Para humanizar a cidade, é preciso descobrir seus pontos estratégicos e redimensioná-los a serviço da pessoa humana.
A cidade tem ritmo próprio, com características específicas de relacionamento interpessoal e mecânico. A cidade é um sistema social interligado por partes. As partes são as estruturas que garantem o dinamismo da cidade. O fenômeno urbano não é apenas um aglomerado de casas e de edifícios que formam as grandes metrópoles.
Além da aparência fenomênica, a cidade comporta quatro elementos básicos, que muitas vezes são contraditórios entre si. Os quatro elementos são: os grupos humanos, os valores da cidade, os papéis sociais e a estrutura de funcionamento. O presente artigo tem a pretensão de mostrar a dinâmica de funcionamento da cidade, a partir destes quatro elementos geradores da urbanidade, numa abordagem sociológica político-cultural.
A cidade é o lugar da abundância: alimentos, água tratada, moradia, serviços e proximidade. Sendo assim, a cidade é o lugar da satisfação e do prazer. As pessoas buscam a cidade para atender suas necessidades.
A cidade comporta também dois grupos distintos: “o grupo das áreas naturais” e o “grupo das áreas funcionais”. O grupo das áreas naturais é espontâneo e não está preocupado com a estética urbana, quer habitar, ter um lugar para “fixar-se”. O grupo natural fixa-se normalmente na periferia urbana, formando os cortiços e os aglomerados de favelas. Já os grupos funcionais são planejados, residem em bairros com ruas personalizadas, numeradas e com CEP, etc.
A passagem da pobreza para a cidade é histórica. A cidade é o lugar da fixação. Por causa da diversidade de situação que enfrenta “o povo ribeirinho” não se define como povo do campo. “Os ribeirinhos” são itinerantes: ora estão no campo, ora estão na cidade.
O povo que vive nesta itinerância são os empobrecidos que no Brasil é ainda um número alarmante, sem nenhuma garantia de fixação permanente, gerando daí o êxodo rural e urbano. O êxodo forçado é fruto de uma transformação social perversa, resultado dos obstáculos econômicos e políticos. Os obstáculos econômicos são geradores do antagonismo entre cidade e campo. Este antagonismo histórico tem causado muitos conflitos, gerando daí a violência com muitos assassinatos, que se tornam um “prato cheio” para a mídia sensacionalista. Os colonos são desafiados a entregar sua colheita à cidade.
O conflito entre cidade e campo é legitimado por uma ideologia que separa o capital e o trabalho. Este antagonismo tem um significado sócio-filosófico-histórico, colocando o seguinte desafio: onde se encontra a satisfação prometida pela cidade?
A cidade se articula a partir de valores, uns de caráter genérico, e outros de caráter específico. Pode-se dizer que um valor genérico na cidade é a questão da segurança. Para haver “harmonia social” na cidade, a segurança tem que ser para todos/as. Um valor específico da cidade é o acesso da população ao transporte coletivo. O valor genérico atinge a todos/as, o valor específico atinge um determinado grupo. Para cumprir seus objetivos, os valores urbanos exigem papéis de execução. Os papéis são as estratificações, os vários serviços que a cidade comporta para o seu funcionamento: a polícia, o posto de saúde, ônibus urbano, o táxi, os rádios, os garis, etc.
A cidade não é uma organização espontânea. Ela possui uma estrutura de sustentação. Nas estruturas vemos a concentração de todos num mesmo lugar, como também a pluralidade, isto é, todos no mesmo lugar geográfico, na mesma rua, no mesmo bairro, mas muitas vezes com visões diferentes e contraditórias. A cidade se estrutura também num plano diretor, a partir de pontos estratégicos. Para humanizar a cidade, é preciso descobrir seus pontos estratégicos e redimensioná-los a serviço da pessoa humana.
O que seria uma cidade sem considerar as pessoas? www.neipies.com/o-que-seria-uma-cidade-sem-considerar-as-pessoas/
Hoje existe um fenômeno: o da formação das megalópoles. É o mundo urbano que absorve a antiga “civilização rural”. O mundo rural tradicional desaparece como realidade econômica, como ideal de vida. O tradicional é recuperado para ser visto pelos turistas.

A cidade é o ponto de concentração econômica. Como ponto de atração cultural ela possui símbolos representativos que cumprem o papel de descontração da massa urbana. Hoje aparecem algumas forças de produção centrais, entre as quais a televisão, que tem grande capacidade de formação de símbolos. A pergunta é se a televisão anima a cidade? O maior perigo é cair num pessimismo dolorido e não acreditar mais no lado lúdico da cidade.
Pensar hoje a urbanidade é perceber de perto os desafios que a cidade nos apresenta: o urbanismo, a segurança, a moradia e o trabalho. A cidade também é o símbolo da instabilidade emotiva, causando consequências desastrosas sobre a base afetiva da vida coletiva.
A metrópole como expressão significativa da realidade urbana tenderia a intensificar a agitação neurótica do indivíduo, criando-lhe uma sensação de incerteza e de irritabilidade de julgamento e de sentimentos (neutralidade afetiva). Assim, como também um forte sentido crítico com referência à esfera pública. A cidade deve tornar-se o espaço da ternura e do encontro fraterno, se quiser ser o lugar do humano.
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Autor: José André da Costa, msf. UNIFASAM – GOIÂNIA – GO. Também escreveu e publicou no site “A buzina na cidade: um sinal de ansiedade”: www.neipies.com/a-buzina-na-cidade-um-grito-de-ansiedade/
Edição: A. R.












Pensar hoje a urbanidade é perceber de perto os desafios que a cidade nos apresenta: o urbanismo, a segurança, a moradia e o trabalho. A cidade também é o símbolo da instabilidade emotiva, causando consequências desastrosas sobre a base afetiva da vida coletiva.
Autor: José André da Costa