Entenda o que fez uma professora renunciar a um concurso público na rede pública de educação. Ela pergunta: que sociedade é essa que presta homenagens aos professores no dia 15 de outubro, exaltando a profissão que forma todas as outras, mas esquece deles no restante do ano? Pior que isso, não só esquece, mas despreza e não reconhece seu valor.
É um privilégio poder escolher sua profissão; no meu caso, acho que ela me escolheu. Comecei a atuar em sala de aula muito cedo, bem antes de ter qualquer pretensão sobre o que faria profissionalmente. Comecei por acaso e, aos poucos, me apaixonei pelo magistério. Lecionei a disciplina de Língua Inglesa em escolas e cursos de idiomas, trabalhando com crianças, adolescentes e adultos. Da experiência com as crianças veio o desejo de cursar Pedagogia, muitos anos depois ingressei na educação infantil da rede municipal de ensino.
Apesar dos inúmeros desafios que enfrentamos diariamente ao trabalhar com seres humanos em constante formação, nunca tive dúvidas sobre minha escolha.
Aprendi muito na educação infantil, período em que pude me dedicar a esse público ímpar que são as crianças em idade pré-escolar. Trabalhei com os mais distintos grupos de estudantes, passei por mudanças de governo e nova gestão, tanto na escola em que atuava quanto na Secretaria Municipal de Educação.
Mais de uma década após ingressar na rede, estive frente a um novo desafio: assumir uma segunda matrícula, desta vez nos anos finais do ensino fundamental. Apesar de ter sido chamada para assumir a disciplina de Língua Inglesa, para a qual prestei o segundo concurso, precisei trabalhar com projetos nos anos iniciais por seis meses. Como entrei na metade do ano e as escolas já estavam organizadas, tive de encarar os projetos que não tinham relação com a minha formação, mas era o que tínhamos no momento. Foi um aprendizado, mas foi muito desgastante, planejamentos de disciplinas diferentes, muitas turmas do primeiro ao quinto ano do ensino fundamental.
Após esse turbilhão de acontecimentos, consegui conciliar minha carga horária de Língua Inglesa em uma única escola, com turmas do sexto ao nono ano. Imaginei que a fase mais difícil havia passado, pois a partir desse momento estaria trabalhando na minha área de formação, com uma disciplina para a qual tinha formação. Enorme engano o meu, foi aí que tudo piorou.
Antes de prosseguir, apenas um adendo: tenho 30 horas na educação infantil, já a nova matrícula tinha carga horária de 20 horas. Esse novo cargo deveria dizer respeito a vinte horas semanais da minha vida, que inclui várias instâncias além do trabalho. No entanto, o que aconteceu foi muito diferente disso.
Voltando à história, assumi apenas a disciplina de Língua Inglesa, mas continuei com várias turmas e inúmeros planejamentos. Além de salas lotadas, tinha uma média de dois alunos com laudo em cada uma delas. As exigências de planejamento específico para cada estudante com deficiência – que somavam-se aos planos mensais, trimestrais e anuais de cada turma – levaram a uma demanda excessiva de materiais a serem organizados e postados. Isso sem falar no preenchimento do sistema com presenças, conteúdos e avaliações, que também precisavam ser diferenciadas para cada aluno incluído.
A sobrecarga de trabalho era imensa e a sensação que eu tinha era que tornava-se mais pesada a cada mês que passava. Sempre tinha um novo projeto, mais uma avaliação, outras atividades a serem postadas na plataforma de ensino em dia de reunião pedagógica, mais uma criança com laudo chegando na turma, mais burocracia e prazos, mais e mais trabalho, exigências e cobranças.
Como não poderia deixar de ser, em meio a esse cenário veio o adoecimento, a fadiga, a ansiedade, o desânimo.
O trabalho deveria ser apenas uma parte da nossa vida, sem tomar o tempo que precisamos dedicar à família, aos cuidados pessoais, ao lazer, ao bem estar em geral. O que os professores vivem hoje vai de encontro a isso, pois o que vimos é o trabalho “roubando” parte da vida pessoal, levando-nos a adoecer e ter uma qualidade de vida ruim. Nesse período, lutei com os diversos sinais que meu corpo dava que não estava bem, com a baixa imunidade e o alto nível de estresse.

Eu conhecia esses sintomas, pois converso diariamente com colegas professores que me procuram no sindicato para relatar suas angústias. Também vi colegas na escola em que trabalhava passando por situação semelhante, eu não estava sozinha nessa batalha. Em seguida, iniciei um processo de crise de ansiedade, momento em que percebi que tinha ultrapassado meus limites e precisava repensar minhas escolhas. Vivi exatamente o que ouvia nos relatos dos docentes que atendia, senti na pele as dificuldades que sofriam. Pensei em desistir!
Desde o momento em que tive esse pensamento pela primeira vez e o dia em que realmente me exonerei da rede municipal passaram-se alguns meses. Não queria acreditar que estava cogitando a exoneração, não queria admitir que não suportava mais. O magistério foi a profissão que escolhi e nunca tive dúvidas sobre essa opção. Sabemos que é um ofício desafiador, mas através do qual sempre me senti realizada. Apesar das dificuldades normais da profissão, nunca passou pela minha cabeça fazer algo diferente. Sou professora por escolha, estudei muito a vida toda para exercer o magistério da melhor forma possível, dedicando-me aos alunos e fazendo a diferença na sua formação.
Quando decidi fazer concurso público, estudei, me preparei, sonhei com o ingresso na rede municipal. Ninguém ingressa num cargo dessa forma pensando em ficar por algum tempo e, caso não der certo, desistir.
A carga emocional dessa decisão foi muito pesada, parecia não ser certo, parecia que algo estava fora do lugar. Como eu poderia desistir depois de tudo? Foi para isso que tanto estudei e me qualifiquei? O que deu errado no meio do caminho? Eram muitas perguntas e incógnitas, angústias e aflições.
Em meio a esse turbilhão de pensamentos e emoções, fui vivendo semana após semana, esperando que uma resposta mágica aparecesse, o que não aconteceu. Minha saúde se deteriorava a cada dia, não tinha tempo para acompanhar minha filha pequena, não tinha tempo para quase nada além do trabalho, o que acabou tornando a profissão que tanto amava um fardo muito pesado para carregar. Foi quando percebi que não poderia continuar, por mais medos e dúvidas que tivesse. Tomei a decisão de pedir minha exoneração e abrir mão do lugar pelo qual batalhei, e que entendia ser meu por direito.
Quando consegui avisar a todos que não retornaria à sala de aula após o recesso escolar, parece que já me sentia aliviada, finalmente teria alguma qualidade de vida. O simples fato de tomar essa decisão e comunicá-la aos colegas tirou um peso de minhas costas. O último mês de aulas teve muito trabalho, pois queria deixar tudo organizado para quem iria me substituir, mas mesmo assim foi mais leve.
Sentia-me responsável por todos os alunos que estavam em minhas turmas, já os conhecia, queria continuar contribuindo com o seu desenvolvimento, o que causou um vazio por abandonar o barco no meio do caminho. Mas era a única coisa que poderia fazer, pois caso persistisse, minha saúde estaria em jogo. Foi difícil, porém necessário.
No dia em que registrei oficialmente meu pedido de exoneração me senti estranhamente feliz. Não fazia sentido me sentir feliz por deixar de ser professora, mas esse era o sentimento: alívio.
Essa experiência me fez refletir sobre o que está acontecendo com a profissão docente. Como pode uma professora ficar feliz por sair da sala de aula? Como pode desenvolver ansiedade ao pensar em entrar em seu ambiente de trabalho? Como pode gostar de sua função pedagógica, mas adoecer com todas as demandas que os gestores lhe atribuem diariamente?
Que sociedade é essa que presta homenagens aos professores no dia 15 de outubro, exaltando a profissão que forma todas as outras, mas esquece deles no restante do ano? Pior que isso, não só esquece, mas despreza e não reconhece seu valor. A partir de que ponto nossa profissão passou a ser tão desvalorizada? Que sociedade estamos formando quando colocamos docentes esgotados para dar aula em turmas lotadas, com inúmeras demandas, mas sem o suporte necessário? Até quando teremos professores?
São muitas perguntas e poucas respostas, no entanto, o que vale é a reflexão. Não podemos naturalizar essa situação, precisamos instigar nossos colegas a pensar em como chegamos a esse ponto, pois só assim poderemos vislumbrar formas de mudança. A resignação e a estagnação não podem jamais ser nossa opção, pois, como dizia Paulo Freire, “Enquanto eu luto, sou movido pela esperança; e se eu lutar com esperança, posso esperar”.
LEIA TAMBÉM: www.neipies.com/ser-professor-sempre-foi-um-ato-de-resistencia/
FONTE: https://issuu.com/cmpsindicato/docs/cartilha_um_grito_pela_educa_o_
Autora: Débora de Araújo Soares, professora da rede municipal de Passo Fundo, RS.














Um final de história feliz! Parabéns pela sua coragem, profa! Que esteja feliz agora que pode respirar aliviada. Que encontre outras maneiras de ser educadora (se ainda desejar) com muita satisfação e leveza. Que texto! traduziu muito do que tenho vivenciado. Estou recente na docência no fundamental 2 e já com a certeza que esse será o último ano. Penso que a valorização do professor deveria vir de cima, das instituições, em uma ótima remuneração e muito mais que isso, um corpo técnico de apoio a todas essas atividades que vão se desdobrando, sobretudo as burocráticas, as de sistema e coisa parecida; o reconhecimento institucional deve vir expresso em respeito da carga horária de trabalho de planejamento e de limite de turmas.. sinto falta de ter tempo de estudar, de ler um livro, professores não tem mais tempo de se preparar para aulas!.. enfim, percebo que ha supervalorização hoje dos alunos e professores ficaram de lado. Nem mesmo os pais respeitam, na a toa, casos e mais casos de professores que sofrem vários tipos de violência dentro das escolas. Eu to cansada, acabei de entrar e já estou de saída. Procurar outra carreira.
Fiquei feliz com teu comentário, Silvio Bedin. Precisamos, urgentemente, de uma política de cuidado com os professores e professoras das escolas públicas, preferencialmente. Não podem mais ser os heróis na política e os vilões no orçamento público.
Impactante e comovente o teu depoimento e reflexão professora Débora. Tocas em questões que precisam ser encaradas de frente como desafios aos gestores da educação e aos que tem responsabilidade com as políticas educacionais. É preciso pensar o Cuidado com os que cuidam e ensinam com diretriz fundamental.
Grata pelas palavras, Silvio! Essa foi, com certeza, uma experiência que teve grande impacto na minha vida. Como disse, nos preparamos para um concurso público, criamos muitas expectativas. Ninguém faz isso pensando em exoneração, para mim foi uma frustração enorme.
Após mais de vinte anos dedicados ao magistério, sinto que estamos no momento mais crítico da profissão atualmente. Infelizmente, o apagão docente caminha a passos largos, logo será realidade em nosso município.
Só este ano, até o dia de hoje, 22 professores pediram exoneração em Passo Fundo, todos docentes com matrículas novas. O município fez concurso, nomeou professores, mas a falta de profissionais é constante. Isso só pode ser explicado pelo número crescente de exonerações.
Minha pergunta é: o que vai acontecer depois que parte do quadro do magistério municipal se aposentar? Ainda temos professores aqui devido aos colegas com matrículas antigas, que estão mais perto do fim que do início da carreira. Os jovens já não se interessam pela docência, e os que persistem em buscar essa formação e prestam concurso público, acabam se desiludindo.
Que esperança de futuro temos quando o poder público contribui para o adoecimento dos professores, transformando a prática pedagógica em dor, tristeza, desilusão e angústia?