Qual o limite para suportarmos a tragédia do feminicídio em nossas cidades?

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Ninguém está cuidando das mulheres! Tanto que são mortas, quantas, mesmo com medidas Judiciais ‘protetivas’.

Tainara Souza Santos não irá passar este Natal em casa. Quem cuidará de suas filhas? (1)

Grande mulher, esta Tainara!  Insistiu em viver. Perdeu suas pernas, todavia, em um preço que pagou por discutir com um monstro, fantasiado de homem, que a arrastou sob seu carro, em São Paulo, por um quilômetro; segundo a imprensa. Como ficou presa sob o veículo, sofreu amputação de suas pernas. Nem pensar nisso, queremos, sendo arrastadas e queimando em um asfalto quente, dilaceradas por um verdugo que a rastejava sob a sua biga.  Quem de nós pode imaginar tamanha dor?

Ser atropelada, impensável! Arrastada, inconcebível!

Ela não fará parte das quatro mulheres que são mortas todos os dias, neste Brasil cristão.  Viverá sem suas pernas, a Tainara, e poderá nos trazer mais luz nesta escuridão medieval em que nos encontramos. Pelo menos nessa estatística não fará parte; para surpresa de seu algoz macabro.

Caso você esteja lendo este artigo antes da meia-noite, saiba que neste dia que termina, 4 mulheres foram mortas no país. Foi a sua média em 2024, pelo menos. Aguardem novos números para este ano.

Mas e as tentativas de homicídio?  No mesmo ano, 13.870.  Em 97% dos casos, as agressões acorreram em suas residências. Leia novamente a frase, por favor! Dê um google rápido…

Mortes variadas, claro. Tiros, facadas, agressões de toda a sorte.  Lê-se nos depoimentos de especialistas, que antes da violência física vem a verbal.  Nisso todos somos mestres em saber:  o tapa, o empurrão, o olho inchado pela brutalidade do agressor; tudo é precedido por desacato e ameaça.  Mas as coisas vão sendo levadas adiante, que por fatores variados, não fazem as mesmas mulheres revidarem.  Ou, revidam e perdem.

O seu próprio lar é transformado no pior lugar do mundo para se manter vivas!

Suporta-se muito nesta geração; de casamentos infelizes, o que não é de se espantar, ao isolamento da mulher quando o seu parceiro não a quer no trabalho fora, por exemplo. Da solidão imposta… À solidão autoritária, de um para o outro, sobretudo, quando mulheres não tem a quem recorrer e moram longe de seus familiares, ao ciúme doentio, de uma personalidade insegura, a que se transformaram os machos do ocidente.  – se não for comigo não vai com ninguém. Já ouviram isso?

O tiro fatal, a facada mortal, começou muito antes, pois é um processo contínuo de fúria, seja pela indiferença do que uma mulher vive e produz, em seus dias de abandono na sua própria casa, seja pelas ofensas silenciosas que vão se acumulando pelas paredes, quando não há uma porta para fugir de um relacionamento intoxicado e doentio. 

As mulheres perdoam muito.  Parece ser de sua natureza essa sensibilidade de perdoar e seguir em frente. 

_ Um empurrão não é nada, um grito ou um tapa… E muitas engolem.

_ Pior é sair e não ter para onde ir… Com filhos. Ouvi dia desses. É de ouvir e vomitar!

Então o agressor encontra conforto nas circunstâncias emocionais que envolvem a mulher e fica à vontade, para prosseguir a sua rotina de brutalidade, emitindo sinais, sempre abusivos, acompanhados pela relativização de uma mulher cansada, mas que não tem opções ou amparo para cair fora.

Ninguém está cuidando das mulheres! Tanto que são mortas, quantas, mesmo com medidas Judiciais ‘protetivas’.

Nem seria o caso de terem de ser cuidadas.  Bastasse a sã consciência de uma sociedade equilibrada, o que não é o caso, para entender que não há crime contra mulheres ou homens; há contra a humanidade.

Ocorre que não é assim! A partir de um simples assédio a caminho do trabalho, do preconceito que ainda há contra as que dirigem seus carros, de sua remuneração abaixo do que recebem os homens, pela mesma função exercida, há uma lista interminável de provocações e afrontas, que fazem da mulher, hoje, milhares de anos após Adão, o Ser mais vulnerável em nossa cadeia de afetos mal construídos.

O que vemos e ouvimos? Para despertos, as mulheres vêm sendo subjugadas desde o mito de Eva. Foi por ela que a maçã se tornou o motivo de tentação para um homem ‘puro’ e que, somente por ela, ele perdeu a sua divindade. Ou virgindade! Sim, a mulher é o motivo das tentações e dos embaraços pelos quais os homens sofrem.  Está escrito lá, e como está escrito sempre tem algum ensinamento que pode ser desvirtuado. Para mentes obtusas, vale o escrito! 

Para libertas, Eva foi construída sobre uma narrativa que, sem o seu contexto analisado, servirá para todo o tipo de interpretações. De beleza à violência.

Contardo Callegaris lança luz sobre esta diminuição história das mulheres, como que vindo ao mundo para trazer o mal. 

_ “Construímos uma civilização há mais de três mil anos sobre o ódio às mulheres. Os textos cristãos e gregos já colocavam a mulher como representante do mal. Demonizando-as. – É aquela a quem o demônio fala. Ela está no centro do mal e nos persegue. O ódio está no coração da nossa cultura. E a misoginia está no coração da sociedade!”(2)

Daí que não nos causa tanto espanto assim, neste feminicídio diário, que pode ser resultado de um conceito acomodado pelo inconsciente coletivo, de que a mulher é a causadora dos males que nós, homens, fracos e inseguros, somos subjugados pela sua força e beleza: a força feminina. Quanta indiferença a nossa e quanta estupidez!

Haverá uma mudança na mesa de Natal na casa de Tainara, a quem dedico este artigo. Provavelmente, estará em uma cadeira de rodas. O que não impedirá, claro, que suas filhas subam em seu colo e recebam sabe-se lá quantos abraços.

O seu assassino, porque o nome deveria ser este, uma vez que acelerou para matá-la, passará o Natal na prisão.  Mas, não se admirem se por pouco tempo mais. Leiam e saibam sobre muitos assassinos de mulheres, por esses dias, saíram caminhando pela porta da frente de delegacias.

Se não há flagrante, a injustiça triunfa!

Hoje, sexta, dia 19, vimos um monte de dinheiro dentro de um saco de lixo; mais de 400 mil na posse de um Senador. Ele não deve estar preocupado com o feminicídio no país, certamente. Nem seus colegas.

As igrejas também não estão muito. No caso da Católica, o Padre Júlio cancelado, já estará de bom tamanho. De resto, não vemos pastores ou bispos indignados, gritando contra esses massacres. 

Mas vimos as próprias mulheres procurando se defender, em uma grande passeata, dia desses.  Uns poucos homens em seu meio. Quem sabe!

Mas, e às filhas da Tainara! Como explicar a elas que esta é a civilização em que vivem? O que pensam de todos nós? Quanta vergonha em lhes falar como somos de fato!

Até quando?  

Referências:

  1. O Estado de S. Paulo, em 07 de dezembro de 2025 (Redação)
  2. Contardo Callegaris. ‘Por que a misoginia não é um acidente. Acesse: https://www.instagram.com/reels/DR0Mz-MDtjK/

Autor: Nelceu A. Zanatta. Também escreveu e publicou no site “O santo mel de cada dia”: www.neipies.com/o-santo-mel-de-cada-dia/

Edição: A. R.

1 COMENTÁRIO

  1. Infelizmente nós mulheres precisamos nos unir cada vez mais para nós defender desse machismo prepotente dos ho.ens que realmente foram sim educados para serem machistas e não aceitarem as conquistas e os direitos que as mulheres vem conquistando cada dia mais. Mas isso não lhes dá o direito de podar, tirar a vida de uma mulher. Nós mulheres temos o direito de viver e de sermos felizes vivendo livremente através dos nossos direitos e das nossas conquistas que precisamos de muita luta para chegar no patamar que estamos hoje através das nossas vitórias conjuntas conquistadas. O Homem precisa ser reeducando para aceitar as diferenças as quais o mundo apresenta cotidianamente.

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