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Capitu e Diadorim: duas mulheres andando pelas veredas

Revela-se oportuna a volta da Secretaria da Mulher no Estado do Rio Grande do Sul. Afinal, por meio de uma estrutura própria, a articulação e o fortalecimento de ações voltadas à proteção, à promoção e à autonomia das mulheres poderão tornar-se mais efetivas. Salve Diadorim, Capitu, Macabea, Ana Terra! Salve todas as circulantes das veredas perigosas de nossa sociedade! Que vossa luta não seja vã!

Esta publicação é escrita a duas mãos, pelos Convidados Eládio Vilmar Weschenfelder e Roseméri Lorenz.

(Por Eládio Vilmar Weschenfelder)

“Quando mergulhei pela primeira vez no romance Grande Sertão: Veredas, (1946), de João Guimarães Rosa, talvez pela imaturidade, pela extensão, ou pela forma de sua narração, prometi me banhar outras vezes nas mesmas águas literárias.  Resultado: a compreensão de seus múltiplos sentidos, magicamente, ampliou-se para maior e melhor, pois procurei andar por novas veredas, seguindo o rio em suas variadas faces.

Senti-me estimulado a reler e treler o referido romance rosiano em tempos diferenciados, em exatos intervalos de dez anos. Nesse hiato, um estudioso machadiano confessou, em sala de aula, que, no Brasil, há três grandes escritores, os quais deveriam ter recebido o Prêmio Nobel de Literatura: Machado de Assis, João Guimarães Rosa e Rubem Braga.  Passado um mês, retificou o parecer, revelando que dois deveriam ser os grandes ícones literários: Machado de Assis e João Guimarães Rosa.

Em Machado, textos como Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas e contos como O Alienista, Pai Contra Mãe, O Espelho, Na Arca, O Sermão do Diabo, dentre outros tantos, impressionam pelo mais alto grau parodístico com outros clássicos da literatura ocidental. Por sua vez, as leituras das obras de Rosa, como Sagarana, Corpo de Baile, Primeiras Estórias, Manuelzão e Miguelim e, em especial, Grande Sertão: Veredas, fascinam pelos neologismos, pela construção dos personagens e pela forma inusitada das narrativas.

No entanto, para a surpresa da turma, ao término da disciplina, tal estudioso concluiu que, no Brasil, dentre tantos poetas, contistas, cronistas e romancistas há, na verdade, apenas um grande escritor canônico: João Guimarães Rosa. A afirmação tornava-se ainda mais espantosa, considerando que a referida disciplina intitulava-se “A Ficção de Machado de Assis”.

Ainda espantado e balançando entre a qualidade das obras machadianas e roseanas, mergulhei de vez no Grande Sertão: Veredas, percorrendo o espaço interiorano de Minas Gerais, Goiás e o Sul da Bahia, tendo como grande guia o Rio São Francisco. Fui descobrindo que a obra é um dilúvio de antíteses e metáforas, que explora o antagonismo entre o bem e o mal, o Deus e o Demônio, a violência belicosa, fruto das intrigas de interesse político e econômico, onde a justiça era feita com as próprias mãos. Vida para uns, morte para outros.   

Havendo poucos interlocutores, o recurso predominante utilizado por Rosa é o monólogo. Uma espécie de “diálogo reflexivo”, onde os neologismos são significativos nessa luta com as palavras. Poliglota e estudioso dos regionalismos, Rosa lutou com as palavras, mesmo sabendo que, no sertão, o instrumento de luta eram as balas voadoras, cuspidas a partir das carabinas explosivas. Não foi uma luta vã, pois as palavras renovadas ainda estão vivas e contundentes. 

A grande questão da obra situa-se entre os jagunços Riobaldo e Diadorim. Ele decisivamente um homem; Diadorim, em meio à guerra, finge ser um guerreiro, mas é Maria Diadorina. Entretanto, isso não fica evidenciado, pois ela se disfarça de homem para lutar, lado a lado, como homem e contra os homens. Uma figura complexa que dissimula a identidade, uma mistura de gêneros, em um universo muito dúbio do ponto de vista da sexualidade, do bem e do mal.

Foi aí que, visitado pela “Eureca”, me dei conta de que toda essa dualidade de Diadorim também já fora manifesta, em Maria Capitolina, a enigmática Capitu, da obra Dom Casmurro, de Machado de Assis. Capitu, uma mulher à frente de seu tempo, empoderada e dominadora dos homens; e Diadorim, a dama andrógina, a quem Riobaldo idolatra (capaz de persuadi-lo, até mesmo, a pactuar com o diabo), mas que por ela foi preterido em prol da ocultação de sua identidade feminina. Lado a lado, aí estão duas mulheres, cada uma no seu devido tempo e espaço, unindo e separando dois mundos: o mundo afetivo e o mundo do sertão. Mas ambas andando pelas veredas.

O próprio Guimarães Rosa[1], em relação à etimologia do termo veredas, numa carta ao tradutor alemão Curt Meyer-Classon, afirmou:

Mas, por entre as chapadas, separando-as (ou, às vezes, mesmo, no alto, em depressões no meio das chapadas), há as veredas. São vales de chão argiloso ou turfo-argiloso, onde aflora a água absorvida. Nas veredas, há sempre o buriti. De longe, a gente avista os buritis, e já sabe: lá se encontra água.  A vereda é um oásis. Em relação às chapadas, elas são, as veredas, de belo verde-claro, aprazível, macio. O capim é verdinho-claro, bom.  As veredas são férteis. Cheias de animais, de pássaros.  As encostas que descem das chapadas para as veredas, são em geral muito úmidas, pedregosas (de pedrinhas pequenas no molhado chão claro), porejando aguinhas: chamam-se resfriados. O resfriado tem só uma grama rasteira, é nítida a mudança de aspecto da chapada para o resfriado e do resfriado para a vereda. Em geral, as estradas, na região, preferem ou precisam ir, por motivos óbvios, contornando as chapadas, pelos resfriados, de vereda a vereda. 

Assim são as veredas: belas, mas também perigosas.  De fato, como bem o disse Riobaldo: “Viver é muito perigoso…” Especialmente para as mulheres, por séculos, obrigadas a andar pelas margens da sociedade, relegadas, invisibilizadas. De um lado, Maria Capitulina, infiel ou não?! De outro, Maria Diadorina, homem ou mulher?! Capitu, julgada adúltera, sem provas concretas, a partir do mero depoimento do marido (ao qual, grande parte dos leitores dá crédito). Diadorim, não obstante os preconceitos machistas daquela época, fez de sua aparência andrógina um meio de viabilizar sua luta.

Na véspera dos 70 anos da publicação do Grande Sertão: Veredas (1956), as histórias de Diadorim e de Capitu podem constituir um bom pretexto à reflexão sobre a situação das mulheres na atual conjuntura, situação esta também marcada pela dualidade entre avanços significativos, como o aumento da participação feminina no mercado de trabalho, o acesso à educação, a participação política e uma maior liberdade, e desafios persistentes, como a desigualdade salarial, a dificuldade de ascensão a cargos de liderança, a sub-representação política, as diversas pressões sociais (como a multifuncionalidade e o padrão estético), e, principalmente, a violência de gênero. No que se refere a esta, aliás, cabe ressaltar o aumento dos bárbaros crimes contra as mulheres, posto que os feminicídios, no Brasil, são de quatro por dia, chamando a atenção o fato de que grande parte delas é atacada no rosto, exatamente a face, que revela sua identidade, reverberando seriamente sobre sua autoestima e suas relações sociais.

Tal situação só evidencia que a busca pela equidade de gênero deve ser uma luta de todos. Se queremos um país verdadeiramente justo, seguro e democrático, é indispensável garantir o fim da discriminação e do preconceito às mulheres em todas as esferas da sociedade.

Nesse sentido, revela-se oportuna a volta da Secretaria da Mulher no Estado do Rio Grande do Sul. Afinal, por meio de uma estrutura própria, a articulação e o fortalecimento de ações voltadas à proteção, à promoção e à autonomia das mulheres poderão tornar-se mais efetivas. Salve Diadorim, Capitu, Macabea, Ana Terra! Salve todas as circulantes das veredas perigosas de nossa sociedade! Que vossa luta não seja vã!


[1] ROSA, João Guimarães apud RÓNAI, Paulo. Seleta de Guimarães Rosa. São Paulo: José Olympio, 1973.

Um Ser tão Veredas

(Por Roseméri Lorenz)

Você

Despertou meu ser,

Sertão a florescer

Depois que a chuva vem.

Tem histórias pra contar,

Veredas a explorar…

Sem faca ou carabina,

Me ensina a lutar: Palavras inventar,

Enredo a se formar

E transformar o mundo ao redor.

Drummond já dizia:

“Lutar com palavras

É a luta mais vã.

Entanto,

Lutamos mal rompe a manhã”.

Amanhã,

Será, de novo,

Um novo dia,

De medo e valentia…

Ousa! Cria!

Me faz companhia

Na arte da grafia,

Sangria desatada

Que nada entretém,

Detém…

Refém

De algo que domina,

Envolve feito sina

E alucina

Sem querer.

– Venha nadar neste rio, Riobaldo!

Resistir já não dá mais,

Tudo embalde.

Não precisa ser assim,

Dia a dia,

Diadorim!

Assim como escrever,

O amor faz só faz doer

Se não pode ser.

Autora da coluna: Rosemeri Lorenz. Também escreveu e publicou no site “Ainda estão aqui”: www.neipies.com/ainda-estao-aqui/

Edição: A. R.

Sobre a angústia e a renúncia: relato de uma professora

Entenda o que fez uma professora renunciar a um concurso público na rede pública de educação. Ela pergunta: que sociedade é essa que presta homenagens aos professores no dia 15 de outubro, exaltando a profissão que forma todas as outras, mas esquece deles no restante do ano? Pior que isso, não só esquece, mas despreza e não reconhece seu valor.

É um privilégio poder escolher sua profissão; no meu caso, acho que ela me escolheu. Comecei a atuar em sala de aula muito cedo, bem antes de ter qualquer pretensão sobre o que faria profissionalmente. Comecei por acaso e, aos poucos, me apaixonei pelo magistério. Lecionei a disciplina de Língua Inglesa em escolas e cursos de idiomas, trabalhando com crianças, adolescentes e adultos. Da experiência com as crianças veio o desejo de cursar Pedagogia, muitos anos depois ingressei na educação infantil da rede municipal de ensino.

Apesar dos inúmeros desafios que enfrentamos diariamente ao trabalhar com seres humanos em constante formação, nunca tive dúvidas sobre minha escolha.

Aprendi muito na educação infantil, período em que pude me dedicar a esse público ímpar que são as crianças em idade pré-escolar. Trabalhei com os mais distintos grupos de estudantes, passei por mudanças de governo e nova gestão, tanto na escola em que atuava quanto na Secretaria Municipal de Educação.

Mais de uma década após ingressar na rede, estive frente a um novo desafio: assumir uma segunda matrícula, desta vez nos anos finais do ensino fundamental. Apesar de ter sido chamada para assumir a disciplina de Língua Inglesa, para a qual prestei o segundo concurso, precisei trabalhar com projetos nos anos iniciais por seis meses. Como entrei na metade do ano e as escolas já estavam organizadas, tive de encarar os projetos que não tinham relação com a minha formação, mas era o que tínhamos no momento. Foi um aprendizado, mas foi muito desgastante, planejamentos de disciplinas diferentes, muitas turmas do primeiro ao quinto ano do ensino fundamental.

Após esse turbilhão de acontecimentos, consegui conciliar minha carga horária de Língua Inglesa em uma única escola, com turmas do sexto ao nono ano. Imaginei que a fase mais difícil havia passado, pois a partir desse momento estaria trabalhando na minha área de formação, com uma disciplina para a qual tinha formação. Enorme engano o meu, foi aí que tudo piorou.

Antes de prosseguir, apenas um adendo: tenho 30 horas na educação infantil, já a nova matrícula tinha carga horária de 20 horas. Esse novo cargo deveria dizer respeito a vinte horas semanais da minha vida, que inclui várias instâncias além do trabalho. No entanto, o que aconteceu foi muito diferente disso.

Voltando à história, assumi apenas a disciplina de Língua Inglesa, mas continuei com várias turmas e inúmeros planejamentos. Além de salas lotadas, tinha uma média de dois alunos com laudo em cada uma delas. As exigências de planejamento específico para cada estudante com deficiência – que somavam-se aos planos mensais, trimestrais e anuais de cada turma – levaram a uma demanda excessiva de materiais a serem organizados e postados. Isso sem falar no preenchimento do sistema com presenças, conteúdos e avaliações, que também precisavam ser diferenciadas para cada aluno incluído.

A sobrecarga de trabalho era imensa e a sensação que eu tinha era que tornava-se mais pesada a cada mês que passava. Sempre tinha um novo projeto, mais uma avaliação, outras atividades a serem postadas na plataforma de ensino em dia de reunião pedagógica, mais uma criança com laudo chegando na turma, mais burocracia e prazos, mais e mais trabalho, exigências e cobranças.

Como não poderia deixar de ser, em meio a esse cenário veio o adoecimento, a fadiga, a ansiedade, o desânimo.

O trabalho deveria ser apenas uma parte da nossa vida, sem tomar o tempo que precisamos dedicar à família, aos cuidados pessoais, ao lazer, ao bem estar em geral. O que os professores vivem hoje vai de encontro a isso, pois o que vimos é o trabalho “roubando” parte da vida pessoal, levando-nos a adoecer e ter uma qualidade de vida ruim. Nesse período, lutei com os diversos sinais que meu corpo dava que não estava bem, com a baixa imunidade e o alto nível de estresse.

Eu conhecia esses sintomas, pois converso diariamente com colegas professores que me procuram no sindicato para relatar suas angústias. Também vi colegas na escola em que trabalhava passando por situação semelhante, eu não estava sozinha nessa batalha. Em seguida, iniciei um processo de crise de ansiedade, momento em que percebi que tinha ultrapassado meus limites e precisava repensar minhas escolhas. Vivi exatamente o que ouvia nos relatos dos docentes que atendia, senti na pele as dificuldades que sofriam. Pensei em desistir!

Desde o momento em que tive esse pensamento pela primeira vez e o dia em que realmente me exonerei da rede municipal passaram-se alguns meses. Não queria acreditar que estava cogitando a exoneração, não queria admitir que não suportava mais. O magistério foi a profissão que escolhi e nunca tive dúvidas sobre essa opção. Sabemos que é um ofício desafiador, mas através do qual sempre me senti realizada. Apesar das dificuldades normais da profissão, nunca passou pela minha cabeça fazer algo diferente. Sou professora por escolha, estudei muito a vida toda para exercer o magistério da melhor forma possível, dedicando-me aos alunos e fazendo a diferença na sua formação.

Quando decidi fazer concurso público, estudei, me preparei, sonhei com o ingresso na rede municipal. Ninguém ingressa num cargo dessa forma pensando em ficar por algum tempo e, caso não der certo, desistir.

A carga emocional dessa decisão foi muito pesada, parecia não ser certo, parecia que algo estava fora do lugar. Como eu poderia desistir depois de tudo? Foi para isso que tanto estudei e me qualifiquei? O que deu errado no meio do caminho? Eram muitas perguntas e incógnitas, angústias e aflições.

Em meio a esse turbilhão de pensamentos e emoções, fui vivendo semana após semana, esperando que uma resposta mágica aparecesse, o que não aconteceu. Minha saúde se deteriorava a cada dia, não tinha tempo para acompanhar minha filha pequena, não tinha tempo para quase nada além do trabalho, o que acabou tornando a profissão que tanto amava um fardo muito pesado para carregar. Foi quando percebi que não poderia continuar, por mais medos e dúvidas que tivesse. Tomei a decisão de pedir minha exoneração e abrir mão do lugar pelo qual batalhei, e que entendia ser meu por direito.

Quando consegui avisar a todos que não retornaria à sala de aula após o recesso escolar, parece que já me sentia aliviada, finalmente teria alguma qualidade de vida. O simples fato de tomar essa decisão e comunicá-la aos colegas tirou um peso de minhas costas. O último mês de aulas teve muito trabalho, pois queria deixar tudo organizado para quem iria me substituir, mas mesmo assim foi mais leve.

Sentia-me responsável por todos os alunos que estavam em minhas turmas, já os conhecia, queria continuar contribuindo com o seu desenvolvimento, o que causou um vazio por abandonar o barco no meio do caminho. Mas era a única coisa que poderia fazer, pois caso persistisse, minha saúde estaria em jogo. Foi difícil, porém necessário.

No dia em que registrei oficialmente meu pedido de exoneração me senti estranhamente feliz. Não fazia sentido me sentir feliz por deixar de ser professora, mas esse era o sentimento: alívio.

Essa experiência me fez refletir sobre o que está acontecendo com a profissão docente. Como pode uma professora ficar feliz por sair da sala de aula? Como pode desenvolver ansiedade ao pensar em entrar em seu ambiente de trabalho? Como pode gostar de sua função pedagógica, mas adoecer com todas as demandas que os gestores lhe atribuem diariamente?

Que sociedade é essa que presta homenagens aos professores no dia 15 de outubro, exaltando a profissão que forma todas as outras, mas esquece deles no restante do ano? Pior que isso, não só esquece, mas despreza e não reconhece seu valor. A partir de que ponto nossa profissão passou a ser tão desvalorizada? Que sociedade estamos formando quando colocamos docentes esgotados para dar aula em turmas lotadas, com inúmeras demandas, mas sem o suporte necessário? Até quando teremos professores?

São muitas perguntas e poucas respostas, no entanto, o que vale é a reflexão. Não podemos naturalizar essa situação, precisamos instigar nossos colegas a pensar em como chegamos a esse ponto, pois só assim poderemos vislumbrar formas de mudança. A resignação e a estagnação não podem jamais ser nossa opção, pois, como dizia Paulo Freire, “Enquanto eu luto, sou movido pela esperança; e se eu lutar com esperança, posso esperar”.

LEIA TAMBÉM: www.neipies.com/ser-professor-sempre-foi-um-ato-de-resistencia/

FONTE: https://issuu.com/cmpsindicato/docs/cartilha_um_grito_pela_educa_o_

Autora: Débora de Araújo Soares, professora da rede municipal de Passo Fundo, RS.

Carta à humanidade brasileira: por um tempo de escuta, beleza e reconciliação.

Este texto é uma escolha. Uma escolha que me custa, que exige de mim disciplina emocional, escuta, revisão. Porque a linguagem da brutalidade está sempre pronta. Ela nos seduz com sua rapidez, sua suposta eficiência, seu poder de humilhar. Mas ela não constrói. Apenas arrasa. E já fomos arrasados demais.

(Por Paulo Baía)

Escrevo estas palavras como quem escreve à sombra de uma árvore antiga, onde o tempo parece repousar e o silêncio abriga a escuta. Uma carta extensa, é verdade, mas necessária, como o são todas aquelas que buscam alcançar corações distantes sem a urgência dos alarmes. Dirijo-me ao Brasil inteiro, de norte a sul, de leste a oeste, dos grandes centros aos vilarejos que ainda respiram com o ritmo próprio das manhãs lentas.

Dirijo-me a cada pessoa que, mesmo no cansaço, guarda dentro de si alguma centelha de esperança. A todas e todos, indistintamente: aos que creem e aos que duvidam, aos que se agitam e aos que contemplam, aos que se entrincheiraram e aos que ainda sonham com a travessia.

Confesso, com serenidade, um cansaço profundo. Um cansaço que não é apenas do corpo nem da rotina, mas um cansaço de alma, de convivência, de palavras transformadas em espinhos. Não é o peso do tempo, nem a exaustão da luta cotidiana que me esgota, mas a rigidez que tomou conta do espaço entre as pessoas. O que nos fere, dia após dia, é essa polarização que se cristalizou como hábito de pensamento e conduta, essa lógica de trincheira que nos impede de ver a complexidade da vida e a beleza dos outros.

Estamos vivendo em um Brasil onde o dissenso se tornou pretexto para o desprezo, onde a discordância virou injúria e o diálogo foi reduzido à performance de confronto. Tornamo-nos, sem perceber, habitantes de um tribunal permanente, onde ninguém escuta, todos julgam e quase ninguém perdoa. Mas não é possível viver assim. Não é digno. Não é humano.

Há um tempo venho buscando outra linguagem. Uma linguagem que não abandone o rigor, mas que recuse a brutalidade. Tenho preferido o gesto do carinho à certeza da sentença, o sopro da beleza à violência da razão armada. Não se trata de abrir mão da crítica, mas de recusar o veneno que frequentemente a contamina. Quero escrever com elegância, sim, mas também com bondade. Quero fazer da palavra uma oferenda, não uma pedra.

E nessa tentativa me recordo com emoção do saudoso jornalista Márcio Moreira Alves. Ele, que durante tantos anos escreveu sobre o “Brasil que dá certo”, quando a maioria só sabia repetir o que dava errado, mesmo que o erro fosse inexistente, mesmo que fosse inventado, construído pela arrogância de um individualismo fóbico, que teme a pluralidade e se recusa a reconhecer qualquer qualidade em quem pensa ou age de maneira distinta. Márcio soube ver, como poucos, que há dignidade no cotidiano, há resistência nas margens, há sabedoria nas soluções populares que a elite ignora. Ele soube narrar o país como quem afaga suas cicatrizes.

É nesta mesma chave que escrevo. Quero falar de um Brasil real, múltiplo, humano, onde a vida pulsa apesar de tudo. Um Brasil que se reconhece não apenas nos grandes gestos, mas sobretudo nos pequenos sinais: o bom dia da vizinha que estimula o entendimento, o sorriso partilhado no portão, o pão emprestado na emergência, a escuta oferecida sem cálculo. A vizinhança é ainda, talvez, o último território onde a simpatia resiste. E nas comunidades, nos bairros, nos becos e vielas onde o Estado pouco chega, a solidariedade se organiza como princípio, não como exceção.

Quero também falar das igrejas, não apenas aquelas dos interiores calmos, mas também das que se erguem nas metrópoles inquietas, agitadas pelos trânsitos da pressa, pelos buzinares apressados e pela tensão dos horários. Ali, entre os ruídos da cidade, ainda há espaços de acolhimento e proteção. Ali se reza, se canta, se chora, se abraça. Ali se alimenta a esperança como quem renova o pão de cada dia. E ao lado das igrejas, os Terreiros: espaços sagrados de axé, de força ancestral, de cuidado com o corpo e com o espírito, onde o saber não vem dos livros, mas da vivência, da tradição, do canto que acende a alma.

E há também os botequins, as biroscas de esquina, onde se formam rodas de conversa que são, muitas vezes, as mais autênticas assembleias populares. Ali se discute o futebol e a política, a inflação e a vida amorosa, ali se fala sem microfone, mas com paixão. São lugares de fala sem palco. São espaços onde a democracia ainda respira, mesmo sem saber que tem esse nome.

As rodas de samba, por sua vez, são orações em forma de batuque. São encontros que reafirmam nossa capacidade de sorrir apesar do peso. E os bailes de dança de salão que se espalham pelas tardes e pelos inícios de noite, centenas deles, são atos de resistência ao desencanto. Ali os corpos não apenas se movimentam: se reconhecem, se reencontram, se curam. São espaços de beleza compartilhada, de presença mútua, de encanto.

E há ainda as músicas que, nas manhãs das ruas e dos ônibus, embalam os desejos de uma boa semana. São canções que carregam pedidos simples: paz, prosperidade, sossego. E isso já seria tanto. Porque no meio de um país atravessado por dores antigas, desejar ao outro uma boa semana é um gesto político, um gesto de humanidade.

É por isso que não quero mais escrever para ferir. Quero escrever para lembrar. Para lembrar que cada pessoa carrega dentro de si um mundo, uma história, uma experiência. Que ninguém é apenas sua opinião política, sua ideologia, seu voto. Que há algo de belo em cada existência. Que somos feitos de nuances, não de absolutos. Que mesmo os equívocos dos outros merecem ser compreendidos em sua trajetória, não apenas condenados em seu instante.

Estou consciente, sim, das feridas abertas neste país. Sei da desigualdade gritante, da injustiça institucionalizada, da violência que devora as periferias. Mas quero falar disso sem exaltar o ódio. Quero denunciar sem desumanizar. Quero nomear o sofrimento sem me deixar contaminar pela linguagem da vingança. Quero recordar, inclusive, que mesmo na política há gestos de dignidade. Há homens e mulheres que resistem, que constroem, que negociam não por fraqueza, mas por responsabilidade. Há servidores públicos que ainda acreditam no bem comum. Há lideranças que ainda se comovem com a dor dos seus representados.

É possível, sim, falar da crise sem alimentar o ressentimento. É possível, sim, manter o rigor e a ética sem cair na armadilha da raiva como método. É possível, sim, escrever com firmeza e também com ternura.

Este texto é uma escolha. Uma escolha que me custa, que exige de mim disciplina emocional, escuta, revisão. Porque a linguagem da brutalidade está sempre pronta. Ela nos seduz com sua rapidez, sua suposta eficiência, seu poder de humilhar. Mas ela não constrói. Apenas arrasa. E já fomos arrasados demais.

Escrevo, portanto, para você que lê com atenção e generosidade. Que entende que escutar não é concordar. Que sabe que o dissenso faz parte da vida, mas que ele pode ser vivido com respeito, com civilidade, com alguma elegância. Escrevo para quem ainda deseja reconstruir o pacto da convivência. Para quem crê que não é possível salvar a democracia sem salvar também o laço social.

Este país ainda pulsa. Este país ainda resiste. Este país ainda pode se reinventar. Há tempo. Há caminhos. Há saídas. E há, em cada um de nós, uma possibilidade de reconduzir o olhar. Uma possibilidade de reacender o desejo de viver com beleza, com justiça, com afeto.

Receba, você que chegou até aqui, esta carta como um gesto de aproximação. Uma declaração de respeito. Uma invocação por tempos mais brandos. Que ela te encontre em paz, ou que pelo menos te convide à paz. Que ela te recorde que ainda há música, ainda há dança, ainda há vizinhança, ainda há simpatia. Ainda há tempo. E se ainda há tempo, há tudo. Porque o humano resiste — e resiste melhor quando é tratado com carinho.

Que possamos, enfim, voltar a nos reconhecer. Não apesar das diferenças, mas por meio delas. Com lucidez. Com firmeza. Com beleza. E sobretudo com dignidade.

FONTE: Um momento…

Autor Paulo Baía – Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ. Paulo Baía é sociólogo, cientista político e professor aposentado do Departamento de Sociologia da UFRJ. Suburbano de Marechal Hermes, é torcedor apaixonado do Flamengo e portelense de coração. Com formação em Ciências Sociais, mestrado em Ciência Política e doutorado em Ciências Sociais, construiu uma trajetória acadêmica marcada pelo estudo da violência urbana, do poder local, das exclusões sociais e das sociabilidades periféricas. Atuou como gestor público nos governos estadual e federal, e atualmente é pesquisador associado ao LAPPCOM e ao NECVU, ambos da UFRJ. É analista político e social, colunista do site Agenda do Poder e de diversos meios de comunicação, onde comenta a conjuntura brasileira com olhar crítico e comprometido com os direitos humanos, a democracia e os saberes populares. Leitor compulsivo e cronista do cotidiano, escreve com frequência sobre as experiências urbanas e humanas que marcam a vida nas cidades.

Edição: A. R.

Boa universidade promove experiências formativas, realiza pesquisas, produz conhecimentos e tem compromisso com a comunidade  

A UPF (Universidade de Passo Fundo) é uma universidade comunitária comprometida com o desenvolvimento social, cultural e econômico na grande região Norte do RS. Na sua estrutura de Universidade, integra ensino, pesquisa e extensão de forma indissociável, desenvolvendo projetos de extensão que a aproximam da comunidade, através de projetos de pesquisa e extensão que geram conhecimento com aplicação social.

A UPF tem uma pós-graduação consolidada de Pós-Graduação Stricto Sensu por meio dos diversos Cursos de Mestrado e Doutorado. Um dos mais reconhecidos é o Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGEdu/UPF) com seu mestrado iniciado em 1997 e o doutorado iniciado em 2011, conceito 5 junto a Capes. Dentre as diversas ações do Programa, destacam-se os Grupos de Pesquisa responsáveis por desenvolver os diversos projetos de investigação que dá vida às temáticas educacionais, produzem conhecimento e formam os novos pesquisadores.

Um dos importantes grupos do PPGEdu/UPF chama-se GEPES (Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Superior da Universidade de Passo Fundo), o qual completou, em 2025, 15 anos de existência.

Por sua meritória trajetória, decidimos entrevistar um de seus fundadores, o professor Dr. Altair Alberto Fávero. Ele, junto com Dra. Carina Tonieto, continua coordenando este valoroso Grupo responsável por desenvolver diversos projetos que mescla leituras, estudos, pesquisas, reflexões e produções qualificadas sobre as práticas docentes e diversas temáticas no âmbito educacional.

De onde surgiu inspiração ou motivação para a criação do GEPES em 2010?

Primeiramente, quero agradecer a oportunidade de dar mais esta entrevista neste prestigiado site que tenho a honra de contribuir desde 2019.

A inspiração de criar o Gepes em 2010 realizou-se por ocasião do credenciamento que tive no Programa de Pós-Graduação em Educação na linha de Políticas Educacionais. Mas a ideia de que o grupo de pesquisa é a alma da vida universitária remonta um período anterior e tem uma forte inspiração do meu grande e saudoso mestre Elli Benincá. Ainda durante minha graduação em filosofia, realizada entre 1986 a 1989, além de ter sido meu professor, junto com meus colegas de turma Angelo Vitório Cenci, Claudio Almir Dalbosco, Valdecir Esquinsani, Moacir Marconi, dentre outros, realizamos a experiência de acompanhar suas pesquisas como bolsistas voluntários.

Além de contribuir com a tarefa de datilografar (ainda não tínhamos computador) os relatórios de pesquisa que ele realizava, fomos mobilizados para criar grupo de estudos nas férias. Certamente esta foi uma das experiências mais exitosas da graduação e que constituiu boa parte do corpo docente do Curso de Filosofia sob a liderança do nosso mestre maior Elli Benincá. Então posso dizer com toda convicção, que a principal inspiração do Gepes vem da experiência com Elli Benincá. Ele não foi somente inspiração na pesquisa. Foi também inspiração na docência, pois fui seu monitor conforme descrevo brevemente no capítulo “A práxis benincaniana na formação continuada de professores” (Fávero, 2022).

Eu já tinha uma prática de pesquisa junto ao Curso de Filosofia da UPF desde 1998, logo após concluir o mestrado da Pucrs, dando sequência aos estudos da dissertação com projetos sobre Epistemologia onde aprofundei aspectos ligados a Filosofia da Ciência, produção do conhecimento, o problema da causalidade na tradição empirista inglesa e na tradição pragmatista americana. Nestes projetos, tive bolsistas de iniciação científica dos quais diversos se tornaram posteriormente meus orientandos de mestrado e doutorado. Em 2002 institucionalizei um projeto sobre Ensino de Filosofia envolvendo alunos da graduação em Filosofia e Pedagogia. De 2003 a 2007 realizei meu doutorado da UFRGS defendendo uma tese sobre Redescrição do Mundo e Educação baseado no pensamento do pragmatista americano Richard Rorty sob a orientação da professora Dra. Nadja Hermann e com o suporte do Dr. Luiz Carlos Bombassaro.

Ao concluir o doutorado em janeiro de 2007, continuei com os projetos de pesquisa nos campos de estudo da Epistemologia e do Ensino de Filosofia, mas agora com uma sistemática de grupo de pesquisa envolvendo de modo especial graduandos da filosofia. Tive excelentes bolsistas dentro os quais destaco Leandro Carlos Ody (foi posteriormente meu orientando da primeira turma de doutorado e o primeiro a defender a tese do programa, hoje professor e pesquisador da UFFS), Carina Tonieto (foi minha orientanda de mestrado, doutorado, supervisionei dois pós-doutorados e com ela divido até hoje a coordenação do GEPES), Francieli Nunes da Rosa (foi minha orientanda no Mestrado), Marceli Becker (hoje uma escritora famosa em São Paulo, autora de diversos livros de poesia, alguns deles premiados), Gabriela Nascimento Souza (hoje professora da UFFS), Cosme Rafael Gonzatto  (foi meu orientando de mestrado), Jorge Alexandre Bieluczyk (hoje diretor do Colégio Bom Conselho), Junior Bufon Centenaro (foi meu orientando no mestrado e doutorado, hoje assessor da Rede Notre Dame e continua sendo um membro ativo do Gepes e da equipe de pesquisa do Ensino Médio), Antonio Pereira Santos (foi meu orientando de mestrado), Alexandre José Hahn (foi meu orientando de mestrado) dentre vários outros.

Quando fui credenciado no PPGEdu/UPF na linha de Políticas Educacionais em julho de 2008, minha experiência de grupo de pesquisa no Curso de Filosofia é transferida para o Programa de Pós-Graduação em Educação, evolvendo agora também os orientandos de mestrado. Carina Tonieto foi minha primeira orientanda de mestrado e com ela decidi em 2010 criar o GRUPO DE ESTUDOS E PESQUISAS SOBRE EDUCAÇÃO SUPERIOR (GEPES).

Me recordo que já nos primeiros encontros dizia que um bom grupo de pesquisa é aquele que tem longevidade e reconhecimento para além do próprio grupo. Para isso era necessário continuidade e socialização do que era estudado por meio de publicações. Para além de exigências formais, a Capes acreditava que divulgar o que é estudado no grupo de estudo e pesquisa se torna um compromisso social com o conhecimento. De certa forma foram estes princípios que marcaram o início do Gepes em 2010 e que se renovam passados 15 anos.

A primeira produção do Gepes data de 2010 e foi o livro autoral Educar o educador: reflexões sobre formação docente escrito em parceria com Carina Tonieto e publicado pela editora Mercado de Letras de Campinas/SP. De lá pra cá foram 15 coletâneas que, de certa forma, contam a história do Gepes e descrevem quais foram os estudos que marcaram este período.

Não posso deixar de mencionar a importância decisiva de uma grande amiga responsável pela nomenclatura GEPES que é a Dra. Maria de Lourdes de Pinto de Almeida, mais conhecida como Malu. O nome Gepes foi sugerido por ela como uma espécie de desdobramento do Gepes da Unicamp. Foi por meio de sua mediação que tivemos a primeira publicação na Editora Mercado de Letras de Campinas e das 4 produções seguintes: Leituras sobre John Dewey e a educação (Fávero; Tonieto, 2011), Leituras sobre Hannah Arendt e a educação (Fávero; Casagranda, 2012), Leituras sobre Richard Rorty e a Educação (2013) e Docência Universitária: pressupostos teóricos e perspectivas didáticas (Fávero; Tonieto; Ody, 2015). Foi por meio de Malu que me vinculei ao GIEPES (Grupo Internacional de Estudos sobre Educação Superior) em 2014, coordenado pela professor Dra. Elisabete Monteiro de Aguiar (Unicamp) e pela própria Malu, o qual reúne pesquisadores de diversas instituições brasileiras (URI, UPF, UNICAMP, UNOESC, UNIOESTE, UFMS, UFSM, FURB dentre outras) e diversos pesquisadores do Uruguai, Argentina, Chile, Colômbia, Venezuela, México, Espanha e Portugal.

Segunda Coletânea do Gepes publicada em 2022 pela Mercado de Letras – Campinas/SP

Quais foram os objetivos e os desafios concretos nos primeiros e incipientes anos de existência do grupo? Como iniciativa foi vista dentro da UPF e fora dela?

O Gepes nasceu e foi se constituindo como sendo um grupo plural de estudos e pesquisa, que pudesse agregar e promover a formação de novos pesquisadores por meio de um conjunto de ações, tais como: aprimorar dinâmicas e processos de estudo e pesquisa; sistematizar e publicizar suas produções para a comunidade acadêmica e para a comunidade escolar; debater e aprofundar temáticas que pudessem constituir experiências formativas para os mestrandos, doutorandos, bolsistas de iniciação científica, professores do Ensino Superior e da Educação Básica; contribuir com a missão e os objetivos do Programa de Pós-gradução em Educação da UPF na formação de mestres e doutores; ser um espaço de continuidade dos estudos dos egressos do programa e de outros interessados nas temáticas propostas; ser um espaço acolhedor para todos os que desejam estudar e aprofundar temáticas educacionais.

No seu início o grupo era composto por poucos integrantes e os encontros eram presenciais em uma das salas da Faculdade de Educação da Universidade de Passo Fundo. Quinzenalmente o grupo se reunia às sextas à tarde, das 14 às 15 horas. Nas seções de estudo, liamos e discutíamos os textos propostos para aprofundar as temáticas. Os bolsistas realizavam um relatório dos encontros e com isso fomos constituindo uma metodologia própria de trabalho. Com o tempo sentimos a necessidade de transformar os estudos em processos de escrita e com isso foram acontecendo a produção das coletâneas.

Na medida que o Gepes foi se tornando mais conhecido, para além dos muros da UPF, passaram a integrar participantes de escolas, de outras universidades e um público bem variado em termos de áreas do conhecimento. Me recordo, por exemplo, que alguns integrantes vinham de outras cidades, como Carazinho, Santo Angelo, Marau, Vila Maria, Paraí, Santo Angelo, Tapera, Ibirubá, Não Me Toque, Joaçaba, Chapecó, Maravilha, Soledade, Tapejara, Chapada, Getúlio Vargas, Erechim, Sananduva, Cochila, Casca, dentre outras.

O que permanece da essência (do início) das ideias do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Superior e o que foi modificando ao longo da trajetória?

Certamente, um dos aspectos marcantes do Gepes que constituiu sua identidade desde o início e que passado quinze anos ainda se faz presente diz respeito ao espírito de acolhida e o respeito pelas trajetórias singulares de cada integrante. Me recordo que em 2015 quando lançamos no auditório do antigo IFCH a coletânea Docência Universitária: pressupostos teóricos e perspectivas didáticas (Fávero; Tonieto; Ody, 2015), a professora Renata Confortin (autora de um dos capítulos) deu seu depoimento dizendo que havia percebido que um dos mais importantes diferenciais do Gepes do qual participava a mais de um ano era a capacidade de acolhimento a todos os seus integrantes. Para mim, este depoimento foi muito importante e passou a ser um dos princípios identitários que cultivamos até hoje. Não importa a titulação, o tempo de grupo, ou a experiência de pesquisa. Todos são acolhidos da mesma forma e são respeitados na sua singularidade. Da mesma forma, exige-se de seus integrantes o respeito aos demais, assim como a responsabilidade de zelar pelo grupo e pelos compromissos coletivos.

Até março de 2020, todos os encontros de estudos e pesquisas do Gepes eram realizados presencialmente nos espaços da UPF. Com a decretação da Pandemia, imediatamente instituímos os encontros virtuais síncronos pelo google meet. A partir de então, o grupo cresceu exponencialmente. Mantivemos os encontros e a cada encontro o grupo ia crescendo, com participações de regiões bem distantes. Quando findou a pandemia, nos demos conta que não poderíamos voltar com os encontros presenciais, pois muitos seriam impossibilitados de participar em função das distâncias geográficas. Sendo assim, tomamos a decisão de continuar com os encontros on line síncronos.

Integrantes do grupo no período de Presencialidade

Na sua visão, quais são os maiores méritos desta iniciativa, depois de 15 anos de existência? (números de participantes, dados, número de eventos ou publicações)

Atualmente fazem parte do Gepes mais de 60 integrantes, pertencentes a 13 Instituições de Ensino Superior (UPF, UFFS, IFRS-Campus Ibirubá, UFMG, Cefet/RJ, UFES, UFAC, IFSC-Campus Xanxerê, Uniplac, Unoesc, Unochapecó, IFSC-Campus Concórdia, UFSM e UFPel). Temos também professores de diversas redes municipais de ensino e de escolas particulares, bem como egressos e alunos da graduação. Todos os meus orientandos de mestrado, doutorado, bolsistas de iniciação científica e um quantidade expressiva de egressos participam ativamente nos encontros quinzenais do Gepes.

Além dos meus orientandos, nos últimos dois anos temos a participação de orientandos de outros pesquisadores que também são integrantes do Gepes. Destaco de modo especial os orientandos do professor Dr. Anderson Luiz Tedesco (Unoesc), do professor Dr. Ademilson de Sousa Soares (UFMG) e da professora Dra. Adriana Martins Oliveira (UFAC). Sua participação perene e ativa, orientandos e orientadores fazem do Gepes um grupo interinstitucional.

Também cabe um destaque a participação de pesquisadores internacionais como o Dr. Aristeo Santos López da Universidad Autónoma del Estado de México (UAEMéx) e da Dra. Lorena de Tunja/Colômbia.

Possivelmente um dos méritos do Gepes é ter mantido uma sistemática de trabalho que consiste em leitura, estudo, discussão, escrita e publicação dos resultados. Nestes 15 anos foram 15 livros publicados, um por ano e neste momento estamos discutindo os textos escritos pelos seus integrantes que vão compor a 16ª coletânea a ser publicada em maio de 2026. Para o conhecimento dos leitores, segue uma síntese das 15 coletâneas.

Em 2010, quando Carina estava concluindo seu mestrado, com a decisão de criar o Gepes, inspirados e incentivados pela nossa amiga Malu (Maria de Lourdes de Almeida), que nos “abriu muitas portas” junto às editoras, publicamos o livro autoral Educar o educador: reflexões sobre formação docente (Fávero; Tonieto, 2010) publicado pela Mercado de Letras, com um prefácio de nossa amiga Malu.

Altair e Carina – com a 6ª coletânea – 2017

No ano seguinte, com um grupo mais ampliado, estudamos as obras de John Dewey, de modo especial, Democracia e Educação, Reconstruções em Filosofia e Experiência e Educação. Destes estudos, resultou a segunda produção do Gepes intitulada Leituras sobre John Dewey e a educação (Fávero; Tonieto, 2011) publicado pela editora Mercado de Letras. Composta de 13 capítulos, a coletânea aborda diversos temas do filósofo educador norteamericano, dentre os quais destacam-se: o lugar do pensamento de John Dewey na historiografia da educação brasileira; as contribuições de Dewey para a educação; democracia e reflexão poética em John Dewey; a relação entre filosofia e pedagogia no pensamento; a democracia como credo pedagógico na filosofia de Dewey; a distinção entre pedagogia tradicional e pedagogia progressista; a relação entre interesse e esforço nos escrito deweyanos; a experiência filosófica na reconstrução de John Dewey; a experiência como superação do dualismo; a formação do professor reflexivo na concepção pragmatista deweyana; experiência formativa na educação em valores em John Dewey; dentre outros.

Em 2012 fiz um Pós-doutorado na Univesidad Autônoma del Estado do México (UEMéx) e fiquei fora do país de janeiro a julho. Nestes meses, Carina continuou com o Grupo, estudando Richard Rorty (autor que havia estudado para realizar minha tese de doutorado da UFRGS de 2003-2007). Do México, organizei com a parceria de Edison Alencar Casagranda a terceira produção do Gepes intitulada Leituras sobre Hannah Arendt e a educação (Fávero; Casagranda, 2012), também publicada pela editora Mercado de Letras. Quando retornei do México continuamos com os estudos de Rorty e os resultados foram publicados na coletânea Leituras sobre Richard Rorty e a Educação (Fávero; Tonieto, 2013), também publicado em 2013.

Em 2014, o grupo do Gepes já estava bem ampliado, com a participação de diversos mestrandos, doutorandos, egressos de PPGEdu, alunos da graduação, meus bolsistas de iniciação científica, professores da educação básica, professores da educação superior, dentre outros. Duas temáticas marcaram o estudo deste ano: o processo de Bolonha e Docência Universitária. Da primeira temática resultou a publicação da coletânea O Espaço Europeu de Educação Superior (EEES) para além da Europa: apontamentos e discussões sobre o chamado Processo de Bolonha e suas influências (Almeida; Fávero; Catani), publicado pela editora CRV de Curitiba. E da segunda temática resultou a produção da coletânea Docência Universitária: pressupostos teóricos e perspectivas didáticas (Fávero; Tonieto; Ody, 2015).

Os avanços dos estudos no Gepes nos fizeram perceber que a docência universitária requer uma compreensão dos pressupostos epistemológicos que mobilizam as práticas, as compreensões da forma como se constitui a identidade docente, a maneira como se articulam as distintas formas de ensino e aprendizagem no Ensino Superior.

Destes estudos surgiu a coletânea Epistemologias da Docência Universitária (Fávero; Tonieto, 2016) composta de 12 capítulos onde são abordadas as seguintes temáticas: a dimensão crítico-dialética na formação docente na perspectiva freireana, o lugar da teoria na pesquisa sobre docência na Educação Superior, os aspectos do pensamento complexo que perpassa a autoeco-organização e autoeco-formação do docente universitário iniciante, a atitude vigilante do professor universitário para enfrentar os obstáculos epistemológicos do seu fazer docente, a constituição dos saberes da docência universitária, a epistemologia que perpassa o fazer docente no cenário da sociedade líquida baumaniana, a negação da pedagogia das aparências em prol de uma pedagogia científica na perspectiva bachelardiana, o falibilismo como fundamento epistemológico na formação de professores para o ensino de ciências naturais, os paradigmas necessários à construção da docência universitária no cenário atual, a relação entre racionalismo aplicado e os novos rumos da ciência contemporânea para compreender a docência universitária, a sensibilização docente na compreensão da epistemologia da prática na docência universitária.

A interdisciplinaridade foi tema de estudos do Gepes em 2017 e tornou-se uma temática imprescindível para enfrentar os desafios da docência universitária contemporânea. Destes estudos, surgiu a coletânea Interdisciplinaridade e Formação Docente (Fávero; Tonieto; Consaltér, 2018), composta de 15 capítulos onde são tratados as seguintes temáticas: entendimentos  e perspectivas da interdisciplinaridade na formação de professores, a interdisciplinaridade e o falibilismo na formação docente, os equívocos e as possibilidades da interdisciplinaridade na formação de professores, a resolução de problemas como prática interdisciplinar na educação, a perspectiva história e política da interdisciplinaridade pelo enfoque da educação, as interlocuções possíveis entre interdisciplinaridade e alteridade na educação numa perspectiva estética, a vivência teatral como experiência interdisciplinar formativa, a interdisciplinaridade como crítica à fragmentação do saber, o desafio da reflexividade interdisciplinar na educação escolar, o potencial freireano e interdisciplinar nos processos formativos, as exigências e consequências da complexidade presente na relação entre interdisciplinaridade e educação em direitos humanos, a interdisciplinaridade proposta para a educação física no Referencial curricular do Rio Grande do Sul, a interdisciplinaridade na formação de docentes na Educação infantil na perspectiva da psicanálise e a presença da interdisciplinaridade no campo teórico e no campo de intervenção das políticas educativas.

A relação entre políticas educacionais e formação de professores também foi pauta de estudos e discussões dos pesquisadores do Gepes na disciplina “Políticas de Formação de Professores”, na qual participaram mestrandos, doutorandos e alunos com matrícula especial no segundo semestre de 2018. Destes estudos e discussões resultou a publicação da coletânea Políticas de Formação de Professores (Fávero; Consaltér; Trevisol, 2019) composta de 14 capítulos onde são tratadas as seguintes temáticas: o desafio da prática pedagógica na formação docente de professores de cursos de bacharelado, a pós-graduação stricto sensu como espaço de formação docente no contexto da educação inclusiva, as diretrizes para a formação inicial e continuada dos profissionais do magistério da educação básica, análise comparada entre os planos estaduais de educação do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina sobre a formação de professores da educação básica, a formação docente e a construção da identidade do professor na educação infantil, a especificidade da formação continuada de professores no PROCAMPO, o lugar das humanidades na perspectiva estética da formação docente, a importância da teorias e das pesquisas na formação docente, um estado do conhecimento sobre a formação de professores para o uso de tecnologias, os sentidos atribuídos às tecnologias da informação e da comunicação por professores em formação, as compreensões teórico-metodológicas da interdisciplinaridade na gestão escolar na formação continuada de professores, um diálogo para além da especialidade na relação entre interdisciplinaridade e formação docente.

Lançamento do Livro Docência Universitária em 2015.

Ainda em 2018, o Gepes debruçou-se nos estudos de algumas das obras de Zygmunt Bauman, dentre elas Modernidade Líquida, Vida Líquida, Legisladores e Interpretes, Vida à Crédito, Vigilância Líquida, Amor Líquido dentre outras. Como resultado dos estudos, foi publicada a coletânea Leituras sobre Zygmunt Bauman e a Educação (Fávero; Tonieto; Consaltér, 2019). A coletânea é composta de 17 capítulos nos quais os autores discorrem sobre as seguintes temáticas: a tensão entre ambivalência e a ordem e a questão da solidariedade; ambivalência como paradigma em gestação no mundo líquido, análise de dois modelos formativos a partir das metáforas do peregrino e do turista; as ações e emoções no mundo líquido de Bauman, autoridade docente na modernidade líquida, os desafios do trabalho docente; as práticas pedagógicas e as relações humanas na sociedade líquida; a fragilidade dos laços humanos e a felicidade efêmera na sociedade de consumo; a educação entre Babel e a cegueira moral; os conceitos de indivíduo e de comunidade nas teorias de Norberto Elias e Bauman; a incorporação dos sinais da incerteza na perspectiva do medo líquido; as interações entre Bauman e Freire na relação entre educação e diálogo com as diferenças; educação e o paradoxo da identidade; a dimensão estética na formação do docente universitário no mundo líquido moderno; a síndrome consumista no ambiente escolar; a utilidade do inútil para a democracia social e política do mundo cibernético; e por fim, as ressonâncias do consumismo nos processos educativos na modernidade líquida.

Em 2019, os estudos do Gepes concentraram-se em aprofundar a relação entre Educação e Neoliberalismo. A partir da discussão e trabalho sistemático das obras A escola não é uma empresa de Christian Laval, A nova razão do Mundo de Pierre Dardot e Christian Laval, e da obra Em defesa da escola: uma questão pública de Jan Masschelein e Maarten Simons, o Gepes produziu sua 10ª coletânea intitulada Leituras sobre Educação e o Neoliberalismo (Fávero; Tonieto; Consaltér, 2020). Composta de 22 capítulos, a coletânea aborda, dentre outras, as seguintes temáticas: a escola sob o gerencialismo empresarial; a educação como consumo; negócio versus formação nas políticas para a cidadania na Europa, as parcerias público-privadas e a drenagem dos recursos públicos para as fundações privadas no contexto da reforma do ensino médio; capital humano e neoliberalismo na educação; crítica a pedagogia das competências; a lógica perversa da profissionalização na ideologia empresarial que invade os processos formativos; a perda da identidade escolar decorrente do avanço do empresariamento da educação; a cultura humanista como antídoto ao empresariamento da educação; a responsabilização como mecanismo de mercantilização da educação superior; a colonização neoliberal da subjetividade e os riscos da formação humana; a presença da ideologia neoliberal no processo de transformação da educação em negócio; a publicidade infanto-juvenil nas estratégias de marketing nas escolas; possibilidades de resistência ao processo de mercantilização da educação; a lógica empresarial presente na narrativa “life long learnig” e a cilada do “educar por competências”; a defesa da escola como tempo livre no cenário global; quando modernizar se transforma em domar a escola nos trilhos da ideologia neoliberal; a “profissionalização” como tática de domar o professorado; os avanços e os entraves na formação democrática da escola pública brasileira; quando o neoliberalismo chega à escola por meio de discursos sedutores; quando a educação se torna um simples produto nas prateleiras do mercado.

Em março de 2020, depois do primeiro encontro presencial realizado na Faculdade de Educação da UPF, em função da Pandemia do Covid-19, o Gepes tomou a decisão de continuar os encontros online por meio do Google Meet. A temática escolhida para os estudos deste ano de Pandemia foram algumas obras da filósofa americana Martha Nussbaum, dentre as quais destacam-se Sem fins lucrativos; El cultivo de la humanidad; Crear Capacidades, Educação e Justiça Social; Fronteiras da Justiça; Las mujeres y el desarollo humano, El ocultamiento del humano, dentre outras. Do estudo do ano, resultou na publicação da 11ª coletânea do Gepes intitulada Leituras sobre Martha Nussbaum e a educação (Fávero; Tonieto; Consaltér; Centenaro, 2021). Composta de 18 capítulos, a obra discorre sobre temas instigantes em torno desta potente pensadora contemporânea. Como é referido na apresentação da coletânea, um dos elementos centrais de sua obra é o papel que a educação possui para o fortalecimento da democracia, para o desenvolvimento humano, para a promoção das capacidades humanas e para a justiça social global. O sucesso da publicação fez com que o Gepes organiza-se, em parceria com o PPGEdu, um curso de extensão onde boa parte dos textos da coletânea foram lidos, apresentados e discutidos nos 12 encontros realizados no segundo semestre de 2021. Todo os encontros estão disponíveis no canal do Youtube do Gepes:

Acesse: https://www.youtube.com/results?search_query=gepes+upf+martha+nussbaum

Em 2021, o Gepes possuía mais de 40 participantes. O tema escolhido para ser investigado foi a Teoria da Atuação de Stephen Ball e sua recepção nas pesquisas em educação. Dentre os textos estudados e discutidos durante o ano destacam-se Como as escolas fazem as políticas; Educação Global S.A.; A nova filantropia, o capitalismo social e as redes globais em educação; Intelectuais ou técnicos? O papel imprescindível da teoria nos estudos educacionais; Reformar escolas/reformar professores e os terrores da performatividade, Sociologias das políticas educacionais e pesquisas crítico-social: uma revisão pessoal das políticas educacionais e das pesquisas em políticas educacionais; Profissionalismo, gerencialismo e performatividade, dentre outros. O intenso estudo e os calorosos debates resultaram na 12ª coletânea do Gepes, intitulada Leituras sobre a pesquisa em política educacional e a teoria da atuação (Fávero; Tonieto; Consaltér; Centenaro, 2022). Conforme é referido na apresentação da coletânea, a relevância do estudo da teoria da atuação reside na sua fecundidade analítica como referencial teórico-metodológico para compreender como as escolas e seus sujeitos lidam, no cotidiano das instituições, com as diversas políticas educacionais que interferem e ditam o rumo e o ritmo do trabalho escolar.

Em 2022, o Gepes concentrou seus estudos e discussões nas perspectivas metodológicas da pesquisa em política educacional. Diversos autores e abordagens metodológicas foram teorizadas e sistematizadas nos 22 encontros realizados de forma online quinzenalmente nas sextas-feiras a tarde. Como resultado, o Gepes produziu sua 13ª coletânea intitulada Pesquisa em Política Educacional: perspectivas metodológicas (Fávero; Tonieto; Bukowski; Centenaro, 2023). Conforme é dito na apresentação da obra, a pesquisa científica em educação, diante do desafio de produzir conhecimento de relevância acadêmica e social, atendendo aos critérios de validade e princípios éticos, requer clareza quanto às suas dimensões teórica e metodológica que a compõe. Nos capítulos que compõe a obra, além de três capítulos iniciais que tratam do objeto de estudo da pesquisa educacional, do papel do referencial teórico e do lugar central do problema de pesquisa na relação entre a dúvida científica e a elaboração da pergunta, os demais 13 capítulos abordam as seguintes perspectivas metodológicas: abordagem qualitativa e quantitativa nas pesquisas em política educacional; possibilidades e limites da pesquisa básica e da pesquisa aplicada; a interação e o diálogo com o campo de estudo possibilitado pela pesquisa bibliográfica; o tratamento e a análise dos dados na pesquisa em política educacional; o papel do Estado da Arte nas pesquisas em políticas educacionais; a importância da pesquisa documental na compreensão das políticas educacionais; os usos da análise de conteúdo nas pesquisas em políticas educacionais; a metapesquisa como um campo de construção nos estudos de políticas educacionais; o compartilhamento de saberes na pesquisa-ação; a etnografia das redes como forma de análise das políticas educacionais no cenário global; o estudo de caso na compreensão dos contextos escolares; como se organiza grupos focais em ambientes virtuais; as potencialidades e riscos das entrevistas nas pesquisas em políticas educacionais, dentre outros.

Em 2023, o Gepes tomou a decisão de que mesmo depois da Pandemia, os encontros permaneceriam online tendo em vista que uma parte expressiva dos seus participantes viviam geograficamente distante de Passo Fundo o que tornaria impossível os encontros presenciais. Desde 2021 foram se integrando ao grupo pesquisadores do Mato Grosso, Brasília, Santa Catarina, Rio de Janeiro e diversas cidades do Rio Grande do Sul. Em 2023, somaram-se diversos integrantes de Minas Gerais sob a liderança do professor Paco (UFMG), do Acre (sob a liderança da pesquisadora Adriana), bem como a presença de mestrandos e doutorandos da Unoesc (liderados pelos pesquisadores Márcio e Anderson).

Não poderia deixar de mencionar egressos do PPGEdu que, embora estejam residindo longe de Passo Fundo, continuam participando dos encontros quinzenais e contribuindo com a produção das coletâneas. A temática de 2023, escolhida para estudo e discussão, foi as Políticas Educacionais e Neoliberalismo envolvendo 5 eixos de discussão: Educação Infantil, Ensino Fundamental e Gestão; Ensino Médio; Educação Superior e Formação de Professores. Como resultado o Gepes publicou sua 14ª coletânea intitulada Políticas Educacionais e Neoliberalismo (Fávero; Tonieto; Bellenzier; Centenaro, 2024). Composta de 23 capítulos, tornou-se a obra mais volumosa e representa a fase de consolidação do Gepes. As investigações dos 23 capítulos concentram-se em analisar as reformas neoliberais na educação a fim de identificar os desdobramentos nos diferentes níveis da educação, principalmente na organização dos processos educativos.

Em 2024, o Gepes elegeu como temática de estudo, pesquisa, discussão e escrita “Currículo e Políticas Educacionais”. Nos 22 encontros foram lidos, apresentados e discutidos dezenas de textos sobre a temática que resultou na décima quinta (15ª) coletânea intitulada Currículo e Políticas Educacionais (Fávero; Tonieto; Bellenzier; Bukowski, 2025). Trata-se de uma coletânea comemorativa aos 15 anos do Gepes.

Atual coordenação do GEPES

Em recente matéria sua sobre os 15 anos do GEPES, publicada no site (www.neipies.com/a-trajetoria-de-15-anos-do-gepes/) 59 pessoas manifestaram, por meio de comentários, sobre “O que significa ou significou o Gepes para você?”. O que este retorno tão positivo sobre esta experiência singular de Estudos e pesquisas em Educação Superior significa?

Quero aproveitar esta pergunta para expressar minha gratidão a ti Nei, pela oportunidade de conceder o espaço de publicação no site. Iniciei com uma entrevista sobre “Escola Boa é escola que professores estudam” (https://www.neipies.com/escola-boa-e-a-escola-onde-professores-estudam/) publicada em 24/04/2021 que rendeu mais de 7.300 acessos e na sequência o convite para escrever uma coluna quinzenal. Ao todo foram mais de 100 textos que renderam mais de 130 mil acessos. Foi uma parceria importante, pois foi uma das formas que encontrei de divulgar as pesquisas do Gepes e suas produções para um público mais amplo.

Eu já tinha tido uma experiência de escrever quinzenalmente no Jornal Fato Regional de Vila Maria a convite de meu grande amigo, ex-orientando de mestrado e doutorado Evandro Consaltér. Neste Jornal devo ter escrito umas 70 a 80 colunas de 2014 a 2020. O Jornal tinha a circulação regional em 13 municípios, uma tiragem de 2.000 exemplares e era muito lido nas escolas. Recebi muitos retornos de alguns textos lá publicados. Mas com a coluna no teu site, a abrangência dos escritos atingiu muitos outros lugares, em todo o Brasil e em outros países. Sei por exemplo que os textos são lidos na Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Argentina, Uruguai, Chile, México, Colômbia, Venezuela, Espanha e Portugal.

Quando em maio deste ano escrevi o texto “Trajetória dos 15 anos do Gepes”, não imaginava que teria tantas manifestações sobre “O que significa ou significou o Gepes para você?”. A quantidade e a qualidade dos depoimentos causaram em mim um sentimento de profunda alegria e realização de ter atingido nestes quinze anos tantas pessoas e contribuído para a formação de tantos pesquisadores, pessoas melhores, sensíveis, atentos aos desafios atuais da educação. São depoimentos sinceros, profundos, afetivos, expressivos daquilo que constituiu o Gepes nestes quinze anos. Para os que quiserem compreender o significado profundo do que significa fazer parte do Gepes, indico a leitura dos 59 comentários postados no final da coluna cujo endereço de acesso está na pergunta.

Conte-nos também sobre a experiência e cooperação com outros grupos de pesquisa nacional e internacional.

A pesquisa e a formação de pesquisadores é um processo dinâmico, interativo, persistente, exigente, cuidadoso, trabalhoso, colaborativo. Gosto muito da expressão “comunidade de investigação” cunhada por Charles Peirce no final do século XIX e ressignificada por Matthew Lipman na década de 1980 quando instituiu o Programa Educação para o Pensar – Filosofia para Crianças. Tanto em Pierce quanto em Lipman, a ideia fundamental é que não existe um pesquisador solitário, isolado do mundo, das pessoas e de outros pesquisadores.

A pesquisa se faz de forma interativa, com outros pares, com um diálogo construtivo que nos ajuda enxergar mais longe, retificar nossos erros, compreender outras formas de investigar um campo de conhecimento ou um objeto de estudo. No capítulo “Interação e diálogo com o campo de estudo: a pesquisa bibliográfica em políticas educacionais” (Fávero et al, 2023, p. 102) escrito em parceria com integrantes do Gepes e publicado na coletânea Pesquisa em política educacional: abordagens metodológicas (Fávero; Tonieto; Bukowski; Centenaro, 2023), nos inspiramos na ideia do saudoso Mário Osório Marques, um dos mais importantes fundadores da Unijuí, para dizer que a pesquisa é o exercício de “convocar uma comunidade argumentativa” para dialogar sobre um tema/problema de investigação. Não se trata de qualquer comunidade, ou de uma comunidade espontânea. Conforme nos adverte Marques (2001, p. 98), “trata-se de comunidade especialmente convidada para debater em torno de uma determinada temática”.

Quem convoca é o pesquisador ou o grupo de pesquisadores e o tema/problema a ser investigado. Enquanto anfitriões da comunidade, os pesquisadores precisam ser protagonistas do diálogo com seus interlocutores sem esquecer de realizar um diálogo consigo mesmo e com o tempo. Omitir-se de articular o diálogo com os interlocutores ou até silenciar em situações importantes da conversa com a comunidade argumentativa pode produzir uma escrita teoricamente frágil e/ou falta de autoria.

Dito isso, posso dizer que nestes 15 anos nossa “comunidade argumentativa” do Gepes teve importantes e fundamentais interlocutores, assim como continuam chegando novos. Me refiro não somente aos participantes, mas também os autores, os textos, os intercâmbios que constituíram e constitui o Gepes. Pesquisadores que sempre se mostraram abertos e receptivos aos convites do Gepes. Difícil citar todos com o risco de deixar fora nomes importantes. Pesquisadores Brasileiros e internacionais. Se olharmos as 15 coletâneas já publicadas veremos que em quase todos elas tem participações internacionais e interinstitucionais, o que mostra que o Gepes não é um grupo de pesquisa endógeno, mas sim aberto ao diálogo com outros interlocutores para tornar mais promissora a comunidade argumentativa. Além dos pesquisadores, temos também os autores, os referenciais teóricos, as centenas de textos que serviram de inspiração para que o Gepes pudesse avançar nos estudos e entregar para a comunidade acadêmica suas produções. John Dewey, Richard Rorty, Hannah Arendt, Olga Pombo, Zygmunt Bauman, Martha Nussbaum, Christian Laval; Pierre Dardot, Michael Young, Basil Bernstein, Sthephen Ball, Mônica Ribeiro da Silva, Jefferson Mainardes, César Tello, Jorge Gorostiaga, Nora Krawczyk, Alice Casimiro Lopes, Elizabeth Macedo, Lucídio Bianchetti, Angelo Ricardo de Souza e tantos outros foram alguns dos interlocutores que nos acompanharam por meio dos seus escritos na comunidade argumentativa do Gepes nestes mais de 15 anos de estudos, pesquisas e produções acadêmicas.

Na sua visão, como relacionar qualidade na educação básica e universitária a partir de estudos e pesquisas sobre as práticas docentes?

Tenho defendido em alguns textos, na participação em Bancas de mestrado/doutorado e nas discussões com meus pares de pesquisa que BOA Universidade é aquela que consegue desenvolver com qualidade e de forma potente a indissociabilidade de suas três atividades fins: ensino, pesquisa e extensão. O que isso significa? Como estas três atividades podem ser feitas com qualidade? Como elas se cruzam? De que forma se efetivam?

Por partes:

* não existe qualidade de ensino sem professores altamente qualificados na dimensão epistemológica, didática, pedagógica e ética. Bom professor é aquele que tem muita bagagem teórica, bom domínio de conteúdo, sensibilidade ao contexto, e bom repertório didático-pedagógico; bom professor é aquele que tem um bom relacionamento com os alunos, uma qualificada capacidade de diálogo, um bom domínio da compreensão dos conteúdos que ele tem a obrigação de saber; um senso de cidadania e de justiça social porque o conhecimento que ele trabalha não é neutro e sim politicamente posicionado; humildade epistemológica e pedagógica, para se colocar na condição de alguém que aprende com os alunos e com os novos saberes que surgem todos os dias; aberto e disposto a familiarizar-se com as novas tecnologias, pois são ferramentas importantes e necessárias para comunicar-se melhor com os alunos e acessar novos saberes; conhecedor dos atuais desafios educacionais e das demandas sociais que isso implica; e a lista poderia ser bem mais ampla.

Mas uma boa universidade não pode ser só ensino, por melhor que ele seja ou deveria ser.

Uma boa universidade necessita também ter pesquisa, grupos de investigação, produção acadêmica. As próprias diretrizes da legislação indicam que uma instituição de Educação superior só pode ser universidade se também tiver, além do ensino, pesquisa e extensão. Hoje boa parte da pesquisa que ocorre na universidade está ligada aos programas de pós-graduação stricto sensu. Formar mestres e doutores tem sido uma das diretrizes importantes apontadas inclusive nos Planos Nacionais de Educação. E aqui mais uma vez vem o desafio de que a pós-graduação tenha uma interação direta com a educação básica. Como isso é possível?

De que forma a formação de mestres e doutores pode impactar a educação básica? De várias maneiras, mas gostaria de destacar três delas:

1) formação de mestres e doutores que estão ou vão atuar na educação básica: Estudos mostram que escolas que possuem mestres e doutores em seus quadros melhoram expressivamente os índices de qualidade na educação básica. As redes municipais e estaduais, tanto as escolas públicas quanto às escolas particulares, se pudessem fomentar que seus quadros de professores pudessem fazer mestrado e doutorado. Muitas vezes gasta-se enormes recursos públicos para comprar equipamentos pedagógicos que logo envelhecem e que pouco impactam na melhoria de ensino. Se uma parte destes recursos fosse destinada para formar mestre e doutores num planejamento bem ordenado, em uma ou duas décadas, as redes estariam bem servidas em termos de qualificação de seus professores para a pesquisa.

2) produção acadêmica que os programas podem direcionar para a educação básica: Defendo a algum tempo que a produção de artigos, coletâneas, livros autorais ou trabalhos em Eventos Científico/Acadêmicos deveriam ter foco na educação básica. Não estou afirmando que toda produção deve ser direcionada para a educação básica, mas uma parte significativa sim. Talvez este seria o mais importante impacto de inserção social. Mas essa produção necessita chegar às escolas, às mãos dos professores e servir de subsídio para os grupos de estudo, para os planejamentos, para a elaboração dos projetos de trabalho, na condução do diálogo com os pais, no aprimoramento dos conhecimentos específicos das áreas, na forma como a gestão compreende e dinamiza o sistema educacional.

3) Realização de pesquisa no campo da educação básica: esta terceira possibilidade se articula as duas anteriores. Na medida que temos professores da educação básica realizando mestrado e doutorado, certamente muitos dos seus objetos de estudo estariam sendo direcionadas para o campo da educação básica. Num curto espaço de tempo teríamos muitas dissertações e teses problematizando e produzindo conhecimentos importantes sobre os dilemas, problemas e desafios que fazem parte das preocupações da educação básica. Já existem muitas e de boa qualidade. No entanto, na maioria das vezes não chega até a educação básica, não são acessadas pelos professores e pelas escolas, e mais uma vez tem-se um primoroso conhecimento que fica distante do cotidiano escolar.

A extensão é a terceira atividade fim de uma boa Universidade e deve ser igualmente cuidada, organizada, incentivada e efetivada. A extensão não pode ser reduzida a uma prestação de serviço ou a forma paternalista da universidade se fazer presente na comunidade. Isso seria empobrecer tanto a extensão quanto a potência da universidade. Historicamente a extensão foi o fator mais fragilizado das três atividades fins. Me lembro que nos anos 1990 falava-se do “primo pobre” da universidade, porque recebia pouca atenção e investimentos. Houve um momento que se tentou fazer da extensão uma forma de captar recursos transformando-a em prestação de serviço. Avançar nessa direção significa transformar a Universidade um balcão de negócio e mercantilizar uma de suas atividades fins. Por outro lado, a própria comunidade e o poder público compreende mal ou de forma atravessada a extensão. Muitos só querem tirar da universidade e nada dão em troca. Acredito que nos próximos tempos temos de avançar mais na definição de uma compreensão mais assertiva da própria extensão.

O senhor já defendeu, em outra publicação sua, tese “emprestada” de Gilberto Dimenstein de que a escola boa é a escola onde professores estudam (www.neipies.com/escola-boa-e-a-escola-onde-professores-estudam/). Como? Universidade boa também é onde seus professores estudam?

Sim, já mencionei sobre isso em uma das perguntas acima. Adorei ter feito aquela entrevista, assim como estou gostando muito de fazer esta. Na ocasião que respondi aquela entrevista em 2021, pude recuperar uma memória de quase 30 anos voltado a formação de professores. Boa parte das posições que defendi naquela ocasião continuam atuais e altamente defensáveis.

Minha tese geral é que assim como a boa escola é aquela que os professores estudam, da mesma forma uma boa universidade é aquela que os professores estudam.

E mais uma vez vem a pergunta: o que significa estudar? Estudar não é apenas absorver informações, realizar cursos, ou obter títulos e certificados. O bom estudo é aquele que possibilita refletir e pensar conjuntamente sobre o que fazemos como professores, sobre as problemáticas que são enfrentadas no cotidiano das salas de aula, na forma articulada como são planejadas as aulas, nos desenhos curriculares, no aprofundamento dos conhecimentos específicos que cada professor necessita dar conta para formar bons profissionais, na articulação dos esforços coletivos dos colegiados para identificar e propor soluções que aparecem no âmbito curricular, didático e na modo de fazer universidade.

Sabe-se que não é tarefa fácil e que a vida corrida que boa parte dos professores têm nem sempre oportuniza tempos e espaços para o estudo, principalmente, de forma coletiva. No entanto, este é e será o diferencial de uma BOA UNIVERSIDADE, e instituições de educação superior que transformaram o ensino superior num negócio, numa forma de ganhar dinheiro. A mercantilização da educação é um dos piores problemas do atual cenário da educação superior. Quanto mais a educação vira um negócio, menos a Universidade está cumprindo sua função social historicamente constituída. A Universidade transformada em balcão de negócios perde sua potência, sua vitalidade e sua razão de ainda estar no mundo.

Nos estudos que temos desenvolvido no Gepes, temos denunciado esta forma perversa e destruidora da potência da universidade quando se aproxima cada vez de um modelo de negócio e se afasta de formação do pensamento crítico. A título de exemplo e sugestão de leitura, sobre isso indico as seguintes leituras:  capítulo “Para Além da eficiência e da eficácia: em defesa de uma cultura humanista como antídoto ao empresariamento da educação” (Fávero; Centenaro; Santos, 2023); capítulo “Currículo, conservadorismo e neoliberalismo: o discurso da nova direita para dominar mentes e corpos” (Fávero; Mikolaiczik; Consaltér; Trevisol, 2025); o artigo publicado na Revista Paradigma (Venezuela) intitulado “O avanço do neoliberalismo sob regulação do Estado: o curso de licenciatura em Pedagogia e o predomínio da educação à distância” (Fávero; Mikolaiczik, 2024); o artigo publicado na Revista Literatura em Debate da URI, intitulado “A corrosão dos cursos de licenciatura no Brasil: o tensionamento entre Estado e Políticas Neoliberais na formação de Professores” (Fávero; Mikolaiczik, 2024), dentre outros.

Pra finalizar, quero ressaltar que não se tem BOA UNIVERSIDADE se ela não tem em seus quadros professores pesquisadores, suas atividades-fim direcionadas a equilibrar a formação de bons profissionais e a formação cidadã e que em sua missão tenha a preocupação de formar o pensamento crítico de seus sujeitos educacionais (sejam eles professores, alunos, gestores, pós-graduandos), a sustentabilidade (seja ela econômica, ambiental, política, cultural) e, principalmente, promover a justiça social e a equidade. A Universidade falha em sua missão quando em suas ações não promove estas dimensões e suspeito que dificilmente ela terá êxito se não tiver em seu Planejamento Estratégico, estas dimensões contempladas.

Na sua visão, qual é a importância de sites educativos e reflexivos como o nosso, na promoção de uma educação mais crítica e humanizadora?

Reforço aqui, mais uma vez o que mencionei no início da entrevista e diversas outras questões: considero essencial que aproveitemos todas as forma de divulgar o pensamento, as pesquisa, o conhecimento historicamente elaborado, as proposições importantes pra projetar um sociedade melhor, que promova a justiça social, a equidade, a sustentabilidade e a vida digna para todos. As tecnologias, sites educativos e reflexivos como este, que está divulgando esta entrevista, são ferramentas fundamentais para que possamos divulgar tudo isso.

Num cenário marcado por fake news que tem contaminado a política e a vida social, que destrói a confiança e promove o discurso de ódio e banalidade do mal, encontrar ferramentas como estas que divulgam gratuitamente reflexões potentes para pensar e projetar um mundo possível, torna-se uma dádiva.

Sou esperançoso que ainda teremos uma educação melhor, justa, propositiva de uma sociedade menos desigual e mais solidária. Uma economia endereçada a sustentabilidade e a promoção humana, ambiental e não refém do capital, que instrumentaliza a natureza e os seres humanos para produzir privilégios e lucros para poucos, pobreza e miséria para muitos.

Como bem dizia nosso saudoso patrono da educação Paulo Freire, a educação não muda o mundo; a educação muda pessoas e pessoas mudam o mundo. Que estas sábias palavras possam ecoar na vida pulsante de nossas universidades, hoje ameaçadas por uma mentalidade limitada, técnica, burocrática e instrumental do capital, que aposta num projeto suicida de que o conhecimento tem de virar mercadoria. Que saibamos aprender com os grandes pensadores do passado e do presente que a vida democrática se fortalece quando nossas instituições formativas sejam espaços e tempos de cultivar a universidade de ideias para “produzir cidadãos íntegros que possam pensar por si próprios” e não “máquinas lucrativas” (Nussbaum, 2015, p. 4) gananciosas e egoístas que acreditam que a vida se resume ao bem-estar material.

O que mais gostaria de destacar, na perspectiva dos desafios de qualificar as práticas docentes na Educação Superior, mas também na educação básica?

Para finalizar essa entrevista, gostaria de reafirmar minha esperança na potencialidade da educação de modo geral e do papel da BOA UNIVERSIDADE como casa do saber, da formação cidadã, do pensamento crítico e do fortalecimento da democracia. Sou otimista em relação a isso, se de fato tivermos a coragem de fazer aquilo que tem de ser feito.

Penso que o compromisso ético da universidade na efetivação do seu tripé (Ensino, Pesquisa e Extensão) é formar qualificados profissionais e bons cidadãos. Isso não é alcançado quando a Universidade se torna um balcão de negócios, ou quando se torna refém de influências externas que instrumentalizam a instituição para fins restritamente economicistas ou formatação ideológica de profissionais mesquinhos, competitivos, insensíveis aos problemas ambientais, sociais e culturais. A universidade não pode formar profissionais que só se preocupam consigo mesmo ou com os ganhos financeiros, pois estaríamos formatando “máquinas lucrativas” e não “cidadãos íntegros” para usar a expressão de Nussbaum (2015).

Também preciso dizer que não existe Boa educação e BOA UNIVERSIDADE, sem formação de professores e sem um projeto cuidadoso que oportunize condições para que tanto a formação inicial quanto a formação continuada de docentes, seja bem estruturada, robusta, fundamentada e promotora de um projeto democrático que promove a equidade, a justiça social e a preservação ambiental. Coloco estes três aspectos, pois sintetizam os maiores desafios da sociedade contemporânea.

Em um dos seus últimos livros, intitulado Educação ou Barbárie? Uma escolha para a educação contemporânea, Bernard Charlot (2020, p. 11) é enfático e diz com convicção que em termos de educação “é necessário explicitar e assumir nossa diferença antropológica para redefinir nossa relação com o planeta, com as outras espécies animais, conosco mesmo e com nossos filhos e, em particular, para pensar uma pedagogia contemporânea”.

Os discursos contemporâneos sobre educação, entusiasmados com o discurso da qualidade, na neuroeducação, da cibercultura ou até mesmo do transhumanismo, esquecem que precisamos voltar às perguntas fundantes da dimensão antropológica da pedagogia: que tipo de ser humano queremos formar? Um indivíduo egoísta, narcisista, competitivo, insensível ao sofrimento dos outros e aos problemas ambientais, incapaz de perceber as injustiças e a maldade que está sendo naturalizada? Ou um sujeito capaz de ir além do seu próprio umbigo e seja capaz de lutar por uma vida democrática, pela proteção da nossa casa comum que se chama planeta terra, que consiga perceber as contradições dos discursos falaciosos dos políticos, dos falsos pastores, dos mercenários que ocupam cargos públicos, dos vendedores de ilusões, das fake news que circulam nas redes sociais e em certos canais da imprensa?

Como nos adverte Charlot (2020, p. 11), “se não formos capazes de ir além do atual ‘estudar para ter um bom emprego mais tarde’ e educar nossos filhos como membros de uma espécie humana responsável pelo estado atual e futuro do mundo, será muito difícil escapar desses surtos de barbárie que estamos vivendo e cujas novas formas nos são anunciadas com orgulho pelo pós-humanismo”.

Para concluir, penso que as palavras de Hannah Arendt, no final do famoso capítulo sobre “a crise na educação” publicado no livro Entre o passado e o futuro, se fazem oportunas quando diz que “a educação é o ponto que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele e, com tal gesto, salvá-lo da ruína que seria inevitável não fosse a renovação e a vinda dos novos e dos jovens”.

Não existe futuro sem educação e sem crianças e jovens que possam ter uma formação escolar que tenha compromisso com a proteção do mundo. E a própria Arendt (2003, p. 247) continua: “A educação é, também, onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las do nosso mundo e abandoná-las a seus próprios recursos, e tampouco arrancar de suas mãos a oportunidade de empreender alguma coisa nova e imprevista para nós, preparando-as em vez disso com antecedência de renovar um mundo comum”. O mundo comum referido por Arendt é nossa casa coletiva, nosso meio ambiente, nossa forma de vivermos coletivamente num mundo onde todos se sentem acolhidos e fortalecidos por um modo de vida democrático.

Referências:

ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. 5 ed. São Paulo: Perspectiva, 2003.

CHARLOT, Bernad. Educação ou barbárie? Uma escolha para a sociedade contemporânea. São Paulo: Cortez, 2020.

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FÁVERO, Altair Alberto; TONIETO, Carina; BELLENZIER, Caroline Simon; BUKOWSKI, Chaiane (orgs.). Currículo & Políticas Educacionais. Passo Fundo: Editora UPF, 2025. https://www.researchgate.net/publication/391628516_Curriculo_Politicas_Educacionais

FÁVERO, Altair Alberto; MIKOLAICZIK, Daniê Regina; CONSALTÉR, Evandro; TREVISOL, Márcio Giusti. Currículo, conservadorismo e neoliberalismo: o discurso da nova direita para dominar mentes e corpos. In: FÁVERO, Altair Alberto; TONIETO, Carina; BELLENZIER, Caroline Simon; BUKOWSKI, Chaiane (Orgs). Currículo e políticas educacionais. 1ed.Passo Fundo/RS: EDIUPF, 2025, p. 403-434. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/391583950_Curriculo_conservadorismo_e_neoliberalismo_o_discurso_da_nova_direita_para_dominar_mentes_e_corpos

NUSSBAUM, Martha. Sem fins lucrativos:  por que a democracia precisa das humanidades. São Paulo: Martins, 2015.

Edição: A. R.

Bem estar e saúde integral do docente

Repercutimos, com alegria e satisfação, texto da médica e professora Ana Paula Seibert. Esta publicação é baseada na apresentação e participação no X Congresso dos Professores Municipais de Passo Fundo, realizado pelo CMP SINDICATO no dia 29 de agosto de 2025, que teve como tema central: Precarização da Profissão Docente: e agora?

“Ao propor a reflexão sobre a saúde do professor, antes de mais nada, é preciso pensar sobre o que entendemos que seja saúde: Exames em dia? Dosagem de múltiplas vitaminas? Uso de medicamentos? Sabe-se que a saúde, conforme definição da Organização Mundial da Saúde (OMS), desde 1948, é muito mais do que isso.

De forma muito mais ampla, saúde é, não apenas a ausência de doença ou enfermidade, mas sim um completo estado de bem-estar físico, mental e social. Nós, seres humanos, não somos apenas seres biológicos.

Múltiplos fatores, a saber, o estilo de vida, as redes sociais e comunitárias, as condições de trabalho e vida, como o ambiente de trabalho, a educação, habitação, serviços de saúde, e condições socioeconômicas, culturais e ambientais gerais, influenciam na saúde de todos nós. A saúde é socialmente determinada. É esse o entendimento mais atual do chamado “Paradigma Biopsicossocial”, que é um dos modos de pensar sobre a saúde, utilizado pela área da saúde coletiva, bem como pela minha especialidade dentro da Medicina.

A saúde mental, por sua vez, tão importante para os docentes, sofre a influência de todos esses determinantes sociais, e é definida pela OMS não como um estado sempre calmo de espírito ou a ausência de dificuldades, mas sim como um estado de bem-estar que possibilita desenvolver habilidades pessoais e responder aos desafios da vida (no trabalho, inclusive), contribuindo com a sua comunidade. Qual outra profissão contribui tanto com a comunidade quanto o professor?! Esse trabalhador que forma todas as outras profissões…

Por que falar de saúde docente?

Entre 2022 e 2023, mais de 62% dos professores da educação básica relataram sintomas constantes de estresse, ansiedade ou depressão conforme dados do INEP. Aproximadamente um terço dos professores sofrem da Síndrome de Burnout, em um grupo estudado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), aquele fenômeno atrelado ao trabalho em que a pessoa perde o senso de propósito e tem a sensação de esgotamento laboral.

Ainda, existem os problemas com a voz- instrumento de trabalho – que afetam mais as professoras mulheres, as doenças musculoesqueléticas (dores lombares, tendinites, síndrome do túnel do carpo, etc). E como se não bastasse, a violência escolar triplicou nos últimos 10 anos, tornando esse ambiente de trabalho potencialmente hostil e/ou abusivo.

Os principais fatores de risco para o adoecimento docente incluem fatores individuais, como a obesidade e sedentarismo, tabagismo, abuso de álcool, a história familiar das doenças, presença de doenças crônicas, rede familiar frágil, etc. Mas também fatores coletivos: preconceitos diversos (de gênero, machismo, etarismo, racismo, entre outros), somados à desvalorização docente, a presença de discursos de ódio, a precarização das condições de trabalho, a carga horária excessiva, a vulnerabilidade social da própria comunidade escolar, a fraqueza de mecanismos promotores da saúde docente…

O professor Laércio Fernandes dos Santos escreveu uma interessante reflexão sobre esta temática, a partir de suas anotações no X Congresso dos Professores Municipais de Passo Fundo. Leia também: www.neipies.com/professores-herois-na-propaganda-politica-mas-viloes-no-orcamento-publico/

De fato, percebe-se um grande desequilíbrio entre as exigências feitas ao professor e o apoio recebido, e com esse desequilíbrio, o desamparo ao docente, que é o fator mais adoecedor de todos.

Por outro lado, encontrar a sua rede de apoio, os “cúmplices”, dentro e fora da escola, repensar o papel de profissionais de saúde mental, como os psicólogos, dentro da escola, voltando o olhar para os professores também, fazer uso da intersetorialidade, acionando assistência social, saúde e outros setores sociais quando necessário, são alguns fatores protetivos da saúde docente!

A nível individual, é importante lembrar dos seus limites também, além do seu propósito. Buscar estratégias para lidar com as diferenças, fazer pausas (sempre que possível), alongar-se, hidratar-se, praticar exercício físico (esse com efeitos comprovados tanto para a saúde física quanto mental/social) são outras formas de se cuidar! 

Observar os sinais do corpo e da mente é igualmente importante. Cada um tem o poder de se conhecer. A recorrência e a persistência de sentimentos de tristeza, desânimo, baixa energia, falta de propósito no trabalho, ou em outras áreas da vida, pensamentos de morte, angústia e sintomas ansiosos indicam a a necessidade de buscar ajuda com profissional de saúde. Não deixe o fósforo queimar por inteiro. Olhe para você antes disso.

Por último, mas não menos importante, problemas coletivos exigem soluções coletivas. O enfrentamento à violência, a construção de políticas de valorização docente (cultural e financeira), o aprimoramento dos dispositivos legais e sociais para a promoção de sua saúde e outras ações, só são possíveis a partir da persistência do coletivo.

O professor, portanto, pode estar submetido a diversos fatores de risco que podem prejudicar a sua saúde, no exercício da profissão. A atenção à saúde docente ainda é um desafio, mas compreender as dificuldades e discutir estratégias de enfrentamento a elas, de preferência intersetorialmente (saúde e educação), são passos importantes para superá-lo.

Buscar conexões interpessoais e vínculos significativos ao longo do caminho, da forma como muitos professores que passaram pela minha vida fizeram, e como busco fazer hoje com meus estudantes, é importantíssimo para a nutrição emocional do propósito do professor. Aliar estratégias de cuidado individual às estratégias coletivas é o que mais pode trazer repercussões positivas na saúde e no bem estar docente”.

Referências:

GUSSO, Gustavo; LOPES, José Mauro Ceratti (orgs.). Tratado de Medicina de Família e Comunidade: Princípios, Formação e Prática. 2ª Ed. Artmed

DUNCAN, Bruce B.; GIUGLIANI, Elsa R.J.; SCHMIDT, Maria Inês. Medicina ambulatorial: condutas de atenção primária baseada em evidências. 3. ed. Porto Alegre: ARTMED, 2004.

BRASIL. PORTARIA Nº 4.279, DE 30 DE DEZEMBRO DE 2010, Estabelece diretrizes para a organização das Redes de Atenção à Saúde no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS)

Brasil. Ministério da Saúde. Política Nacional de Promoção da Saúde. [site da Internet]

Comissão Nacional dos Determinantes Sociais da Saúde. As causas sociais das iniquidades em saúde no Brasil – Relatório Final da CNDSS. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2008.

Guia prático de matriciamento em saúde mental / Dulce Helena Chiaverini (Organizadora) … [et al.]. [Brasília, DF]: Ministério da Saúde.

Caderno de educação popular e saúde / Ministério da Saúde, Secretariade Gestão Estratégica e Participativa, Departamento de Apoio à Gestão Participativa. – Brasília: Ministério da Saúde, 2007

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Saúde mental / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. – Brasília : Ministério da Saúde, 2013. 176 p. : il. (Cadernos de Atenção Básica, n. 34)m Saúde Coletiva, 2011.

BENEVIDES-PEREIRA, A. M. T. Considerações sobre a síndrome de burnout e seu impacto no ensino. Boletim de Psicologia, São Paulo, v. 62, nº 137, p. 155-168, 2012.

______. (Org.) Burnout: quando o trabalho ameaça o bem-estar do trabalhador.São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002.

NASCIMENTO, Kelen Braga do; SEIXAS, Carlos Eduardo. O adoecimento do professor da Educação Básica no Brasil: apontamentos da última década de pesquisas. Revista Educação Pública, v. 20, nº 36, 22 de setembro de 2020. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/36/josepho-adoecimento-do-professor-da-educacaobasica-no-brasil-apontamentos-da-ultima-decada-de-pesquisas

Autora: Ana Paula Seibert. Médica de Família e Comunidade; Mestra em Saúde da Família; Professora do Curso de Medicina na Universidade Federal Fronteira Sul

Edição: A. R.

Ser professor sempre foi um ato de resistência!

Independente das dificuldades, ser professor é uma das formas de dar sentido a nossa existência, realizar uma obra social e uma oportunidade de compartilhar aprendizagens com os colegas e estudantes.

Tanto Caetano Veloso como Clarice Lispector nos dizem e alertam que a vida é um sopro. Verdade, o tempo hoje parece estar mais acelerado, sempre ocupado e intenso. Nossa passagem por ele se resume a realizar ações, tarefas e entregas que possam nos dar satisfação e o sentido de que, ao vivenciarmos este tempo, deixamos nossa marca e colaboração para com as pessoas com quem convivemos e, até, para com o mundo.

Neste mês de outubro, quando celebramos o Dia do Professor estou completando quatro décadas de profissão docente. Foram mais de 15 anos de trabalho na educação básica, outros 25 anos no ensino superior (ensino e pesquisa) e alguns outros em experiências de gestão educacional. Independente das dificuldades, ser professor é uma das formas de dar sentido a nossa existência, realizar uma obra social e uma oportunidade de compartilhar aprendizagens com os colegas e estudantes.

Todavia, vivemos em um tempo e um mundo de grandes mudanças, tensões, riscos e incertezas que geram muitas angústias e ansiedades. A educação e os sistemas escolares, de modo especial, vivem e sentem mais profundamente estas transformações sociais, econômicas e tecnológicas que atravessam os processos de formação das novas gerações.

Neste contexto, os profissionais da educação também são impactados e atravessados, justamente porque somos educadores com um grande desafio: educar para mudanças, para incertezas e, principalmente, para desenvolver a humanidade dos seres humanos e a ética. Sim, é necessário relembrar que a função principal da educação é a humanização e o desenvolvimento pessoal e moral dos educandos, ou seja, nossa capacidade de viver juntos, estudar junto e aprender juntos.

Como educadores, temos autoridade e somos, se não os melhores, os maiores influenciadores das novas gerações. Grandiosa responsabilidade.

É neste contexto que temos a responsabilidade histórica e ontológica de acreditar, sonhar e esperançar junto com os estudantes. Jamais podemos desistir de acreditar na formação integral e na humanização das pessoas. Somos seres sociais e seres de relação, com a grande finalidade de preservarmos e viabilizarmos as condições necessária para existir e ser feliz.

Atualmente está sendo mais desafiador ser professor, a nível global e no Brasil. Enfrentamos em nossos estudantes desmotivação para os cursos de licenciatura e maiores dificuldades ainda para permanecer na profissão por parte dos futuros professores, tempo e disposição para estudar. Dificuldades que estão associadas pela falta de tempo disponível (pois trabalham e estão ocupados), porque 80% das matrículas no ensino superior no país precisam ser pagas (em instituições privadas), em cursos de EaD e de baixa qualidade, com carreiras pouco atrativas e ameaças constantes de gestores e familiares ao trabalho docente.

Resistência e valorização do professor

Ser docente é acreditar e investir numa causa: a educação. Educação desprestigiada ao longo dos 525 anos do Brasil pela sua elite e grande parcela da sociedade. Por esta razão e outras mais que “Ser professor sempre foi um ato de resistência”, afirma um jovem que cursa licenciatura em Letras na PUC-RS.

“Quando escolhemos um curso de licenciatura, é comum ouvirmos comentários como: ‘tem que ter muito amor para seguir nessa carreira’ ou ‘só louco escolhe ser professor’. Essas afirmações só provam o quanto a profissão de educador ainda precisa ser valorizada no Brasil e no mundo” complementa o acadêmico de licenciatura.

Para ser professor é necessário, além de uma certa vocação, uma responsabilidade para com o futuro do país. “A educação salva vidas e escolher ser professor é fazer parte de algo maior que nós mesmos”, acredita o jovem estudante. “Quanto mais eu evoluo como profissional da educação, sei que escolhi algo que vai muito além da sala de aula. Estou formando gerações futuras”.

O Brasil é um dos países que mais tem alunos em cursos de formação de professores, mas, em contrapartida, o país tem uma das menores taxas de permanência nessa profissão. Segundo o Censo do ensino Superior 2024, temos mais de 1,7 milhão matriculados nos cursos de licenciatura.

Para a psicóloga Ana Cecília Petersen (PUC-RS) a valorização e o reconhecimento do papel docente dependem da atuação de diferentes atores, e precisaria um olhar mais cuidadoso sobre este papel. O poder público em suas diferentes esferas, deve implementar, por exemplo, a qualificação das estruturas escolares presentes em nosso sistema educacional, assim como desenvolver políticas de valorização e estímulo à formação de novos docentes.

I

Os poderes públicos e privados na contramão

Na contramão de todas as expectativas dos professores e estudantes, o modelo de empresariamento neoliberal e de mercado adotados pelos poderes públicos (União, estados, municípios e mantenedoras privadas) e gestores públicos, o que mais está em curso é uma crescente desvalorização justamente da profissão docente e da carreira.

Por esta e outras razões é que está cada vez mais difícil ser professor no Brasil. Além da destruição das carreiras docentes, seja pela precarização das relações de trabalho e da desvalorização sistemática, sucedem-se patrulhamentos, críticas e ataques à autonomia e à liberdade de ensinar e aprender.

São inúmeras e variadas estratégias de intimidação e cerceamento da ação docente: sistemáticas avaliações de desempenho de estudantes e professores, gestão escolar baseada em metas quantitativas, diretores de escolas escolhidos pelos governantes em detrimento da eleição pela comunidade escolar e, secretários de educação, do meio empresarial.

Destacamos, na sequência, mais algumas evidências recentemente apontadas no Anuário Brasileiro da Educação Básica 2025, publicado em setembro:

– em dez anos, o percentual de concluintes de cursos voltados à docência no ensino superior, na modalidade EaD, saltou de 31% para 64%;

– apenas 68,5% de municípios pagam o piso para os professores com jornada de trabalho de 40 horas semanais;

– nenhum estado brasileiro cumpre o piso nacional para professores temporários, apesar do crescimento de 42% desta modalidade entre 2017 e 2023;

– as redes estaduais são responsáveis por 30% das matrículas da educação básica do país. No ensino médio, etapa com piores indicadores de qualidade no país, elas têm 83,6% dos estudantes;

– a proporção de estudantes com aprendizagem adequada em Língua Portuguesa e Matemática caiu de 8,3% em 2013 para 7,7% em 2023 e,

– segundo o Censo Escolar 2023, 51.6% dos professores que atuam nas redes estaduais são contratados de forma temporária.

Para Fernando Cássio, Professor da USP, a militarização das escolas com a criação de uma corregedoria interna controlada por militares na Seeduc-RJ já abriu centenas de sindicâncias para intimidar professores.

Segundo Cássio, lecionar deixou de ser a prioridade dos educadores nas escolas públicas, sobretudo após a implementação da reforma do Ensino Médio. Professores dão aula quando sobra tempo para isso. A autonomia pedagógica, ainda em vias de se realizar, foi substituída por plataformas educacionais sem eficácia comprovada e pela obrigação de cumprir uma miríade de tarefas estranhas à docência. Os educadores também precisam mediar conflitos graves e lidar com episódios de violência dentro das escolas vivo e acessível a todos.

Resistindo e acreditando na educação pública e laica, continuaremos firmes na luta pela educação e pelo direito da aprendizagem de todos. Ser professor é ser persistente e uma atitude resistência, estando sempre ao lado da educação e compartilhando sonhos com os estudantes por uma Brasil mais justo e melhor para viver.

Feliz dia dos professores e uma boa resistência!

Leia também: www.neipies.com/a-desvalorizacao-docente-e-o-desencanto-com-a-educacao/

FONTE: www.extraclasse.org.br/opiniao/2025/10/ser-professor-sempre-foi-um-ato-de-resistencia/

Autor: Gabriel Grabowski, professor e pesquisador. Também escreveu e publicou no site “Novos e velhos desafios da educação em 2025”: www.neipies.com/novos-e-velhos-desafios-da-educacao-em-2025/

Edição: A. R.

Qual a qualidade de teus pensamentos?

É preciso, pois, nos darmos conta sobre a qualidade de nossos pensamentos, sobre o que estamos pensando, uma vez que o pessimismo, o devaneio, a hostilidade para conosco gera um desequilíbrio emocional de tal intensidade capaz de nos fazer adoecer.

Não há surpresa alguma no fato de um médico cardiologista voltar sua atenção para avaliar as condições de saúde de uma pessoa a partir do coração, ao passo que um pneumologista o faria pela observação dos pulmões. Mas qual seria o foco principal para um psicólogo: estudar a mente? O comportamento? A personalidade? As relações sociais e familiares? Uma psicopatologia? É muito difícil encontrarmos uma resposta específica para um ser humano multifacetado.

Sua saúde está associada ao funcionamento de seus membros e ao de seus órgãos e dos sistemas que os integram, ao mesmo tempo que tem relação também com aquilo que está fora de seu corpo: sua condição socioeconômica, cultural, às relações em família, no trabalho, na sociedade… há muita complexidade!

Agora, se considerarmos que o pensamento é a base de tudo pois, é a partir dele que imprimimos movimento ao corpo e às tomadas de decisões, perceberemos o quão importante é darmos atenção ao ato de pensar. Quando pensamos em comprar algo e impulsivamente o fazemos, logo em seguida pode vir o arrependimento e, junto, uma dívida capaz de durar meses para ser paga, nos tirando o sono, o bom humor, afetando a saúde e limitando-nos a outras realizações. Pensamos em sair de casa (algumas pessoas casam-se com este propósito, porém parte delas acaba arrependendo-se amargamente depois), em iniciar outros estudos, em ter filhos, em trocar de trabalho ou em empreender em algum negócio.

Mas e os resultados? Sejam bons ou maus, uma coisa é certa: são os pensamentos que nos movem e nos levam às atitudes cujas consequências serão de nossa responsabilidade e teremos de arcar com isso.

A Dra Elizabeth Blackburn ganhou o prêmio Nobel em Fisiologia e Medicina em 2009 graças as suas importantes pesquisas e descobertas relacionadas aos telômeros e telomerase, o que ainda hoje contribui muito para a saúde da população. Suscintamente, telômeros são estruturas repetitivas de DNA que ficam nas extremidades dos cromossomos (com a função de protegê-los), as quais, por um processo natural, vão desgastando-se e encurtando com o passar dos anos, diminuindo de tamanho. Quanto mais lento for este processo, maior nossa longevidade.

Em sua pesquisa (juntamente com a psicóloga Elissa Epel) a Dra Elizabeth fez muitas descobertas (várias delas descritas no livro “O segredo está nos telômeros”), como a comprovação de que o estresse mental encurta os telômeros e mais do que isso, elas mostraram que o estresse é diretamente influenciado pelos nossos pensamentos. 

Sua pesquisa mostrou que somos capazes de produzir cerca de 65 mil pensamentos por dia, sendo que 90% desses pensamentos são repetições de outros já produzidos anteriormente. Isto quer dizer que temos o hábito de remoer e de ficarmos presos a pensamentos, hábito que faz muito mal à nossa saúde, pois o estresse decorrente gera muitas toxinas em nosso corpo. É preciso, pois, nos darmos conta sobre a qualidade de nossos pensamentos, sobre o que estamos pensando, uma vez que o pessimismo, o devaneio, a hostilidade para conosco gera um desequilíbrio emocional de tal intensidade capaz de nos fazer adoecer.

Por fim, as pesquisadoras sugerem que busquemos uma faixa vibratória de pensamentos mais saudáveis, o que é possível através de um pensamento resiliente, típico da conscienciosidade, característica de pessoas com alta organização, disciplina, responsabilidade e foco em objetivos, associado a comportamentos como planejamento e autocontrole. 

Pessoas com alta conscienciosidade são diligentes, organizadas e orientadas para o sucesso.

Quer atingir tal mudança? Comece por dar atenção aos seus pensamentos, a ser gentil consigo mesmo, a sorrir, praticar atividades físicas, ter bons hábitos, realizar um trabalho voluntário…. são tantas as opções saudáveis que a sugestão de sessões de psicoterapia não poderiam ficar de fora. Busque algumas que sejam possíveis de realizá-las e saiba, sua saúde agradece!

Fonte: Qual a qualidade de teus pensamentos? – Homem na psicologia

 Autor: César Augusto de Oliveira – psicólogo clínico. Também escreveu e publicou no site “Autoimagem: quando o vazio é existencial, não há matéria que o preencha”: www.neipies.com/autoimagem-quando-o-vazio-e-existencial-nao-ha-materia-que-o-preencha/

Edição: A. R.

Jornada a declarar: como revitalizar os eventos literários em Passo Fundo

A revitalização da Jornada de Literatura de Passo Fundo passaria por uma mudança de foco: deixar de ser um evento gigantesco e se tornar um evento mais íntimo e vibrante, conectado com a vida cultural da cidade, afinal, Passo Fundo é a capital do mundo, pelo menos repeti isso minha vida toda.

Os festivais literários se tornaram um importante espaço de encontro, celebração e difusão da literatura. No Brasil, alguns eventos se destacam, como a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que se tornou referência global, e a Balada Literária de São Paulo, conhecida por seu formato mais informal e descentralizado. Outro evento que ganhou notoriedade foi a Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, que por anos foi um dos maiores e mais influentes festivais literários do país, iniciado lá nos anos 1980 no auditório do clube Juvenil com autores vindos inicialmente de graça pela amizade com a professora Tânia Rösing.

Ao longo do tempo, o modelo da Jornada de Passo Fundo foi perdendo fôlego e, por uma série de motivos, acabou se dissolvendo. O formato se tornou grandioso, isso exigia muitos recursos e uma infraestrutura complexa, deixou de ser viável.

Grandes artistas vinham à cidade. Leia esta matéria: www.neipies.com/ziraldo-era-o-proprio-menino-maluquinho/

De uma hora pra outra surgiu a Flip, no centro do país e não no canto sul, com sua capacidade de atrair grandes nomes internacionais e a força de sua marca, acabou por se tornar a referência do mercado, enquanto o evento gaúcho viu seu protagonismo diminuir até sua extinção.

Mas é possível reverter esse quadro e revitalizar a Jornada de Literatura de Passo Fundo. O segredo é adotar um modelo mais simples, dinâmico e com poucos recursos, inspirado em eventos como a Balada Literária de São Paulo, organizada por Marcelino Freire, e a Festipoa Literária, criada em Porto Alegre.

A proposta é simples: organizar uma semana de bate-papos em livrarias e cafés da cidade. As atividades seriam descentralizadas, mas aconteceriam em locais próximos para facilitar a circulação do público. Para animar as noites, seriam realizadas festas em bares e, pelo menos, uma balada.

O convite para os autores seria direto e pessoal. Seriam convidados cerca de seis artistas e escritores de renome de Porto Alegre e um ou dois de São Paulo, com apoio do Sesc. A ideia seria oferecer em troca apenas passagem e estadia, sem remuneração na primeira edição. Para viabilizar isso, seriam fechados convênios com hotéis e restaurantes da região.

As atividades começariam na terça-feira e terminariam no sábado, sempre no período da noite, com a possibilidade de organizar oficinas à tarde no Sesc. O domingo seria livre para um churrasco de confraternização, um momento para os artistas convidados e a equipe celebrarem a experiência. A festa de encerramento no sábado seria um espetáculo à parte, mostrando a riqueza da cultura local com teatro, música e outras manifestações artísticas.

Esse modelo de evento é mais direto e mais econômico. Ele prioriza a proximidade, o diálogo e a celebração da cultura local, sem a necessidade de uma estrutura complexa e onerosa.

A revitalização da Jornada de Literatura de Passo Fundo passaria por uma mudança de foco: deixar de ser um evento gigantesco e se tornar um evento mais íntimo e vibrante, conectado com a vida cultural da cidade, afinal, Passo Fundo é a capital do mundo, pelo menos repeti isso minha vida toda.

Em 2015, publicávamos reflexão no site “Cancelamento da Jornada da Literatura: uma tragédia?”: www.neipies.com/jornada-nacional-de-literatura-uma-tragedia/

Autor desta coluna: Leandro Malósi Dóro. Também escreveu e publicou no site “Vida Ed Mort”: www.neipies.com/a-vida-ed-mort/

Edição: A. R.

Tradicionalismo e sociedade: combate à violência contra a mulher no Rio Grande do Sul

“Nos alicerces da história, sustentando toda uma raça, erguem-se gigantes — mulheres que, como o próprio sol, iluminam e aquecem a alma do nosso povo. Elas sopram esperança em forma de vento e firmam as bases desta estirpe chamada: MULHER!”

Apresentamos, nesta publicação, interessante reflexão de Bárbara Vitória Spannenberg Vieira sobre os desafios do tradicionalismo diante das realidades da violência contra as mulheres no RS.

Segue o texto.

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Saudações tradicionalistas!

Conforme a temática proposta feita pela Gestão de Prendas e Peões 2025/2026 no último Congresso Tradicionalista do MTG/RS realizado na cidade de Cachoeira do Sul: “O Tradicionalismo dos Galpões à Sociedade: Movimento Tradicionalista Gaúcho no combate à Violência Contra a Mulher”, reafirmamos nosso compromisso com a dignidade humana e com a valorização da mulher gaúcha em todos os espaços da sociedade.

O Movimento Tradicionalista Gaúcho, por meio de sua Carta de Princípios, em seu ítem IX:  orienta que se deve “defender os princípios da liberdade e da dignidade do ser humano”. É com base nesse compromisso ético e social que, em 2025, o MTG propõe como tema anual a urgente e necessária reflexão sobre o combate à violência contra a mulher no Rio Grande do Sul.

Conforme o Atlas da Violência, nosso estado apresentou uma das maiores taxas de feminicídio do Brasil, números evidenciam a dor de mulheres que, muitas vezes, silenciam diante do medo e da opressão. Esses números não são apenas estatísticas — são gritos silenciados, histórias interrompidas, famílias devastadas. E diante disso, o tradicionalismo não pode ser apenas guardião de danças, músicas e indumentária — deve ser também instrumento de transformação social, de resistência e de acolhimento.

A mulher gaúcha, que já foi tropeira, costureira, educadora, guerreira, líder, protagonista em tantas frentes históricas e culturais, não pode ser esquecida quando mais precisa ser defendida. Figuras como Nilza Lessa, primeira coordenadora do Departamento de Prendas do MTG, referência na integração entre arte e liderança feminina, são exemplos de mulheres que abriram caminhos com coragem e visão dentro do tradicionalismo mostrando que o protagonismo feminino caminha lado a lado com a tradição.

Como prenda, não representamos apenas a beleza da tradição, mas também o seu poder de educar. Precisamos ocupar nossos CTGs com projetos que fortaleçam o respeito, o acolhimento e a denúncia da violência. Precisamos ouvir, orientar, dialogar, promover rodas de conversa, fortalecer vínculos e proteger aquelas que são a base de nossos lares, entidades e comunidades.

O tradicionalismo não pode compactuar com discursos ou práticas que silenciem o sofrimento feminino. Deve, ao contrário, se posicionar com firmeza e empatia. A tradição gaúcha, que reverencia a força da mulher na lida campeira e na construção da identidade do Sul, deve também ser aliada na luta por equidade, segurança e justiça.

Em minha participação em gestões internas pesquisamos sobre prendas, a mulher gaúcha e seu papel na sociedades como os afazeres domésticos da época farrapa, homenageamos na avenida no desfile farroupilha heroínas de nosso tempo e promovemos atividades junto à Liga Feminina de Combate ao Câncer com temáticas do período, sendo assim, acredito que possamos realizar junto à Defensoria Pública, Procuradoria da Mulher na Câmara e à Coordenadoria da Mulher muitos eventos de conscientização e combate à violência.

Que o lenço no pescoço seja também símbolo de luta, que o vestido de prenda carregue, além de beleza, coragem, que o galpão seja espaço de cultura, mas também de escuta e acolhimento. E que o tradicionalismo gaúcho, com sua força e raízes profundas, seja também solo fértil para o florescer de uma sociedade mais justa, igualitária e livre de violência!

Que sejamos porta-vozes de um tempo novo, onde a tradição rime com proteção, e a cultura caminhe ao lado da justiça. E que a Ciranda, mais do que um concurso, seja uma roda de união, consciência e protagonismo. Porque não há tradição que sobreviva sem o respeito à vida. Porque nenhuma mulher deve ter medo de existir!

Bárbara Vitória Spannenberg Vieira, Gaúcha da capital do Planalto Médio, II Semestre de Publicidade e Propaganda na UPF,  1ª Prenda do CTG Lalau Miranda – 7ª RT.

Autor da coluna: Alexandre da Rosa Vieira. Também escreveu e publicou  no site “A cultura gaúcha como síntese de união e  força social: www.neipies.com/a-cultura-gaucha-como-sintese-de-uniao-e-forca-social/

Edição: A. R.

Uma filosofia do real

O pessimismo filosófico, nesse cenário, vem nos lembrar que somos humanos, apenas humanos. E, como humanos, somos limitados. Bem limitados. E isso não é um problema.

O anúncio da vinda de Luiz Felipe Pondé a Passo Fundo me levou a reler alguns trechos de suas obras. De modo geral, sempre apreciei seus apontamentos, excetuando-se pequenas discordâncias. Na verdade, o que me atrai é o pessimismo, que eu diria clássico, empregado em seu discurso. Ele conduz a uma humildade intelectual que, pasme, pode até ser vista como arrogância por alguns.

Parece contraditório? É porque é! Justamente por não se prender a tantas certezas, o pensamento de Pondé viaja entre os opostos, trilhando um caminho distante dos absolutismos filosóficos de séculos anteriores. Não por acaso, essa postura é malvista por parte da intelectualidade brasileira, por vezes identificada com posicionamentos políticos acirrados. É o próprio Pondé, aliás, quem afirma não confiar em sistemas de pensamento organizados. Ele prefere, ou aceita, já que talvez não reste outra alternativa, uma postura mais pessimista.

Mas é interessante, antes de incorrermos em erros conceituais, analisarmos o significado do pessimismo. A partir daqui, falarei mais do que me parece, ou seja, do que me apetece — longe de mim buscar uma definição exaustiva.

Quando me refiro a pessimismo, falo de uma postura, uma identificação que tem como principal alicerce a aceitação dos limites do humano. Como diria Nietzsche, tudo é “humano, demasiado humano”. Esse pessimismo, enquanto aceitação daquilo que somos e, por extensão, também do que o mundo é, vai na contramão do espírito forçadamente positivo de nosso tempo. Isso ocorre em duas frentes: seja no sentido filosófico, que projeta um plano positivista de desenvolvimento da ciência e, por conseguinte, do controle do humano e da natureza; seja no sentido de nos forçarmos, a todo momento, a vermos a vida de modo “positivo”.

O sentido filosófico de positivo sugere que, por meio do conhecimento, teremos, necessariamente, uma vida mais feliz. Não nego que o conhecimento possa trazer mais satisfação em certos contextos, mas elevá-lo a uma verdade absoluta é, no mínimo, ingenuidade.

A figura do sábio triste, justamente por saber mais do que devia, é bem conhecida em diversas culturas. Da mesma forma, desenvolver a ciência em busca do controle total das forças naturais não garante, por si só, maior felicidade. Que o digam as duas Guerras Mundiais e o vasto arsenal tecnológico usado para matar…

Contudo, é no sentido do pensamento positivo que o pessimismo, a meu ver, se torna extremamente importante. Vivemos uma onda de exposição na internet que nos leva a querer ser SEMPRE felizes. A positividade é essencial nesse processo. A ordem é ser feliz a qualquer custo, de qualquer maneira — porque, obviamente, existe uma fórmula “certa”; você só precisa descobri-la.

O pessimismo filosófico, nesse cenário, vem nos lembrar que somos humanos, apenas humanos. E, como humanos, somos limitados. Bem limitados. E isso não é um problema. Ao nos apontar os limites da experiência, o pessimismo filosófico nos torna humildes, o que, por sua vez, facilita a aceitação da vida e, veja só que interessante, pode nos tornar mais felizes!

Quando aprendemos a aceitar o mundo e, a partir disso, fazemos o melhor que podemos, paramos de projetar no outro o ideal que só existe em nossa mente.

Analise boa parte das tragédias políticas do século XX e você verá que muitas delas ocorreram porque um grupo de indivíduos tentou, a todo custo, implantar no mundo as arrogâncias que traziam em suas doentes cabecinhas! E, se para isso fosse necessário matar centenas, milhares ou milhões, eles estavam prontos a pagar o preço. Nem preciso dizer que isso nunca deu “certo”.

Por essa ótica, considero a vinda de Pondé a Passo Fundo muito interessante. Ele vem para falar sobre Inteligência Artificial, mas, por trás desse tema, carrega toda a sua bagagem, baseada em uma forma clássica de pensar que não hesita em desagradar a gregos e troianos, ficando ao lado da busca de alguma verdade, ainda que longe de ser absoluta.

O evento está sendo organizado pelo Instituto Sétimo Saber, que já trouxe outros autores de renome para Passo Fundo, como Raphael Montes. Sem dúvida, iniciativas louváveis de promoção cultural e literária.

SAIBA MAIS: Inscrição – O Impacto da Inteligência Artificial nas Relações Ministrante: Dr. Luiz Felipe Pondé

https://www.instagram.com/setimosaber

Autor: Aleixo da Rosa. Também escreveu e publicou no site “Professores não sabem nada”: www.neipies.com/professores-nao-sabem-nada/

Edição: A. R.

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