Quando o urbano for igual ao afetivo-humano não haverá mais a necessidade de gritar com o outro para sair da frente porque está estorvando a locomoção. Urge humanizar as praças das cidades para que cumpram seu desígnio do encontro gratuito e gerar afinidades.
A cidade é o lugar da proximidade e das mil e umas procuras. É também o lugar da satisfação e das facilidades, pois tudo está ao alcance das mãos e dos olhos, isto é, no mesmo local geográfico.
A busca frenética que move a todos para obter tudo o que se encontra na cidade faz as pessoas acelerarem os passos, com o intuito de não perder a vez no desejo de adquirir o produto almejado. A procura pelos serviços oferecidos na cidade impele as pessoas para o aceleramento no atendimento de suas demandas, desde as redes de mercados até os serviços burocráticos para organizar a vida jurídica e a normatividade social das convivências.
A cidade é um espaço planejado e construído para atender as necessidades das pessoas. Portanto, a cidade é um aglomerado de demandas onde são transformados em serviços e estão à pronta entrega, na relação de oferta e procura.
É nesta correria, para dar conta das várias demandas impostas às pessoas que fazem o trânsito ser um espaço de disputa de lugar. E quando o trânsito não flui com a velocidade exigida, logo se ouve o grito de ansiedade e quase desesperado das buzinas. Esta gritaria das buzinas nas ruas da cidade é causa dos nervosismos que muitas vezes acaba em violência, ceifando a vida de muitas pessoas que morrem prematuramente, única e exclusivamente por falta de paciência no trânsito.
A pedagogia urbana nos ensina: “que é melhor perder um minuto na vida do que perder a vida em um minuto”.
A lei da física denota uma verdade cristalina qual seja, “dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar e o mesmo espaço ao mesmo tempo”. A cidade, sendo o espaço do aglomeramento de muitas pessoas, exige que essa lei da física seja cumprida à risca pelos transeuntes das metrópoles para evitar as trompadas físicas. Há motoristas que pensam que o outro condutor que está à sua frente é um estorvo no trânsito. Não há ruas para um carro só, mas somente uma rua para muitos carros e outros meios de transportes que necessitam do mesmo espaço para trafegar.
O tráfego na cidade não é feito só para as máquinas motorizadas. Há os milhares de pedestres, motociclistas, bicicleteiros, carroceiros e alhures que necessitam e têm o mesmo direito de trafegar nas ruas das cidades. O problema maior é que muitos motoristas acham que, pelo fato de possuírem um carro mais potente e veloz tem a preferência no trânsito. É aqui que nasce a maior parte dos conflitos e até as desavenças por causa da falta de paciência para esperar os ritmos de cada transeunte.
A buzina é uma invenção maravilhosa, com a finalidade primeira de alertar e de “avisar” aos demais que estão motorizados que próximo dali há outra máquina. A buzina só tem a finalidade de dar o alerta e nunca deveria ser usada para agredir e “xingar” os outros no trânsito. Quando a buzina passa a ser a extensão do nervosismo dos condutores de veículos, o espaço urbano se transforma numa agitação neurótica insuportável.
O interessante é que o conceito urbano significa exatamente o civilizado. E a cidade vem da palavra “pólis” que significa a capacidade de viver juntos na mesma área geográfica.
Por isso a cidade é o lugar da proximidade, da pluralidade das várias iniciativas. Mas a cidade tem uma regra comum: a convivência, o respeito e a solidariedade com o próximo.

A cidade gradativamente foi perdendo esta característica original. Muitas vezes o que se percebe na cidade são os medos e a impaciência generalizados. A proximidade ao invés de criar laços de confiança, o que se percebe nas “pessoas urbanizadas” é o medo de se misturar com o diferente. Este medo do outro faz com que se mude a cada dia a estrutura das cidades, com fabricação da parafernália de aparelhos de “segurança” de toda a espécie. Essa segurança aparece nas construções de muros altos, cercas elétricas, alarmes com infravermelhos monitorados por controles remotos.
O “grito” das buzinas é o resultado deste medo de se misturar ou de “perder a vez do lugar”. Assim, nossos centros urbanos não têm grupos afins, mas multidão que se desloca de um local para outro sem levar em conta o que está ao seu lado. O negócio é ir e não se encontrar. O “encontro atrapalha” o movimento urbano. Por isso quanto mais se corre na cidade, mais ela se torna dinâmica, mesmo que para isso tenhamos que flagelar o corpo, no corre-corre. Para constatar esta realidade basta observar os rostos das pessoas, sejam elas motoristas ou pedestres, normalmente estão com o corpo rígido e com o semblante contraído como alguém que está assustado com um perigo iminente.
A cidade sempre foi o lugar de se fixar residência. A saída do campo para cidade e vice versa, é uma constante trajetória da humanidade. O ser humano sempre está em busca de se fixar, isto é, habitar para conviver. Se a busca primordial do ser humano é a convivência social, a cidade nasce como uma organização humana para responder a este anseio de solidariedade orgânica e não mecânica.
Quando o urbano for igual ao afetivo-humano não haverá mais a necessidade de gritar com o outro para sair da frente porque está estorvando a locomoção. Urge humanizar as praças das cidades para que cumpram seu desígnio do encontro gratuito e gerar afinidades. É por isso que a nervura política se concentra na cidade como mediação para organizar a urbanidade em convivência fraterna.
A cidade está perdendo esta dimensão e com isso não está mais cumprindo a sua missão de gerar a convivência pública. A maioria das cidades deixou de ser civilizada e se transformou num acampamento urbano, com intrigas e rusgas entre os vários grupos.
Urge criar uma nova mentalidade urbana a fim de que haja a tranquilidade dos habitantes citadinos. A tarefa mais urgente é criar uma boa convivência entre os automóveis e o ser humano com o objetivo de transformar nossas ruas e avenidas em lugar de jardim e de harmonia. Aí, sim, a buzina vai ser um sinal de cumprimento e atenção a quem passa do lado.
O adágio popular ensina: “a pressa é inimiga da perfeição”. Todos respeitando as regras do trânsito sem o “grito da buzina” tornaremos o urbano espaço da civilidade e a cidade o lugar da vida boa.
Autor: José André da Costa. Também escreveu e publicou no site “Ansiedade: a palavra síntese eleita em 2024”: www.neipies.com/ansiedade-a-palavra-sintese-eleita-de-2024/
Edição: A. R.











