No apagar das luzes de 2025, quero aproveitar o espaço desta coluna para mais uma vez homenagear um outro grande mestre, que fez toda a diferença na minha vida pessoal e profissional: professor Elli Benincá.
Fui seu aluno, orientando, monitor, bolsista voluntário, amigo, colega e admirador. Os anos que convivi com ele representam pra mim memórias vivas, lembranças fraternas e experiências pessoais e profissionais que me constituíram como professor-pesquisador, e que me acompanham no modo de ser docente, orientador, estudioso das questões filosóficas e dos dilemas educacionais.
Elli Benincá, na sua simplicidade acolhedora e na sua capacidade de mobilizar pessoas e instituições, nos ensinou com maestria e coragem que precisamos ousar sem perder a humildade de aprender com os outros e se coloca a serviço de um bem maior na construção de processos pedagógicos de formação cooperativa em prol de uma sociedade mais justa, digna e fraterna. Na feliz expressão de Lucídio Bianchetti, no Elli existe uma práxis benincaniana que nos inspira e que o torna um clássico regional e com o tempo se tornará um clássico cosmopolita.
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Foi oportuna a iniciativa dos colegas do PPPGEdu, liderados por Claudio Dalbosco, de constituir um grupo de amigos de Elli Benincá (colegas próximos, familiares de Elli, ex-alunos ligados ao Itepa e a UPF, dentre outros). Com isso instaurou-se um movimento de tornar vivo seu pensamento, por meio de estudos, criação de um site e de um selo editorial, a organização de um memorial dos seus textos, a realização de eventos em torno de sua obra e principalmente a produção acadêmica.
Junto com Lucídio Bianchetti, organizamos em 2024-2025 a coletânea Práxis dialógica benincaniana: memórias e experiências formativas (Fávero; Bianchetti, 2025) publicado em outubro deste ano pela editora da UPF. Na sequência faço uso de alguns recortes da apresentação da coletânea com o objetivo de divulgar este belo trabalho que será lançado no dia 20 de março de 2026 no auditório do PPGEdu precedido de uma conferência do amigo Lucídio Bianchetti para todos os interessados.

Com professor Lucídio Bianchetti e professora Maria Isabel da Cunha.
Por meio de depoimentos, relatos de experiências e reflexões, o conjunto de autores/as que compõe os capítulos da coletânea visam contribuir para ressaltar o quanto a vida e a obra do Elli continuam repercutindo, influenciando, desafiando as novas gerações que estão se formando e dedicando-se ao quefazer educacional e de engajamento social. Pesquisas empíricas, adensamento teórico-metodológico, atuações engajadas, relatos e reflexões evidenciam o poder heurístico da práxis dialógica benincaniana.
Para os que conviveram com Elli Benincá, a coletânea (de acesso gratuito pelo site da editora da UPF ou no link que se encontra no final do texto) torna-se uma forma de rememorar os ensinamentos e vivências deste grande mestre que soube como poucos articular, de forma coerente e produtiva, um intenso exercício intelectual com uma prática pedagógica/pastoral engajada e comprometida; para aqueles/as que não tiveram o privilégio de conhece-lo ou de desfrutar de sua convivência, por meio dos textos que compõe a coletânea poderão apreender e testemunhar seu legado na direção de torná-lo um clássico regional que soube articular teoria e prática em sua atividade intelectual e nas suas ações pedagógica.
O primeiro texto resulta de depoimento/entrevista que Eldon Henrique Mühl nos concedeu, especialmente para esta coletânea. Ao invés de seguirmos o roteiro tradicional de entrevistas, com perguntas e respostas, enviamos um roteiro de questões que foram abordadas pelo prof. Eldon. Em seu depoimento, o entrevistado aborda aspectos relacionados à sua formação e sua atuação profissional por mais de 45 anos na UPF. A maior parte do depoimento, contudo, é dedicada a questões relacionadas à sua formação e atuação profissional em estreita convivência com Elli Benincá.
No texto Experiência na formação de pedagogia curso de férias na UPF – o legado de Elli Benincá no modo de fazer a docência, Sueli Salva reflete sobre a oportunidade formativa que transformou radicalmente seu percurso de vida intelectual, cultural e pessoal. A autora resgata e reflete sobre seu ingresso no Curso de Férias, na Faed/UPF, a partir do ano de 1981. Destaca as aprendizagens decorrentes da presença do Padre e Professor Elli Benincá, na sua atuação no ensino, na pesquisa e na extensão, bem como no exercício constante de escrita, seja de forma mais espontânea em momentos de registros de eventos, fatos, acontecimentos, vivências, seja como exercício de pensamento. São narrativas de experiência e de existência possíveis, construídas por uma mulher professora, decorrente da formação e influência do Mestre Elli Benincá.
Em Lembranças do curso de Pedagogia em Regime de Férias da UPF: narrativas como experiência de reflexão/autoformação, Neusa M. Roveda Stimamiglio aborda o curso de Pedagogia – Séries Iniciais da UPF, na década de 1980, considerando que este foi um divisor de águas em sua vida pessoal e profissional, possibilitando-lhe uma reflexão ampla sobre os aspectos sociopolíticos e econômico-culturais envolvidos na Educação.
Dentro deste projeto coletivo que registra as variadas experiências e trajetórias de profissionais que estiveram em contato com o Professor Elli Benincá, nos mais diversos espaços de formação e atuação, rememora as lembranças do Curso, focando particularmente a presença, influência e práxis dialógica benincaniana, que denotam a contribuição do Elli na sua vida pessoal e profissional e na sua condição de pesquisadora. Reforça também a importância do resgate da memória e de seu registro, por meio da escrita, como processo de reflexão e autoformação.

Com professor Angelo e Padre Elli.
Com Lições benincanianas ancoradas na práxis dialógica: Um antídoto à pedagogia da constrição, Lucídio Bianchetti destaca dois aspectos constitutivos da práxis dialógica benincaniana: a sala de aula como um espaço sagrado e a escrita como estratégia qualificada para a instauração dessa práxis. Particularmente este último aspecto ganha uma importante dimensão em um momento em que predominam escritas telegráficas, superficiais, fugazes, via meios digitais, constituindo-se em uma “pedagogia da constrição”, em flagrante oposição à pedagogia proposta e exercitada pelo Elli. O texto resulta de sua intervenção no Seminário organizado pelo Núcleo de Pesquisas em Filosofia e Educação (NUPEFE) do PPGEdu/UPF/RS, em 30 de abril de 2021, como parte de atividade voltada ao resgate da “Herança pastoral e pedagógica” do Elli Benincá. Na retomada do texto foi mantido o tom coloquial, de exposição e foram agregadas algumas notas e referências.
Angela Trombini Scartezini com o texto: A memória de aula como exercício formativo e práxis pedagógica, resultante de sua dissertação de mestrado, parte do pressuposto de que existe uma grande diferença entre aprender e estudar, reflete sobre os exercícios formativos da práxis dialógica benincaniana enquanto forma de vida, tendo a figura do mestre/professor entendido como um estudioso entre estudantes.
A questão central está em pensar como podemos reivindicar novamente a escrita da memória como exercício autoformativo e fonte de pesquisa em um contexto dominado pelo discurso da aprendizagem com predomínio da tecnologia. A pesquisa realizada indicou que os exercícios formativos da práxis dialógica benincaniana – a escuta, o diálogo e a escrita da memória de aula – tornam-se um importante antídoto formativo e pedagógico, constituindo-se em um permanente desafio a ser enfrentado na educação, uma vez que os fatores mobilizadores da ação pedagógica e o destino da educação na sociedade atual estão em jogo.
No ensaio Palavra, diálogo e formação humana: por uma pedagogia da humildade dialógica, Claudio Almir Dalbosco, Elaine Hanel, Elcio Alcione Cordeiro e Rodinei Balbinot se desafiam a realizar “uma viagem através da palavra”, colocando-se a caminho com alguns viajantes já experimentados, quais sejam, Agostinho (354 – 430), Fiori (1914 – 1985), Freire (1921 – 1997) e Benincá (1936 – 2020), tendo por norte investigativo a seguinte indagação: Que caminhos para a formação humana essa viagem nos fará ver em uma paisagem já agredida pela mercantilização (financeirização) da educação e acidentada pelo retorno da barbárie disfarçada de civilização? A hipótese dos autores é que esses clássicos viajam juntos, através da palavra, e que o que se experimenta durante o percurso, num processo paciente do movimento dialético da escuta-pergunta-resposta-pergunta, é uma pedagogia da humildade dialógica.
Dario Fiorentini, com seu texto Reverberações da Pedagogia Benincaniana na problematização e investigação colaborativa entre universidade & escola explicita contribuições e reverberações da pedagogia benincaniana em sua trajetória profissional e científica, tendo como foco central de estudo o professor, seu trabalho e sua aprendizagem profissional em comunidades investigativas e colaborativas entre universidade e escola. Isso é feito por meio da análise narrativa de experiências de aprendizagem, de investigação e de teorização do próprio autor em dialógico com alguns estudos internacionais que se aproximam da práxis benincaniana. Pretende, assim, contribuir para o debate e a compreensão da episteme e da metodologia da práxis benincaniana, ampliando e agregando outras possibilidades de exploração, significação e investigação acerca da formação do professor e de sua prática docente sob uma perspectiva crítica e emancipatória.
No texto A Práxis dialógica benincaniana: da teoria e da prática pedagógica, Jerônimo Sartori ressalta que a práxis na perspectiva benincaniana fundamenta-se na ação educativa dialógica, a qual se estabelece na relação entre a teoria e a prática pedagógica.
O autor ressalta que a práxis abordada tem suas raízes no trabalho de docente e de pesquisador de Benincá, que em sua trajetória no campo da educação empenhou esforços para entender qual a orientação teórica que embasa a prática pedagógica dos professores. A teoria benincaniana olhada a partir da escola e da sala de aula emerge de um ato político e ético, compromissado com a observação, o registro e a reflexão crítica acerca de práticas pedagógicas de professores e de seus posicionamentos teórico-metodológicos, bem como das concepções que se entrecruzam no ato de ensinar e de aprender, e dos modos de teorizar a própria prática. Ressalta o autor que a metodologia de estudos adotada e orientada por Benincá no grupo de pesquisa: Teoria e prática pedagógica, permitiu-lhe adentrar em diferentes possibilidades para produzir conhecimentos, tomando a sala de aula como “laboratório experimental” para a potencializar o diálogo em prol da teorização da própria prática pedagógica.
No texto A práxis dialógica benincaniana na construção do Projeto Político Pedagógico (PPP) na Escola Menino Jesus, Altair Alberto Fávero, Claudia Toldo Oudeste e Elci Favaretto tematizam e rememoram a presença da práxis dialógica benincaniana na construção do Projeto Político Pedagógico (1994/1995) na Escola Notre Dame Menino Jesus/Passo Fundo. O objetivo do texto é mostrar de que forma a assessoria realizada pelo professor Elli Benincá, na elaboração do referido Projeto, evidencia os princípios de uma práxis dialógica. Para a elaboração do texto, além dos escritos de Benincá, os autores utilizaram os registros dos integrantes da equipe pedagógica que participou do referido processo e as recordações dos participantes. Na percepção dos autores, nas ações de assessoria prestadas pelo professor Benincá, materializam-se os seguintes princípios dialógicos: escuta, registro, reflexão, estudo compartilhado, trabalho coletivo, tempo de convivência, sentimento de pertencimento, compromisso e confiança na potencialidade do grupo.
Partindo da questão: Por que eles (elas) não falam? Proposições pedagógicas no enfrentamento da cultura do silêncio Elisa Mainardi e de Eldon Henrique Mühl reexaminam uma experiência vivenciada em meados dos anos de 1990, por ocasião do acompanhamento de Elli Benincá a um projeto assessorado pelo Centro Regional de Educação (CRE) da UPF em uma instituição de assistência social, envolvendo gestores, funcionários e monitores que atendiam crianças e adolescentes no contraturno do período escolar. Isso ocorria em núcleos localizados em diversos bairros periféricos da cidade de Passo Fundo, com o intuito de promover a discussão e a elaboração do Plano Político Pedagógico, de forma participativa e colaborativa, tendo por referência os estudos de Benincá. A proposição do projeto foi uma iniciativa oriunda do estágio supervisionado do Curso de Pedagogia. Os autores buscam destacar algumas nuances do processo vivenciado, especialmente as contribuições de Elli Benincá na compreensão e reflexão acerca dos conflitos pedagógicos e encaminhamentos metodológicos adotados no decorrer deste processo.
Com o texto Docência e formação humana: sobre formar(-se) na práxis pedagógica, Elcio Cordeiro, Rudinei Balbinot e Altair Alberto Fávero analisam a docência universitária e todo o complexo de sujeitos como personagens vivas, formando-se humana e profissionalmente na busca do bem comum, indicando que a área da educação se amplia na trama da organização social e política.
Para os autores, é possível analisar a docência universitária como espaço de estudo e projetar nesta arquitetônica, vias que possibilitam, na práxis pedagógica, a metamorfose da educação universitária e a formação humana. Nesse sentido, trabalham com a hipótese de que a práxis pedagógica universitária, antes de ser uma ação de capacitação e treino profissional é um espaço-tempo de autorreflexão e autoformação, onde se forja tanto na vida como na profissão, em diálogo com a tradição. Refletir a própria prática é a virada de chave para um docente comprometido com o quefazer formativo e de que existem muitas maneiras de aperfeiçoar a práxis docente, uma delas, pode ser a práxis dialógica, como propõe o pedagogo, filósofo, teólogo e professor Elli Benincá.
Em Trajetórias formativas e aprendizagem docente: o transformador encontro entre professoras e um mestre, Flávia Eloisa Caimi e Rosane Rigo de Marco revisitam a trajetória de formação docente de um grupo de professoras da educação básica e do ensino superior que, no diálogo amoroso e rigoroso entre si e com o Professor Elli Benincá, tomaram o cotidiano escolar/acadêmico como ponto de partida da prática pedagógica, transitando por diferentes e necessários campos teóricos e metodológicos que lhes facultassem um olhar reflexivo e um fazer humanizador/transformador da docência.
O capítulo intitulado Pesquisar e formar-se colaborativamente: pistas para desenvolvimento de uma formação contínua, José Jackson Reis dos Santos e Lorita Maria Weschenfelder, refletem sobre a construção e o desenvolvimento de processos formacionais, tendo como principal referência a abordagem colaborativa, mobilizada, sobretudo, com base no pensamento de Elli Benincá (1936-2020) e Paulo Freire (1921-1997). Santos e Weschenfelder abordam a colaboração entendida como práxis pedagógica e argumentam a favor de uma formação contínua implicada com as realidades sociais e educacionais, numa perspectiva crítica e emancipatória. Convocam os(as) leitores(as) a um processo de reconstrução dos modos de pensar-fazer pesquisa científica, problematizando e situando caminhos outros na construção do conhecimento.
Que em 2026 e nas próximas décadas possamos avançar, com coragem e determinação, na continuidade do legado de Elli Benincá, este grande mestre inspirador que nos presenteou com uma forma peculiar de tratar a formação humanizadora por meio da pedagogia da práxis dialógica benincania. Reforço o convite do lançamento da obra no dia 20 de março de 2026, às 14 horas, de forma presencial e transmitido pelo canal do youtube do Gepes, no auditório do PPGEdu da UPF.
Referências:
FÁVERO, Altair Alberto; BIANCHETTI, Lucídio. Práxis dialógica benincaniana: memórias e experiências formativas. Passo Fundo: Editora UPF, 2025. Link de acesso gratuito: https://www.researchgate.net/publication/395830499_Praxis_dialogica_benincaniana_memorias_e_experiencias_formativas
Autor: Altair Alberto Fávero – altairfavero@gmail.com Curso de Filosofia, Mestrado e Doutorado da UPF. Também escreveu e publicou no site “Razões e desafios para não desistir da docência”: www.neipies.com/razoes-e-desafios-para-nao-desistir-da-docencia/
Edição: A. R.











O padre Elli sempre foi um homem muito sábio nas suas palavras e nas suas ações.