Sentir e pensar no agir educativo

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Acreditar na democracia é reconhecer o valor da contradição, da divergência e das diferenças. É admitir o potencial educativo e transformador dos conflitos, o valor do dissenso e da mobilização social. É reacender a dimensão político-pedagógica da cidadania e o compromisso com a justiça social.

Sentir e pensar o processo educativo é como contemplar o mistério da semente. A semente nunca viu a flor, e a flor nunca viu a semente — assim como o fruto não conheceu nem a flor nem a semente. No entanto, todas essas fases se pertencem. A verdade da semente é a árvore: se a semente não se torna árvore, não cumpre sua vocação. E a missão da árvore é produzir frutos, condição para novas sementes, para futuras florestas.

Trazendo essa metáfora à realidade humana, é preciso compreender que o ser humano só cresce por meio de um esvaziamento plenificador. A semente que não morre não germina; não floresce nem se realiza como árvore.

É necessário aceitar a beleza da serenidade nos ciclos de nascer, amadurecer e morrer. O presente precisa tornar-se o articulador entre o passado que repara e o futuro que anima. Aqui o tema é subjetividade e memória. Como gestar um processo pedagógico que, inspirado na metáfora da semente, valorize a originalidade na produção literária e a autoria no ato de educar? Como educar sem sufocar a singularidade de quem aprende, e sem mecanizar a ação de quem ensina?

Os algoritmos, por sua vez, não correm o risco de serem apenas a morte da semente? O fim da escuta, o engessamento da criação, o emperramento do processo pedagógico?

A espiritualidade e a naturalidade não são dimensões opostas: ambas pertencem ao processo de formação humana.

A rigidez das verdades universais perdeu terreno. Vivemos o tempo das mentiras plurais, da pós-verdade — onde a mentira se afirma com autoridade e se veste de opinião.

Mente-se todos os dias. Mentir virou uma façanha da razão ardilosa. O imperativo categórico está em desuso. Vivemos o fingimento cotidiano, o simulacro como norma.

Mas ainda faz sentido falar em educação? Como afirmar a verdade quando a mentira impera, inclusive no plano epistêmico-pedagógico? Optar por uma sociedade democrática é crer que o poder deve emergir do povo, e que as decisões políticas devem atender ao bem comum. É garantir o direito de todos à moradia, à saúde, ao trabalho, à educação, ao lazer, ao transporte — enfim, à dignidade.

Acreditar na democracia é reconhecer o valor da contradição, da divergência e das diferenças. É admitir o potencial educativo e transformador dos conflitos, o valor do dissenso e da mobilização social. É reacender a dimensão político-pedagógica da cidadania e o compromisso com a justiça social.

A educação, nesse contexto, não é neutra. Educar é um ato de resistência. Em tempos de “pós-tudo”, educar para a verdade é semear em solo árido — mas ainda é plantar. E quem planta, ainda crê na possibilidade da colheita.

Semear é preciso!

Autor: José André da Costa. MSF. Prof. das Faculdades INTEGRA. Também escreveu e publicou no site “A dimensão política da educação”: www.neipies.com/a-dimensao-politica-da-educacao/

Edição: A. R

1 COMENTÁRIO

  1. DO AUTOR JOSÉ ANDRÉ DA COSTA:
    “Acreditar na democracia é reconhecer o valor da contradição, da divergência e das diferenças. É admitir o potencial educativo e transformador dos conflitos, o valor do dissenso e da mobilização social. É reacender a dimensão político-pedagógica da cidadania e o compromisso com a justiça social”.

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