fábula regionalista ao escancarar, em metáforas sutis, a lógica excludente de uma sociedade que hierarquiza vidas a partir de sua utilidade prática. O burro Sete-de-ouros, envelhecido e fadigado, representa todos aqueles que são desconsiderados pelo corpo social ao perderem seu vigor físico ou mental, sendo condenados à invisibilidade e ao esquecimento. Tal representação é um espelho da realidade de inúmeros idosos, pessoas com deficiência ou indivíduos fora dos padrões produtivos impostos.

Enquanto o prestígio humano continuar sendo medido pelo desempenho e pela eficiência, perpetuar-se-á uma estrutura moralmente falida, em que o fim da linha é marcado não pelo descanso merecido, mas pelo abandono silencioso. Desse modo, combater o etarismo e romper com a lógica do descarte é uma urgência ética de qualquer sociedade que se pretenda justa, solidária e verdadeiramente humana”.

Autora da Coluna: Deise Bressan. Também escreveu e publicou no site www.neipies.com/desafios-para-a-valorizacao-da-heranca-africana-no-brasil/

Edição: A. R.

MINHAS PALAVRAS NA TUA BOCA -MIS PALABRAS EN TU BOCA

Comunicar sentimentos em dois idiomas, como assim?

Sim, as palavras poéticas do poemário de Jucelia Ferreira comunicam com teus sentimentos, em Português, em Espanhol e logo em Inglês, pois recentemente foi traduzido a esse idioma.

A autora almeja que suas palavras encontrem e abracem a poesia, que já vive no coração de todas as pessoas.

A sua escrita é resultado das leituras, vivências e sentimentos de muitas mulheres de formam um todo, que se compõe com cada uma em particular.

A arte foi bem elaborada pela Sofia, uma ilustradora que mais parece uma fada dos traços delicados, e a tradução por Patrícia Daniela, uma tradutora que lê almas.

 Também é bem amparada pela Editora AGE e pela sua família, a autora se refere a ter coragem de quem sabe que um dia não é nunca.

Ela recebeu o Prêmio personalidade artística pela criatividade e transformação através da escrita – Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal

Logo depois, tornou-se membro do Núcleo Académico de Letras y Artes de Buenos Aires, sendo reconhecida como escritora brasileira internacional.

A autora também é acadêmica da Academia Luminescence da França, recebido o mérito em Paris.

O livro foi lançado no Uruguay, Argentina, Espanha, Portugal, França e Itália. Em diversas cidades do Brasil, e tem participado de inúmeros eventos e convites para divulgação. A quarta edição vem aí, e agora trilingue.

Nota da autora:  A minha escrita é resultado das leituras, vivências, motivações e sentimentos meus e de muitas mulheres de um todo, que compõe cada uma de nós.

Aqui sigo, esperando sempre que as minhas palavras encontrem e abracem a poesia, que já vive no coração de todas as pessoas.

Leia-me inteira, por favor.

E me permita colocar palavras na tua boca e no teu coração.

Adquira o seu exemplar:

MINHAS PALAVRAS NA TUA BOCA – MIS PALABRAS EN TU BOCA | Amazon.com.br

Edição: A. R.

Grupos de whats app: a proximidade que pode afastar!

Mas como conviver nesta cibernética sem esquecer nosso lado humano? Simples: tendo a todo o momento a consciência de nossa humanidade. Atitudes de tolerância, compaixão, compreensão, aceitação, são importantes exercícios para nosso bem estar. Mas está pensando em praticar isto com os outros?

Na prática psicoterapêutica, um tema tem sido recorrente nos últimos tempos: o cliente relata algum mau-entendido ocorrido em postagens em grupos de “relacionamentos” e que alguém ficou ofendido e saiu do grupo; o final da história todo mundo conhece…

Seja a finalidade do grupo do aplicativo para integrar colegas de trabalho, de condomínio ou familiares, o ponto em comum é que de certa forma colabora para que se mantenham os contatos, pois, mesmo não postando algo, pode-se ler as manifestações dos demais.

 Um edifício de mais de oitenta condôminos que tinha em suas assembleias semestrais não mais do que quinze pessoas, agora anda em alvoroço com o grupo criado e as trocas de farpas entre muitos que, sequer alguma vez estiveram presentes em reuniões para, cara a cara, ou, olhos nos olhos, poderem dialogar. E o mesmo acontece entre familiares quando alguns residem até mesmo em outras cidades: o que poderia servir para integração acaba por prestar-se antagonicamente.

Não sou avesso às tecnologias, mas sou um usuário que procura fazê-lo com bom juízo, tirando o melhor proveito.

Quero dizer que a falta de diálogo tem gerado muitos sofrimentos sem que alguns sequer percebam. Alguém me disse: “… mas eu mandei uma mensagem, ele que não leu!”. Isto não é diálogo, é simplesmente escrever um bilhete e manda-lo virtualmente, não substitui a presença, o aperto de mãos, um abraço, o estar à frente de um sorriso (ou até mesmo de uma cara carrancuda).

A capacidade da comunicação e as propriedades da fala e da escuta atenta são ótimas ferramentas quando bem utilizadas. As emoções que surgem nos encontros (sejam de alegria e prazer ou de tensão e medo) todas, nos constituem e nos amadurecem, servem de aprendizado para que repassemos aos nossos filhos, irmãos, amigos, colegas. Elas nos transformam!

Mas como conviver nesta cibernética sem esquecer nosso lado humano?

Simples: tendo a todo o momento a consciência de nossa humanidade. Atitudes de tolerância, compaixão, compreensão, aceitação, são importantes exercícios para nosso bem estar. Mas está pensando em praticar isto com os outros?

O que estou propondo é que primeiro tenha esta experiência consigo mesmo: seja mais tolerante com seus erros, tenha mais compaixão com seus sofrimentos (eles estão aí para que sejam pensados, repensados e transformados!); mais compreensão ao lembrar-se de que nem todos pensam como você, e, finalmente, – dito popular – a aceitação de que aquilo que não puder ser remediado, remediado está.

Conviva virtualmente com estes aplicativos, mas apenas o necessário, pois excessos de grupos não nos tornarão mais aceitos, mais queridos, pelo contrário, tomarão muito de nosso tempo dificultando que olhemos para nós mesmos.

Agora, não seria interessante – mesmo que pelo Whats App – convidar um amigo para um encontro, um cafezinho, um tempo para efetivamente, conversarem? Melhore suas relações, melhore a si mesmo, aproxime-se!

Autor: César Augusto de Oliveira – psicólogo. Também escreveu e publicou no site “O que dizem seus stories?”: www.neipies.com/o-que-dizem-seus-stories/

Edição: A. R.

Juventudes interrompidas e a falta de proteção à vida

Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, quase 50% das mortes violentas ocorridas em território nacional, em 2024, vitimaram pessoas com idades entre 12 e 29 anos.

O Dia do Estudante e o Dia Mundial da Juventude — respectivamente, em 11 e 12 de agosto — continuam com poucos motivos para comemoração no Brasil. Os jovens mantêm-se nos grupos que mais sofrem as consequências da violência, do desemprego, da falta de educação com qualidade, da destruição do meio ambiente, da desesperança e da interrupção do direito à vida.

É necessária uma reflexão e análise mais profunda sobre por que o Brasil mata tantos jovens, especialmente negros e pardos, praticando um juvenicídio contínuo.

Considerando apenas a série histórica de onze anos (2013-2023), foram 312.713 jovens vítimas da violência letal no Brasil, segundo o Atlas da Violência do Ipea. O juvenicídio é um conceito que explora a fundo as dinâmicas de estigmatização, criminalização e aniquilação de vidas construídas em torno do sujeito jovem, cuja razão principal é ser jovem.

Políticas e programas de juventudes

O Dia Internacional da Juventude tem origem em uma resolução da Assembleia Geral da ONU de 1999, em resposta à recomendação da Conferência Mundial de Ministros Responsáveis pela Juventude, reunida em Lisboa, de 8 a 12 de agosto de 1998.

Portanto, há 26 anos, países do mundo reuniram-se em Portugal e assumiram compromissos de formular e aplicar soluções para os problemas e desafios que vitimam jovens em escala global. A Declaração de Lisboa sobre Políticas e Programas de Juventudes assumiu o compromisso internacional de esforços em prol do desenvolvimento e da paz, com garantia de direitos e envolvimento dos mais altos níveis de governo.

No ano seguinte à reunião de Portugal, a Organização das Nações Unidas instituiu o Dia Internacional da Juventude, celebrado globalmente todo 12 de agosto. Desde então, esta data abriu espaço para a reflexão crítica da condição dos jovens e para o debate sobre a condição social e os direitos que mais afetam essa população.

Os países assumiram um conjunto de compromissos em torno de uma agenda com os jovens, entre os quais destacam-se: Direitos Humanos e Democracia; Desenvolvimento Sustentável; Sustentabilidade Ambiental; Igualdade de Gênero e Inclusão; Combate à Violência contra a Juventude; Tempos Livres, Mobilidade e Participação Internacional; Saúde e Proteção Social; Educação Sexual Abrangente; Educação Inclusiva de Qualidade; Trabalho Digno e Empoderamento Econômico; Acesso à Informação e à Tecnologia, entre outros.

No Brasil, entrou em vigor o Estatuto da Juventude (Lei nº 12.852/2013), reafirmando um conjunto de direitos dos jovens, tais como: direito à profissionalização, ao trabalho e à renda, exercido em condições de liberdade, equidade e segurança, adequadamente remunerado e com proteção social. Portanto, tanto na Declaração de Lisboa quanto no Estatuto da Juventude, a violência e a segurança não ficaram de fora da pauta.

Violência

Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, quase 50% das mortes violentas ocorridas em território nacional, em 2024, vitimaram pessoas com idades entre 12 e 29 anos. Estes índices já foram ainda superiores na série histórica levantada pelo Atlas desde sua criação, em 2016.

A vitimização de jovens e negros vem sendo comprovada pelo Ipea desde a primeira edição do Atlas da Violência. A edição de 2025 registrou que, no ano de 2024, houve 44.127 mortes intencionais (homicídios) no Brasil, sendo que 48,5% das vítimas tinham até 29 anos e 79% eram negras. A violência contra crianças e adolescentes (0 a 17 anos) teve crescimento de 3,7% no ano passado.

Matéria editada por Nadini Lopes (Brasil de Fato) aponta que a faixa etária dos 12 aos 29 anos representou 76% das vítimas de violência policial no país. O racismo estrutural reforça essa estatística: 83% das pessoas mortas pela polícia em 2022 eram negras. Os jovens pretos são, portanto, os maiores alvos da agressividade das forças oficiais de segurança. Eles também formam parte considerável da população carcerária do Brasil: pessoas com até 29 anos representam 43,1% desse grupo, e homens negros respondem por 68,2%.

A população de mulheres entre 18 e 24 anos é a que mais sofre feminicídio no Brasil. Esse tipo de crime guarda uma componente ainda mais cruel: para outros tipos de violência, o risco diminui a partir dos 29 anos; no caso dos feminicídios, as mulheres continuam sob constante perigo por cerca de 15 anos a mais. Mais de 70% dos casos ocorrem entre os 18 e os 44 anos.

Educação

O direito à educação é outro desafio para os jovens brasileiros. Conforme Estatísticas Sociais do IBGE, divulgadas em 2023, um em cada cinco brasileiros com 15 a 29 anos não estudava nem estava ocupado em 2022, ou seja, 10,9 milhões de pessoas (22,3%). Do total, mulheres pretas ou pardas representavam 4,7 milhões (43,3%), enquanto mulheres brancas somavam 2,2 milhões (20,1%). Homens pretos ou pardos eram 2,7 milhões (24,3%) e homens brancos, 1,2 milhão (11,4%).

Desse total, 61,2% eram pobres, com renda domiciliar per capita inferior a US$ 6,85 por dia, e 14,8% eram extremamente pobres, com renda abaixo de US$ 2,15 por dia, segundo o Banco Mundial. No Nordeste, 75,5% dos jovens que não estudavam nem estavam ocupados eram pobres, e 22,5% estavam na extrema pobreza. Isso evidencia a relação direta entre ser jovem, pobre e preto ou pardo com a exclusão educacional.

O estudo do IBGE revela ainda que esse resultado coloca o Brasil com percentual de pessoas sem ensino médio acima de países latino-americanos como Colômbia (37,9%), Argentina (33,5%) e Chile (28%).

O atraso histórico na expansão do sistema de ensino brasileiro também se reflete no baixo percentual de pessoas de 25 a 64 anos que concluíram o ensino superior. Enquanto a média dos países da OCDE, em 2021, era de 41,1%, a média brasileira, em 2022, era de cerca da metade: 20,7%.

Embora a faixa etária de 25 a 34 anos tenha atingido percentual maior, com 23,4% em 2022, o Brasil segue abaixo da média da OCDE para essa idade, que é de 46,9%. O índice brasileiro também é inferior ao de países latino-americanos como México (27,1%), Colômbia (30,5%) e Chile (40,5%).

Saúde

Embora o Brasil não apresente taxas elevadas de suicídio em um contexto global, o Ministério da Saúde, por meio da Secretaria de Vigilância em Saúde, alerta para a tendência crescente dessa causa de morte no país.

Estudo sobre tendências de mortalidade por doenças e agravos não transmissíveis de 2000 a 2018 revelou crescimento médio anual de 1,4% nas taxas de suicídio. A partir de 2014, essa tendência se acentuou, com incremento de 3,2% ao ano.

Em 2019, o suicídio foi a quarta principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos no mundo, ficando atrás apenas de lesões no trânsito, tuberculose e violências interpessoais. No Brasil, o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) aponta o suicídio como a segunda principal causa de morte entre adolescentes de 15 a 19 anos e a quarta entre jovens de 20 a 29 anos.

Trabalho e defesa das juventudes

As relações dos jovens com o mercado de trabalho também estão em transformação estrutural. Exemplo recente são as demissões voluntárias, que avançam nos últimos anos, com alta adesão entre jovens.

No acumulado de 12 meses encerrados em fevereiro de 2025, no Rio Grande do Sul, houve 697.089 desligamentos a pedido dos trabalhadores. Desse total, 315.450 foram de jovens até 29 anos — 45,25% do total, o maior nível em cinco anos. Quatro anos antes, o índice era de 32,84%.

Entre os principais motivos para a demissão voluntária, os jovens justificaram: baixos salários e falta de reconhecimento; problemas com a chefia e cultura organizacional; busca por qualidade de vida e flexibilidade; realização pessoal e alinhamento com valores; adoecimento mental e estresse; mudança de carreira e empreendedorismo. Compatibilizar estudo, trabalho, renda, qualidade de vida, tempo livre, atividades híbridas e bem-estar é parte de uma nova cultura das juventudes contemporâneas.

A pesquisadora Miriam Fábia Alves, da Universidade Federal de Goiás (UFG), alerta que o Brasil precisa de um debate urgente sobre a proteção da vida da juventude e a cultura da paz. Ela ressalta que esse debate deve ter protagonismo jovem: “Nada sobre nós, sem nós”.

A professora destaca ainda: “Temos uma participação importante da juventude nas pautas atuais, em relação à educação e ao meio ambiente, por exemplo. Aqui no Brasil, acho que precisamos promover uma pauta urgente com as juventudes na defesa da vida. Mas, ao mesmo tempo, há uma tentativa da sociedade brasileira de secundarizar essa participação”.

FONTE: Juventudes interrompidas e a falta de proteção à vida    

Autor: Gabriel Grabowski, professor, pesquisador. Também escreveu e publicou no site “Juventude não é preguiçosa: ela pensa o mundo diferente”: www.neipies.com/a-juventude-nao-e-preguicosa-ela-pensa-o-mundo-diferente/

Edição: A. R.

Ser Mãe é viver no paraíso!  Ser Pai é candidatar-se?

Dias dos pais.  De todos?  Os presentes e os ausentes?

Eis que uma nova configuração no papel dos pais invadiu o nosso meio. Pais que não têm idade para ‘ser’ pais, pais que assumem suas obrigações de pais, não importa o rol delas; os que pedem a guarda de seus filhos, os que vivem a sós com eles… E pais que assumem tudo!

Aumentou o perfil e a sua diversificação.  E, na mesma proporção, aumentou a diversificação dos problemas e temores que os cercam.

Ser pai hoje, com a perspectiva do que sabemos e vivemos com os nossos, bastaria estar em casa, diariamente, por uma hora a mais. Mas isso não basta mais.

Dividir a louça, a arrumação das camas, não deixar roupas pelos cantos e, volta e meia, fazer um almoço diferentão aos domingos, pode ajudar.

Também ouvir seus filhos, distribuir conselhos, espalhar limites pela casa, manter as contas em dia, não se descuidar da Mãe dos seus filhos, lutar pela pontualidade, defender a fidelidade, comprar absorventes, se for o caso, e ainda perguntar que tipo e marca comprar…

Ahh!  Ficar preocupado com as companhias dos filhos, do amigo mal-encarado que não entra em casa, com os amigos simpáticos que vivem em casa, apoiar os seus primeiros namorados, se for a caso, incentivar e gostar do maravilhoso e maldito namoro, que começou antes da hora…Como se houvesse hora, para ‘deixar’ sua filha – deixar e ver sendo abraçada e beijada por um guri muito querido que foi aprovado, mas que é um pequeno cafajeste; bem-vindo, vai.

É muita coisa! 

A diferença dos pais que sobreviveram e que hoje estão pelos 60, é inimaginável para os que nasceram e foram criados em meio a falas racistas e misóginas sobre casamento e filhos, em uma casa onde arrumar camas era sinônimo de fraqueza. 

O que dirão os que chegaram até aqui, vendo estes pais, nem tão novos assim, tendo de lidar com lençóis levemente manchados de sangue, o sanguinho da filha que ainda não sabe se proteger em suas fases menstruais? Mas que ele mesmo apanha os lençóis, quando ela sai para a escola e os põe na máquina de lavar.  Cantarolando de felicidade.

Ser pai hoje é fazer parte de uma transição incrível, entre épocas machistas que teimam em voltar e a novidade que os novos casamentos ensinam, onde nada é escolhido para fazer ou cuidar, sendo que a única diferença nestes lares é o corte de cabelo ou o uso de saias – e olhe lá. O restante existe para todos. Que bom!

Pais precisam demonstrar amor, mas imitando as mães já farão um progresso imenso. Até para evitar futuras confissões, de filhos perdidos em consultórios variados.

_Eu só queria que ele fosse presente, que apoiasse meus sonhos.   _Quando penso no meu pai não sinto nada.  _Havia um silêncio em nossa relação.  _Não tenho memórias de meu pai sorrindo. _Quando penso em um pai imagino uma pessoa carinhosa, amorosa, cuidadosa e o meu pai não foi nada disso.  

É o que dizem jovens atendidos em clínicas psicanalíticas. São meninos e meninas feridas, que carregam na alma as marcas da sua ausência e buscam através do autoconhecimento a cura dessas dores. Não está em questão o julgamento sobre os homens que os maternaram; também eles possuíam uma história. Foram filhos e carregaram os sinais que lhe foram impregnados; pela educação e pelos gritos ouvidos.  Ensinados a reprimir seus sentimentos, fingir força e esconder lágrimas…Para maquiar suas dúvidas. E a não lavar louças, claro.

No entanto, isso não precisa ser reproduzido na educação de hoje. Não mais!

Pode-se fazer diferente, pode-se declarar um amor pelos filhos, sem a dependência de um passado cruel e preconceituoso, aonde o amor vinha sempre a seguir, pois a primazia estava na moral e bons costumes. Quantos anos perdidos por este pensamento!

Porque não há idade para mudar e se transformar em um novo pai. Nem idade, nem número de filhos, sequer certidões de casamento…

Em tempo de tantos problemas novos, a novidade é que ser um novo pai está sendo pra valer. Até daria para chocar os filhos com tanta entrega, preparando-os para uma paternidade que os aguarda a seguir e que sequer imaginávamos em alguns anos.

Que assim seja!

 Aos que ainda não se convenceram, que aprendam a passar camisas de linho, especificamente, para vesti-las na tristeza de sua solidão paterna.

Viva os novos pais!

Colaborou Marciano Pereira, também autor de textos neste site: www.neipies.com/author/marciano_pereira/

Autor: Nelceu A, Zanatta. Também escreveu e publicou no site “Quando morre uma mãe”: www.neipies.com/quando-morre-uma-mae/

Edição: A. R.

Aumento populacional, envelhecimento e mobilidade: os desafios para o futuro de Passo Fundo

Maior município da Região Norte, referência em saúde, educação e industrialização, celebrou 168 anos de emancipação nesta última quinta-feira (7 de agosto de 2025)

(Por jornalista Eduarda Costa)

Maior município da Região Norte do RS, referência em saúde, educação e industrialização, Passo Fundo celebra 168 anos de emancipação nesta última quinta-feira (7 de agosto de 2025) em meio a novos desafios para o futuro.

Com crescimento populacional constante, envelhecimento da população e projeções de mudanças no cenário eleitoral, a cidade precisa se preparar para manter o protagonismo regional e garantir qualidade de vida aos moradores.

O aumento populacional é uma das marcas do desenvolvimento recente de Passo Fundo. Entre os censos de 2010 e 2022, a cidade cresceu em média 1% ao ano, saltando de 184.869 habitantes para 206.224. A tendência, segundo o coordenador regional do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE), Jorge Benhur Bilhar, é de continuidade:

— Passo Fundo é uma cidade atraente e convergente. Os jovens vêm para estudar e acabam ficando, conseguindo emprego e, por vezes, trazem as famílias. Essa é a nossa tendência para o futuro. Devemos ter mudanças no perfil, com população mais velha e famílias com menos filhos, mas em crescimento.

O aumento reflete no maior número de eleitores. A estimativa do coordenador é que, até as eleições municipais de 2040, Passo Fundo atinja 200 mil eleitores, número necessário para a cidade ter segundo turno na votação.

— Mas muitos fatores influenciam, como a não transferência dos domicílios eleitorais, ou a não emissão (do título) ao completar 16 anos. Mesmo assim, estimamos que até as eleições de 2040 já tenhamos 200 mil eleitores — ressalta.

Por que Passo Fundo é atrativa?

Atualmente com 214.564 habitantes estimados, Passo Fundo foi a quinta cidade gaúcha que mais cresceu no último levantamento do IBGE. Por trás desta evolução, os motivos são os mais variados: oportunidades de emprego, estudo e até de melhor qualidade de vida. 

É isso o que aponta a análise da economista e diretora da escola de Ciências Agrárias, Inovação e Negócios da Universidade de Passo Fundo (UPF), Cleide Moretto:

— Passo Fundo oferece serviços muito semelhantes aos encontrados em capitais ou regiões metropolitanas, como excelentes escolas, hospitais, clínicas, serviços especializados, além de um importante centro atacadista, comercial e da construção civil. A revitalização dos espaços públicos dá visibilidade às opções de lazer, sinalizando espaço para iniciativas na área do turismo. 

Fatores econômicos também são grandes impulsionadores por trás dos números populacionais. A expansão da produção, diversificação das atividades econômicas e o agronegócio são algumas das características atrativas para novos moradores.

— Temos uma economia local baseada no setor terciário (comércio atacadista, varejista e serviços), com especialização na área da saúde e da educação, e mesmo assim atendemos uma demanda regional baseada na produção agropecuária. Estamos nos consolidando como um “mesopolo regional agropecuário” — destaca.

Desafios das próximas décadas

Para dar conta de atender o aumento da população, a cidade precisa ter infraestrutura condizente com as novas necessidades. Com tendência de ter cada vez mais idosos, por exemplo, será preciso investir em atendimentos focados na área da saúde. Outras demandas serão na mobilidade, como acessos, rodovias e aeroporto.

— Hoje temos em torno de 47 mil idosos, e isso vai só aumentar, porque as pessoas estão vivendo mais. Nossos gestores precisam dar importância ao assunto. Em algum momento, é de se pensar em deixar de construir escolas e focar em casas de acolhimento. Já deveríamos ter um geriatra em cada posto de saúde, e temos essas carências em torno do crescimento da cidade — aponta Bilhar.

A discussão já está no radar da prefeitura, que discute soluções para adaptar a rede à população em envelhecimento. Conforme o secretário de Planejamento, Giezi Schneider, preparar a cidade é um dos planos. 

— Precisamos ter outras estruturas de atendimento, mas isso ainda está na fase de discussão, para equiparmos adequadamente a cidade — adianta.

Outro gargalo está na mobilidade urbana. Hoje, quem se desloca pela cidade precisa passar pela Avenida Brasil, resultando em congestionamento na principal via da cidade. O mesmo acontece nos trevos de acesso, que precisam ter maior estrutura para dar conta tanto dos moradores quanto do trânsito de caminhões. 

Ainda segundo Giezi, o tema é o ponto focal da gestão municipal. Um departamento foi criado para pensar estratégias específicas e soluções para o trânsito dentro e no entorno da cidade: 

— O trânsito hoje é crucial para a garantia da qualidade de vida, e precisamos vencer esses gargalos. Vamos criar rotas alternativas à Avenida Brasil, para que a locomoção seja distribuída. Também qualificar o transporte coletivo e o entorno da cidade, com os principais trevos já incluídos em projetos de estruturação. 

Suporte para novos moradores 

Tornar a cidade atrativa economicamente também passa por investimentos em serviços básicos, para dar suporte a esses novos trabalhadores. Escolas em turno integral — para os pais conseguirem trabalhar — moradia, segurança e lazer são alguns dos atrativos conectados com o desenvolvimento da cidade.

— Toda a força de atração produtiva implica em expansão na mesma intensidade da estrutura de serviços básicos. Políticas públicas direcionadas ao crescimento são fundamentais e definidoras do desenvolvimento sustentável do município, e serão determinantes para o seu futuro — destaca Cleide Moretto.

Manter a plenitude dos serviços também é uma estratégia da gestão municipal, que entende que, para manter os novos moradores, é preciso ter uma cidade cada vez mais atrativa. 

— A nossa diversidade da matriz econômica é um dos pilares de Passo Fundo, e precisamos estar preparados para suportar essa chegada de profissionais. Focamos numa cidade que funcione, que traga boas condições de vida, fazendo com que os recursos circulem por aqui. Precisamos manter esse DNA que está dando certo, por muitos anos — finaliza Giezi. 

Fotos: fotógrafo Diogo Zanatta

Conheça mais sobre o seu trabalho em Passo Fundo, RS: www.neipies.com/uma-cidade-sob-um-olhar-fotografico/

FONTE: Aumento populacional, envelhecimento e mobilidade: os desafios para o futuro de Passo Fundo | Passo Fundo

Edição: A. R.

Para entender o Discurso de Ódio

Atualmente existe um grande debate acerca da linha tênue entre liberdade de expressão e discurso de ódio. O primeiro é fundamental para uma democracia existir; o outro, por sua vez, representa uma fala intolerante e sem empatia. Sendo assim, existe a necessidade de se compreender o que caracteriza um discurso de ódio e quão prejudicial ele pode ser para uma sociedade democrática.

Neste texto você verá algumas visões de estudiosos sobre esse conceito, exemplos de discurso de ódio e suas repercussões e, por fim, maneiras de combater essa prática, tanto na internet quanto no mundo real.

Ficou interessado(a)? Então continue a leitura! Este texto é uma versão ampliada e modificada do texto “Discurso de ódio” (Fávero, 2025) publicado no livro cuja referência e link de acesso estão no final do texto.

Em primeiro lugar, o que é discurso de ódio?

Não existe uma única definição para discurso de ódio, entretanto, todas elas se assemelham. Segundo Samanta Ribeiro Meyer-Pflug, doutora em Direito, o discurso de ódio é a manifestação de “ideias que incitem a discriminação racial, social ou religiosa em determinados grupos, na maioria das vezes, as minorias”. Entretanto, podemos ver que nesta definição são abordados apenas os pontos de discriminação racial, social ou religiosa, sem considerar, por exemplo, gênero, orientação sexual, peso, algum tipo de deficiência, classe, dentre outros.

Já Daniel Sarmento, doutor em Direito Constitucional, afirma que discurso de ódio pode ser caracterizado por “manifestações de ódio, desprezo ou intolerância contra determinados grupos, motivadas por preconceitos”. Sendo assim, com base nessas duas conceituações e no senso comum que existe sobre o termo, podemos chegar a conclusão que discurso de ódio é um conjunto de ações com teor intolerante direcionadas a grupos, na maioria das vezes, minorias sociais (mulheres, LGBTs, gordos(as), pessoas com deficiência, imigrantes, dentre outros).

O que caracteriza o discurso de ódio?

O discurso de ódio é considerado um tipo de violência verbal, e a sua base é a não-aceitação das diferenças, ou seja, a intolerância. É importante lembrar que a intolerância foi uma das principais patologias sociais do passado que produziam centenas de mortes por motivações religiosas, étnicas, ideológicas ou políticas.

A extrema direita do presente ressuscita a intolerância nos seus discursos de ódio personalizadas por seus líderes, muitos dos quais são eleitos nas câmaras de vereadores, nas assembleias legislativas estaduais ou até mesmo no Congresso Nacional.

Temos intolerantes que praticam a intolerância e o discurso de ódio no executivo dos municípios, nos governos estaduais e até mesmo recentemente a presidência da república foi ocupada por um praticante do discurso de ódio que deixou milhões de seguidores.

Concordo com o professor e filósofo Vladimir Safatle que em vídeo recente ressaltou que se alguém hoje vota na extrema direita é porque tem algum tipo de déficit. Ou déficit cognitivo: ele só acredita em fake News, ele é incapaz de entender como as coisas acontecem, acreditam em “terra plana” e neste tipo de coisa de como elas acontecem; ou um déficit psicológico: são ressentidos; ou um déficit moral: são pessoas marcadas pelo discurso do ódio, que acreditam que quem que somente um líder carismático autoritário será capaz de extirpar os privilégios e instaurar a sociedade correta na visão deles (branca, heterossexual, ordeira, patriarcal, produtiva). Quem não se encaixa dentro deste estereótipo, é desajustado, impuro e indigno de viver. Para estes as diferenças são as formas corrompidas que esquerdistas e comunistas inventaram para desvirtuar a moral e os bons costumes

Quando falamos de diferenças, o foco dessa prática se dá, em sua maioria, naquelas ligadas a aspectos de crença, origem, cor/etnia, gênero, identidade, orientação sexual etc. Não colocaremos aqui exemplos reais de discurso de ódio, mas imaginamos que, ao menos uma vez, você já tenha se deparado com este tipo de situação na internet. Não é raro vermos, por exemplo, comentários xenofóbicos com pessoas do nordeste do Brasil ou, trazendo mais para os dias de hoje, com o povo chinês, os culpando recentemente pela pandemia do coronavírus e julgando seus hábitos alimentares e de higiene. 

Outra situação que muitos já deve ter presenciado é a de ataques à população LGBT+. Comentários invalidando a existência de pessoas trans e travestis, por exemplo, ainda são comuns, especialmente na internet. Mais uma vez, não colocaremos aqui exemplos práticos, mas perceba que esta situação ainda se faz presente.

Um exemplo claro de prática motivada por crime de ódio foi o regime nazista, que perdurou durante a Segunda Guerra Mundial e pregava, dentre outras ideologias, o antissemitismo (ódio e preconceito contra os judeus). Este é um exemplo mais duro — por se tratar de um regime totalitário —, mas que nos mostra que este discurso já pôde alcançar proporções inimagináveis, bem como perdas incontáveis. 

Nos exemplos que citei, o discurso de ódio se dá por conta dessas singularidades (origem e identidade de gênero/orientação sexual), como se estas rebaixassem o indivíduo e o tornassem menos ser humano do que alguém que não está em uma dessas “classificações”. Essa hierarquização de seres humanos, levando especialmente em consideração aspectos biológicos, é chamada de eugenia. 

Antes de mais nada, ao falar sobre discurso de ódio, se faz necessário falar sobre direitos humanos.

Segundo a Organização das Nações Unidas, direitos humanos são “direitos inerentes a todos os seres humanos, independentemente de raça, sexo, nacionalidade, etnia, idioma, religião ou qualquer outra condição”, incluindo “o direito à vida e à liberdade, à liberdade de opinião e de expressão, o direito ao trabalho e à educação, entre e muitos outros. Todos merecem estes direitos, sem discriminação”.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) também deve ser analisada nesse sentido. Em seu artigo II ela traz que “Todo ser humano tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição”.

É importante perceber que nestas definições os direitos humanos são garantias de todos os indivíduos, independentemente de suas singularidades? Isso, por sua vez, vai contra o discurso de ódio, que prega o preconceito contra seres humanos que fazem parte de alguma minoria social ou que são catalogados autoritariamente como sendo inferiores. Ou seja, o discurso de ódio fere as garantias e direitos fundamentais de todo e qualquer cidadão.

Se compreendermos bem esta ideia, que constitucional no nosso país, então entendemos que os ditos “patriotas” que se sentem os guardiões do Brasil, estão sendo traidores da Pátria, pois se colocam contra a lei maior que é a Constituição. Quem defende ou pratica discurso de ódio é traidor do Estado de Direito, da Democracia e do Bem Comum.

No Brasil, o Artigo 5º da Constituição Federal de 1988 trata dos direitos e deveres individuais e coletivos. Segundo ele, “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”.

Ao definir que ninguém será submetido a tratamento desumano ou degradante, bem como que a lei punirá qualquer discriminação que atente aos direitos e liberdades fundamentais, a Constituição defende os direitos humanos e pune quem violá-los, ou seja, quem praticar discurso de ódio.

E de que forma é fundamental perceber a confusão que muitos fazem entre discurso de ódio x liberdade de expressão?

Como dito anteriormente, o discurso de ódio se configura como crime e atenta às garantias e direitos fundamentais de todo cidadão. Entretanto, o principal debate que surge ao falarmos dessa prática é a diferença entre discurso de ódio e liberdade de expressão. Isso porque, muitos alegam que a liberdade de expressão lhes dá direito de se expressarem da maneira que melhor lhe convém sobre todo e qualquer tema. Em outras palavras discurso de ódio não é liberdade de expressão e sim crime contra a humanidade, contra os direitos humanos e contra a forma civilizada de se viver.

Os que praticam discurso de ódio reascendem o “câncer” que destrói os princípios da dignidade humana, a vida em comunidade e a democracia como modo de vida, como bem expressava o filósofo educador John Dewey há mais de 100 anos.

O direito à liberdade de expressão é garantido pelo inciso IX do Artigo 5º da Constituição, ou seja, uma garantia constitucional. Isso, por sua vez, não significa que ela seja uma garantia absoluta, afinal, ela também precisa respeitar outras garantias constitucionais, como o direito à intimidade, direito a dignidade, direito ao reconhecimento, por exemplo. 

Na prática isso significa que você tem a liberdade de expressar suas crenças e opiniões, desde que elas não firam outras leis e garantias. Ou seja, ter falas racistas, homofóbicas e similares, utilizando do argumento de liberdade de expressão, além de ser um ato nada empático e respeitoso, é configurado como crime, por ferir vários direitos fundamentais assegurados em nossa atual Constituição.

O discurso de ódio nas últimas décadas tem ganhado força principalmente por conta da popularização da internet. Estudos mostram que nas redes sociais, os valentões se sentem poderosos para destilar seu veneno, suas frustrações, ressentimentos, déficits de compreensão.

O efeito manada, tão bem descrito por Sigmund Freud na “psicologia das massas”, ganha impulso nas redes sociais. Por isso que o discurso de ódio está tão presente. A terra sem lei das redes sociais, faz com que os instintos primitivos de sobrevivência do animal humano se coloque acima da racionalidade, da razoabilidade e do senso moral de pertencimento à uma comunidade mais ampla. Os guetos, as bolhas sociais ganham nas redes sociais uma forma de expressão dos recalques reprimidos que ganham expressividade nos discursos de ódio.

A internet, assim como qualquer outro espaço ou ferramenta, pode ser usada para expressar boas e más ações. Por se tratar de um espaço imenso, muitas pessoas acreditam que a internet é “terra sem lei”, ou seja, que é permitido agir da maneira que lhes convém, sem lidar com as consequências. Por isso ainda é comum vermos comentários intolerantes nas redes sociais.

Uma pesquisa feita por economistas doutorandos da Universidade de Warwick, na Inglaterra, trouxe dados relevantes sobre a relação entre discurso de ódio e o uso do Facebook. O estudo publicado em 2018 teve como alvo cidades alemãs em que se teve registro de ataques violentos a refugiados e concluiu que nas cidades em que as pessoas eram mais ativas no Facebook, foi maior o número de ataques. Você pode saber mais sobre a pesquisa acessando o link que está no final deste escrito.

Ainda não existe uma lei específica que trate sobre discurso de ódio na rede mundial de computadores, entretanto, o Marco Civil da Internet (Lei nº 12.965/2014) é a principal fonte a ser utilizada nesta questão.

Segundo ele, “A disciplina do uso da internet no Brasil tem como fundamento o respeito à liberdade de expressão, bem como:

[…]

II – os direitos humanos, o desenvolvimento da personalidade e o exercício da cidadania em meios digitais;

III – a pluralidade e a diversidade;”

Além disso, as próprias redes sociais contam com mecanismos reguladores de conteúdos sensíveis, que devem ser acionados pelos usuários quando os mesmos se depararem com alguma publicação de teor intolerante e desrespeitoso. Dessa maneira, por mais que não exista uma lei específica, não quer dizer que uma pessoa que cometa crime de ódio na internet possa sair impune.

Mas, como podemos combater o discurso de ódio?

Como comentado anteriormente, existe a necessidade de uma lei específica que tipifique o crime de discurso de ódio e as penas cabíveis para tal. Além disso, as redes sociais, jogos on-line, fóruns e a internet como um todo também precisa estar atuantes no combate a esse crime. Para isso, é fundamental denunciar postagens e perfis com esse tipo de discurso. As próprias ferramentas das redes sociais apresentam recursos de denúncia que devem ser usadas para denunciar crimes virtuais, dentre os quais está discursos de ódio.

Quando os valentões/covardes tem suas contas bloqueadas nas redes sociais, começam a se dar conta que precisam rever sua forma equivocada de lidar com as frustrações e recalques mal resolvidos e talvez lidar melhor com seus déficits cognitivos, psicológico ou moral.

Entretanto, ainda existe muito a ser feito no sentido de conscientização. Isso porque muitas pessoas nem sequer sabem o que é o discurso de ódio, o que pode fazer com que essa prática seja reproduzida sem ao menos saber o quão grave ela é de fato para contaminar e destruir o tecido social que promove a civilidade.

Por isso, ações de conscientização se fazem fundamentais. Desde palestras e dinâmicas em escolas e ambientes de trabalho, como a difusão deste tipo de conteúdo na internet. Haveriam muitos outros pontos que precisariam ser explicados. No limite de um texto. O mais importante é que ao sabermos o que é o discurso de ódio e que constitui um crime, podemos ajudar a combatê-lo e evita-lo.

Referências:

Reportagem sobre o discurso de ódio na Alemanha: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/08/23/A-rela%C3%A7%C3%A3o-entre-uso-de-Facebook-e-crimes-de-%C3%B3dio-segundo-este-estudo

FÁVERO, Altair Alberto. Discurso de ódio. In: LODÉA, Andrei Luiz; NEVES, Giséllie Fátima Elicker das; FIANCO, Francisco; SILVA, Patrícia Santana de Aragão; ZART, Tatiel Henrique (Orgs.). Ouse Saber Podcast: doses de filosofia para ouvir e pensar. 1ed.Passo Fundo/RS: Ediupf, 2025, v. , p. 127-141. Link de acesso do livro completo: https://www.researchgate.net/publication/392616395_Discurso_de_odio

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero – altairfavero@gmail.com Também escreveu e publicou no site “A educação contra a barbárie”: www.neipies.com/educacao-contra-a-barbarie/

Edição: A. R.

X CONGRESSO DOS PROFESSORES MUNICIPAIS PRECARIZAÇÃO DA PROFISSÃO DOCENTE: E AGORA?

O mês de agosto dos últimos anos serve para que professores e professoras da rede municipal de Passo Fundo realizem seu Congresso, um espaço de aprofundamento e debate de temáticas que preocupam a categoria, demandam esforços de compreensão e entendimento e apontem novas lutas. Os Congressos afirmam as temáticas de cada momento histórico das lutas sindicais.

Nós, professoras e professores municipais de Passo Fundo, temos muito a dizer sobre a educação pública de nossa cidade. Mas quando as demandas são muitas, como ocorre neste momento histórico, fica difícil definir prioridades. As discussões do Congresso deste ano terão como norte a seguinte afirmação: tão importante como promover a entrada de novos docentes na rede municipal de ensino, é garantir a sua permanência.

O executivo municipal realizou, em menos de uma década, três concursos públicos para o magistério. Apesar de tal iniciativa permitir o ingresso de novos professores na rede, a cada ano a Secretaria Municipal de Educação tem mais dificuldade para preencher o quadro docente.

Como isso se explica?

A resposta é relativamente simples: exonerações! Aproximadamente, 50% dos nomeados no concurso de 2016 se exoneraram. Até junho deste ano, cerca de 15 professoras novas na rede já haviam solicitado desligamento, algumas ainda no início do estágio probatório. E esses números não param de crescer.

Além disso, o número de afastamentos por “licença saúde”, nos últimos anos, é impressionante. Cerca de 15% do magistério municipal se ausentou por 15 dias ou mais por motivos de saúde. Esses percentuais são tão alarmantes que, caso essa situação ocorresse em uma indústria, o Ministério Público do Trabalho pediria o fechamento do estabelecimento junto à Justiça do Trabalho.

Ainda temos a questão que nossa categoria está envelhecendo e os pedidos de aposentadoria, aumentando rapidamente. É comum servidores do quadro geral, após completarem os requisitos para aposentadoria (tempo de serviço e idade), solicitarem o “abono permanência”. Ao fazer isso, deixam de descontar o imposto previdenciário e continuam trabalhando, com o objetivo de aumentar seus rendimentos. Tal prática não acontece na mesma proporção entre os professores.

O nível de esgotamento mental em que o magistério se encontra não torna essa realidade possível. Em sua maioria, os professores que conseguem cumprir os requisitos mínimos para a aposentadoria saem da ativa em definitivo. Cerca de 80% das aposentadorias do IPPASSO (nosso RPPS) são referentes ao magistério.

Temos uma constatação: as professoras e professores não estão conseguindo exercer a profissão docente. Precisamos entender os motivos para, dessa maneira, inverter essa lógica e garantir a permanência dos docentes na rede municipal. O CMP Sindicato quer pautar essa discussão e apresentar alguns pontos relevantes que permitam alterar tal quadro:

  • Valorização salarial: o momento da enrolação e procrastinação já passou, precisamos que nossos administradores reconheçam o percentual do piso nacional e implementem uma política de valorização salarial. Nossas professoras e professores acumulam perdas salariais de cerca de 80% em relação ao piso do magistério.
  • Sobrecarga e burocratização do trabalho: precisamos que a ação docente volte a ser prazerosa para todos os envolvidos no processo de ensino e aprendizagem. A hora atividade deve ser usada para a elaboração de aulas interessantes e pertinentes, não para o preenchimento de inúmeras planilhas e documentos.
  • Adoecimento físico e mental: a desvalorização salarial, a sobrecarga de trabalho, além do assédio (somos a única categoria que sofre assédio vertical, de baixo para cima, por parte de alunos e/ou comunidade) tornam a ação docente ainda mais desafiadora do que naturalmente seria.

A situação atual do magistério é grave, por isso é urgente alterar o rumo. Como contribuição, o X Congresso dos Professores Municipais de Passo Fundo, organizado pelo CMP Sindicato, debate o tema “Precarização da profissão docente: e agora?”, no dia 29 de agosto de 2025, com os seguintes palestrantes:

  • Diana Abreu: presidente do Sismmac (Sindicato dos Servidores do Magistério Municipal de Curitiba). Doutora em políticas educacionais, especialista nas temáticas: piso, carreira e condições de trabalho dos professores.
  • Cristina Gerhardt Benedetti: Procuradora do Ministério Público do Trabalho, gerente nacional do Projeto Sindicalismo e Diversidade da Coordenadoria Nacional da Liberdade Sindical do MPT.
  • Ana Paula Seibert: mestre em saúde da família e professora de Medicina na UFFS.
  • Saulo Rodrigo Bastos Valesco: professor da rede municipal de ensino de Caxias do Sul.

Identificamos um problema latente: a desilusão dos docentes com a profissão. Após listarmos os principais motivos para essa situação, buscamos especialistas para debater a temática, com o objetivo de compartilhar informação e conhecimento a respeito do assunto.

Nossos palestrantes abordarão temas que representam os principais desafios da docência hoje: baixos salários devido ao não pagamento do percentual do piso nacional do magistério, que acaba representando um ataque ao Plano de Carreira do Magistério; os inúmeros tipos de assédio que os professores sofrem em seus locais de trabalho; níveis preocupantes de adoecimento da categoria; e por fim, os desafios de ser professor(a) nessa realidade.

Necessitamos que aqueles que podem alterar essa realidade estejam dispostos a escutar e agir, para que possamos não apenas promover a entrada de novas(os) professoras(es) em nossa rede, mas garantir que permaneçam nela!

O Congresso dos Professores é uma oportunidade de aprofundamento de questões que afetam a maioria dos professores e professoras da rede municipal de Passo Fundo. Além disso, busca viabilizar alternativas de luta no enfrentamento dos problemas levantados.

PRÉ-CONGRESSO

O Sucateamento do plano de carreira, não pagamento do piso salarial e sobrecarga de trabalho: essa é a realidade dos docentes que atuam no município de Passo Fundo atualmente. Em função do baixo retorno financeiro, em muitos casos, professores(as) precisam de uma segunda renda para poder complementar seu salário, ou até mesmo, retornar às salas de aula depois de aposentados.

Dessa forma, como atividade do nosso Pré-congresso de Professores Municipais, ocorreu a atividade do Pré-Congresso de 2025, no dia 15 de julho de 2025, com a temática: “Ippasso: previdência social em números”. A atividade abordou os Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) do magistério, incluindo seus déficits, expectativas futuras e legislações que os impactam, assim como tratou das regras e emendas referentes à aposentadoria e das expectativas X realidade que fazem parte da docência.

O evento contou com a participação de Sérgio Werlang, auditor fiscal da Receita Federal do Brasil desde 1995, e da professora Ieda de Menezes, docente aposentada de Filosofia e Ensino Religioso que irá contribuiu com suas experiências e relato pessoal.

Bom Congresso a todas e todos!

Fotos: Andressa Wentz

Edição: A. R.

“São os erros que nos fazem crescer” – Edgar Morin

Repercutimos, nesta matéria, importante entrevista que Edgar Morin concedeu à Revista Prosa Verso e Arte. A entrevista foi publicada em 02/01/2023 e merece ser lida e apreciada por todos aqueles e aquelas que debatem os desafios da educação contemporânea.

“Um grande mestre no campo da educação, Morin defende o aprendizado a partir do erro e o estudo do conhecimento já no ensino fundamental. “A autoridade dos professores está em crise porque a escola não tem conseguido se adaptar à nova autonomia dos jovens”. 

O filósofo francês Edgar Morin fala sobre um dos temas que o tornou uma influência mundial, a educação. Doutor honoris causa em 17 universidades, Morin não acredita na educação que vem de cima, a lápis vermelho e castigo. Ele é a favor de um diálogo contínuo na magnífica aventura do conhecimento.

Há alguns anos Morin se questiona sobre as novas fronteiras da pedagogia, e no manifesto Ensinando a viver, ele imagina uma revolução educacional do século XXI, uma “metamorfose”, diz ele, que pode reconstruir as bases do ensino, em sintonia com a nossa civilização, cada vez mais interligadas e multidisciplinares. “É errado privilegiar uma cultura científica, tecnocrática, sacrificando uma cultura humanista”, explica o intelectual francês.

Confira a entrevista a seguir:

O que significa ensinar a viver?

Edgar Morin: Aprender não significa apenas saber gramática, matemática, um pouco de geografia e história. As escolas devem cuidar de nossa dupla aspiração: realizar-nos como indivíduos, em nossas atitudes, habilidades e construir vínculos dentro de uma comunidade. Os professores devem, antes de tudo, estar conscientes de que as crianças devem ser acompanhadas nesta dupla aspiração.

Você se propõe a introduzir o estudo do conhecimento, a epistemologia, já no ensino fundamental. Por quê?

Edgar Morin: O estudo do conhecimento deveria ser a primeira coisa a ser ensinada. Em particular, para devolver espaço e dignidade ao erro. Se olharmos para o século XX, vemos apenas uma sequência de erros: as pessoas eram comunistas, fascistas, acreditavam em revoluções ou falência de ideologias. Muitas descobertas também foram feitas por erros. O conhecimento não é um caminho linear, mas cheio de armadilhas, dúvidas, correções.

O erro deve ser aceito e não punido?

Edgar Morin: “Todo erro deve ser analisado, entendido: é uma oportunidade extraordinária de progredir. A escola ensina muitas certezas, mas ninguém explica às crianças que a vida é feita sobretudo de incertezas: saúde, economia, guerras. Já no ensino fundamental as crianças devem ser educadas para a incerteza, que faz parte da existência, e devem ser capazes de reconhecer erros e ilusões. A melhor forma de fazer isso é ter uma abordagem multidisciplinar do conhecimento.”

É o “pensamento complexo” que você definiu anos atrás?

Edgar Morin: A separação das disciplinas hoje não faz mais sentido. É todo o sistema educacional contemporâneo, fundado na disjunção entre ciência e cultura humanística, que deve ser revolucionado. Infelizmente, a maior resistência a essa abordagem vem dos professores. Eles não têm mais o prestígio de outrora, foram desafiados pelas famílias e, por isso, refugiam-se na defesa da soberania dos seus súditos. É um pecado.

Você fala de uma “regeneração de Eros” na escola. O que Eros tem a ver com isso?

Edgar Morin: O Eros, no sentido do desejo, está presente no amor pelo conhecimento que os professores tinham quando escolheram a sua profissão e que hoje devem reencontrar. Nas crianças e nos jovens, Eros está presente naquela curiosidade maravilhosa por todas as coisas, infelizmente muitas vezes frustrada por um ensino que divide a realidade em pedaços separados, com o qual até a literatura se torna enfadonha na era semiótica.

Você é contra as notas, os boletins?

Edgar Morin: Os julgamentos dos professores são mais importantes do que as notas. Talvez as notas possam ser mantidas em algumas disciplinas de ciências, mas nas humanidades não.

Como usar a Internet e as novas tecnologias na escola do século XXI?

Edgar Morin: O professor não deve mais distribuir conhecimentos prioritariamente aos alunos, mas sim corrigir, comentar, se tornar uma espécie de maestro, em diálogo contínuo. Ele também deve estimular o espírito crítico.
A internet oferece informação gratuita, mas também circula fake news e teorias malucas. Estamos perante o problema permanente do conhecimento humano: distinguir entre o verdadeiro e o falso. A única forma de lutar contra a propagação da falsidade é buscar múltiplas fontes de informação. A pluralidade permite a procura da verdade”.

FONTE: www.revistaprosaversoearte.com/sao-os-erros-que-nos-fazem-crescer-edgar-morin?

Edição: A. R.

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