Temos visto nos consultórios de psicologia e psicanálise, muitas crianças falarem dos seus amiguinhos imaginários como se eles fossem os únicos heróis verdadeiros aos quais podem recorrer nas horas difíceis, deixando de lado os pais, professores e responsáveis mais próximos, porque alegam que são esquecidas e largadas dentro de casa com seus brinquedos ou na escola com as diversas atividades escolares.
Ah, o mundo da criança! Este mundo tão belo e tão incompreendido pelos adultos. Talvez cada criança seja como o menino da peneira do nosso querido poeta Manoel de Barros que gostava dos vazios, pois eles preenchem as nossas dúvidas e nos dão a sensação de que não estamos sozinhos e de que somos livres para decidirmos o que desejamos.
Os pais, responsáveis e professores não conseguem compreender as situações gatilhos que despertam o medo, a angústia e a sensação de que um monstro vai entrar pela janela, de repente, e fazer mal à criança assustada.
Tudo o que a sua criança mais precisa ouvir de você é “Calma! Você não está sozinha!”, mas esta pequena frase é tão difícil de ser dita pelos adultos que costumam chamar as crianças de molengas ou coisa parecida como se os seus medos não fossem coisas importantes. Costumamos ouvir os pais sorrirem dos medos das suas crianças e em voz alta dizerem que já estão grandinhas para terem medo do escuro ou do bicho papão, quando na verdade, até nós sentimos medo várias vezes ao dia.

A sua criança precisa saber que ela não está sozinha em nada que for necessário fazer, principalmente nas tarefas que causam grandes ansiedades, onde elas vão competir com outras crianças, onde elas vão precisar ser corajosas e enfrentarem seus medos, pois assim como nós, as crianças também têm seus monstros e sentem que coisas horríveis podem acontecer se forem deixadas sozinhas. Cabe a nós mostrar para elas que não estarão sozinhas nunca.
E aqui se faz necessária a importância da presença física nas reuniões da escola, nos eventos culturais, no esporte e lazer onde a criança precisar estar com os seus amiguinhos, principalmente se esta for a sua primeira vez e se tiver a presença de estranhos. Competições deixam qualquer um assustado, mas olhar na arquibancada e vê um sorriso com alguém vibrando por a gente não tem coisa melhor! É assim que a sua criança vai se sentir, ou seja, feliz!
Tire um tempinho para se fazer presente nas atividades da sua criança, pois ela crescerá mais saudável e preparada para vencer os obstáculos do mundo sabendo que terá sempre um abraço, uma palavra de conforto, um sorriso, um olhar…, qualquer coisa em que poderá se confortar quando sentir que seu pequeno mundo está sendo invadido por criaturas que não foram convidadas por ela.
O mundo da criança é como os vazios. E nos vazios, segundo Sartre com o seu existencialismo, nos sentimos livres.
Que o vazio de cada criança possa ser livre para poder brincar, pular, correr, cantar, dançar e com coisas lindas os preenchendo, pois a verdadeira liberdade não está nos gritos, nos castigos, no escuro, mas no carinho, afeto e cuidado.
É preciso saber amar a criança respeitando a sua subjetividade. Não deixá-la sozinha no escuro, não obrigá-la a tomar banho, não obrigá-la a comer, sem dar explicações, pois essa liberdade precisa de sempre saber o motivo pelo qual está sendo podada.
Não deixe a sua criança se sentir sozinha nunca.
Tenha cuidado quando for falar algo para ela, saiba usar as palavras para não causarem traumas. Fique com a criança até que ela se sinta confortável sozinha ou na presença de outras pessoas. O medo pode trazer sequelas para a vida adulta assim como a solidão. Sim, tem crianças que se sentem sozinhas!

A solidão na infância é um pouco diferente da dos adultos. Ela acontece logo quando a criança se vê sozinha e sem forças para fazer algo que gostaria. Ela não espera um tempinho para sentir falta. A criança depende de nós, adultos conscientes das nossas responsabilidades. Sejamos mais presença nas horas de silêncios, pois é nestes momentos que elas mais precisam conversar.
Temos visto nos consultórios de psicologia e psicanálise, muitas crianças falarem dos seus amiguinhos imaginários como se eles fossem os únicos heróis verdadeiros aos quais podem recorrer nas horas difíceis, deixando de lado os pais, professores e responsáveis mais próximos, porque alegam que são esquecidas e largadas dentro de casa com seus brinquedos ou na escola com as diversas atividades escolares.
Se você tem uma criança que gosta mais dos vazios do que das coisas cheias, procure dar mais atenção a estes vazios, pois vai depender do seu jeito de cuidar da criança como ela poderá preenchê-lo.
Você sabe que a solidão dói, então não deixe a sua criança senti-la. Fique com ela mesmo quando for difícil para você. Abra uma exceção. Ela está crescendo e logo sairá dos seus cuidados. Logo o mundo vai lhe mostrar grandes desafios e a sua presença não será tão marcante o quanto agora.
A pior solidão é aquela onde há duas ou mais pessoas e ninguém fala um com o outro, deixando a criança esquecida no quarto de dormir com uma tela azul à sua frente. Experimente ser companhia para a sua criança. Tire alguns minutos do dia para ficar juntinho dela.
Autora: Rosângela Trajano. Também escreveu e publicou no site “A criança do século XXI no divã”: www.neipies.com/a-crianca-do-seculo-xxi-no-diva-psicanalitico/
Edição: A. R.












É isso mesmo Danda, muitas vezes uma palavra consegue reverter o mal que o gatilho despertou. Parabéns