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Quer apostar?

No bar, você compra a bebida. No templo, exigem sua entrega total. No banco, a esperança vira dívida. Cassinos têm regras. Já a indústria da fé e do crédito? Só têm a regra de que quem lucra sempre são eles, e quem paga sempre é você.

As bets e os cassinos exploram a sorte. As igrejas caça-níqueis exploram a fé. Mas ambos recorrem ao mesmo expediente: exibem os testemunhos de uns poucos que “ganharam na vida”, seja com um prêmio milionário, seja com um suposto milagre após a “oferta sacrificial” para convencer a multidão a arriscar o pouco que tem.

Agora, os arautos da moral e dos bons costumes se levantam contra o jogo, enquanto fazem fortuna no cassino da fé. Talvez o que realmente lhes importa é eliminar a concorrência.

Dizem defender a família, mas aplaudem líderes que vendem milagres em suaves parcelas, exigindo sacrifícios financeiros que sangram os fiéis. Querem posar de guardiões dos bons costumes, mas são apenas arquitetos de um espetáculo sujo: a miséria de uns, o lucro de outros, todos blindados pelo poder que finge indignação.

Enquanto isso, o povo paga a conta nos bancos que cobram juros impagáveis. A mesma lógica do vício que eles tanto condenam. O sistema inteiro opera no mesmo ritmo: transformar a esperança de quem sofre em cifras para quem manda. No altar, exigem doações que empobrecem a alma e esvaziam o bolso. Na agência, vendem crédito que devora cada respiro de quem já não tem mais nada.

Querem moral? Que olhem para o verdadeiro cassino:

– Os políticos que usam a fé como palanque.

– Os pregadores que exigem sacrifícios em nome de promessas vazias.

– Os bancos que cobram por cada dia de atraso como se fosse pecado.

No bar, você compra a bebida. No templo, exigem sua entrega total. No banco, a esperança vira dívida. Cassinos têm regras. Já a indústria da fé e do crédito? Só têm a regra de que quem lucra sempre são eles, e quem paga sempre é você.

Hipócritas? Não. São mestres de um teatro em que a fé vira mercadoria, e o desespero, espetáculo de luxo. A indignação popular não passa de mais uma jogada nesse tabuleiro que nunca para, onde o único milagre é o saldo que enche a conta dos donos do jogo.

Autor: Hermes C. Fernandes. Também escreveu e publicou no site “Quem paga o preço quando a religião vira arma de campanha?”: www.neipies.com/quem-paga-o-preco-quando-a-religiao-vira-arma-de-campanha/ Conheça também alguns de seus livros: https://www.amazon.com.br/stores/author/B0DGBC3YKT

Edição: A. R.

Professores: heróis na propaganda política, mas vilões no orçamento público

O sofrimento profissional vivenciado pelos docentes decorre, em grande medida, de um contexto histórico de desvalorização e de hostilidade dirigida à profissão.

Este meu texto resulta de reflexões obtidas a partir dos palestrantes do X Congresso dos Professores Municipais, promovido pelo CMP sindicato: “Precarização da Profissão Docente: e agora?”

Leia mais: www.neipies.com/x-congresso-dos-professores-municipais-precarizacao-da-profissao-docente-e-agora/

A educação é frequentemente apresentada como elemento central nas campanhas políticas de candidatos aos poderes Legislativo e Executivo, independentemente de filiação partidária. No entanto, uma vez conquistado o poder, esse mesmo setor passa a ser alvo de discursos depreciativos e políticas de desvalorização, revelando uma contradição entre a retórica eleitoral e a prática governamental. Assim, a educação, exaltada como símbolo de progresso durante a propaganda política, transforma-se em vilã quando submetida à lógica de restrição orçamentária e à negligência das prioridades públicas.

A partir do exposto, ser professor em tempos de ódio generalizado significa enfrentar um processo de desvalorização simbólica e material, no qual a categoria é frequentemente difamada como responsável por supostos desequilíbrios orçamentários e acusada de manter privilégios.

Nesse contexto, a docência é reduzida a uma condição de vulnerabilidade extrema, como se os profissionais fossem meramente peças descartáveis em uma engrenagem social excludente. Tal estigmatização projeta sobre o corpo docente uma espécie de inquisição contemporânea, marcada pelo julgamento coletivo e pela responsabilização indevida dos professores pelos problemas estruturais da sociedade. Em suma, somos carne humana próximos a uma máquina de moer carne.

Ser professor em tempos de ódio é resistir a esta linha de fogo a que estamos expostos, pois a todo momento somos jogados na fogueira da inquisição por uma política de precarização humana. Não obstante, somos inquiridos por pais e alunos todo o dia. Sendo que o professor enfrentando toda a banalização da educação resiste, enfrentando a falácia da doutrinação, da negação à ciência. Ser professor é trabalhar com o campo técnico, ético e científico.

Diante desse cenário de intensificação de conflitos, observa-se o desgaste crescente dos profissionais da educação, que, ano após ano, enfrentam situações de desrespeito e agressões, configurando uma espécie de “inquisição profissional”. Importa ressaltar que tais ataques não ocorrem de forma aleatória.

Quando gestores públicos atribuem a responsabilidade pelo desequilíbrio orçamentário aos professores, acabam por transferir à sociedade a percepção negativa sobre os servidores públicos, em especial sobre o magistério. Essa retórica contribui para a amplificação da pressão psicológica que recai sobre os docentes, a qual se intensifica a cada prática pedagógica, justificando, em parte, as recorrentes notícias de episódios em que professores atingem o limite de sua resistência emocional.

O sofrimento profissional vivenciado pelos docentes decorre, em grande medida, de um contexto histórico de desvalorização e de hostilidade dirigida à profissão.

Atualmente, observa-se um cenário de desamparo no qual muitos responsáveis deixam de assumir seu papel educativo, ao mesmo tempo em que resistem à imposição de limites por parte da escola. Essa postura favorece a formação de crianças que, muitas vezes, chegam ao ambiente escolar com expectativas de centralidade e permissividade, em desacordo com as regras de convivência coletiva.

No espaço escolar, entretanto, o professor enfrenta múltiplas exigências, como o cumprimento de índices de desempenho, a promoção da aprendizagem e a produção de registros administrativos, tarefas que demandam organização rigorosa do tempo e do trabalho. A educação, por sua natureza, requer disciplina e corresponsabilidade; contudo, tal pressuposto entra em conflito com práticas familiares que, em determinados casos, reforçam comportamentos de excesso de liberdade e ausência de limites, criando verdadeiros “reizinhos mandões”.

No Brasil, a violência escolar mais do que triplicou nos últimos dez anos, fenômeno que pode ser associado, em parte, ao crescimento do discurso de ódio direcionado aos professores. Esse processo é perceptível em diferentes espaços públicos, como nas sessões da Câmara de Vereadores de Passo Fundo, onde frequentemente se observam manifestações de desrespeito e ofensas aos educadores, retratados como responsáveis pelos desequilíbrios nas contas públicas. Em determinado episódio, por exemplo, o próprio chefe do Executivo municipal afirmou ser inviável valorizar os profissionais da educação, argumentando que o déficit orçamentário estaria relacionado à ampliação dos direitos conquistados no plano de carreira do magistério.

Educar é um ato de coragem, é resistir ao ódio, é continuar lutando. Pois sabemos que seremos, nas próximas campanhas eleitorais, heróis e vilões logo em seguida.

Registros do X Congresso dos Professores Municipais de Passo Fundo.

Fotos: Andressa Wentz

Autor: Laércio Fernandes dos Santos. Também escreveu e publicou no site “Servidor público não pode ser um paradoxo”: www.neipies.com/servidor-publico-nao-pode-ser-um-paradoxo/

Edição: A. R.

A importância das religiosidades indígenas nas aulas de Ensino Religioso

Incluir as tradições religiosas indígenas no currículo escolar é um passo importante para promover uma educação mais inclusiva e representativa. Essa medida não apenas enriquece o aprendizado dos estudantes, como também valoriza e preserva o patrimônio cultural dos povos indígenas.

O componente curricular Ensino Religioso é extremamente importante na formação cidadã dos alunos das escolas públicas e privadas do Brasil. As aulas, sendo ministradas na perspectiva da Ciências da Religião, podem ajudar o alunado a compreensão do respeito as mais variadas expressões de religião ou religiosidade no contexto da democracia brasileira. A base antropológica que a Ciências da Religião possui ajuda na construção de uma proposta pedagógica com o intuito da reflexão que a nossa sociedade é marcada por diferenças culturais, religiosas e socais.

No contexto Amazônico as questões indígenas são importantes para a compreensão da organização sociopolítico. No tocante a sua expressão cultural e religiosa temos influencia direta das suas ritualísticas, crenças, saberes   e costumes. Importante que o aluno que estude ensino religiosa conheça tal realidade.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é um marco significativo na gestão pedagógica do Brasil, resultante de políticas públicas direcionadas à área educacional. Seu principal objetivo é orientar estados e municípios na elaboração de seus currículos para a educação básica, afim de garantir uma formação integral e equitativa para todos os estudantes do país.

A BNCC estabelece diretrizes claras e específicas sobre o que deve ser ensinado em cada etapa da educação básica, desde a educação infantil até o ensino médio. Ao definir competências e habilidades essenciais, a BNCC busca promover uma educação de qualidade que prepare os alunos para os desafios do século XXI, como o desenvolvimento de competências socioemocionais, do pensamento crítico e da capacidade de resolução de problemas.

Ao analisar a BNCC, especialmente no componente curricular da disciplina de Ensino Religioso, percebe-se uma lacuna significativa: o silenciamento das tradições religiosas indígenas. Esse apagamento é preocupante, pois ignora a rica diversidade cultural e espiritual desses povos, que são parte integrante da história e da identidade brasileira.

O estudo e a compreensão desse fenômeno são tarefas relevantes e essenciais. Ao investigar as razões e consequências desse silenciamento, é possível aprofundar o conhecimento sobre as tradições indígenas, tanto no contexto educacional quanto em suas práticas cotidianas. Os ritos e rituais dessas comunidades são expressões fundamentais da materialidade da vida dos sujeitos que as compõem, refletindo suas crenças, valores e modos de vida.

Saberes indígenas na escola: Entrevista. Assista aqui: https://youtu.be/AU87h4Cjt-A?t=287

Vale destacar que o advento da Lei nº 11.645/2008, representa um marco importante na educação brasileira, ao estabelecer a obrigatoriedade do ensino da história e da cultura dos povos indígenas nas instituições de Ensino Fundamental e Médio. Este dispositivo legal visa garantir que os estudantes tenham acesso a um conhecimento mais amplo e inclusivo sobre a diversidade cultural do Brasil. No entanto, é necessário questionar se, nos espaços de ensino brasileiros, as religiosidades indígenas estão sendo efetivamente trabalhadas como conteúdos nas aulas de Ensino Religioso.

A criação de mecanismos e instrumentos legais, como a Lei nº 11.645/2008, é um passo fundamental para assegurar uma educação intercultural. No entanto, a implementação prática dessas diretrizes enfrenta desafios significativos. É crucial que os educadores estejam preparados e capacitados para abordar essas temáticas de maneira adequada e respeitosa, valorizando as tradições e crenças dos povos indígenas.

A preocupação com a abordagem das religiosidades indígenas nas salas de aula é compartilhada tanto por atores educacionais quanto pelo meio acadêmico. A inclusão dessas temáticas no currículo escolar não apenas enriquece o aprendizado dos estudantes, mas também contribui para a construção de uma sociedade mais justa e plural.

É necessário promover um ambiente educacional que reconheça e celebre a diversidade cultural, garantindo que todos os estudantes tenham acesso a uma educação de qualidade.

Neste sentido, é essencial que haja um esforço contínuo para capacitar os professores, adaptar os materiais didáticos e criar políticas educacionais que promovam a inclusão das religiosidades indígenas no ensino. Somente assim será possível cumprir os objetivos da Lei nº 11.645/2008 e assegurar que a educação intercultural se torne uma realidade nas escolas brasileiras.

Assim, incluir as tradições religiosas indígenas no currículo escolar é um passo importante para promover uma educação mais inclusiva e representativa. Essa medida não apenas enriquece o aprendizado dos estudantes, como também valoriza e preserva o patrimônio cultural dos povos indígenas. Além disso, essa inclusão pode contribuir para a construção de uma sociedade mais justa e respeitosa, que reconhece e celebra a diversidade.

Portanto, é crucial que educadores, gestores e formuladores de políticas públicas trabalhem conjuntamente para preencher essa lacuna. A formação continuada dos professores e a adaptação dos materiais didáticos e a criação de um ambiente escolar que valorize a diversidade são medidas fundamentais para alcançar esse objetivo. Dessa forma, será possível garantir que as tradições religiosas indígenas sejam devidamente reconhecidas e respeitadas no contexto educacional brasileiro.

Leia aqui sobre a Cultura da etnia indígena Guarani: www.neipies.com/dialogo-entre-dois-mundos-cosmovisao-indigena-guarani/

Autores:

Daniel Ribeiro Ferreira Junior. Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Educação na Amazônia (EDUCANORTE); Mestre em História (PPGH-UNIFAP); Especialista em Ensino Religioso (FATECH-AP); Professor de Ensino Religioso na rede municipal de Ensino de Ferreira Gomes e na rede estadual de ensino do Amapá.

Marcos Vinícius de Freitas Reis. Pós-Doutor em Estudos de Fronteira pela Universidade Federal do Amapá (UNIFAP); Pós-Doutor em Ciências da Religião pela Universidade do Estado do Pará (UEPA); Doutor em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar); Docente do Curso de Mestrado Acadêmico em História Social (UNIFAP); Docente do Mestrado Profissional em História da Universidade do Estado do Maranhão (UEMA); Docente do Programa de Pós-Graduação em Educação na Amazônia (EDUCANORTE); Coordenador da Especialização em Ciências da Religião (UNIFAP) e líder do Centro de Estudos de Religião, Religiosidades e Politicas Públicas (CEPRES). 

Autor da Coluna: Marcos Vinícius de Freitas Reis. Também escreveu e publicou no site “Símbolos religiosos, laicidade e intolerância religiosa no Brasil”:

www.neipies.com/simbolos-religiosos-laicidade-e-intolerancia-religiosa-no-brasil/

Edição: A. R.

Há um fantasma dentro de nós?

É muito triste quando na doença de Alzheimer morrem os neurônios responsáveis pela existência do EU INTERIOR, SELF, ALMA. A pessoa não se percebe mais. Segue vivendo como um passarinho citado aqui como exemplo desse fenômeno.

O self (Eu interior) é um dos componentes da função mental consciência, que é a capacidade de reconhecer o cenário que está a nossa volta e também que estamos dentro desse cenário, conforme expliquei na crônica de quinta passada.

Uma criança de dois anos não se reconhece no espelho porque os neurônios responsáveis pela percepção de nós por nós mesmos, do EU, ainda não estão ativos.

O cérebro, assim como ossos, músculos, vai amadurecendo aos poucos.

Lembro-me da vez em que um menino dessa idade veio até mim e à sua mãe dizendo: “Tem um nenê ali”. Ele fora a uma sala em que havia uma parede de espelho. Vira ele mesmo no espelho. Mas ainda não se reconhecia. Era como um passarinho que fica bicando no espelhinho de um automóvel. Como um passarinho, percebia o cenário a sua volta, mas não se percebia no cenário.

O menino vai perceber, já o passarinho passará toda sua existência sem perceber a si mesmo. Mesmo assim, conseguirá sobreviver, buscar alimentos, reproduzir-se… Existe, mas não sabe que existe. Não “sabe” que têm uma vida. E que essa vida é finita.

O self (Eu interior) e sua percepção foi uma aquisição evolutiva.

O chimpanzé tem uma certa noção de Eu interior: alguns se reconhecem no espelho.

É muito triste quando na doença de Alzheimer morrem os neurônios responsáveis pela existência do EU INTERIOR, SELF, ALMA. A pessoa não se percebe mais. Segue vivendo como um passarinho citado aqui como exemplo desse fenômeno.

Nosso SELF/ALMA seria apenas alguns neurônios do nosso cérebro que podem ficar inativos ou morrer?

Foi Gilbert Ryle, ao publicar no ano de 1949, em Londres, o livro The concept of mind, que usou pela primeira vez a expressão “fantasma”. Questionou: “Nossa alma são alguns de nossos neurônios ou é um fantasma que se instala e toma conta do nosso organismo”? Ironia que usou em seu debate com aqueles que entendiam que, em determinado momento da vida intrauterina, uma alma penetrava no feto.

Ryle gostava de discussão. Não é o meu caso. Apenas tento simplificar e assim facilitar a compreensão de ideias. Sem julgá-las.

Autor: Jorge Alberto Salton. Também escreveu e publicou no site “Nossas ilusões, como pesam nossas ilusões”: www.neipies.com/nossas-ilusoes-como-pesam-nossas-ilusoes/

Edição: A. R.

O dia que Laurindo errou o mate

É exatamente na diferença de altitude entre os dois locais que reside o mistério não decifrado por Laurindo. Ou melhor, na relação entre a altitude e a pressão atmosférica e dessa última com o ponto de ebulição da água (temperatura que a água ferve). Conheça esta bela história!

Laurindo Flores, nos seus quase 70 janeiros, é um daqueles gaúchos cuja estampa, realçada pela melena de gavião mouro e pela pele curtida de sol e minuanos, não deixa qualquer dúvida quanto ao domínio das lides campeiras. Filho de peão de estância seguiria o destino do pai.

Desde piazito, vivendo em galpões, sabia preparar um mate como poucos. Conhecia o ponto certo da água pelo chiado da cambona. Nunca em sua vida, fazendo isso diariamente, errara no preparo do chimarrão. Mate frio, mate quente demais, mate entupido e tantos outros erros de principiantes eram palavras que não faziam parte do seu vocabulário. Opa! Nunca, não! Houve uma vez.

Tal e qual tudo na vida, sempre há uma primeira vez. Embora constrangido, Laurindo lembra perfeitamente da ocasião em que, acompanhando o patrão, foi buscar um lote de terneiros lá para as bandas de São José dos Ausentes. Chegaram já noite alta e recostaram os pelegos no galpão.

Antes do cantar do galo, Laurindo se levantou. Na fria madrugada da serra, tratou logo de fazer um bom fogo de chão. Abriu a caixa de mantimentos, pegou uma paleta de ovelha aberta no capricho e enfiou no espeto de laranjeira-do-mato. E, enquanto tirava baforadas de um crioulo enrolado sem nenhuma pressa, começou o ritual do chimarrão. Ajeitou a erva na cuia com todo o cuidado, deixando um topete de fazer inveja a mate de barão. Colocou água na velha cambona preta de estimação, impregnada de picumã, e pôs no fogo. Mais algumas pitadas no palheiro e ouviu o familiar chiado da cambona que indicava a temperatura certa da água. Encheu a cuia e ao sorver o primeiro gole exclamou: “cosa de loco, tchê! O mate está frio”. O velho Laurindo, pela primeira vez na vida, tinha se enganado com a temperatura da água do chimarrão.

Esta história é fictícia, evidentemente. Não convence ninguém. O estilo também não é dos melhores, eu sei. Misturei todo o vocabulário gauchesco que conhecia nos dois parágrafos anteriores e deu no que deu. No entanto, apesar dos pesares, o fato é muito real e pode acontecer com qualquer um não iniciado em física da atmosfera.

Vejamos.

Laurindo vivia em uma fazenda em Osório, cujos campos encontram-se praticamente ao nível do mar. E lá, por experiência, sabia que a temperatura certa da água era, nem mais nem menos, no primeiro chiado da cambona, quando mal e mal começara a ferver. Por sua vez, São José dos Ausentes, nos Campos de Cima da Serra, está arriba dos mil metros de altitude. E é exatamente na diferença de altitude entre os dois locais que reside o mistério não decifrado por Laurindo. Ou melhor, na relação entre a altitude e a pressão atmosférica e dessa última com o ponto de ebulição da água (temperatura que a água ferve).

Para entender o que se passou com Laurindo é necessário examinar a relação existente entre pressão de vapor e ebulição (fervura) da água. Assim que a água ferve, “bolhas” de vapor d’água se elevam para a superfície do líquido e escapam para o ar. No entanto, para que isso ocorra, a pressão de saturação de vapor d’água exercida pelas “bolhas” deve ser igual à pressão exercida pela atmosfera sobre a superfície da água. Caso contrário as “bolhas” entrariam em colapso. Desta forma, ebulição (fervura) ocorre quando a pressão de vapor das “bolhas” que escapam é, no mínimo, equivalente à pressão atmosférica total.

Também é importante destacar que a pressão de saturação do vapor d’água é diretamente proporcional à temperatura do líquido. Ou seja, quanto maior a temperatura da água maior será a pressão de vapor. Pelo exposto, fica evidente que qualquer mudança na pressão atmosférica implicará em mudança na temperatura em que a água entra em ebulição (ferve), pois também muda a pressão de saturação de vapor d’água. Um aumento na pressão atmosférica eleva o ponto de ebulição da água. Por outro lado, redução na pressão atmosférica diminui essa temperatura. Eis a influência da altitude na pressão atmosférica e dessa última na temperatura de fervura da água.

Aprende-se na escola primária, mas poucos se lembram disso, que a água pura ferve a uma temperatura de 100 graus Celsius; evidentemente ao nível do mar. Quanto mais alto o local em relação ao nível do mar, menor será a pressão atmosférica e consequentemente mais baixa a temperatura que a água ferverá. Também é fato conhecido que, uma vez entrando em ebulição, a temperatura da água permanece constante. Isso acontece porque a energia suprida é usada na mudança do estado físico da água (calor latente) e não para variar a temperatura (calor sensível). Levando isso em conta, seja consciente e não considere loucas aquelas mães que vivem aos berros, quando avistam uma chaleira fervendo sobre o fogão: “BAIXA O FOGO!”

Eis a razão porque o tempo de cozimento dos alimentos em cidades localizadas em grandes altitudes, tipo Cidade do México, Quito etc., é muito maior que em outras situadas próximas ao nível do mar. E não tem nada a ver com as habilidades culinárias de cada um. A explicação é simples: em locais altos a água ferve com uma temperatura mais baixa e uma vez fervendo essa temperatura não varia, logo os alimentos precisam de um maior tempo para atingir o mesmo ponto de cozimento.

Por tudo isso, índio velho, na sua próxima subida da serra, ao preparar um mate, fique atento. Seja usando uma cambona preta num fogo de chão ou um ebulidor elétrico (o popular rabo-quente) diretamente na garrafa térmica, espere algum tempo a mais, a partir do ponto que está acostumado. Caso contrário, vai acabar tomando chimarrão frio. E o que é pior: pode achar que está ficando maluco ou que aquele vinho da noite anterior, definitivamente, não lhe caiu bem.

P.S.: coluna originalmente publicada em 26 de maio de 1999.

Autor: Gilberto Cunha. Também escreveu e publicou no site “O cemitério das almas fracassadas”: www.neipies.com/o-cemiterio-das-almas-fracassadas/

Edição: A. R.

Histórias escritas com giz

Um elemento marcante na forma das crônicas e que vira conteúdo é o despojamento do autor diante do mundo que ele não conhece, da música que não sabe, fazendo troça de si mesmo, do mundo proletário dos alunos e seu mundo de classe média. Enfim, eis um autor que já nos deu livros marcantes e este é mais um.

Quis a coincidência que, no momento em que estou numa equipe finalizando o livro dos 80 anos do CPERS, Vitor Biasoli me brindasse com seu último trabalho “Histórias escritas com giz – memórias de um professor”.

Vitor Biasoli mostra sua maturidade na escrita mais uma vez. Acerta ao transformar suas “memórias de um professor” em 32 crônicas, o gênero adequado para resgates, memórias e reflexões.

O meio físico para a crônica tradicional não existe mais. Era essencialmente o jornal impresso – diário ou semanal. Atualmente, voltam elas em livros, pois suas edições podem ser em menor quantidade. É alvissareiro.

Estar em livros é imperioso, porque ficam. Não aprecio quem passa o tempo todo publicando textos em “facebook”, como se este fosse o tradicional jornal. Não é. Em geral, os textos são rasos. Falta-lhes profundidade.

Crônicas de resgates de memórias têm, por um lado, a tônica personalista; porém, na escrita de Vitor Biasoli cada ato seu é também uma reflexão sobre ensinar, sobre vida, os meios de vida de seus alunos e colegas, a sua mesmo, um bocado de boa filosofia.

Fiquei impactado com o “elemento desencadeador das lembranças” para sair o livro: a escravidão contemporânea na serra gaúcha, cujo tema tratei na época no livro: “Escravidão contemporânea – o caso da serra gaúcha”. O que também me levou a escrever uma continuidade com “Vidas Roubadas”. E Vítor nos traz relatos de muitas “vidas roubadas”.

Na primeira crônica – Homens de vida amarga – o autor se utiliza de texto do livro de Ferreira Gullar: “Dentro da noite veloz”. É uma pequena amostra da grandeza de um “professor-raiz”, aquele mestre que vai ao encontro do meio para chegar a uma finalidade positiva, o ensino. Ensino para jovens do fundamental e do médio, cujos alunos se perguntavam e até o professor também chega a se perguntar: “para que serve isso”?

Ao dar uma aula sobre o mundo arcaico, pré-capitalista, o contato com a vida dos alunos mostra ao autor/professor a permanência daquele nas relações de trabalho na atualidade, as quais beiram à escravidão. Estão junto ao professor, na escola, com os alunos e suas famílias.

Os relatos de Vitor Biasoli sobre as tantas greves pelas quais passou no magistério estadual são um roteiro da luta pela dignidade, pelo ensino, pela vida, pois ele mesmo relata como atrasou o aluguel, a mudança de casa; portanto, de “classe”, ganhando menos que o pai de aluno que era trabalhador fabril. E nestas crônicas nada há de panfletário, seguindo uma linha tênue entre o drama vivido e o humor para sobreviver.

A crônica que relata o caso “sem dinheiro para um cafezinho” deveria fazer as autoridades corar.

Aos militantes sindicais estes relatos são educativos como são elucidativas suas reflexões à adesão primaveril a Althusser na faculdade à leitura reflexiva sobre Paulo Freire. Creio que os freirianos vão gostar para lá da conta.

Em cada crônica há novos temas, todos vivenciados, como o clube que não pode mais frequentar, pelas altas anuidades, um “clube burguês”; o caso das drogas; da AIDS; da família; dos filhos; das longas jornadas dentro de um ônibus de Porto Alegre até Alvorada, Canoas, Zona Norte.

Um elemento marcante na forma das crônicas e que vira conteúdo é o despojamento do autor diante do mundo que ele não conhece, da música que não sabe, fazendo troça de si mesmo, do mundo proletário dos alunos e seu mundo de classe média. Enfim, eis um autor que já nos deu livros marcantes e este é mais um.

A edição é da Memorabilia de Santa Maria, num jogo de preto, denotação do “quadro negro” da escola, a escrita de giz, em páginas pretas com giz branco. Perfeito!

Foto do autor Vitor Biasoli

Autor: Adeli Sell é professor, escritor e bacharel em Direito. Também escreveu e publicou no site “Cultura no Rio Grande do Sul: www.neipies.com/cultura-no-rio-grande-do-sul/

Edição: A. R.

1ª Carta – A Dor e a Esperança em Sala de Aula: Vozes de Uma Professora da Rede Municipal de Passo Fundo

Repercutimos interessante reflexão de professora da rede municipal de Passo Fundo, RS. Dentre as ricas reflexões, destacamos que “quando os professores não têm condições mínimas de trabalho, quando suas experiências são desconsideradas, é a própria base do ato educativo que é corroída. Boa leitura!

No cotidiano da rede municipal, percebo o cansaço que atravessa os gestos e a voz dos colegas. Já não são apenas os corpos que acusam a sobrecarga é a mente que adoece. A desvalorização se materializa em salários defasados, infraestrutura negligenciada e na ausência de políticas públicas que promovam, de fato, nossa dignidade. Como nos lembra Paulo Freire, a escola pública não é neutra, mas um espaço de disputa política, onde ideologias, saberes e interesses sociais se confrontam. Nesse contexto, a prática docente é constantemente atravessada por estruturas burocráticas, exigências desumanas, interesses econômicos e a falta de reconhecimento social.

A dor que se instala nas escolas é mais do que individual ela expressa uma realidade coletiva, marcada por um sistema que insiste em tratar o ensino como mera execução técnica, desconectado da vida, da escuta e do cuidado. No entanto, ensinar exige mais do que conteúdo: exige vínculo humano, exige afetividade. Freire compreende a afetividade como parte inseparável do ato educativo, pois ensinar é também amar, respeitar, escutar, criar presença e construir vínculos reais com os sujeitos da aprendizagem. Quando as relações dentro da escola são esvaziadas de afeto, a esperança e a criação se tornam mais difíceis. Essa realidade exige atenção urgente.

Em Pedagogia da Autonomia, Freire afirma que: “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção.”

Mas como criar essas possibilidades quando a rede municipal nos sobrecarrega com tarefas excessivas, ausência de suporte e esvaziamento emocional? Como dialogar, formar e transformar se estamos adoecidos?

A falta de reconhecimento e o distanciamento da sociedade agravam ainda mais esse cenário. Frequentemente, somos tratadas como simples executoras de tarefas, e não como profissionais que formam consciências críticas, que constroem cidadania e que atuam sobre a realidade. Essa própria noção de realidade como experiência vivida, sensorial e histórica é central na pedagogia freiriana. Ao contrário da educação bancária, que ignora o mundo concreto dos educandos e educadores, Freire propõe uma educação que parta da realidade cotidiana como ponto de partida para a reflexão crítica. A prática pedagógica precisa partir do mundo vivido para ter sentido. Quando os professores não têm condições mínimas de trabalho, quando suas experiências são desconsideradas, é a própria base do ato educativo que é corroída.

Freire também nos alerta que: “A educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem. Não pode temer o debate. A análise da realidade. Não pode fugir à discussão criadora, sob pena de ser uma farsa.” Mas como exercer essa coragem em um ambiente onde o debate é silenciado? Quando defender a escola pública vira motivo de censura? Quando reivindicar condições de trabalho é visto como afronta?

Amamos o que fazemos, mas o amor, por si só, não paga as contas, não afasta o adoecimento, nem assegura condições para seguir lutando. O reconhecimento da dor é, portanto, um primeiro passo para transformá-la. Pesquisas sobre saúde pública e educação popular mostram que o adoecimento docente é reflexo de estruturas sociais excludentes. A escola, que deveria ser lugar de formação, cultura e acolhimento, tornou-se muitas vezes o local onde se acumulam e explodem tensões políticas, econômicas e emocionais.

Ao afirmar que: “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo; os homens educam-se entre si, mediatizados pelo mundo”, Freire nos lembra que a educação é um processo coletivo e relacional. No entanto, sem apoio, sem políticas de valorização e com a intensificação das cobranças, os professores seguem isolados, desamparados, tentando sustentar sozinhos uma estrutura que deveria ser responsabilidade de toda a sociedade.

É por isso que a escola também precisa ser lugar de construção de consciência crítica ou, como diria Freire, de conscientização. Esse processo vai além de conhecer conteúdos: é desenvolver a capacidade de interpretar e agir sobre a realidade, compreendendo que ela não é estática, mas construída socialmente, e por isso pode (e deve) ser transformada.

A educação não pode ser um ato de repetição. Precisa ser um movimento de leitura do mundo, de denúncia das injustiças e de anúncio de possibilidades. Dentro desse movimento, é essencial compreender nossa historicidade: somos condicionados pela realidade, mas não determinados por ela. Podemos agir sobre o que nos cerca.

A escola precisa possibilitar aos sujeitos estudantes e professores essa percepção de que a história não é destino, mas construção. O presente que nos oprime não precisa ser o mesmo futuro que construiremos. Diante disso, é urgente afirmar: é essencial formular políticas públicas que considerem o docente como sujeito de saúde, dignidade e valorização. A sociedade precisa resgatar o entendimento de que investir na escola pública é investir no futuro coletivo. Precisamos de condições para exercer o magistério com alegria, criatividade e compromisso.

Por fim, mantenho a fé no poder transformador da escola, como Freire defende em Pedagogia da Esperança. Mas é uma esperança que caminha junto com a luta, com a denúncia e com a ação. Somente com políticas públicas justas, com escuta real da categoria e com valorização concreta, poderemos transformar a dor em potência, e a sala de aula, em território de criação, liberdade e cuidado. Apesar dos desafios, seguimos acreditando na educação como prática da liberdade.

Como nos ensina Freire, “A educação é um ato político e não pode ser neutra.” Educar é resistir, é sonhar, é reconstruir a realidade com afeto, consciência e coragem juntos.

Autora: Mestranda Juliana Alves Gomes, Instituto Federal Sul-Riograndense.

A macaca Belinha e o Lobo mau

A Literatura infanto-juvenil deve estar a serviço da psicopedagogia, apresentando o lado maravilhoso, belo, fantástico, estético e ético em tudo que ofereça para estimular o desabrochar das boas tendências inerentes à inteligência da criança e do adolescente.

Na floresta encantada, no recanto dos Bem-te-vis, morava a Macaca Belinha. Sua casa, muito bonitinha, era em cima de uma enorme árvore. Para chegar até sua morada, utilizava-se de uma escadinha de cordas, que era recolhida à noite, por segurança.

Ela era muito querida por todos os bichinhos que moravam na floresta pois trabalhava como enfermeira tratando da saúde de todos. Possuía dois cachorrinhos, Lulu e Tob-Tob, que a ajudavam muito. Na frente da árvore onde vivia, ficava o Centro de Saúde onde eram tratados os bichinhos doentes que eram encaminhados pela Dra. Coruja Orelhuda e pelo Dr. Tamanduá Bandeira. Belinha era assessorada por uma equipe de auxiliares, entre eles o Burrinho Juca, o Cachorro Peludo, a Avestruz Pernuda pois muitas vezes os doentes ficavam internados por vários dias.

Macaca Belinha preparava os remédios que eram necessários para os tratamentos dos enfermos: pomadas, xaropes, chás e tinturas. As abelhas lhes traziam mel e a cera da colmeia. Ela colhia as ervas medicinais como a melissa, a camomila, a losna, a macela, a arnica e várias outras plantinhas que haviam na região central da floresta que tinha lindo lago, onde os bichinhos tomavam água e se banhavam.

Todas as quartas-feiras, pela manhã, bem cedinho, quando o sol despontava, Belinha e seus dois cachorrinhos pegavam o ônibus-elefante e iam até a região do lago. Depois da colheita das ervas, todos se deliciavam nas águas do lago, junto com outros animaizinhos. Após o banho, comiam um delicioso lanche oferecido pelos amigos que moravam por perto. Antes do meio-dia, pegavam o ônibus-elefante para retornarem à casa.

Um dia chegou a notícia de que, bem longe dali, foi encontrado um lobo muito doente e abatido e que era desconhecido no local. Belinha pediu para seus dois ajudantes fortes que levassem uma maca para trazerem o lobo para atendimento, pois certamente estava precisando de ajuda. Sabem quem era ele? – O Lobo Mau!!!

Lobo Mau, depois de ter queimado o rabo na água fervente, ao entrar pela chaminé na casa do porquinho Cícero, fugiu para a floresta onde ficou escondido, muito envergonhado e arrependido por ter prejudicado os porquinhos Prático e Heitor, desmanchando suas casinhas e tentado, também, destruir a de Cícero. Não tinha mais coragem de permanecer onde morava e era conhecido por todos, retirando-se da região, doente e depressivo. Não teve coragem de pedir perdão aos Três Porquinhos porque tinha certeza de que eles não queriam vê-lo mais por perto. E agora, depois de ter corrido muito, estava esgotado, com seu rabo queimado doendo demais… Ele já não podia nem andar.

Sem forças para continuar sua fuga, aparecem-lhe Juca e Peludo para ajudá-lo. Foi colocado na maca e levado para o Centro de Saúde da floresta, onde foi examinado pela Dra. Coruja Orelhuda que orientou a enfermeira Belinha para o tratamento: primeiro um banho completo; depois um lanche nutritivo, a seguir, um curativo especial no rabo e beber uma tintura energética, três vezes ao dia, mais uma xícara de chá calmante, quatro vezes ao dia e descansar bastante e se alimentar bem.  Recomendou que fosse tratado muito carinho pois estava em sofrimento por alguma coisa, e que ficasse internado por uma semana.

Enquanto tratava o doente, Belinha conversava come ele, que chorava muito. Aos poucos, foi contando o que havia feito de mau e como estava arrependido e questionava o que seria dele longe de onde morava, sem casa e sem amigos. O que fazer?

Com o tratamento de uma semana, o Lobo Mau sentia-se melhor e fortalecido. Belinha e seus auxiliares ofereceram-lhe trabalho ali no Recanto dos Bem-te-vis. Poderia ser guarda-noturno, trabalhando à noite para proteger o local de bichos invasores e bagunceiros que rondavam a floresta. Teria um espaço para morar, bem simples, onde dormiria durante o dia. Ele, muito contente, aceitou a proposta, para a alegria de todos. Agradeceu muito pelo tratamento que teve e pela confiança que estavam dando a ele e, aos poucos, foi se adaptando à nova vida com muita força de vontade de se melhorar.

Lobo Mau pensava consigo mesmo que, no futuro, procuraria os Três Porquinhos para pedir perdão pelo mal causado a eles, lhes propondo ressarcir pelos prejuízos causados.

Com a esperança desse dia que viria, por certo e em breve, o Lobo, agora bom, trabalhava, se esforçando bastante…

CONSIDERAÇÕES DA AUTORA:

Por que transformar a figura do Lobo Mau em Lobo Bom?

Esta mudança pode ser proposta à mente infantil, não na fábula original, que não deve ser alterada pois educa as emoções básicas: o medo, a tristeza, o afeto, a raiva e a alegria, mas numa nova história na qual se verificam as consequências das ações dos personagens da fábula original.

A história, adequada à compreensão do ouvinte ou leitor, tem o poder de falar, em profundo silêncio, ao espírito infanto-juvenil, educando-o através dos fatos narrados.  À luz da Psicologia, os diversos estilos literários propõem, além de educar, revestir-se de   humor, otimismo e esperança como terapêutica de traumas, inibições, problemas emocionais, etc. Quanto mais elevação e pureza são propostas pelo texto de forma vigorosa e colorida, maior é o impacto no ouvinte ou leitor que o absorve como um alimento para a alma.

A Literatura infanto-juvenil deve estar a serviço da psicopedagogia, apresentando o lado maravilhoso, belo, fantástico, estético e ético em tudo que ofereça para estimular o desabrochar das boas tendências inerentes à inteligência da criança e do adolescente.

Atualmente predominam nos meios de comunicação textos de literatura que exploram argumentos deletérios para a alma, como sabotadores, criminosos, violência, decadência moral. Os responsáveis e educadores têm que questionar: Para que servem? Qual é o seu objetivo?

Os adultos responsáveis devem conscientizar-se de eles provocam na mente um prejuízo imenso, pois induzem à maldade, à violência, à degradação moral. Estimulam comportamentos instintivos e animalescos, promovendo a situação caótica em que a sociedade atualmente se encontra.

O bom texto infanto-juvenil deve ter finalidade educativa: promover o desabrochar das potencialidades divinas que estão em gérmen no âmago de cada um. Com suas lições edificantes e recreações sadias promove sonhos benéficos e desejos positivos no coração do ouvinte ou leitor.

Não podemos esquecer que Jesus, o Mestre por excelência, foi o grande contador e valorizador da história, pelo uso que dela fez. Descortinou para o mundo a mensagem do amor e da paz, alicerçada nas ilustrações adequadas ao entendimento e às experiências de vida daqueles que O seguiam e ouviam avidamente.

Autora: Gladis Pedersen –  Educadora. gladispedersen@gmail.com Também escreveu e publicou no site “A fábula O Lobo mau e os três porquinhos”: www.neipies.com/a-fabula-o-lobo-mau-e-os-tres-porquinhos/

Edição: A. R.

Os perigos das telas para nossas crianças

Os entusiasmados com es tecnologias reagem dizendo que as crianças e jovens leem no celular e no computador e, talvez, aí esteja o grande problema. É ilusório para Dermurget (2024) acreditar que “as crianças estão lendo nas telas” ou dizer que “as crianças nunca leram tanto”. Entretenimento com as telas, a maioria das vezes assistindo vídeos ou consumindo jogos eletrônicos e propagandas de produtos, não é o mesmo que ler bons livros “para desenvolver competências linguísticas complexas”.

O título deste escrito é retirado do livro A fábrica de cretinos digitais de Michel Desmurget (2023), considerado um dos mais prestigiados neurocientistas do mundo, doutor em Neurociências e diretor do INSERM (Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica da França). O livro tornou-se um best-seller e certamente uma leitura obrigatória para pais, professores, gestores e todos aqueles que estão comprometidos com a educação humanizadora e com a saúde psíquica dos seus filhos.

A tese geral apresentada por Desmurget (2023) é de que o uso excessivo de telas pelas crianças está causando efeitos preocupantes reais às suas capacidades cognitivas, emocionais, sociais e físicas.

Crianças expostas sem nenhum tipo de controle por parte dos pais ou responsáveis tendem a apresentar profundos distúrbios no seu desenvolvimento intelectual, perturbações emocionais em termos de auto controle, dificuldade de relacionamentos saudáveis com seus pares e até mesmo problemas físicos que vão da obesidade a deficiências de visão. Para o pesquisador francês, nesta geração expostas às telas, pela primeira vez na história, observa-se um declínio no QI (quociente de inteligência) de filhos em comparação aos pais.

Desmurget (2023) chama atenção ao fato de que o perigo das telas é tão eminente e preocupante que muitos profissionais de tecnologia, que trabalham com telas o tempo inteiro, são cautelosos e deliberadamente limitam o uso de telas para seus filhos, porque sabem do quanto seu uso excessivo pode ser altamente prejudicial.

As críticas de Desmurget (2023) ao uso das telas não são panfletárias ou ideologicamente influenciadas. São críticas baseadas em estudos e pesquisas cuidadosamente produzidas nas últimas duas décadas em diversas partes do mundo. As médias diárias do uso de diferentes faixas etárias, indicam o quanto estamos silenciosamente formatando uma geração de dependentes midiáticos: crianças de 2 a 8 anos passam em média mais de 3 horas/dia em telas; de 8 a 12 anos, sobre média para 5 horas/dia; adolescentes, quase 7 horas/dia. Importante constatar que são horas retiradas de outras atividades, como convivência social, atividade física, estudo, sono dentre outras.

Esse uso excessivo das telas produz um conjunto de impactos:  o desenvolvimento da linguagem, a capacidade de atenção, os exercícios de memória e a capacidade de concentração são alguns dos impactos cognitivos; depressão, agressividade e transtornos comportamentais são alguns dos impactos emocionais; distúrbios do sono, obesidade e problemas cardiovasculares são alguns dos impactos físicos; dificuldade de escuta, impaciência e dificuldade de trabalhar em grupo são alguns dos impactos sociais.

Talvez seja urgente e necessário, seguindo os alertas de Desmurget (2023), desconstruir certos mitos que foram sendo criados em torno das tecnologias. O primeiro deles e talvez o mais reverenciado diz respeito ao termo idealizado de “nativos digitais” referindo-se a ideia de que crianças nascidas imersas no digital já teriam uma adaptação cognitiva superior.

Para o neurocientista francês, não há evidência científica que sustente que nascer no ambiente digital confere vantagens cognitivas inerentes. Um segundo mito diz respeito a crença de que tecnologia sempre melhora educação ou aprendizado.

Para Desmurget, muitas políticas educativas, entusiasmadas com as novidades, apelam para as iniciativas tecnológicas, sem questionar ou calcular os custos altíssimos dos investimentos e sem apropriar-se de estudos que mostram outras formas aprimorar e melhorar a educação ou o aprendizado investindo em outros aspectos formativos dos professores e dos alunos.

Um aspecto problemático e altamente preocupante para o campo educacional formativo, diz respeito a diminuição da leitura das futuras gerações atestadas por diversos estudos. Numa entrevista concedia a Veja e publicada em suas páginas amarelas em 5 de abril de 2024, Desmurget foi enfático ao dizer que “numerosos estudos confirmam que nos últimos cinquenta anos o tempo de leitura diminuiu drasticamente, e isso está relacionado ao aumento do tempo dedicado às telas”. A ocupação dos filhos com o entretenimento digital é “roubada” e modo especial da leitura, e “à medida que os mais novos leem menos, cai também a proficiência em leitura”, e com isso “o declínio da competência linguística”.

Os entusiasmados com es tecnologias reagem dizendo que as crianças e jovens leem no celular e no computador e, talvez, aí esteja o grande problema. É ilusório para Dermurget (2024) acreditar que “as crianças estão lendo nas telas” ou dizer que “as crianças nunca leram tanto”. Entretenimento com as telas, a maioria das vezes assistindo vídeos ou consumindo jogos eletrônicos e propagandas de produtos, não é o mesmo que ler bons livros “para desenvolver competências linguísticas complexas”.

O que circula nas telas de forma inflacionada nas redes sociais e nos milhares de sites, é um conteúdo “pobre demais do ponto de vista linguístico”, e os estudos mostram, segundo Desmurget (2024; 2023), impacta negativamente quando analisamos o desempenho das crianças e jovens “nas habilidades com o idioma e o desempenho acadêmico”. As consequências para a formação cidadã é catastrófica e previsível.

Quando perguntado pela Veja sobre a forma “como vislumbra o futuro da humanidade” se continuarmos a perder de forma acelerada a formação de leitores de livros para os consumidores de telas, Dermurget (2024) responde dizendo que ao deixarmos de ler livros “perdemos uma parte essencial daquilo que nos torna humanos”. E acrescenta: “não é por acaso que os livros e a linguagem têm sido consistentemente alvos das ditaduras implacáveis”. Assim foi com o nazismo da Alemanha de Hitler, que mandou queimar 100 milhões de livros e considerava que “a literatura era um veneno para as pessoas”, e assim continua acontecendo com as ditaduras contemporâneas em experiências recentes, inclusive no Brasil.

Se fizermos hoje uma enquete no Congresso Nacional, nas Assembleias Legislativas Estaduais ou mesmo nas Câmaras de Vereadores dos mais de 5 mil municípios do Brasil, ficaríamos surpresos com a constatação de que a grande maioria dos deputados ou vereadores que nunca leram um livro de literatura. Em sua atuação como vereadores ou deputados (homens públicos por ocuparem este cargo) têm visivelmente tendências autoritárias e posicionamentos desumanizantes na proposição de seus projetos para a condução dos rumos da sociedade. Isso quando eles têm projetos, porque em sua maioria são incapazes de compreender sua própria função de gerir o bem comum e as ações do coletivo público.

O pior problema dos políticos brasileiros e desconhecerem ou ignorarem sua própria função, pois não se veem como homens públicos e sim como representantes de grupos econômicos que bancam suas campanhas e transformam o espaço público num espaço privado. Geralmente são perseguidores dos direitos humanos, refratários às políticas afirmativas e chamam de “comunistas” todos os que lutam por “justiça social”.

Nossa extrema direita no Brasil não gosta de livro e não vê com simpatia quem lê bons livros. Seu amor ao dinheiro é diretamente proporcional ao ódio que destilam contra todos os aqueles que lutam em defesa das causas sociais e em defesa da preservação ambiental.

Por aí entendemos os discursos de ódio cada vez mais frequentes na forma como atua a extrema direita. Para eles livros são inúteis, perda de tempo e devem ser evitados por todos aqueles que querem o progresso econômico e a produção de uma sociedade de consumidores. A natureza não é vista por eles como casa comum, como nosso lar coletivo que precisa ser cuidado, preservado e compartilhado para o bem estar de todos. A natureza é para eles uma propriedade que dever ser extorquida, explorada, usurpada para produzir lucros para os que são mais expertos. E assim, caminhamos a largos passos para nosso próprio extermínio da espécie.

Por fim, o próprio Desmurget (2023) apresenta algumas recomendações/orientações no que diz respeito aos perigos das telas para nossas crianças. A primeira delas é limitar o tempo de uso das próprias telas. Bebês não deveriam ser expostos ao seu uso, crianças pequenas deveriam ter poucos momentos e adolescentes deveriam ser cuidadosamente acompanhados por evitar sejam vítimas frágeis da exposição às telas. Uma segunda orientação diz respeito evitar telas em momentos críticos das rotinas das crianças como antes de dormir, usar as telas como distração em momentos que requer a atenção dos adultos. As telas não podem substituir a interação dos pais no processo formativo dos filhos.

Escolher conteúdos adequados, privilegiando atividades que estimulem a leitura, as interações humanas, atividades físicas, atividades musicais, artísticas, expressivas que promovam processos de sensibilização, de humanização. Tornar a leitura de bons livros um hábito diário que pode ser feito em família, principalmente com as crianças pequenas. A leitura não é uma atribuição apenas da escola, e esta consegue muito pouco se não tiver a contrapartida da família. Menos telas e mais livros se torna uma aposta de humanização para que possamos promover uma infância mais saudades para nossas crianças.

Para os que estiverem interessados, além do livro indico a resenha publicada na Revista Espaço Pedagógico do PPGEdu/UPF. Segue os links de acesso: https://www.researchgate.net/publication/383940286_fabrica_de_cretinos_digitais_os_perigos_das_telas_para_nossas_criancas ou https://seer.upf.br/index.php/rep/article/view/15723

Referências:

DESMURGET, Michel. A fábrica de cretinos digitais: os perigos das telas para nossas crianças. 1. Ed. São Paulo: Vestígio, 2023.

DESMURGET, Michel. “Os livros nos tornam mais humanos”. Veja, publicado em 5 de abril de 2024. Disponível em: https://veja.abril.com.br/paginas-amarelas/os-livros-nos-tornam-mais-humanos-diz-neurocientista-michel-desmurget/ Acesso em: 18 de set. 2025.

Autor: Altair Alberto Fáveroaltairfavero@gmail.com Coordenador do Gepes/PPGEdu/UPF. Também escreveu e publicou no site “Formação para dar sentido à vida”: www.neipies.com/formacao-para-dar-sentido-a-vida/

Edição: A. R.

A desvalorização docente e o desencanto com a educação

Sem professores valorizados, não teremos jovens acreditando na educação. E, sem jovens acreditando na educação, não há futuro para o Brasil.

(Por Vinícius de Andrade)

Os jovens estão cada vez mais deixando de associar o acesso à universidade como uma possibilidade real de ascensão social. Na literatura econômica, ainda há uma clara relação entre anos de escolaridade e remuneração financeira. Para além de estatísticas, o foco desta coluna é a percepção dos jovens, algo que, embora subjetivo, não é trivial e não pode ser subestimado.

Há inúmeras variáveis que corroboram essa desassociação do acesso ao ensino superior com a ascensão social, mas irei focar em uma pouco discutida: a relação da desvalorização docente com a desvalorização do acesso à universidade. Essa relação, embora subestimada, merece nossa atenção.

Para a discussão, os jovens da rede pública serão nosso público de análise. Eles são aqueles que mais poderiam se beneficiar dessa possibilidade de mobilidade social. Esses alunos são oriundos de famílias em que cursar o ensino superior não é um caminho padrão no fim do ensino médio. Assim, no geral, não há exemplos nos núcleos familiares que ascenderam por meio da educação.

O contato mais próximo com indivíduos que cursaram a universidade acaba sendo com seus professores. Aqui nasce o problema e gostaria de propor uma reflexão. A profissão de docente na educação básica no Brasil é valorizada? De modo simplista: o professor é uma figura que olhamos e vislumbramos sermos iguais “quando crescermos”? No sentido da valorização social, financeira e das condições de trabalho?

Infelizmente, temo que a resposta seja não. Observem a gravidade: o maior contato que os jovens têm com alguém que cursou a universidade é com indivíduos desvalorizados social e financeiramente, ou seja, com seus professores. Muitos dos quais, infelizmente, sobrevivem e não vivem.

Resultado: cursar universidade para quê?

O resultado é catastrófico. Por que tentar arduamente entrar em uma boa universidade e dedicar quatro ou cinco anos da própria vida para ao final não ser valorizado e com a possibilidade de ganhar o mesmo que um conhecido que não fez o mesmo caminho?

Reforço: aqui estou falando de percepções. Estas, embora nem sempre corroboradas pelas estatísticas, enviesam nossas decisões e devem ser consideradas na formulação de políticas públicas.

As redes sociais, com seus influenciadores, pioram o cenário. De um lado, os professores, figuras que deveriam ser o exemplo máximo, não são valorizados. De outro, influenciadores ficando milionários das mais diversas formas e todas, aparentemente, muito mais fáceis e seguras do que o caminho via universidade.

Não é muito difícil imaginar para qual lado a balança irá pesar.

Valorização docente como instrumento de desenvolvimento do país

É seguro assumir que todos queremos o desenvolvimento de nosso país, um futuro com mais igualdade e menos pobreza. Para que essa construção seja possível, uma importante variável é à educação. Quando ela é desvalorizada, essa variável chave tem seu potencial cruelmente minado.

O ponto é que é impossível haver valorização da educação em um país que desvaloriza seus professores. Nesse contexto, a valorização docente se torna uma variável primordial para o desenvolvimento do Brasil. Sem professores valorizados, não teremos jovens acreditando na educação. E sem jovens acreditando na educação, não há futuro para o Brasil.

FONTE: www.dw.com/pt-br/coluna-a-desvaloriza%C3%A7%C3%A3o-docente-e-o-desencanto-dos-jovens-com-a-educa%C3%A7%C3%A3o/

Autor: Vinícius de Andrade. Fundador do programa Salvaguarda.

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Edição: A. R.

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